01 janeiro 2020

Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata: "Entrada de Aninovo"



Ao contrário do que aconteceu com outras tradições portuguesas, a de cantar as janeiras não se extinguiu ante a industrialização e a aculturação anglo-saxónica, muito graças ao empenho de algumas associações culturais e de muitas autarquias (câmaras municipais e juntas de freguesia). A motivação, essa, é que já não é a mesma: hoje, o que realmente importa é manter viva a manifestação cultural dos cantares e tocares que vieram de um passado ainda próximo; antigamente, porém, era a dura e crua necessidade de angariar alimento que impelia os menos afortunados da vida a andarem de porta em porta a anunciar, cantando, a boa nova do nascimento do Menino Jesus ou a chegada dos Reis Magos a Belém, na esperança de que as casas ricas ou remediadas lhes retribuíssem a gentileza com uma chouriça, uma morcela, uma talisca de presunto ou mesmo um naco de toucinho, não se dispensando, em tempo de frialdade, uma boa pinga para aquecer a alma. Dessa finalidade de confortar o estômago e de restaurar as forças que a caminhada e as cantorias exauriram dá bem conta o rico repertório que portugueses e galegos criaram ao longo de gerações. Um magnífico exemplo é a cantiga "Entrada de Aninovo", tradicional da Galiza, que Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata interpretam magistralmente no álbum "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", recentemente publicado pela editora galega aCentral Folque. É pois com este belíssimo espécime que damos as boas-vindas ao Novo Ano, no calendário gregoriano pelo qual se rege o Ocidente, aproveitando para deixar aos leitores/visitantes do blogue "A Nossa Rádio" os nossos votos de saúde, paz, boa música e outras coisas gratas (desde que não prejudiciais ao bem-estar alheio e à casa comum de todos que é o planeta Terra).
Sendo esta a altura do ano em que se costuma formular desejos, aqui fica um: que seja feita a tão necessária operação de higienização na Antena 1, que a liberte da imundície sonora (que os contribuintes/ouvintes não merecem) e que a boa música passe a ser a sua marca distintiva e alternativa no éter nacional!



Entrada de Aninovo



Letra e música: Tradicional (Galiza)
Arranjo: Ariel Ninas
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)




Despedida de Ano Vello
e entrada de Aninovo,
os señores desta casa
as conten con moito gozo.

Catro mancebos xuntiños
aqui xuntiños estamos
e tan cansados os catro
que é preciso alimentarnos.

De moi lonxe xa viñemos,
noite que andar aínda falta
as forzas piden reparo,
mollo ás gorxas e non d'auga!

Chourizo e longaniza,
uña de porco, fuciño,
ou de xamón dúas tortillas
con dous xarriños de viño.

[instrumental]

Abran a porta, señores,
que por honrados nos temos!
Sabe Deus se p'ra outro ano
á porta lles cantaremos...

De cantar xa nos cansamos,
por probes non nos desprezem
que se algo os ricos non dan
os probes mal se remexen!

E esta vai por despedida,
hoxe eiqui non canto outra.
Os señores desta casa,
hoxe un ano me oian outra!

E esta vai por despedida,
hoxe eiqui non canto outra.
Os señores desta casa,
hoxe un ano me oian outra!


* [Créditos gerais do disco:]
Catarina Moura – voz
Ariel Ninas – sanfona, sinos, harmónica, chocalhos, adufe e voz
César Prata – guitarras, dulcimer, adufe, harmónio, mbira, beat root e voz
Gravado por César Prata, no estúdio RequeRec (Trancoso)
Misturas e masterização – César Prata



Capa do CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", de Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata (aCentral Folque, 2019)
Desenho e arte final – Mauro Sanin Leira

22 dezembro 2019

Um Natal à viola da terra, por Rafael Carvalho



Rafael Carvalho, exímio executante de viola da terra, compositor e docente no Conservatório Regional de Ponta Delgada, publicou até hoje, além de três livros do seu "Método para Viola da Terra", seis trabalhos discográficos: um colectivo, "Cantos da Terra" (Açor/Emiliano Toste, 2009), inserido no trio Musica Nostra (ao lado de Ricardo Melo e de Ana Medeiros), e cinco em nome próprio – "Origens" (2012), "Paralelo 38" (2014), "Relheiras" (2017), "9 Ilhas, 2 Corações" (2018) e o recente "Um Natal à Viola' (2019). Este, como o título sugere, é um álbum temático consagrado ao repertório natalício tocado à viola de dois corações, o típico cordofone dos Açores e uma das ancestrais violas portuguesas.
Dos catorze espécimes que constituem o alinhamento, onze são do cancioneiro tradicional português: três da Ilha de São Miguel, dois da Madeira (que já haviam sido gravados pelo grupo Xarabanda), três do Alto Alentejo, dois da Beira Baixa e um de Trás-os-Montes. Os três restantes são o celebérrimo "Noite Feliz" (da autoria do austríaco Franz Grüber), "Adeste Fidelis" (de autoria incerta, que alguns atribuem ao rei português D. João IV e outros ao compositor inglês John Francis Wade) e o tema-título, um original do próprio Rafael Carvalho [vide alinhamento ao fundo].
O músico micaelense apresenta o seu álbum nos seguintes termos:

«"Um Natal à Viola" começa numa viagem musical pela minha infância, com músicas que ouvia e cantava, em casa ou na Escola, e que faziam parte do nosso dia-a-dia nas festas de Natal.
A Viola toca nesta altura do ano pelas ruas da Ribeira Quente [concelho de Povoação, Ilha de São Miguel], acompanhando o "Menino Jesus" ou em rambóias que percorrem as casas de familiares e amigos. É assim o Natal na minha freguesia bem como em muitos locais das nossas 9 Ilhas, do nosso País e das Comunidades Açorianas.
O álbum inclui um tema original, "Um Natal à Viola", que compus há mais de duas décadas, agora adaptado para a Viola da Terra.
A Viola é companheira e confidente, ao longo de todo o ano, e tem uma presença muito especial nesta época festiva. "Um Natal à Viola" regista algumas dessas memórias e vivências.»

Neste tempo de trepidação consumista, este sereno e encantatório "Um Natal à Viola" é um disco que se recomenda vivamente aos apreciadores de música instrumental (no caso, de feição natalícia), magistralmente executada em cordas dedilhadas, e que já não suportam (com inteira razão) as banais e costumeiras cançonetas de Natal que, nesta quadra, são a banda sonora dos centros comerciais e pululam nas 'playlists' das rádios (inclusive na da pública Antena 1).
Por gentileza do artista, faculta-se aos visitantes deste blogue a audição de seis espécimes. Votos de boa escuta e de Festas Felizes!
Quem desejar adquirir o CD poderá encomendá-lo através do seguinte endereço de e-mail: r_c_carvalho@hotmail.com



Eu Hei-de m'Ir ao Presépio



Música: Tradicional (Elvas, Alto Alentejo)
Intérprete: Rafael Carvalho* (in CD "Um Natal à Viola", Rafael Carvalho, 2019)


(instrumental)


* Rafael Carvalho – viola da terra



Eu Hei-de Dar ao Menino



Música: Tradicional (Évora, Alto Alentejo)
Intérprete: Rafael Carvalho* (in CD "Um Natal à Viola", Rafael Carvalho, 2019)


(instrumental)


* Rafael Carvalho – viola da terra



Moda do Menino



Música: Tradicional (Ribeira Quente, Ilha de São Miguel, Açores)
Intérprete: Rafael Carvalho* (in CD "Um Natal à Viola", Rafael Carvalho, 2019)


(instrumental)


* Rafael Carvalho – viola da terra



O Menino Está Dormindo



Música: Tradicional (Évora, Alto Alentejo)
Intérprete: Rafael Carvalho* (in CD "Um Natal à Viola", Rafael Carvalho, 2019)




(instrumental)


* Rafael Carvalho – viola da terra



Noite Feliz



Música: Franz Grüber
Intérprete: Rafael Carvalho* (in CD "Um Natal à Viola", Rafael Carvalho, 2019)


(instrumental)


* Rafael Carvalho – viola da terra



Os Reis - Quando o Menino Nasceu



Música: Tradicional (Ilha de São Miguel, Açores)
Intérprete: Rafael Carvalho* (in CD "Um Natal à Viola", Rafael Carvalho, 2019)


(instrumental)


* Rafael Carvalho – viola da terra

Gravação – Rafael Carvalho
Masterização – Emanuel Cabral, em Ponta Delgada
URL: https://www.freewebs.com/violadaterra/rafaelcarvalho.htm
https://violadaterra.webs.com/
https://www.facebook.com/rafael.carvalho.12935
https://www.youtube.com/user/carvalhorafa1980/videos



Capa do CD "Um Natal à Viola", de Rafael Carvalho (2019)
Design – AçoresPro®

Alinhamento:
1. O Menino Está Dormindo (Évora, Alto Alentejo)
2. Noite de Natal (Castelo Branco, Beira Baixa)
3. Eu Hei-de m'Ir ao Presépio (Elvas, Alto Alentejo)
4. Da Serra Veio um Pastor (Madeira)
5. Cantar ao Menino Jesus (São Miguel, Açores)
6. Noite Feliz (Franz Grüber)
7. Linda Noite de Natal (Castelo Branco, Beira Baixa)
8. Eu Hei-de Dar ao Menino (Évora, Alto Alentejo)
9. Os Reis - Quando o Menino Nasceu (São Miguel, Açores)
10. Beijai o Menino (Trás-os-Montes)
11. Adeste Fideles (John Wade)
12. Moda do Menino (Ribeira Quente, São Miguel, Açores)
13. Meia-Noite Dada (Madeira)
14. Um Natal à Viola (Rafael Carvalho)

Contacto para encomendas:
r_c_carvalho@hotmail.com

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Outros artigos neste blogue com música e poemas natalícios:
Miguel Torga: "Natal"
Não há canções de Natal na música portuguesa?
Música portuguesa de Natal
Celina da Piedade: "Este Natal"
António Gedeão: "Dia de Natal", por Afonso Dias
Vozes do Imaginário: "Não Há Noite Mais Alegre"
Miguel Torga: "Natividade"

18 novembro 2019

Em memória de Tereza Tarouca (1942-1919)


