Painel azulejar concebido por António Passão, em 2006, evocativo da "Praça de Homens" que existiu na aldeia (hoje vila) do Carregado, concelho de Alenquer, no cruzamento da Rua Vaz Monteiro (EN 1) com a Rua Pinto Barreiro (EN 3). O painel, aplicado numa placa vertical de granito assente em duas bases de betão, situa-se no canto noroeste, ajardinado, do referido cruzamento.
Fotografia retirada do blogue "Alenquer - Tradição, História e Património".
[Para ver o painel azulejar em ecrã inteiro clicar aqui]
PRAÇA DE JORNA
I
Entre os camponeses de certa região, designa-se por «praça» o ajuntamento dos assalariados rurais em locais certos e dia fixado, com o fim de contratarem trabalho, ou – como usam dizer – tomarem patrão.
A «praça de trabalho» ou «praça de jorna» é pois um mercado de mão-de-obra, a que vão assalariados e proprietários rurais (ou os seus delegados: os capatazes), e em que os primeiros, como vendedores, oferecem a sua força de trabalho, e os segundos, como compradores, oferecem o salário ou jorna, que é a paga de um dia de trabalho (jornal).
Daí a designação de «praça de jorna» ou «praça de trabalho», mais apropriada do que «praça de homens» como já se tem chamado, visto que não são propriamente os homens o que está à venda no mercado, mas sim a sua força de trabalho, isto é, o conjunto das suas faculdades físicas e intelectuais utilizadas na produção.
Convém insistir neste ponto, porquanto aquela designação corresponde a uma corrente de opinião acerca das «praças», ou seja, de que elas são ainda restos do antigo mercado de escravos e, portanto, desumanas e inteiramente condenáveis. Em certo artigo doutrinário escreveu-se que «as praças de homens são, na realidade, mercados medievais da força de trabalho».
A verdade é que, antigamente, o homem do campo não era livre de dispor da sua força de trabalho: era escravo ou servo da gleba e, como tal, todo ele considerado uma ferramenta ou simples objecto de uso, que o senhor podia vender ou trocar ou, quando escravo, destruir. Os antigos Romanos dividiam mesmo as forças de produção em três categorias: os meios de trabalho mudos (os objectos), os meios de trabalho semi-mudos (o gado), e os meios de trabalho falantes (os escravos). Ao passo que, modernamente, dentro da forma capitalista, o que constitui a mercadoria é a força de trabalho do homem, e não o próprio homem. Este, até certo ponto, é livre de escolher ou mudar de patrão ou ofício. Portanto, se no mercado medieval o homem passava das mãos de um senhor às de outro senhor, de um vendedor a um comprador, na «praça» actual o trabalhador rural vende a sua força de trabalho ao lavrador, por um tempo determinado (dia ou semana) e recebe em troca um valor: o salário.
Quer isto dizer que o trabalhador recebe o justo valor do seu trabalho? De modo nenhum. Quer dizer também que o trabalhador, tendo deixado de ser escravo ou servo, é agora inteiramente livre? De modo nenhum. No sistema capitalista de produção, os assalariados estão dependentes da classe que possui os meios de produção (proprietários da terra e das máquinas, etc.), são obrigados, para não morrerem de fome, a vender as suas faculdades físicas e intelectuais. E nesse «negócio» forçado, os patrões aumentam o seu capital, enquanto os assalariados desgastam a sua única riqueza: a força de trabalho.
SOEIRO PEREIRA GOMES, Agosto de 1946 (in "Praça de Jorna", Lisboa: Organização dos Técnicos Agrícolas da Direcção da Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português, 1976) [texto integral no blogue "Voar Fora da Asa"]
Embora as "praças de jorna" não fossem exclusivas do mundo rural, pois também existiram nas cidades para recrutamento de trabalhadores eventuais, sobretudo para cargas e descargas (em Lisboa, uma delas realizava-se no Cais do Sodré, como mostra uma fotografia tirada em 1912), foi nas lezírias do Ribatejo e nos latifúndios do Alentejo que tiveram maior expressão. A progressiva mecanização da agricultura, depois da Segunda Guerra Mundial, com a consequente menor necessidade de mão-de-obra braçal para os árduos trabalhos da lavoura, ditou o gradual desaparecimento das "praças de jorna", tendo as que subsistiram até ao 25 de Abril de 1974 findado pouco depois.
Também conhecidas, popularmente, como "praças de homens", embora a expressão não seja adequada, como explicou Soeiro Pereira Gomes, as "praças de jorna" não deixaram gratas lembranças naqueles que, por necessidade de sustento e sem que tivessem alternativa (a não ser o êxodo para as cinturas industriais de Lisboa e de Setúbal ou a emigração para a estranja), lá iam oferecer a sua força de trabalho a troco de uma magra retribuição. Isso testemunhou o poeta e encenador alentejano Vicente Rodrigues (Alcáçovas, 1910 - Torrão, 1982) em versos que o grupo eborense Modas à Margem do Tempo musicou e gravou, no álbum "Cantarolices" (Associ'Arte, 2003), sob o título "Meus Senhores". É, pois, destacando esta tocante moda, cantada sobre um primoroso arranjo instrumental, que assinalamos o Dia do Trabalhador, honrando a memória dos inúmeros trabalhadores braçais do passado e solidarizando-nos com os do presente que, embora já não sendo contratados em "praças de jorna", executam tarefas muito duras para o corpo, não raras vezes pondo também à prova a saúde mental, mas socialmente desconsideradas e, como tal, mal remuneradas – porém, imprescindíveis ao normal e regular funcionamento das sociedades modernas.
Recordamo-nos perfeitamente de ter ouvido, certa vez, pela mão do Sr. Armando Carvalhêda, na sua memorável rubrica "Cantos da Casa" [>> RTP-Play], esta moda "Meus Senhores". Nunca mais lográmos escutá-la na rádio. E é um exemplo apenas de entre tantos outros e bons que constituem o vasto repertório recriado ou criado de raiz por meritórios intérpretes e grupos portugueses que laboram (ou laboraram) no campo da música tradicional (ou de matriz tradicional), que não é objecto de cabal e conveniente divulgação na Antena 1. Vejamos: temos o espaço "A Árvore da Música" [>> RTP-Play], da responsabilidade de Ana Sofia Carvalhêda, nas matinas de domingo (após o noticiário das 07h:00), em substituição do programa "Cantos da Casa (Fim-de-Semana)" [>> RTP-Play], que se consagra à divulgação de novas edições discográficas. Igualmente focado em discos recentes é de referir o também dominical "Vozes da Lusofonia" [>> RTP-Play], de Edgar Canelas, que não se restringindo à música (de matriz) tradicional lhe dá guarida, de vez em quando. E de gravações menos recentes, em que espaço da grelha se pode ouvir algo? Somente, e ainda assim escassamente e sem carácter regular, no programa "Alma Lusa" [>> RTP-Play], da autoria de Edgar Canelas, que vai para o ar depois do noticiário da meia-noite de domingo terminando às 02h:00 da madrugada de segunda-feira (um dia de trabalho). Quer dizer: a música tradicional foi relegada para as margens, escapando assim ao auditório menos madrugador ou menos noctívago. Não é uma situação com a qual se possa contemporizar porque uma rádio que vive do dinheiro dos ouvintes (via contribuição do audiovisual) jamais deverá marginalizar o património musical mais genuíno e identitário do seu país. Caso contrário, torna-se legítimo questionar o financiamento público, sendo de evitar, a todo o custo, que tenha de se chegar aí. Importa, portanto, que se tomem as medidas necessárias que passam, obrigatoriamente, pela inclusão na 'playlist' de música tradicional portuguesa, tornando-a assim audível à generalidade do auditório, e pela criação de, pelo menos, uma rubrica em que se faça o enquadramento circunstanciado do espécime a apresentar e do respectivo intérprete, em moldes idênticos ao que fazia o emérito realizador Armando Carvalhêda.
