08 julho 2008

Arte e poesia



Começou, no espaço "Caleidoscópio", uma nova série de programas intitulada "Arte de Música", justamente incidindo sobre o livro de poesia homónimo de Jorge de Sena. A autora e apresentadora dá pelo nome de Paula Abrunhosa e, embora não conhecendo a pessoa nem tendo sobre ela a mais pequena referência, tenho de confessar que gostei do que ouvi, excepto numa coisa: a leitura dos poemas muito corrida, como se se tratasse de prosa e sem grande aprumo na dicção. Penso que neste ponto devia ter sido solicitada a colaboração a alguém com outro 'savoir faire' na arte de dizer/recitar poesia. Dado que a poesia de Jorge de Sena, por não respeitar a métrica e a rima tradicionais, apresenta dificuldades acrescidas a quem se abalança em a dizer/recitar maior a pertinência da leitura dos poemas ter sido entregue a um actor ou 'diseur' credenciado. Quando ouço o poema "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", de Jorge de Sena, pela voz de Mário Viegas, sei que estou a ouvir poesia e não prosa. Relativamente ao livro "Arte de Música", em que a perspectiva pessoal do autor e a sua sensibilidade reflexiva de melómano estão bem vincadas, é claríssimo como água que faria todo o sentido que a voz do poeta fosse 'encarnada' por um homem e não por uma mulher. E não é difícil inferir que o 'produto' radiofónico que daí resultaria teria indubitavelmente outro nível de qualidade e requinte auditivo. Terá Paula Abrunhosa prescindido de um 'diseur' por pura ganância, para poder arrecadar o dinheiro todo? E a pessoa responsável pela produção e/ou assistência de realização, a quem cabia defender a honra da casa, limitou-se a fazer vista grossa? Ou terá havido directivas vindas de cima para que as coisas fossem feitas dessa maneira? Qualquer que seja a eventualidade, ela é bem sintomática da degradação a que chegou a rádio pública.
Mas voltando ao livro "Arte de Música", talvez não esteja errado se disser que o mesmo já foi abordado, pelo menos avulsamente, em programas anteriores da Antena 2, se não por Paulo Rato, em edições de "Os Sons Férteis", por realizadores mais antigos (João de Freitas Branco ou Carlos Acheman, por exemplo). Isto sem contar com uma emissão do saudoso "Ritornello" em que Jorge Rodrigues esteve à conversa, via telefone, com D. Mécia de Sena, precisamente em torno do tal livro, tendo lido alguns dos poemas e transmitido as músicas respectivas. Em todo o caso, saúda-se a nova série de programas e a sua autora, e também os decisores a quem coube a aprovação da sua realização. Agora, o que não posso deixar de criticar – e com veemência – é o horário único de transmissão: ao início da manhã de domingo (9-10 horas), quando muita gente ainda se encontra no regaço de Morfeu a pôr o sono em dia. Quer dizer: gastam o nosso dinheiro a contratar autores externos à casa (por se considerar que são uma mais-valia para a grelha) e depois atiram os respectivos programas para buracos esconsos! Onde está a lógica e a racionalidade? Não é preciso ser-se muito inteligente para se perceber esta coisa elementaríssima: os programas de autor de indiscutível relevância cultural, como é caso, e que representam um investimento acrescido em termos orçamentais, devem ter no mínimo duas transmissões, e em horários distintos, de modo a ficarem acessíveis ao maior número possível de ouvintes. No momento actual, não é por falta de espaço na grelha que isso não se faz: basta olhar para as manhãs e para as tardes de segunda a sexta-feira, agora preenchidas com longos alinhamentos musicais indiferenciados, de tipo "tudo no mesmo saco". Mesmo à hora de jantar, e não tendo qualquer preconceito contra o jazz, não me importava nada de trocar o diário "Jazz com Brancas" pelos tais programas culturais que passam uma única vez nas matinas de sábados e domingos. Enfim, apostas irracionais e estrambólicas que provam bem a inépcia e a falta de sentido de serviço público da parte dos actuais locatários da direcção da Antena 2. Já sei que Rui Pêgo e João Almeida vão alegar que os programas estão disponíveis na internet, mas esquecem-se de uma coisa muito importante: não podem ser descarregados, a fim de serem ouvidos 'offline', no próprio computador ou, sem limitações de mobilidade, nos já bastante vulgarizados leitores portáteis de áudio digital. Assim, os ouvintes interessados em alguns desses programas e que aos fins-de-semana não estão dispostos a sacrificar o seu merecido descanso, se os quiserem mesmo ouvir, não lhes resta outra alternativa que ter disponibilidade financeira e temporal para estarem ligados 'online' durante o tempo todo. Fica feito o reparo e expresso o desejo de que sejam tomadas as necessárias e urgentes medidas de correcção.
