20 junho 2020

Trovante: "Noite de Verão" (Manuel da Fonseca)


Eugen von Blaas, "Adrette Venezianerin am Balkon" ("Rapariga Veneziana à Varanda"), 1883, óleo sobre painel de madeira, 30 x 22,5 cm, Colecção particular


Em 2020, o solstício de Verão ocorreu às 21:44, hora UTC (Universal Time Coordinated = Tempo Universal Coordenado), que em Portugal Continental corresponde às 22:44. A circunstância de ser em plena noite, mas ainda em hora boa para se ir apanhar ar fresco, deu-nos a ideia de trazer, para assinalar o início da estação estival, o poema "Noite de Verão", de Manuel da Fonseca, que João Gil musicou para ser gravado pelo seu grupo Trovante e fazer parte integrante do álbum "Terra Firme", editado em Novembro de 1987.
Apesar de ser um dos grupos mais importantes da História da Música (Popular) Portuguesa, o Trovante é hoje em dia virtualmente impossível de se ouvir na Antena 1, a mesma que, volta e meia, dispara o 'jingle' "Antena 1: uma rádio com memória". Como explicar tal anormalidade?



Noite de Verão



Poema: Manuel da Fonseca (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: João Gil
Arranjo: Trovante
Intérprete: Trovante* (in LP "Terra Firme", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1989; CD "O Melhor dos Trovante", EMI Music Portugal, 2010; "Trovante: Grandes Êxitos", EMI Music Portugal, 2013)




[instrumental]

Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
...aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
— mas baixa os olhos se algum homem passa...

Sente-se nua
— mas baixa os olhos se algum homem passa...
Sente-se nua.

[instrumental]

Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
...aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
— mas baixa os olhos se algum homem passa...

Sente-se nua
— mas baixa os olhos se algum homem passa...
Sente-se nua.
Sente-se nua.
Sente-se nua.
Sente-se nua.

[instrumental]


* Trovante:
Artur Costa – saxofone
Fernando Júdice – baixo
João Gil – guitarras e coros
José Martins – sintetizador
José Salgueiro – bateria, percussão e coros
Luís Represas – voz
Manuel Faria – piano e sintetizador
Produção – Manuel Faria e Artur Costa
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Agosto, Setembro e Outubro de 1987
Engenheiro de som – Paulo Neves
Misturas – Paulo Neves, Manuel Faria e Artur Costa
URL: http://www.sinfonias.org/mais/musica-portuguesa-anos-80/directorio/955-trovante
http://www.macua.org/biografias/trovante.html
https://www.youtube.com/channel/UCbaWTKc3QdgF37Q933YIi4A
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=trovante



NOITE DE VERÃO

(Manuel da Fonseca, in "Planície", Coimbra: Novo Cancioneiro, 1941; "Poemas Completos", Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; "Poemas Completos", pref. Mário Dionísio, 2.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1963 – p. 109; "Poemas Completos", pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 120)


Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
...aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
— mas baixa os olhos se algum homem passa...



Capa da 1.ª edição do livro "Planície", de Manuel da Fonseca (Col. Novo Cancioneiro, N.º 6, Coimbra, 1941)
Ilustração – Manuel Ribeiro de Pavia



Capa do LP "Terra Firme", de Trovante (EMI-VC, 1987)
Concepção – Fátima Rolo Duarte
Fotografia – Homem Cardoso

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Artigos relacionados:
Janita Salomé: "Reino de Verão"
Grupo Banza: "Verão"
Fernando Pardal: "Estio" (Manuel da Fonseca)

18 junho 2020

José Saramago: "Dia Não"



Publicado em 1966, "Os Poemas Possíveis", de José Saramago, foi um dos livros de que Luís Cília se serviu quando começou a trabalhar na trilogia "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours". E logo no primeiro volume, editado em 1967 com o selo Moshé-Naïm, saíram dois poemas de Saramago musicados e cantados por Luís Cília: "Dia Não" e "Contracanto". O primeiro viria a ser gravado também por Manuel Freire, em duas versões, ambas com música de Luís Cília: uma para o LP "Devolta" (1978), produzido por Luís Cília, e outra para o CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago" (1999), produzido por Carlos Alberto Moniz. São estes três registos do "Dia Não" que aqui apresentamos no dia em que se completaram dez anos sobre a morte do nosso primeiro (e único até agora) Nobel da Literatura.
Nesta efeméride do escritor que, depois de Camões e de Pessoa, mais prestigiou Portugal em todo o mundo, era justo e expectável que a direcção de programas da Antena 1, no mínimo, desse a ouvir ao longo do dia um punhado das canções feitas sobre poemas saramaguianos, cuja cifra total ultrapassa actualmente a trintena enumerada no artigo José Saramago na música portuguesa. Mas não. Nada aconteceu, o que nos dá toda a legitimidade para perguntar: andam a dormir na forma? Ou não querem trabalhar, deixando correr o tempo enquanto estão a olhar para o Mar da Palha ou a explorar o Facebook?



Dia Não



Poema: José Saramago (in "Os Poemas Possíveis", Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", Moshé-Naïm, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", EMEN, 1996)


De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas

Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco, seja rude
Como pedras calcinadas

Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
Nestas quadras desoladas!


* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris
URL: http://www.luiscilia.com/
https://www.youtube.com/user/LeoMOV/videos



Dia Não



Poema: José Saramago (in "Os Poemas Possíveis", Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25)
Música: Luís Cília
Intérprete: Manuel Freire* (in LP "Devolta", Diapasão/Lamiré, 1978)


De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas

Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco, seja rude
Como pedras calcinadas

Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
Nestas quadras desoladas!