Meus Senhores
Letra: Vicente Rodrigues (1910-1982)
Música: Modas à Margem do Tempo
Intérprete: Modas à Margem do Tempo* (in CD "Cantarolices", Associ'Arte, 2003)
[instrumental]
[Moda:]
Meus senhores, eu venho à praça | bis
Este meu corpo oferecer, |
Este meu corpo-carcaça | bis
De se comprar e vender! |
De se comprar e vender | bis
Por bem se negociar, |
No negócio de render | bis
Sem ter nele nada a ganhar... |
[instrumental]
[Cantiga:]
É tempo de se ceifar | bis
Trigos, cevadas e fenos... |
Quem dá mais pelo meu suar? | bis
Quem dá mais ou quem dá menos? |
[instrumental]
* Modas à Margem do Tempo:
Celina da Piedade – acordeão e voz
Cláudio Trindade – reco-reco, pauzinhos de cuba, caixa chinesa, cântaros, caixa e sementes, lata de areia, serapilheira com vassouras, pauzinhos, pau-de-chuva, adufe, ferrinho, bombo e voz
José Melo – guitarra semi-acústica e voz
Susana Castro Santos – violoncelo e voz
Tolentino Cabo – guitarra clássica e voz
Capa do opúsculo "Praça de Jorna", de Soeiro Pereira Gomes (Lisboa: Organização dos Técnicos Agrícolas da Direcção da Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português, 1976)
Ilustração – Álvaro Cunhal
Capa do CD "Cantarolices", do grupo Modas à Margem do Tempo (Associ'Arte, 2003)
Fotografia – António Carrapato
Grafismo – Francisco Bilou
Execução de figuras de barro – Oficina da Terra (Évora)
Manuel Freire em finais da década de 1960 (fotografia publicada na capa da revista "Mundo da Canção" N.º 8, Julho de 1970)
Antes de Manuel Freire se dar a conhecer ao grande público actuando em duas edições do programa televisivo (de grande audiência) "Zip-Zip", a segunda delas coincidindo com a última do próprio programa, a 29 de Dezembro de 1969, na qual apresentou a belíssima "Pedra Filosofal", que não tardou a tornar-se o seu 'cartão-de-visita', já havia publicado, no ano anterior, dois discos em formato EP – "Manuel Freire canta Manuel Freire" e "Trovas Trovas Trovas" – ambos sob o selo Tagus, propriedade do maestro Jorge Costa Pinto. A segunda daquelas edições seria apreendida pela PIDE por conter uma canção, "O Sangue Não Dá Flor", que tinha (tem) uma mensagem explicitamente antimilitarista cujos destinatários eram, como facilmente se depreendia naquele contexto histórico, os soldados portugueses que nas matas africanas derramavam o seu sangue combatendo numa guerra sem sentido: «Poisa a espingarda, irmão/ que o sangue não dá flor!/ Para amanhã ser melhor/ não podemos perder amor.» [terceira estrofe / áudio integral >> blogue "Regresso ao Passado"]. Sobre o primeiro EP não caiu o anátema da proibição, embora a canção "Livre" não fosse inócua para um regime que estava longe de prezar a liberdade e o pensamento sem peias. O facto de os dois primeiros versos («Não há machado que corte/ a raiz ao pensamento») serem de origem popular talvez tenha demovido os censores de interditarem a canção. Não sabemos... Certo, certo é que o mesmíssimo poema com música de Fernando Lopes-Graça, juntamente com as demais "Canções Heróicas", teve sorte diferente: expressamente proibida a edição fonográfica, assim como a apresentação em espectáculos. Ora, e a menos que Manuel Freire tivesse ouvido a canção de Lopes-Graça em algum sarau privado – o que não aconteceu, conforme afirmou ao jornalista Nuno Pacheco, por ocasião do 50.º aniversário da publicação do seu disco de estreia («Atrevi-me a musicar um poema do Carlos de Oliveira já musicado pelo Fernando Lopes-Graça. Mas não sabia, se soubesse não me tinha atrevido. Foi a primeira oportunidade de gravar as minhas coisinhas.», in "Público", 17.11.2018) – o conhecimento que tomou do texto só podia ser pela leitura, provavelmente da antologia "Poesias", de Carlos de Oliveira, publicada pela Portugália Editora, em 1962, no âmbito da colecção "Poetas de Hoje" (a primeira aparição em volume dera-se em 1950, no livro "Terra de Harmonia", com chancela da editora Centro Bibliográfico). E ainda bem que Manuel Freire se atreveu a transpor o poema "Livre" para canção porque, além de dar uma pérola à música popular portuguesa, ela teve o bendito condão de tornar-se uma das mais emblemáticas do seu repertório, quiçá só superada pela famosíssima "Pedra Filosofal" [>> YouTube]. Palpitamos que antes da Revolução dos Cravos a canção "Livre" não passasse na Emissora Nacional, ademais não se inserindo Manuel Freire nos dois géneros mais acarinhados pela rádio oficial do regime – nacional-cançonetismo e fado –, mas estamos em crer que alguma divulgação teve nas rádios privadas. No pós-25 de Abril de 1974, sabemos, de leituras que fizemos e de testemunhos credíveis que ouvimos, que foi uma das canções mais radiodifundidas. Hoje, porém, é virtualmente impossível de se ouvir no éter nacional. Uma boa razão, se outras não houvesse (que há), para a destacarmos neste Dia da Liberdade, em que se celebra o 48.º aniversário da eclosão da Revolução dos Cravos, que é também – feliz coincidência! – o do 80.º aniversário do nascimento do notabilíssimo compositor e intérprete que, na esteira de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília, desempenhou um significativo papel na resistência à ditadura, ajudando a desbravar o caminho que trouxe a Liberdade de regresso a Portugal. Viva a Liberdade! E parabéns a Manuel Freire, com votos de longa vida!
Na sexta-feira passada, dia 22, véspera do concerto de homenagem a Manuel Freire no Auditório do Museu da Fundação Oriente, em Lisboa, o realizador Jorge Afonso, na primeira hora do seu programa do serão da Antena 1, "Uma Noite em Forma de Assim", esteve à conversa com o artista e o músico Manuel Rocha (membro da Brigada Victor Jara e professor de violino no Conservatório de Música de Coimbra), ali na qualidade de dinamizador do merecido tributo público (com entrada gratuita, que é de frisar), tendo sido transmitidas de permeio algumas canções de Manuel Freire. Cumpre-nos, pois, felicitar o profissional Jorge Afonso pelo convite que dirigiu aos dois músicos para falarem a respeito do referido espectáculo de homenagem (feito em vida do homenageado, como devem, de preferência, acontecer as homenagens) e por ter aproveitado o ensejo para presentear os ouvintes com alguns espécimes do repertório do distinto artista, o qual – acrescente-se, a tal de foice – não está representado, há largos anos, na 'playlist' da mesma Antena 1, a rádio que se autoproclama de ter memória e de estimar o nosso património cultural. Uma lacuna soezmente aberrante do serviço público de rádio que não se deve a esquecimento fortuito de quem mexe e remexe na tal 'playlist' ou de quem lhe é hierarquicamente superior, mas que resulta de premeditada acção de boicote, que tem sido extensiva a outros categorizados intérpretes portugueses (vocais e/ou instrumentais). No caso concreto de Manuel Freire o facto de lhe ser negado lugar na 'playlist' configura, em primeiro lugar, uma tremenda injustiça a um artista de altíssimo gabarito a quem o país muito deve e, em segundo lugar, uma vil desconsideração pelos ouvintes que apreciam (ou que aprenderiam a apreciar) boa música portuguesa, aliada a poesia de qualidade mas não hermética. Uma vez que Manuel Freire foi, até hoje, o compositor-intérprete que mais poesia de José Saramago musicou e gravou, ao menos que o centenário do autor d' "Os Poemas Possíveis" sirva de pretexto para divulgar esse repertório aos rádio-ouvintes!
