25 abril 2019

Carlos do Carmo: "O Madrugar de um Sonho"



Foi na madrugada de 25 de Abril de 1974, perfez na de hoje 45 anos, que uma bem-sucedida operação militar comandada por oficiais intermédios das Forças Armadas derrubou o já caquéctico Estado Novo e tornou em realidade o sonho de Liberdade que o Povo Português há muito almejava. Povo esse que logo nessa manhã foi para as ruas dar largas à alegria e ao júbilo que sentia pelo fim da repressão e da mordaça. Esse momento histórico de exaltação festiva está descrito, com grande eloquência, na canção "O Madrugar de um Sonho", concebida pelo poeta Frederico de Brito e magistralmente interpretada por Carlos do Carmo. É pois com este belo espécime poético-musical, que tão bem documenta a Revolução dos Cravos, que celebramos o Dia da Liberdade.
Quando se oferece a liberdade a um preso ou amordaçado é de todo improvável e inverosímil que ele a recuse. Porque é contranatura: a liberdade é, para o ser humano, (quase) tão essencial como o ar que respira. Esse é o motivo de estarem condenados a prazo os regimes que a coarctam. Ainda assim, nenhuma democracia tem garantida a vida eterna se perder a capacidade de se auto-regenerar e descurar o combate aos parasitas (leia-se 'os corruptos e certos interesses instalados') que lhe sugam a seiva vital.
Num país em cuja Constituição a liberdade de expressão está consagrada, era expectável que não houvesse Censura. Mas será que ela não existe mesmo, hoje em dia? Atente-se no caso concreto da música que passa na Antena 1 durante as larguíssimas horas da emissão de continuidade, e que é debita por um computador, a partir de um lote de canções previamente escolhidas e mediante um determinado padrão de repetição – lista de difusão essa vulgarmente denominada de 'playlist'. Pela miríade de artistas portugueses de mérito – desde os mais antigos aos mais recentes – que é deixada de fora, e pela desmesurada presença de produtos medíocres (endógenos e exógenos), salta aos olhos (ou aos ouvidos, melhor dizendo) que há ali uma atitude censória. Não assumida nem declarada, mas bem real. Não nos custa admitir que não exista uma determinação da tutela governamental – Ministério da Cultura – nesse sentido, mas jamais poderemos aceitar que quem tem competência e poderes para debelar o mal continue a 'assobiar para o lado', como se aquela aberrante situação fosse a mais normal de todas num Estado que se autoproclama de democrático e diz garantir a liberdade de expressão do pensamento e da criação artística (no caso, da musical).



O Madrugar de um Sonho



Letra e música: Frederico de Brito
Arranjo: Pedro Osório
Intérprete: Carlos do Carmo* (in LP "Álbum", Philips/Polygram, 1980, reed. Universal Music, 2003, Universal Music, Série '50 Anos', 2013)




[vozes de populares e Francisco Sousa Tavares / instrumental]

Sonhei... que já alta madrugada,
Viera a Razão armada
P'ra defender a Cidade;
Olhei... e vi que este nosso Povo
Levantara-se de novo
Aos vivas à Liberdade.

Depois..., e já de janela aberta,
Ouvi um bradar – "Alerta!" –
E o eco, p'la rua fora,
Gritou p'ra dizer com Razão pura
Que uma era de tortura
Terminava àquela hora!

Julguei ser um sonho,
Mas foi realidade;
E às vezes suponho
Que não foi verdade!

Mas se alguém disser
"Não há Liberdade!",
Eu posso morrer
Mas não é verdade!

Saí... e vi uns homens libertos,
Todos de braços abertos...
Todos a pedir justiça!
Alguns já de saúde perdida
E com metade da vida
Em prisões de luz mortiça.

Ouvi... milhões de palmas e brados;
Trabalhadores e soldados
Vivendo a mesma euforia;
Senti... que havia um Portugal novo;
Vi tão alegre o meu povo,
Que até chorei de alegria!

