30 novembro 2013

Fernando Pessoa por João Villaret



«Ninguém melhor que Fernando Pessoa documentou, em Portugal, aquele brusco trânsito operado na sensibilidade europeia, aí por alturas da Primeira Grande Guerra. E pode mesmo dizer-se que a obra de Fernando Pessoa é a expressão desse próprio trânsito, dessa própria charneira, na medida em que exprime, ao mesmo tempo, toda uma sensibilidade que se extingue e toda uma outra que, então, confusamente principia... — A propósito do modo como o Ultimatum de 1890 se repercutira na literatura portuguesa, Fernando Pessoa teve ensejo de observar que, nessa data, "Junqueiro — o de Pátria e Finis Patriae — foi a face que olha para o Futuro, e se exalta": e "António Nobre foi a face que olha para o Passado, e se entristece". Perante as grandes perturbações do seu próprio tempo (estas à escala europeia já que não somente nacional), Fernando Pessoa foi, simultaneamente, as duas faces. Rosto bifronte, em cujas feições a tristeza e a exaltação se interpenetram e conjugam, à sua obra estava reservado um singular destino: conhecida apenas de um círculo fiel de admiradores, durante a vida do Poeta, ver-se-ia, depois, rodeada da mais ampla e entusiástica audiência. Fernando Pessoa é, hoje, a seguir a Camões, o Poeta português mais lido, mais debatido e mais estimado, não só em Portugal, mas também nos meios culturais estrangeiros.
Reúnem-se neste disco algumas magníficas interpretações de João Villaret, que constituem um excelente panorama da poesia de Fernando Pessoa — visto que nele estão representados os heterónimos e todos os aspectos do génio multiforme do grande Poeta. Desde a concentrada e quase sibilina expressão épica dos trechos nacionalistas da Mensagem ao arrebatado movimento dos poemas de Álvaro de Campos; do lirismo profundamente intelectualizado de Fernando Pessoa, ele-mesmo, à simplicidade bucólica de Alberto Caeiro e ao recorte clássico das odes de Ricardo Reis — tudo, aqui, aparece impressionantemente animado pela voz de um dos maiores recitadores portugueses de todos os tempos.» [texto, não assinado, publicado na contracapa do LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957]


Fernando Pessoa foi o poeta que João Villaret mais gravou: aos 21 poemas que compõem o álbum supracitado há que somar meia-dúzia de espécimes dispersos por outras edições discográficas, o que perfaz a bela cifra de 27. Foi graças a esse precioso acervo divulgado pela rádio que muita gente tomou contacto com a poesia pessoana.
Lamentavelmente, a rádio pública de hoje não liga patavina a João Villaret. E porquê? Falta de aptidão intelectual de quem está na direcção de programas para reconhecer o extraordinário talento e poder de comunicação do insigne recitador? Só pode ser. Mas com esse obscurantistismo é que ninguém com um mínimo de lucidez, amor à cultura e sentido de responsabilidade, poderá jamais contemporizar. Por conseguinte, e em jeito de celebração conjunta de Fernando Pessoa (no 125.º ano do nascimento) e de João Villaret (no centenário do nascimento), o blogue "A Nossa Rádio" faz o serviço público de apresentar os tais 27 poemas.



AUTOPSICOGRAFIA



Poema de Fernando Pessoa (28-2-1929, in "Presença", n.º 36, Coimbra: Nov. 1932; "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, 1993 – p. 235)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.



ISTO



Poema de Fernando Pessoa (28-2-1929, in "Presença", n.º 38, Coimbra: Abr. 1933; "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, 1993 – p. 236)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!



Ó tocadora de harpa, se eu beijasse



Poema de Fernando Pessoa (8-3-1914---hhh---, soneto IV de "Passos da Cruz", in "Centauro", n.º 1, Lisboa: Out.-Dez. 1916; "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, 1993 – p. 39-40)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá Carneiro", Parlophone/VC, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse pelos desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse

Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra — reis cristãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...

Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncais...

Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...



Emissário de um rei desconhecido



Poema de Fernando Pessoa (8-3-1914---hhh---, soneto XIII de "Passos da Cruz", in "Centauro", n.º 1, Lisboa: Out.-Dez. 1916; "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, 1993 – p. 57-58)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Emissário dum rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anómalo sentido...

Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido...

Não sei se existe o Rei que me mandou
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...

Mas há! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...
Já viram Deus as minhas sensações...



Como uma voz de fonte que cessasse



Poema de Fernando Pessoa (8-3-1914---hhh---, soneto XIV de "Passos da Cruz", in "Centauro", n.º 1, Lisboa: Out.-Dez. 1916; "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, 1993 – p. 59-60)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), para além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce

Parou... Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...

A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
Para o mistério, silêncio a que a hora assiste...

E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...



Sol nulo dos dias vãos



Poema de Fernando Pessoa (5-8-1921---hhh---, in "Athena", n.º 3, Lisboa: Dez. 1924; "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, 1993 – p. 98)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá Carneiro", Parlophone/VC, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho,
1978, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!

Que ao menos a luz, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!

Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!



HORA ABSURDA (*)



Poema de Fernando Pessoa (4-7-1913, in "Exílio", n.º 1, Lisboa: Abr. 1916; "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, 1993 – p. 19-20)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá Carneiro", Parlophone/VC, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...

Abre todas as portas e que o vento varra a ideia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida pela maré cheia,
E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões...

Chove ouro baço, mas não no lá-fora... É em mim... Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...

.....................................................................

4-7-1913


(*) Texto integral em: http://arquivopessoa.net/textos/829



A MÚMIA - EPISÓDIOS



Poema de Fernando Pessoa (8-3-1914---hhh---, in "Portugal Futurista", n.º 1, Lisboa: 1917; "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, 1993 – p. 61-67)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




                I

Andei léguas de sombra
Dentro em meu pensamento.
Floresceu às avessas
Meu ócio com sem-nexo,
E apagaram-me as lâmpadas
Na alcova cambaleante.

Tudo prestes se volve
Um deserto macio
Visto pelo meu tacto
Dos veludos da alcova,
Não pela minha vista.

Há um oásis no Incerto
E, como uma suspeita
De luz por não-há-frinchas,
Passa uma caravana.

Esquece-me de súbito
Como é o espaço, e o tempo
Em vez de horizontal
É vertical.

           A alcova
Desce não sei por onde
Até não me encontrar
Ascende um leve fumo
Das minhas sensações.
Deixo de me incluir
Dentro de mim. Não há
Cá-dentro nem lá-fora.

E o deserto está agora
Virado para baixo.

A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.

Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.

Qualquer coisa caiu
E tiniu no infinito.


                II

Na sombra Cleópatra jaz morta.
Chove.

Embandeiraram o barco de maneira errada.
Chove sempre.

Para que olhas tu a cidade longínqua?
Tua alma é a cidade longínqua.
Chove friamente.

E quanto à mãe que embala ao colo um filho morto —
Todos nós embalamos ao colo um filho morto.
Chove, chove.

O sorriso triste que sobra a teus lábios cansados,
Vejo-o no gesto com que os teus dedos não deixam os teus anéis.
Porque é que chove?


                III

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo?

Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Para mim próprio mesmo
Em alma mal existo,
Toma um outro sentido
Em mim o Universo —
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha ideia das coisas.

Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora —
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua —
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora.

Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.

E assim a hora passa
Metafisicamente.


                IV

As minhas ansiedades caem
Por uma escada abaixo
Os meus desejos balouçam-se
Em meio de um jardim vertical.

Na Múmia a posição é absolutamente exacta.

Música longínqua,
Música excessivamente longínqua,
Para que a Vida passe
E colher esqueça aos gestos.


                V

Porque abrem as coisas alas para eu passar?
Tenho medo de passar entre elas, tão paradas conscientes.
Tenho medo de as deixar atrás de mim a tirarem a Máscara.