Livre
Poema: Carlos de Oliveira (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Manuel Freire
Intérprete: Manuel Freire* (in EP "Manuel Freire canta Manuel Freire", Tagus, 1968; LP "Dedicatória", Tecla, 1972, reed. Tecla, 1974; livro/CD "Manuel Freire", Col. Canto & Autores, vol. 09, Levoir/Público, 2014)
Não há machado que corte | bis
a raiz ao pensamento: |
não há morte para o vento, | bis
não há morte. |
Se ao morrer o coração | bis
morresse a luz que lhe é querida, |
sem razão seria a vida, | bis
sem razão. |
Nada apaga a luz que vive | bis
num amor, num pensamento, |
porque é livre como o vento, | bis
porque é livre. |
Não há machado que corte | bis
a raiz ao pensamento: |
não há morte para o vento, | bis
não há morte. |
Se ao morrer o coração | bis
morresse a luz que lhe é querida, |
sem razão seria a vida, | bis
sem razão. |
Nada apaga a luz que vive | bis
num amor, num pensamento, |
porque é livre como o vento, | bis
porque é livre. |
(Carlos de Oliveira, in "Terra de Harmonia", col. Cancioneiro Geral, vol. 3, Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950 – p. 18; "Poesias", col. Poetas de Hoje, vol. 3, Lisboa: Portugália Editora, 1962)
Ao Sousa Oliveira
Não há machado que corte a raiz ao pensamento.
Cancioneiro Popular
Não há machado que corte
a raiz ao pensamento:
não há morte para o vento,
não há morte.
Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida,
sem razão.
Nada apaga a luz que vive
num amor, num pensamento,
porque é livre como o vento,
porque é livre.
Capa do livro "Terra de Harmonia", de Carlos de Oliveira (Col. Cancioneiro Geral, vol. 3, Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950)
Capa do livro "Poesias", de Carlos de Oliveira (Col. Poetas de Hoje, vol. 3, Lisboa: Portugália Editora, 1962)
Concepção – João da Câmara Leme
Capa do EP "Manuel Freire canta Manuel Freire" (Tagus, 1968)
Capa da 1.ª edição da compilação em LP "Dedicatória", de Manuel Freire, Fernando Alvim e Pedro Caldeira Cabral (Tecla, 1972)
Capa do livro/CD "Manuel Freire" (Col. Canto & Autores, vol. 09, Levoir/Público, 2014)
Ilustração – André Carrilho
No dia em que o país se despede de Eunice Muñoz, o blogue "A Nossa Rádio" associa-se ao preito nacional à genial actriz e recitadora destacando o poema (soneto) "À Morte" que fecha o alinhamento do álbum "Florbela Espanca por Eunice Muñoz", publicado em 1977 por Arnaldo Trindade, sob a chancela Orfeu. E é igualmente em lugar derradeiro que o texto aparece na segunda edição do livro "Charneca em Flor", de 1931, onde foi primeiramente publicado, inserido no apêndice de 28 sonetos inéditos "Reliquiae", bem como nas sucessivas edições dos "Sonetos Completos" e da "Poesia Completa".
Ao contrário da mais ilustre e trágica das poetisas portuguesas que chamou a si a Morte antes de tempo, a sua admiradora Eunice Muñoz gostava muito de viver, segundo testemunhos de quem com ela conviveu, mas a Senhora da Gadanha não lhe permitiu que fosse além de 93 anos, oito meses e quinze dias. Ainda assim foi uma vida longa e superlativamente enriquecedora da Cultura Portuguesa. E tudo o que se faça em reconhecimento desse tão significativo e valioso contributo nunca será bastante. Pela parte que nos toca, fica desde já expressa a intenção de rendermos a Eunice Muñoz tributos mais amplos, um dos quais tendo como enfoque a admirável "Antologia da Mulher Poeta Portuguesa" (1981).
No que respeita à rádio pública, assinalamos a reposição na emissão da Antena 1, logo na manhã de sexta-feira, pouco depois de ser veiculada a triste notícia do falecimento da Senhora D. Eunice, do excelente documentário biográfico integrante da série "Vidas Que Contam", realizado por Ana Aranha, com locução de Filomena Crespo. No caso da Antena 2, registamos também e ainda com mais agrado a mui louvável iniciativa do realizador Luís Caetano ao preencher, por inteiro, a edição do mesmo dia d' "A Ronda Noite" [>> RTP-Play] e a edição do dia seguinte d' "A Força das Coisas" [>> RTP-Play] com poesia dita por Eunice Muñoz entremeada com belíssimos trechos de música. Um regalo para os ouvidos e para o espírito!
Deveras vergonhosa e inconcebível foi a atitude negligente da direcção de programas do canal cultural da estação pública ao não resgatar uma das entrevistas que Eunice Muñoz concedeu à rádio em diferentes momentos do seu percurso artístico. Temos notícia de três – uma concedida a Francisco Igrejas Caeiro (1955), outra a Victor Nobre (1991) [>> RTP-Arquivos] e ainda outra a Luís Ramos (2000) [>> RTP-Arquivos] – mas é bem provável que existam mais no arquivo histórico. E se a não transmissão de uma entrevista é, a todos os títulos, deplorável, não deixa de ser sumamente condenável o não resgate de uma peça de teatro em que Eunice Muñoz foi protagonista. Seria um acto da mais elementar justiça atendendo à dimensão da insigne actriz e ao altíssimo gabarito que também evidenciou nas produções radiofónicas de cujos elencos fez parte, mormente nas décadas de 50, 60 e 70. Essa peça podia, inclusive, muito bem ser a que inauguraria a reposição de todas as peças que a notabilíssima artista fez na rádio, ao ritmo de uma por semana. Mais do que condecorações, lutos nacionais e honras de panteão a melhor maneira de um país manifestar a sua gratidão a alguém que foi grande (enorme) é cultivando a sua obra!
À MORTE
Poema (soneto) de Florbela Espanca (de "Reliquiae", in "Charneca em Flor", 2.ª edição, Coimbra: Livraria Gonçalves, 1931 – p. 94; "Sonetos Completos", Coimbra: Livraria Gonçalves, 1934 – p. 172; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000 – p. 388)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Florbela Espanca por Eunice Muñoz", Orfeu, 1977, reed. CD "Eunice Muñoz diz Florbela Espanca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 61, Movieplay, 1997)
Música: Rui Guedes
Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.
Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.
Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!
Vim da Mourama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera,... quebra-me o encanto!
