25 abril 2015

Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde": "Grândola, Vila Morena"



Quando José Afonso, no Outono de 1971, esteve em Paris a gravar o álbum "Cantigas do Maio", se tivesse à mão um grupo coral alentejano muito provavelmente o teria convidado para participar na gravação de "Grândola, Vila Morena". E quatro anos depois, o Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde" teve a feliz ideia de a gravar no seu primeiro disco, de título genérico "Castro Verde É Nossa Terra". É essa magnífica versão, da qual a melodia e as palavras de José Afonso emanam com uma força que até arrepia, que aqui apresentamos no 41.º aniversário do 25 de Abril, o primeiro depois do reconhecimento do cante como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Afigura-se pertinente voltar a apontar o dedo à rádio do Estado pela reduzidíssima visibilidade (ou audibilidade, melhor dizendo) que continua a dar ao canto alentejano, decorridos que são cinco meses sobre a data da consagração pela UNESCO [cf. O canto alentejano é património da Humanidade]. É verdade que, de vez em quando, o cante entra nos exíguos "Cantos da Casa" (sendo de enaltecer os cuidados do seu realizador, Armando Carvalhêda), mas isso representa uma quantidade infinitesimal no cômputo geral da programação. Quem, por imperativos profissionais ou outros, não esteve sintonizado na Antena 1 àquele preciso momento, perdeu a oportunidade de ouvir cante nas ondas hertzianas nacionais. E quem diz "cante", diz outros tipos de música tradicional portuguesa – atitude essa que não pode, de maneira alguma, considerar-se razoável na estação de serviço público, que tem a obrigação de divulgar com a necessária e cabal consistência o património musical do país. Nos antípodas, com tratamento de privilégio, está a produção pop de baixo quilate, deixando transparecer a ideia de que é essa a música oficial do regime político vigente. Uma situação em tudo equiparável – acrescente-se – à do nacional-cançonetismo na Emissora Nacional, a antepassada da Antena 1. Quem disse que o dirigismo do gosto é exclusivo dos regimes totalitários?



Grândola, Vila Morena



Letra e música: José Afonso
Intérprete: Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde"* (in LP "Castro Verde É Nossa Terra", Valentim de Carvalho, 1975; 2CD "Terra: Antologia 1972-2006": CD1, Associação de Cante Alentejano "Os Ganhões", 2006)


Grândola, vila morena
Terra da fraternidade 
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade 
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade 
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola, a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade


Nota do autor: «Pequena homenagem à "Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense", onde actuei juntamente com Carlos Paredes.» (in "Cantares", de José Afonso, Tomar: Nova Realidade, 1966; 4.ª edição, Coimbra: Fora do Texto, 1995)

* Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde"
Ponto – Mário Braz Pinto
Alto – Sílvio Afilhado
URL: http://ganhoescastroverde.com.pt/
https://www.facebook.com/pages/Associação-de-Cante-Alentejano-os-Ganhões-de-Castro-Verde/421469524614637
http://www.joraga.net/gruposcorais/pags00/032CVerdeGanhoes.htm





Grândola: Monumento a José Afonso – inaugurado a 23-Abril-1999 (escultura da autoria de António Trindade)







Grândola: Monumento comemorativo do 25.º aniversário do 25 de Abril – inaugurado a 24-Abril-1999 (autoria de Bartolomeu dos Santos)



Grândola: Monumento à Liberdade – inaugurado a 25-Abril-1999 (escultura em ferro da autoria de Jorge Vieira)

16 abril 2015

Em memória de Manoel de Oliveira (1908-2015)



«Manoel de Oliveira era mais novo do que o próprio cinema, mas não muito. Treze anos, para sermos precisos, o que é isso diante de vidas que duraram mais de um século e, em comum, mais do que qualquer outro cineasta em qualquer lugar se pode orgulhar? Mas — e Oliveira não se cansava de o dizer — durar muito não é mérito, antes capricho da Natureza bem ajudada pelos genes de um homem a vários títulos de excepção. Não por acaso ele foi atleta emérito, corredor de automóveis, piloto de aviões num tempo em que todas essas coisas eram de difícil alcance.
Filho-família de uma burguesia nortenha endinheirada, o cinema apareceu-lhe como um hobby caro, uma inclinação moderna nesses finais dos anos 20 em que a trepidação do novo atravessava uma geração com vontade de futuro. A mesma a que pertenciam António Lopes Ribeiro, Jorge Brum do Canto, Cotinelli Telmo ou Leitão de Barros que, na transição do cinema mudo para o cinema sonoro e no momento em que o Estado Novo se cimentava, tomaram o cinema português nas mãos. Oliveira estreou-se ainda no tempo do mudo, com "Douro, Faina Fluvial", um documentário financiado pela família e estreado pela mão de Lopes Ribeiro num dos primeiros eventos culturais internacionais que António Ferro organizava na consolidação do novo regime político — o V Congresso Internacional da Crítica Dramática e Musical. O mesmo Lopes Ribeiro, nesse início dos anos 40 em que sonhou um modelo de produção contínua, lhe produz a primeira longa-metragem, "Aniki-Bóbó", de que António Ferro muito gostava. Mas era longe o Porto onde Oliveira sempre viveu, ele tinha outros interesses e modos de vida, os corredores do poder ou os escritórios da Tóbis não lhe estavam no caminho, "Aniki-Bóbó" não fizera grandes resultados na bilheteira (três semanas, no Éden), os projectos que foi acalentando foram-se gorando. 
Mas Manoel de Oliveira nunca desistiu, perseverou na ideia de fazer cinema, mesmo se as poucas coisas que vai conseguindo levar a cabo não definem, ainda, um estilo. O que o definia era uma espécie de hombridade, uma vontade de não ceder às leis da moda, a capacidade (bem ajudada por uma independência económica muito útil em causas nobres) de não se moldar. Sempre fez o seu cinema, mesmo quando não se podia precisar o que isso era. Isso aproximou-o da geração do Cinema Novo que, no princípio dos anos 60, o tomou como referência tutelar, modelo de verticalidade que não estético, pois de Oliveira não se podia então dizer que tivesse um definido modo cinematográfico. É essa geração que lhe oferece a possibilidade de retorno à ficção, no momento em que a Fundação Gulbenkian abre os cordões à bolsa e financia um Centro Português de Cinema onde Oliveira se integra. "O Passado e o Presente" (1972) deixa meio mundo estupefacto — pela ironia, pela escolha do texto, pela teatralidade rugosa dos actores. Ninguém poderia prever que estava ali o cadinho formal de uma obra de que aquele filme, estreado quando Oliveira estava nos seus 63 anos, não era nem o epílogo nem a homenagem, mas tão-só a letra capitular, a abertura. 
A fita que o texto teatral de Vicente Sanches propiciara ao cineasta, o afastamento cerce de qualquer realismo, o cinema enquanto artifício, realidade-outra, prossegue na famosa tetralogia dos amores frustrados que tanta polémica gerou e que culmina com "Francisca" (1981). Nesse filme, Oliveira encontra dois factores decisivos para tudo o que aconteceu depois. Um foi o triunfo crítico internacional obtido desde logo na estreia mundial no Festival de Cannes. Doravante, todos os seus filmes terão estreia nos maiores festivais, Oliveira torna-se uma vedeta nos círculos culturais e uma presença regular em Veneza, Cannes, Roterdão ou Locarno. O outro factor essencial que "Francisca" inaugura é o produtor Paulo Branco. A aliança entre os dois, numa interessantíssima fusão de interesses complementares vai durar até 2005. Branco consegue financiamentos constantes para permitir ao realizador uma actividade praticamente contínua que, a partir de 1990, ganha a espantosa rotina de (pelo menos) uma longa-metragem por ano. Oliveira corresponde adequando a sua criatividade às contingências do dinheiro disponível e, até, da sua proveniência.
É assim que vai alternando produções ambiciosas, a exigir grandes meios (como "'Non', ou a Vã Glória de Mandar"), com outras de mais maneira dimensão (caso de "Mon Cas"), que não filmicamente menos ambiciosas. E, sendo o cineasta que mais radicalmente assume o estatuto de autor (fazendo filmes singulares e incomparáveis), acedeu ao mais custoso dos compromissos: cortar quase vinte minutos a "Vale Abraão" (1993) para que pudesse ser estreado no Festival de Cannes... Nesse gesto ele provava, também, ser um homem sintonizado com os mercados cinematográficos e as suas especificidades. Não é acaso que Oliveira se tenha tornado o mais comerciável cineasta da história do cinema português — os seus filmes vendiam-se para todo o lado.
Coroado por múltiplas honrarias, cinematográficas e de Estado, em Portugal como em França, em Itália, no mundo, Oliveira angariou o estatuto de Mestre e soube conservá-lo. Teve grandes vedetas internacionais a querer trabalhar com ele em filmes que tão depressa mergulhavam na História e nos seus labirintos, como na grande literatura, ou em histórias originais, continuamente cuidando do rendilhado dos textos, numa surpreendente e sempre renovada arte em que o fingimento, os espaços, os véus com que a realidade se disfarça, acrescentavam iluminações, fascínio — e nos iam intrigando. Nem sempre obras-primas, é evidente, porque nenhum cineasta o consegue. Há filmes maiores e outros decerto dispensáveis, triagem que o tempo fará com a impiedade que sabemos. Não nos cabe, agora, influenciar a sua mão. Por mim, fora o óbvio pináculo da catedral que "Vale Abraão" é, prefiro os filmes mais pequenos, íntimos: "Benilde ou a Virgem-Mãe" [1975], "Mon Cas" [1986], "O Dia do Desespero" [1992], "O Quinto Império – Ontem como Hoje" [2004]. Ou esse extraordinário exercício de confessionalidade, ironia e dissimulação — "Porto da Minha Infância" [2001]. Mais importante do que tudo, Oliveira foi, nos últimos quarenta anos, um gigante que abria caminho à nossa cinematografia nos espaços internacionais, tarefa que ninguém está em condições de prosseguir. É que, ano após ano, filme após filme, ele ia produzindo os seus frutos temporões com a fasquia sempre dois palmos acima do comum dos mortais. Agora foi-se embora e deixou-nos, a todos, mais sós.» (Jorge Leitão Ramos, in "Expresso", 03-Abr-2015)


Na hora da despedida a Manoel de Oliveira [>> filmografia no IMDB e dossier no "Público"], a rádio pública rendeu-lhe a devida homenagem, com a emissão de alguns programas consagrados ao cineasta, o que é motivo de satisfação. Tratar de cinema num meio sem imagem, como a rádio, não é tarefa fácil, mas há um filão sonoro que ainda não foi explorado e que, enquanto tal não acontecer, deixa a estação pública em dívida para com o realizador. Referimo-nos, obviamente, à música no cinema de Manoel de Oliveira, matéria que daria, sem a menor dúvida, uma boa e interessante série de programas.

