23 setembro 2018

Max: "Outono na Cidade"



Começou hoje o Outono de 2018. Assinalamos a entrada da estação da nostalgia resgatando a canção "Outono na Cidade", na voz de Max. Trata-se de uma das mais belas que o ilustre cantor madeirense gravou, mas também – e estranhamente – uma das menos conhecidas. Motivo acrescido para aqui a apresentarmos e com ela comemorarmos, ainda que muito singelamente, o centenário do nascimento do criador de "Pomba Branca, Pomba Branca", "Noite" e "A Rosinha dos Limões".
Sem prejuízo da inclusão deste e de outros espécimes do repertório de Max na 'playlist' da Antena 1 (o que teria o efeito – benéfico – de diminuir o insuportável peso da escória com que a atafulharam), a direcção de programas peca por omissão se não aproveitar o tempo que falta para o ano terminar (três meses e uma semana) para render a Max a homenagem que o país lhe deve em razão do relevante contributo que deu para o enriquecimento do nosso património musical/fonográfico. David Ferreira, que o evocou na sua rubrica a 19 de Abril [>> RTP-Play] e que lamentou (com inteira razão) o facto das entidades oficiais do continente se estarem a esquecer do centenário do reputado artista, está em boa posição para levar a cabo essa celebração com a amplitude e o desenvolvimento que se impõem.



Outono na Cidade



Letra: Ferro Rodrigues e Fernando Santos
Música: Carlos Dias
Intérprete: Max* (in EP "Tingo Lingo Lingo", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Max: Vol. 2", EMI-VC, 1993; CD "Max: Essencial", Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)




[instrumental]

Vento que traz nostalgia
D'um amor perdido
Nas ruas da vida,
Sombras e melancolia,
Um adeus sentido
De mulher esquecida.
       Nas folhas da esperança
       Caídas sem dono,
       Há passos de criança:
       É Outono!

Outono na cidade
Tem gosto de saudade:
É terna despedida que não esquece,
É doce melodia
Que vem no fim do dia
Que o Sol – bom e doirado – ainda aquece.

Cai a folha – folha nua –,
Chuva d'oiro molhando a rua:
Outono na cidade,
Que fria claridade!
Sorriso que desce da Lua!

Gente que corre apressada
Na manhã brumosa,
Sonolenta e fria;
Vida que sonha acordada
A canção formosa,
Luz do meio-dia.
       No azul infindo
       O povo bem sente
       O teu adeus, tão lindo,
       Sol poente!

[instrumental]

Cai a folha – folha nua –,
Chuva d'oiro molhando a rua:
Outono na cidade,
Que fria claridade!
Sorriso que desce da Lua!


* Max – voz
Orquestra dirigida por Jorge Costa Pinto



Capa da compilação "Max: Essencial" (Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)

21 junho 2018

Grupo Banza: "Verão"


António Saiote, "Ceifeiros VII", c.1999, óleo sobre tela


Para assinalar, poética e musicalmente, o solstício de hoje, que dá início ao Estio de 2018 (no hemisfério norte, evidentemente), tivemos a ideia de trazer a belíssima moda da autoria de Manuel Conde Fialho (já falecido e que foi regente da banda filarmónica de São Pedro do Corval, Reguengos de Monsaraz), a qual surge nos discos com o título de "Verão, Alentejo e os Homens" ou "Verão, Brasa Dourada" ou simplesmente "Verão".
Tivemos acesso a nove gravações por outros tantos intérpretes (por ordem alfabética): Alencanto, António Zambujo, Grupo Banza, Grupo Coral Etnográfico "Amigos do Alentejo", Grupo Coral "Vozes de Almodôvar", Mário Moita, Modas ao Luar, Monda, e Raízes do Sul. A do Grupo Banza, publicada no álbum "Açorda Alentejana" (2004) e na compilação "25 Anos" (2006), foi a que mais nos cativou e é essa que aqui apresentamos.
Com a introdução da ceifa mecanizada, desapareceram dos campos do Alentejo os ranchos de ceifeiros que, de corpos curvados e sob um sol abrasador, cortavam e atavam em molhos a bênção loira da vida (parafraseando versos da cantiga). Tal trabalho, de tão árduo e extenuante que era, não terá deixado grandes saudades naqueles que o viram acabar, mau grado a contingência da procura de outro modo de sustento, mas perdeu-se irremediavelmente o contexto laboral que fez nascer alguns dos mais belos espécimes do cancioneiro popular português, de que o presente é um magnífico exemplo. O progresso cobra sempre um preço. Disso foram boas testemunhas as pessoas (portadoras de saberes ancestrais) a quem Rafael Correia deu voz no maravilhoso programa "Lugar ao Sul" durante três decénios (os dois últimos do século XX e o primeiro do século XXI), para proveito do afortunado e fiel auditório que nas matinas de sábado escutava religiosamente a Antena 1. É oportuno lembrar que, sendo o acervo do "Lugar ao Sul" algo de fabuloso e único (enquanto documento cultural e antropológico), importa que a entidade que o detém, a Rádio e Televisão de Portugal, não demore mais a resgatá-lo todo das perecíveis cassetes DAT e a disponibilizá-lo na plataforma RTP-Arquivos para que os cidadãos que com ele se queiram cultivar o possam fazer.
Às gentes que ao longo de séculos e séculos verteram o seu suor a segar o pão da vida, e desse esforçado labor souberam recolher inspiração para criar as modas e as cantigas que hoje constituem um património precioso, rendemos a nossa penhorada homenagem!