Capa da 2.ª edição do livro "Charneca em Flor", de Florbela Espanca (Coimbra: Livraria Gonçalves, 1931)
Capa do LP "Florbela Espanca por Eunice Muñoz" (Orfeu, 1977)
Concepção – Fernando Aroso
Fotografia de Florbela Espanca gentilmente cedida por Otelo José Espanca
Capa do CD "Eunice Muñoz diz Florbela Espanca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 61 (Movieplay, 1997)
O escrevente destas linhas não teve o privilégio de conhecer, em carne e osso, Adriano Correia de Oliveira porque ainda era uma criança quando a morte levou, precocemente, o notabilíssimo artista. Porém, os testemunhos de pessoas que com ele privaram, mormente o do seu íntimo amigo e poeta Manuel Alegre, dão-no como um homem extraordinariamente corajoso e destemido. Apesar da implacável repressão que a ditadura salazarista-marcelista exercia sobre os criadores e artistas que lhe eram hostis, Adriano Correia de Oliveira nunca se calou e, emprestando a sua esplêndida e cristalina voz cantada a alguma da melhor poesia portuguesa de mensagem, afirmou-se um dos dois principais cantores-lutadores (o outro era José Afonso) pela mudança política que devolvesse a liberdade e a democracia ao povo português. O poema "Exílio", escrito por Manuel Alegre e musicado por Luís Cília (este foi o primeiro a gravá-lo quando estava exilado em Paris, no álbum "Portugal-Angola: Chants de Lutte", de 1964), que Adriano gravou em 1967, embora não se conte entre os seus temas mais conhecidos, é talvez o que melhor exprime esse desígnio de artista livre que não se deixava amedrontar e subjugar, porque «a verdade é mais forte do que as algemas» e era preciso tomar o navio da canção para ir direito ao coração de toda a gente. Nessa medida, "Exílio" pode considerar-se um manifesto cívico-artístico do cantor Adriano Correia de Oliveira que, apesar de viver dentro das fronteiras do seu país, não deixava de se sentir um exilado devido à opressão e ao cerceamento da liberdade de expressão que eram apanágio do Estado Novo.
É, pois, destacando a canção "Exílio", maravilhosamente cantada por Adriano acompanhado pela virtuosística viola de Rui Pato, que rendemos o nosso singelo tributo à memória do insigne compositor/intérprete, neste dia em que completaria 80 anos de idade. Dedicamo-la a todos os exilados deste mundo, independentemente das razões que os levaram a sair das suas pátrias: ausência de liberdade de expressão, intolerância religiosa, insegurança, guerra, falta de trabalho ou trabalho mal remunerado, desertificação, corrupção...
Ontem, na Antena 1, Adriano Correia de Oliveira foi evocado em dois espaços: no programa da manhã em que os respectivos animadores, Mónica Mendes e Pedro Miguel Ribeiro, estiveram à conversa com Rui Pato [>> RTP-Play], e no programa do pós-jantar (21h:00-23h:00) no qual Jorge Afonso teve como convidados Teresa Alegre Portugal (irmã de Manuel Alegre), Paulo Sucena e Manuel Portugal (filho de António Portugal) [>> RTP-Play]. Também foram transmitidas, avulsamente ao longo do dia, cinco canções escolhidas por seis convidados de renome: "Trova do Vento Que Passa" / Manuel Alegre [>> RTP-Play]; "E de Súbito um Sino" / Rui Pato [>> RTP-Play]; "Cantar de Emigração" / Armando Carvalhêda [>> RTP-Play]; "Tu e Eu Meu Amor" / Arnaldo Trindade [>> RTP-Play]; "Canção com Lágrimas" / Viriato Teles [>> RTP-Play]; "Canção com Lágrimas" / João Carlos Callixto [>> RTP-Play].
Registamos com agrado as referidas evocações do criador da balada "Fala do Homem Nascido" na véspera do 80.º aniversário do seu nascimento, mas não conseguimos disfarçar a nossa decepção por, no dia de hoje, em nenhum dos programas dos turnos da manhã e da tarde se ter falado da obra do artista e dado a ouvir alguns espécimes da sua discografia, com especial enfoque nos menos conhecidos. Como explicar tão aberrante e absurda omissão no canal da estação pública que propagandeia ser «uma rádio com memória»? Em matéria de omissões, temos de voltar a apontar o dedo à 'playlist', na qual Adriano Correia de Oliveira não está representado há um ror de anos. Situação que é de absoluta anormalidade, atendendo à importância do compositor/intérprete na História da Música Portuguesa e ao valor superlativo do seu legado musical/fonográfico que está recheado de canções intemporais e tremendamente actuais, como é o caso de "As Balas" e "Cantar de Emigração".
Não acompanhámos, de fio-a-pavio, a emissão de hoje da Antena 3, mas nas breves incursões que lá fizemos nada nos constou sobre Adriano Correia de Oliveira, o que nos leva a deduzir que o canal jovem também pecou por omissão. Perguntamos: os portugueses que nasceram a partir de meados dos 70, que constituem o grosso do auditório da Antena 3, não têm o direito de saber que existiu em Portugal um grande (enorme) compositor/cantor chamado Adriano de Correia de Oliveira e de tomar contacto auditivo com algumas das suas canções, de modo a ficarem com a curiosidade espicaçada e motivados a irem à descoberta da obra integral?
Exílio
Poema: Manuel Alegre
Música: Luís Cília
Criação: Luís Cília (in LP "Portugal-Angola: Chants de Lutte", Chant du Monde, 1964)
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira* [in LP "Adriano Correia de Oliveira ("Rosa de Sangue")", Orfeu, 1967, reed. LP "Margem Sul", Orfeu, 1982; EP "Para Que Quero Eu Olhos", Orfeu, 1968; 7CD "Adriano: Obra Completa": CD "Trova do Vento Que Passa: Adriano canta Manuel Alegre (I)", Movieplay, 1994; 7 livros/CD "Obra Completa de Adriano Correia de Oliveira": vol. 3 - "Trova do Vento Que Passa: Adriano canta Manuel Alegre I", Movieplay/Público, 2007]
Venho dizer-vos que não tenho medo,
A verdade é mais forte do que as algemas;
Venho dizer-vos que não há degredo
Quando se traz a alma cheia de poemas.
Lá, lá, lá...
Venho dizer-vos que não tenho medo,
A verdade é mais forte do que as algemas;
Venho dizer-vos que não há degredo
Quando se traz a alma cheia de poemas.
[instrumental]
Em qualquer parte estou presente,
Tomo o navio da canção
E vou direito ao coração de toda a gente.
Venho dizer-vos que não tenho medo,
A verdade é mais forte do que as algemas;
Venho dizer-vos que não há degredo
Quando se traz a alma cheia de poemas.
Capa do LP "Adriano Correia de Oliveira ("Rosa de Sangue")" (Orfeu, 1967)
Concepção – Fernando Aroso
Capa do EP "Para Que Quero Eu Olhos", de Adriano Correia de Oliveira (Orfeu, 1968)
Concepção – Fernando Aroso
Capa do LP "Margem Sul", de Adriano Correia de Oliveira (Orfeu, 1982)
Reedição LP "Adriano Correia de Oliveira ("Rosa de Sangue")", de 1967
Capa da caixa de 7CD "Adriano: Obra Completa", org. José Niza (Movieplay, 1994)
Fotografia – Inácio Ludgero
Design gráfico – José Santa-Bárbara
Edição electrónica/digitalização gráfica – Olívia Braga
Capa do CD "Trova do Vento Que Passa: Adriano canta Manuel Alegre (I)", org. José Niza (Movieplay, 1994)
Design gráfico – José Santa-Bárbara
Edição electrónica/digitalização gráfica – Olívia Braga
Capa do livro/CD "Trova do Vento Que Passa: Adriano canta Manuel Alegre I", vol. 3 da "Obra Completa de Adriano Correia de Oliveira", org. José Niza (Movieplay/Público, 2007)
INSTITUTO INTERNACIONAL DO TEATRO
DIA MUNDIAL DO TEATRO – 27 DE MARÇO DE 1962
MENSAGEM INTERNACIONAL DE JEAN COCTEAU
Acontece, pelo privilégio do teatro, este paradoxo: a História, que se deforma com o tempo, e o mito, que com o tempo se fortifica, encontram a sua verdadeira realidade sobre as tábuas de um palco.