Registamos também com agrado que a RTP-1 tenha transmitido, em horário nobre, a entrevista que o cineasta deu a Fátima Campos Ferreira, seguida da curta-metragem "O Velho do Restelo", e que a RTP-2 tenha voltado a exibir, ainda que a horas tardias, o filme "O Estranho Caso de Angélica" e o documentário "Manoel de Oliveira, o Caso Dele". 
Por ser um meio audiovisual, as responsabilidades da televisão para com o nosso maior vulto da sétima arte são acrescidas, cabendo-lhe proporcionar ao público português (especialmente àquele que não tem a Cinemateca à mão) a possibilidade de conhecer, tão amplamente quanto possível, a sua obra. Ficamos pois a aguardar por esse almejado ciclo na RTP-2 que abarque, se não a totalidade, a maioria dos filmes que Manoel de Oliveira nos legou. Entretanto, sempre se pode recorrer à internet e aproveitar o que se encontra disponível nas várias plataformas de vídeos, mormente no YouTube, e que apresentamos abaixo. Não é forma ideal de ver cinema, mas é melhor do que nada...
Primeiramente, os links de alguns fonogramas e videogramas sobre Manoel de Oliveira, e o belíssimo 'sketch' da Ilha dos Amores (extraído de "'Non', ou a Vã Glória de Mandar"), juntamente com as estrofes d' "Os Lusíadas" que estão na sua base.


"Ecran: Manoel de Oliveira" (RTP-2), de 1981
https://www.youtube.com/watch?v=Rp99BLrwsfA
Coordenação: Augusto Seabra e José Nascimento
Produção: Miguel Cardoso e J.M. Alves da Silva (Ecran/RTP)

"Manoel de Oliveira, o Arquitecto" (1993)
https://www.youtube.com/watch?v=rf6wuimO0RU
Documentário realizado por Paulo Rocha
Produção: Suma Filmes/RTP

"Vidas Que Contam" (Antena 1), de 24-Fev-2007 [reposição em 02-Abr-2015] 

http://www.rtp.pt/play/p328/e190133/vidas-que-contam
Documentário radiofónico sobre Manoel de Oliveira; autoria e realização de Ana Aranha

"Manoel de Oliveira, o Caso Dele" (RTP-2), de 2007 [reposição em 03-Abr-2015]

https://www.youtube.com/watch?v=NnmFVfTulag
Locução: Leonor Silveira
Realização: Sérgio C. Andrade
Produção: Ideias & Conteúdos

"Pessoal e Transmissível" (TSF), de 08-Jan-2008 [reposição em 02-Abr-2015]

http://www.tsf.pt/paginainicial/AudioeVideo.aspx?content_id=915357
Manoel de Oliveira entrevistado por Carlos Vaz Marques, a pretexto da estreia do filme "Cristóvão Colombo - O Enigma"

"Especial Manoel de Oliveira" (Antena 1), de 13-Dez-2008

http://rsspod.rtp.pt/podcasts/at1/1504/3493609_178364-1504021449.mp3
Manoel de Oliveira entrevistado por João Lopes, em 25-Out-2008

"A Ronda da Noite" (Antena 2), de 02-Abr-2015

http://www.rtp.pt/play/p1299/e190431/a-ronda-da-noite
Manoel de Oliveira entrevistado por Luís Caetano, em Outubro de 2010, por ocasião do "Escritaria" (Penafiel), dedicado a Agustina Bessa-Luís

"Especial Informação" (RTP-1), de 11-Dez-2011 [reposição em 02-Abr-2015]

http://www.rtp.pt/play/p79/e66733/especial-informacao
Manoel de Oliveira entrevistado por Fátima Campos Ferreira

"Especial 'O Século de Oliveira'" (Antena 1), de 03-Abr-2015

http://www.rtp.pt/play/p337/e190219/antena-1-programas-especiais
Treze filmes de Manoel de Oliveira passados em revista; textos de Tiago Alves e João Lopes



"Ilha dos Amores"

[Coro dos Deuses / Isto Bem Resolvido / As Fráguas de Cupido / Lágrimas de Amante / Deusa Dione / Insídias do Deus Baco / Camões / Baile dos Deuses]



Poema: Luís de Camões (versos extraídos dos Cantos IX e X, de "Os Lusíadas", Lisboa, 1572)
Música: Alejandro Massó
Intérpretes: Alejandro Massó* com o Coro de Câmara de Lisboa & Teresa Salgueiro (in filme "'Non', ou a Vã Glória de Mandar", 1990; CD "'Non', ou a Vã Glória de Mandar: Banda Sonora Original", Editions Milan Music, 1990)




[Canto IX]

18
Porém a Deusa Cípria, que ordenada
Era, para favor dos Lusitanos,
Do Padre Eterno, e por bom génio dada,
Que sempre os guia já de longos anos,
A glória por trabalhos alcançada,
Satisfação de bem sofridos danos,
Lhes andava já ordenando, e pretendia
Dar-lhes nos mares tristes, alegria.

19

Depois de ter um pouco revolvido
Na mente o largo mar que navegaram,
Os trabalhos que pelo Deus nascido
Nas Anfiónias Tebas se causaram,
Já trazia de longe no sentido,
Para prémio de quanto mal passaram,
Buscar-lhes algum deleite, algum descanso,
No Reino de cristal, líquido e manso;

20

Algum repouso, enfim, com que pudesse
Refocilar a lassa humanidade
Dos navegantes seus, como interesse
Do trabalho que encurta a breve idade.
Parece-lhe razão que conta desse
A seu filho, por cuja potestade
Os Deuses faz descer ao vil terreno
E os humanos subir ao Céu sereno.

21

Isto bem revolvido, [Vénus] determina
De ter-lhes aparelhada, lá no meio
Das águas, alguma ínsula divina,
Ornada d'esmaltado e verde arreio;
Que muitas tem no reino que confina
Da [mãe] primeira co terreno seio,
Afora as que possui soberanas
Para dentro das portas Herculanas.

22

Ali quer que as aquáticas donzelas
Esperem os fortíssimos barões
(Todas as que têm título de belas,
Glória dos olhos, dor dos corações),
Com danças e coreias, porque nelas
Influirá secretas afeições,
Para com mais vontade trabalharem
De contentar a quem se afeiçoarem.

...............................................


30

Muitos destes meninos voadores
Estão em várias obras trabalhando:
Uns amolando ferros passadores,
Outros, hástias de setas delgaçando.
Trabalhando, cantando estão de amores,
Vários casos em verso modulando;
Melodia sonora e concertada,
Suave a letra, angélica a soada.

31

Nas fráguas imortais onde forjavam
Para as setas as pontas penetrantes,
Por lenha corações ardendo estavam,
Vivas entranhas inda palpitantes;
As águas, onde os ferros temperavam,
Lágrimas são de míseros amantes;
A viva flama, o nunca morto lume,
Desejo é só que queima e não consume.

32

Alguns exercitando a mão andavam
Nos duros corações da plebe ruda;
Crebros suspiros pelo ar soavam
Dos que feridos vão da seta aguda.
Fermosas Ninfas são as que curavam
As chagas recebidas, cuja ajuda
Não somente dá vida aos mal feridos,
Mas põe em vida os inda não nascidos.

33

Fermosas são algumas e outras feias,
Segundo a qualidade for das chagas,
Que o veneno espalhado pelas veias
Curam-no às vezes ásperas triagas.
Alguns ficam ligados em cadeias
Por palavras subtis de sábias magas;
Isto acontece às vezes, quando as setas
Acertam de levar ervas secretas.

34

Destes tiros assi desordenados,
Que estes moços mal destros vão tirando,
Nascem amores mil desconcertados
Entre o povo ferido miserando;
E também nos heróis de altos estados
Exemplos mil se vêm de amor nefando,
Qual o das moças Bíbli e Cinireia,
Um mancebo de Assíria, um de Judeia.

35

E vós, ó poderosos, por pastoras
Muitas vezes ferido o peito vedes;
E por baixos e rudos, vós, senhoras,
Também vos tomam nas Vulcâneas redes.
Uns esperando andais nocturnas horas,
Outros subis telhados e paredes;
Mas eu creio que deste amor indigno
É mais culpa a da mãe que a do menino.

