29 julho 2008

Antena 0,2: a arte que destoca

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro de Portugal,
Exmo. Senhor Presidente do Conselho de Administração da Rádio e Televisão de Portugal,
Exmo. Senhor Provedor do Ouvinte,

Sempre defendi que a rádio pública deve ter como preocupação primeira a qualidade do serviço e nunca enveredar por estratégias de programação tendo como mira, a qualquer custo, o aumento das audiências. Este é um ponto assente, o que não significa que não haja a preocupação de que o serviço prestado, na observância de rigorosos critérios de qualidade e bom gosto, agrade ao maior número possível de ouvintes. Porque, como alguém dizia, "não há serviço público sem público". Nesta ordem de ideias, o valor de audiências – 0,4 % – que a Antena 2 registou no
segundo trimestre de 2008, a mais baixa da sua História, desde que há audiometrias, deve merecer uma atenta reflexão da parte de quem tem por responsabilidade avaliar o serviço público de rádio. Aliás, os resultados obtidos nos trimestres anteriores mostram, sem margem para dúvidas, um contínuo decrescendo das audiências do canal. Ora a estratégia que vem sendo seguida, desde meados de 2005, pela direcção Rui Pêgo/João Almeida, visava justamente o contrário, isto é, alargar os públicos e consequentemente subir o nível de audiências. Convém lembrar que no segundo trimestre de 2005, imediatamente antes da grelha ter sido reformulada de acordo com a nova estratégia, a audiência da Antena 2 era de 0,6 % e com uma programação alegadamente mais elitista. E foi precisamente por a administração de então (na pessoa de Luís Marques) considerar que 0,6 % era um valor muito modesto para a Antena 2 que foi decidida a exoneração de João Pereira Bastos e a nomeação da dupla Rui Pêgo/João Almeida. Como se explica então o rotundo falhanço? Torna-se evidente que a orientação (ou desorientação) que foi dada à antena nos últimos três anos não só provocou a debandada de uma parte muito significativa dos ouvintes que lhe estavam fidelizados como não conseguiu captar e fidelizar novos ouvintes em número suficiente para compensar as perdas. Esta é uma conclusão irrefutável, por mais manigâncias que se tentem fazer. Fica também provado que em Portugal, a exemplo da generalidade dos países europeus, o público da música erudita europeia (ou de tradição europeia) suplanta em muito o conjunto dos públicos dos géneros musicais que passaram a ter grande destaque na Antena 2 – jazz, música étnica, música electrónica de ambientes e outras linguagens afins à pop. Muitas pessoas ficaram sem uma rádio para ouvir e às mais afortunadas não lhes restou outra alternativa que socorrerem-se da sua discoteca particular ou, então, optarem pela audição de rádios clássicas via internet.
Mas há ainda outras razões para o acentuado declínio das audiências da Antena 2 e que passo a esmiuçar. Em primeiro lugar, uma muito perceptível degradação da qualidade da locução – vozes não apropriadas para a rádio (em timbre e em colocação), erros de dicção e pronúncia quer de palavras portuguesas quer de estrangeiras (a colocação de tónica esdrúxula em palavras graves, por influência do inglês, é frequentíssima), erros de sintaxe e frases mal construídas, coloquialidade de trazer por casa em contextos que requeriam alguma formalidade, etc. E tudo isto agravado por um excesso de loquacidade repetindo-se inclusive coisas já anteriormente ditas, enfim, palavreado prolixo e inútil para quem está em sintonia. Não quero com isto dizer que não deva haver lugar na grelha para programas falados ou com uma forte componente de palavra ainda que de conteúdo predominantemente