Verão



Letra e música: Manuel Conde Fialho
Intérprete: Grupo Banza* / voz solo de António Jacob (in CD "A Açorda Alentejana", Grupo Banza, 2004; CD "25 Anos", Grupo Banza, 2006)


Verão,
A brasa dourada e celeste
Esvaiu do Sol agreste
Doirando mais as espigas;
Ceifeiros, corpos curvados
Cortando e atando em molhos
A bênção loira da vida.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa,
O sol ferino e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada;
O suor rasga as camisas,
Um homem queimado mais fica,
E a vida é feita de brasa.

O calor caustica os corpos,
Os ceifeiros vão ceifando
Sem parar no seu labor;
O seu cantar é dolente,
É certo que é boa gente,
É verdade e tem mais sol.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa,
O sol ferino e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada;
O suor rasga as camisas,
Um homem queimado mais fica,
E a vida é feita de brasa.

O calor caustica os corpos,
Os ceifeiros vão ceifando
Sem parar no seu labor;
O seu cantar é dolente,
É certo que é boa gente,
É verdade e tem mais sol.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa,
O sol ferino e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada;
O suor rasga as camisas,
Um homem queimado mais fica,
E a vida é feita de brasa.


* [Créditos gerais do disco:]
Grupo Banza:
Victor Godinho (n. Barreiro) – voz e baixo
Joaquim Banza (n. Entradas) – voz e bandolim
Jacinto Gaspar (n. Safara) – voz e guitarra
Zé Rita (n. Safara) – acordeão
João Soares (n. Aljustrel) – voz e guitarras
António Farinha (n. Moura) – voz
António Jacob (n. Panóias) – voz e guitarra
Participação de:
Guilherme Banza – guitarra portuguesa
Diogo Clemente – guitarra clássica
Tio Bejinha – castanholas
Jorge Miguel – acordeão e teclados
Produção – Jorge Miguel / JM Produções
Gravado por Jorge Miguel, nos Estúdios IN/OUT, Vale Figueira, Sobreda da Caparica



Capa do álbum "A Açorda Alentejana", do Grupo Banza (2004).



Capa da compilação "25 Anos", do Grupo Banza (2006).

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Artigos relacionados:
O canto alentejano é património da Humanidade"
Janita Salomé: "Reino de Verão"

13 junho 2018

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Aniversário", por Luís Lima Barreto


Fernando Pessoa em 1928, aos 40 anos de idade.


O blogue "A Nossa Rádio" associa-se às comemorações do 130.º aniversário do nascimento de Fernando Pessoa apresentando o poema "Aniversário", do heterónimo Álvaro de Campos, admiravelmente dito pelo actor Luís Lima Barreto, que faz parte do CD n.º 1 da edição "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX" (2004) [capa do fundo]. O texto está datado de 15 de Outubro de 1929 e foi primeiramente publicado na revista coimbrã "Presença" em meados de 1930. Está, pois, temporalmente muito próximo do retrato do poeta supra.
Quem esteve ligado à Antena 2 entre as 08:00 e as 10:00, teve a oportunidade de se nutrir de uma mão-cheia de poemas pessoanos, ora recitados ora cantados, nas vozes de Luís Lima Barreto, Maria Germana Tânger, Camané, Tom Jobim, Sara Serpa e outros intérpretes. Uma nota de louvor para o autor da iniciativa, Paulo Alves Guerra!
E a Antena 1? Fez alguma coisa em celebração do maior poeta português do século XX? Durante os períodos em estive hoje sintonizado (a intragável 'playlist' impediu-me de ficar em escuta contínua e obrigou-me ao exílio noutras paragens), nada de Fernando Pessoa – poesia ou prosa – chegou aos meus ouvidos. E, tendo em conta a conhecida aversão da actual direcção de programas a tudo o que seja poesia, não é de crer que quando estive fora da sintonia do canal algum poema do ilustre aniversariante tenha sido transmitido ou venha a sê-lo no tempo que falta para o dia terminar. Vergonhoso!