Julguei ser um sonho,
Mas foi realidade;
E às vezes suponho
Que não foi verdade!

Mas se alguém disser
"Não há Liberdade!",
Eu posso morrer
Mas não é verdade!

[instrumental]

Mas se alguém disser
"Não há Liberdade!",
Eu posso morrer
Mas não é verdade!


* Direcção de orquestra – Pedro Osório
Gravação – José Manuel Fortes, nos Estúdios RPE, Lisboa



Capa do LP "Álbum", de Carlos do Carmo (Philips/Polygram, 1980)
Fotografia – Inácio Ludgero
Concepção – Joaquim de Brito

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15 abril 2019

Fernando Namora: centenário do nascimento



          Um homem morto. Uma realidade directa, que me tocava de perto. Tinha estropiado cadáveres na morgue; chegara a ver enfermos a agonizar durante as lições nas enfermarias; vivia cercado de doenças, misérias, estertores. Mas tudo isso eram acontecimentos necessários para a lógica dos tratados. Esta morte dizia-me respeito. Conhecera o primo Lucas longe desse ambiente; era um homem, uma coisa viva e misturada nas recordações da minha infância; um ser pronto a sofrer, pronto aos júbilos e às desventuras. Os outros homens da enfermaria ou do necrotério não tinham para mim uma história, serviam para confirmar uma ciência.
          Alguma coisa estava brutalmente errada. Haviam-me iludido, magoado. Recebia uma lição. Daí em diante sofreria até à angústia o que é ter uma vida nas nossas mãos, uma vida que nos é entregue: um misto de desafio, de responsabilidade e desespero.

Fernando Namora (excerto da narrativa "A Prima Cláudia", in "Retalhos da Vida de um Médico", I Série, Lisboa: Editorial Inquérito, 1949; Lisboa: Círculo de Leitores, 1996 – p. 39-40).