musical. No meu conceito de serviço público cultural, portanto não exclusivamente musical, esse tipo de programas deve existir. Digo mais: devem ter primazia relativamente aos longos alinhamentos do tipo 'jukebox', actualmente dominantes. Agora, o que não pode deixar de se ter em atenção é, logo à partida, a qualidade da oralidade, não devendo cair-se na leviandade de considerar que toda e qualquer voz serve para a rádio e – muito importante – evitar-se o improviso e ter-se como regra a preparação prévia dos textos que são lidos aos microfones, não se devendo descartar ainda assim as indispensáveis lições de dicção e prosódia em quem delas necessite. E por que razão o uso da língua portuguesa na rádio deve merecer uma atenção muito especial? Em primeiro lugar, para não defraudar as legítimas expectativas de quem frui o serviço; em segundo lugar, pela enorme influência que a rádio assim como a televisão exercem sobre a generalidade das pessoas, o que faz com a linguagem defeituosa usada nesses meios acabe por ser assimilada, tanto em maior grau quanto menor for o domínio da língua e o nível cultural do receptor. E sabendo-se da iliteracia que existe em Portugal, com largos estratos da população que não lêem livros (e que já perderam a rica cultura tradicional de transmissão oral) e que têm na rádio e na televisão os únicos meios de informação e de lazer, maior a pertinência da questão. O próprio Ministro da Cultura, Dr. José António Pinto Ribeiro, já se pronunciou várias vezes a respeito da atenção que deverá ser dada, nos média, à língua portuguesa. Foi o que fez, por exemplo, no programa televisivo
Câmara Clara (20.07.2008), ao afirmar peremptoriamente que «não há política da língua sem a televisão, sem a rádio e sem os jornais». No caso concreto da emissora do Estado, que é o que nos interessa agora, a política que vem sendo seguida na área da língua portuguesa não podia estar mais em contradição com as palavras do ministro. Fará sentido que, sob a alçada do mesmo Governo, haja duas orientações diametralmente opostas? Em face deste facto, terá de se pedir ao Sr. Primeiro-Ministro que tome uma posição clara: ou manda calar o seu Ministro da Cultura ou então terá de pôr ordem na estação de rádio que está sob a sua tutela. Caso contrário, é a autoridade e a credibilidade do Governo, e por extensão do Estado Português, que ficam em causa.
Outro ponto de primordial importância para a melhoria do serviço prestado pela Antena 2 é o horário de transmissão dos programas de autor, sendo que todos eles devem passar no mínimo duas vezes, e em horários distintos, de modo a que pessoas com disponibilidades de escuta diferentes tenham possibilidade de ouvir (ou mesmo reouvir) os da sua preferência e com proveito para o seu enriquecimento cultural (caso contrário, é dinheiro que se está a deitar à rua). Já disse várias vezes, e lembro uma vez mais, que, sem prejuízo de continuarem a passar ao fim-de-semana, é imperioso que os programas de autor (na sua totalidade, reafirmo) sejam também transmitidos de segunda a sexta-feira, de dia (pensando nas pessoas que ouvem rádio enquanto trabalham) ou à noite (pensando nas pessoas que procuram na rádio uma alternativa à televisão). Os períodos sobrantes seriam então preenchidos com alinhamentos estritamente musicais, mas dedicados, isto é, com uma coerência editorial bem definida: instrumentos solistas, música de câmara, música concertante e orquestral, obras corais-sinfónicas, música vocal não religiosa (lied, ópera), música sacra (canto gregoriano, polifonia, oratória), música de dança, música de cena, perfil de um autor, intérprete da semana, intérpretes