Mas há sempre coisas atrás de mim.
Sinto a sua ausência de olhos fitar-me, e estremeço.
Sem se mexerem, as paredes vibram-me sentido.
Falam comigo sem voz de dizerem-me as cadeiras.
Os desenhos do pano da mesa têm vida, cada um é um abismo.

Luze a sorrir com visíveis lábios invisíveis
A porta abrindo-se conscientemente
Sem que a mão seja mais que o caminho para abrir-se.
De onde é que estão olhando para mim?
Que coisas incapazes de olhar estão olhando para mim?
Quem espreita de tudo?

As arestas fitam-me.
Sorriem realmente as paredes lisas.

Sensação de ser só a minha espinha.

As espadas.



Ó sino da minha aldeia



Poema de Fernando Pessoa (5-8-1921---hhh---, in "Renascença", Lisboa: Fev. 1924; "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, 1993 – p. 93-94)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua
Vibrante no céu deserto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.



Ela canta, pobre ceifeira



Poema de Fernando Pessoa (5-8-1921---hhh---, in "Athena", n.º 3, Lisboa: Dez. 1924; "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, 1993 – p. 108)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!



Gato que brincas na rua



Poema de Fernando Pessoa (1931---hhh---, "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, 1993 – p. 131)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

1-1931



LIBERDADE



Poema de Fernando Pessoa (---hhh---, in "Seara Nova", n.º 526, Coimbra: 11 Set. 1937; "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, 1993 – p. 244-245)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




                (Falta uma citação de Séneca)

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...



D. DINIS



Poema de Fernando Pessoa (9-2-1934---hhh---, in "Mensagem", Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934; "Mensagem", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. V, Lisboa: Edições Ática, 1945, 16.ª edição, 1994 – p. 33)
Recitado por João Villaret (in LP "João Villaret no São Luís", Parlophone/VC, 1959, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondula sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

9-2-1934



D. FILIPA DE LENCASTRE



Poema de Fernando Pessoa (26-9-1928---hhh---, in "Mensagem", Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934; "Mensagem", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. V, Lisboa: Edições Ática, 1945, 16.ª edição, 1994 – p. 35)
Recitado por João Villaret (in LP "João Villaret no São Luís", Parlophone/VC, 1959, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?

Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!

26-9-1928



O MOSTRENGO



Poema de Fernando Pessoa (9-9-1918---hhh---, in "Mensagem", Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934; "Mensagem", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. V, Lisboa: Edições Ática, 1945, 16.ª edição, 1994 – p. 64-65)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo,
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse,
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu!
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»



O MENINO DA SUA MÃE



Poema de Fernando Pessoa (---hhh---, in "Contemporânea", 3.ª série, n.º 1, Lisboa: 1926; "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, 1993 – p. 217-218)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.



O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia



Poema de Alberto Caeiro (---hhh---, poema XX de "O Guardador de Rebanhos", in "Athena", n.º 4, Lisboa: Jan. 1925; "Poemas de Alberto Caeiro", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. III, Lisboa: Edições Ática, 1946, 10.ª edição, 1993 – p. 46-47)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que está para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.



Li hoje quase duas páginas



Poema de Alberto Caeiro (---hhh---, poema XXVIII de "O Guardador de Rebanhos", in "Athena", n.º 4, Lisboa: Jan. 1925; "Poemas de Alberto Caeiro", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. III, Lisboa: Edições Ática, 1946, 10.ª edição, 1993 – p. 53-54)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.



Ontem à tarde um homem das cidades



Poema de Alberto Caeiro (---hhh---, poema XXXII de "O Guardador de Rebanhos", in "Athena", n.º 4, Lisboa: Jan. 1925; "Poemas de Alberto Caeiro", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. III, Lisboa: Edições Ática, 1946, 10.ª edição, 1993 – p. 56-58)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.

Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.

(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com o florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.)

E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem o poente com quem odeia ou ama?



Não consentem os deuses mais que a vida



Poema de Ricardo Reis (17-7-1914---hhh---, ode IV do Livro I, in "Athena", n.º 1, Lisboa: Out. 1924; "Odes de Ricardo Reis", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. IV, Lisboa: Edições Ática, 1946, 1987 – p. 37)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Não consentem os deuses mais que a vida.
Tudo pois refusemos, que nos alce
                A irrespiráveis píncaros,
                Perenes sem ter flores.
Só de aceitar tenhamos a ciência,
E, enquanto bate o sangue em nossas fontes,
                Nem se engelha connosco
                O mesmo amor, duremos,
Como vidros, às luzes transparentes
E deixando escorrer a chuva triste,
                Só mornos ao sol quente,
                E reflectindo um pouco.

17-7-1914



Como se cada beijo



Poema de Ricardo Reis (17-11-1923---hhh---, ode V do Livro I, in "Athena", n.º 1, Lisboa: Out. 1924; "Odes de Ricardo Reis", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. IV, Lisboa: Edições Ática, 1946, 1987 – p. 95)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


    Como se cada beijo
    Fora de despedida,
Minha Cloé, beijemo-nos, amando.
    Talvez que já nos toque
    No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
    E que no mesmo feixe
    Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.

17-11-1923



O ritmo antigo que há em pés descalços



Poema de Ricardo Reis (9-8-1914---hhh---, ode VI do Livro I, in "Athena", n.º 1, Lisboa: Out. 1924; "Odes de Ricardo Reis", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. IV, Lisboa: Edições Ática, 1946, 1987 – p. 47)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


O ritmo antigo que há em pés descalços,
Esse ritmo das ninfas repetido,
                Quando sob o arvoredo
                Batem o som da dança,
Vós na alva praia relembrai, fazendo,
Que escura a espuma deixa; vós, infantes,
                Que ainda não tendes cura
                De ter cura, reponde
Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo,
Como um ramo alto, a curva azul que doura,
                E a perene maré
                Flui, enchente ou vazante.

9-8-1914



Ponho na altiva mente o fixo esforço



Poema de Ricardo Reis (---hhh---, ode VII do Livro I, in "Athena", n.º 1, Lisboa: Out. 1924; "Odes de Ricardo Reis", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. IV, Lisboa: Edições Ática, 1946, 1987 – p. 158)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Ponho na altiva mente o fixo esforço
        Da altura, e à sorte deixo,
        E a suas leis, o verso;
Que, quando é alto e régio o pensamento,
        Súbdita a frase o busca
        E o escravo ritmo o serve.



Vem, Noite antiquíssima e idêntica



Poema de Álvaro de Campos (excerto de uma ode, 30-6-1914---hhh---, in "Revista de Portugal", n.º 4, Lisboa: Jul. 1938; "Poesias de Álvaro de Campos", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. II, Lisboa: Edições Ática, 1944, 1993 – p. 155-159)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas.
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo.
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora.
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela.
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto.
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...

Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

Vem, soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena.
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.

Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes.
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos.
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...

Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé-ante-pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil.

Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente como um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.

Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe que entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

A lua começa a ser real.

30-6-1914



Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa



Poema de Álvaro de Campos (---hhh---, in "Revista de Portugal", n.º 4, Lisboa: Jul. 1938; "Poesias de Álvaro de Campos", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. II, Lisboa: Edições Ática, 1944, 1993 – p. 126-129)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida —
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento de justiça, ou capitão de cavalaria
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!

Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.



TABACARIA



Poema de Álvaro de Campos (15-1-1928---hhh---, in "Presença", n.º 39, Coimbra: Jul. 1933; "Poesias de Álvaro de Campos", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. II, Lisboa: Edições Ática, 1944, 1993 – p. 252-259)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério duma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno — não concebo bem o quê —,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá, eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono do mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

15-1-1928



Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda (*)



Poema de Álvaro de Campos (excerto de "Se te queres matar, porque não te queres matar?", 26-4-1926, in "Poesias de Álvaro de Campos", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. II, Lisboa: Edições Ática, 1944, 1993 – p. 23-24)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá Carneiro", Parlophone/VC, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




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Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

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26-4-1926


(*) Texto integral em: http://arquivopessoa.net/textos/4360



José de Almada Negreiros, "Retrato de Fernando Pessoa", 1935, desenho a tinta-da-china sobre papel.