* [Créditos gerais do disco:]
Manuel Freire – voz
Luís Cília – guitarra, coros
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Celso de Carvalho – viola baixo
Vasco Pimentel – sintetizador ARP Omni, piano
Arranjos e direcção musical – Luís Cília
Produção – Lamiré
Gravado nos Estúdios Musicorde, Lisboa
Técnicos de som – Rui Remígio e Luís Flor



Dia Não



Poema: José Saramago (in "Os Poemas Possíveis", Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25)
Música: Luís Cília
Intérprete: Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)




De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas

Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco, seja rude
Como pedras calcinadas

Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
Nestas quadras desoladas!


* Manuel Freire – voz
Aníbal Lima – violino
Nuno Silva – clarinete
Paulo Gaio Lima – violoncelo
João Paulo Esteves da Silva – piano
Bernardo Moreira – contrabaixo
Orquestração e direcção musical – Carlos Alberto Moniz
Assistência musical – Idália Moniz
Produção – Dito e Feito, Lda.
Gravado nos Estúdios Xangrilá, Lisboa, nos dias 8, 9 e 10 de Março de 1999, por Pedro Ferreira, e nos Estúdios Goya, nos dias 23, 24, 25 e 26 de Março de 1999, por Rosário Sena e José Manuel Fortes
Mistura e masterização – José Manuel Fortes
URL: https://www.facebook.com/ManuelFreireOficial/
https://www.youtube.com/channel/UC-z8xqfA49yS1tAXIBTvQig
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=manuel+freire



Capa da 1.ª edição do livro "Os Poemas Possíveis", de José Saramago (Col. Poetas de Hoje, Portugália Editora, 1966)



Capa do LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", de Luís Cília (Moshé-Naïm, 1967)
Fotografia – Ludwik Lewin
Concepção – Henri Matchavariani



Capa da antologia em CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", de Luís Cília (EMEN, 1996)



Capa do LP "Devolta", de Manuel Freire (Diapasão/Lamiré, 1978)
Fotografias e arranjo gráfico – Maria Judith Cília



Capa da 1.ª edição do CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago" (Editorial Caminho, 1999)
Design e ilustração – José Serrão

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Artigo relacionado:
José Saramago na música portuguesa

10 junho 2020

Camões recitado e cantado (VI)


Estátua de Luís de Camões, em bronze, sita na praça com o mesmo nome, em Lisboa. Concebida pelo escultor Victor Bastos, foi inaugurada pelo rei D. Luís, a 9 de Outubro de 1867.


Se alguém tomasse a iniciativa de fazer um inquérito de rua em Portugal, pedindo aos transeuntes que dissessem o primeiro verso que lhes viesse à cabeça, os dois mais citados seriam muito provavelmente os camonianos «As armas e os barões assinalados» e «Amor é (um) fogo que arde sem se ver». O soneto cujo incipit é este verso já foi apresentado neste blogue, recitado por João Villaret [cf. Camões recitado e cantado] e por Eunice Munõz [cf. Camões recitado e cantado (II)], mas a estância primeira d' "Os Lusíadas" ainda não. Surgiu hoje a oportunidade de colmatarmos essa lacuna e de celebrarmos as primeiras estrofes da Proposição do monumental poema épico, mediante a apresentação de três registos: o primeiro recitado (por Afonso Dias), o segundo cantado (por António Pinto Basto, com música de José Cid) e o terceiro também cantado (por José Mário Branco, com música dele próprio e uma melodia popular). No último, o saudoso cantautor não se restringe ao cultivo da poesia do genial vate, antes utiliza-a como o mais elevado referencial da literatura de língua portuguesa e o ponto de partida para denunciar a tresloucada 'reforma' ortográfica que em meados dos anos 80 se estava a cozinhar e que estipulava a abolição total dos acentos gráficos. Os mixordeiros e os politiqueiros da língua recuaram nesse ponto, em parte, mas não desistiram de aprovar a bo(u)rrada que é o AO90, cujos efeitos perniciosos são hoje bem notórios em Portugal, não só na escrita como na pronúncia de muitas palavras. «As palavras estão em crise», como bem assertivamente escreveu e cantou José Mário Branco, pelo que a inclusão da sua "Arrocachula" nesta celebração camoniana se afigura inteiramente pertinente.
Apesar do incómodo e do desconforto, andámos hoje com a Antena 1 'debaixo de ouvido'. Em primeiro lugar, registamos com agrado o surgimento – finalmente! – de um apontamento de poesia: tivemos o ensejo de ouvir, em momentos diferentes, um poema de Eugénio de Andrade, dito por Beatriz Batarda, e outro de Alexandre O'Neill, na voz de Rui Morisson. E também nos foi grato notar a ausência, na 'playlist', do corriqueiro lixo sonoro anglo-saxão (mau grado subsistir ainda muita escória endógena), mas duvidamos que tal situação seja para durar. O que nos deixou assaz desgostosos foi não nos 'sair na rifa' um naco, por pequeno que fosse, da poesia de Camões, na forma cantada ou recitada. Como é possível tal desconsideração àquele que mais alto alevantou a Língua Portuguesa, no dia que o País escolheu para o celebrar, pela rádio do próprio Estado?



Os Lusíadas: Canto I (estrofes 1.ª e 2.ª)



Poema (excerto) de Luís de Camões (in "Os Lusíadas", Lisboa, 1572)
Recitado por Afonso Dias* (in CD "Cantando Espalharey: Vol. I", Edere, 2001)


As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.