© Dário


Pouco dada a vedetismos e sem grande interesse pelo mediatismo, Tereza Tarouca é uma das vozes mais marcantes do fado na segunda metade do século XX. A sua discrição levaria a que Amália Rodrigues lhe dissesse que era "a preguiça" que a impedia de chegar mais longe, por se mostrar pouco disponível para frequentar os meios em que poderia ser catapultada para outras esferas de popularidade. O reconhecimento, no entanto, nunca faltou a uma fadista de quem Hermínia Silva dizia ter "voz de garoto de cais". Muito embora Hermínia Silva nunca lhe explicasse exactamente o que queria dizer com tais palavras, nunca se duvidou que era um elogio que ali se ouvia, dada a admiração pública que tinha por Tereza Tarouca.
Voz que sempre privilegiou a mais elevada poesia portuguesa, foi Tereza Tarouca uma das primeiras fadistas a trazer para o meio das guitarras as palavras de Fernando Pessoa [apenas antecedida, salvo melhor informação, por Frei Hermano da Câmara e Teresa Silva Carvalho]. Mas de todos os poetas que cantou talvez tenha sido Pedro Homem de Mello aquele que mais gostou de levar na voz. Procurada pelos poetas, que lhe ofereciam textos pelo privilégio evidente que era verem-se cantados pela fadista, construiu o seu próprio reportório, nunca procurando seguir as pisadas de ninguém. Por isso mesmo, não espanta que Tereza Tarouca, que nos habituámos a ouvir na companhia das guitarras de Raul Nery, Fontes Rocha ou António Chainho, permaneça, antes de mais, como exemplo de um canto sem igual.
Pode dizer-se que Tereza Tarouca foi empurrada para o canto e para o fado. Com um perfil discreto desde criança, criada numa "quinta enorme" com oito irmãos e em que a música era uma presença constante, foi conquistada pelo fado sem saber ainda que música era aquela que a cativava com uma outra intensidade. "Havia um primo da minha mãe que tocava muito bem guitarra e uma tia minha que gostava de fado, tocava viola e às tantas começávamos a brincar com a música, era eu muito pequenina", recorda hoje. Mas nada disto passava de uma desculpa para alguns momentos de animação entre família e amigos. "Nem me passava pela cabeça cantar a sério, sabia lá o que era fado", acrescenta. "Gostava muito de folclore, do 'twist' e das músicas daquela época [anos 40 e 50], mas éramos mais de ouvir música do que de cantar." Só que houve alguém, que a memória já não alcança, a levar até casa duas vozes que a empurrariam para o seu destino fadista. Primeiro, um disco de Carlos Ramos, que logo a despertou para a grandiosidade que o fado podia facilmente convocar. Depois, com um impacto muito mais profundo, e numa ocasião posterior, ainda menina ouviria "Foi Deus", na voz imensa de Amália Rodrigues. E aí, então, tudo mudou, por acção de um compreensível e inevitável deslumbramento. "Comecei a cantar o 'Foi Deus', por brincadeira", recorda. E rapidamente, à sua volta, começou a comentar-se que "Ela tem jeito", "Ela canta bem", até que estas apreciações foram dando lugar a cada vez mais frequentes pedidos para que cantasse. Tereza Tarouca, de uma natureza esquiva que se manteve ao longo da vida, fugiu das primeiras vezes. Mas, aos poucos, o prazer de cantar começou a sobrepor-se à vergonha e ao recato e foi iniciando a sua vida artística, ainda "por brincadeira".
A primeira actuação com público aconteceu aos 13 anos de idade, no salão da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Oeiras. Veio o desafio e Tereza Tarouca simplesmente aceitou, sem pensar muito no assunto. "Fui toda contente, não tive complexos nenhuns mas aí já sabia uns fados", ressalva. E a partir do momento em que se estreou, rapidamente o boca em boca iniciou um efeito bola de neve, em que a sua reputação crescia ao mesmo ritmo de novos convites. Foi então que começaram a aparecer sucessivos desafios para que actuasse em festas destinadas à recolha de fundos para a construção de centros paroquiais, onde se apresentava com os seus guitarristas pelo gosto de contribuir para causas que lhe eram próximas, sem receber um tostão em troca. O círculo foi-se alargando e Tereza avançou destemida para os palcos. Em 2014, com um sorriso de saudade, classifica de "inconsciência" a sua primeira actuação na televisão, pelo facto de se ter dado em directo e ainda ser muito nova, sem a tarimba que viria a acumular para enfrentar estes momentos de grande exposição. A verdade, no entanto, é que a passagem pelo pequeno ecrã saldar-se-ia por um incontestável sucesso.
Já então, Tereza de Jesus Pinto Coelho Telles da Silva se apresentava publicamente como Tereza Tarouca, tomando por apelido o título nobiliárquico pertencente à sua família, enquanto bisneta dos condes de Tarouca. "Na minha família todos são conhecidos pelos Taroucas", diz sobre a sua decisão. "E quando me perguntaram que nome queria usar, respondi Tereza Tarouca. E ficou, logo desde os primeiros espectáculos. Não podia era assinar nada como Tarouca, por ser título." Depois, e se a máquina estava já em marcha e parecia imparável, a televisão traria ainda mais propostas para espectáculos, passando a cantar regularmente na Emissora Nacional e em algumas casas de fado em Cascais. Não tardaram igualmente os pedidos para que levasse vezes sem conta o seu fado além-fronteiras. "Comecei a viajar, a ir a montes de sítios porque era muito requisitada e as pessoas gostavam", afirma com uma simplicidade desarmante. "Correu sempre tudo lindamente."
Foi no regresso de uma dessas incursões no estrangeiro, concretamente em Bruxelas, que Tereza Tarouca subiu ao palco do Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, ao lado de Alfredo Marceneiro, para receber em 1962 o prestigiado Óscar da Imprensa. Tinha 20 anos, na altura, e a ocasião era especialmente marcante por lhe ser dada a honra de partilhar o momento com Marceneiro, um dos históricos do fado, e que na sua opinião "já devia ter recebido o prémio há muitos anos".
O reconhecimento crescente aguçaria então o interesse da editora RCA, que lhe propôs um contrato para o lançamento dos seus primeiros fonogramas. "Gravei imensos discos de seguida", lembra.
Ao contrário de Marceneiro e de outros notáveis do fado, Tereza Tarouca não acusava a frieza do estúdio, sentindo-se perfeitamente integrada na mecânica das gravações e entusiasmada por poder cantar reportório novo. "Há pessoas que detestam gravar, mas eu não me importava nada. Porque eram coisas novas que estava a gravar, que ninguém conhecia. Até para mim – havia coisas que decorava ali na altura, nunca as tinha ouvido. Gostava imenso de gravar porque davam-me as letras e imediatamente sabia qual era a música adequada, não dava trabalho nenhum aos meus guitarristas e, como tinha muito ouvido, apanhava aquilo e gravávamos num instante", recorda. A sua popularidade subiria então em flecha, cada nova gravação revelando-se um sucesso imediato. Esse sucesso, na sua opinião, devia-se igualmente à sua facilidade em actuar sem preconceito em quaisquer palcos. "Também fui conhecida por ir às aldeias todas, onde as pessoas levavam a cadeirinha de casa porque nem cadeiras havia. Fui reconhecida muito cedo porque fiz muitos espectáculos na província. Foi uma das coisas mais importantes na minha carreira", garante.
Segura do seu caminho, Tereza Tarouca escolheu de imediato fazer-se acompanhar pelo notável Conjunto de Guitarras de Raul Nery. "Nunca ninguém me impôs nada para gravar", realça, demarcando-se de todos os fadistas que não são os responsáveis últimos pelos seus próprios reportórios. Mas isso é tanto válido para os poemas que Tereza escolhe cantar como por quem se faz acompanhar. Portanto, quando lhe perguntaram pelos guitarristas com quem queria gravar, não houve como pedir outros que não os melhores. "Nisso dos músicos tive logo a sorte de contar com o Conjunto de Guitarras do Raul Nery, que era e será sempre – hoje e daqui a 200 anos – o máximo", diz a fadista. "E, claro, fiquei muito contente por os ter a tocar comigo". Além de iluminados companheiros musicais, Tereza Tarouca descobriu no quarteto (que, na sua primeira formação, integrava Nery, José Pontes Rocha, Júlio Gomes e Joel Pina) um grupo de notáveis amigos, extremamente protectores da jovem fadista que começava então a correr mundo. "Tinham muito cuidado comigo porque eu era muito novinha e tomavam conta de mim como se fosse filha deles", lembra. "Eram quatro grandes guitarristas que tinham imenso gosto em acompanhar-me e que me tratavam com o maior carinho. Gostava muito, muito deles." Nessa formação inicial, o Conjunto de Guitarras juntava duas guitarras portuguesas nas mãos de dois dos seus mais brilhantes interpretes: Nery e Fontes Rocha. Para Tereza Tarouca não há mesmo quem se lhes compare: "Eles os dois juntos eram um espectáculo. Nunca mais em Portugal se vai ouvir um conjunto de guitarras a tocar assim."
Essa firmeza está igualmente patente na construção do seu reportório, totalmente diferenciado dos demais. Muito embora reconheça ter-se apaixonado pelo fado graças a Carlos Ramos, Amália Rodrigues e Maria Teresa de Noronha, Tereza Tarouca afirma que nunca foi susceptível a influências. "Eu é que escolhia os meus fados", justifica. "Os fados que tinha eram-me todos dados a mim, eram meus. Portanto, eu é que escolhia a música, a maneira de trinar, de cantar. Não sofri influências de ninguém porque cada um daqueles fados nunca tinha sido cantado. Ainda hoje digo 'os meus fados', porque eram-me oferecidos."
Muitas vezes, estas ofertas chegavam mesmo de autores com quem a fadista nunca antes se tinha cruzado. Foi assim que aconteceu com Pedro Homem de Mello, o poeta a quem ficará mais notoriamente associada e aquele que mais cantou. O encontro entre os dois deu-se quando Tereza Tarouca era ainda uma jovem cantora. A sua fama e o seu talento já tinham chegado, ainda assim, aos ouvidos de um dos nomes maiores da poesia portuguesa a escrever para o fado. "Um dia estava na quinta do meu avô no Norte", lembra, "e recebi um recado do doutor Pedro Homem de Mello a dizer que o 'chauffeur' me ia lá buscar, que ele me convidava para almoçar porque me queria conhecer". Conhecendo Homem de Mello apenas de o ver na televisão, Tereza ficou "envergonhadíssima" mas aceitou o convite de um homem que recorda como "finíssimo, muito bem educado, um bom companheiro". À sua espera, o poeta linha já uma primeira letra e uma amizade que havia de prolongar-se vida fora.
Homem de Mello não seria apenas um dos poetas a que Tereza Tarouca mais tem gostado de emprestar a sua voz. Desde esse primeiro encontro, tornaram-se companheiros no fado mas também no folclore, partindo muitas vezes juntos em busca dos arraiais da região minhota. A fadista lembra com carinho essas noites em que era desafiada a acompanhar Homem de Mello e assim que chegavam "ele punha toda aquela gente a cantar e a dançar porque todos gostavam muito dele".
Em 1989, num importante tributo ao poeta, falecido havia cinco anos, Tereza Tarouca lançou um dos álbuns fundamentais da sua carreira, intitulado de forma simples e elucidativa Tereza Tarouca Canta Pedro Homem de Mello. "Gostei muito de o cantar", confirma a fadista. "E esse foi um disco que deu muito trabalho porque é quase composto só por inéditos. Mas é disso que eu gosto. Fado corridinho, o costume que toda a gente canta, isso para mim não é fado, não é nada. É aquilo a que chamo fado de taberna, de rua, para o qual não tenho paciência nem nunca tive."
Isso mesmo reforça Lima Brummon, seu colaborador próximo, e que assim escreveu na contracapa de outra obra magna da artista, Portugal Triste, composta maioritariamente por temas de Brummon, produzido por António Chainho e com o acompanhamento do seu conjunto de guitarras: «Tereza Tarouca – a menina que se fez mulher a cantar é uma fadista da nossa melhor casta; não canta os fados da podridão e do vício porque ama as árvores, as gotas de orvalho nas pétalas, as casas de paredes limpas... e estremece com as lágrimas pendentes dos olhos dos poetas!". "Foi outro dos discos que mais gostei de fazer", confessa Tarouca. "Porque o Lima Brummon era uma pessoa extraordinária, escrevia que era um assombro, entendíamo-nos muito bem e sabia exactamente aquilo de que eu gostava.»