36

Mas já no verde prado o carro leve
Punham os brancos cisnes mansamente;
E Dione, que as rosas entre a neve
No rosto traz, descia diligente.
O frecheiro, que contra o Céu se atreve
O recebê-la vem, ledo e contente;
Vêm todos os Cupidos servidores
Beijar a mão à Deusa dos amores.

37

Ela, por que não gaste o tempo em vão,
Nos braços tendo o filho, confiada
Lhe diz: – «Amado filho, em cuja mão
Toda [a] minha potência está fundada;
Filho, em quem minhas forças sempre estão,
Tu, que as armas Tifeias tens em nada,
A socorrer-me a tua potestade
Me traz especial necessidade.

38

Bem vês as Lusitânicas fadigas,
Que eu já de muito longe favoreço,
Porque das Parcas eu sei, minhas amigas,
Que me hão-de venerar e ter em preço;
E, porque tanto imitam as antigas
Obras de meus Romanos, me ofereço
A lhes dar tanta ajuda, em quanto posso,
A quanto se estender o poder nosso.

39

E, porque das insídias do odioso
Baco foram na Índia molestados,
E das injúrias sós do mar undoso
Puderam mais ser mortos que cansados,
No mesmo mar, que sempre temeroso
Lhes foi, quero que sejam repousados,
Tomando aquele prémio e doce glória
Do trabalho que faz clara a memória.

40

E para isso queria que, feridas
As filhas de Nereu no ponto fundo,
D'amor dos Lusitanos incendidas
Que vêm de descobrir o novo mundo,
Todas numa ilha juntas e subidas,
(Ilha que nas entranhas do profundo
Oceano terei aparelhada,
De dões de Flora e Zéfiro adornada);

41

Ali, com mil refrescos e manjares,
Com vinhos odoríferos e rosas,
Em cristalinos paços singulares,
Fermosos leitos, e elas mais fermosas;
Enfim, com mil deleites não vulgares,
Os esperem as Ninfas amorosas,
D'amor feridas, para lhes entregarem
Quanto delas os olhos cobiçarem.

42

Quero que haja no reino Neptunino,
Onde eu nasci, progénie forte e bela;
E tome exemplo o mundo vil, malino,
Que contra tua potência se rebela,
Por que entendam que muro Adamantino
Nem triste hipocrisia vale contra ela.
Mal haverá na terra quem se guarde,
Se teu fogo imortal nas águas arde.»

[Canto X]

82
Aqui, só verdadeiros, gloriosos 
Divos estão, porque eu, Saturno e Jano, 
Júpiter, Juno, fomos fabulosos, 
Fingidos de mortal e cego engano. 
Só pera fazer versos deleitosos 
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso 
Nestas estrelas pôs o engenho vosso.


Notas

1. Os versos cantados estão assinalados com fundo a água.
2. Na versão áudio, a canção da deusa Dione tem mais uma estrofe (incipit "Bem vês as Lusitânicas fadigas").

* Coro de Câmara de Lisboa, dir. Alejandro Massó

Teresa Salgueiro – voz ("Deusa Dione")



Capa da edição videográfica (VHS) do filme "'Non', ou a Vã Glória de Mandar" (Atalanta Filmes, 1992)



Capa da edição videográfica (DVD) do filme "'Non', ou a Vã Glória de Mandar" (Madragoa Filmes, 2001)



Capa do CD "'Non', ou a Vã Glória de Mandar: Banda Sonora Original" (Editions Milan Music, 1990)




"Douro, Faina Fluvial" (1931) – versão de 1994, com música original de Emmanuel Nunes
[Versão com música original de Luís de Freitas Branco >> aqui]

Sinopse:

A azáfama da zona ribeirinha da cidade do Porto é ilustrada tendo o rio Douro como personagem central, como pano de fundo. Homens, mulheres e crianças, gente humilde, agitam-se no confronto com ele, convergindo num só rosto. O retrato dentro de retrato dá-nos a ver o lugar no tempo e o seu ambiente humano.


[Vídeo em falta – a disponibilizar logo que possível]

"Hulha Branca" (1932)

Sinopse:

Filmado com a mesma câmara e os restos de película de "Douro, Faina Fluvial", retrata a inauguração da Central Hidroeléctrica de Ermal, no Rio Ave. A central foi fundada em Janeiro de 1932, pelo pai de Manoel de Oliveira, Francisco José de Oliveira, um industrial que soube enxergar antecipadamente a importância da energia eléctrica numa época em que ela era ainda considerada um luxo. Foi o primeiro fabricante de lâmpadas eléctricas em Portugal. Após a sua estreia comercial em 1938, "Hulha Branca" foi considerado um filme perdido. Só voltou a circular em 1998, após o seu restauro pela Cinemateca Portuguesa.


[Vídeo em falta – a disponibilizar logo que possível]

"Já se Fabricam Automóveis em Portugal" (1938)

Sinopse:

Reflexo da paixão automobilística do cineasta, que na juventude participou de corridas de automóveis, inclusive no Brasil, o filme retrata a tentativa de fabricação de um novo modelo da fábrica Ford na cidade do Porto. O modelo fora especialmente criado por Eduardo Ferreirinha, o Ed, e chamava-se justamente Edfor em sua homenagem. Ferreirinha, que fora o criador dos três automóveis em que Manoel de Oliveira competiu, criou este novo modelo usando um motor Ford, um chassis modificado e uma carroçaria própria. Foi ao volante de um destes carros que o cineasta venceu uma prova em 1938, a II Rampa do Gradil.



"Famalicão" (1941)

Sinopse:

Origens lendárias de Vila Nova de Famalicão, centro de comunicação rodoviária e ferroviária entre várias localidades do Norte. As alegres e pitorescas ruas. Acontecimentos registados nos jornais da terra. Edifícios: Hospital da Misericórdia, Câmara Municipal, Monumento a Camilo Castelo Branco, em S. Miguel de Ceide. Trabalho nos campos. Igrejas. Os arredores românticos. Indústrias de fiação e tecidos, de botões e de relógios (única na Península). Aspectos típicos: vindimas, malhadas, feiras.



"Aniki-Bóbó" (1942)
Baseado no conto "Meninos Milionários – O Jogo dos Polícias e dos Ladrões" (1935), de João Rodrigues de Freitas.

Sinopse:

A primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira, segundo o conto de Rodrigues de Freitas, "Meninos Milionários", em cópia restaurada. O título é a invocação de um jogo infantil para dividir os que serão "polícias" e "ladrões". Uma belíssima incursão no mundo da infância que é, simultaneamente, um documento excepcional sobre a cidade do Porto no começo da década de 40.



"O Pintor e a Cidade" (1956)

Sinopse:

O pintor deambula pelas ruas do Porto e representa nas suas aguarelas aquilo que vai observando: os prédios, as crianças, as pessoas que se deslocam entre casa e trabalho, o bulício da cidade...


[Vídeo em falta – a disponibilizar logo que possível]

"O Pão" (1959)

Sinopse:

O pão de cada dia obriga a um esforço constante, de que o homem sai dignificado... O ciclo da semente: fecundação, nascimento, recolha, transporte do grão, moagem industrial, panificação moderna, distribuição e consumo do pão. Regresso da semente à terra. Um novo ciclo se inicia...



"Acto da Primavera" (1963) [excerto]
Representação popular do "Auto da Paixão", de Francisco Vaz de Guimarães (séc. XVI), na aldeia da Curalha (concelho de Chaves).

Sinopse:

Representação da Paixão de Cristo numa aldeia de Trás-os-Montes, também mostra, de modo magistral, a imperceptível passagem do quotidiano à representação do sagrado e o regresso ao quotidiano. Dois filmes em que ritual e teatro, de certa forma, se confundem.



"A Caça" (1964)

Sinopse:

Dois rapazes desocupados deambulam pelo campo. Simulam a caça (mas não têm espingardas), emaranham-se, perdem-se de vista, até que um deles cai no pântano, começando a afundar-se lentamente. O amigo grita por socorro. Vários homens mobilizam-se, e vão acudir. Vão dar com ele coberto de lama preta, enterrado. Só a cabeça de fora, continua a gritar. É preciso fazer um cordão humano para o tirar dali. Mas esta cadeia de solidariedade rompe-se porque os salvadores começam a discutir entre si. Um homem berra para lhe darem a mão e estica o seu braço: é maneta.



"As Pinturas do Meu Irmão Júlio" (1965)
Com versos e comentários de José Régio; música original de Carlos Paredes.

Sinopse:

Obra documental, dedicada ao pintor Júlio Reis, irmão do escritor José Régio, que se torna, a partir daqui, um frequente colaborador de Manoel de Oliveira. O fio condutor está nas memórias de José Régio, reconstituindo a figura do irmão a partir das lembranças de sua convivência na casa em que nasceram e onde estão guardados muitos dos seus quadros.



"O Passado e o Presente" (1972)
Baseado na peça de teatro homónima (1971), de Vicente Sanches.

Sinopse:

Os ridículos, a incoerência, o parasitismo da alta burguesia. Tudo gira em torno do desprezo de Vanda, uma jovem mulher, pelos vários maridos em vida, e a mórbida veneração que lhes dedica, uma vez viúva. O resultado desta perpetuação do luto é, entre outros, que Vanda não tem vida sexual (a ameaça fálica é assim evitada de cada vez).