portugueses, etc. O público da música erudita não é uma massa amorfa que gosta de tudo: há gostos diferenciados e específicos que importa ter em conta. Foi esta a filosofia que vigorou durante o consulado de João Pereira Bastos e com resultados bem acima dos actuais. E já que falei do anterior director de programas, é justo que refira também a atenção que ele dava (e que deixou de ser dada) a programas culturais não musicais, designadamente nas áreas da História, da Literatura e da Ciência. Já disse, e volto a insistir, que o tratamento da cultura (não musical) numa rádio de serviço público não se pode restringir – como tem acontecido durante o último triénio – a noticiar os eventos culturais que acontecem no país. Escusado será dizer que as rubricas dando conta dos livros que estão nos escaparates, dos filmes em estreia, das peças em cena, das exposições, etc., têm o seu lugar mas é preciso ir mais além: a rádio tem um potencial cultural que deve ser aproveitado. No caso da História e da Literatura, a lacuna agora existente até pode ser colmatada a custo zero. E como? Basta ir ao riquíssimo arquivo histórico e aproveitar o que de melhor lá existe e sem risco de desactualização pois o que há dez ou quinze anos se disse sobre Gil Vicente, o Padre António Vieira, o Marquês de Pombal ou Eça de Queiroz, por exemplo, mantém-se perfeitamente válido. A propósito, uma pergunta pertinente: no ano em que se comemora o quadricentenário do nascimento daquele a quem Fernando Pessoa chamou o "imperador da língua portuguesa", por que razão não foi feita a reposição do ciclo realizado em 1997, aquando do tricentenário da morte? Bem, o
ano vieirino ainda está a decorrer e eu assim como muitos outros ouvintes apreciaríamos imenso que nos fosse ainda dada a oportunidade de redescobrir, através do éter, a vida e o pensamento dessa grande figura da Cultura e da História de Portugal. Em Junho de 2006, no blogue A Nossa Rádio, tive ocasião de inventariar um rol programas de inegável valor cultural que seria de todo o interesse resgatar às teias de aranha, mas permito-me agora destacar dois deles. Começando pela História, aponto a série "Na Maquina do Tempo", da autoria de Maria João Martins, um trabalho admirável, a todos os títulos (qualidade dos textos, diversidade de temas tratados, locução, etc.), e com uma assinalável componente informativa e formativa, quer para o vulgar ouvinte quer para docentes e alunos do ensino básico e secundário. No campo da Literatura, cito o programa "Reflexos", de António Cardoso Pinto, sobre a divulgação de escritores e poetas (portugueses e estrangeiros), igualmente um trabalho de qualidade superior. Porque é que tesouros deste quilate não são desenterrados lá do cemitério onde não servem a ninguém?
Outra questão que terá de merecer atenção na Antena 2 é o controlo de qualidade na realização, produção e pós-produção dos programas, área em que se tem registado um notório desleixo. Começando pela parte mais técnica da pós-produção vários tem sido os erros de palmatória que se têm verificado desde que a nova direcção entrou em funções (e que anteriormente eram raríssimos), seja registos totalmente inaudíveis ou em péssimas condições de audição, seja montagens feitas com elementos trocados (partes faladas que não correspondem às obras musicais), como já ocorreu, por exemplo, em edições de "Páginas de Português" e de "Os Sons Férteis". E já nem falo daquele caso vergonhoso ocorrido com a série "Divina Proporção", em que puseram no ar um programa por montar, incluindo todas as passagens em que Ana Mântua se enganava e repetia a leitura de um texto, situação que deve ter sido deveras confrangedora para a autora. Já no que respeita à fase da produção, urge que seja adoptada uma atitude mais profissional e responsável dos assistentes de realização/produtores no apoio logístico aos autores/realizadores, designadamente em coisas tão elementares e prosaicas como a procura das interpretações indicadas para cada programa, evitando-se o facilitismo de as substituir por outras que estejam mais à mão.