Seria, sem dúvida, vantajoso que um faquir viesse hipnotizar uma sala de teatro para a convencer de ter visto um espectáculo sublime, mas, infelizmente, esse faquir não existe e é ao dramaturgo que compete provocar, pelos seus modestos meios, a hipnose colectiva e compartilhar o seu sonho, pois o sono e o sonho põem ao alcance de todas as bolsas uma espécie de génio.
O teatro, imitando este fenómeno, exige do público uma credulidade quase infantil — o melhor público é ainda o das "marionnettes", e o nosso seria igual se conseguisse perder a sua resistência orgulhosa e se se encontrasse, por exemplo, em estado de gritar a Édipo: «Não cases com Jocasta! É a tua mãe!»
Mas, sem ir tão longe, o fenómeno produz-se; e acontece que um grupo de espectadores perde a sua individualidade, em benefício de um pensamento estranho que ele adopta e com o qual colabora. Esse grupo transforma-se numa só pessoa, de alma quase infantil, que deixa as suas crenças no vestiário, pronta a retomá-las à saída.
A verdadeira admiração não é a que se exprime por um encontro de ideias comuns, mas sim a que assenta numa partilha de ideias que não são as nossas, mas que nos conquistam até ao ponto de nos convencerem que nós poderíamos ter sido o autor delas. É, portanto, uma das formas do amor: no amor, os antagonismos unem-se, e não é um exemplo desta osmose o papel do teatro? Porque, ao fim e ao cabo, o grande intérprete é o artista que dá a impressão de improvisar, de inventar o seu texto, de o inventar e de o improvisar de acordo com a personalidade de cada espectador.
A própria França, reticente em se deixar adormecer e que resiste, à força de individualismo, ao fenómeno da hipnose do espectáculo, acaba de demonstrar, no Teatro das Nações, a sua sede e a sua fome de se distrair sem a menor frivolidade.
Companhias de primeira categoria levam até lá as obras-primas do seu idioma e, unicamente pela intensidade da interpretação dos actores, conseguem encantar, com o seu repertório, públicos que nunca imaginaríamos capazes de esquecer o seu próprio idioma e os seus próprios temas para se interessarem pelos dos outros povos.
O Dia Mundial do Teatro assinala o acontecimento extraordinário dessas núpcias profundas, entre o singular e o plural, o objectivo e o subjectivo, o consciente e o inconsciente, apresentando ao mundo os monstros prestigiosos que daí resultam.
Muitas das discórdias do mundo provêm do afastamento dos espíritos e da muralha erguida pelos idiomas: é esse afastamento que o vasto mecanismo teatral se propõe evitar e é essa muralha que ele se propõe transpor.
Os povos, graças aos Dias Mundiais do Teatro, tomarão, finalmente, consciência das suas respectivas riquezas, e trabalharão juntos num grandioso empreendimento de paz.
Nietzsche dizia: «As ideias que mudam a face do mundo vêm até nós nas patas das pombas». É, talvez, em virtude de um meio que se limitou tantas vezes a ser um simples pretexto de divertimento que a juventude virá a beneficiar de uma Universidade brilhante e viva, de diálogos de carne e osso, substituindo assim as fadigas de um estudo que enfraquecia as obras-primas, fazendo-as perder a sua violência de origem.
Eu acrescento: disseram que a máquina daria o golpe de misericórdia ao teatro. Não acredito e, uma vez que o Instituto Internacional do Teatro me encarrega de falar em seu nome, grito, como antigamente se gritava para os nossos reis (alterando um pouco a fórmula): «Se o teatro morreu, viva o teatro!».
JEAN COCTEAU (trad. Rogério Paulo, actor e encenador)
Foi no IX Congresso do Instituto Internacional do Teatro, realizado a 10 de Junho de 1961, em Viena, que se escolheu o 27 de Março para celebrar, a cada ano, o teatro, considerado como «instrumento de compreensão e paz». E a primeira celebração à escala internacional aconteceu logo no ano seguinte, não só nos 43 países que então eram membros do Instituto como em vários outros, perfazendo mais de meia centena. Para escrever e ler a mensagem internacional desse dia inaugural foi convidado o multifacetado autor-artista francês Jean Cocteau. E porque as suas palavras continuam perfeitamente actuais, decorridos que são 60 anos certos, entendemos por bem recuperá-las.
Mesmo dispondo hoje das mais avançadas tecnologias (e talvez Cocteau estivesse longe de sonhar com a inteligência artificial), o Homem continua a precisar da Arte, enquanto manifestação da liberdade criativa do espírito humano. E entre essas expressões artísticas, o teatro afirma-se como absolutamente imprescindível à Humanidade num "admirável mundo novo" progressivamente dominado por máquinas 'inteligentes'. Qual Fénix, que renasce das cinzas a cada representação, o bom teatro possui o miraculoso poder de transformar interiormente o espectador/ouvinte, tornando-o um ser mais liberto da primeva e atávica condição animal – mais pessoa, em suma. E quanto menos animal e mais pessoa o homem for, maior será o seu empenho em estabelecer a concórdia entre todos os povos da Terra, cultivando assim o supremo valor da Paz. Viva o Teatro!
Por ser uma arte efémera, o espectáculo teatral morre quando o pano tapa, pela última vez, a boca de cena, mas tem o sortilégio de perdurar na memória daqueles que o viram/ouviram acontecer num palco. Foi assim ao longo dos séculos e ainda o é, independentemente de se poder efectuar a gravação áudio/vídeo para memória futura. A invenção, na primeira metade do século XX, da rádio e, depois, da televisão, ofereceu a possibilidade de se fazer chegar as peças representadas em cena a um público não presencial e significativamente mais vasto. No entanto, rapidamente se percebeu que a fruição desses espectáculos, quer via rádio quer via televisão, não era plenamente satisfatória, devido às dificuldades técnicas que havia de captar convenientemente o som e de se filmar, com bons planos, o que se passava no palco. Tais condicionantes impuseram a necessidade de se produzir teatro especificamente destinado à radiodifusão ou à transmissão televisiva. E nos primeiros tempos, tudo se fazia em tempo real, como no palco. No entanto, não era raro ocorrer um problema de ordem técnica (por exemplo, um microfone que se avariava) e também podia suceder que um(a) actor/actriz fosse acometido(a) de um espirro ou de um acesso de tosse ou, mesmo, que se enganasse no texto – e tais percalços eram de evitar em meios de comunicação de massas. A solução seria a pré-gravação, que se tornará regra. E assim se foram formando apreciáveis e preciosos acervos de teatro radiofónico e televisivo: preciosos em razão do valor cultural intrínseco e por serem os repositórios documentais da arte de representar de tantas figuras gradas do teatro português do século XX, já que foram poucas as que, estando activas nos anos 50, 60, 70 e 80, se recusaram a trabalhar na rádio ou na televisão. Privilegiados e sortudos os ouvintes e telespectadores que já tinham atingido a idade da razão nesse período áureo do teatro radiofónico e televisivo e comungaram de tanta e boa arte de Talma! Quem veio ao mundo mais tarde, mormente quem tem hoje menos de 35-40 anos de idade, nunca tomou contacto com o grosso desse fabuloso património, simplesmente porque a divulgação nos meios para os quais foi produzido – rádio e televisão – tem sido muitíssimo parca e esporádica e também por estar ainda muito incompleto o acervo de registos disponibilizados na plataforma RTP-Arquivos.
Na RTP-Memória, por exemplo, só de tempos a tempos aparece uma ou outra peça avulsa. E como é assaz incompreensível e surreal que no canal televisivo especialmente vocacionado para os conteúdos do arquivo não haja um espaço regular reservado ao teatro!