ANIVERSÁRIO



Poema de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos (15-10-1929, in "Presença", n.º 27, Coimbra: Jun.-Jul. 1930; "Obras Completas de Fernando Pessoa: II – Poesias de Álvaro de Campos", Lisboa: Edições Ática, 1944, 1993 – p. 284-286)
Recitado por Luís Lima Barreto* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD 1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


15-10-1929


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Capa do livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons (Assírio & Alvim, 2004).

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Outros artigos neste blogue com poesia de Fernando Pessoa:
João Villaret: centenário do nascimento
Ser Poeta
Fernando Pessoa por João Villaret
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Dois Excertos de Odes", por Mário Viegas

10 junho 2018

Camões recitado e cantado (IV)


Cabeça de Luís de Camões (1944), em pedra-sabão, realizada pelo escultor brasileiro, de ascendência italiana, Bruno Giorgi, para o edifício do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro.


Neste Dia de Camões, e dando continuidade à divulgação das Dez Canções, ditas por Luís Miguel Cintra, trazemos as quatro que se seguem à terceira [as três primeiras podem ser ouvidas no artigo "Camões recitado e cantado (III)"].
Relativamente a poemas musicados/cantados, apresentamos cinco espécimes, todos na voz de Cristina Branco, quatro extraídos da Lírica e um d' "Os Lusíadas".
À laia de prólogo, e no âmbito da evocação de Jorge de Sena nos 40 anos da sua morte, deixamos o poema "Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos", dito pelo autor. O texto foi escrito a 11 de Junho de 1961 e publicado, pela primeira vez, no livro "Metamorfoses" (1963), ao lado duma fotografia da escultura executada por Bruno Giorgi (imagem do topo); ganhou nova vida em 1974 quando saiu, em fonograma (LP), na voz do próprio Jorge de Sena. Grande admirador e estudioso do nosso vate maior, Sena coloca-o a dirigir-se aos seus coevos, zurzindo ao mesmo tempo nos ladrões que quatro séculos mais tarde iam hipocritamente pôr-lhe flores no túmulo, mas os versos «E podereis depois não me citar, / suprimir-me, ignorar-me, aclamar até / outros ladrões mais felizes.» bem podem aplicar-se aos viventes de hoje que ocupam lugares de elevada responsabilidade cultural, desde planificadores de currículos escolares até directores de órgãos de comunicação social.
Neste dia em que é expectável que os diversos canais da rádio pública celebrem o Príncipe dos Poetas, nem um pedacinho da sua poesia, por mais minúsculo que fosse, logrei ouvir nas Antenas 1, 2 e 3 (dei-me ao cuidado de andar a fazer 'zapping', mau grado o incómodo). Uma situação assaz vergonhosa e absurda, ademais havendo uma boa quantidade de registos discográficos de poesia camoniana, quer recitada quer cantada!



CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS



Poema de Jorge de Sena (in "Metamorfoses", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1963; "Poesia II", org. Mécia de Sena, col. Obras de Jorge de Sena, Lisboa: Moraes Editores, 1978; 2.ª edição, Lisboa: Edições 70, 1988 – p. 93 e 95; "Poesia 1", org. Jorge Fazenda Lourenço, Lisboa: Guimarães/Babel, 2013 – p. 329 e 331)
Dito pelo autor* (in LP "Jorge de Sena: Poemas Seleccionados e Ditos pelo Autor", Guilda da Música/Sassetti, 1974, reed. CNM, 2011)




Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.


          Assis, 11/6/1961


* Jorge de Sena – voz
Direcção literária – Alberto Ferreira
Produção – Sassetti
Gravado no Estúdio de Departamento da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara
Sonorização – Bernardino Pontes
Assistente musical – Mário Vieira de Carvalho



Saudade



Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Murmúrios", MW Records/Music & Words, 1998)




[instrumental]

Ai, se de saudade
Morrerei ou não,
Meus olhos dirão
De mim a verdade.
Por eles me atrevo
A lançar nas águas
Que mostrem as mágoas
Que nesta alma levo.

Se me levam águas,
Nos olhos as levo.

As águas que em vão
Me fazem chorar,
Se elas são do mar,
Estas de amor são.
Por elas relevo
Todas minhas mágoas;
Que, se força de águas
Me leva, eu as levo.

Se me levam águas,
Nos olhos as levo.

Todas me entristecem,
Todas são salgadas;
Porém as choradas
Doces me parecem.
Correi, doces águas,
Que, se em vós me enlevo,
Não doem as mágoas
Que no peito levo!

Se me levam águas,
Nos olhos as levo.

[instrumental]

Correi, doces águas,
Que, se em vós me enlevo,
Não doem as mágoas  | bis
Que no peito levo!      |


* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Jorge Fernando – viola
Marino de Freitas – viola baixo
Arranjos e direcção musical – Custódio Castelo
Produção em estúdio – Custódio Castelo
Co-produção em estúdio – Fernando Nunes
Gravado e misturado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, de Dezembro de 1997 a Março de 1998



Se me levam águas

(Luís de Camões", in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 772-773)


          MOTE ALHEIO

Se me levam águas,
Nos olhos as levo.