* Afonso Dias – voz
Pesquisa e produção – Afonso Dias e André Dias
Gravado no Estúdio InforArte, Chinicato, Lagos
Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro



As Armas e os Barões Assinalados



Poema (excerto): Luís de Camões (estrofes 1.ª, 2.ª, 3.ª e 6.ª do Canto I d' "Os Lusíadas", Lisboa, 1572) [texto integral em "Jornal de Poesia"]
Música: José Cid
Intérprete: António Pinto Basto (in LP/CD "Camões, as Descobertas... e Nós", de José Cid* e Amigos, Mercury/Polygram, 1992)




As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
E em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade,
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
(Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande);

As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana...


* António Pinto Basto – voz
Músicos participantes:
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Francisco Martins – viola de 12 cordas solo baixo
Francisco Cardoso – bateria e percussões
José Cid – sintetizadores, cítara indiana e coros
João Veiga – viola acústica
José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa

Arranjos e produção – José Cid
Gravado e misturado em casa de José Cid, Mogofores, Anadia
Engenheiros de som – Vítor Moreira e Jorge Barata
Montagem digital – Jorge Hipólito



Arrocachula



Poema: Luís de Camões (1.ª estrofe d' "Os Lusíadas") e José Mário Branco
Música: José Mário Branco e Popular
Intérprete: José Mário Branco* (in LP "A Noite", de José Mário Branco*, UPAV, 1985, reed. Schiu!/Transmédia, 1987, EMI-VC, 1996, Warner Music Portugal, 2017)




As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.
[bis]

[instrumental]

O problema é que agora já conheçu
Todas as regrâs
Do novo jogu

E verdade verdadinhâ
Já não é fácil
Ser-se musicu

São as mesmíssimas palavrâs
Só os assentus
É que mudarão

O agudo é exdruxulu
E o exdruxulu
Agora é gra

Ai, as palavras estão em crise
E não é só pelo que elas querem dizer [bis]
Ai, as palavras têm raízes
Que começam no som que eles estão a perder [bis]

La larai laraio
La larai laraio
La larai laraio

[instrumental]

Arrocachula, arrocachula
Arrocachula na espinal-medula
[10x]

[instrumental]

O problema é que agora já conheçu
Todas as regrâs
Do novo jogu

E verdade verdadinhâ
Já não é fácil
Ser-se musicu

São as mesmíssimas palavrâs
Só os assentus
É que mudarão

O agudo é exdruxulu
E o exdruxulu
Agora é gra

Não faz sentido que as palavras
Percam música na música que aparecer [bis]
Ai, o sentido que é perdido
É o ouvido que as palavras estão a perder [bis]

La larai laraio
La larai laraio
La larai laraio

[instrumental / coro]


* Viola eléctrica – Rui Veloso
Viola "raspada" – José Mário Branco
Roland JX-8P – António Emiliano
Bateria – Henry Sousa
Baixo – Paulo Jorge
Trompete – Tomás Pimentel
Saxofone tenor – Rui Cardoso
Trombone – José Oliveira
Clarinete – Artur Moreira
Pífaro – José Pedro Calado
Violino "rabecado" – Luís Cunha
Viola acústica, viola braguesa e cavaquinhos – Júlio Pereira
Bombos e caixas – Rui Júnior e José Mário Branco
Ferrinhos – Rui Júnior
Coro – Formiga, Isabel Campelo, Madalena Leal, Graça e Necas Moreira, Rui Vaz e Gustavo Sequeira
Coro do refrão – Rui Veloso e José Mário Branco
Arranjo de metais – Tomás Pimentel e José Mário Branco

Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Produção artística – Manuela de Freitas, José Manuel Fortes, Trindade Santos e José Mário Branco
Produção executiva – Carlos Batista
Gravado no Angel Studio II, Lisboa, de 8 a 22 de Abril de 1985
Captação de som – José Manuel Fortes
Misturas – José Manuel Fortes e José Mário Branco
Transferência e remasterização para CD (edição de 1996) – José Manuel Fortes



Capa da 1.ª edição d' "Os Lusíadas", de Luís de Camões (Impressos em Lisboa: em casa de Antonio Gõçaluez Impressor, 1572)



Capa do CD "Cantando Espalharey: Vol. I", de Afonso Dias (Edere, 2001)
Concepção – Tiago Silva



Capa do CD "Camões, as Descobertas... e Nós", de José Cid e Amigos (Mercury/Polygram, 1992)
Design – Álvaro Reis
Ilustração – Miguel Levy



Capa do LP "A Noite", de José Mário Branco (UPAV, 1985)
Concepção – Artur Henriques
Fotografia – Luiz Carvalho

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Outros artigos com poesia de Luís de Camões:
Camões recitado e cantado
Camões recitado e cantado (II)
Em memória de Manoel de Oliveira (1908-2015)
Camões recitado e cantado (III)
Camões recitado e cantado (IV)
Camões recitado e cantado (V)

01 junho 2020

Gina Branco: "Cantiga do Leite" (José Mário Branco)