NAMORA, FERNANDO Gonçalves (15/4/1919, Condeixa-a-Nova - 31/1/1989, Lisboa).
Romancista, ensaísta, poeta – e também pintor – devem-se a Fernando Namora páginas nas quais se perfazem estas múltiplas vocações pessoais, pois que a sua ficção guarda em quase toda ela uma reflexão individual mas solidária com o homem no complexo período que viveu e participou. Foi, porém, sempre um sentimento de comunhão humana que sobretudo o motivou sem que, no entanto, em todas as páginas dos seus livros (inclusive na crónica, que no último quartel da vida também cultivou) não deixe de reflectir-se, como nos seus romances, uma visão plástica das paisagens, como que a ilustrarem literariamente imagens e costumes. A obra tão diversificada não são alheias reflexões sobre ideias e comportamentos individuais ou colectivos e por isso ela é, também, um produto de simultâneos olhares que sendo coerentes com uma séria linha vertical, que era a do autor, de certo modo reflectem uma personalidade simultaneamente atenta, porque desperta e sensível, e preocupada com os grandes problemas individuais e colectivos do seu tempo. Esta evidente preocupação do autor esteve na origem da primeira fase da sua obra, ou antes: marcou-a mais do que às restantes, embora, como atrás se disse, desta não estivesse ausente. Tratava-se de vários factores determinantes, em primeiro lugar o do estilo narrativo da época (As Sete Partidas do Mundo, de 1938). Nesse romance de final da adolescência já se podiam detectar, no entanto, grandes linhas que o autor haveria de manter na vida e na obra. Fora publicado, porém, no rescaldo da sua experiência coimbrã, escolar de Medicina que foi, e a prevalência da cidade universitária e do relacionamento estudantil, não alheia aquela a motivações de aprofundamento psicológico próprio da época socioliterária, e a ascensão entre nós do neo-realismo norte-americano e pouco depois, mas ainda na década, do realismo regionalista brasileiro, foram, ao tempo e posteriormente, detectados pela crítica mais atenta que, no entanto, desde logo soube antever o escritor e narrador de pulso que já ali se poderia adivinhar. Caso curioso, esse romance, tão diferente na técnica e nos temas gerais dos muitos que Namora viria a publicar, deixava, desde logo, notar a garra de um narrador virado para a observação atenta dos costumes e, já então, para os principais problemas da relação humana em sociedade, por mais sui generis ela fosse. O seu segundo romance Fogo na Noite Escura, título cuja intencionalidade discreta era evidente, é ainda a atmosfera universitária coimbrã que, por outros ângulos mais vastos do que no primeiro e muito mais «doutrinados», prevalece. A ficção de Namora, se se aproxima mais do neo-realismo de atmosfera e tema, não deixa de afirmar um pulso de narrador que sucessivamente foi sendo reconhecido. À mesma linha pertencerão ainda a novela Casa da Malta e o romance Minas de San Francisco, respectivamente de 1945 e 1946. Há, porém, no conjunto de uma obra vasta, sobretudo se catalogada, digamos assim, à distância, várias matrizes temáticas que não deixam de estar, directa ou indirectamente, presentes no conjunto da sua vasta produção literária. Serão elas, rapidamente enunciadas e sem qualquer preocupação de estudo crítico que o espaço não comporta (e que, aliás, têm sido já várias vezes referidas), a presença dos meios rústicos da sua origem e de vasta vivência pessoal, embora Coimbra primeiro e Lisboa pela vida fora tenham despertado a atenção, muitas vezes dorida, outras magoada e sempre reflexiva, e a sua carreira profissional de médico, da qual nunca esteve totalmente afastado, pelos interesses profissionais, pelo seu trabalho com Francisco Gentil, no Instituto Português de Oncologia, e pela colaboração duradoura que prestou a uma fábrica de produtos farmacêuticos. Pode dizer-se que essas experiências pessoais lhe foram indesligáveis e proveitosas para a construção de uma extensa obra na qual o homem, como tal, foi sempre tema de investigação e de análise. O homem-indivíduo e o homem-social. O homem-português, do campo e da cidade, numa época, é bom lembrar, na qual era muito menor a possibilidade de observação directa e muito maiores as diferenças culturais e de educação, do que hoje. O que só acrescenta ao mérito intrínseco dos milhares de páginas que nos legou e que, até por isso, são um painel de uma época e um documento. De tudo isto são exemplo as duas séries de Retalhos da Vida de um Médico e as páginas, já de certo modo memorialísticas, das crónicas reunidas no volume A Nave de Pedra, inspirada pela sua juventude de médico em Monsanto, na Beira Baixa, Monsanto, tão indesligável da vida e da figura humana do escritor. Aberto a todas as experiências e desperto para todas as reflexões, em obras suas de horizontes internacionais, portanto muito diferentes e mais vastos, haveriam de reflectir-se os condicionantes e interesses fundamentais da sua experiência humana e intelectual. Assim o demonstram muitas, senão todas as páginas de impressões de viagens por países europeus, sobretudo à Rússia e a nações escandinavas, países e sobretudo povos, tão diferentes do seu e que soube entender e interpretar com larga capacidade humana de adesão e procura. No volume de entrevistas Encontros arquivam-se duas entrevistas de Fernando Namora com o jornalista Alexandre Manuel, publicadas em 1969 e 1976 no Diário de Notícias, nas quais como, aliás, em todas as que esse volume regista, se encontra como que a auto-radiografia, digamos assim, da sua obra como totalidade que representa. Essas entrevistas guardam, também (sobretudo a segunda), as suas impressões da experiência, infelizmente efémera por vontade própria, que foi a sua missão como presidente do então Instituto de Cultura Portuguesa, posteriormente extinto, e à qual se ficou devendo, no conjunto de realizações muito importantes na área editorial, a criação, para o grande público, da «Biblioteca Breve», que durante anos foi um exemplo de acção pedagógica isenta, vertical, variada e de custo acessível, orientada por Álvaro Salema e que foi, até hoje, uma das séries de intenção didáctica mais aliciantes e úteis. Quanto ao conjunto da obra de Namora, tão variada nos temas, motivos e observações, pode concluir-se que o entardecer da vida, longe de lhe diminuir a produtividade, a ampliou a novas mais variadas perspectivas. Inseriu-a em horizontes mais vastos que lhe foi dado conhecer – e aí se pode citar a série dos Cadernos de um Escritor, balanço também de viagens e experiências. No entanto, o romance O Rio Triste, título significativo, é de certo modo, sobretudo nas páginas de implícita análise de tipos femininos e de situações sentimentalmente aprofundadas, uma síntese final de muitas experiências e observações. O conjunto da obra de Namora, visto à perspectiva do tempo e dos factos que ela, directa ou indirectamente comporta, é um painel de uma época e o produto de várias e ricas contradições interiores, postas em termos simultaneamente confessionais e narrativos.