José de Almada Negreiros, "Retrato de Fernando Pessoa", 1954, óleo sobre tela, 200 x 200 cm, Museu da Cidade, Lisboa.
Executado para o café-restaurante Irmãos Unidos, que fora frequentado por Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros e outros colaboradores da revista "Orpheu" (da qual apenas saíram dois números). Em 1970, na sequência do encerramento do estabelecimento, a peça foi adquirida pela firma Decorações Mitnitzky. No mesmo ano, foi exposta no Salão de Antiguidades, onde foi comprada pelo banqueiro Jorge de Brito que a ofereceu à Câmara Municipal de Lisboa, em sessão solene realizada no Salão Nobre dos Paços do Concelho onde esteve exposta até à sua incorporação no acervo do Museu da Cidade. Desde 1993, a obra encontra-se em exposição na Casa Fernando Pessoa.



José de Almada Negreiros, "Retrato de Fernando Pessoa", 1964, óleo sobre tela, 225 x 226 cm, Centro de Arte Moderna – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
Réplica simétrica do quadro anterior, pintada por encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian, então presidida por José de Azeredo Perdigão.



José de Almada Negreiros, Heterónimos de Fernando Pessoa: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, 1957-61, desenhos, pormenor da fachada gravada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

19 novembro 2013

Celebrando Lucília do Carmo



«"A minha Mãe foi uma das fadistas mais importantes deste século [séc. XX]". A frase, de Carlos do Carmo, só peca por defeito: na verdade, não foi só deste mas será de todos os séculos, por muitos que passem e por muito bons fadistas que apareçam. Enquanto for possível preservar as memórias do Fado, o lugar de Lucília do Carmo como grande figura é inquestionável.
Nascida em Portalegre, nos finais de 1919 [4 de Novembro], aí ensaiou os primeiros voos, até sentir que os seus dotes seriam mais apreciados em Lisboa. Não se enganou. Deu nas vistas desde logo, estreando-se como profissional apenas com 17 anos e actuando nas melhores casas típicas de então. Casou com o empresário Alfredo de Almeida, homem cultivado e de apurado sentido artístico — era também actor amador — que seria determinante na modelação da excelente matéria-prima que era a voz de Lucília do Carmo, refinando-lhe as qualidades, cuidando das letras, instilando exigência. Em 1947, abriu uma casa de fados que se tornaria histórica, inicialmente chamada "Adega da Lucília", mais tarde "O Faia" [à rua da Barroca, no Bairro Alto]. A morte prematura do marido deixou, a Lucília do Carmo, uma viuvez assumida para sempre e um filho que assegurou a direcção da casa, antes e depois de se tornar, por mérito próprio, num consagrado intérprete.
No "Faia", Lucília do Carmo não temeu rodear-se (ao contrário de muitas "estrelas") de grandes vozes no elenco: Alfredo Marceneiro, Carlos Ramos, Tristão da Silva, Maria José da Guia, Beatriz da Conceição, entre muitos outros. A sua personalidade impunha-a, para além de artista, como anfitriã. Foi a penúltima grande dona de uma casa de fados (a última é Argentina Santos). Num contexto quase feudal, à moda antiga, tratada com reverência pelo pessoal, recebia como uma rainha, afável mas distante. Os grandes apreciadores não iam "aos fados", iam "à Lucília". Quando cantava, traçava o xaile de uma forma peculiar, emaranhava os dedos nos cadilhos, torcia-os levemente, semicerrava os olhos e dava primazia à voz, com a maior sobriedade, no que alguém definiu como "um porte de imperatriz".
Deixou uma discografia inversamente proporcional ao seu valor. Isto porque era avessa ao estúdio, ao ambiente das gravações, tanto quanto ao palco e às entrevistas. Quem a quisesse ouvir, em êxtase, era na sua casa. Aí, em duas ou três noites de privilégio, Maria Teresa de Noronha em visita e Alfredo Marceneiro deixavam-se ficar. Depois de sair o último cliente e todo o pessoal, apagavam-se as luzes e fechava-se a porta à chave, por dentro. Apenas com os guitarristas, num recanto da sala vazia, cada um dos três monstros sagrados pedia aos outros o que mais gostava de lhes ouvir. E era a magia de soberbas interpretações, na intimidade de grandes senhores de um género musical único, em partilha, na cumplicidade da ausência de testemunhas. Melhor dizendo, havia duas: José António Sabrosa, marido de Maria Teresa de Noronha, e o ainda adolescente Carlos do Carmo que aí decidiu pertencer também à raça dos eleitos.
Esta "biografia" permite acompanhar a evolução de Lucília do Carmo. As primeiras gravações patenteiam a voz muito clara e fresca da juventude, de tonalidades mais agudas do que mais tarde nos habituou, mas já com a dicção que lhe foi característica, matizando as vogais, arredondando-as, esculpindo-as a partir da vulgaridade de quem fala para as transformar em arte de quem canta. Os seus inconfundíveis "rr", rolados no ápex da língua — e não guturais, como é apanágio da pronúncia de Lisboa traziam a originalidade de se ouvirem pouco nos fadistas da capital. A maturidade trouxe segurança e cunho pessoal à interpretação. Deu-lhe uma voz mais volumosa e quente, até se apresentar ligeiramente velada com o tempo, o que no Fado é enriquecimento, mais uma cor a acrescentar à paleta que os grandes fadistas conseguem usar em plenitude até muito tarde, para regalo de quem os ouve. Constante foi a melhoria de sensibilidade fadista, o saber transmitir estados de alma enfatizando musicalmente a letra, daquela maneira que nem o poeta suspeita ao escrevê-la.
As duas faixas de abertura, "Recordações" e "Amor Desfeito", gravadas ainda em discos de 78 rotações, em 1958, são já um primor de qualidade, ainda sem grandes arrojos mas perfeitamente reveladoras de que uma voz nova e espectacular havia surgido no Fado de Lisboa. "Amor Desfeito" mostra uma curiosa transgressão ao Português, exigida pela métrica popular e condescendente, aquele "só tu fostes o culpado". Curiosa, por não ser fruto da ignorância nem do letrista nem da intérprete, logo adiante fiéis às regras em "foste mau, foste cruel". "Foi na Travessa da Palha" [1958], juntamente com "Olhos Garotos" [1958] e "Maria Madalena" [1968] são os primeiros êxitos da Artista. Neles Lucília do Carmo se evidencia por adequar as cambiantes melódicas às intenções dos versos, estes provenientes dos melhores letristas que, reparando no seu talento, lhe entregavam as produções, garantia de mútuo sucesso.
Teria sido erro não incluir a "Rapsódia de Fados" [1958] por excessivo escrúpulo dela conter imperfeições. Falamos do desrespeito pelo compasso patente no duplo remate do fado Sem Pernas e na entrada para o Mouraria, de resto soberbamente disfarçado pelos guitarristas. São faltas desculpáveis pelo arrebatamento da interpretação, em que o fadista muitas vezes não espera pelos guitarristas e deixa escapar os versos ou os prolonga um pouco mais porque a alma assim lho pede. Uma "biografia" é isso mesmo, o retrato tão fiel quanto possível de uma carreira. E esta rapsódia é, isso sim, uma portentosa manifestação do talento de Lucília do Carmo, a merecer análise mais detalhada. Para começar, é uma peça muito difícil, pois são vários fados num só, muito diferentes uns dos outros, havendo até mudanças de tom entre eles. A concentração para produzi-los tem de ser enorme e Lucília do Carmo consegue tratá-los, um por um, de uma forma superior. A letra muito castiça de Linhares Barbosa ajuda a identificá-los, pois menciona quase todos. Em contraste com o "triste Fado Menor" de abertura, o arranque vibrante e pleno de garra daquele "Guitarra toca o Corrido" é, só por si, um paradigma. Opõe-se-lhe a suavidade com que é abordado o Dois Tons. E que dizer do "Devagar, guitarra amiga..." que inicia o Sem Pernas? O Mouraria, arrastado como compete, é a prova de que se canta diferentemente do Corrido e não é só o desenho melódico da guitarra (aqui a fazer um Mouraria Antigo) que lhe determina a casta.
Fado raro, pouco ouvido, é o fado Macau, dando suporte à letra do "Manjerico" [1960] e mostrando-nos uma Lucília do Carmo tão à-vontade nos fados saltadinhos e vivos como nos fados lentos. Chegamos a "Não Voltes à Minha Porta" [1966], uma belíssima letra de Frederico de Brito, a surpreender pelo inesperado conceito com que termina cada sextilha. Pedra de toque para avaliar fadistas, a "Marcha do Marceneiro" tem nesta interpretação de Lucília do Carmo uma das suas mais elevadas expressões. A alternância entre os timbres doces e ásperos, o domínio da dinâmica vocal, das suspensões, podiam ser matéria de estudo, se a houvesse, para novos fadistas.
"Madragoa" [1966], outro ponto alto desta "biografia", da carreira da Artista e da História do Fado, é um monumento comovente a um bairro, àquilo que deve ser uma letra de fado, a uma voz que sabemos não ter substituta. Ouve-se com a certeza de que mais ninguém cantará este fado como ela cantou. O crescendo de qualidade que José Pracana teve o cuidado de garantir nesta compilação conduz-nos à talvez maior e mais emblemática criação de Lucília do Carmo: "Maria Madalena" [1968, com letra de Gabriel de Oliveira sobre uma quadra de Augusto Gil]. Num fado antigo e tradicional, o Mouraria, é inolvidável a impressão que nos causa e, por muitas vezes que se oiça, cada vez se gosta mais. "Tia Dolores" [1968] combina-se bem com a fase da vida em que Lucília do Carmo a cantou. Com a autoridade de mãe, com uma ou outra ruga na voz dos 48 anos, com todo o calor aveludado do seu timbre único, oferece-nos um Linhares Barbosa originalíssimo no tratamento do tema, por ela transformado em êxito. Melhor técnica de gravação, apuro de guitarristas da melhor craveira, "Leio em Teus Olhos" é de 1971: era um dos temas que Maria Teresa de Noronha e Alfredo Marceneiro sempre lhe pediam que cantasse, quando a iam ouvir. A despedida é feita com "Zé Maria" (faixa 20), um fado-marcha, popular, santantonino, de que Lucília do Carmo não foi cultora mas nos deixou como brinde.
Uma palavra para a poética escolhida por esta grande intérprete. À parte algumas letras dedicadas a Lisboa ("Madragoa", "Sete Colinas") e a um ou outro fado descritivo ("Naquela Azenha Velhinha", "Tia Dolores"), Lucília do Carmo cantou principalmente o Amor. Com toda a alma feminina, um amor-drama, contrariado, traído ou impossível, mas sempre intenso. Como em poucos vultos do Fado, o casticismo, a energia austera do seu "estilar" atenuou a fronteira entre fado tradicional e fado-canção. Cultivou os dois, com raro acerto e, sobretudo, com superior bom gosto.» [Daniel Gouveia, Janeiro de 1998, texto inserto no caderno do CD "Lucília do Carmo", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998]