Não se deverá também esquecer a reformulação dos espaços do início da manhã e do fim da tarde. No programa da manhã, uma das medidas inevitáveis a tomar é substituir o loquaz e insuportável Paulo Alves Guerra por uma dupla mista de apresentadores, fixa ou variável (ainda melhor), recuperando-se assim a boa experiência que foi o "Acordar a 2" (que saudades dos belíssimos discos que a Gabriela Canavilhas nos dava a ouvir em primeira mão!). A outra medida é a reformulação do programa: apenas dois blocos noticiosos (8:00 e 9:00), com o máximo de sete minutos cada um, sendo o primeiro generalista e o segundo cultural (podendo integrar sugestões de eventos culturais); introdução de uma crónica de autor (8:30 e 9:30), no mesmo modelo das que já foram feitas por Isabel da Nóbrega, Maximiano Gonçalves e Jorge Guimarães (nada a ver, portanto, com os comentários saloios e entediantes do Sr. Pedro Malaquias a notícias da imprensa). O resto do tempo seria ocupado com música, preferencialmente barroca, a meu ver, a mais adequada para começar o dia com boa disposição. De evitar, a todo o custo, a música contemporânea e o repertório operático, sobretudo o mais pesado (Wagner, Richard Strauss, etc.). Para o fim da tarde, a melhor opção seria mesmo o regresso de Jorge Rodrigues com o seu "Ritornello". E sendo Jorge Rodrigues um entendido em ópera e música vocal, aproveitava-se o seu saber para lhe entregar a realização de um programa dedicado ao canto lírico (História da Ópera, vida e obra dos cantores), uma área do agrado de muitos ouvintes mas muito maltratada pela direcção Rui Pêgo/João Almeida.
E para reconquistar a relação de cumplicidade do auditório com a sua rádio, deverá voltar a figurar na grelha um espaço destinado a obras/interpretações pedidas pelos ouvintes. O espaço anterior chamava-se "Que Quer Ouvir?" mas o título é o que menos interessa. O importante é que a Antena 2 consiga reatar os laços de fidelidade com o seu auditório natural e trazer de volta os ouvintes tresmalhados. Ainda nesta linha, a introdução de pequenos passatempos em que através de uma pergunta se dá oportunidade aos ouvintes de se habilitarem a discos e livros, também deverá ser ponderada.
Por último, cumpre-me referir outro aspecto que contribuiu de sobremaneira para o afastamento de muitos ouvintes da audição regular da Antena 2: o uso e abuso de 'jingles' e 'spots'. Sobre esta praga que se tornou endémica, e para não ser redundante, remeto V. Exas. para os três textos que já dediquei ao assunto (todos eles dados a conhecer à direcção de programas mas sem qualquer efeito):
Formas de poluição sonora na rádio pública,
Antena 2: quando os spots promocionais se tornam um flagelo e
Bach achincalhado na Antena 2.
O exercício da crítica não se resume a apontar o dedo ao que está mal; pressupõe também a apresentação de medidas para a erradicação dos problemas existentes e a indicação de caminhos a seguir para inverter o descalabro. Foi o que acabei de fazer, enquanto contribuinte/ouvinte e por dever de cidadania. Para que o segundo canal da rádio pública não corra o risco de cair nos 0,2 % de audiência e aí ser necessário mudar o slogan para "Antena 0,2: a arte que destoca".
Com os mais respeitosos cumprimentos,