Na mesma linha conceptual de "Arte de Música", aproveito para deixar uma ideia para uma futura série de programas, a incluir ou não no espaço "Caleidoscópio" (isso não é o mais importante). Ocorreu-me tal ideia da audição de uma emissão da série anterior, "Música para Um Pintor", justamente sobre o quadro de Goya que inspirou Jorge de Sena para a escrita do poema atrás referenciado (contido no livro "Metamorfoses", 1963), e que Mário Viegas tão bem recitou. Ideia que agora me saiu reforçada com a estreia da nova série sobre a poesia de Jorge de Sena inspirada em grandes obras da Música Ocidental. Estou a referir-me à relação entre obras de arte, visuais e não animadas (pintura, escultura, arquitectura, fotografia) e a poesia: poemas inspirados em peças de arte e vice-versa. No primeiro caso, caímos inevitavelmente no já citado livro de Jorge de Sena, "Metamorfoses", que só por si dá pano para mangas, mas haverá certamente outros poetas que, se não de forma tão sistemática, pelo menos avulsamente, compuseram poemas inspirados em obras pictóricas ou escultóricas. Assim de repente ocorrem-me três poemas de Miguel Torga: "Ecce Homo" (sobre a pintura de autor anónimo do séc. XV, existente no Museu Nacional de Arte Antiga), "Moisés" (sobre a escultura de Miguel Ângelo) e "Santa Teresa de Bernini" (sobre a escultura de Giovanni Bernini). No segundo caso, ou seja de obras de arte (pintura, gravura e escultura, essencialmente) inspiradas em poemas, ou passagens de poemas, a lista é imensa. Só de episódios e figuras das epopeias clássicas ("Odisseia", "Ilíada", "Eneida") há um sem-número de obras, mormente pictóricas. E da "Divina Comédia" ou dos nossos "Os Lusíadas", apenas para citar duas obras sobejamente conhecidas, existe igualmente um rol considerável de pinturas e gravuras. E já nem falo dos pintores e/ou escultores que também foram poetas como Miguel Ângelo ou Dante Gabriel Rossetti (este último recentemente tratado por Paulo Rato, em "Os Sons Férteis"), não se devendo esquecer, claro está, os artistas portugueses – Almada Negreiros, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Isabel Meyrelles, etc. Como fica demonstrado, o que não falta é matéria-prima para a realização da tal série de programas. É claro que a componente musical também não deixaria de estar presente, com obras ou trechos que contextualizassem o tema tratado. Para a abordagem das obras de arte (com mundividência interdisciplinar entre Arte, História e Literatura), vem-me imediatamente à cabeça o nome do crítico Rui Mário Gonçalves que, aliás, já foi colaborador da Antena 2 (nos anos 90, pelo menos) e que me habituei a ter em grande apreço pelo largo e profundo saber demonstrado. Já a recitação dos poemas e a selecção musical podiam muito bem ficar a cargo de Paulo Rato, caso esteja disponível para tal, aproveitando-se assim a sua longa e reconhecida experiência enquanto autor e realizador de "
Os Sons Férteis". Nos últimos tempos, passaram na rádio clássica (o que é de louvar) duas boas séries de programas pondo em paralelo as artes visuais e a música – "Divina Proporção", de Ana Mântua e João Chambers (excelente), e o já citado "Música para Um Pintor", de Dalila Rodrigues e Henrique Silveira (menos bem conseguida) – mas um formato que conjugue a poesia, as artes plásticas e a música julgo que nunca se fez. É verdade que a componente visual fica sempre a perder num programa de rádio, mas a visualização da peça de arte pode ser facultada através da internet (através da qual pode ser impressa), como aconteceu – e muito bem – no caso da série "Música para Um Pintor". Digo isto porque penso que a rádio é o meio que melhor se adequa a este género de programas, tendo como base a música e a palavra dita, em referência ou não a uma imagem fixa. Na televisão tais formatos não funcionariam, só se apresentando a internet como uma alternativa válida mas ainda assim bastante relativa, em virtude das limitações que apresenta, sobretudo no que respeita ao acesso e à mobilidade. Ouvir rádio via internet ainda é uma opção bastante dispendiosa quando comparada com a sintonia hertziana. E depois sempre é mais agradável olhar para um quadro ou fotografia em suporte papel (e já nem falo nas reproduções disponíveis no mercado para serem colocadas na parede), enquanto se ouve um programa de rádio, do que estar com os olhos colados ao ecrã de um computador.
Ficou apresentada uma proposta de inegável interesse cultural para o serviço público de rádio. Se não for concretizada não será obviamente por falta de espírito construtivo do autor destas linhas.


CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA




Poema de Jorge de Sena (in "Metamorfoses", 1963; "Antologia Poética", Porto: Edições Asa, 1999, págs. 108-111)
Recitado por Mário Viegas* (in LP "Pretextos Para Dizer", Orfeu, 1978; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 5 – "Pretextos Para Dizer", Público, 2006)
Música de Luís Cília


Francisco Goya, "Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808", c.1814, óleo sobre tela, Museu do Prado, Madrid


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com «suma piedade e sem efusão de sangue».
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer
aniquilando mansamente, delicadamente
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que,
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.


Lisboa, 25-06-1959


* Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
Técnico de som – Moreno Pinto

3 comentários:

LO disse...

Depois de ter tropeçado por mero acaso neste blogue, não queria deixar de felicitar calorosamente o Sr. Álvaro Ferreira pela forma certeiríssima como põe o dedo na ferida (para não lhe chamar cancro) em que se tornou a antena 2. Apesar de não estar de acordo com a totalidade das opiniões aqui manifestadas, nomeadamente a relativa à exclusão da grelha de um genuíno programa de serviço público ("Lugar ao Sul") que, quanto a mim, deveria, sim, estar na antena 1 mas nunca na 2 (portanto, uma boa decisão da direcção), a generalidade das questões abordadas são mais do que pertinentes. Não sei se a questão da promoção de programas inserida à hora certa, em especial a inenarrável, que passou meses e meses a fio, a anunciar uma das verdadeiras aberrações da grelha que dá pelo nome de "Fuga da Arte", foi devida à abordagem aqui feita. No entanto, pelo menos a análise, objectiva, deverá ter contribuído para que tal tenha acontecido (não tenho a menor das dúvidas quanto a isso) e a nossa paciência, finalmente, começado a ser menos torturada e massacrada. No entanto, em relação aos programas referidos noutra das opiniões, creio que o Sr. Álvaro Ferreira se terá esquecido de uma outra forma lixo que urge ser reciclado, "Argonauta", uma genuína e autêntica verborreia que urge erradicar de uma estação cuja escolha de programas deveria ser pautada, acima de tudo, por uma criteriosa seriedade. Relativamente ao mais recente trunfo da direcção, a interacção com os ouvintes ontem realizada na Baixa de Lisboa, que muitas expectativas me havia criado, foi outra das grandes desilusões. Porquê "aquilo" na antena 2? Com uns excelentes "diseurs", diga-se, em claro contraste com uma Carmen Dolores em péssima forma, foi uma hora de verdadeira possidoneira, cheia de chavões e lugares comuns, a fazer lembrar o outro quando disse "há muito que deixei de dar para este peditório"! Um verdadeiro suplício conseguir ouvir aquela "pepineira" até ao fim. Ainda por cima com o trabalho de casa pessimamente mal feito quando, a determinada altura, referiram que os Távora foram mortos no Terreiro do Paço! O quê??? Como??? No Terreiro do Paço??? Mas, qualquer criança que frequente a instrução primária saberá que aquela família foi barbaramente torturada e morta, com requintes de verdadeira crueldade, num patíbulo erguido em... Belém! LO

José disse...

Relativamente ao horário matinal dos bons programas citados no texto e outros ainda em gestação, apetece concluir que a estratégia da direcção da Antena 2 é clara: afastar os bons ouvintes dos programas com qualidade superior, oferecendo a uma gama média e de gosto indiferenciado um "produto" pronto-a-ouvir sem grandes exigências intelectuais e a distinta marca de autor. A estratégia é clara mas absolutamente lamentável. Mas vinda de quem vem... sobre os programas de poesia/arte e música não será pedir demais às cabeças ocas que "dirigem" a Antena 2?

José disse...

UM post rápido apenas para fazer uma correcção: quando me referia aos "programas em gestação" referia-me a programas que serão integrados no "Caleidoscópio", em Janeiro, mas que se arriscam a ser atirados para as 9h da manhã. Seja como for, será um trabalho inglório, pela pouca audiência que seguramente vão ter. Tudo isto em benefício dos restantes "programas" que satisfazem plenamente os critérios e o gosto dominante da direcção da Antena 2. Realizadores como João Chambers e Ana Mântua mereciam outro cuidado na elaboração da grelha...