          VOLTAS

Se de saudade
Morrerei ou não,
Meus olhos dirão
De mim a verdade.
Por eles me atrevo
A lançar as águas
Que mostrem as mágoas
Que nesta alma levo.

As águas que em vão
Me fazem chorar,
Se elas são do mar,
Estas de amor são.
Por elas relevo
Todas minhas mágoas;
Que, se força de águas
Me leva, eu as levo.

Todas me entristecem,
Todas são salgadas;
Porém as choradas
Doces me parecem.
Correi, doces águas,
Que, se em vós me enlevo,
Não doem as mágoas
Que no peito levo!



CANÇÃO IV



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953; Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Vão as serenas águas
do Mondego descendo
mansamente que até o mar não param;
por onde minhas mágoas,
pouco a pouco crecendo,
para nunca acabar se começaram.
Ali se ajuntaram
neste lugar ameno,
aonde agora mouro,
testa de neve e ouro,
riso brando, suave, olhar sereno,
um gesto delicado,
que sempre na alma me estará pintado.

Nesta florida terra,
leda, fresca e serena,
ledo e contente para mim vivia;
em paz com minha guerra,
contente com a pena
que de tão belos olhos procedia.
Um dia noutro dia
o esperar me enganava;
longo tempo passei,
co a vida folguei,
só porque em bem tamanho me empregava.
Mas que me presta já,
que tão fermosos olhos não os há?

Oh, quem me ali dissera
que de amor tão profundo
o fim pudesse ver inda algũa hora!
Oh, quem cuidar pudera
que houvesse aí no mundo
apartar-me eu de vós, minha Senhora!
para que desde agora
perdesse a esperança,
e o vão pensamento,
desfeito em um momento,
sem me poder ficar mais que a lembrança,
que sempre estará firme
até o derradeiro despedir-me.

Mas a mor alegria
que daqui levar posso,
co a qual defender-me triste espero,
é que nunca sentia
no tempo que fui vosso
quererdes-me vós quanto vos eu quero;
porque o tormento fero
de vosso apartamento
não vos dará tal pena
como a que me condena:
que mais sentirei vosso sentimento
que o que minha alma sente.
Morra eu, Senhora, e vós ficai contente!

Canção, tu estarás
aqui acompanhando
estes campos e estas claras águas,
e por mim ficarás
chorando e suspirando,
e ao mundo mostrando tantas mágoas
que, de tão larga história,
minhas lágrimas fiquem por memória.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Memória de Meu Bem



Poema (soneto): Luís de Camões (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Corpo Iluminado", Universal Classics France, 2001)




[instrumental]

Memória de meu bem cortado em flores,
Por ordem de meus tristes e maus fados,
Deixai-me descansar com meus cuidados,
Nesta inquietação de meus amores.

Basta-me o mal presente e os temores
Dos sucessos que espero afortunados,
Sem que venham, de novo, bens passados
Afrontar meu repouso com suas dores.

[instrumental]

Perdi numa hora, junto, quanto em termos
Tão vagarosos e largos alcancei;
Deixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre acabar a vida nestes ermos,
Que neles com meu mal acabarei
Mil vidas, não uma só — dura a memória!
Dura a memória!

[instrumental]

Mil vidas, não uma só — dura a memória!
Dura a memória!


* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Produção e arranjos – Custódio Castelo
Co-produção em estúdio – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Classics France
Gravado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em Janeiro de 2001



Memória de meu bem cortado em flores

(Luís de Camões, soneto recolhido por Luís Franco Correia, amigo do poeta, num manuscrito começado em 1557 e acabado em 1589; in "Rimas", org. João António de Lemos Pereira de Lacerda, 2.º visconde de Juromenha, Lisboa, 1861; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 165)


Memória de meu bem cortado em flores,
Por ordem de meus tristes e maus fados,
Leixai-me descansar co meus cuidados,
Nesta inquietação de meus amores.

Basta-me o mal presente e os temores
Dos sucessos que espero infortunados,
Sem que venham, de novo, bens passados
Afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi nũa hora quanto em termos
Tão vagarosos e largos alcancei;
Leixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre se acabe a vida nestes ermos,
Que neles com meu mal acabarei
Mil vidas, não ũa só — dura memória!



CANÇÃO V



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953; Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Se este meu pensamento,
como é, doce e suave,
de alma pudesse vir gritando fora,
mostrando seu tormento
cruel, áspero e grave,
diante de vós só, minha Senhora,
pudera ser que agora
o vosso peito duro
tornara manso e brando.
E eu que sempre ando
pássaro solitário, humilde, escuro,
tornado um cisne puro,
brando e sonoro pelo ar voando,
com canto manifesto,
pintara meu tormento e vosso gesto.