Álvaro José Ferreira

22 julho 2008

Amigos do LUGAR AO SUL no My Space



A par da comunidade já existente na plataforma Google (http://groups.google.com/group/lugar-ao-sul), o grupo Amigos do LUGAR AO SUL faz-se também representar no My Space (http://www.myspace.com/lugaraosul), justamente para abrir aos seus membros e, bem assim, aos cibernautas em geral mais uma janela para a boa música portuguesa, em especial a mais representativa da nossa matriz cultural: popular (tradicional e de autor) e fado. Nessa conformidade, a lista de amigos será formada preferencialmente por intérpretes (em nome individual ou em grupo) que se inserem naquelas áreas. Atendendo à pouquíssima atenção que as rádios hertzianas nacionais, completamente instrumentalizadas pelo lobby da indústria discográfica, dão à nossa música mais autêntica e qualificada, a nova página tem o nobre propósito de constituir uma montra dos nomes de maior valia e interesse do panorama musical português, representados no My Space. Porque só se ama e se deseja o que se conhece.
Embora a lista de artistas/grupos amigos ainda esteja em fase de constituição, pelos nomes representados até ao momento já é possível aferir-se da muita e boa música de raiz tradicional/folk que se está a fazer em Portugal. A estatal Antena 1, no entanto, continua a fazer de conta que nada disso lhe diz respeito, a ponto de quase não dar espaço a esta importante vertente da nossa música. Sem prejuízo da necessária reformulação da playlist de modo a torná-la mais eclética e menos monolítica, é gritante a falta que se faz sentir na Antena 1 de um programa musical de divulgação da produção nacional de raiz ou inspiração tradicional. E digo programa porque a minúsculo apontamento
Cantos da Casa, de Armando Carvalhêda, é manifestamente insuficiente, além de que o horário de emissão (14:55) não é propriamente praticável por muitas pessoas apreciadoras do género, por contingências profissionais (nem todas as profissões são compatíveis com a escuta de rádio). Aliás, existindo espaços alargados, em horários não laborais (fim-de-semana), para o fado ("Alma Lusa"), para o jazz/swing ("A Menina Dança?") e para a música anglo-americana ("Ondas Luisianas" e "Classe 70"), não se compreende por que não acontece o mesmo para a música de raiz tradicional. Trata-se, sem dúvida, de uma falha clamorosa do serviço público, que urge colmatar! Se isso não acontecer em tempo útil, não deixarei de voltar ao assunto proximamente.
Por último, e em nome dos Amigos do LUGAR AO SUL, peço à administração da Rádio e Televisão de Portugal que, a exemplo da oportunidade dada – e muito bem – a António Cartaxo, não impeça Rafael Correia de nos continuar a presentear com as suas saborosas conversas andarilhas, pelos trilhos da memória algarvia e alentejana. Pois, como alguém dizia, «não há sábado sem "Lugar ao Sul"».

21 julho 2008

Arte e poesia (II)