© George Doyle / Getty Images


Natural e nutritivo, o leite materno é o alimento mais completo e indicado para o bebé nos primeiros seis meses de vida. Rico em água, proteínas, lípidos, glícidos, vitaminas, sais minerais e anticorpos, o leite materno está perfeitamente adaptado ao recém-nascido, fornecendo-lhe tudo o que necessita para um desenvolvimento equilibrado e saudável. Além da importantíssima componente nutritiva e imunológica, estão cientificamente provados relevantes benefícios da amamentação para o bebé, a saber: normal desenvolvimento da estrutura bucal e da função respiratória; prevenção de alergias, da intolerância ao glúten e da obesidade; diminuição do risco de morte súbita no primeiro ano de vida e prevenção de doenças várias inclusive do foro mental. E para a lactante também são múltiplos os benefícios e nada despiciendos: redução da hemorragia pós-parto, evitando a anemia; recuperação mais fácil do peso anterior à gravidez; diminuição do risco de problemas cardiovasculares e da diabetes tipo 2; redução da incidência do cancro da mama, do útero e dos ovários; prevenção da osteoporose. Tudo isto sem esquecer o fortalecimento do vínculo afectivo entre mãe e filho e o consequente aumento da auto-estima de ambos.
Vem este preâmbulo a propósito da "Cantiga do Leite", concebida por José Mário Branco, inicialmente para a peça de teatro "O Guardião do Rio", levada à cena em 1980 pela companhia Teatro do Mundo no Teatro Aberto, onde foi cantada pela actriz Fernanda Neves, e depois recuperada para a suite "A Noite" [>> YouTube] que preenche todo o lado B do LP homónimo gravado e editado em 1985, tendo o cantautor convidado a sua irmã, Gina Branco, para a interpretar, o que fez soberbamente. É pois pondo em destaque esta pérola que assinalamos o Dia da Criança que hoje se comemora em Portugal e na maioria dos países do mundo. Dedicamo-la a todas as crianças que, pelas razões mais diversas, não têm a sorte e o privilégio (que devia ser um direito) de serem amamentadas pela mãe.
Não podia a Antena 1 ter transmitido na presente data esta ternurenta "Cantiga do Leite", bem como outras excelentes canções para crianças ou alusivas à infância que se gravaram entre nós, com arranjos tão bons que até os adultos (sem a sensibilidade embotada) gostam de ouvi-las? Podia e devia, mas não aconteceu. A oferta musical resumiu-se ao mesmíssimo cardápio de intragáveis enxúndias dos outros dias. É triste assistir a tanta inércia e a tamanho desleixo na rádio do Estado!



Cantiga do Leite



Letra e música: José Mário Branco
Intérprete: Gina Branco (in LP "A Noite", de José Mário Branco*, UPAV, 1985, reed. Schiu!/Transmédia, 1987, EMI-VC, 1996, Warner Music Portugal, 2017)


[instrumental]

Mama, meu menino!
O leite é como um rio
Que nunca pára de correr;
O leite branco
É o remédio santo
Com que tu vais crescer.

Entre as duas margens,
Quentes e fecundas,
Mama, meu menino, sem parar!
Rio sem fundo,
Âncora do mundo,
Que corre devagar.

Mama o leite, meu passarinho!
Mata a sede sem temor!
Este rio é o teu caminho,
O cordão do meu amor.

[instrumental]

Mama, meu menino,
Mais um poucochinho,
Que eu paro o tempo só p'ra ti!
Seiva da vida
Com que fui enchida
Quando te concebi.

Um pequeno esforço:
Mete-te ao caminho!
Duas colinas mais além,
Asas de estrume
P'ra te dar o lume,
Oh meu supremo bem!

Mama o leite, meu passarinho!
Mata a sede sem temor!
Este rio é o teu caminho,
O cordão do meu amor.


* [Créditos da faixa "A Noite":]
Voz de "Cantiga do Leite" – Gina Branco
Violoncelo solo – Irene Lima
Clarinete – Artur Moreira
Oboé – António Serafim
Flauta – Ricardo Ramalho
Piano acústico e Roland HP-450 – António Emiliano
Trompete – Tomás Pimentel
Trombone – José Oliveira
Trompas – Adácio Pestana e Diamantino Rodrigues
Acordeão – Fernando Ribeiro
Tímbales – Carlos Salomé
Bombos – José Mário Branco
Violinos – Luís Cunha, António José Miranda, Curral Arteta, Leonor Moreira, António Veiga Lopes, Cecília Branco, Vasco Broco e Aníbal Lima
Violas – Alexandra Mendes, Isabel Pimentel, Jorge Lé e Teresa Beatriz
Violoncelos – Clélia Vital, Richard e Alberto Campos
Contrabaixo – Alejandro Erlich Oliva
Coro – Coro da Universidade Técnica de Lisboa, dirigido por Luís Pedro Faro e Isabel Biu
Soprano solista – Isabel Biu
Roland HP-450 e JX-8P em "Alvorada" – José Mário Branco

Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Produção artística – Manuela de Freitas, José Manuel Fortes, Trindade Santos e José Mário Branco
Produção executiva – Carlos Batista
Gravado no Angel Studio II, Lisboa, de 8 a 22 de Abril de 1985
Captação de som – José Manuel Fortes
Misturas – José Manuel Fortes e José Mário Branco
Transferência e remasterização para CD (edição de 1996) – José Manuel Fortes



Capa do LP "A Noite", de José Mário Branco (UPAV, 1985)
Concepção – Artur Henriques
Fotografia – Luiz Carvalho

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A infância e a música portuguesa
Júlio Pereira com Sara Tavares: "Os Ponteirinhos"
Diabo a Sete: "Cantiga de Vir ao Mundo"
O Baú: "Cala-te, Menino, Cala!"

26 maio 2020

Maio Moço: "Romance da Pastorinha"


Maio Moço, em 1989:
(da esquerda para a direita) Sérgio Contreiras, Vítor Reino, Mário Gameiro, Rui Sardinha e Ana Rita Reino.