Nota: A citada antologia é hoje muito difícil de encontrar nas lojas de discos, mas há outra editada uma década mais tarde, pela Iplay, com o título "O Melhor de Lucília do Carmo" (a cuja capa pertence a imagem do topo), que tem dez temas em comum com aquela, se bem que em dois casos as gravações sejam diferentes.


Lucília do Carmo faleceu a 19 de Novembro de 1998, faz hoje quinze anos. Oportunidade para o blogue "A Nossa Rádio" a homenagear apresentando uma mão-cheia dos mais belos espécimes do seu repertório.
Apesar de ser uma figura grada do Fado, e da Música Portuguesa globalmente considerada, Lucília do Carmo tem sido tremendamente negligenciada pela estatal Antena 1, a mesma que tem a obrigação, legalmente estabelecida, de divulgar o nosso património musical/fonográfico mais valioso e perene. Será aceitável e razoável que uma artista de tal dimensão esteja excluída da 'playlist' e que apenas um ou outro dos seus fados apareça de tempos a tempos (intervalos de meses) na rubrica "Alma Lusa"?



É Loucura



Letra: Júlio de Sousa
Música: Júlio de Sousa (Fado Loucura)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP "Recordações", Decca/VC, 1972; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990; CD "O Melhor de Lucília do Carmo", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Sou do fado como sei,
Vivo um poema cantado
Dum fado que eu inventei.
A falar não posso dar-me,
Mas ponho a alma a cantar,
E as almas sabem escutar-me.

Chorai, chorai, poetas do meu país,
Troncos da mesma raiz
Da vida que nos juntou!
E se vocês não estivessem a meu lado,
Então... não havia fado
Nem fadistas como eu sou.

Esta voz, tão dolorida,
É culpa de todos vós,
Poetas da minha vida.
"É loucura!", oiço dizer,
Mas bendita esta loucura
De cantar e de sofrer.

Chorai, chorai, poetas do meu país,
Troncos da mesma raiz
Da vida que nos juntou!
E se vocês não estivessem a meu lado,
Então... não havia fado
Nem fadistas como eu sou.

[instrumental]

Então... não havia fado
Nem fadistas como eu sou.


* Fernando Freitas e António Chainho – guitarras portuguesas
José Maria Nóbrega e Orlando Silva – violas
Raul Silva – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Naquela Azenha Velhinha



Letra e música: Frederico de Brito
Criação: Maria Alice (1931)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP "Lucília do Carmo" ("Naquela Azenha Velhinha"), Decca/VC, 1960; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990; CD "Lucília do Carmo", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998; CD "O Melhor de Lucília do Carmo", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




Aquela azenha velhinha,
Na margem da ribeirinha
Que por vales serpenteia,
Foi testemunha impassível
Da tragédia mais horrível
Que houvera na minha aldeia.

Era uma tarde de inverno
O céu parecia um inferno,
Estavam os astros em guerra;
A ribeira mal sustinha
A grande cheia que vinha
Pelas vertentes da serra.

Vendo a ribeira a subir,
O moleiro quis fugir
Levando o filho nos braços
Pela ponte carcomida
Já velhinha e ressequida
A desfazer-se em pedaços.

Mas ai, a ponte quebrou-se
E o moleiro, como fosse
Na cheia da ribeirinha,
Levou o filho consigo;
E nunca mais moeu trigo
Aquela azenha velhinha.


* Jaime Santos – guitarra portuguesa
Martinho d'Assunção – viola
Gravado no Teatro Taborda, Costa do Castelo (Lisboa), em Maio de 1960
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Bons Dias, Menino



Letra: Júlio de Sousa
Música: Mário Moniz Pereira
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP "Lucília do Carmo", Trova, 1978, reed. Fatum/UPAV, 1992, Universal, 2003)


[instrumental]

Menino, menino!
Tens olhos de sono,
Menino tão fino,
Cãozinho sem dono.

Bons dias, menino!
Aceita, são meus!
Àquele menino
Ninguém diz adeus,
Ninguém diz adeus.

De manhã, muito cedinho,
Do outro lado da estrada
Anda um menino magrinho
De mala gorda e pesada.

Nervoso, triste e alheio,
Vai e vem sem descansar;
Dá pontapés no passeio,
Na bola do seu pensar.

Menino, menino!
Tens olhos de sono,
Menino tão fino,
Cãozinho sem dono.

Bons dias, menino!
Aceita, são meus!
Àquele menino
Ninguém diz adeus,
Ninguém diz adeus.

Lá vem o carro atrasado
P'ra o colégio onde o meteram;
Querem vê-lo bem formado
Nas formas que não lhe deram.