Pintara os olhos belos
que trazem nas meninas
o Menino que os seus neles cegou;
e os dourados cabelos
em tranças de ouro finas
a quem o Sol seus raios abaixou;
a testa que ordenou
Natura tão fermosa;
o bem proporcionado
nariz, lindo, afilado,
que a cada parte tem a fresca rosa;
a boca graciosa
— que querê-la louvar é escusado —,
enfim, é um tesouro:
os dentes, perlas; as palavras, ouro.

Vira-se claramente,
ó Dama delicada,
que em vós se esmerou a Natureza;
e eu, de gente em gente,
trouxera trasladada
em meu tormento vossa gentileza.
Somente a aspereza
de vossa condição,
Senhora, não dissera,
por que se não soubera
que em vós podia haver algum senão.
E se alguém, com razão,
«Porque morres?» dissera, respondera:
«Mouro porque é tão bela
que inda não sou pera morrer por ela».

E se pola ventura,
Dama, vos ofendesse,
escrevendo de vós o que não sento,
e vossa fermosura
tão baixo não descesse
que a alcançasse um baixo entendimento,
seria o fundamento
daquilo que cantasse
todo de puro amor,
por que vosso louvor
em figura de mágoas se mostrasse.
E onde se julgasse
a causa pelo efeito, minha dor
diria ali sem medo:
«quem me sentir verá de quem procedo».

Então amostraria
os olhos saudosos,
o suspirar que a alma traz consigo,
a fingida alegria,
os passos vagarosos,
o falar, o esquecer-me do que digo;
um pelejar comigo,
e logo desculpar-me;
um recear, ousando;
andar meu bem buscando,
e de poder achá-lo acovardar-me;
enfim, averiguar-me
que o fim de tudo quanto estou falando
são lágrimas e amores;
são vossas isenções e minhas dores.

Mas quem terá, Senhora,
palavras com que iguale
com vossa fermosura minha pena;
que em doce voz de fora
aquela glória fale
que dentro na minha alma Amor ordena?
Não pode tão pequena
força de engenho humano
com carga tão pesada,
se não for ajudada
dum piadoso olhar, dum doce engano
que, fazendo-me o dano
tão deleitoso e a dor tão moderada,
que enfim se convertesse
nos gostos dos louvores que escrevesse.

Canção, não digas mais;
e se teus versos à pena vêm pequenos,
não queiram de ti mais,
que dirás menos.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Vai o Bem Fugindo



Poema (sentenças em redondilha menor): Luís de Camões (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Cristina Branco in Holland", Círculo de Cultura Portuguesa na Holanda, 1997)




[instrumental]

Vai o bem fugindo,
Cresce o mal cos anos,
Vão-se descobrindo
Co tempo os enganos.

Amor e alegria
Menos tempo dura.
Triste de quem fia
Nos bens da ventura!

Ai, ventura minha,
Como me negaste!
Um só bem que tinha,  | bis
Porque mo roubaste?   |

Alegre vivia;
Triste vivo agora:
Canta a alma de dia,
E de noite chora.

O campo floresça,
Murmurem as águas;
Tudo me entristeça,
Cresçam minhas mágoas.

Confesso os enganos
Do meu pensamento:
Bem de tantos anos     | bis
Foi-se num momento.  |

[instrumental]

Ai, ventura minha,
Como me negaste!
Um só bem que tinha,  | bis
Porque mo roubaste?   |

[instrumental]

Um só bem que tinha,
Porque mo roubaste?

Um só bem que tinha,
Porque mo roubaste?

[instrumental]


* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Produção – Círculo de Cultura Portuguesa na Holanda, Amesterdão
Gravado ao vivo na Zaal 100, Amesterdão, nos dias 25, 26 e 27 de Abril de 1997
Engenheiro de som – Frits van der Heijden
Misturado no Klink Sound Studio, Amesterdão, por Michel Schöpping



Vai o bem fugindo

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 797-799)


          Sentenças do Autor por fim do livro

Vai o bem fugindo,
Crece o mal cos anos,
Vão-se descobrindo
Co tempo os enganos.

Amor e alegria
Menos tempo dura.
Triste de quem fia
Nos bens da ventura!

Bem sem fundamento
Tem certa a mudança,
Certo o sentimento
Na dor da lembrança.

Quem vive contente
Viva receoso:
Mal que se não sente
É mais perigoso.

Quem males sentiu
Saiba já temer;
E pelo que viu
Julgue o que há-de ser.

Alegre vivia;
Triste vivo agora:
Chora a alma de dia,
E de noite chora.

Confesso os enganos
De meu pensamento:
Bem de tantos anos
Foi-se num momento.

Meus olhos, que vistes?
Pois vos atrevestes,
Chorai, olhos tristes,
O bem que perdestes.