LUÍS FORJAZ TRIGUEIROS (in "Dicionário de Literatura Portuguesa", Org. e dir. Álvaro Manuel Machado, Lisboa: Editorial Presença, 1996 – p. 331-332)


BIBLIOGRFIA:

Ficção:
- Cabeças de Barro (contos), em colaboração com Carlos de Oliveira e Artur Varela, Lousã: Moura Marques & Filho Editores, 1937
- As Sete Partidas do Mundo (romance), Coimbra: Portugália, 1938 [Prémio Almeida Garrett, 1938]
- Fogo na Noite Escura (romance), Col. Novos Prosadores, Coimbra: Coimbra Editora, 1943; edição refundida, Lisboa: Guimarães Editores, 1956
- Casa da Malta (novela), Col. Novos Prosadores, Coimbra: Coimbra Editora, 1945
- Minas de San Francisco (romance), Col. Novos Prosadores, Coimbra: Coimbra Editora, 1946 [Prémio Ricardo Malheiros, 1953]
- A Noite e a Madrugada (romance), Editorial Inquérito, 1950
- O Trigo e o Joio (romance), Lisboa: Guimarães Editores, 1954
- O Homem Disfarçado (romance), Lisboa: Editora Arcádia, 1957
- Cidade Solitária (contos), Lisboa: Editora Arcádia, 1959
- Domingo à Tarde (romance), Lisboa: Livros do Brasil, 1961 [Prémio José Lins do Rego, 1961]
- Os Clandestinos (romance), Mem Martins: Publicações Europa-América, 1972
- Resposta a Matilde (divertimento), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1980
- O Rio Triste (romance), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1982 [Prémio Fernando Chinaglia, 1982; Prémio D. Dinis, 1982; Prémio Fialho de Almeida, 1983]

Biografia, narrativa memorialística e de viagens, crónica:
- Retalhos da Vida de um Médico (narrativas), Lisboa: Editorial Inquérito, 1949 [Prémio Vértice, 1949]
- Deuses e Demónios da Medicina (biografias romanceadas), Lisboa: Livros do Brasil, 1952; edição refundida e ampliada, Lisboa: Editora Arcádia, 1963
- Retalhos da Vida de um Médico (narrativas), II Série, Lisboa: Editora Arcádia, 1963
- Diálogo em Setembro (crónica romanceada), Mem Martins: Publicações Europa-América, 1966
- Um Sino na Montanha (cadernos de um escritor), Mem Martins: Publicações Europa-América, 1968
- Os Adoradores do Sol (cadernos de um escritor), Mem Martins: Publicações Europa-América, 1971
- Estamos no Vento (narrativa literário-sociológica), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1974
- A Nave de Pedra (cadernos de um escritor), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1975
- Cavalgada Cinzenta (narrativas de viagem), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1977
- Encontros (entrevistas), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1979
- Sentados na Relva (cadernos de um escritor), Venda Nova - Amadora: Bertrand Editora, 1986
- URSS Mal Amada, Bem Amada (crónicas), Venda Nova - Amadora: Bertrand Editora, 1986
- Autobiografia, Lisboa: Edições 'O Jornal', 1987
- Jornal sem Data (cadernos de um escritor), Venda Nova - Amadora: Bertrand Editora, 1988
- Dispersos, 2 vols., org. José Manuel Mendes, Lisboa: Círculo de Leitores, 1999