A par de Homem de Mello e Brummon, Tereza Tarouca tem privilegiado no seu reportório grandes homens de letras, como Teixeira de Pascoaes ou Fernando Pessoa. No caso do autor de Tabacaria e Ode Marítima, a gravação dos poemas "Cai Chuva do Céu Cinzento", "Sino da Minha Aldeia" e "Vestígios", registados pela fadista no início da década de 1970 [para o álbum "Fado e Folclore"] e a primeira vez que aqueles versos de Pessoa foram transpostos para o universo do fado, é a concretização cantada de um amor antigo. "Desde pequena, quando aprendi a ler, tinha duas paixões nos livros de versos que lia muito: Florbela Espanca e Fernando Pessoa", recorda. "Isto foi-me acompanhando sempre. E houve uma altura em que pensei: 'Vou ver se encontro aqui umas coisas do Pessoa que me agradem para gravar'. E gravei. Nunca ninguém as tinha gravado."
Por isso mesmo, sentindo que a rádio insiste hoje em dia sempre nos mesmos temas que ganharam o merecido estatuto de clássicos do fado – composições como "Saudade, Silêncio e Sombra", "Canção Verde" ou "Meu Bergantim" –, Tereza Tarouca lamenta que tantas das "coisas lindas que estão gravadas" estejam esquecidas. "É uma pena não juntarem isso tudo num CD porque algumas praticamente só se ouviram quando saíram. Tudo junto, era como se aparecesse um disco novo."
Em 1973, na condição de convidada de honra do Festival RTP da Canção, Tereza Tarouca foi chamada a partilhar o palco do Teatro Maria Matos (onde decorreu a cerimónia) com a vedeta da 'chanson française' Gilbert Bécaud. Para a fadista, no entanto, partilhar o protagonismo com Bécaud era razão de pouco nervosismo. "Se cantei com a Amália tinha problemas com o Gilbert Beeaud?", questiona.
De facto, com os anos e a sua rápida ascensão no meio fadista, o caminho de Tereza Tarouca não demoraria a cruzar-se com aquela que sempre foi a fadista que mais admiração lhe despertou. Mas a admiração, note-se, não existia em sentido único. Daí que a exigente Amália Rodrigues chegasse a dizer-lhe, entre dois goles de uma chávena de chá: "É uma pena a menina ser tão preguiçosa, podia ter ido muito longe". A fadista sabe bem o que Amália queria dizer ao chamar-lhe "preguiçosa". Pouco adepta da vivência mais social do fado, Tereza Tarouca declinou repetidas vezes os convites de Amália para comparecer nas tertúlias que sempre tomavam lugar na sua casa à Rua de S. Bento. "Preguiçosa por causa disso", explica, "por não querer conhecer gente que me podia interessar, mas eu fazia cerimónia, estava lá gente muito mais velha do que eu e que não conhecia".
Tereza Tarouca só numa ocasião acedeu aos desafios de Amália e compareceu na companhia de Pedro Homem de Mello. Ainda hoje recorda com nitidez o momento a que assistiu: "Estava o Alain Oulman, ao piano, a fazer uma música nova para a Amália e mandou-a trautear a ver se ela já tinha apanhado a música. Ela a trautear e ele ao piano – só aquele bocadinho, foi uma coisa do outro mundo."
Desde os seus 12 anos, Tereza Tarouca tem em (Frei) Hermano da Câmara um dos seus amigos mais próximos. "Éramos os maiores amigos do mundo", recorda a época em que seguiam juntos "para todas as fadistices de caridade". "Passava a vida na casa da família dele, na Quinta da Alagoa, andava sempre com ele, éramos unha com carne, ríamos os dois perdidamente nessas idas para os fados." Tanto assim que Tereza Tarouca diz ter sido "a última a saber" que D. Hermano da Câmara, descendente do Conde de Belmonte, decidira em 1961 tornar-se monge beneditino, ingressando no Mosteiro de Singeverga, em Santo Tirso. "Ele não tinha coragem de me dizer, sabia que eu ia ter um desgosto", recorda ainda com a tristeza na voz. Foi, por isso, apenas na véspera de Hermano entrar para o convento, numa ocasião em que haviam ido ambos cantar à Golegã, que alguém deu a saber à jovem fadista o desfecho iminente. Tereza, lavada em lágrimas e incrédula, confrontou o amigo e só então ficou a saber da verdade, já que Hermano tinha dado instruções para que ninguém lhe contasse, na esperança vã de evitar o desgosto. No dia seguinte, às sete da manhã, a caminho do convento com os pais, Hermano despediu-se ainda da sua companheira dos fados passando por casa dela. Mas assim que se meteu no carro, rumo à sua nova vida, a amargura abateu-se sobre Tereza Tarouca: "Estive de cama durante 15 dias. E só me perguntava 'E agora com quem é que vou para as fadistices?'. Estava muito habituada a ir com ele... fez-me muita falta."
A amizade, como é evidente, não desapareceu por causa disso. E foi mesmo ao lado de Frei Hermano da Câmara que Tereza Tarouca confessa hoje ter vivido o espectáculo da sua vida. Em 1978, Frei Hermano gravara um ambicioso álbum duplo intitulado O Nazareno, inspirado pela história de Jesus Cristo e focando-se na sua vida, na sua palavra e no percurso ate à crucificação. Para o registo do disco, Frei Hermano convidou uma série de grandes cantores, incluindo Amália Rodrigues no papel de Maria Madalena. Quando, em 1986, decidiu reavivar a obra, transformando-a num musical apresentado em palco, no Coliseu dos Recreios, com encenação de Carlos Avilez, voltou a convidar intérpretes como Teresa Siqueira e Mara Abrantes para assumirem as suas personagens. Amália, contudo, recusou. E terá respondido que só sabia de uma pessoa que pudesse preencher o seu lugar: Tereza Tarouca. "Nunca mais volto a fazer nada de que goste tanto e em que me empenhe tanto", declara a fadista, lamentando que não tenha experimentado fazer teatro noutras ocasiões, de tal forma se sentiu implicada no papel de Maria Madalena. "E como somos amigos desde os meus 12 anos, temos uma empatia muito grande, ele como Cristo e eu como Maria Madalena – uma coisa extraordinária. Sentia-me completamente naquele papel, como se fosse verdade."
Juntamente com Frei Hermano da Câmara e João Ferreira-Rosa, escreve Rui Vieira Nery em Para Uma História do Fado, Tereza Tarouca integrou "um fenómeno social relativamente novo [na década de 1960], assumindo-se como continuadores de uma linha de fadistas de origem familiar aristocrática cuja entrada no terreno profissional segue o exemplo remoto de Maria Teresa de Noronha." Dada a sua condição social e o uso de um título no seu nome artístico. Tereza Tarouca foi, por vezes, classificada como pertencente a esta ramificação do fado nascente e existente fora dos bairros populares lisboetas, a que se deu o nome "fado aristocrático". "Essas coisas sempre me irritaram um bocado", desabafa a fadista. "Porque é uma explicação que não tem interesse nenhum. Tanto canta bem o homem que dorme na rua como o senhor conde não sei de quê. Depois veio essa história do fado aristocrático porque era a menina bem que se vestia de comprido, era aristocrata. Houve umas vozes mas depois calaram-se. Eu não tenho culpa do meu nome e não vou mudá-lo porque há pessoas que se incomodam."
Na década de 1990, Tereza Tarouca voltou brevemente aos ambientes das casas de fados, actuando com regularidade no Velho Páteo de Santana. Mas não esconde que esse não é o cenário que prefere para o seu fado, elegendo os palcos dos grandes concertos como o meio em que se sente mais confortável. "Subir-se a um palco e ter uma casa cheia num concerto é óptimo", admite com visível entusiasmo. Correndo bem, como quase sempre lhe tem acontecido, "é uma compensação muito grande, dá uma grande vontade continuar, quando mais se canta mais vontade se tem de cantar". "É o público que nos incentiva, com imenso respeito", frisa ainda.
A escolha do Velho Páteo de Santana não foi, naturalmente, acidental. Tendo como anteriores proprietários os Câmara Pereira – primos de Tereza Tarouca – era um local que a fadista conhecia bem e onde se sentia perfeitamente à-vontade, até porque as suas memórias do espaço estavam associadas a noites "divertidíssimas, rodeada só de gente que conhecia". Assim, mesmo com mudança na gerência, a fadista aceitou encabeçar o elenco da casa numa altura em que se encontrava mais disponível. "Não é o meu género, mas é um sítio que já conheço e sei que não é mal frequentado", lembra-se de ter pensado. Ao fim de algum tempo, Tereza Tarouca cansou-se em definitivo da vida da casa de fados, uma das principais salas lisboetas de então, paragem frequente de ilustres visitantes de todo o mundo. Pouco depois, por motivo de doença, viu-se obrigada a reduzir substancialmente a sua actividade artística.
Não resistiu, ainda assim, a comemorar com um grandioso espectáculo no Teatro Tivoli, a 26 de Maio de 1994, os seus 33 anos de carreira. Muito por "culpa" de Tiago Torres da Silva, autor que tem dividido a sua actividade pelas letras de canções, pelas peças de teatro e pela prosa. Torres da Silva tem sido frequentemente cantado por grandes intérpretes fadistas, tais como Beatriz da Conceição, Carlos do Carmo, Celeste Rodrigues ou António Zambujo. Mas a primeira voz do fado a que Tiago Torres da Silva entregou as suas palavras foi a Tereza Tarouca. A proximidade entre os dois nasce das tertúlias de fado e poesia no Velho Páteo de Santana, frequentadas pelo autor, em momentos que – confessou ao Jornal de Letras, por altura da atribuição do estatuto de Património Imaterial da Humanidade ao fado pela UNESCO – serem inesquecíveis: "Quantas vezes a espinha se me arrepiou e a alma se me pôs em sentido por uma voltinha diferente?, por um arrebatamento mais profundo?, por uma nota mais prolongada?, por aquele estilar impressionante?" [...]
E apesar de sempre ter avisado que não contassem com ela para vedetismos, apesar de uma discrição absoluta de quem nunca fez questão de ser fotografada e procurar alimentar uma presença mediática, foi sempre reconhecida na rua. Foi assim que tomou contacto com histórias do poder e do encanto dos seus fados, que ficou a saber ter ajudado uma rapariga que não conhecia a ultrapassar uma depressão gravíssima depois do seu divórcio: "A senhora acredita que foi a ouvir os seus fados que fiquei boa?", confessou-lhe a admiradora. [...]
Em 1997, também por insistência de Tiago Torres da Silva, Tereza Tarouca estreou-se no teatro de revista. Ao propor-lhe a participação na revista "Preço Único", no entanto, Torres da Silva começou por ouvir um "Tiago, não pense nisso, isso não é nada o meu género". Mas depois, "mais por brincadeira do que por outra razão", Tereza Tarouca acabou por aceitar integrar o elenco da peça, subindo a palco para cantar "A Ilha" e "A Tendinha". "Nunca cantei nada revisteiro", adverte. "Cantava mesmo fado. Não ia para lá de pernas ao léu a dançar o can-can."
Mesmo retirada dos palcos depois disso, actuando esporadicamente em espectáculos de beneficência, participou nas Visitas Cantadas ao Museu do Fado e foi distinguida em 2011 com o Prémio Carreira pela Sociedade Portuguesa de Autores. No ano seguinte, a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu-lhe a Medalha Municipal de Mérito e em 2013 foi agraciada pelo Presidente da República com o Grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Recebeu ainda o Prémio Carreira da Fundação Amália Rodrigues, numa gala que teve lugar no Teatro São Luiz, um prémio pelo qual confessa nutrir um carinho especial.
Desiludida com um tempo em que diz abundarem fadistas que não conhecem sequer os autores dos fados que cantam, muitos que "andam por aí a dar uns gritos lancinantes, parece que estão a matá-los, e nem se percebe se andam a cantar 'La Traviatta' ou 'O Cacilheiro'", o ensinamento de Tereza Tarouca é tão simples quanto eterno: "Ser fadista é ter raça, saber o que se está a cantar." [ligeiramente adaptado do texto de Gonçalo Frota publicado no livro (com CD) "Tereza Tarouca", da col. "Fado Alma Lusitana", série III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014]