Olho as janelas em frente,
Não vejo os braços da mãe:
Dorme regaladamente
Nos braços não sei de quem.

Menino, menino!
Tens olhos de sono,
Menino tão fino,
Cãozinho sem dono.

Bons dias, menino!
Aceita, são meus!
Àquele menino
Ninguém diz adeus,
Ninguém diz adeus.

[instrumental]
Bons dias, menino!
Aceita, são meus!
Àquele menino
Ninguém diz adeus.
Àquele menino
Só eu digo adeus.


António Chainho – 1.ª e 2.ª guitarras portuguesas
Martinho d'Assunção – viola
José Maria Nóbrega – viola baixo
Técnico de som – José Manuel Fortes
Mistura – Luís Alcobia



Olhos Garotos



Letra: João Linhares Barbosa
Música: Jaime Santos
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP "Olhos Garotos", Decca/VC, 1958; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990; CD "Lucília do Carmo", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998; CD "O Melhor de Lucília do Carmo", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




Diz aos teus olhos garotos,
Vivos, marotos,
Pretos, rasgados,
Que não andem p'las esquinas
Feitos traquinas
E malcriados.

Que não sigam as meninas
Simples, ladinas
Dos olhos meus;
De tudo acho capazes
Os maus rapazes
Dos olhos teus.

Teus olhos amendoados
São comparados
A dois cachopos
Que quando topam meninas
P'las esquinas
Dizem piropos.

É preciso que lhes digas
Que as raparigas
Nem todas são
Como as pedras que há nas ruas,
Gastas e nuas,
Sem coração.

Diz-lhes tudo sem ralhar,
Sem te zangar,
Tem mil cuidados;
Sim, que para entristecê-los
Prefiro vê-los
Nos seus pecados.

Não quero os teus lindos olhos
Correndo abrolhos;
Livre-nos Deus
Que causassem tais ruínas
Estas meninas
Dos olhos meus.


* Francisco Carvalhinho – guitarra portuguesa
Martinho d'Assunção – viola
Gravado no Teatro Taborda, Costa do Castelo (Lisboa), em Junho de 1958
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Contentamento



Letra e música: Mário Moniz Pereira
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP "Recordações", Decca/VC, 1972; CD "Maria Madalena", col. Caravela, EMI-VC, 1997)


[instrumental]

Nem tu podes saber, sou tão diferente
Nos minutos que estou ao pé de ti:
Todo o meu ser desperta e me sorri,
Sinto a vida a correr tão docemente.

E sou feliz,
Sorridente, apaixonada,
Porque te quis,
Porque te quero e mais nada.

Só peço a Deus
Que te conserve a meu lado,
Porque assim este meu fado
Nunca terá um adeus.

E não quero mais nada, estou contente;
Esqueço tudo aquilo que perdi
E fico à tua beira sempre ali
Enquanto a minha sina me consente.

E sou feliz,
Sorridente, apaixonada,
Porque te quis,
Porque me queres e mais nada.

Só peço a Deus
Que te conserve a meu lado,
Porque assim este meu fado
Nunca terá um adeus.

[instrumental]

Só peço que a Deus
Que te conserve a meu lado,
Porque assim este meu fado
Nunca terá um adeus.


* Conjunto de Guitarras de Raul Nery
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Novembro de 1971
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Pequenas Felicidades



Letra e música: Mário Moniz Pereira
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP "Recordações", Decca/VC, 1972; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990; CD "Fado em Tom Maior", EMI-VC, 1995; CD "O Melhor de Lucília do Carmo", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




O nosso amor são pequenas felicidades,
São sorrisos, são tristezas,
Algumas leviandades
E também muitas certezas;
Cresce sempre, nunca cansa,
Tudo nele são verdades:
É certeza, não é esperança,
Não tem lugar p'ra maldades.

O nosso amor são pequenas felicidades,
São sorrisos, são tristezas,
Algumas leviandades
E também muitas certezas;
Aumenta todos os dias
Desde manhã ao sol-pôr,
Aquece as noites mais frias:
Enfim, é o nosso amor.

O nosso amor são pequenas felicidades
São sorrisos, são tristezas,
Algumas leviandades
E também muitas certezas;
Um dia tem de morrer
E muitos virão depois:
Quando isto suceder
Já cá não estamos os dois.

[instrumental]

Quando isto suceder
Já cá não estamos os dois.


* Conjunto de Guitarras de Raul Nery
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Novembro de 1971
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Leio em Teus Olhos



Letra e música: Mário Moniz Pereira
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP "Recordações", Decca/VC, 1972; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990; CD "Fado em Tom Maior", EMI-VC, 1995; CD "Lucília do Carmo", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998; CD "O Melhor de Lucília do Carmo", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Leio em teus olhos
Que o nosso amor está cansado
Leio em teu olhos
Recordações do passado
Leio em teus olhos
Que já não sou nesta hora
O que fui p'ra ti outrora
Leio em teus olhos

O amor de alguém
É inconstante
Logo que ele vem
Vai num instante
Vê lá se o teu
Não está já muito diferente
Continua igual ao meu
Como ele era antigamente

Leio em teus olhos
Que o nosso amor está cansado
Leio em teus olhos
Recordações do passado
Leio em teus olhos
Que já não sou nesta hora
O que fui p'ra ti outrora
Leio em teus olhos

[instrumental]

Leio em teus olhos
Que já não sou nesta hora
O que fui p'ra ti outrora
Leio em teus olhos


* Conjunto de Guitarras de Raul Nery
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Novembro de 1971
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Quem Pode Viver Contente?



Letra: Gabriel de Oliveira
Música: Francisco Viana (Fado Vianinha)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP "Foi na Travessa da Palha", Decca/VC, 1958; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990)


[instrumental]

De noite e dia a penar
Quem pode viver contente?
Não sabes o que é gostar
De quem não gosta da gente.

Não sabes, tenho a certeza,
Mal de amores avaliar,
Nem vês a minha tristeza
De noite e dia a penar.

Mal pensava que vivia
Conjugando o verbo amar
Quando a brincar te dizia:
"Não sabes o que é gostar."

Na vida por Deus imposta
Há tortura transcendente:
É sofrer porque se gosta
De quem não gosta da gente.


* Francisco Carvalhinho – guitarra portuguesa
Martinho d'Assunção – viola
Gravado no Teatro Taborda, Costa do Castelo (Lisboa), em Junho de 1958
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Não Me Conformo



Letra e música: Mário Moniz Pereira
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP "Recordações", Decca/VC, 1972; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990; CD "O Melhor de Lucília do Carmo", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)


[instrumental]

Não sei como pudeste descansar
Noutros braços, sabendo que estou triste;
Nem um remorso só te faz lembrar
O que te dei e tu retribuíste.

Mas como, santo Deus, tudo apagado
Nesse teu coração descontrolado,
Sabendo tu que o meu se queimaria
Numa saudade viva dia-a-dia?!

Bem sei que todo o bem tem sempre um fim...
Mas não, não me conformo assim!

Entre nós dois estão sempre de permeio
Doces recordações a que me agarro,
Na estante o livro que deixaste em meio,
No meu cinzeiro o último cigarro,

O lenço que me deste nos meus anos,
Mortalha doutros tantos desenganos,
Onde guardo o que resta desse adeus
Que os teus olhos trocaram com os meus.

Bem sei que todo o bem tem sempre um fim...
Mas não, não me conformo assim!

[instrumental]

Bem sei que todo o bem tem sempre um fim...
Mas não, não me conformo assim!


* Conjunto de Guitarras de Raul Nery
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Novembro de 1971
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Preciso de Te Ver



Letra: Vasco de Lima Couto
Música: José Joaquim Cavalheiro Júnior (Fado Menor do Porto)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP "Recordações", Decca/VC, 1972; CD "Maria Madalena", col. Caravela, EMI-VC, 1997)




Eu preciso de te ver,
Ausente amor sem razão,
Para te mostrar as sombras
Do quarto da solidão.