"Benilde ou a Virgem-Mãe" (1975)
Baseado na peça de teatro homónima (1947), de José Régio.

Sinopse:

No Alentejo, numa grande casa isolada, suspeita-se que a filha dos proprietários, Benilde, está grávida. O médico, chamado em segredo pela governanta, Genoveva, confirma o seu estado de gravidez. Mas Benilde jura que não conheceu homem algum, e que se está à espera de um filho é por vontade de um anjo de Deus. Um vagabundo circunda a casa, com uivos tremendos, sem nunca ser visto. A convicção de Benilde da intervenção divina, perturba todos à sua volta, particularmente a sua tia que procura explicações mais razoáveis. Benilde anuncia a Eduardo, seu noivo, destruído pelos factos, que vai morrer em breve. Na hora da morte diz-lhe que em breve se encontrarão.


[Vídeo em falta – a disponibilizar logo que possível]

"Amor de Perdição" (1979)
Baseado no romance homónimo (1862), de Camilo Castelo Branco.

Sinopse:

No início do século XIX, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, pertencendo a duas famílias rivais, amam-se apaixonadamente. Teresa está prometida a um primo seu, Baltazar Coutinho. A jovem decide entrar num convento. Simão mata Baltazar e é preso. O pai, magistrado, recusa-se ajudá-lo por não lhe perdoar amar a filha do seu pior inimigo. Das respectivas celas, Simão e Teresa correspondem-se por escrito, com a ajuda de Mariana (uma jovem criada que ama secretamente Simão). Condenado à morte, Simão é indultado e enviado para o exílio. No Porto, embarca para a Índia e despede-se de Teresa que, ao longe, lhe acena um último adeus, pelas grades da janela da sua cela, na torre do convento. Teresa cai morta nos braços da camareira. Simão morre na viagem, poucos dias depois. No funeral, a bordo, Mariana, que o seguia para o desterro, atira-se ao mar para se agarrar ao seu cadáver e com ele morrer.



"Francisca" (1981)
Baseado no romance "Fanny Owen" (1979), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:

«"Amor de Perdição" deu a Manoel de Oliveira o texto da nossa realidade romântica. O texto de Agustina Bessa-Luís, "Fanny Owen", o pretexto de evocar a ficção dessa realidade. O resultado é o mais belo, sumptuoso e delicado filme do cinema português... História impossível, como são as histórias reais de dois seres de ficção em busca de um pouco de realidade, vítimas coniventes da ficção sem inocência de Camilo... "Francisca" não é apenas a prova de maturidade de um grande cineasta... O seu reino (de Manoel de Oliveira) é outro: a sedução da obscuridade luminosa da paciência.» (Eduardo Lourenço)



"Nice - À Propos de Jean Vigo" (1983)


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"Lisboa Cultural" (1983)

Sinopse:

Um filme sobre a cidade de Lisboa, nas suas múltiplas dimensões culturais, as quais abrangem o cruzamento de raças, de povos, de hábitos, de costumes. Um centro cosmopolita que, para além das pessoas, dá ênfase ao património arquitectónico, assim como a uma série de lugares da capital portuguesa.



"Le Soulier de Satin" ["O Sapato de Cetim"] (1985)
Baseado na peça de teatro homónima (1929), de Paul Claudel.

Sinopse:

Durante o Século de Ouro espanhol, Doña Prouhèze, mulher de um nobre, ama profundamente Don Rodrigo. Este é forçado a deixar Espanha, rumando à América – onde será vice-rei –, e o rei impõe a Doña Prouhèze reger a cidadela de Mogador, em África. Prouhèze manda uma carta a Don Rodrigo, mas este só a lê dez anos depois. Deixando o Novo Continente, Rodrigo chega a Mogador, para reencontrar Prouhèze, que acaba por morrer enclausurada na fortaleza. Passados dez anos, Rodrigo, que ficou mutilado, conhece Sept-Epées, a filha de Prouhèze.



"Mon Cas" ["O Meu Caso"] (1987)
Baseado na peça de teatro "Mário ou Eu-Próprio - O Outro" (1957), de José Régio.

Sinopse:

Pouco antes do início de uma representação teatral, um desconhecido entra em cena para expor o seu próprio caso. Logo é interrompido por um trabalhador do teatro, depois por uma actriz, até ao autor e por fim toda a companhia. Cada qual acaba por falar do seu "próprio caso" e gera-se a discussão. A cena vai finalmente ter lugar, mas tudo recomeça da mesma maneira. Ouve-se então um texto de Beckett. Mais uma vez sobe o pano, desta vez o som está ao contrário, uma verdadeira torre de Babel! Seguidamente, assiste-se ao diálogo de Job com Deus, com os mesmos actores da peça a fazerem de amigos de Job. No final, Job e a mulher são felizes na "Cidade Ideal", de Piero della Francesca.



"Os Canibais" (1988)
Baseado no conto homónimo (1868), de Álvaro Carvalhal; música original de João Paes.

Sinopse:

Filme-ópera, com música de João Paes, um dos mais livres e originais de toda a obra de Oliveira. Versão irónica do tema dos "amores frustrados", que tanto ocupou o cineasta nos anos 70, em que a perversão das relações amorosas e o sacrifício carnal são levados, literalmente, às últimas consequências. Também é um filme atravessado de uma ponta a outra por um dos temas obsessivos do realizador: a representação. Representação que passa de um tom macabro ao de um Carnaval.



"'Non', ou a Vã Glória de Mandar" (1990)
Música original de Alejandro Massó.

Sinopse:

O pano de fundo deste filme é a Guerra Colonial portuguesa, durante a qual um oficial, o alferes Cabrita, relata aos seus companheiros de armas, enquanto fazem a patrulha pela savana africana, a História de Portugal, uma epopeia construída em torno de grandes derrotas. O enredo termina com a eclosão da Revolução de 25 de Abril de 1974, dia em que o oficial morre, depois da sua patrulha ter caído numa emboscada.



"A Divina Comédia" (1991)

Sinopse:

Afinal nós é que compomos a grande comédia humana a que chamo "A Divina Comédia": o prazer pela vida, o sexo como ídolo, o poder como ambição suprema e a morte como limitação de tudo; ou a aceitação do sofrimento e da ressurreição como verdadeira glória!? Eis o dilema! Afinal um filme histórico ou, se preferirem, uma parábola sobre a civilização ocidental.



"O Dia do Desespero" (1992) [1/2]
Baseado em cartas de Camilo Castelo Branco e num trecho do romance "O Amor de Perdição" (1862).

Sinopse:

"O Dia do Desespero" conta a história verídica dos últimos anos do eminente escritor português de século XIX, Camilo Castelo Branco. Esta evocação baseia-se, fundamentalmente, em algumas das suas cartas. Os textos são, poderemos dizê-lo, o fio condutor da evolução dramática de um homem viril, polémico e romântico que contrastava com o espírito funesto, instável e irresignado. Camilo afunda-se, sem remissão, num conflito íntimo, ou melhor, interno, "um drama em gente", como diria Fernando Pessoa. Havia de ser a cegueira o impulsor para o acto final da sua vida. Acto final da sua vida? E o além-túmulo?



"O Dia do Desespero" (1992) [2/2]



"Vale Abraão" (1993)
Baseado no romance homónimo (1991), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:

"Vale Abraão" é a história de Ema, uma mulher de uma beleza ameaçadora. Para Carlos, o marido com quem casou sem amor, "um rosto como o seu pode justificar a vida de um homem". O seu gosto pelo luxo, as ilusões que tem na vida, o desejo que inspira aos homens, fazem-lhe valer o epíteto de "A Bovarinha". Conhecerá três amantes, mas esses amores sucessivos não conseguem suster um sentimento crescente de desilusão que a leva a definir-se como nada mais que "um estado de alma em balouço". Ema morrerá – "acidentalmente? Quem sabe?" – num dia de sol radioso, depois de se ter vestido como se fosse para ir a um baile.



"A Caixa" (1994)
Baseado na peça de teatro homónima (1981), de Prista Monteiro.

Sinopse:

Numa inclinada rua do bairro popular de Alfama, um cego perdeu a caixa de madeira onde são depositadas as esmolas e pequenas recordações da venda simbólica de chaveiros de recordação para turistas. O que guarda naquela caixa de madeira preta, pintada com a misteriosa sigla ABLB, pode dizer-se que é todo o seu sustento. A filha do cego, sempre distraída com os trabalhos domésticos, cai estendida sobre a pilha de roupa que lava para os seus clientes. O seu marido, desempregado como o resto dos amigos, vive da caixa de esmolas do velho e do trabalho da mulher. Quando a caixa desaparece, o assunto torna-se motivo de conflito violento, quase uma tragédia. Mas não há mal que venha por bem, e a ironia do destino possibilita que a filha do cego se consiga libertar da carga familiar que suportou durante todo aquele tempo.


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"O Convento" (1995)
Baseado no romance "As Terras do Risco" (1994), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:

O professor Michael Padovic é um investigador norte-americano que está a trabalhar numa tese que se destina a provar que Shakespeare tinha ascendência espanhola e não britânica. Mas faltam-lhe alguns documentos essenciais, os quais julga estarem nos arquivos do antiquíssimo Convento da Arrábida, em Portugal. Por esta razão, ele e a sua mulher, Hélène, viajam de Paris até à Arrábida, onde se instalam. O seu anfitrião é o guardião do convento, uma estranha personagem que dá pelo nome de Baltar. Há qualquer coisa de misterioso em Hélène que cativa Baltar. Para distrair a atenção do marido dela, sugere-lhe que ele contrate como sua assistente, Piedade, a nova arquivista do convento. Hélène descobre que o marido a rejeita em favor do trabalho e o facto de Piedade ser jovem e bonita aumenta ainda mais a tensão, servindo ao mesmo tempo os propósitos diabólicos de Baltar e a subtil manipulação de Hélène. A situação torna-se extremamente bizarra e culmina de forma inesperada.