Discografia (edições originais e compilações):
  1. Fado, Dor e Sofrimento (EP, RCA Victor, 1962) TP-113
  2. Mouraria (EP, RCA Victor, 1963) TP-122
  3. Fados (Fado das Faias) (EP, RCA Victor, 1963) TP-132
  4. Passeio à Mouraria (EP, RCA Victor, 1964) TP-151
  5. Saudade, Silêncio e Sombra (EP, RCA Victor, 1964) TP-154
  6. O Riso Que me Deste (EP, RCA Victor, 1967) TP-337
  7. Meu Bergantim (EP, RCA Victor, 1968) TP-450
  8. Fado e Folclore (LP, RCA Victor, 1970) TPLS 460
  9. Zé Sapateiro (EP, RCA Victor, 1970) TP-557
  10. A Micas do Trapo (EP, RCA Victor, 1971) TP-594
  11. Ora Bate, Bate (EP, RCA Victor, 1971) TP-600
  12. O Chico Refila (EP, RCA Victor, 1972) TP-659
  13. Os Maiores Sucessos de Tereza Tarouca, Vol. I (LP, RCA Camden, 1972) PTCS-1001 [compilação]
  14. Os Maiores Sucessos de Tereza Tarouca, Vol. II (LP, RCA Camden, 1972) PTCS-1006 [compilação - reedição do LP "Fado e Folclore"]
  15. Folclore (LP, RCA Victor, 1975) YPPL 1-007
  16. Os Melhores Fados de Tereza Tarouca (LP, RCA Camden, 1978) CL-40120
  17. O Mangas / Coração Que me Pertence (Single, Alvorada/Rádio Triunfo, 1979) N-S-97-134
  18. Portugal Triste (LP, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980) ALV 98-21
  19. Dez Reis de Esperança / Visita a Alfama (Single, Orfeu/Rádio Triunfo, 1983) SINP 1
  20. Álbum de Recordações (2LP, Polydor/PolyGram, 1985) 823 889-1 [compilação]
  21. Sucessos Populares (LP, Polydor/PolyGram, 1987) 833 035-1 [compilação]
  22. Tereza Tarouca Canta Pedro Homem de Mello (LP, Edisom, 1989) 606521
  23. Temas de Ouro da Música Portuguesa (CD, Polydor/PolyGram, 1992) 513636-2 [compilação - reedição do duplo LP "Álbum de Recordações" (Polydor 823 889-1) com a sequência das faixas alterada]
  24. Tereza Tarouca, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32 (CD, Movieplay, 1994) MM 37 032 [compilação - inclui todas as 12 faixas do LP "Portugal Triste" (Alvorada ALV 98-21)]
  25. Teresa Tarouca, col. Clássicos da Renascença, vol. 15 (CD, Movieplay, 2000) MOV 31.015 [compilação - inclui todas as 11 faixas do LP "Canta Pedro Homem de Mello" (Edisom 606521)]
  26. Frei Hermano da Câmara [e] Teresa Tarouca: O Melhor de 2 (2CD, Universal, 2001) 013 256-2 (CD2 013 258-2) [compilação]
  27. Álbum de Recordações (CD, Alma do Fado/Home Company, 2006) 0002/06 [compilação]
  28. Tereza Tarouca, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3 (CD, Levoir / Correio da Manhã, 2014) [compilação]

Tereza Tarouca, embora não tendo sido a primeira fadista a dar voz cantada a versos de Fernando Pessoa (Frei Hermano da Câmara e Teresa Silva Carvalho já haviam gravado poesia pessoana, respectivamente, "Mar Salgado", em 1965, e "Sol Nulo dos Dias Vãos", em 1968) deu, na esteira de Amália, um bom contributo para o enriquecimento do repertório do Fado, ao abordar, com inigualável sentido musical e mestria interpretativa, poemas de elevado valor estético saídos do punho de grandes figuras da poesia de língua portuguesa, que até aos anos 70 apenas podiam ser lidos em livro ou ouvidos, num ou noutro caso, na voz de reputados recitadores como João Villaret, Manuel Lereno ou Maria Germana Tânger.
Aos já citados Fernando Pessoa, Pedro Homem de Mello e Teixeira de Pascoaes somam-se Almeida Garrett, Alda Lara, Fernanda de Castro, Sophia de Mello Breyner Andresen e João Apolinário, cujos poemas resgatados ao silêncio dos livros Tereza Tarouca ofereceu ao povo, envoltos em melodias do chamado fado tradicional ou compostas de raiz expressamente para ela, principalmente por Manuel Lima Brummon. A marca deste, enquanto compositor, poeta e produtor, está bem evidente no magnífico álbum "Portugal Triste", de 1980, que não hesitamos em colocar na lista dos 50 melhores álbuns da música portuguesa de sempre. Um trabalho de qualidade superlativa, tendo como temática conceptual um certo "país esperando na esquina do tempo", e que importa (re)descobrir por quem aprecia boa poesia primorosamente cantada! Essa possibilidade damo-la aqui ao incluírmos todos os 12 espécimes do disco no conjunto de 32 do repertório de Tereza Tarouca que escolhemos para prestar tributo à sua memória. Boas audições!
Tratando-se de um nome tão importante da História do Fado, era justo e expectável que a Antena 1, ao abrigo das especiais obrigações que tem no domínio da música portuguesa, assinalasse condignamente a morte de Tereza Tarouca com a transmissão de um programa especial, fazendo uso de registos do arquivo histórico (entrevistas, reportagens, etc.), bem como a difusão faseada de uma mão-cheia dos mais belos espécimes do seu repertório. Mas não. Nada! A rádio ("que liga Portugal") permaneceu totalmente alheada do triste acontecimento, dando assim razão àqueles que se queixam de serem impiedosamente espoliados do seu dinheiro para se manter uma entidade que, em vez de prestar serviço público, funciona como uma prostituta chulada por uma trupe de chefias acomodadas e negligentes.