A luz do Sol pura
Só a vós se negue;
Seja noite escura,
Nunca a manhã chegue.

O campo floreça,
Murmurem as águas;
Tudo me entristeça,
Creçam minhas mágoas.

Quisera mostrar
O mal que padeço;
Não lhe dá lugar
Quem lhe deu começo.

Em tristes cuidados
Passo a triste vida;
Cuidados cansados,
Vida aborrecida.

Nunca pude crer
O que agora creio;
Cegou-me o prazer
Do mal que me veio.

Ah, ventura minha,
Como me negaste!
Um só bem que tinha,
Porque mo roubaste?

Triste fantasia
Quanta cousa guarda!
Quem já visse o dia
Que tanto lhe tarda!

Nesta vida cega
Nada permanece:
O que inda não chega
Já desaparece.

Qualquer esperança
Foge como o vento:
Tudo faz mudança,
Salvo meu tormento.

Amor cego e triste,
Quem o tem padece:
Mal quem lhe resiste!
Mal quem lhe obedece!

No meu mal esquivo,
Sei como Amor trata;
E pois nele vivo,
Nenhum amor mata.



CANÇÃO VI



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953; Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Com força desusada
aquenta o fogo eterno
ũa ilha lá nas partes do Oriente,
de estranhos habitada,
aonde o duro Inverno
os campos reverdece alegremente.
A lusitana gente,
por armas sanguinosas,
tem dela o senhorio.
Cercada está dum rio
de marítimas águas saudosas;
das ervas que aqui nascem,
os gados juntamente e os olhos pascem.

Aqui minha ventura
quis que ũa grã parte
da vida, que não tinha, se passasse,
para que a sepultura
nas mãos do fero Marte
de sangue e de lembranças matizasse.
Se Amor determinasse
que, a troco desta vida,
de mim qualquer memória
ficasse, como história
que de uns fermosos olhos fosse lida,
a vida e alegria
por tão doce memória trocaria.

Mas este fingimento,
por minha dura sorte,
com falsas esperanças me convida.
Não cuide o pensamento
que pode achar na morte
o que não pôde achar tão longa vida.
Está já tão perdida
a minha confiança
que, de desesperado
em ver meu triste estado,
também da morte perco a esperança.
Mas oh! que, se algum dia
desesperar pudesse, viveria.

De quanto tenho visto
já agora não me espanto,
que até desesperar se me defende.
Outrem foi causa disto,
que eu nunca pude tanto
que causasse este fogo que me encende.
Se cuidam que me ofende
temor de esquecimento,
oxalá meu perigo
me fora tão amigo
que algum temor deixara ao pensamento!
Quem viu tamanho enleio
que houvesse aí esperança sem receio?

Quem tem que perder possa
se pode recear.
Mas triste quem não pode já perder!
Senhora, a culpa é vossa,
que para me matar
bastara ũa hora só de vos não ver.
Pusestes-me em poder
de falsas esperanças;
e, do que mais me espanto:
que nunca vali tanto
que vivesse também com esquivanças.
Valia tão pequena
não pode merecer tão doce pena.

Houve-se Amor comigo
tão brando e pouco irado,
quanto agora em meus males se conhece;
que não há mor castigo
para quem tem errado
que negar-lhe o castigo que merece.
E bem como acontece
que, assi como ao doente
da cura despedido,
o médico sabido
tudo quanto deseja lhe consente.
assi me consentia
esperança, desejo e ousadia.

E agora venho a dar
conta do bem passado
a esta triste vida e longa ausência.
Quem pode imaginar
que pode haver pecado
que mereça tão grave penitência?
Olhai que é consciência,
por tão pequeno erro,
Senhora, tanta pena!
Não vedes que é onzena?
Mas se tão longo e mísero desterro
vos dá contentamento,
nunca se acabe nele meu tormento.

Rio fermoso e claro,
e vós, ó arvoredos,
que os justos vencedores coroais,
e ao cultor avaro,
continuamente ledos,
dum tronco só diversos frutos dais:
assi nunca sintais
do tempo injúria algũa;
que em vós achem abrigo
as mágoas que aqui digo,
enquanto der o Sol virtude à Lua;
por que de gente em gente
saibam que já não mata a vida ausente.

Canção, neste desterro viverás,
voz nua e descoberta,
até que o tempo em Eco te converta.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Oh! Como se me Alonga de Ano em Ano



Poema (soneto): Luís de Camões (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Ulisses", Emarcy/Universal Music S.A.S. France, 2005)




[instrumental]

Oh! Como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

[instrumental]

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo, a ver se inda aparece,
Da vista se me perde e da esperança.