"Party" (1996)
Baseado na peça de teatro "Party: Garden-Party dos Açores – Diálogos" (1996), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:

Leonor e Rogério fazem dez anos de casados. Por sugestão de Leonor, organizaram um "garden party", em comemoração do acontecimento, nas esplanadas do seu palácio, herança que os antepassados do seu marido lhe deixaram em Ponta Delgada, nos Açores. Leonor, tomada de súbito capricho, pensa em cancelar o "garden party". Rogério contesta: «Impossível, Leonor! Os convites foram enviados e os convidados já estão à porta.» Entre os convidados há dois amigos especiais, Irene e Michel, que, de quando em quando, vêm aos Açores. Irene é uma famosa actriz grega de idade madura, que se faz acompanhar do amante Michel, um "bon vivant" francês, pretenso D. Juan, apesar da idade. Michel sente-se na obrigação de fazer corte à Leonor, jovem, elegante, bela de rosto, alegre e atractiva. Leonor parece aceitar o jogo que não passa despercebido nem ao marido nem à amante de Michel, os quais não intervêm e até parece divertirem-se com isso. No auge da festa levanta-se um fortíssimo vendaval que arrebata os guarda-sóis, derruba as mesas, arrasta as cadeiras e põe os convidados em debandada. Mais tarde, aquele casal de amigos estrangeiros, Irene e Michel, voltam aos Açores, são convidados por Leonor e Rogério para jantar no palácio onde, cinco anos antes, tinham estado no "garden party" que findou desastradamente. Michel não esqueceu Leonor e esta não deixou de guardar uma grande curiosidade por este particular sedutor, o que fez com que o antigo "flirt" renascesse, tanto mais que Leonor se enfastiava com um quotidiano vulgar que ela adorava quebrar, fosse com o que fosse, e a libertasse para aquele espírito de aventura que dentro dela fervilhava. É então que acontece o inesperado.


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"Viagem ao Princípio do Mundo" (1997)

Sinopse:

Um realizador português contrata um actor francês para um filme que vai ser uma co-produção franco-portuguesa. O pai do actor francês, falecido muito jovem, era de origem portuguesa, embora a sua mãe fosse francesa. Durante a rodagem, o actor começa a pensar no seu falecido pai e decide visitar a vila onde ele tinha nascido, na esperança de encontrar a tia ainda viva. O realizador e outros dois actores sugerem acompanhá-lo na viagem, servindo de intérpretes, já que ele não fala português. Durante o caminho, o realizador (Manoel) começa a lembrar-se da sua infância nesta zona de Portugal. É então que menciona uma personagem chamada Pedro Macao, cuja estátua é descoberta junto à berma da estrada e que parece encarnar o destino dos homens na terra: um destino complicado e solitário. Quando chegam à vila, a tia do actor francês parece fria e desconfiada. Está cautelosa quanto a este seu sobrinho há muito desaparecido que nem sequer fala a mesma língua que ela. Também não aceita a presença do realizador nem a dos dois intérpretes que substitui pela sua nora. A tia é tão taciturna que, de forma irritada, o actor francês acaba por puxar as mangas para cima apontando para as veias para lhe explicar que são os dois do mesmo sangue. É nesta altura que Ema – a velha tia – começa a amolecer e os dois tentam lembrar-se o mais possível do pai do actor francês. Discutem também as dificuldades da vida na aldeia e as mudanças avassaladoras que a modernidade tem trazido. Por fim, o sobrinho diz-lhe que gostaria de visitar a campa do seu avô no cemitério local.



"Inquietude" (1998)
Baseado no conto "A Mãe de Um Rio" (1981), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:

São homens famosos, cobertos de honrarias, incensados por todos... mas velhos, muito velhos. E então, para que o filho escape à decrepitude e à decadência, que já não tardam, o pai incita-o a suicidar-se. O que não vai ser fácil... Quando o pano cai sobre esta nota trágica, estamos nos anos 30, no Porto, onde Susy, uma cocotte, está à beira da morte numa mesa de operações, e resume assim a sua vida: «Tudo isto não é senão um detalhe». Para consolar o dandy que com ela acabara de viver uma história de amor, um amigo conta-lhe a história de Fisalina, uma camponesa que um dia descobre que tem pontas dos dedos em ouro: durante mil anos ela será a mãe de um rio...


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"A Carta" (1999)
Inspirado no romance "La Princesse de Clèves" (1678), de Madame de La Fayette.

Sinopse:

"A Carta" é uma transposição inspirada no romance do século XVII, "La Princesse de Clèves", de Madame de La Fayette, e recriada nos dias de hoje. Mantendo o mesmo pundonor da personagem principal, que na versão "A Carta" é simplesmente a senhora de Clèves, uma vez que a acção já não é entre príncipes, mas num meio de alta sociedade dos dias de hoje. A história desta princesa evidencia um coração que logo se sente invulgar e que por ser tão verdadeiro se faz ainda mais fascinante e enriquecedor do drama e das personagens.



"Palavra e Utopia" (2000)
Com textos do Padre António Vieira (séc. XVII).

Sinopse:

Em 1663, o Padre António Vieira é chamado a Coimbra para comparecer diante do Tribunal do Santo Ofício, a terrível Inquisição. As intrigas da corte e uma desgraça passageira enfraqueceram a sua posição de célebre pregador jesuíta e amigo íntimo do falecido rei D. João IV. Perante os juízes, o Padre António Vieira revê o seu passado: a juventude no Brasil e os anos de noviciado na Bahia, a sua ligação à causa dos índios e os seus primeiros sucessos no púlpito. Impedido de falar pela Inquisição, o pregador refugia-se em Roma, onde a sua reputação e êxito são tão grandes que o Papa concorda em não o retirar da sua jurisdição. A rainha Cristina da Suécia, que vive em Roma desde a abdicação do trono, prende-o na corte e insiste em torná-lo seu confessor. Mas as saudades do seu país são mais fortes e Vieira regressa a Portugal. Só que a frieza do acolhimento do novo rei, D. Pedro, fazem-no partir de novo para o Brasil onde passa os últimos anos da sua vida.


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"Vou Para Casa" (2001)
Baseado no livro "Je Rentre à la Maison" (2001), de Jacques Parsi.

Sinopse:

Gilbert Valence é um actor de teatro, e o seu talento e a sua carreira deram-lhe os papéis mais importantes que um actor pode desejar. Uma noite, no fim de uma representação, a tragédia irrompe na sua vida: o seu agente e velho amigo, Georges, diz-lhe que a sua mulher, a filha e o genro acabaram de falecer num acidente de viação. O tempo passa, a vida volta à normalidade. Gilbert Valence partilha agora o seu tempo entre o seu neto, que adora, e o teatro. Algum tempo mais tarde, o seu agente propõe-lhe um papel de protagonista num telefilme com os ingredientes em moda: droga, sexo e violência. E ele zanga-se: não teve a carreira que teve para agora aceitar comprometer-se num trabalho que lhe repugna totalmente, sob o pretexto que ganhará muito dinheiro. Mas no dia em que um realizador americano lhe propõe fazer Ulisses, uma adaptação do romance de Joyce, ele aceita com entusiasmo. No estúdio, com a iluminação e o décor instalados, o realizador sugere um ensaio: Gilbert Valence tem algumas hesitações, algumas falhas de memória, mas isso não é muito grave: retomarão no dia seguinte. Mas no dia seguinte, em plena rodagem, o velho actor sente o mundo escapar-se-lhe, e não consegue enfrentar a realidade. O texto foge-lhe. E ele pára e diz muito calmamente: «Vou para casa...»



"Porto da Minha Infância" (2001)

Sinopse:

«Porto da Minha Infância» é um repositório de recordações da infância e juventude do cineasta e, ao mesmo tempo, um retrato do Porto segundo a sua visão singular. O filme, uma encomenda da Sociedade Porto 2001, cumpre-se 70 anos após "Douro, Faina Fluvial" e marca o reencontro do autor com o filme-documentário, contando também com intervenções habituais do realizador: Agustina Bessa-Luís, Leonor Silveira e Duarte de Almeida (João Bénard da Costa).



"O Princípio da Incerteza" (2002)
Baseado no romance "O Princípio da Incerteza: Jóia de Família" (2001), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:

Desde a sua infância que António, rapaz rico e de boas famílias, e José, filho de uma criada, partilham tudo, vigiados pelo seu olhar protector. E quando adultos, os pequenos jogos do amor não fazem senão aumentar essa proximidade: António casa-se com Camila, por quem José sempre estivera apaixonado, e tem como amante Vanessa, sócia de José nos seus negócios pouco recomendáveis. 



"Um Filme Falado" (2003)
Baseado no livro de baseado no livro de Jacques Parsi.