Eu preciso de te ver
Para fugir deste frio
Que voa dentro de mim
Como as gaivotas no rio.

Eu preciso de te ver
Para afastar esta saudade
Que já começa a vestir
O tempo da minha idade.

Como ganhei a coragem
Da areia a beber a espuma,
Eu preciso de te ver
Mais uma vez, só mais uma.


* Fernando Freitas e António Chainho – guitarras portuguesas
José Maria Nóbrega e Orlando Silva – violas
Raul Silva – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Vou Lá Ter



Letra e música: Mário Moniz Pereira
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP "Lucília do Carmo", Trova, 1978, reed. Fatum/UPAV, 1992, Universal, 2003)


Partiste, tudo na vida tem fim
Sempre disse cá p'ra mim
Que isto iria acontecer
Partiste, mas a culpa não foi minha
Foi da vida que caminha
Muito depressa a correr
Partiste, foi-se o amor, veio a amizade
Esta nova realidade
Não quiseste compreender

Agora, prefiro ser a ternura
Que estando só é mais pura
Que estando triste não chora
Sem ti, é mais fácil eu saber
Que a vida está por viver
E que ainda não morri

Partiste p'ra longe da minha vista
Pode ser que assim resista
À tentação de te ver
Partiste, continua sempre em frente
E não voltes de repente
Que te vais arrepender
Partiste, por favor não voltes mais
Mas não digas p'ra onde vais
Se não queres que eu vá lá ter

Agora, prefiro ser a ternura
Que estando só é mais pura
Que estando triste não chora
Sem ti é mais fácil eu saber
Que a vida está por viver
E que ainda não morri

[instrumental]

Partiste, por favor não voltes mais
Mas não digas p'ra onde vais
Se não queres que eu vá lá ter


* António Chainho – 1.ª e 2.ª guitarras portuguesas
Martinho d'Assunção – viola
José Maria Nóbrega – viola baixo
Técnico de som – José Manuel Fortes
Mistura – Luís Alcobia



Verdades Que a Noite Encobre



Letra: Matos Maia
Música: Armando Augusto Freire, vulgo Armandinho
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP "Verdades Que a Noite Encobre", Decca/VC, 1968; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990; CD "O Melhor de Lucília do Carmo", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)


Madrugada sem luar
Onde o meu pobre cantar
É uma estrela escondida;
Noites perdidas de fado
Onde canto o meu passado,
Onde me sinto perdida.

Ando assim em penitência
Recordando a tua ausência,
Sofrendo a cada momento;
Ando morrendo na vida,
Pois a tua imagem querida
É o meu maior tormento.

Verdades que a noite encobre
Neste soluço tão pobre
Que finge toda uma vida:
Riso, pranto, agonia,
Pois é assim o meu dia
Depois da tua partida.


* Francisco Carvalhinho e Ilídio dos Santos – guitarras portuguesas
Orlando Silva – viola
Liberto Conde – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Junho de 1968
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Amor Desfeito



Letra: D.R. (Direitos Reservados)
Música: Jaime Santos (Fado da Bica)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in single 78 rpm "Recordações / Amor Desfeito", His Mater's Voice/VC, 1958; CD "Lucília do Carmo", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998)


[instrumental]

Se o nosso amor se desfez
Só tu foste o culpado;
Porque sofres quando vês
Outro homem a meu fado?

Foste mau, foste cruel,
Não me queixei a ninguém;
Bebi lágrimas de fel
Suportando o teu desdém.

Dizes que não descansas
E que me vês em teus sonhos;
Ai a dor são as lembranças
Dos teus remorsos medonhos.

É Deus que te faz sofrer,
Vê lá bem o teu castigo:
Dormes com outra mulher
E sonhas sempre comigo.

Minhas mãos já não te afagam,
O meu desprezo é enorme;
Cá se fazem, cá se pagam,
Bem sabes que Deus não dorme.

[instrumental]


* Jaime Santos – guitarra portuguesa
Alfredo Mendes – viola
Gravado no Teatro Taborda, Costa do Castelo (Lisboa), em 1958
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Não Gosto de Ti!



Letra: Alberto Barbosa, José Galhardo e Vasco Santana
Música: Raul Ferrão
Criação: Mirita Casimiro (na opereta "Noite de S. João", 1943)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP "Verdades Que a Noite Encobre", Decca/VC, 1968; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990; CD "O Melhor de Lucília do Carmo", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




Já vivi por te amar
Por te amar, já vivi;
Chego mesmo a pasmar
Desse amor que eu senti.

Nem consigo encontrar
A paixão que voou:
Talvez ande pelo ar
Porque o vento a levou.

Eu dantes cantava
Da aurora ao sol-pôr;
Confesso que amava,
Gostava, gostava,
Gostava do teu amor.

Mais tarde o teu rosto
P'ra sempre esqueci;
Agora não gosto,
Não gosto, não gosto,
Não gosto de ti!

Este ideal, todo ideal,
Esta dor que faz dor
Só é mal que faz mal
Quando o amor é amor.

Diz que dói, já não dói,
Tinha fé, foi-se a fé;
Como foi que isto foi?
É que o amor é como é!

Eu dantes cantava
Da aurora ao sol-pôr;
Confesso que amava,
Gostava, gostava,
Gostava do teu amor.

Mais tarde o teu rosto
P'ra sempre esqueci;
Agora não gosto,
Não gosto, não gosto,
Não gosto de ti!


* Francisco Carvalhinho e Ilídio dos Santos – guitarras portuguesas
Orlando Silva – viola
Liberto Conde – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Junho de 1968
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Desespero



Letra: João Linhares Barbosa
Música: Jaime Santos (Fado Alfacinha)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP "Lucília do Carmo" ("Naquela Azenha Velhinha"), Decca/VC, 1960; CD "Lucília do Carmo", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998)


[instrumental]

Amei-te com desespero,
Mais do que eu ninguém te quis;
Agora que te não quero
Vejo as figuras que fiz.

Vibrava o teu coração,
Logo o meu também vibrava;
A tua respiração
Era o ar que eu respirava.

Se me oferecessem um trono,
Um palácio ou um altar,
Votava a tudo abandono
Em troca dum teu olhar.

O vento/ódio quebrou os ramos,
Da nossa ilusão florida;
Quando nos habituamos
Sofre-se menos na vida.

Se me perguntam por ti,
Pois que nada padeço,
Respondo: "Não conheci,
Não conheci nem conheço."


* Jaime Santos – guitarra portuguesa
Martinho d'Assunção – viola
Gravado no Teatro Taborda, Costa do Castelo (Lisboa), em Maio de 1960
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Podemos Ser Amigos



Letra: João da Mata
Música: Miguel Ramos (Fado Alberto)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP "Olhos Garotos", Decca/VC, 1958; CD "Lucília do Carmo", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998)


Agora que entre nós tudo acabou,
Depois de tantas zangas e castigos,
Agora que és livre e eu também estou
Podemos, afinal, ser bons amigos.

A vida insuportável que levámos,
As privações imensas que sofremos,
As discussões inúteis que travámos
Serviram só pelo muito que aprendemos.

Eu aprendi verdades que ignorava,
Tu leste o que a minh'alma continha:
Nem tu eras o homem que eu sonhava,
Nem eu era a mulher que te convinha.

Agora apenas somos bons amigos
Porque entre nós não pode haver mais nada:
Vale mais a amizade sem castigos
Do que o prazer da carne torturada.

E como tu és livre e eu sou também,
Podemos ser felizes e risonhos:
Já eu sou a mulher que te convém
E já tu és o homem dos meus sonhos.


* Francisco Carvalhinho – guitarra portuguesa
Martinho d'Assunção – viola
Gravado no Teatro Taborda, Costa do Castelo (Lisboa), em Junho de 1958
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Maria Madalena



Letra: Augusto Gil (1.ª quadra) e Gabriel de Oliveira
Música: Popular (Fado Mouraria); arr. Lucília do Carmo
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP "Verdades Que a Noite Encobre", Decca/VC, 1968; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990; CD "Lucília do Carmo", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998; CD "O Melhor de Lucília do Carmo", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Quem por amor se perdeu
Não chore, não tenha pena!
Uma das santas do céu
Foi Maria Madalena.