Desde muito cedo apaixonado pelas questões ligadas à defesa e preservação do nosso riquíssimo património musical tradicional, Vítor Reino encontrou no Grupo de Recolha e Divulgação de Música Popular [fundado em 1974, a partir do coro da Juventude Musical Portuguesa], depois rebaptizado de Almanaque, agrupamento pioneiro e multifacetado, as condições essenciais que lhe permitiram iniciar uma fecunda actividade em que procurou aliar o trabalho científico de natureza etnomusicológica à criação e divulgação de uma nova música de raiz tradicional susceptível de contribuir para manter viva e actuante a inesgotável fonte do folclore musical português.
Em parceria com José Alberto Sardinha, Vítor Reino foi responsável pelos arranjos e direcção musical de dois discos que marcaram profundamente o movimento de progressivo interesse pela tradição musical portuguesa que atingiu o seu apogeu nos inícios da década de 80: Descantes e Cantaréus (1979) e Desfiando Cantigas (1984).
Ao mesmo tempo que continuava a colaborar com José Alberto Sardinha, nos inúmeros trabalhos de campo promovidos por este investigador que rapidamente se afirmou como nome cimeiro da moderna etnomusicologia portuguesa, Vítor Reino criou em 1983 o grupo Ronda dos Quatro Caminhos, sendo responsável pela selecção musical, estudo e textos explicativos, arranjos, produção e direcção artística dos álbuns Ronda dos Quatro Caminhos (1984) e Cantigas do Sete-Estrelo (1985), que incluem diversos temas e trechos musicais de sua autoria.
Com a preciosa participação de Ana Rita Reino, Sérgio Contreiras e João Simões Lima, que com ele haviam já integrado os dois agrupamentos atrás referidos, a que se juntou Mário Gameiro e, posteriormente, Rui Sardinha e Rui Sá Sequeira, Vítor Reino fundou em 1985 o grupo Maio Moço, cuja direcção continuou a assegurar. Projecto inovador por excelência, o Maio Moço impôs-se a árdua mas aliciante tarefa de lutar pela recuperação e revitalização da vasta e valiosa tradição musical portuguesa, criando uma nova música de raiz tradicional em que as ricas e fascinantes sonoridades tão características dos nossos velhos instrumentos populares se 'casam' com os modernos recursos da tecnologia actual, patente nos seis álbuns editados: Inda Canto, Inda Danço (1987), Cantigas de Marear (1989), Histórias de Portugal: De Dom Afonso Henriques a Dom Sebastião (1991), Amores Perfeitos (1994), Estrada de Santiago (1996) e CantoMaior (2002).
A convite do grupo de música tradicional Notas & Voltas, formado por funcionários do Banco de Portugal, Vítor Reino foi também o responsável pelas adaptações e arranjos, produção e direcção musical, execução de vários instrumentos, concepção, estudo e textos explicativos do álbum Decantado (2004), editado pela Tradisom. [ligeiramente adaptado do texto publicado no blogue "Rebaldeira"]


Vítor Reino deixou-nos este fim-de-semana, vítima de doença incurável (paralisia supra-nuclear progressiva). Neste blogue, em Dezembro de 2013, tivemos o ensejo de celebrar a sua obra, ainda que parcialmente, no artigo "Celebrando a Ronda dos Quatro Caminhos", pelo que decidimos trazer, para este breve e singelo tributo à sua memória, o belíssimo "Romance da Pastorinha", oriundo da aldeia de Monsanto, magnificamente cantado por ele próprio e pela companheira (na música e na vida) Ana Rita Reino. É a faixa que abre o lado B do LP conceptual Cantigas de Marear, primeiramente publicado em 1989, com chancela Discossete, que seria distinguido com o "Grande Prémio do Disco" da Rádio Renascença e, pouco depois (em 1991), reeditado no estrangeiro (em 26 países dos cinco continentes), com o título Portugal Novo e o selo Playa Sound.
A Antena 1, por vontade e capricho de Rui Pêgo e dos seus acólitos, há largos anos que vem marginalizando a música tradicional, negando-lhe lugar na 'playlist' e confinando-a a guetos em horários de sono da generalidade dos ouvintes: a rubrica "Cantos da Casa" [>> RTP-Play], o programa homónimo [>> RTP-Play] e, em parte, o programa "Alma Lusa" [>> RTP-Play]. E apesar de Vítor Reino ter tantos pergaminhos no domínio da nossa música mais genuína (aquela que melhor nos identifica como país) e, nessa medida, ser credor do reconhecimento das entidades oficiais de Portugal, a opção dos altos (ir)responsáveis da rádio pública foi nada fazer. Vergonhoso!



Romance da Pastorinha



Letra: Tradicional (Monsanto, Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Música: Tradicional (Beira Baixa) e Vítor Reino
Recolha: Vítor Reino
Intérprete: Maio Moço* (in LP "Cantigas de Marear", Discossete, 1989, reed. CD "Portugal Novo", Playa Sound, 1991; CD "Histórias de Portugal: De Dom Afonso Henriques a Dom Sebastião / Cantigas de Marear", Discossete, 1991, reed. Espacial, 2013)


— Linda pastorinha
De além da ribeira,
Tira-te do sol,             | bis
Do sol que te queima. |

— O sol não me queima
Que eu estou calejada:
Do vento, da chuva,  | bis
Do rigor da calma.    |

— No cimo da serra
Ouvi berrar gado...
— São três ovelhinhas  | bis
Que me têm faltado.    |

— Dá-me a cestinha,
Também o cajado;
Que eu irei buscá-las  | bis
Com todo o cuidado.  |

— Não quero criados
Com meias de seda,
Que se rompem todas  | bis
Por essas estevas.       |

— Sapatos e meias,
Tudo romperei:
Pela pastorinha  | bis
A vida darei!      |

— Não quero criados
Com meias de linho,
Que se rompem todas  | bis
Pelo rosmaninho.         |