Sinopse:

Verão de 2001. A pequena Maria Joana viaja com a mãe, Rosa Maria, professora universitária, ao encontro do pai, num cruzeiro que parte de Lisboa e se dirige a Bombaim. Uma viagem de recreio que é também uma viagem pela civilização mediterrânica, a marca mais profunda da cultura ocidental. Da Grécia Antiga aos Romanos, as influências árabes, o Antigo Egipto, Constantinopla, os Descobrimentos Portugueses, a Revolução Francesa. No cruzeiro viajam, para além do comandante do navio, um americano de origem polaca, três mulheres famosas, de diferentes nacionalidades: uma empresária francesa de renome, uma antiga modelo italiana, uma actriz e professora grega. O navio avança no seu percurso. Mas algo terrível está para acontecer.



"O Quinto Império - Ontem Como Hoje" (2004)
Baseado na peça de teatro "El-Rei Sebastião" (1949), de José Régio.

Sinopse:

«O Quinto Império - Ontem Como Hoje», baseia-se na peça teatral "El-Rei Sebastião", de José Régio, na qual se pretendeu analisar o rei, o homem e a mítica personagem. O rei D. Sebastião, depois da estrondosa derrota na Batalha de Alcácer Quibir (1578), mais conhecida pela Batalha dos Três Reis, e por jamais ter sido identificado o seu corpo após a batalha, tornou-se no mito do Encoberto, ele que fora antes o Desejado e o destinatário ao mito. Mito, aliás cantado e exaltado nos sermões do Padre António Vieira (século XVII), pelo filósofo Sampaio Bruno (século XIX), e no século XX pelo poeta Fernando Pessoa e pelo filósofo José Marinho, entre outros escritores e pensadores portugueses, como ainda por estudiosos estrangeiros.



"Do Visível ao Invisível" (2005)


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"Espelho Mágico" (2005)
Baseado no romance "O Princípio da Incerteza: A Alma dos Ricos" (2002), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:

Alfreda, uma jovem aristocrata, vive fixada na ideia de que assistirá a uma aparição da Virgem Maria. Afectada por uma doença grave, Alfreda procura apoio junto de um padre, de uma freira e de um professor inglês. Entretanto, um plano é armado para satisfazer o desejo de Alfreda, e "aliviá-la" de algum do seu dinheiro...


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"Belle Toujours" ["Bela Sempre"] (2006)

Sinopse:

«"Belle Toujous" ocorreu-me à ideia inesperadamente e, como tinha gosto de prestar a minha homenagem a Luis Buñuel e a Jean Claude Carrière, fiquei feliz por ter encontrado o modo de o fazer, talvez o melhor, e meti mãos à obra. De que se trata? De retomar duas das estranhas personagens do filme "Belle de Jour" [1967], e fazê-las reviver, trinta e oito anos depois, na estranheza de um segredo que só ficara na posse da personagem masculina e cujo conhecimento se tornara crucial para a personagem feminina». (Manoel de Oliveira)


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"Cada Um, o Seu Cinema" (2007)

Sinopse:

Um filme absolutamente único, realizado por ocasião dos 60 anos do Festival de Cannes, o festival de cinema mais importante do mundo, reúne o modo como 33 cineastas de 25 países olham o cinema e as salas de cinema, lugar de comunhão dos cinéfilos do mundo inteiro. Objecto cinematográfico imperdível, autêntico compêndio do estado do mundo do cinema e das singularidades de cada cineasta.



"Cristóvão Colombo - O Enigma" (2007)
Inspirado no livro "Columbus Was 100% Portuguese" (1987), de Manuel Luciano da Silva e Sílvia Jorge da Silva – traduzido e publicado em Portugal com o título "Cristovão Colon (Colombo) era Português" (2006).

Sinopse:

Não se trata nem de um filme científico ou histórico, nem de carácter propriamente biográfico, mas sim de uma ficção de teor romanesco, evocativa da grandiosa gesta dos Descobrimentos Marítimos, onde se apresenta a novidade de que Cristóvão Colombo era, afinal, de origem portuguesa, nascido na vila alentejana de Cuba, e ter por isso dado à maior ilha por ele descoberta no mar das Antilhas, o nome da sua terra natal, Cuba.



"Rencontre Unique" ["Encontro Único"] (2007)


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"Singularidades de uma Rapariga Loura" (2009)
Baseado no conto homónimo (1874), de Eça de Queiroz.

Sinopse:

Numa viagem de comboio para o Algarve, Macário conta as atribulações da sua vida amorosa a uma desconhecida senhora: mal entrara para o seu primeiro emprego, um lugar de contabilista no armazém em Lisboa do seu tio Francisco, apaixonara-se perdidamente pela rapariga loira que vivia na casa do outro lado da rua, Luísa Vilaça. Conheceu-a e quis de imediato casar com ela. O tio, discordando, despediu-o e expulsou-o de casa. Macário conseguirá enriquecer em Cabo-Verde e quando já tem a aprovação do tio para finalmente casar com a sua amada, descobre então a "singularidade" do carácter da noiva.



"O Estranho Caso de Angélica" (2010)

Sinopse:

Uma noite, Isaac, jovem fotógrafo e hóspede da pensão de Dona Rosa, na Régua, é chamado com urgência por uma família abastada, para tirar o último retrato da filha, Angélica, uma jovem mulher que morreu logo após o casamento. Na casa, em luto, Isaac descobre Angélica e fica estupefacto com a sua beleza. Quando encosta o olho à lente a jovem parece voltar à vida, só para ele. Isaac apaixona-se instantaneamente por ela. A partir desse instante, Angélica irá assombrá-lo dia e noite, até à exaustão.


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"Painéis de São Vicente de Fora - Visão Poética" (2010)



"O Gebo e a Sombra" (2012)
Baseado na peça de teatro homónima (1923), de Raul Brandão.

Sinopse:

Apesar da idade e do cansaço, Gebo persegue a sua actividade de contabilista para sustentar a família. Vive com a mulher, Doroteia, e a nora, Sofia, mas é a ausência do filho, João, que os preocupa. Gebo parece esconder algo em relação a isso, em particular a Doroteia, que vive na espera ansiosa de rever o seu filho. Sofia, do seu lado, espera também o regresso do marido, ao mesmo tempo que o teme. Subitamente João reaparece e tudo muda.


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"O Velho do Restelo" (2014)

Sinopse:

Um mergulho livre e sem esperança na História, tal qual como a conhecemos, como um sedimento fértil, na memória de Manoel de Oliveira. Oliveira reúne num banco do século XXI Dom Quixote, o poeta Luís Vaz de Camões e os escritores Teixeira de Pascoaes e Camilo Castelo Branco. Juntos, levados pelos movimentos telúricos do pensamento, eles deambulam entre o passado e o presente, derrotas e glórias, vacuidade e alienação, em busca da inacessível estrela.

Nota:

As sinopses foram retiradas do Sapo Cinema.

01 abril 2015

Evocando o programa "Em Órbita"


Elenco do "Em Órbita" em 1968 (da esquerda para a direita):
Pedro Albergaria, Cândido Mota, Jorge Gil e João Manuel Alexandre

No dia 1 de Abril de 1965, às 19:14, começava, na frequência modulada (FM) do Rádio Clube Português, aquele que viria a tornar-se um dos programas de maior culto nos anais da rádio em Portugal: o "Em Órbita". Nessa emissão inaugural, os primeiros sons são os do instrumental "Revenge" ["Vingança"], dos britânicos Kinks, tomado como indicativo, surgindo depois a voz de Pedro Castelo, que se manterá na locução durante um ano, cedendo então o lugar a Cândido Mota. O âmbito editorial do programa é bem definido desde o início:

 - Divulgação, em exclusivo, das realizações mais representativas da música popular anglo-americana.
 - Destaque muito particular ao LP em detrimento do "single". O primeiro enquanto prova múltipla de capacidade contra o carácter eventual do segundo.
 - Destaque muito particular aos autores-intérpretes em detrimento dos intérpretes que não criam.

Bob Dylan, Joan Baez, The Byrds, Crosby, Stills & Nash, Neil Young, Simon & Garfunkel, Peter, Paul and Mary, Procol Harum, The Doors, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Nina Simone, Creedence Clearwater Revival, Jefferson Airplane, The Mamas & the Papas, Donovan, Cat Stevens, Fairport Convention, The Beatles, The Rolling Stones, Kinks, Bee Gees, Spencer Davis Group, Traffic, The Animals, Small Faces, Cream, Led Zeppelin, Deep Purple, Mandred Mann, The Who, Jethro Tull, Pink Floyd e Moody Blues contam-se no extenso rol de artistas divulgados, muitos dos quais em primeira mão no éter nacional.
Em Agosto de 1967, é aberta uma excepção para um tema português, "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", pelo Quarteto 1111. Tal opção, pelo ineditismo de que se reveste, requer uma explicação ao auditório. Jorge Gil redige, para o efeito, um texto que Cândido Mota lê ao microfone e que, por permanecer perfeitamente actual, aqui se transcreve na íntegra (para que sirva de lição aos directores de rádios e fazedores de 'playlists' que veneram a escória vinda de fora, bem como os subprodutos internos dela macaqueados, e ostracizam a criação de matriz portuguesa, feita com cuidado e bom gosto):