Malmequer Desfolhado



Letra: D. António de Bragança
Música: Francisco Viana (Fado Francisco Viana ou Fado Mouraria do Vianinha)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP "Mouraria", RCA Victor, 1963; LP "Os Melhores Fados de Tereza Tarouca", RCA Camden, 1978)


[instrumental]

Um malmequer desfolhei,  | bis
Nunca tal tivesse feito;      |
Não sabia o que já sei,    | bis
Tinha-te ainda no peito!  |

P'ra saber s'inda era meu
O homem que eu tanto amei,
Com os olhas fitos no céu  | bis
Um malmequer desfolhei!  |

E da flor fui arrancando
Esperanças que fora deito;
E agora eu estou chorando... | bis
Nunca tal tivesse feito!          |

Julgando ter-te na vida        | bis
E seres p'ra mim minha lei,  |
Passava o tempo iludida...  | bis
Não sabia o que já sei!       |

Sonhava meu coração,
E agora sonho desfeito
Vivendo da ilusão...         | bis
Tinha-te ainda no peito!   |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery



Deixa Que te Cante um Fado



Poema: Pedro Homem de Mello
Música: José Marques do Amaral (Fado José Marques do Amaral)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP "Fados (Fado das Faias)", RCA Victor, 1963; LP "Os Melhores Fados de Tereza Tarouca", RCA Camden, 1978)


[instrumental]

Deixa que te cante um fado,
Ao menos de vez em quando!
Deixa que te cante um fado  | bis
Como quem reza chorando!  |

Deixa que te cante um fado
Que me fale sempre em ti!
Cantarei de olhos cerrados, | bis
Os olhos com que te vi.       |

Deixa que te cante um fado,
Mesmo sem fé ou sem arte!
Se nunca pude esquecer-te  | bis
É que não posso deixar-te.   |

Deixa que te cante um fado!
Todo o meu sonho está nisto:
Que depois de o ter cantado  | bis
Te lembres que ainda existo. |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery



As Tuas Mãos, Guitarrista



Letra: Maria Manuel Cid
Música: Joaquim Campos (Fado Tango)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP "Passeio à Mouraria", RCA Victor, 1964; 2LP "Álbum de Recordações": LP 2, Polydor/PolyGram, 1985; CD "Temas de Ouro da Música Portuguesa", Polydor/PolyGram, 1992)




[instrumental]

São tuas mãos, guitarrista,
Que as cordas fazem vibrar,
Que me fizeram fadista     | bis
E não deixam que resista  |
Ao desejo de cantar.         |

A guitarra quere-te tanto,
Tem por ti tal afeição
Que te deu consentimento     | bis
P'ra desvendares o tormento  |
Que guardo no coração.         |

Em teu peito tem guarida,
Em tuas mãos seu penar;
Se tu não lhe desses vida  | bis
Ficava p'ra ali esquecida    |
E não voltava a trinar.       |

E se a tens abandonado
Não seria mais fadista;
Mesmo que fosse cantado,   | bis
Morria com ela o fado          |
Sem tuas mãos, guitarrista. |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery



O Sentir do Cantador



Letra: Maria Manuel Cid
Música: Francisco José Marques (Fado Évora)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP "Passeio à Mouraria", RCA Victor, 1964; LP "Os Melhores Fados de Tereza Tarouca", RCA Camden, 1978)


[instrumental]

Dizem que o fado é saudade,  | bis
Miséria, sofrer e dor...            |
Mas o fado é, na verdade,  | bis
O sentir do cantador.         |

Em cada palavra sua,     | bis
Em cada verso cantado, |
O cantador insinua       | bis
A tristeza do seu fado.  |

Não canta por simpatia, | bis
Não canta para viver:    |
É que cantando alivia       | bis
Um pouco do seu sofrer.  |

Tornando tão magoado  | bis
O timbre da sua voz,     |
Que o fado fica gravado   | bis
Na alma de todos nós.     |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery



Saudade, Silêncio e Sombra



Letra: D. Nuno Lorena
Música: Pedro Rodrigues (Fado Primavera)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP "Saudade, Silêncio e Sombra", RCA Victor, 1964; LP "Os Melhores Fados de Tereza Tarouca", RCA Camden, 1978; 2LP "Álbum de Recordações": LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD "Temas de Ouro da Música Portuguesa", Polydor/PolyGram, 1992; CD "Álbum de Recordações", Alma do Fado/Home Company, 2006; CD "Tereza Tarouca", col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)




[instrumental]

A saudade, meu amor,
É o martírio maior
Da minha vida em pedaços,
Desde a tarde desse dia                  | bis
Em que ao longe se perdia              |
P'ra sempre o som dos teus passos. |

Saudades fazem lembrar
Silêncios do teu olhar,
Segredos da tua voz
E essa antiga melodia     | bis
Que o vento na ramaria  |
Murmurava só p'ra nós.  |

Lembras-te daquela vez
Quando eu cantava a teus pés
Trovas que não tinham fim,
Quando o luar prateava       | bis
E quando a noite orvalhava  |
As rosas desse jardim?        |
 «
Jardim distante e deserto,
Sinto tão longe e tão perto
O passado que te ensombra...
Devaneio e realidade,            | bis
Silêncio, sombras, saudade,   |
Saudades, silêncio e sombra. |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery



Espero a Morte a Cantar



Letra: Francisco Pessoa
Música: Joaquim Campos (Fado Amora)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP "Saudade, Silêncio e Sombra", RCA Victor, 1964)


[instrumental]

Nesse teu olhar magoado
Vejo a cor dos olhos meus;
Tem a dor um tom pisado     | bis
Que é o tom dos olhos teus.  |

Sofro a dor por te querer
Esquecendo que te perdi,
Mas um dia quis te ver  | bis
E louca d'amor fugi.      |

Nos meus olhos vivem ainda
Saudades dum olhar teu;
No meu peito vive infinda  | bis
Essa dor que em ti viveu.  |

Hoje canto de amargura
Já cansada de te amar,
E vencida pela tortura     | bis
Espero a morte a cantar. |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery



Canção Verde



Poema: Pedro Homem de Mello (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Carlos da Maia (Fado Perseguição)
Intérprete: Tereza Tarouca (in EP "O Riso Que me Deste", RCA Victor, 1967; 2LP "Álbum de Recordações": LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD "Temas de Ouro da Música Portuguesa", Polydor/PolyGram, 1992; CD "Álbum de Recordações", Alma do Fado/Home Company, 2006; CD "Tereza Tarouca", col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)




[instrumental]

A minha canção é verde. [bis]
Sempre de verde a cantei.
De verde cantei ao Povo
E fui de verde, de verde,
Cantar à mesa do Rei.

Tive um amor — triste sina! [bis]
Amar é perder alguém...
Desde então, ficou mais verde
Tudo em mim: a voz, o olhar...
E o meu coração também!

Deu-me a vida, além do luto, [bis]
Amor à margem da lei...
Amigos são inimigos.
— Paga-me! disseram todos.
Só eu de verde fiquei.

A minha canção é verde [bis]
— Canção à margem da lei...
A minha canção é verde,
Verde como este poema
Que por meu mal te cantei!

[instrumental]

A minha canção é verde,
Verde, verde, verde, verde...
Mas... porque é verde?
                         — Não sei...


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery



CANÇÃO VERDE

(Pedro Homem de Mello, in "Adeus", Porto, 1951 p. 25-27; "Poesias Escolhidas", col. Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa: IN-CM, 1983 – p. 131-132)


A minha canção é verde.
Sempre de verde a cantei.
De verde cantei ao Povo
E fui de verde vestido
Cantar à mesa do Rei.

Porque foi verde o meu canto?
Porque foi verde?
                         — Não sei...

Verde, verde, verde, verde,
Verde, verde, em vão, cantei!
— Lindo moço! — disse o Povo.
— Verde moço! — disse El-Rei.

Porque me chamaram verde?
Porque foi? Porquê?
                         — Não sei...

Tive um amor — triste sina!
Amar é perder alguém...
Desde então, ficou mais verde
Tudo em mim: a voz, o olhar,
Cada passo, cada beijo...
E o meu coração também!

Coração! Porque és tão verde?
Porque és verde assim também?

Deu-me a vida, além do luto,
Amor à margem da lei...
Amigos são inimigos.
— Paga-me! disseram todos.
Só eu de verde fiquei.

Porque fiquei eu de verde?
Porque foi isto?
                         — Não sei...

A minha canção é verde
— Canção à margem da lei...
Verde, ingénua, verde e moça,
Como a voz deste poema
Que por meu mal vos cantei!

A minha canção é verde,
Verde, verde, verde, verde...
Mas... porque é verde?
                         — Não sei...



Não Sou Fadista de Raça



Letra: Maria Teresa Cavazinni
Música: Alfredo Duarte "Marceneiro" (Fado Bailarico)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP "O Riso Que me Deste", RCA Victor, 1967; LP "Os Melhores Fados de Tereza Tarouca", RCA Camden, 1978; 2LP "Álbum de Recordações": LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD "Temas de Ouro da Música Portuguesa", Polydor/PolyGram, 1992; CD "Álbum de Recordações", Alma do Fado/Home Company, 2006; CD "Tereza Tarouca", col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)




[instrumental]

Não sou fadista de raça,  | bis
Não nasci no Capelão;     |
Eu canto o fado que passa  | bis
Nas asas da tradição!         |

Nunca usei negra chinela  | bis
Nem vesti saia de lista;    |
Nunca entrei numa viela | bis
Mas tenho raça fadista!  |

Tirei suspiros ao vento,      | bis
Olhei um pouco o passado; |
Busquei do mar um lamento  | bis
E fiz assim o meu fado.         |

É este fado famoso             | bis
Que, em noites enluaradas, |
O Conde de Vimioso      | bis
Tangia nas guitarradas. |

Era fidalgo de raça  | bis
E ficou na tradição  |
Cantando o fado que passa  | bis
Na Rua do Capelão.             |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery



Testamento



Poema: Alda Lara (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Popular (Fado Menor)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP "O Riso Que me Deste", RCA Victor, 1967; LP "Os Melhores Fados de Tereza Tarouca", RCA Camden, 1978; 2LP "Álbum de Recordações": LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD "Temas de Ouro da Música Portuguesa", Polydor/PolyGram, 1992; CD "Álbum de Recordações", Alma do Fado/Home Company, 2006; CD "Tereza Tarouca", col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)




[instrumental]

À rapariga mais nova               | bis
Do bairro mais velho e escuro,  |
Deixo meus brincos lavrados
Em cristal límpido e puro.