Poesia:
- Relevos, Coimbra: Portugália, 1937
- Mar de Sargaços, Coimbra: Atlântida, 1939
- Terra, Col. Novo Cancioneiro, N.º 1, Coimbra, 1941
- As Frias Madrugadas (poesia reunida), Lisboa: Editora Arcádia, 1959
- Marketing, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1969
- Nome para uma Casa, Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984


Arnaldo Trindade, sob o seu selo Orfeu, editou em 1980, o LP "Fernando Namora Diz Fernando Namora" contendo oito poemas e excertos da narrativa "Piquenique" (do livro "Cidade Solitária"). Um registo que nunca foi editado em CD (que seja do nosso conhecimento).
Já no presente século, saíram mais dois discos preenchidos, parcial ou integralmente, com poesia namoriana: "Sandálias de Vento" (2002), do cantautor Francisco Ceia, e "Geração do Novo Cancioneiro", de Maria de Jesus Barroso (recitação) e de Luísa Amaro (música e guitarra portuguesa). É pois recorrendo a estas duas edições que, no centenário do nascimento de Fernando Namora, celebramos a sua poética, aliás, muito mal conhecida (e injustamente). Uma série de onze poemas na qual, curiosamente, estão representados todos os livros, se bem que mais enfaticamente o último, "Nome para uma Casa". A sequência é cronológica e no caso de poemas extraídos de um mesmo livro respeita-se a ordem pela qual aí aparecem.
E qual o posicionamento da rádio pública face a Fernando Namora neste ano do centenário? De referir, em primeiro lugar, a evocação que Germano Campos fez do autor no seu programa "Café Plaza", de 27 de Janeiro passado, a propósito dos 30 anos da morte [a partir de 34':02'' >> RTP-Play]. Mais recentemente, a 11 de Abril, no programa "Páginas Tantas", Fernando Namora e a sua obra foram o assunto principal da conversa entabulada pelo trio feminino Inês Pedrosa, Patrícia Reis e Rita Ferro, sob a moderação de Fernanda Almeida [>> RTP-Play]. Por último, o poema escolhido por Luís Caetano para a rubrica "A Vida Breve", emitida neste mesmo dia, foi precisamente um da autoria de Fernando Namora dito pelo autor, de título "Um Segredo" [>> RTP-Play].
Registamos com agrado as evocações citadas, mas fica-nos a saber a pouco. A rádio pública (e referimo-nos ao conjunto dos três canais nacionais) peca por omissão se não aproveitar a ocasião do centenário do nascimento do emérito escritor para, cabalmente, aguçar nos ouvintes, especialmente nos mais jovens, o apetite de conhecerem a sua obra. E como? De uma maneira muito simples: transmitindo pontualmente ora poemas recitados (resgatados do arquivo e/ou expressamente gravados para o efeito), ora – e sobretudo – excertos de prosa lidos por quem o sabe fazer bem, evidentemente. O difícil será mesmo escolher de entre a vasta produção namoriana. Tudo isso sem prejuízo, obviamente, da reposição das adaptações de romances e narrativas de Namora que foram feitas para a rádio, nos tempos áureos do teatro radiofónico, como "Minas de San Francisco" e "A Noite e a Madrugada". Ficamos na expectativa!