"Em Órbita" vai proceder hoje à transmissão de um trecho de música popular portuguesa. Porque se trata de uma medida sem precedentes neste programa, e por termos o maior respeito pela nossa própria coerência e por todos quantos nos acompanham com a sua adesão consciente e construtiva, têm pleno cabimento algumas palavras introdutórias ao trecho que vamos apresentar. Desde sempre que alguns dos mais conhecidos intérpretes e conjuntos portugueses de música ligeira nos têm procurado, seguindo modalidades várias de aproximação no sentido de "Em Órbita" divulgar as suas respectivas realizações, em amostra, em disco ou em registo magnético. Em face dessas sucessivas tentativas, sempre nos recusámos a elas aludir, por considerarmos que a totalidade dessas realizações não justificava o nosso interesse em abrir excepções, quer por entendermos que a sua transmissão iria ocupar tempo que poderia ser preenchido com larga vantagem pela nossa música habitual, quer por considerarmos que nenhuma delas reunia as condições mínimas para poder representar qualquer coisa de semelhante a uma tentativa honesta e inédita do lançamento das bases da música popular portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteiro, de alto a baixo. 
Por várias vezes e sob diversos pretextos, temos aqui exprimido alto e bom som que somente transmitiríamos qualquer modalidade de música popular portuguesa que tivesse um mínimo daqueles requisitos que poderemos condensar assim: 
  1. Autenticidade aferida em função do ambiente e da sociedade portuguesa e da tradição folclórica do nosso país.
  2. Afastamento radical da utilização puramente oportunista de padrões internacionais e pseudo-internacionais, impossíveis de transpor com verdadeira honestidade para o nosso meio.
  3. Rompimento frontal com as formas de música popular comercial mais divulgadas em Portugal e que se caracterizam pela teimosa insistência em seguir os figurinos caducos e provincianos de Aranda do Douro, San Remo ou Benidorm.
  4. Demonstração de um poder criador e interpretativo que ultrapassasse, de forma a não deixar dúvidas, o apelo a uma imitação grotesca do que se faz no estrangeiro, quer na forma de cópia pura e simples, quer na de adaptações apressadas, quer na utilização de uma língua, de um estilo ou de um som de importação, tudo defeituosamente assimilado.
Estes, portanto, os requisitos mínimos que sempre exigimos a nós próprios e aos que nos procuraram com pedidos de transmissão. Nunca nos limitámos, porém, a uma recusa seca e peremptória. Os nossos pontos de vista sempre os exprimimos desenvolvidamente, em particular e em público. 
Os que nos ouvem com regularidade devem recordar-se do que aqui foi dito sobre este mesmo tema no ano passado. As nossas sugestões sobre os caminhos a seguir na nossa opinião ficaram então bem claras. Recordemos algumas delas: 
  • Recurso ao folclore português nas suas múltiplas variedades e manifestações.
  • A ligação íntima à realidade portuguesa nos seus mil e um aspectos e facetas.
  • Recurso à poesia portuguesa popular ou erudita, medieval, clássica ou contemporânea.
  • O aproveitamento das formas melódicas e rítmicas da música popular portuguesa, ainda não adulterada.
  • A revisão total dos temas e respectiva forma de expressão com base na construção lírica dos poetas da literatura portuguesa, do "Cancioneiro Geral", de Garcia de Resende, aos poetas da actual geração de Coimbra.
Sem preocupações de síntese, estas são algumas das formas possíveis, no nosso entender, de encarreirar a música popular portuguesa para alguma coisa de novo, de verdadeiro e de autêntico. Há anos que vimos proclamando isto. Nunca ninguém demonstrou ou procurou demonstrar que no plano dos princípios, e em concreto, estávamos errados. Posto isto, temos, para nós, que o trecho que vamos hoje apresentar, preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa com todas as implicações que a sua transmissão através de "Em Órbita" acarretam. 
Tendo por título "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", é escrito por um português, é tocado e cantado por portugueses. Não vamos fazer uma apreciação exaustiva desta gravação, das suas qualidades que são muitas, e dos seus defeitos que terá alguns. 
Vamos apenas apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo. Assim é desde logo um apontamento especial sobre os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais, e num período em que neste programa se dá cada vez mais importância aos criadores e cada vez menos aos intérpretes, a gravação que vamos apresentar tem qualidade interpretativa mais do que suficiente – é uma nota que sobressai com rara evidência. 
O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito, é que em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos precisos, directos, certeiros, desenfeitados. Conta-se uma história, uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país. 
Depois, é um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal. É um Sebastianismo colectivo que na lenda se retrata. É a ideologia negativista dos que têm uma crença irracional em coisas, em valores e em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação. A Lenda de El-Rei D. Sebastião – escreveu José Cid – é o Quarteto 1111. (texto de Jorge Gil lido por Cândido Mota, na edição em que foi transmitida "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", em Agosto de 1967).

Nesse ano, o "Em Órbita" foi distinguido com dois prestigiosos galardões: o Prémio da Casa da Imprensa (para melhor programa de rádio) e o Prémio Internacional Ondas (numa das poucas vezes em que foi atribuído a Portugal). Em 1969, nasceram as "Novas Aventuras do 'Em Órbita'", com a introdução de música erudita, a qual passou a exclusivo a partir de Janeiro de 1974. «Foi uma opção consciente. A música anglo-saxónica já nada me dizia. A minha transformação operou-se enquanto estudante de Arquitectura, em Belas-Artes, com as lições de "Conjugação das Três Artes", de Manuel Rio de Carvalho», confessará Jorge Gil, mais tarde, a Luís Pinheiro de Almeida (in "Público", 01-Abr-2000)
No PREC, que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, o Rádio Clube Português foi nacionalizado, passando, em 1979, a denominar-se Rádio Comercial. João David Nunes, o director de programas da estação, apesar da incompreensão de alguns que consideravam o programa demasiadamente elitista, teve a clarividência de mantê-lo na grelha e, paulatinamente, o auditório foi aumentando, a tal ponto que, nos anos 80, o "Em Órbita" não era apenas um dos programas mais relevantes da rádio portuguesa – era uma verdadeira instituição cultural do país, circunstância que motivou ao musicólogo Rui Veira Nery a redacção do seguinte testemunho, por ocasião do 25.º aniversário (1990):

Tudo começou com um grupo de jovens profissionais da rádio que em meados da década de 60, em pleno reino do nacional-cançonetismo, de Rafael e de Gianni Morandi, tocava regularmente o que de melhor e mais avançado se fazia na música popular anglo-americana, constituindo um espaço radiofónico alternativo que serviu de referência de qualidade a toda uma geração marcada pelo movimento associativo universitário, pela resistência antifascista, pelo trauma da guerra colonial, pela ruptura com os códigos morais pequeno-burgueses dos filmes cor-de-rosa de Doris Day e Marisol. Depois veio o 25 de Abril, a geração que se formara ao som do "Em Órbita" entrou de uma vez por todas na esfera do poder e o próprio grupo dos responsáveis pelo programa se dissolveu enquanto tal para gradualmente se ir convertendo – com diferentes graus de felicidade conforme os casos no novo núcleo dirigente da rádio portuguesa.
Mas a vocação alternativa do "Em Órbita" não se tinha esgotado, quando a consagração institucional do seu primeiro figurino ameaçava transferi-lo das convulsões do desafio para a rotina fácil do sucesso, o programa reconverteu-se radicalmente em termos que muitos consideram quase suicidas e dedicou-se exclusivamente à música erudita, com destaque para o repertório barroco. Os seus níveis de audiência desceram vertiginosamente e tudo indicava que a sua própria sobrevivência estaria em breve seriamente ameaçada.
A nova aposta do "Em Órbita" assenta sobretudo não só na promoção de um repertório pré-romântico quase desconhecido entre nós como na insistência na sua execução com instrumentos e práticas interpretativas originais, um movimento que em toda a Europa lutava ainda arduamente pela conquista de uma credibilidade que lhe era negada pelos herdeiros da tradição interpretativa oitocentista.
O combate de Jorge Gil, que ficara sozinho à frente do programa, começou pouco a pouco a surtir efeito. Os níveis de audiência começaram de novo a subir (no início da década de 80 eram já dos mais altos da rádio portuguesa) e a consequência mais evidente deste fenómeno que se foi verificando foi uma procura crescente de gravações de música antiga no mercado discográfico nacional.
A partir de 1985, o "Em Órbita" passou a promover concertos de música antiga. Começou com a Orquestra Barroca de Amsterdão, dirigida por Ton Koopman, para celebrar os tricentenários de Bach e Händel, e prosseguiu com produções tão importantes como a primeira audição moderna de "La Guerra de los Gigantes" de Sebastian Duron, pelo Hesperion XX, o "Tristão e Isolda" medieval pela Boston Camerata, os concertos de música de câmara de Jordi Savall, Ton Koopman e do Musica Antiqua de Colónia ou a apresentação monumental das "Vésperas" de Monteverdi dirigidas por Savall, poucos dias antes da sua gravação num dos álbuns mais unanimemente aclamados da discografia europeia dos últimos anos.
O "Em Órbita", que soube sempre ir à frente e desbravar caminhos novos na vida musical portuguesa, deveria ser hoje, após vinte e cinco anos de provas excelentes, uma realidade sólida, acreditada e disputada pelos grupos económicos deste país como interlocutor privilegiado para as suas iniciativas de mecenato cultural. (Rui Vieira Nery, in jornal "Expresso", 1990; livro "Telefonia", de Matos Maia, Lisboa: Círculo de Leitores, 1994 – retirado do blogue "Rádio Crítica")

As palavras de Rui Viera Nery seriam ouvidas, ainda que algo tardiamente, pois a Portugal Telecom viria a patrocinar algumas temporadas de concertos (de 1997 a 2003). Na Rádio Comercial, o "Em Órbita" terminou em 1993, pois na sequência da privatização, os novos donos entenderam (tacanhamente, diga-se de passagem) que já não havia lugar para ele. Recomeçou, em 1994, no ressurgido Rádio Clube Português (na frequência que fora da Rádiogeste), com locução de Cândido Mota, mas apenas se manteve no ar durante seis meses. A 3 de Abril de 1998, sexta-feira, às 23:00, o programa voltaria às ondas hertzianas, desta vez na Antena 2, para duas horas de emissão semanais, preenchidas com a fascinante música antiga, devidamente enquadrada com textos lidos por Paulo Rato. Ter encontrado, finalmente, uma nova guarida para o "Em Órbita", quando o panorama radiofónico em Portugal já se revelava assaz deprimente, foi motivo de regozijo para Jorge Gil. Para ele – acrescente-se – e para todos aqueles (que não eram poucos) que se sentiam órfãos com a sua ausência.