Ainda a respeito da série de programas "Arte de Música", da autoria de Paula Abrunhosa (na foto), de que falei no texto anterior, quero acrescentar mais umas coisas que julgo pertinentes. Em primeiro lugar, para que fique tudo devidamente explicitado, e embora não tivesse posto em causa a competência técnica da autora no tocante à análise/comentário dos poemas de Jorge de Sena e das obras/interpretações musicais correspondentes, cumpre-me dar conta da formação académica de Paula Abrunhosa, segundo informação que entretanto me foi gentilmente prestada: «concluiu o Curso de Órgão no Departamento de Estudos Superiores Gregorianos da Escola Superior de Música, sob a orientação do Prof. Antoine Sibertin Blanc, e é licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas». Fica feita a devida nota. Não obstante, a minha crítica quanto à leitura/recitação dos poemas mantém-se e foi aliás confirmada pelos dois programas seguintes já transmitidos.
A talhe de foice, aproveito para dar conta da minha insatisfação relativamente a dois aspectos do segundo e terceiro programas. No segundo, não gostei que das "Variações Goldberg", de Bach, apenas fosse transmitido uma pequena parte, por alegada falta de espaço porque na mesma emissão foram tratadas outras peças musicais. Atendendo à importância das "Variações Goldberg" e ao apreço que suscitam em muitos melómanos (bachianos e não só), julgo que se justificaria plenamente que a obra passasse na íntegra, nem que fosse preciso sacrificar outras peças de menor relevo ou então inserindo-as noutros programas da série. Era pedir muito? Muito aquém das expectativas, portanto.
No terceiro programa, na parte dedicada às sonatas para cravo de Domenico Scarlatti, por Wanda Landowska, fiquei perplexo quando se deu a ouvir uma interpretação não da própria Wanda Landowska mas de outro cravista, no caso de Trevor Pinnock. A razão alegada foi a de que não foi possível encontrar gravações de Wanda Landowska. Como? Não há discos de Wanda Landowska com as sonatas de Domenico Scarlatti disponíveis no mercado discográfico? Eu fiz uma pesquisa rápida e não exaustiva no Google e apareceu-me pelos menos um (
aqui, por exemplo). Então, porque é que não foi feita a encomenda do disquinho? Das avultadas verbas da taxa do audiovisual e dos nossos impostos que vão parar à RDP, não era possível arranjar uns míseros 16.99 dólares para comprar o CD de Wanda Landowska? Ou terá sido Paula Abrunhosa que, não tendo o disco na sua discoteca particular, nem sequer se deu ao trabalho, já não digo de encomendar o disco via internet, pelo menos de solicitar à direcção da Antena 2 que diligenciasse no sentido de procurar uma gravação. E quando falo de gravação não me refiro forçosamente a edições discográficas: há também as gravações de arquivo. Admitindo que no arquivo ou na discoteca da RDP não haja registos da lendária cravista polaca (a propósito, o que fizeram aos antigos LPs de vinil?), isso não significa que numa das estações públicas europeias não haja uma gravação. Na Rádio France ou numa das várias rádios estaduais alemãs eu aposto que existe. Então, não seria expectável que a direcção da Antena 2, supondo que teve conhecimento da situação e não querendo comprar o disco, contactasse a UER para indagar da existência da gravação pretendida junto das suas associadas? Não é também para estas acções de cooperação que existe a UER? Os locatários da direcção da Antena 2, pelos vistos, não estiveram para se ralar, o que vem demonstrar uma vez mais a sua flagrante falta de profissionalismo e de sentido de serviço público.