Na rádio, se não existisse na grelha da Antena 2 o programa "Ecos da Ribalta" a ausência de teatro produzido antes de 2005 seria total. Temos de agradecer ao realizador João Pereira Bastos pelo mui louvável cuidado que vem tendo de resgatar das catacumbas do silêncio autênticas pérolas de teatro do imaginário (para citar a feliz expressão que o próprio João Pereira Bastos, na qualidade de director de programas da Antena 2, propôs a Eduardo Street). Dessas pérolas fazemos questão de destacar a que voltou a resplandecer no éter nacional em Fevereiro passado, assinalando o primeiro ano de saudade de Carmen Dolores: "Stella", de Goethe, numa soberba produção da Emissora Nacional de Radiodifusão e transmissão no respectivo segundo canal, em Abril de 1966, no âmbito da rubrica "Noite de Teatro" [1.ª parte >> RTP-Play / 2.ª parte >> RTP-Play]. Admirável a tradução e adaptação de Ruy Furtado (que não interveio, como actor, nesta produção mas que tivemos o gratíssimo prazer de ouvir, com a sua castiça e inconfundível voz, na segunda metade dos anos 80, no primeiro e segundo canal da RDP, em várias e memoráveis peças e adaptações de obras romanescas), notável a realização de Eduardo Street e magistrais as interpretações de Carmen Dolores (Stella), de Brunilde Júdice (Cecília) e de Álvaro Benamor (Fernando)! Estas preciosidades radiofónicas, além do superlativo prazer espiritual que proporcionam aos amantes da arte de Talma, são um excelente elixir de língua portuguesa, mormente nas vertentes do léxico e da prosódia, qual antídoto à indigência linguística que hoje impera nos media, com a televisão à cabeça. Por todas estas razões, que não são de somenos, e uma vez que o programa "Ecos da Ribalta" não se pode restringir ao teatro declamado (pois tem de abarcar as demais artes de palco e o cinema) é imperioso que, sem prejuízo da disponibilização do acervo completo na plataforma RTP-Arquivos, seja criado na grelha da Antena 2, dado ser o canal da rádio pública mais vocacionado para a Cultura, um espaço, que poderá ter periodicidade semanal, reservado ao que de melhor se fez entre nós em matéria de teatro radiofónico, dando-se primazia aos clássicos, desde os gregos antigos (Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Aristófanes) até ao teatro de pendor existencialista (Albert Camus, Sartre) e ao teatro do absurdo (Beckett, Ionesco). Merecem-no os ouvintes, sobretudo os mais jovens e os cegos de qualquer idade (que continuam a ser impiedosamente desconsiderados pela rádio que também financiam), e reclamam-no os autores e todos os profissionais – tradutores, adaptadores, directores artísticos, actores, realizadores, técnicos de captação, sonorização e montagem – que tornaram possíveis tantas e magníficas produções e aos quais o país ainda não saldou (alguma vez saldará?) a dívida de gratidão que tem para com eles!
Retrato (óleo sobre tela) de D. Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, 4.ª Marquesa de Alorna, pintado em Viena, por Franz Joseph Pitschmann, em 1780 (acervo da Palácio Fronteira/Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, Lisboa)
MULHERES IMPOSSÍVEIS por Helena Vasconcelos
«E a escrita vai
modulando a história»
in «Invenção»
Quando perguntei a Maria Teresa Horta quando tinha escrito, pela primeira vez, sobre a sua antepassada, Leonor de Almeida, Marquesa de Alorna, respondeu-me que tinha sido num teste no Liceu Filipa de Lencastre. Mais tarde, em 1998, começou a pensar num romance biográfico dedicado a essa mulher ilustre, figura marcante do Iluminismo. As Luzes de Leonor acabou por ser publicado em 2011, depois de anos de pesquisa e labor intenso. Rigorosa e intimista, arrebatada e minuciosa, exaustiva e encantatória, esta obra ímpar provocou uma autêntica revolução e reafirmou o formidável talento da autora, a sua capacidade de escrever uma prosa invulgarmente rica e melódica que se desenrola como uma partitura musical com as suas marcações, os seus compassos, figuras e pausas, próprias das cadências também utilizadas em poesia.
Não é de estranhar, embora a sua aptidão para nos surpreender seja infinita, que um ano depois Maria Teresa Horta publique estes Poemas para Leonor, versos concebidos ao longo da maturação do romance, uma espécie de «respiração», de toada entre o sonho e a realidade, entre a luz e a sombra, entre o dia e a noite, que se foi enovelando e desdobrando à medida que Leonor era invocada e chamada, não só à grade do convento de Chelas, às alcovas dos seus amantes ou aos salões das cortes europeias onde brilhou e encantou, mas também ao nosso trato, à nossa contemporaneidade.
A Poesia e a Música estão, desde tempos imemoriais, estreitamente interligadas. O mito grego de Orfeu e Eurídice – mencionado nestes Poemas para Leonor – é um dos mais belos, complexos e evocativos exemplos desta simbiose perfeita. O desfecho trágico da história e a intrigante ligação aos «mistérios órficos» enfatizam a ideia do exercício poético como representação do ciclo perene de criação e morte. Os Poemas para Leonor, aqui reunidos, são o testemunho palpitante desse ciclo, o registo de uma conversa nunca acabada entre uma extraordinária mulher poeta dos séculos XVIII-XIX e uma não menos extraordinária mulher poeta dos séculos XX-XXI. Porque Maria Teresa Horta, ao longo dos anos de gestação do romance, redigiu versos – «escrevia todos os dias e atirava para o lado os poemas, para dentro de uma gaveta» – encontrando nessa linguagem «espontânea», ditada pelo bater do coração, pelo pulsar do sangue, pelas visões assombradas e persistentes de Leonor, o lugar ideal para os encontros (e embates) com a sua antepassada, essa mesma avó remota que se senta (ainda) à sua mesa, que lhe fala e a desafia, que a olha por cima do ombro à secretária, enquanto a autora, palavra a palavra, a ressuscita uma e outra vez, cabelo a cabelo, gesto a gesto, olhar a olhar, movimento a movimento, sorriso a sorriso, desobediência a desobediência, desafio a desafio, fio a fio, quilómetro a quilómetro – calcorreado por essa Europa fora – de casa em casa, de quarto em quarto, de sombra em sombra, de luz em Luz. É a própria Maria Teresa que enfatiza o seu papel de «neta, detective, espia, atrás da Leonor, seguindo as suas pegadas, os seus passos, pondo o meu pé na marca deixada pelo seu...»
Quando Maria Teresa Horta me falou na hipótese de escrever estas breves linhas – sabendo eu que a relação entre Teresa e Leonor nem sempre foi pacífica e conciliadora, o que é próprio de mulheres fortes, inteligentes e desafiadoras – quis saber desde quando Leonor ocupava um lugar tão determinante na sua vida e na sua mente. Contou-me, com a sua generosidade habitual, como tinha sido o dia em que conheceu Leonor, figura mítica na sua família, trisavó do pai de sua mãe: «... no meu princípio, o paraíso era o escritório do meu pai, encantatório e misterioso. Mas, nas prateleiras das estantes com tantos livros, não havia um único volume escrito por uma mulher. A minha mãe, porém, um dia chamou-me à salinha onde recebia as amigas e ouvia música, apontou para um livro que estava sobre uma mesinha baixa, junto das suas longas pernas que nos seduziam nas suas meias de vidro, e disse-me, apontando para uma página onde estava o retrato de uma mulher fascinante no seu vestido antigo, sorriso de fatalidade, pérolas entrançadas nos cabelos e olhar de enigma: "Esta mulher é tua avó e foi uma grande poetisa." Nesse dia, a Leonor entrou na minha vida.»