Desse amor que nos encanta
Até Cristo padeceu
Para poder tornar santa
Quem por amor se perdeu.

Jesus só nos quis mostrar
Que o amor não se condena;
Por isso quem sabe amar
Não chore, não tenha pena!

A Virgem Nossa Senhora,
Quando o amor conheceu,
Fez da maior pecadora
Uma das santas do céu.

E de tanta que pecou,
Da maior à mais pequena,
Aquela que mais amou
Foi Maria Madalena.


* Francisco Carvalhinho e Ilídio dos Santos – guitarras portuguesas
Orlando Silva – viola
Liberto Conde – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Junho de 1968
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Não Vou, Não Vou



Letra: Júlio de Sousa
Música: Mário Moniz Pereira
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP "Lucília do Carmo", Trova, 1978, reed. Fatum/UPAV, 1992, Universal, 2003)


Eu tinha as chaves da vida e não abri
As portas onde morava a felicidade;
Eu tinha as chaves da vida e não vivi:
A minha vida foi toda uma saudade.

E tanta ilusão que tive e foi perdida,
E tanta esperança no amor foi destroçada;
Não sei porque me queixo desta vida
Se não quero outra vida para nada.

Se foi p'ra isto que nasci,
Se foi p'ra isto que hoje sou,
Se foi só isto que mereci,
Não vou, não vou.
Podem passar bocas pedindo,
Olhos em fogo, tudo acabou;
Pode passar o amor mais lindo,
Não vou, não vou.

Eu tinha as chaves da vida e fui roubada,
Mataram dentro de mim toda a poesia:
Deixaram só tristeza sem mais nada
E a fonte dos meus olhos que eu não queria.

Se foi p'ra isto que nasci,
Se foi p'ra isto que hoje sou,
Se foi só isto que mereci,
Não vou, não vou.
Podem passar bocas pedindo,
Olhos em fogo, tudo acabou;
Pode passar o amor mais lindo,
Não vou, não vou.

[instrumental]

Podem passar bocas pedindo,
Olhos em fogo, tudo acabou;
Pode passar o amor mais lindo,
Não vou, não vou.


António Chainho – 1.ª e 2.ª guitarras portuguesas
Martinho d'Assunção – viola
José Maria Nóbrega – viola baixo
Técnico de som – José Manuel Fortes
Mistura – Luís Alcobia



A Cor da Mágoa



Letra: Mário Martins
Música: Popular (Fado Corrido)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP "A Cor da Mágoa", Decca/VC, 1968; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990; CD "Fado em Tom Maior", EMI-VC, 1995)




[instrumental]

Por razões desconhecidas,
Vesti os meus sentimentos
De seda da cor das mágoas
E à moda dos desalentos.

Quis fazer do sonho a vida,
E como compensação
A vida fez do meu sonho
Uma enorme decepção.

O sonho é pena que voa
Ao sabor da viração:
Dá-lhe a chuva, cai molhado,
Agarra-se ao coração.

Sentir pecado maior
Que roubar o que é de alguém:
Sentir a ambição estranha
De querer mais do que se tem.


* Francisco Carvalhinho e Ilídio dos Santos – guitarras portuguesas
Orlando Silva – viola
Liberto Conde – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Junho de 1968
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Antes Nada Saber



Letra e música: Júlio de Sousa
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP "Lucília do Carmo", Trova, 1978, reed. Fatum/UPAV, 1992, Universal, 2003)


[instrumental]

Senhor, perdoai, perdoai!...
Eu não sabia
Que a vida não era somente
O que eu queria.

Crianças tão lindas chorando
E homens armados rezando
Pelos seus irmãos de crenças iguais, magoadas;
E mães que embalavam de amor os filhos mortos
E flores nos jardins da cidade, pisadas.

E jovens que queriam cantar
A velhice inconsciente que ria.
Senhor, perdoai meu desabafar!
Eu não sabia...

Eu não sabia, eu não pensava
Que a vida estava onde ela estava.
A minha dor não existia.
Tudo era belo e me sorria;
Deixei de vê-la e tudo vi...
Antes nada saber do que aprendi.

[instrumental]

Deixei de vê-la e tudo vi...
Antes nada saber do que aprendi.


* António Chainho – 1.ª e 2.ª guitarras portuguesas
Martinho d'Assunção – viola
José Maria Nóbrega – viola baixo
Técnico de som – José Manuel Fortes
Mistura – Luís Alcobia



Tudo Isto É Fado



Letra: Aníbal Nazaré
Música: Fernando Carvalho
Criação: Irene Isidro (1950)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP "Recordações", Decca/VC, 1972; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990; CD "O Melhor de Lucília do Carmo", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado;
Eu disse que não sabia,
Tu ficaste admirado.

Sem saber o que dizia,
Eu menti naquela hora
E disse que não sabia,
Mas vou-te dizer agora:

Almas vencidas,
Noites perdidas,
Sombras bizarras;
Na Mouraria
Cantam rufias,
Choram guitarras.

Amor, ciúme,
Cinzas e lume,
Dor e pecado:
Tudo isto existe,
Tudo isto é triste,
Tudo isto é fado.

Se queres ser o meu senhor
E teres-me sempre a teu lado,
Não me fales só de amor:
Fala-me também do fado.

É canção que é meu castigo,
Só nasceu p'ra me prender:
O fado é tudo o que eu digo
Mais o que eu não sei dizer.

Almas vencidas,
Noites perdidas,
Sombras bizarras;
Na Mouraria
Cantam rufias,
Choram guitarras.

Amor, ciúme,
Cinzas e lume,
Dor e pecado:
Tudo isto existe,
Tudo isto é triste,
Tudo isto é fado.

[instrumental]

Amor, ciúme,
Cinzas e lume,
Dor e pecado:
Tudo isto existe,
Tudo isto é triste,
Tudo isto é fado.


* Fernando Freitas e António Chainho – guitarras portuguesas
José Maria Nóbrega e Orlando Silva – violas
Raul Silva – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Rapsódia de Fados



Letra: João Linhares Barbosa
Música: Popular (Fado Menor, Fado Corrido, Fado Dois Tons, Fado sem Pernas e Fado Mouraria)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP "Olhos Garotos", Decca/VC, 1958; CD "Lucília do Carmo", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998)


O triste Fado Menor
Fez-me soltar mil queixumes:
Queixumes do meu amor
Que me mata de ciúmes.

O meu amor desprezou-me,
Trocou-me a outra mulher;
Mas o que mais me consome
É o que ele anda a dizer.

Guitarra, toca o Corrido!
Quero deixar de ser triste,
Fazer de conta que ele
Já para mim não existe.

Dá mais valor aos teus dons!
Deixa-me cantar contigo
No Corrido ou no Dois Tons
Já que ele correu comigo!

Devagar, guitarra amiga,
Que o meu peito já cansou!
Esqueceu-me uma cantiga
Que o meu amor me ensinou.

Mudaste p'ra o Mouraria,
Triste fado da Severa;
Não posso ter alegria,
Meu coração ainda o espera.


* Francisco Carvalhinho – guitarra portuguesa
Martinho d'Assunção – viola
Gravado no Teatro Taborda, Costa do Castelo (Lisboa), em Junho de 1958
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Desgarrada



Letra: João Linhares Barbosa e Guilherme Pereira Rosa
Música: Popular (Fado Menor)
Intérpretes: Lucília do Carmo* e Carlos do Carmo (in EP "Lucília do Carmo" ("Sete Colinas"), Philips, 1966; LP "Fado Lisboa: An Evening at the 'Faia'", Philips, 1966, reed. Universal, 2003, 2013)


[instrumental]

A guitarra é toda oca,
Roubaram-lhe o coração;
Por isso anda como louca
A chorar de mão em mão.

