23 fevereiro 2019

José Medeiros: "O Cantador"


© Fernando Negreira


Entre os acontecimentos tristes do dia 23 de Fevereiro de 1987, faz hoje trinta e dois anos, conta-se a morte daquele que pode considerar-se, sem exagero ou favor, o trovador maior da música popular portuguesa: José Afonso. Em reconhecimento do seu grande – enorme – legado artístico e da admirável intervenção cívica em que sempre se empenhou, alguns pares sentiram-se no dever moral de criar canções de tributo, algumas das quais já apresentámos neste blogue [links ao fundo]. No presente ano, continuamos na mesma senda destacando um espécime que é assinado pelo cautautor açoriano José Medeiros. Tem por título "O Cantador" e faz farte do CD "Torna-Viagem", editado em 2004 e que no ano seguinte foi distinguido com o Prémio José Afonso, por decisão de um júri no qual figuraram o compositor e pianista António Victorino d'Almeida, a pianista Olga Prats, o crítico Pedro Pyrrait e os jornalistas Carlos Pinto Coelho e Viriato Teles.
José Medeiros (para os amigos, Zeca Medeiros), além de distinto realizador, na RTP-Açores, de séries e telefilmes memoráveis, como "Xailes Negros" (1986), "Balada do Atlântico" (1987), "O Barco e o Sonho" (1989), "Mau Tempo no Canal" (1992), "O Feiticeiro do Vento" (1996), "7 Cidades ou a Lenda de Genádio, o Arcebispo" (1997), "Gente Feliz com Lágrimas" (2002), "A Ilha de Arlequim" (2007) e "Anthero: O Palácio da Ventura" (2009), é um dos mais originais e categorizados criadores poético-musicais que existem em Portugal. Quem não tiver a sensibilidade embotada e se der ao cuidado de ouvir a sua discografia não terá dificuldade em disso se aperceber. Por conseguinte, a opção (persistente) de não incluir o quer que seja do repertório de José Medeiros na 'playlist' da Antena 1 reveste-se da mais vil injustiça feita ao artista e constitui um crime soez de sonegação cultural aos cidadãos/ouvintes/contribuintes.



O Cantador



Letra e música: José Medeiros
Arranjo: Paulo Borges e José Medeiros
Intérprete: José Medeiros* com Mariana Abrunheiro (in CD "Torna-Viagem", Memórias/Fortes & Rangel, 2004)


[instrumental]

O cantador
chegou de madrugada,
venceu a noite
pelas praias do mar;
na sua voz
teceu uma balada:
amanhecer
que havemos de cantar.

O cantador
rasgou as nossas penas
num canto moço
que havemos de acender;
na sua voz
ergueu vilas morenas:
Maio maduro
que havemos de colher.

Ergueu cidades
sem muros nem ameias,
lançou sementes
na terra de ninguém;
cantou o sol,
rompeu nossas cadeias,
trouxe consigo
outro amigo também.

[instrumental]

O cantador
chegou de madrugada,
venceu a noite
pelas praias do mar;
na sua voz
teceu uma balada:
amanhecer
que havemos de cantar.

O cantador
rasgou as nossas penas
num canto moço
que havemos de acender;
na sua voz
ergueu vilas morenas:
Maio maduro
que havemos de colher.

Ergueu cidades
sem muros nem ameias,
lançou sementes
na terra de ninguém;
cantou o sol,
rompeu nossas cadeias,
trouxe consigo
outro amigo também.


* José Medeiros e Mariana Abrunheiro – vozes solo e em coro
João Lóio, Regina Castro, Cláudia Rangel e Helena Lavouras – vozes em coro
Paulo Borges – piano e acordeão
Pedro Lemos – baixo eléctrico
Quiné Teles – percussão
Direcção musical – Paulo Borges
Produção – Fernando Rangel, Pedro Rangel e José Medeiros
Gravado por Fernando Rangel e Pedro Rangel, nos Estúdios RM, Porto, de Março a Novembro de 2003
Mistura e masterização – Pedro Rangel



Capa do CD "Torna-Viagem", de José Medeiros (Memórias/Fortes & Rangel, 2004)

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Outros artigos neste blogue com poemas/canções de homenagem a José Afonso:
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Filipa Pais: "Zeca"
José Mário Branco: "Zeca (Carta a José Afonso)"
Dulce Pontes: "O Primeiro Canto" (dedicado a José Afonso)