E àquela virgem esquecida,
Sonhando alto uma lenda,
Deixo o meu vestido branco
Todo tecido de renda.

E este meu rosário antigo,
De contas da cor dos céus,
Ofereço-o àquele amigo       | bis
Que não acredita em Deus.  |

E os livros, rosários meus
Das contas d'outro sofrer,
São para os homens humildes
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,  | bis
Esses que são só de dor,               |
E aqueles que são de esperança
São para ti, meu amor.

P'ra que tu possas, um dia,  | bis
Com passos feitos de lua,    |
Oferecê-los às crianças            | bis
Que encontrares em cada rua.  |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery



TESTAMENTO

(Alda Lara, in "Poemas", Sá da Bandeira, Angola: Imbondeiro, 1966, reed. Braga: APPACDM, 1997, 2005)


À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida,
rapariga sem ternura
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes
que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora,
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...



Cai Chuva do Céu Cinzento



Poema: Fernando Pessoa (excertos adaptados de três poemas) [textos integrais >> abaixo]
Música: Maria Teresa de Noronha (Fado das Horas)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Fado e Folclore", RCA Victor, 1970; LP "Os Melhores Fados de Tereza Tarouca", RCA Camden, 1978; 2LP "Álbum de Recordações": LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD "Temas de Ouro da Música Portuguesa", Polydor/PolyGram, 1992; CD "Álbum de Recordações", Alma do Fado/Home Company, 2006; CD "Tereza Tarouca", col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)




[instrumental]

Cai chuva do céu cinzento  | bis
Que não tem razão de ser. |
Até o meu pensamento        | bis
Tem chuva nele a escorrer.  |

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizê-la mas pesa   | bis
O quanto comigo minto.  |

Que o grande jeito da vida  | bis
É pôr a vida com jeito.        |
Murcha a rosa não colhida    | bis
Como a rosa posta ao peito. |

Sou como a praia a que invade | bis
Um mar que torna a descer.     |
Mas nisto tudo a verdade   | bis
Ai! É só eu ter que morrer. |

[instrumental]


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery



Cai chuva do céu cinzento

[Fernando Pessoa, 15-11-1930, in "Poesias Inéditas (1930-1935)", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. VII, Lisboa: Edições Ática, 1955, imp. 1990 – p. 25]


Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.



Se tudo o que há é mentira

[Fernando Pessoa, 14-10-1930, in "Poesias Inéditas (1930-1935)", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. VII, Lisboa: Edições Ática, 1955, imp. 1990 – p. 22]


Se tudo o que há é mentira,
É mentira tudo o que há.
De nada nada se tira,
A nada nada se dá.

Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha,
Se não é, suponho que é.

Que o grande jeito da vida
É pôr a vida com jeito.
Fana a rosa não colhida
Como a rosa posta ao peito.

Mais vale é o mais valer,
Que o resto urtigas o cobrem
E só se cumpra o dever
Para que as palavras sobrem.



O ruído vário da rua

[Fernando Pessoa, 21-2-1931, in "Poesias Inéditas (1930-1935)", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. VII, Lisboa: Edições Ática, 1955, imp. 1990 – p. 29]


O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua.
Oiço: cada som é consigo.

Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.

Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.



Sino da Minha Aldeia



Poema: Fernando Pessoa (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Armando Goes (Fado da Saudade)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Fado e Folclore", RCA Victor, 1970)


[instrumental]

Ó sino da minha aldeia,  | bis
Dolente na tarde calma,  |
Cada tua badalada             | bis
Soa dentro da minha alma. |

E é tão lento o teu soar,  | bis
Tão como triste da vida,  |
Que já a primeira pancada  | bis
Tem o som de repetida.      |

Por mais que me tanjas perto    | bis
Quando passo, sempre errante, |
És para mim como um sonho,  | bis
Soas-me na alma distante.      |

E a cada pancada tua,   | bis
Vibrante no céu aberto, |
Sinto mais longe o passado,  | bis
Sinto a saudade mais perto.  |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery



Ó sino da minha aldeia

(Fernando Pessoa, in "Renascença", Lisboa: Fev. 1924; "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 15.ª edição, 1995 – p. 93-94)


Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.



Vestígios



Poema: Fernando Pessoa (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Joaquim Campos (Fado Tango)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Fado e Folclore", RCA Victor, 1970)


[instrumental]

Bóiam leves, desatentos,         | bis
Meus pensamentos de mágoa  |
Como, no sono dos ventos,  | bis
As algas, cabelos lentos       |
Do corpo morto das águas.  |

À tona d'águas paradas,
Bóiam como folhas mortas.
São coisas pedindo nadas,          | bis
São pós que dançam nas portas  |
Das casas abandonadas.             |

Sono de ser, sem remédio, | bis
Vestígio do que não foi,      |
Leve mágoa, breve tédio,    | bis
Não sei se pára, se flui;       |
Não sei se existe ou se dói.  |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery



Bóiam leves, desatentos

(Fernando Pessoa, 4-8-1930, "Poesias de Fernando Pessoa", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 15.ª edição, 1995 – p. 120-121)


Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.



Confirmação



Poema: Pedro Homem de Mello (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Renato Varela (Fado Meia-Noite)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Fado e Folclore", RCA Victor, 1970)


[instrumental]

A minha alma está doente,  | bis
Quiseram em vão curá-la    |
E quantos ingenuamente  | bis
Tentaram amortalhá-la!   |

Fizeram cerco e, no meio  | bis
De toda aquela muralha,   |
Eu (que sofria!) cantava...    | bis
Não me servira a mortalha!  |

E à medida que o segredo           | bis
Vinha em meus lábios poisar-se,  |
Embriagado, eu cantava...  | bis
Não me servira o disfarce!  |

Mas, por fim, vendo, talvez,  | bis
Que nenhum remédio havia  |
Deram à minha surdez  | bis
O nome de poesia...      |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Luís Gomes



CONFIRMAÇÃO

(Pedro Homem de Mello, in "Eu Hei-de Voltar um Dia", Lisboa: Edições Ática, 1966, reimp. 1999 – p. 63)


A minha alma está doente,
Quiseram em vão curá-la
E quantos ingenuamente
Tentaram amortalhá-la!
Formaram cerco e, no meio
De toda aquela muralha,
Eu (que sofria!) cantava...
Não me servira a mortalha!
E à medida que o segredo
Vinha em meus lábios poisar-se,
Embriagado, eu cantava...
Não me servira o disfarce!
Mas, por fim, vendo, talvez,
Que nenhum remédio havia
Deram à minha surdez
O nome de poesia...



Quadras da Minha Solidão



Poema: Alda Lara (excerto) [poema integral >> abaixo]
Música: Jaime Santos (Fado da Bica)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Fado e Folclore", RCA Victor, 1970)


[instrumental]

Fica longe o sol que vi
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!    | bis
E como é longa esta hora!... |

Donde estou vejo partir   | bis
quem parte certo e feliz.  |
Só eu fico. E sonho ir
rumo ao sol do meu país...

Por isso as asas dormentes  | bis
suspiram por outro céu.       |
Mas ai delas! tão doentes   | bis
não podem voar mais eu... |

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,  | bis
por todos responde a dor.       |

E assim, no pulso dos dias,    | bis
sinto chegar outro Outono...  |
Passam as horas esguias,    | bis
levando o meu abandono...  |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery



QUADRAS DA MINHA SOLIDÃO

(Alda Lara, in "Poemas", Sá da Bandeira, Angola: Imbondeiro, 1966, reed. Braga: APPACDM, 1997, 2005)


Fica longe o sol que vi
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora!...

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir
rumo ao sol do meu país...

Por isso as asas dormentes
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes
não podem voar mais eu...

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?... Amor?... Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
Passam as horas esguias,
levando o meu abandono...



Fado



Poema: Pedro Homem de Mello (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: José Marques do Amaral (Fado José Marques do Amaral)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Fado e Folclore", RCA Victor, 1970)




[instrumental]

Ao passar pelo ribeiro
Onde, às vezes, me debruço,
Fitou-me alguém. Corpo inteiro,  | bis
Curvado com um soluço!             |

Que palidez nesse rosto
Sob o lençol do Luar!
Tal e qual quem, ao Sol-Posto,  | bis
Estivera a agonizar...                |

E aquelas pupilas baças
Acaso seriam minhas?
Meu amor, quando me enlaças,  | bis
Porventura as adivinhas?           |

Deram-me, então, por conselho,
Tirar de mim o sentido.
Mas, depois, vendo-me ao espelho,  | bis
Cuidei que tinha morrido!                |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Luís Gomes



FADO

(Pedro Homem de Mello, in "As Perguntas Indiscretas", Porto: Editorial Domingos Barreira, 1968; "Poesias Escolhidas", col. Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa: IN-CM, 1983 – p. 295)


Ao passar pelo ribeiro
Onde, às vezes, me debruço,
Fitou-me alguém. Corpo inteiro,
Curvado como um soluço!

Que palidez nesse rosto
Sob o lençol do Luar!
Tal e qual quem, ao Sol-Posto,
Estivera a agonizar...

Aquelas pupilas baças
Acaso seriam minhas?
Meu amor, quando me enlaças,
Porventura as adivinhas?

Deram-me, então, por conselho,
Tirar de mim o sentido.
Mas, depois, vendo-me ao espelho,
Cuidei que tinha morrido!



A Micas do Trapo



Letra e música: Armando Estrela
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP "A Micas do Trapo", RCA Victor, 1971; 2LP "Álbum de Recordações": LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD "Temas de Ouro da Música Portuguesa", Polydor/PolyGram, 1992)




[instrumental]

A Micas ao cão
tem-lhe uma afeição
como ele fosse gente:
quando vai ao lixo,
leva sempre o bicho
que rosna p'rá gente.

Se vai pedir esmola
leva na sacola
o comer à certa:
quando a fome aperta,
come ela primeiro,
depois o rafeiro.

[instrumental]

Oh! Micas do trapo
também és farrapo,
farrapo da vida
perseguindo em vão
sonhos que lá vão
na noite perdida!

Esse lixo agora
também foi outrora
desvelo e carinho,
foi rei ao seu jeito,
latejou no peito
como jorra o vinho.