08 julho 2008

Arte e poesia



Começou, no espaço "Caleidoscópio", uma nova série de programas intitulada "Arte de Música", justamente incidindo sobre o livro de poesia homónimo de Jorge de Sena. A autora e apresentadora dá pelo nome de Paula Abrunhosa e, embora não conhecendo a pessoa nem tendo sobre ela a mais pequena referência, tenho de confessar que gostei do que ouvi, excepto numa coisa: a leitura dos poemas muito corrida, como se se tratasse de prosa e sem grande aprumo na dicção. Penso que neste ponto devia ter sido solicitada a colaboração a alguém com outro 'savoir faire' na arte de dizer/recitar poesia. Dado que a poesia de Jorge de Sena, por não respeitar a métrica e a rima tradicionais, apresenta dificuldades acrescidas a quem se abalança em a dizer/recitar maior a pertinência da leitura dos poemas ter sido entregue a um actor ou 'diseur' credenciado. Quando ouço o poema "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", de Jorge de Sena, pela voz de Mário Viegas, sei que estou a ouvir poesia e não prosa. Relativamente ao livro "Arte de Música", em que a perspectiva pessoal do autor e a sua sensibilidade reflexiva de melómano estão bem vincadas, é claríssimo como água que faria todo o sentido que a voz do poeta fosse 'encarnada' por um homem e não por uma mulher. E não é difícil inferir que o 'produto' radiofónico que daí resultaria teria indubitavelmente outro nível de qualidade e requinte auditivo. Terá Paula Abrunhosa prescindido de um 'diseur' por pura ganância, para poder arrecadar o dinheiro todo? E a pessoa responsável pela produção e/ou assistência de realização, a quem cabia defender a honra da casa, limitou-se a fazer vista grossa? Ou terá havido directivas vindas de cima para que as coisas fossem feitas dessa maneira? Qualquer que seja a eventualidade, ela é bem sintomática da degradação a que chegou a rádio pública.
Mas voltando ao livro "Arte de Música", talvez não esteja errado se disser que o mesmo já foi abordado, pelo menos avulsamente, em programas anteriores da Antena 2, se não por Paulo Rato, em edições de "Os Sons Férteis", por realizadores mais antigos (João de Freitas Branco ou Carlos Acheman, por exemplo). Isto sem contar com uma emissão do saudoso "Ritornello" em que Jorge Rodrigues esteve à conversa, via telefone, com D. Mécia de Sena, precisamente em torno do tal livro, tendo lido alguns dos poemas e transmitido as músicas respectivas. Em todo o caso, saúda-se a nova série de programas e a sua autora, e também os decisores a quem coube a aprovação da sua realização. Agora, o que não posso deixar de criticar – e com veemência – é o horário único de transmissão: ao início da manhã de domingo (9-10 horas), quando muita gente ainda se encontra no regaço de Morfeu a pôr o sono em dia. Quer dizer: gastam o nosso dinheiro a contratar autores externos à casa (por se considerar que são uma mais-valia para a grelha) e depois atiram os respectivos programas para buracos esconsos! Onde está a lógica e a racionalidade? Não é preciso ser-se muito inteligente para se perceber esta coisa elementaríssima: os programas de autor de indiscutível relevância cultural, como é caso, e que representam um investimento acrescido em termos orçamentais, devem ter no mínimo duas transmissões, e em horários distintos, de modo a ficarem acessíveis ao maior número possível de ouvintes. No momento actual, não é por falta de espaço na grelha que isso não se faz: basta olhar para as manhãs e para as tardes de segunda a sexta-feira, agora preenchidas com longos alinhamentos musicais indiferenciados, de tipo "tudo no mesmo saco". Mesmo à hora de jantar, e não tendo qualquer preconceito contra o jazz, não me importava nada de trocar o diário "Jazz com Brancas" pelos tais programas culturais que passam uma única vez nas matinas de sábados e domingos. Enfim, apostas irracionais e estrambólicas que provam bem a inépcia e a falta de sentido de serviço público da parte dos actuais locatários da direcção da Antena 2. Já sei que Rui Pêgo e João Almeida vão alegar que os programas estão disponíveis na internet, mas esquecem-se de uma coisa muito importante: não podem ser descarregados, a fim de serem ouvidos 'offline', no próprio computador ou, sem limitações de mobilidade, nos já bastante vulgarizados leitores portáteis de áudio digital. Assim, os ouvintes interessados em alguns desses programas e que aos fins-de-semana não estão dispostos a sacrificar o seu merecido descanso, se os quiserem mesmo ouvir, não lhes resta outra alternativa que ter disponibilidade financeira e temporal para estarem ligados 'online' durante o tempo todo. Fica feito o reparo e expresso o desejo de que sejam tomadas as necessárias e urgentes medidas de correcção.