Se Leonor entrou na vida de Teresa nesse dia ou se sempre aí habitou não é assunto para ser analisado neste momento. Importa, isso sim, apontar o facto de a autora ter feito História com a Biografia e Mito com a Poesia. Como uma Sibila, postada no limiar do oráculo, pronta a revelar os mistérios da Grande Deusa, Maria Teresa Horta desfia, em nome de Leonor e em nome dela própria, o rosário das contas de Eurídice, fugindo dos sátiros para cair no ninho de víboras, de Cassandra, amaldiçoada pelo dom da profecia, de Afrodite, que conhecia a infinita alegria do prazer, de Deméter, que presidia à fertilidade triunfante, e de Atena, que não recuava perante os perigos, antes se lançava na refrega, com ardor e sabedoria.
A palavra grega poiesis significa, literalmente, «fazer», ou seja, a Poesia foi, desde sempre, a arte de expressar outra coisa «para além de», de cantar o mundo e os seres que habitam o planeta, de uma forma distinta, diversa, nobre e grandiosa. Diotima, no diálogo socrático Symposium, registado por Platão, descreve como os seres humanos se debatem na ânsia da imortalidade através da Poesia, forma privilegiada de diálogo com a divindade, veículo de expressão, e também de um desejo antigo de heroicidade, de excelência e de compromisso com os mais elevados princípios, aqui personificados por estas mulheres exemplares. Porque Maria Teresa Horta exalta um universo feminino onde há, também, lugar cativo para os amantes, eternamente enlaçados em carne e espírito, em ardor e sabedoria. E Heidegger, entre outros críticos e filósofos, explicou a poiesis como um acto de transformação – de larva para borboleta – ligado a um momento de êxtase, de comunhão e de transcendência. Esse processo é esplendorosamente cantado nestes Poemas para Leonor, ao ritmo de cada gesto, enquanto a poetisa delineia cada frase, cada imagem, cada som.
No entanto, estes versos não são a mera «ilustração» de uma relação profunda e inabalável, os «desenhos» ou esquissos de preparação para a grande obra, a vasta pintura que se desdobra em As Luzes de Leonor. Para além de constituírem uma espécie de «Diário» poético são, ainda, uma grande lição de construção narrativa – através do desdobramento em «Prólogo», «Personagem – Leonor», «Poetisa – Luz», «Mulher – Fogo», «In Aevum» e «Epílogo» – que apontam para os sucessivos estados de Leonor/ Teresa, de menina a mulher, de Mulher a Sábia o que constitui, na sua essência, um cântico, um dueto, um permanente sussurro e grito, um movimento de corridas e enlaces, de ventos e calmarias, de «embalos» e de «colos». A inexorável passagem do tempo não afasta estas duas mulheres notáveis – sem esquecer outra trágica Leonor, a de Távora – antes as aproxima numa intimidade cálida, graças ao opulento legado de uma e à memória e genialidade de outra. Porque não basta escrever a História, reavivar uma época e as personagens que aí desempenharam os seus papéis. O génio de Maria Teresa Horta levou-a mais além, para uma conversa infinita e vital que se prolonga através do tempo e do espaço, num constante desafio ao esquecimento, numa permanente batalha heróica. E a linguagem escolhida é, evidentemente, a da Poesia, essa forma de comunicar própria dos deuses (e das deusas).
[...]
(primeiro prefácio ao livro "Poemas para Leonor", de Maria Teresa Horta, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2012 – p. 9-13)
Lendo em página avulsa ou ouvindo, na forma recitada, o poema "Mulher-Poetisa", sem se saber que Maria Teresa Horta o escreveu a pensar na sua ilustre pentavó, D. Leonor de Almeida Portugal, também ela uma distinta poetisa à qual o seu coevo Filinto Elísio deu o nome arcádico de Alcipe, poderia supor, com inteira legitimidade, que seria autobiográfico. Extrapolando: o teor do poema poderia aplicar-se igualmente a outras insignes poetisas que arrostando incompreensões e até perseguições nunca abdicaram da sua liberdade e lograram afirmar-se como criadoras de poesia de alta estirpe, como foram os casos de Florbela Espanca, Natália Correia e Sophia de Mello Breyner Andresen, apenas para referir as três maiores do século XX português. A criação poética, e artística em geral, sempre foi e nunca deixará de ser um acto de liberdade, mesmo que o reconhecimento do valor da obra não aconteça em vida do sujeito criador, trate-se de homem, mulher ou transgénero.
A todas as poetisas de mérito, enquadradas ou não no cânone literário vigente, sem esquecer as populares que, apesar de não terem recebido esmerada instrução, fizeram poesia digna de apreço, manifestamos a nossa penhorada gratidão pelo seu legado, neste Dia Mundial da Poesia, pondo em destaque o poema "Mulher-Poetisa", de e por Maria Teresa Horta, com a devida vénia à autora.
Na rádio pública, temos na Antena 2 duas rubricas de poesia dita, ambas realizadas por Luís Caetano: "A Vida Breve", de segunda a sexta-feira, consagrada à poesia na voz dos autores [>> RTP-Play], e "O Som Que os Versos Fazem ao Abrir", de periodicidade semanal, que tem âmbito mais abrangente e conta com a avalizada colaboração da professora, poetisa e tradutora Ana Luísa Amaral [>> RTP-Play]. Ainda na Antena 2, podemos parar, uma vez por semana, na "Estação do Oriente" e refrescar a mente com balsâmicos eflúvios de poesia (em verso ou em prosa), pensamento e meditação trazidos do milenar Oriente por João Rodrigues Pedro, envoltos em primoroso contexto musical criteriosamente escolhido pelo realizador [>> RTP-Play]. Cumpre-nos, pois, enaltecer Luís Caetano e João Rodrigues Pedro pelo profissionalismo com que vêm mantendo aqueles luminosos recantos do éter nacional consagrados à palavra dita que alimenta o espírito. O que não podemos deixar de lamentar é a persistente e incompreensível ausência de um apontamento diário de poesia nas Antenas 1 e 3. Por que motivo tão gritante lacuna não foi ainda colmatada, havendo ao dispor um avultado acervo de registos no arquivo histórico da RDP e ainda boas edições discográficas? Só encontramos uma explicação: as pessoas que dirigem aqueles canais não gostam de poesia ou, escrevendo com mais acerto, julgam que não gostam, porque ninguém lhes fomentou a sensibilidade para a arte poética. Mesmo faltando-lhes tal sensibilidade deviam ter a hombridade de não desconsiderar os ouvintes que apreciam poesia ou que aprenderiam, com a experiência auditiva, a apreciá-la. A estação pública de rádio existe para prestar serviço público àqueles que a financiam e não para afagar o umbigo de quem ocupa os lugares de chefia.
MULHER-POETISA
Poema de Maria Teresa Horta (in "Poemas para Leonor", secção "Poetisa – Luz", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2012 – p. 71)
Recitado pela autora* (in livro/CD "A Voz dos Poetas", Sociedade Portuguesa de Autores/Ovação, 2017)
Pareces um mistério
intransponível
Alguém que se
esquivou
ao seu preceito
Na recusa
de obedecer à vida
Ao quererem-te domada
e desse jeito
dócil obediente submissa
Capa do livro "Poemas para Leonor", de Maria Teresa Horta (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2012)
Concepção – Rui Garrido
Reprodução parcial do quadro referenciado no topo.