[instrumental]


* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Ricardo J. Dias – piano
Arranjos – Custódio Castelo e Ricardo J. Dias
Produção – Custódio Castelo
Co-produção e programação – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Music S.A.S. France
Gravado e masterizado por Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, de Junho a Setembro de 2004



Oh! Como se me alonga de ano em ano

Luís de Camões, in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 21)


Oh! Como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Minguando a idade vai, crescendo o dano;
Perdeu-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo, a ver se inda aparece,
Da vista se me perde e da esperança.



CANÇÃO VII



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953; Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Manda-me Amor que cante docemente
o que ele já em minha alma tem impresso
com pressuposto de desabafar-me;
e por que com meu mal seja contente,
diz que ser de tão lindos olhos preso,
contá-lo bastaria a contentar-me.
Este excelente modo de enganar-me
tomara eu só de Amor por interesse,
se não se arrependesse,
co a pena o engenho escurecendo.
Porém, a mais me atrevo,
em virtude do gesto de que escrevo;
e se é mais o que canto que o que entendo,
invoco o lindo aspeito,
que pode mais que Amor em meu defeito.

Sem conhecer Amor viver soía,
seu arco e seus enganos desprezando,
quando vivendo deles me mantinha.
O Amor enganoso, que fingia
mil vontades alheias enganando,
me fazia zombar de quem o tinha.
No Touro entrava Febo, e Progne vinha;
o corno de Aqueloo Flora entornava,
quando o Amor soltava
os fios de ouro, as tranças encrespadas
ao doce vento esquivas,
dos olhos rutilando chamas vivas,
e as rosas antre a neve semeadas,
co riso tão galante
que um peito desfizera de diamante.

Um não sei que suave, respirando,
causava um admirado e novo espanto,
que as cousas insensíveis o sentiam.
E as gárrulas aves levantando
vozes desordenadas em seu canto,
como em meu desejo se encendiam.
As fontes cristalinas não corriam,
inflamadas na linda vista pura;
florescia a verdura
que, andando, cos divinos pés tocava;
os ramos se abaixavam,
tendo enveja das ervas que pisavam
(ou porque tudo ante ela se abaixava).
Não houve cousa, enfim,
que não pasmasse dela, e eu de mim.

Porque quando vi dar entendimento
às cousas que o não tinham, o temor
me fez cuidar que efeito em mim faria.
Conheci-me não ter conhecimento;
e nisto só o tive, porque Amor
mo deixou, por que visse o que podia.
Tanta vingança Amor de mim queria
que mudava a humana natureza:
os montes e a dureza
deles, em mim, por troca, traspassava.
Oh, que gentil partido:
trocar o ser do monte sem sentido
pelo que num juízo humano estava!
Olhai que doce engano:
tirar comum proveito de meu dano!

Assi que, indo perdendo o sentimento
a parte racional, me entristecia
vê-la a um apetite sometida;
mas dentro na alma o fim do pensamento
por tão sublime causa me dezia
que era razão ser a razão vencida.
Assi que, quando a via ser perdida,
a mesma perdição a restaurava;
e em mansa paz estava
cada um com seu contrário num sujeito.
Oh, grão concerto este!
Quem será que não julgue por celeste
a causa donde vem tamanho efeito,
que faz num coração
que venha o apetite a ser razão?

Aqui senti de Amor a mor fineza,
como foi ver sentir o insensível,
e o ver a mim de mim mesmo perder-me.
Enfim, senti negar-se a natureza;
por onde cri que tudo era possível
aos lindos olhos seus, senão querer-me.
Despois que já senti desfalecer-me,
em lugar do sentido que perdia,
não sei que me escrevia
dentro n'alma, co as letras da memória,
o mais deste processo
co claro gesto juntamente impresso
que foi a causa de tão longa história.
Se bem a declarei,
eu não a escrevo, da alma a trasladei.

Canção, se quem te ler
não crer dos olhos lindos o que dizes,
pelo que em si escondem,
os sentidos humanos lhe respondem:
bem podem dos divinos ser juízes.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Ninfas



Poema: Luís de Camões (estrofes 82 e 83 do Canto IX d' "Os Lusíadas", Lisboa, 1572)
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Sensus", Emarcy/Universal Classics France, 2003; 3CD "Idealist": CD 2 – Poemas, Emarcy/Universal Music Classics & Jazz France, 2014)




Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.


Nota:
Julgá-lo – imaginá-lo

* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Produção musical e arranjos – Custódio Castelo
Co-produção – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Classics France
Gravado e masterizado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, de Setembro a Dezembro de 2002









Desenhos de Cícero Dias, publicados no livro "Luiz de Camões: A Ilha dos Amores" (Lisboa: Edições Ática, 1980) [capa abaixo]




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04 junho 2018

Frei Fado d'El Rei: "Ramo Verde" (Jorge de Sena)


Iluminura do Codex Manesse, fol. 271r, Biblioteca da Universidade de Heidelberga, Alemanha.
O "Codex Manesse", assim baptizado pelo estudioso suíço Johann Jakob Bodmer (embora também denominado "Grosse Heidelberger Liederhandschrift" e "Pariser Handschrift"), é o mais abrangente e importante manuscrito alemão da Idade Média. Foi produzido em Zurique, entre 1305 e 1340, possivelmente por Johannes Hadlaub, a pedido da família Manesse. Encontra-se desde 1888 na Biblioteca da Universidade de Heidelberga (Codex Manesse, UB Heidelberg, Cod. Pal. germ. 848).