Na mesma linha conceptual de "Arte de Música", aproveito para deixar uma ideia para uma futura série de programas, a incluir ou não no espaço "Caleidoscópio" (isso não é o mais importante). Ocorreu-me tal ideia da audição de uma emissão da série anterior, "Música para Um Pintor", justamente sobre o quadro de Goya que inspirou Jorge de Sena para a escrita do poema atrás referenciado (contido no livro "Metamorfoses", 1963), e que Mário Viegas tão bem recitou. Ideia que agora me saiu reforçada com a estreia da nova série sobre a poesia de Jorge de Sena inspirada em grandes obras da Música Ocidental. Estou a referir-me à relação entre obras de arte, visuais e não animadas (pintura, escultura, arquitectura, fotografia) e a poesia: poemas inspirados em peças de arte e vice-versa. No primeiro caso, caímos inevitavelmente no já citado livro de Jorge de Sena, "Metamorfoses", que só por si dá pano para mangas, mas haverá certamente outros poetas que, se não de forma tão sistemática, pelo menos avulsamente, compuseram poemas inspirados em obras pictóricas ou escultóricas. Assim de repente ocorrem-me três poemas de Miguel Torga: "Ecce Homo" (sobre a pintura de autor anónimo do séc. XV, existente no Museu Nacional de Arte Antiga), "Moisés" (sobre a escultura de Miguel Ângelo) e "Santa Teresa de Bernini" (sobre a escultura de Giovanni Bernini). No segundo caso, ou seja de obras de arte (pintura, gravura e escultura, essencialmente) inspiradas em poemas, ou passagens de poemas, a lista é imensa. Só de episódios e figuras das epopeias clássicas ("Odisseia", "Ilíada", "Eneida") há um sem-número de obras, mormente pictóricas. E da "Divina Comédia" ou dos nossos "Os Lusíadas", apenas para citar duas obras sobejamente conhecidas, existe igualmente um rol considerável de pinturas e gravuras. E já nem falo dos pintores e/ou escultores que também foram poetas como Miguel Ângelo ou Dante Gabriel Rossetti (este último recentemente tratado por Paulo Rato, em "Os Sons Férteis"), não se devendo esquecer, claro está, os artistas portugueses – Almada Negreiros, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Isabel Meyrelles, etc. Como fica demonstrado, o que não falta é matéria-prima para a realização da tal série de programas. É claro que a componente musical também não deixaria de estar presente, com obras ou trechos que contextualizassem o tema tratado. Para a abordagem das obras de arte (com mundividência interdisciplinar entre Arte, História e Literatura), vem-me imediatamente à cabeça o nome do crítico Rui Mário Gonçalves que, aliás, já foi colaborador da Antena 2 (nos anos 90, pelo menos) e que me habituei a ter em grande apreço pelo largo e profundo saber demonstrado. Já a recitação dos poemas e a selecção musical podiam muito bem ficar a cargo de Paulo Rato, caso esteja disponível para tal, aproveitando-se assim a sua longa e reconhecida experiência enquanto autor e realizador de "
Os Sons Férteis". Nos últimos tempos, passaram na rádio clássica (o que é de louvar) duas boas séries de programas pondo em paralelo as artes visuais e a música – "Divina Proporção", de Ana Mântua e João Chambers (excelente), e o já citado "Música para Um Pintor", de Dalila Rodrigues e Henrique Silveira (menos bem conseguida) – mas um formato que conjugue a poesia, as artes plásticas e a música julgo que nunca se fez. É verdade que a componente visual fica sempre a perder num programa de rádio, mas a visualização da peça de arte pode ser facultada através da internet (através da qual pode ser impressa), como aconteceu – e muito bem – no caso da série "Música para Um Pintor". Digo isto porque penso que a rádio é o meio que melhor se adequa a este género de programas, tendo como base a música e a palavra dita, em referência ou não a uma imagem fixa. Na televisão tais formatos não funcionariam, só se apresentando a internet como uma alternativa válida mas ainda assim bastante relativa, em virtude das limitações que apresenta, sobretudo no que respeita ao acesso e à mobilidade. Ouvir rádio via internet ainda é uma opção bastante dispendiosa quando comparada com a sintonia hertziana. E depois sempre é mais agradável olhar para um quadro ou fotografia em suporte papel (e já nem falo nas reproduções disponíveis no mercado para serem colocadas na parede), enquanto se ouve um programa de rádio, do que estar com os olhos colados ao ecrã de um computador.
Ficou apresentada uma proposta de inegável interesse cultural para o serviço público de rádio. Se não for concretizada não será obviamente por falta de espírito construtivo do autor destas linhas.


CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA




Poema de Jorge de Sena (in "Metamorfoses", 1963; "Antologia Poética", Porto: Edições Asa, 1999, págs. 108-111)
Recitado por Mário Viegas* (in LP "Pretextos Para Dizer", Orfeu, 1978; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 5 – "Pretextos Para Dizer", Público, 2006)
Música de Luís Cília


Francisco Goya, "Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808", c.1814, óleo sobre tela, Museu do Prado, Madrid


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com «suma piedade e sem efusão de sangue».
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer
aniquilando mansamente, delicadamente
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que,
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.


Lisboa, 25-06-1959


* Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
Técnico de som – Moreno Pinto