E nas tuas mãos,
dedos bons irmãos
procuram, sem fim,
coisas de criança
onde ainda a esperança
não chegou ao fim.

[instrumental]

A Micas ao cão
tem-lhe uma afeição
como ele fosse gente:
quando vai ao lixo,
leva sempre o bicho
que rosna p'rá gente.

Se vai pedir esmola
leva na sacola
o comer à certa:
quando a fome aperta,
come ela primeiro,
depois o rafeiro.

[instrumental]

quando a fome aperta,
come ela primeiro,
depois o rafeiro.


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery:
Raul Nery – 1.ª guitarra portuguesa
António Chainho – 2.ª guitarra portuguesa
Júlio Gomes – viola
Raul Silva – viola baixo



Penas Tem Quem Tem Amores



Letra: Popular (Minho)
Música: Sílvio Pleno
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Folclore", RCA Victor, 1975; 2LP "Álbum de Recordações": LP 2, Polydor/PolyGram, 1985; CD "Temas de Ouro da Música Portuguesa", Polydor/PolyGram, 1992)




[instrumental]

Ó meu amor, se tu queres    | bis
Que a minha alma seja tua,  |
Dá passadas, perde o teu tempo  | bis
Se é teu gosto, mas continua!      |

O meu pouco vale muito,  | bis
O teu muito vale nada:     |
Mesmo sendo eu pobrezinha,  | bis
Sou para ti mal empregada.    |

Penas tem quem tem amores,  | bis
Penas tem quem os não tem:   |
É certo que cá neste mundo       | bis
Sem ter penas não há ninguém. |

Se os passarinhos vendessem  | bis
As penas que Deus lhes deu,   |
Também eu venderia as minhas     | bis
Que ninguém as tem mais que eu.  |

[instrumental]


* Tereza Tarouca – voz
Arranjos e direcção de orquestra – Silvio Pleno



Coração Que me Pertence



Letra e música: Armando Estrela
Intérprete: Tereza Tarouca* (in single "O Mangas / Coração Que me Pertence", Alvorada/Rádio Triunfo, 1979; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994)


[instrumental]

Coração, meu coração
Que sonhavas esta vida,
Por que razão tu paraste?
Não digas que adivinhaste
Na hora da despedida
Desta sublime afeição?

Quantas horas, tantas horas
Esvoaçaste de mansinho
No carinho do meu jeito!
Já nem sabes onde moras,
Descuidado passarinho,
Se no teu se no meu peito.

Fechei meus olhos perdidos,
Não fosse com o desgosto
Rogarem-te alguma praga...
Que os teus hão-de ver, sentidos,
No braseiro do sol-posto
O sangue da minha mágoa.

E no fogo da ambição,
Que ao amor julga que vence,
Queimaste a minha raiz...
Como pode ser feliz
Coração que me pertence
No calor duma outra mão?

[instrumental]

Como pode ser feliz
Coração que me pertence
No calor duma outra mão?


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho:
António Chainho – 1.ª guitarra portuguesa
José Luís Nobre Costa – 2.ª guitarra portuguesa
José Maria Nóbrega – viola
Raul Silva – viola baixo
Produção – António Chainho
Técnico de som – Luís Alcobia



Portugal Triste



Letra e música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Portugal Triste", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD "Tereza Tarouca", col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)


[instrumental]

Meu país esperando na esquina do tempo
de braços abertos a todo o momento
vou seguindo sempre calculando os passos
e se o que criei desfaço e refaço
meus olhos despertos abrem-se para o mundo
e eu caio em mim cada vez mais fundo

Meu país perdido na esquina do tempo
triste Portugal tão pequeno e imenso
pois eu te garanto, país, que este povo
traz no coração sempre um amor novo

[instrumental]

Não quero que pensem que já me perdi
nem quero que julguem que fujo de mim
tenho lucidez para poder viver
eu sou vertical, não me hão-de torcer
sempre fui mais forte quando me quiseram
tornar serva ou fraca e nunca me venceram

Tenho a dimensão do que quero alcançar
e nada que fiz tenho a lamentar
pois para me encontrar ainda vos digo
que nunca vendi meu cantar de amigo

[instrumental]

Portugal que eu canto deixa a boca amarga
mas eu estou bem firme, não estou derrotada


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



Anda Comigo, Vou Falar de Esperança



Poema: João Apolinário
Música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Portugal Triste", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD "Álbum de Recordações", Alma do Fado/Home Company, 2006; CD "Tereza Tarouca", col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)


[instrumental]

Anda comigo, vou falar de esperança
da vida que ainda agora principia
Perde essa amarga e vã desconfiança    | bis
toma a minha mão de amigo – e confia  |

Anda comigo, eu canto as tuas dores
sou mais poeta sendo teu irmão
Nesta densa floresta sem flores         | bis
o sangue e a alma são o mesmo pão  |

Anda comigo, além na clareira
há uma fonte para matar a sede
A água é pura, livre, não se mede    | bis
e corre simples para quem a queira  |

[instrumental]

Anda comigo, vou falar de esperança
Anda comigo fazer a sementeira


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



A Outra Face da Alegria



Letra e música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Portugal Triste", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD "Tereza Tarouca", col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)


[instrumental]

Por ti cheguei a amar o desumano
e fiz da minha angústia amor total
vi florir primaveras todo o ano                | bis
nunca ninguém te amou com amor igual  |

Por ti bastava a sombra fugidia
do teu olhar no meu insatisfeito
e tudo o que não tinha pressentia          | bis
como quem tem dois corações no peito  |

Por ti reinventei lindas palavras
nas mãos tive oiro e estrelas só por ti
e nada te bastou, nada aceitavas               | bis
mas roubaste o melhor que havia em mim  |

Por ti gastei a face da alegria
e andei morrendo um pouco em toda a parte
embriagaste a luz de cada dia          | bis
dos dias mais belos da minha idade  |


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



Trovas do Meu Povo



Letra: Manuel Lima Brummon
Música: Luís Alexandre
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Portugal Triste", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD "Álbum de Recordações", Alma do Fado/Home Company, 2006)


[instrumental]

Lá vem num corcel
o príncipe real
vem saber dos favos
vem medir o mel

vem ver os pastores
pastarem o gado
são seus os pastores
e é seu todo o prado

Lá vem num cavalo
o senhor regedor
vem ver como cumprem
as ordem do rei

pela terra alheia
vem ver lavradores
vê o que semeiam
vem contar as flores

[instrumental]

Lá vem num burrico
o senhor abade
vem pedir prás almas
prás almas salvar

são suas as almas
que o povo lhas deu
partilha por todos
a fé que perdeu

Lá vem todo o povo
a pé no povoado
de Cristo nos ombros
à cruz arrancado

pois Cristo resiste
não morre entre o povo
porque em cada um
há sempre um Cristo novo

[instrumental]

La, la, la...


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



Águias Perdidas



Letra: Manuel Lima Brummon
Música: Bernardo Lino Teixeira (Fado Ginguinha)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Portugal Triste", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD "Álbum de Recordações", Alma do Fado/Home Company, 2006)


[instrumental]

A sono solto dormia há muito a cidade
e eu procurava como louca rua em rua
a tua sombra entre essas ruas da saudade  | bis
onde uma noite sobre nós raiara a lua        |

Na minha grande amargura de águia perdida
que começou com a tua ausência eu queria ser
ao encontrar-te a perfumada flor da vida  | bis
ou ser de novo uma alegria por viver        |

Mas fui tão pouco ao teu olhar desencantado
e o nosso abraço uma tristeza tão profunda
que entre o silêncio o amor com lágrimas quebrado | bis
abandonou-se nas estranhas mãos da lua               |

Ergueu-se ao longe a sinfonia das guitarras
perdida a voz, quebrado o amor nada entendemos
beijei-te a fronte e assim sem mágoa nem palavras | bis
serenamente unidos, meu amor, morremos             |

[instrumental]


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



Mulher-Amor



Letra: Manuel Lima Brummon
Música: António Chainho
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Portugal Triste", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD "Teresa Tarouca", col. Clássicos da Renascença, vol. 15, Movieplay, 2000; CD "Álbum de Recordações", Alma do Fado/Home Company, 2006)


[instrumental]

Mulher chegada ao sonho adolescente
botão de esperança num sorriso alegre
mulher inteira, coração contente
que guarda com ternura
a última boneca
para quem o amor é a coisa mais pura

Mulher capaz de ter nas mãos serenas
toda a força do amor que habita em si
e sabe pôr nas coisas mais pequenas
um gesto de ternura
mulher igual a mim
mulher que és mãe és a mulher mais pura

Mulher que chega à esquina da idade
carregada dos seus anos doirados
cada ruga lhe traz uma saudade
e afaga com ternura
seus cabelos grisalhos
bebendo o amor da sua fonte pura

[instrumental]

cada ruga lhe traz uma saudade
e afaga com ternura
seus cabelos grisalhos
bebendo o amor da sua fonte pura


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



Pobre Pátria Trigueira



Letra e música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Portugal Triste", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994)


[instrumental]

Ó pobre pátria trigueira
dás filhos como dás flores
Nossa Senhora das Dores
a chorar a vida inteira

dás filhos a todo o mundo
como um tronco sem raiz
mãe das mães que perdem tudo  | bis
e morrem no seu país                 |

Ó pobre pátria trigueira
mãe da dor e da tristeza
separada pela fronteira
da nossa grande pobreza

com boca que ninguém beija
e a tua mesa vazia
longe de quem te deseja
ai! envelheces dia a dia

Ó pobre pátria trigueira
quando abraçarás teus filhos
que andam pelo mundo perdidos
a chorar a vida inteira?