Por determinação legalmente estabelecida (e bem), estão os vários canais da rádio pública obrigados a promover a língua portuguesa e os seus mais lídimos cultores: na escrita, na recitação e no canto.
No caso da Antena 1, e sem prejuízo de haver na grelha (que não há – incompreensivelmente – desde 2003) uma rubrica diária de poesia recitada, bem podia a direcção de programas ter o cuidado de aproveitar as efemérides do nascimento e da morte de reputados autores que escreveram no idioma de Camões para transmitir, ao longo do dia, uma mão-cheia de pequenos textos, designadamente poemas – quer ditos, quer cantados – fazendo uso, para o efeito, do arquivo histórico e de edições discográficas. De Jorge de Sena, cuja morte ocorreu há precisamente 40 anos, nada logrei ouvir até ao momento e duvido muito que até à meia-noite algum poema ainda surja em antena. A poesia seniana publicada em disco está maioritariamente na forma dita mas também existe alguma em canção. Um bom (magnífico) exemplo é o tema "Ramo Verde", baseado no poema "Variações sobre Cantares de D. Dinis", interpretado pelo grupo Frei Fado d'El Rei, com música de Carla Lopes. O original, que contou com a participação de Vitorino, saiu no CD "Encanto da Lua", editado em 1998 e que no ano seguinte foi um dos álbuns nomeados para o (então) prestigiado Prémio José Afonso. Para esta singela homenagem ao autor de "Arte de Música", escolhemos a versão ao vivo do concerto dado na igreja do Mosteiro de Leça do Balio, em Junho de 2003, no âmbito das comemorações do milénio da inauguração do monumento.
A Jorge de Sena havemos de voltar para uma celebração mais ampla e digna do seu valioso legado poético.



Ramo Verde



Poema: Jorge de Sena (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Carla Lopes
Intérprete: Frei Fado d'El Rei* (in CD "Em Concerto", Açor/Emiliano Toste, 2003)




[instrumental]

Ramo verde florido,
florido de bela flor,
do meu amor tão querido,  | bis
onde está o meu amor?      |

Diz-me onde ele está,
onde está o meu amor,
p'ra que eu buscá-lo vá   | bis
florido de bela flor.         |

[instrumental]

Ramo verde tão querido,
tão querido do meu amor,
de belas flores florido,  | bis
florido de bela flor...     |

Diz-me onde ele está,
florido de bela flor,
p'ra que eu buscá-lo vá          | bis
aonde ele está, o meu amor.  |

[instrumental]

Ramo verde florido,
florido de bela flor,
do meu amor tão querido,  | bis
tão querido do meu amor.  |

[instrumental]

Diz-me onde ele está,
onde está o meu amor.


* [Créditos gerais do disco:]
Frei Fado d'El Rei:
Carla Lopes – voz principal e percussões
Cristina Bacelar – guitarra clássica, voz e percussões
Ricardo V. Costa – guitarra clássica, baixo electro-acústico, voz e percussões
José Flávio Martins – baixo electro-acústico, bandoloncelo, bandola, percussões e voz
Rui Tinoco – teclados, samplers, programações e percussões
Zagalo – percussão e voz
Produção – Frei Fado d'El Rei e Frederico Pereira
Gravado ao vivo por Fortes & Rangel, na igreja do Mosteiro de Leça do Balio, a 26 e 27 de Junho de 2003



VARIAÇÕES SOBRE CANTARES DE D. DINIS

(Jorge de Sena, in "40 Anos de Servidão", Lisboa: Moraes Editores, 1979; 2.ª edição, Lisboa: Edições 70, 1989 – p. 21)


Ramo verde florido,
florido de bela flor,
do meu amor tão querido,
onde está o meu amor?

Diz-me aonde ele está,
aonde está o meu amor,
p'ra que eu buscá-lo vá
florido de bela flor.

Ramo verde tão querido,
tão querido do meu amor,
de belas flores florido,
florido de bela flor...

...Diz-me aonde ele está,
florido de bela flor,
p'ra que eu buscá-lo vá
aonde ele está, o meu amor.

Ramo verde florido,
florido de bela flor,
do meu amor tão querido,
tão querido do meu amor.


17/5/1938



Capa do CD "Em Concerto", do grupo Frei Fado d'El Rei (Açor/Emiliano Toste, 2003).

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Arte e poesia
Jorge de Sena: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", por Mário Viegas