Adenda (em 17-Abr-2019):
Luís Caetano, na edição de anteontem do seu programa "A Ronda da Noite", teve o mui louvável cuidado de homenagear (amplamente) Fernando Namora. E fê-lo resgatando do arquivo da RDP duas entrevistas do escritor – a primeira dada a Francisco Igrejas Caeiro para o programa "Perfil dum Artista", de 1 de Novembro de 1954; a segunda concedida a Maria Júlia Guerra para o programa "De Mãos Dadas", de 6 de Fevereiro de 1985 – e ainda textos de Namora lidos pelo próprio: o poema "Um Segredo" (inserido na rubrica "A Vida Breve") e excertos do livro "Jornal sem Data" [>> RTP-Play].
Uma vénia de agradecimento a Luís Caetano por nos ter dado a oportunidade de ouvir estas ignoradas gravações!



Poema da Utopia



Poema: Fernando Namora (in "Relevos", Coimbra: Portugália, 1937; "As Frias Madrugadas", Lisboa: Arcádia, 1959, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 50)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


A noite caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.
No alto, a utópica Lua vela comigo
e sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! se o espectáculo findou
deixa-nos também dormir.



Canção de Embalo para as Virgens dos Portos



Poema: Fernando Namora (in "Mar de Sargaços, Coimbra: Atlântida, 1939; "As Frias Madrugadas", Lisboa: Arcádia, 1959, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 132-133)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


O coração de poeta é oiro estilhaçado
que vai semeando no seu caminho.
Oiro caído é oiro perdido
que o poeta não volta para o regar.
Vão acenar-lhe da largada
como se ele partisse para o cabo do mundo,
que o horizonte é largo e o mar é fundo
e ele não tornará.
Ondas vencidas são ondas perdidas
que o poeta só tem saudades do que virá.

Em cada praia chegada
há luzes festivas na areia:
a voz de mel do poeta triste
é canto feiticeiro de sereia.
Canta, canta, que a tua voz magoada
tenha a tristeza do bem perdido
dos sonhos azuis que o embalaram.
Ai! que dos olhos da barca
se vêem estrelas a brilhar.
Canta, canta, para o tesoiro perdido
que a esperança lá irá naufragar.

Nem a noite nem o dia o trarão consigo:
o horizonte é largo e o mar é fundo,
há outras paragens, no cabo do mundo,
para ele descobrir e enfeitiçar.


* Francisco Ceia – voz
José Marinho – orquestrações, piano e acordeão
José Menezes – saxofones (soprano, tenor, barítono)
Jean-François Lézé – marimba
Pedro Neves – violoncelo
Sertório Calado – percussões
Gravado nos Estúdios Dó-Ré-Mar, em Abril de 2002



Cacilda



Poema de Fernando Namora (in "Terra", poema 8, Col. Novo Cancioneiro, N.º 1, Coimbra, 1941 – p. 19; "As Frias Madrugadas", Lisboa: Arcádia, 1959, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 174)
Recitado por Maria de Jesus Barroso* (in Livro/CD "Geração do Novo Cancioneiro", Althum/Museu do Neo-Realismo, 2010)
Música: Luísa Amaro




Vem, Cacilda, olhar a madrugada que rompe.
Vem e sentirás mais vastas a tua dor e a tua esperança.
Vem de manso, cautelosa,
antes que os pastores acordem em suas frautas
e perturbem a manhã.
Talvez sintas no rumorejar das aves madrugadoras
aquelas asas sem limites,
para além do campanário, para além dos montes
que teu olhar nunca soube ultrapassar.
Vem, Cacilda! Serás mais um astro branco
que a manhã serena coroou.


* Maria de Jesus Barroso – voz
Luísa Amaro – guitarra portuguesa
Gonçalo Lopes – clarinete baixo
Gravado no estúdio de André Fernandes e nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Captação de som – Tiago de Sousa
Mistura e masterização – Quico Serrano, no Estúdio da Aguda, Vila Nova de Gaia



Canto Tardio



Poema: Fernando Namora (in "Marketing", Mem Martins: Publicações Europa-América, 1969, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 99)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Antes que o Inverno chegue
volto a ser cigarra. Canto.
Da laboriosa agonia me liberto e exalto.
Canto sem cessar o tempo
temendo e saboreando o tempo,
galo da aurora
que não tem tempo de acordar dormindo
De celeiro vazio, canto,
surdo aos lobos e aos ratos
que esgadanham o restolho.
Canto no Outono, que é oiro velho
e um rosto rugoso e macio.
Canto só porque é tarde para o canto
e a cantar adio o que tarde veio.
Cantando abro-me às formigas
e ofereço-lhes o indigesto banquete
para que a morrer cantando
me devorem vivo.