— O teu gado, ó Rosa,
Trago-o eu aqui.
Vem tu, pastorinha,  | bis
Para ao pé de mim!  |

[instrumental]


Nota: «Este belo e gracioso romance, em cujo fundo Almeida Garrett pretende ver uma verdadeira pastorela do género provençal, apresenta grande quantidade de variantes, podendo afirmar-se, com o mesmo autor, que "todo o reino a sabe e canta".
Não tendo embora uma relação directa com o tema do presente trabalho, o seu carácter tão tocantemente medieval-renascentista, que nos faz remontar de imediato a todo o mistério e magia da época das Descobertas, não deixa de se enquadrar à maravilha no ambiente histórico-musical que aqui procuramos recriar, justificando amplamente a respectiva inclusão. Decerto os próprios mareantes das nossas caravelas o cantariam no decurso das suas longas viagens, para lembrar as delícias da terra que deixavam para trás, ou como forma de entreter as lentas horas de calmaria que tinham pela frente...
A versão tão admirável de singeleza e sentimento — que colhemos pessoalmente na aldeia de Monsanto (Idanha-a-Nova) — inspirou-nos um arranjo musical de sabor ao mesmo tempo bucólico e palaciano, que termina com uma dança festiva por nós composta, em que alguns amigos têm pretendido identificar, para lá do tom marcadamente renascentista, ecos distantes da velha música celta (cuja influência, aliás, não será tão longínqua e desprezível, como se pode pensar, em certos aspectos do nosso folclore).» (Vítor Reino)

* [Créditos gerais do disco:]
Maio Moço:
Ana Rita Reino – bandolim, banjo, cavaquinho, e voz
Mário Gameiro – viola acústica, viola eléctrica, viola braguesa e voz
Sérgio Contreiras – bombo, castanholas, pandeireta, guizos, pinhas e voz
Vítor Reino – harmónio, concertina, acordeão, gaita-de-foles, ponteira, flautas, sintetizadores e voz
Colaborador regular:
Rui Sardinha – baixo, cavaquinho e voz
Músicos convidados:
Henry (Sousa) – bateria
João Nuno Represas – percussões
Jorge Lé – violinos
Participação especial:
Mulheres do grupo Etnograma, do Centro Cultural e Desportivo Rádio Marconi

Direcção musical, adaptações e arranjos, concepção e textos explicativos – Vítor Reino
Gravação efectuada em Março de 1989
Técnicos de som – José Félix e Victor Florêncio
Mistura – José Félix e Vítor Reino
URL: https://www.sinfonias.org/mais/musica-portuguesa-anos-80/directorio/858-maio-moco
https://tradicao.wordpress.com/projecto-rebaldeira/arquivos/grupos-musicais/maio-moco/
https://www.youtube.com/channel/UCKaVshF7etjejpZaWftgmNQ
https://www.youtube.com/user/HomemDeMuge/videos?query=maio+moco



Capa do LP "Cantigas de Marear", do grupo Maio Moço (Discossete, 1989)
Concepção – João Vaz de Carvalho

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Outro artigo contendo repertório com a marca de Vítor Reino:
Celebrando a Ronda dos Quatro Caminhos

01 maio 2020

Dialecto: "Instrumentos de Trabalho" (Maria Teresa Horta)


Lewis Wickes Hine, "Power House Mechanic", 1921, fotografia, 34,3 x 24,1 cm, Brooklyn Museum, Nova Iorque


O trabalho operário, além de ser geralmente mal remunerado, é quase sempre duro e violento para o corpo e para a mente, não sendo raros os acidentes de que resulta a invalidez ou a morte. Um drama que, felizmente, tem vindo a perder expressão com a gradual substituição de mão-de-obra humana por maquinaria e robótica.
Muitos poetas versaram sobre o árduo trabalho operário e campesino, entre eles se contando Maria Teresa Horta, cujo poema "Instrumentos de Trabalho", primeiramente publicado em 1967, no livro "Cronista Não É Recado", o grupo Dialecto gravou no seu álbum "Aromas", de 2011.
É pois apresentando aquele poema feito canção, com música de Lindolfo Paiva, que assinalamos este Dia do Trabalhador e homenageamos os milhões de operários, do passado e do presente, que contribuíram e contribuem para o regular funcionamento das sociedades modernas, mas que são comummente desconsiderados e até olhados com desdém pelas classes privilegiadas.
Na estatal Antena 1, o grupo Dialecto já teve divulgação nos espaços da responsabilidade do realizador Armando Carvalhêda – "Viva a Música" [>> RTP-Play] e "Cantos da Casa" [rubrica >> RTP-Play / programa >> RTP-Play] –, mas nunca lhe foi dada entrada na 'playlist'. Porquê?



Instrumentos de Trabalho



Poema: Maria Teresa Horta (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Lindolfo Paiva
Intérprete: Dialecto* (in CD "Aromas", Dialecto/Cloudnoise, 2011)




Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham

[instrumental]

Instrumentos de trabalho
ou mortes de mão primeiro
Cresce o tempo no trabalho
de um martelo de ferreiro

Primeiro os mortos são peso
(ferro no sangue não fere)
Instrumentos de trabalho
de um calor que não requer

Desespero não é palavra
nem será nunca instrumento
A mão recobra o metal
de material nos dedos

Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumentos de acidente
na justiça de um salário

Semidesliza o arado
que o camponês não acusa
Ou comemora a semente
com as mãos sem armadura
[bis]

[instrumental]

Movimento de calor
nos músculos que se recusam
Sol a sol de instrumentos
ou mortes de qualquer cura

Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham

Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumento de acidente
na justiça de um salário

Semidesliza o arado
que o camponês não acusa
Ou comemora a semente
com as mãos sem armadura
[bis]

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Dialecto:
Álvaro M. B. Amaro – guitarra, acordeão e voz
Lindolfo Paiva – guitarra, bandolim, ukelele e voz
Eduardo Matos – bateria e percussão
Jorge Pimentel – baixo, guitarra e guitarra portuguesa
Carlos Varela – saxofone soprano e voz
Paulo Duarte – piano
Participação especial de:
Zé Negreiros – gaita-de-foles e flauta
Artur Graxinha – guitarra
Paulo Toledo – saxofone alto
Produção – Dialecto
Gravado e misturado por Paulo Cavaco, no Musicart Studio, Barreiro, de Janeiro a Outubro de 2011
Masterizado por António Pinheiro da Silva, no Estúdio Pé-de-Meia, Oeiras, em Novembro de 2011
URL: https://sites.google.com/site/dialectomp/home
https://www.youtube.com/user/ematos88/videos



INSTRUMENTOS DE TRABALHO

(Maria Teresa Horta, in "Cronista Não É Recado", Col. Poesia e Verdade, Lisboa: Guimarães Editores, 1967; "Poesia Reunida", pref. Maria João Reynaud, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009 – p. 262-63)


Instrumentos de trabalho
ou mortes
de mão primeiro

Cresce o tempo no
trabalho
de um martelo de ferreiro

Primeiro
os mortos são peso
(ferro no sangue não fere)

Instrumentos de trabalho
de um calor
que não requer

Desespero não é palavra
nem será nunca
instrumento

A mão recobra
o metal
de material nos dedos

Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumento de acidente
na justiça de um salário

Semidesliza o arado
que o camponês
não acusa

Ou comemora
a semente
com as mãos sem armadura

Movimento de calor
nos músculos
que se recusam

Sol a sol
de instrumentos
ou mortes de qualquer cura

Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham



Capa do livro "Cronista Não É Recado", de Maria Teresa Horta (Col. Poesia e Verdade, Guimarães Editores, 1967)



Capa do livro "Poesia Reunida", de Maria Teresa Horta (Publicações Dom Quixote, 2009)



Capa do CD "Aromas", do grupo Dialecto (Cloudnoise, 2011)
Grafismo – Luís Amaro

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Artigo relacionado:
Sérgio Godinho: "Que Força É Essa?"

25 abril 2020

Amália Rodrigues: "Abril" (Manuel Alegre)



Lançado em Janeiro de 1965, integrando a colecção "Cancioneiro Vértice", da revista "Vértice", o livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre, não tardou a ser apreendido pela PIDE, passando a figurar no índex dos livros proibidos pela ditadura salazarista. No entanto, quando a polícia política chegou às livrarias já poucos exemplares encontrou. A maioria dos exemplares dessa primeira edição já fora distribuída de mão em mão ou enviada pelo correio aos adquirentes. Antevendo-se a proibição, o livro já tinha seguido o seu caminho de resistência, passando a circular clandestinamente em cópias improvisadas (copiografadas, dactilografadas e até manuscritas).
José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília tiveram o privilégio de serem os primeiros a cantar poesia de "Praça da Canção" ainda antes do livro ser uma realidade, por deferência do autor, mas foi de uma dessas cópias clandestinas que outros compositores se serviram para musicar a poesia alegriana, fazendo dela canção. Um deles foi Manuel Freire, conforme o próprio confessou a Maria Leonor Nunes para um artigo do "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias" evocativo do cinquentenário da primeira edição [cf. http://www.manuelalegre.com/], no caso concreto das baladas "Pedro, o Soldado", "Trova do Emigrante" e "Trova", incluídas nos discos EP "Dedicatória" e "Trovas, Trovas, Trovas", editados em 1968.
Em 1969, aproveitando o abrandamento repressivo trazido pela chamada Primavera Marcelista, a Editora Ulisseia atreveu-se a publicar uma nova edição, tendo alguns poemas sido bastante modificados pelo autor, presumimos que não tanto por medo da Censura mas mais por insatisfação com os textos originais. Terá sido muito provavelmente um exemplar desta segunda edição que Alain Oulman leu e o motivou a musicar algumas estrofes de três poemas, que Amália veio a gravar com os títulos "Trova do Vento que Passa", "Abril" e "Meu Amor É Marinheiro" [o quarto poema de Manuel Alegre presente na discografia amaliana, também com música de Alain Oulman, intitula-se "As Facas" e foi extraído do volume "Coisa Amar (Coisas do Mar)", de 1976].
De "Abril", adaptado do poema "A Rapariga do País de Abril" [vide abaixo os textos tal como figuram nas duas primeiras edições], cujo original Manuel Alegre escreveu nos Açores ou em Angola, onde cumpria o serviço militar, existem duas gravações publicadas em disco: uma realizada em 1973, que teve a primeira aparição pública em 1997 no CD "Silêncio", e outra, executada três ou quatro anos mais tarde, que saiu no LP "Cantigas numa Língua Antiga" (1977). Escolhemos a publicada em 1997 para celebrar o Dia da Liberdade, neste ano do centenário do nascimento de Amália.
O país de Abril que o poeta procurava na pátria amada, tristemente amordaçada e oprimida, só emergiu cerca de uma década mais tarde, desconhecendo-se se tal iria acontecer precisamente no mês de Abril (era provável que fosse na Primavera, mas poderia ser em Março, Maio ou Junho) mas um acaso da História teve o bendito condão de conferir ao poema um cunho profético. Presentemente, volvidos 46 anos sobre a Revolução dos Cravos, a emblemática flor encontra-se vergada sob o efeito de ventos hostis, originados por uma nefanda pandemia vírica, e mesmo que a ciência descubra uma vacina ou um medicamento antiviral, a crise económica e social será inevitável e severa. A resistência do cravo será posta à prova, competindo a todos quantos não abdicam da Liberdade e prezam os valores de Abril zelar para que a haste não quebre e, melhor ainda, volte a adquirir o aprumo que já teve!
Neste país que o poder político quer fazer crer que ainda é de Abril e, nessa conformidade, supostamente democrático e pluralista, há uma rádio, por sinal sob a alçada estatal – a Antena 1 –, que se não tem coibido de praticar a mais ignóbil censura. Atente-se na 'playlist' que vem sendo reiteradamente usada para silenciar uma vasta galeria de categorizados artistas portugueses, entre os quais se contam, além dos supracitados José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília e Manuel Freire, a maior embaixatriz da cultura portuguesa além-fronteiras, Amália Rodrigues, a qual nem no ano do seu centenário é possível ouvir fora daquele gueto esconso depois da meia-noite de domingo chamado "Alma Lusa".