Capa do livro/CD "A Voz dos Poetas" (Sociedade Portuguesa de Autores/Ovação, 2017)
Celebramos a chegada da Primavera de 2022 contemplando uma florida paisagem alentejana e ouvindo a moda "É Lindo na Primavera", pelo Grupo Coral da Casa do Povo de Santo Aleixo da Restauração. Este grupo do concelho de Moura, que foi fundado em 1934 (é, portanto, um dos mais antigos), mostra-nos com este primoroso espécime, que tem versos do cantador Bento Figueira e faz parte do disco duplo "O 'Cante' Alentejano" (Public-Art, 1998), porque é um dos mais categorizados do Alentejo e, mais especificamente, da margem esquerda do Guadiana, onde o cante é mais vigoroso e pujante do que na margem direita, quiçá por influência dos ritmos andaluzes.
Não estando o cante alentejano, assim como a música tradicional em geral, representado na 'playlist' da Antena 1 e tendo desaparecido a rubrica "Cantos da Casa", do Sr. Armando Carvalhêda, na sequência da aposentação deste emérito realizador da nossa rádio, sem que surgisse entretanto um espaço equivalente, é hoje impossível ouvir-se no canal generalista da rádio pública o quer que seja do precioso repertório que ao longo de décadas, sobretudo depois do 25 de Abril de 1974, foi sendo gravado por reputados grupos corais alentejanos (masculinos, femininos e mistos) e publicado em fonograma (vinil, cassete e CD). A situação é deveras absurda e descabida, ademais tendo o cante sido oficialmente reconhecido, pela UNESCO, como Património Cultural Imaterial da Humanidade! Havendo – e bem – espaços reservados ao fado, não se pode entender o silenciamento a que o cante está a ser sujeito na rádio que tinha/tem a obrigação de acarinhá-lo como nenhuma outra. Urge, pois, que se faça alguma coisa no sentido de alterar tão deplorável e intolerável estado de coisas. Sem prejuízo de ser incluído cante na 'playlist', a transmissão de uma moda de segunda a sexta-feira, inserida num apontamento de autor, já não seria mau, para começar. Fica lançado o apelo ao Sr. Nuno Galopim, na sua qualidade de actual director de programação da Antena 1.
É Lindo na Primavera
Letra: Bento Figueira
Música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral da Casa do Povo de Santo Aleixo da Restauração* (in 2CD "O 'Cante' Alentejano": CD 1, Public-Art, 1998)
[1.ª cantiga:]
Santo Aleixo és tão nobre,
Tão sincero, hospitaleiro...
És terra de gente pobre,
És terra de gente pobre,
Mas a virtude é dinheiro!
[Moda:]
É lindo na Primavera
A gente viver no campo:
Olhar e ver as flores,
Bonitas de várias cores,
Tão lindas é um encanto!
Ouvir as aves cantar,
Ver a vida à nossa espera,
Ver os ribeiros mandar
Água clara p'ra o mar:
É tão linda a Primavera!
[2.ª cantiga:]
Quem quer bem dorme na rua
À porta do seu amor:
Faz das pedras cabeceira,
Faz das pedras cabeceira,
Das estrelas cobertor.
[Moda:]
É lindo na Primavera
A gente viver no campo:
Olhar e ver as flores,
Bonitas de várias cores,
Tão lindas é um encanto!
Ouvir as aves cantar,
Ver a vida à nossa espera,
Ver os ribeiros mandar
Água clara p'ra o mar:
É tão linda a Primavera!
* Grupo Coral da Casa do Povo de Santo Aleixo da Restauração
Ensaiador – Francisco Candeias Parra
Gravado na Primavera de 1998
Engenheiro de som – Heinz Frieden
Capa do duplo CD "O 'Cante' Alentejano" (Public-Art, 1998)
Design – Incograf
A criada Ilda, encarnada pela actriz Isabel Ruth, no filme "Os Verdes Anos" (1963), de Paulo Rocha.
Fotografia – Luc Mirot.
As criadas de servir, instaladas na casa dos patrões, que há não muitas décadas eram numerosas em Portugal, são hoje uma raridade. Deram lugar às empregadas domésticas e às chamadas 'mulheres a dias'. Isto, evidentemente, nas classes média, média-alta e alta. Nas classes média-baixa e baixa, as lides domésticas continuam a ser, na maioria dos casos, executadas inteiramente (ou em grande parte) pela 'dona' da casa, mesmo que ela exerça uma actividade profissional fora de portas. A esse trabalho rotineiro e quase escravo somam-se as ditas obrigações conjugais, isto é, ter a mulher de estar sempre pronta a dispor do seu corpo como objecto sexual do marido ou companheiro. Em suma: uma criada para todo o serviço. A estas serviçais da actualidade e às que foram criadas de servir à moda antiga (as quais, apesar de muito exploradas e, não raras vezes, vítimas de abuso por libidinosos patrões, talvez não fossem tão sobrecarregadas de trabalho) rendemos, neste Dia Internacional da Mulher, a nossa solidária homenagem pondo em destaque a canção "Uma Criada para Todo o Serviço", interpretada por João Lóio e Regina Castro, com letra de José Carretas e música do próprio João Lóio. Será uma boa descoberta para a maioria dos visitantes desta página pois o cantautor matosinhense é um artista completamente ostracizado pelos fazedores das 'playlists' das rádios portuguesas, Antenas 1 e 3 incluídas.
A Antena 1, agora sob a direcção de Nuno Galopim, tem transmitido, de hora a hora, após a ladainha do trânsito que se segue aos noticiários, uma canção escolhida por uma das locutoras dos vários canais da rádio pública. Apesar da maioria dos espécimes postos no ar deixar muito a desejar, temos de reconhecer que é alguma coisa. Mas não o suficiente! Sem prejuízo de outras iniciativas, no dia que à mulher é dedicado toda a oferta musical da Antena 1 (bem como da Antena 3, da RDP-Internacional e da RDP-África) devia reflectir a condição feminina, independentemente de alguns intérpretes poderem ser homens. E para escolher o repertório, embora sem se enjeitar o contributo de funcionárias da casa (locutoras, realizadoras, produtoras, etc.), devia dar-se primazia a mulheres da sociedade civil que se têm empenhado na emancipação feminina. Fica apresentada a sugestão para o próximo ano e seguintes.
Uma Criada para Todo o Serviço
Letra: José Carretas
Música: João Lóio
Intérprete: João Lóio* com Regina Castro (in CD "Canções de Amor e Guerra", João Lóio, 2002)
Cozinho tão bem
como a minha mãe
ou outra qualquer.
Decorei receitas,
todas elas feitas
para ser mulher.
Sei espanar o pó,
limpar o cócó,
faço meia-liga.
Sei fazer a cama
como grande dama,
eu sou rapariga.
Às vezes, sonho em fugir,
mas penso no qu' há-de vir
e sei que só vou servir
p'ra criada de servir:
[bis]
lavar pacientemente,
esfregar eternamente,
arrolar constantemente
as trouxas;
abrir só um bocadinho,
apartar devagarinho,
brandamente, de mansinho
as coxas.
Eu já sei tecer,
consigo fazer
renda da mais fina.
Já sei pôr a mesa,
ter a chama acesa,
sou uma menina.
Deito lustro ao chão,
lenha no fogão,
faço os meus recados.
Sei fazer favores,
arranjos de flores
aos meus namorados.
Às vezes, sonho em fugir,
mas penso no qu' há-de vir
e sei que só vou servir
p'ra criada de servir:
[bis]
lavar pacientemente,
esfregar eternamente,
arrolar constantemente
as trouxas;
abrir só um bocadinho,
apartar devagarinho,
brandamente, de mansinho
as coxas.
* [Créditos gerais do disco]:
Carlos Rocha – guitarras acústica e eléctrica
João Lóio – voz e guitarra acústica
Firmino Neiva – baixo eléctrico
Arnaldo Fonseca – acordeão
Mário Teixeira – caixa de rufo
Regina Castro e Guilhermino Monteiro – coros