Líricas



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984 – p. 13-14, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 11-12)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Resina
urze
vento:
          a infância.
Nas narinas
o suor
dos gados
no tapete
de estrume
das quelhas:
          a distância.
Nuvem inconstante
dependurada
do lamento
dos sinos:
          a ausência.
Casco e pedras
na marcha
ensonada
dos bois longínquos
colinas brandas
na pura luz
saturada
de moitas
diluvianas
inconstante nuvem
no abandono
de um momento:
          oh paisagem
          dentro dos olhos
          vagabundos
          oh paisagem esbatida
          na sépia
          dos retratos
          de antigamente.



Um Segredo



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 16-18)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Meu pai tinha sandálias de vento
só agora o sei.
Tinha sandálias de vento
e isto nem sequer é uma maneira de dizer
andava por longe os olhos fugidos a expressão em nenhures
com as miraculosas instantaneidades que nos fazem estar em todos os sítios.

Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando
mas toda a sua ausência era
o malogro de o ser
só agora o sei.
Andava por longe ou sentíamo-lo longe
vem dar no mesmo
e no entanto víamo-lo sempre
ali plantado de imobilidade absorta
no cepo de carvalho raiado de negro
a que o caruncho comera o miolo
como as lagartas esvaziam as maçãs
estranhamente quieto murcho resignado
no seu estranho vadiar
os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói
como um apelo perdido uma coragem abortada.
Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso tingida
ausência era
altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste
tristeza sim tristeza solene e irremediada
só agora o sei.

Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares
sulco azul
que nada distingue do azul onde foi sulcado
e por isso nem é águia nem ao menos
o que do seu voo resta para que
o sonho se faça real.
Meu pai era um homem com as nostalgias
do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs
e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias
miraculosamente leves soltas imaginosas
indo de acaso em acaso de astro em astro
eram de vento as suas sandálias fabulosas
levando-o aonde mais ninguém poderia chegar.

Os outros não o sabiam nem eu o sabia
só o víamos sentado no cepo velho
raiado de negro como uma estrela fossilizada
por isso tudo era para ele mais irremediável e triste
sei-o agora tarde de mais
tarde de mais é uma dor de remorso
que me consome víscera a víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs.
Mas de qualquer maneira existe um segredo
de que ambos partilhamos
ciosamente avaramente indecifradamente
como os astutos conspiradores
que fazem do seu segredo
um mágico tesouro inviolado.

Um segredo simples:
o que sentiste pai
sinto-o eu agora por ambos
sinto-o por ti
sinto-o por mim.

Ainda que por ele devorados.



Também as Palavras



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 79)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


No amor também as palavras
são necessárias. Os gestos talvez não bastem.
Nem a chuva lá fora enquanto o amor se inflama.
Nem o sussurro nas árvores quando os corpos serenam.
Nem a melopeia das águas quando as bocas se esmagam.
Nem o fulgor dos olhos quando a paixão se amotina.

Penso no amor e logo invento palavras
e logo as palavras se põem ébrias.
Penso no amor e logo as palavras
se soltam como fogosas aves
a que não pergunto o rumo.

Penso no amor e logo preciso
que as palavras digam
que amor é este em que penso e em que grito.