Abril



Poema: Manuel Alegre (excerto adaptado do poema "A Rapariga do País de Abril") [texto original >> abaixo]
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (1973, in CD "Segredo", EMI-VC, 1997)




Habito o sol dentro de ti,
descubro a terra, aprendo o mar;
por tuas mãos, naus antigas, chego ao longe
que era sempre tão longe, aqui tão perto.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruto. Meu navio.
Este navio onde embarquei
para encontrar, dentro de ti, o país de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza,
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava quem eras.

Meu amor, por ti cantei. E tu me deste
um chão tão puro: algarves de ternura.
Por ti cantei à beira-terra, à beira-povo
e achei achando-te o País de Abril. [bis]


* Amália Rodrigues – voz
José Fontes Rocha – 1.ª guitarra portuguesa
Carlos Gonçalves – 2.ª guitarra portuguesa
Pedro Leal – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em 1973
Engenheiro de som – Hugo Ribeiro

Coordenação do projecto (para a edição do CD "Segredo") – Manuel Falcão e Jorge Mourinha
Produção – Rui Valentim de Carvalho
Assistente de produção – Inês Penalva
Misturas e restauro digital – Hugo Ribeiro, João Martins e Raul Ribeiro, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Setembro de 1997
Masterização – Julius Newel, no estúdio Mission Control, Lisboa, em Outubro de 1997



A RAPARIGA DO PAÍS DE ABRIL [1]

(Manuel Alegre, in "Praça da Canção", Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965 – p. 64-65)


Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

Começa a pátria onde começas. Verde campo
verde mar. Capital da ternura.
Tu és a lâmpada no meio desta festa
com fogueiras e povo dentro dos poemas.

Era a estranha paisagem da pobreza
o cheiro secular das coisas que apodrecem
era a canção cantada pelos bêbados
que vomitam seu fardo de viver.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando uma flecha azul atravessava as noites
e eu perguntava atónito quem eras.

Quando vieste tudo ficou certo.
Encheram-se de trevo os campos das palavras
encheram-se de gente as mãos de cada verso
com sete estrelas sete luas nós cantámos.

E tu disseste: ergue-te e vai.
Não ouves este vento este soluço?
Ergue-te e canta uma canção para o meu povo.
Com sete barcos sete espadas nós partimos.

Raparigas sentaram-se ao redor do poema.
E então cantei de amor por ti cantei
na língua que por vezes é tão triste
a nossa língua que por vezes é assim: tão pura.

Mulher por ti cantei. E tu me deste
um puro continente algarves de ternura.
Por ti cantei entre meu povo e meu poema
e achei achando-te o País de Abril.



A RAPARIGA DO PAÍS DE ABRIL [II]

(Manuel Alegre, in "Praça da Canção", 2.ª edição, Lisboa: Editora Ulisseia, 1969 – p. 88-89)


Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

Por ti eu me perdi eu me encontrei
por ti que eras ausente e tão presente
por ti cheguei ao longe aqui tão perto.
E achei achando-te o País de Abril.



Capa da 1.ª edição do livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre (Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965)
Organização da edição – Ivo Cortesão



Capa da 2.ª edição do livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre (Col. Poesia e Ensaio, Lisboa: Editora Ulisseia, 1969)
Concepção – Espiga Pinto



Capa do CD "Segredo", de Amália Rodrigues (EMI-VC, 1997)
Design – Fátima Rolo Duarte
Fotografia – Charles Ichaï

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Outros artigos com canções ou poemas alusivos à Revolução dos Cravos ou à Liberdade:
Contrabando: "Verdade ou Mentira?"
Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde": "Grândola, Vila Morena"
Miguel Torga: "Flor da Liberdade"
Natália Correia: "Rascunho de uma Epístola", por Ilda Feteira
Carlos do Carmo: "O Madrugar de um Sonho"

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Outros artigos com repertório de Amália em voz própria:
Ser Poeta
Celebrando Vinicius de Moraes
Camões recitado e cantado (II)
Amália Rodrigues: "Primavera" (David Mourão-Ferreira)

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Outros artigos com poesia de Manuel Alegre:
"Viva a Música": lugar à música portuguesa
E Alegre se Fez Triste
Galeria da Música Portuguesa: Adriano Correia de Oliveira
Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes
Em memória de Adriano
Celebrando Carlos Paredes
Em memória de Fernando Machado Soares (1930-2014)
«Do João Braga para a Amália»