Toda a folha que foi verde
Se arrasta nos vendavais:
O vento a leva e a perde,
Ao tronco não volta mais.

Aos bocadinhos sofrendo
Ponho de parte as tristezas,
E assim cá vou vivendo
Nesta vida de incertezas.

Às vezes é um disfarce
O ódio que a gente sente:
É a saudade a lembrar-se
De quem se esquece da gente.

O fado tenho cantado
Por esta Lisboa à toa:
Não há Lisboa sem fado,
Não há fado sem Lisboa.


* Jaime Santos e Ilídio dos Santos – guitarras portuguesas
Orlando Silva – viola
José Maria Nóbrega – viola baixo
Técnico de som – Henk Jansen



Antigamente



Letra: Frederico de Brito
Música: Júlio Proença (Fado Modesto)
Criação: Amália Rodrigues (1955) Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP "Recordações", Decca/VC, 1972; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990; CD "Fado em Tom Maior", EMI-VC, 1995; CD "O Melhor de Lucília do Carmo", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)


[instrumental]

Antigamente era couto a Mouraria
Daquela gente condenada à revelia;
O fado ameno, canção das mais portuguesas,
Era o veneno p'ra lhes matar as tristezas.

A Mouraria, mãe do fado doutras eras,
Que foi ninho de Severas,
Que foi bairro turbulento,
Perdeu agora todo o aspecto de galdéria:
Está mais limpa, está mais séria,
Mais fadista cem por cento.

Adeus tipóias com pilecas e guizeiras,
Adeus rambóias e cafés de camareiras;
Nada mais resta da moirama que deu brado
Do que a funesta lembrança dum passado.

A Mouraria, que perdeu em tempos idos
A nobreza dos sentidos
E o poder de uma virtude,
Salvou ainda toda a graça que ela tinha
Agarrada à capelinha
Da Senhora da Saúde.

[instrumental]

Salvou ainda toda a graça que ela tinha
Agarrada à capelinha
Da Senhora da Saúde.


* Fernando Freitas e António Chainho – guitarras portuguesas
José Maria Nóbrega e Orlando Silva – violas
Raul Silva – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Madragoa



Letra: José Galhardo
Música: Raul Ferrão
Criação: Mirita Casimiro (na opereta "Senhora da Atalaia", 1937)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP "Lucília do Carmo" ("Sete Colinas"), Philips, 1966; LP "Fado Lisboa: An Evening at the 'Faia'", Philips, 1966, reed. Universal, 2003, 2013; CD "Lucília do Carmo", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998)


Ó Madragoa
Das Bernardas e das Trinas
Dos padeiros, das varinas
Da tradição
És a Lisboa
Que nos fala doutra idade
Doutros tempos da cidade
Que já lá vão

Bairro cercado
Por igrejas e conventos
Com tão santos monumentos
Na vizinhança
Meu bairro amado
Vem mostrar que é bem verdade
Que entre a fé e a caridade
Pôs Deus a Esperança

Ó Madragoa
Que és a mãe da minha mãe
Ó gente boa
Do meu bairro, escutem bem
És a Lisboa
Do progresso e da vaidade
É ali na Madragoa
Que mora a saudade

És Madragoa
Mais cristã que a Mouraria
Mais alegre que a Alegria
E até mais bela
Doa a quem doa
Não há bairro com mais raça
Com mais graça até que a Graça
Mais luz que a Estrela

Ali viveram
Esses bravos mareantes
Foi ali que os navegantes
Fizeram ninho
Muitos morreram
Mas há um que o povo adora
Esse herói que o povo chora
Gago Coutinho

Ó Madragoa
Que és a mãe da minha mãe
Ó gente boa
Do meu bairro, escutem bem
És a Lisboa
Do progresso e da vaidade
É ali na Madragoa
Que mora a saudade

[instrumental]

És a Lisboa
Do progresso e da vaidade
É ali na Madragoa
Que mora a saudade.


* Jaime Santos e Ilídio dos Santos – guitarras portuguesas
Orlando Silva – viola
José Maria Nóbrega – viola baixo
Técnico de som – Henk Jansen



Anda a Saudade Bem Alta



Letra: Gabriel de Oliveira
Música: Alberto Costa
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP "Recordações", Decca/VC, 1972; 2LP/CD "O Melhor de Lucília do Carmo", EMI-VC, 1990; CD "Fado em Tom Maior", EMI-VC, 1995; CD "O Melhor de Lucília do Carmo", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Bairro Alto, que alto estás
No coração da cidade;
O teu próprio nome traz
Bem alta a minha saudade.

Parece que o fado falta
No Bairro Alto, talvez;
Anda a saudade bem alta
No coração português.

Quando canto o Mouraria
Com todo o meu coração,
Sinto em mim a nostalgia
Dos tempos que já lá vão.

Deus me dê, sem fantasias,
A graça que eu mais exalto:
De vir acabar meus dias
No seio do Bairro Alto.

Digam de mim, quando eu
Deixar de ser quem sou:
No Bairro Alto viveu,
Cantou, sofreu e amou.


* Fernando Freitas e António Chainho – guitarras portuguesas
José Maria Nóbrega e Orlando Silva – violas
Raul Silva – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Incerteza



Letra: João Linhares Barbosa
Música: Armando Augusto Freire, vulgo Armandinho (Fado da Adiça)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP "Uma Noite no 'Faia'" ("Loucura"), Decca/VC, 1960; CD "Lucília do Carmo", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998)


Aos bocadinhos sofrendo,
Ponho de parte as tristezas
E assim cá vou vivendo
Nesta vida de incertezas.

P'la sorte não fui fadada,
Mas vou andando, ai de mim,
Espero estar preparada
Quando chegar o meu fim.

Quando esse dia chegar,
Que o dia já está marcado,
Se acaso sabem rezar,
Fadistas, rezai pelo fado!

Não esqueçam rogos meus
Quando chegar o meu fim:
Vão pedir por mim a Deus,
Fadistas, chorai por mim!


* Jaime Santos – guitarra portuguesa
Martinho d'Assunção – viola
Gravado no Teatro Taborda, Costa do Castelo (Lisboa), em Maio de 1960
Técnico de som – Hugo Ribeiro
URL: http://www.museudofado.pt/personalidades/detalhes.php?id=381
http://www.portaldofado.net/content/view/246/280/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Luc%C3%ADlia_do_Carmo
http://www.infopedia.pt/$lucilia-do-carmo
http://www.macua.org/biografias/luciliadocarmo.html
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/43146.html
http://jorgesilva.bloguedemusica.com/r265/Lucilia-do-Carmo/
http://cotonete.iol.pt/artistas/home.aspx?id=1573
http://www.last.fm/pt/music/Luc%C3%ADlia+do+Carmo



Capa do EP "Lucília do Carmo" ("Naquela Azenha Velhinha") (Decca/VC, 1960).



Capa do EP "Uma Noite no 'Faia'" ("Loucura") (Decca/VC, 1960).



Capa do EP "Lucília do Carmo" ("Sete Colinas") (Philips, 1966)
Desenho da autoria de Pedro Leitão (1964).



Capa do LP "Fado Lisboa: An Evening at the 'Faia'" (Philips, 1966).
Lucília do Carmo canta quatro dos doze temas do alinhamento: três a solo e um em parceria com Carlos do Carmo ("Desgarrada").



Capa do EP "A Cor da Mágoa" (Decca/VC, 1968).



Capa do EP "Verdades Que a Noite Encobre" (Decca/VC, 1968).



Capa do LP "Recordações" (Decca/VC, 1972).



Capa do LP "Lucília do Carmo" (Trova, 1978).



Lucília do Carmo numa das suas actuações no "Faia", acompanhada por Ilídio dos Santos (guitarra portuguesa) e Orlando Silva (viola).



Painel azulejar de homenagem a Lucília do Carmo no "Faia" (1992), concebido a partir de um desenho da autoria de Pedro Leitão (1964).