Lá vão ao sabor das águas
em barquinhos de papel
com o mar à pele das mágoas  | bis
e ao sol que lhes cresta a pele  |

Ó pobre pátria trigueira
mãe da dor e da tristeza
separada pela fronteira
da nossa grande pobreza

com boca que ninguém beija
e a tua mesa vazia
longe de quem te deseja
ai! envelheces dia a dia

[instrumental]

com boca que ninguém beija
e a tua mesa vazia
longe de quem te deseja
ai! envelheces dia a dia


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



Vindimeiro



Letra: Manuel Lima Brummon
Música: Vítor Manuel Rodrigues
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Portugal Triste", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD "Teresa Tarouca", col. Clássicos da Renascença, vol. 15, Movieplay, 2000)


[instrumental]

Amaduraram-se os cachos
torna o tempo da vindima
bagos novos
bagos novos
arde-lhes o oiro em cima

vergam-se as vides pesadas
bagos ciosos se animam
vindimeiro
vindimando
vinho moço em velha vinha

Vindimeiro vindimado
quem te vindima a ansiedade?
cachos verdes quem tos dera
para vindimares a saudade

tens mais sede de vindima
do que tem a farta uva
a sede de ser colhida
se cai a primeira chuva

Como cachos para o lagar
saltam os seios às vindimeiras
bagos cheios
bagos cheios
de desejo e bebedeiras

anda a serpente da terra
na dança das parras soltas
vindimeiras
vindimadas
rebentam bagos na boca

Vindimeiro vindimado
quem te vindima a ansiedade?
cachos verdes quem tos dera
para vindimares a saudade

tens mais sede de vindima
do que tem a farta uva
a sede de ser colhida
se cai a primeira chuva

[instrumental]

tens mais sede de vindima
do que tem a farta uva
a sede de ser colhida
se cai a primeira chuva


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



Jardins de Portugal



Letra: Manuel Lima Brummon
Música: Luís Alexandre
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Portugal Triste", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD "Álbum de Recordações", Alma do Fado/Home Company, 2006)


[instrumental]

Nos jardins de Portugal
vão morrendo lentamente
alegrias dos mais velhos [bis]

momentos de bem e mal
no que fizeram e foram
meditam, perdem seus sonhos [bis]

Faces que o tempo marcou
nos jardins de Portugal
vejo passar junto a mim [bis]

e no que a vida os tornou
homens sombrios de olhar triste
pressinto um dia o meu fim [bis]

[instrumental]

Tenho remorso de vê-los
nessa enorme solidão
pelos jardins de Portugal [bis]

de nada fazer por eles
e ter ainda alegria
para os poder alegrar [bis]

Em cada rosto enrugado
sinto lembranças de amor
sofrimento e frustração [bis]

Portugal tão mal amado
nos bancos dos seus jardins
sofre em cada coração

[instrumental]


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



A Rapariga das Violetas



Poema: Fernanda de Castro (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Portugal Triste", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD "Álbum de Recordações", Alma do Fado/Home Company, 2006)


[instrumental]

Éramos três quando passou por nós
quando passou por nós
com o cesto das violetas.
Disse a primeira: como vai cansada,  | bis
e descalça, coitada, coitada!              |
Disse a outra: tão suja e desgrenhada,
olhem os pés sem cor, as unhas pretas!

Eu, a terceira... eu não disse nada,  | bis
não disse nada, não disse nada.       |
... Que lindas as violetas!

[instrumental]


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



A RAPARIGA DAS VIOLETAS

(Fernanda de Castro, in "Exílio", Lisboa: Livraria Bertrand, 1952 – p. 93)


Éramos três quando passou por nós
com o cesto das violetas.
Disse a primeira: como vai cansada,
e descalça, coitada!
Disse a outra: tão suja e desgrenhada,
olhem os pés sem cor, as unhas pretas!

Eu, a terceira... eu não disse nada.
... Que lindas as violetas!



Regresso



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Portugal Triste", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD "Álbum de Recordações", Alma do Fado/Home Company, 2006)


[instrumental]

Quem cantará vosso regresso morto?
Que lágrimas, que grito hão-de dizer
A desilusão e o peso em vosso corpo?

Portugal tão cansado de morrer [bis]
Ininterruptamente e devagar
Enquanto o vento vivo vem do mar. [bis]

Quem são os vencedores desta agonia?
Quem os senhores sombrios desta noite
Onde se perde, morre e se desvia
A antiga linha clara e criadora [bis]
Do nosso rosto voltado para o dia?

Quem cantará vosso regresso morto?
Que lágrimas, que grito hão-de dizer
A desilusão e o peso em vosso corpo?

Portugal tão cansado de morrer [bis]
Ininterruptamente e devagar
Enquanto o vento vivo vem do mar. [bis]


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



REGRESSO

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Mar Novo", Lisboa: Guimarães Editores, 1958; "Obra Poética", Lisboa: Assírio & Alvim, 2015 – p. 394-395)


Quem cantará vosso regresso morto
Que lágrimas, que grito hão-de dizer
A desilusão e o peso em vosso corpo?

Portugal tão cansado de morrer
Ininterruptamente e devagar
Enquanto o vento vivo vem do mar

Quem são os vencedores desta agonia?
Quem os senhores sombrios desta noite
Onde se perde morre e se desvia
A antiga linha clara e criadora
Do nosso rosto voltado para o dia?



Esta Gente



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Portugal Triste", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD "Tereza Tarouca", col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)




[instrumental]

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova [bis]
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

[instrumental]

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome


* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



ESTA GENTE

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia": II – "Procelária", Lisboa: Edições Ática, 1967; "Obra Poética", Lisboa: Assírio & Alvim, 2015 – p. 508)


Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo



Povo



Poema: Pedro Homem de Mello (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: Joaquim Campos (Fado Vitória)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Tereza Tarouca Canta Pedro Homem de Mello", Edisom, 1989; CD "Teresa Tarouca", col. Clássicos da Renascença, vol. 15, Movieplay, 2000)




[instrumental]

Povo que lavas no rio,            | bis
Que talhas com teu machado  |
As tábuas do meu caixão,       |
Pode haver quem te defenda,         | bis
Quem compre o teu chão sagrado,  |
Mas a tua vida, não!                      |

Meu cravo branco na orelha! | bis
Minha camélia vermelha!      |
Meu verde manjericão!         |
Água pura, fruto agreste,    | bis
Fora o vinho que me deste, |
Mas a tua vida, não!           |

Só tu! Só tu és verdade!         | bis
Quando o remorso me invade  |
E me leva à confissão...          |
Povo! Povo! eu te pertenço.   | bis
Deste-me alturas de incenso. |
Mas a tua vida, não!              |

Povo que lavas no rio,            | bis
Que talhas com teu machado  |
As tábuas do meu caixão,       |
Pode haver quem te defenda,        | bis
Quem compre o teu chão sagrado, |
Mas a tua vida, não!                     |


* Tereza Tarouca – voz
José Luís Nobre Costa e Pedro Veiga – guitarras portuguesas
Segismundo Bragança e Jaime Santos Júnior – violas
Joel Pina – viola baixo
Produção – Manuel Lima Brummon



POVO

(Pedro Homem de Mello, in "Miserere", Porto, 1948; "Poesias Escolhidas", col. Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa: IN-CM, 1983 – p. 116-117)


[instrumental]

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Beber em malga que esconda
O beijo, de mão em mão...
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!

Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seio...
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso.
Mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!



Ciganos



Poema: Pedro Homem de Mello (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: José Belo Marques (Fado Fora d'Horas)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Tereza Tarouca Canta Pedro Homem de Mello", Edisom, 1989; CD "Teresa Tarouca", col. Clássicos da Renascença, vol. 15, Movieplay, 2000; CD "Tereza Tarouca", col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)




[instrumental]

Ciganos! Vou cantar, não a beleza
Dos vossos corações que não conheço.
Mas esse busto de medalha e preço
Que nem é carne vã, nem alma acesa!

Saúdo em vós o corpo, unicamente,
Desumano e cruel como uma chama!
Em vós, saúdo a graça omnipotente
Do lírio que ainda flor por entre a lama.

A vossa vida não pertence ao rei.
Não mutilaste estradas verdadeiras.
Quem ama a liberdade odeia a lei
Que deu à terra a foice das fronteiras.

E, enquanto o aroma e a brisa e até as almas
Ficam irmãs das pérolas roubadas,
As mãos dos homens que vos são negadas
Tremem quando passais. Mas batem palmas.

[instrumental]

As mãos dos homens que vos são negadas
Tremem quando passais. Mas batem palmas.


* Tereza Tarouca – voz
José Luís Nobre Costa e Pedro Veiga – guitarras portuguesas
Segismundo Bragança e Jaime Santos Júnior – violas
Joel Pina – viola baixo
Produção – Manuel Lima Brummon



CIGANOS

(Pedro Homem de Mello, in "Miserere", Porto, 1948; "Poesias Escolhidas", col. Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa: IN-CM, 1983 – p. 110)


Ciganos! Vou cantar, não a beleza
Dos vossos corações que não conheço.
Mas esse busto de medalha e preço
Que nem é carne vã, nem alma acesa!
Saúdo em vós o corpo, unicamente,
Desumano e cruel como o dum bicho!
Em vós, saúdo a graça omnipotente
Do lírio que ainda flor por entre o lixo.
Eu vos saúdo, pela poesia,
Que nasceu pura e não se acaba mais.
E pelo ritmo ardente que inebria
Meus olhos como fios que enlaçais!
A vossa vida não pertence ao rei.
Não mutilaste estradas verdadeiras.
Quem ama a liberdade odeia a lei
Que deu à terra a foice das fronteiras.
E, enquanto o aroma e a brisa e até as almas
Ficam irmãs das pérolas roubadas,
As mãos dos homens que vos são negadas
Tremem quando passais. Mas batem palmas.



Capa do EP "Mouraria" (RCA Victor, 1963)



Capa do EP "Fados (Fado das Faias)" (RCA Victor, 1963)



Capa do EP "Passeio à Mouraria" (RCA Victor, 1964)



Capa do EP "Saudade, Silêncio e Sombra" (RCA Victor, 1964)



Capa do EP "O Riso Que me Deste" (RCA Victor, 1967)



Capa do LP "Fado e Folclore" (RCA Victor, 1970)
Fotografia – Dário



Capa do EP "A Micas do Trapo" (RCA Victor, 1971)
Fotografia – Dário



Capa do LP "Folclore" (RCA Victor, 1975)
Concepção – L. Cunha



Capa do single "O Mangas / Coração Que me Pertence" (Alvorada/Rádio Triunfo, 1979)



Capa do LP "Portugal Triste" (Alvorada/Rádio Triunfo, 1980)
Concepção – António Matos



Capa do LP "Tereza Tarouca Canta Pedro Homem de Mello" (Edisom, 1989)
Concepção – Artelier / António F. Martins