Aparição



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 104-105)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Vens como uma aparição
apenas vestida com a tua beleza
dos teus gestos tombam as pétalas
que acabaram de abrir
e em mim escorrem como orvalho
que o morno hálito fundiu

vens e entras em mim com a subtileza da nuvem que abraçou o sol
e o bebe inteiro para o ter só seu
ou como lança ardente
que rasga de lava a paisagem amortecida

vens e ficas e incorporas-te
até não haver mais do que uma súplica
nem mais do que um fogo
nem mais do que uns braços
nem mais do que uma boca
nem mais do que um olhar de pálpebras cerradas
todo recolhido no que nele é júbilo e dor
dor de ser breve sabendo-se embora infindável
a vertigem transporta-nos como no poema da Ada Negri
e deixa-nos num lugar que nem é presença
nem ausência
apenas o exacto lugar
onde apenas cabe um corpo que instantes antes eram dois.

Uma folha tomba do plátano diz a Ada.
És tu és tu que me levas pelos ares.



Se o Coração Não Cansa



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 106-107)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Se olhas a distância
talvez julgues que é tarde
e que a rosa se deixou abrir
até ser calafrio
e que tudo é o vazio
sem números nas portas
onde pernoitar de tanta viagem.

Olharás a neve que apagou
as horas e os passos
e a palidez dos espelhos
devorando o silêncio
e o crescer da relva na memória
dos longes coados.
A sombra da cinza
é orvalho
e nele os remos não avançam
no vento fatigado.
Resignado te olhas
fundindo os portos e as lendas
onde a infância gela
na remota espera
de ser desatino.
Mas não
de todas as vezes diz não
para que o tempo se desprenda
nas velas magras.

Se o coração não cansa
nada é tarde
nada.



Música na Praia



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 154-155)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Dolente
indolente
no mar indo
no mar vindo
na espuma se abrindo
espreguiçada
dolente
toada brasileira
que dorme
desperta
indo e vindo
vindo e indo
que acorda sonhando
dormindo gemendo
espreguiçada
na areia
melopeia
brasileira
voz quente
na praia ensonada
no mar bocejando
voz quente
quebrando quebrando
cansada
de ir morrendo
mas tão viva sendo
na praia extasiada



Cantilena



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 165-166)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Do cardo que carda a gente
nele se vê a roupa pouca
corpo tosco tosca terra
nele se escuta a voz ausente

Da água que fura a pedra
vão lamento gasto tempo
dura água que vai dentro
do mais oculto da serra

Da saliva que o mar bebe
sonho leve ondas tontas
luas ocas que nos seguem
na palidez das lucernas

Do povo que pesa os ares
asas vagas bater de asas
sono ébrio que braveja
no crepitar das miragens

Na mão que enxuga a dor
morre a ira cansa a fera
da semente que diz não
iça a torre seca a hera

Povo povo quem te chama
tem a espora no dizer
cada quimera esvaída
no deserto vai morrer


* Francisco Ceia – voz
José Marinho – orquestrações, piano e acordeão
José Menezes – saxofones (soprano, tenor, barítono)
Jean-François Lézé – marimba
Pedro Neves – violoncelo
Sertório Calado – percussões
Gravado nos Estúdios Dó-Ré-Mar, em Abril de 2002



Capa da 1.ª edição do livro "Relevos" (Coimbra: Portugália, 1937).



Capa da 1.ª edição do livro "Mar de Sargaços" (Coimbra: Atlântida, 1939).



Capa da 1.ª edição do livro "Terra" (Col. Novo Cancioneiro, N.º 1, Coimbra, 1941).



Capa da 1.ª edição do livro "As Frias Madrugadas" (Lisboa: Editora Arcádia, 1959).



Capa da 1.ª edição do livro "Marketing" (Mem Martins: Publicações Europa-América, 1969).



Capa da 1.ª edição do livro "Nome para uma Casa" (Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984).



Capa do CD "Sandálias de Vento", de Francisco Ceia (Pirilampo, 2002).



Capa do livro/CD "Geração do Novo Cancioneiro", de Maria de Jesus Barroso e Luísa Amaro (Althum/Museu do Neo-Realismo, 2010).


[reeditado em 17-Abr-2019]