Há dias festivos que merecem aplauso da praça pública numa cerimónia qualquer. A passagem de 33 anos sobre a primeira emissão do "Em Órbita" podia ser um deles, mas não interessa celebrar com serpentina cinzenta, guloseima e rugido de foguete em fogo-de-artifício precário, as vicissitudes dum projecto cultural acidentado que, sabe Deus como, sobreviveu até hoje. Em Portugal, o "Em Órbita" foi pioneiro na divulgação do trabalho dos intérpretes que melhor têm protagonizado o movimento de redescoberta e reavaliação do património musical europeu anterior ao advento do Romantismo, que permaneceu em jazida desleixada até meados do século XX. Com transferência marcada para 3 de Abril, o "Em Órbita" passa a ser transmitido na Antena 2 da RDP. Num tempo em que o nivelamento canalha ganhou estatuto triunfante, é um remédio saber da existência de lugares onde não há morada para os difusores de um vírus sem nome próprio, no qual germina a vaga e perigosa luxúria da distracção. (Jorge Gil, in boletim de programação da Antena 2, Abril de 1998)

Infelizmente, volvidos três anos, Jorge Gil daria por finda a realização do "Órbita", indo para o ar, a 30 de Março de 2001, a última edição original. Por decisão de João Pereira Bastos, director de programas da Antena 2, o programa passaria a regime de reposição, o que aconteceu até 29 de Junho do mesmo ano. Desapareceu então do éter mas não sem deixar muitas saudades. No meu caso, tomei contacto com ele em finais dos anos 80 e logo me conquistou. Ficava literalmente imobilizado diante do aparelho a sorver, verdadeiramente deliciado, aquela maravilhosa nova música antiga, à qual a Antena 2 ainda permanecia indiferente. Convém lembrar que, por esses tempos, a rádio pública transmitia pouquíssima música anterior ao classicismo. Bach, Haendel e Vivaldi, nas esporádicas vezes em que apareciam, era invariavelmente em gravações "romantizadas", não raras vezes bem pouco aliciantes. A milhas de distância, portanto, das cativantes e sedutoras interpretações segundo os preceitos estético-estilísticos de abordar a música barroca e pré-barroca, que começaram a afirmar-se nos anos 60, com Nikolaus Harnoncourt, Gustav Leonhardt, Frans Brüggen, Alfred Deller, Anner Bylsma, os irmãos Kuijken, Jordi Savall, Hopkinson Smith e outros.
São muitas as obras e interpretações cuja descoberta devo a Jorge Gil, e entre elas há duas que sempre que as ouço me fazem evocar de imediato o "Em Órbita". Uma é o concerto para duas charamelas, cordas e baixo contínuo, em ré menor, de Telemann, pelo agrupamento Musica Antiqua de Colónia, sob a direcção de Reinhard Goebel. A outra é a marcha da "Música para o Funeral da Rainha Mary", de Henry Purcell, na leitura de John Eliot Gardiner à frente da Monteverdi Orchestra e do Equale Brass Ensemble. A melodia da segunda nem era estranha aos meus ouvidos pois havia-a escutado, em versão electrónica, no filme "Laranja Mecânica" [>> YouTube] mas a interpretação, historicamente informada, de John Eliot Gardiner teve o sortilégio de me tocar de modo tão profundo e impressivo que deixou marca indelével no meu espírito. O blogue "A Nossa Rádio" apresenta essas duas magníficas gravações, que, conjuntamente com "Revenge" e a "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", funcionam como tributo (singelo, mas penhorado) ao "Em Órbita" e ao seu autor, Jorge Gil.

Registo com agrado que a rádio pública não tenha ficado alheada da efeméride dos 50 anos: a Antena 1 transmitiu, a partir das 19:14, um programa especial conduzido por António Macedo, no qual falaram Pedro Castelo, Pedro Albergaria, Cândido Mota e o técnico José Ribeiro [>> RTP-Play: 1.ª hora2.ª hora]; e a Antena 2 repôs uma edição do "Em Órbita", consagrada a Johann Sebastian Bach, logo a seguir a um depoimento de João David Nunes, o carismático primeiro director de programas da Rádio Comercial que também fez a locução do programa durante largos anos.
Não obstante, mais haveria a fazer para celebrar o "Em Órbita" e nessa medida prestando bom serviço público. Enuncio duas ideias. A primeira é a criação, na Antena 3, de um espaço musical, que até podia chamar-se "Memória do Primeiro 'Em Órbita'", onde só entrasse o repertório que foi divulgado na primeira fase. Oportunidade para o auditório mais jovem descobrir uma imensa plêiade de artistas de primeira água da música anglo-americana que hoje apenas podem ser ouvidos no canal codificado VH1 Classic (para quem o pode pagar, evidentemente) ou em plataformas da internet, como o YouTube ou o Spotify (mas, neste caso, é preciso saber que a música existe para se ir à procura dela). A segunda ideia diz respeito à reposição na Antena 2, diariamente (o que podia muito bem ser entre as 19:00 e as 21:00), de todo o acervo erudito do "Em Órbita", desde Janeiro de 1974. Eu parto do princípio de que os registos existem em arquivo; caso contrário estamos na presença de "terrorismo cultural" (a expressão não é minha – é de João Maria de Freitas Branco ao pronunciar-se acerca da bárbara destruição de boa parte do acervo do programa "O Gosto pela Música" que o pai realizou, nos anos 60 e 70, para a Lisboa 2 e o Programa 2 – a denominação "Antena 2" passou a vigorar a partir dos anos 80, se estou bem informado).


Revenge



Música: Ray Davies e Larry Page
Intérprete: Kinks* (in LP "Kinks", Pye Records, 1964)




(instrumental)


* Ray Davies – guitarra ritmo e harmónica
Dave Davies – guitarra base
Peter Quaife – baixo
Mick Avory – bateria
Produção – Shel Talmy



A Lenda de El-Rei D. Sebastião



Letra e música: José Cid
Intérprete: Quarteto 1111* (in EP "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", Columbia/VC, 1967)




[instrumental]

Depois de Alcácer Quibir
El-Rei D. Sebastião
Perdeu-se num labirinto
Com o seu cavalo real

As bruxas e adivinhos
Das altas serras beirãs
Juravam que nas manhãs
De cerrado nevoeiro
Vinha D. Sebastião

Pastoras e trovadores
Das regiões litorais
Afirmaram terem visto
Perdido entre os pinhais
El-Rei D. Sebastião

Ciganos vindos de longe
Falcatos desconhecidos
Tentando iludir o povo
Afirmaram serem eles
El-Rei D. Sebastião
E que voltava de novo

Todos foram desmentidos
Condenados às galés
Pois nas praias dos Algarves
Trazidos pelas marés
Encontraram o cavalo
E farrapos do seu gibão
Pedaços de nevoeiro
A espada e o coração
De El-Rei D. Sebastião

[instrumental]

Depois de Alcácer Quibir
Virá D. Sebastião

E uma lenda nasceu
Entre a bruma do passado
Chamam-lhe o Desejado
Pois que nunca mais voltou
El-Rei D. Sebastião
El-Rei D. Sebastião


* Quarteto 1111: 
José Cid – voz e teclas
António Moniz Pereira – guitarra eléctrica
Jorge Moniz Pereira – viola baixo
Miguel Artur da Silveira (Michel) – bateria



Concerto para duas charamelas, cordas e baixo contínuo, em ré menor, TWV 52:d1



Música: Georg Philipp Telemann
Intérpretes: Eric Hoeprich & Lisa Klewitt / Musica Antiqua Köln, dir. Reinhard Goebel (in LP/CD "Telemann: Bläserkonzerte / Wind Concertos / Concertos Pour Instruments à Vent", Archiv Produktion, 1987)




I. Largo
II. Allegro    [a partir de 4':14'']
III. Adagio   [a partir de 7':16'']
IV. (Vivace) [a partir de 9':41'']


* Eric Hoeprich & Lisa Klewitt – charamelas
Phoebe Carrai – violoncelo
Thierry Maeder – cravo
Orquestra – Musica Antiqua Köln
Direcção – Reinhard Goebel
Gravado na Deutschlandfunk Sendesaal, Colónia (Alemanha), por Wolfgang Mitlehner, em Junho de 1986



Música para o Funeral da Rainha Mary: Marcha



Música: Henry Purcell (1695)
Intérpretes: Monteverdi Orchestra / Equale Brass Ensemble, dir. John Eliot Gardiner* (in LP "Music for Queen Mary", Erato/Éditions Costallat, 1977, reed. Erato, 1995, Erato/Warner Classics, 2014)




(instrumental)


* Monteverdi Orchestra
Equale Brass Ensemble
Direcção – John Eliot Gardiner
Gravado por Peter Willemoës, na Rosslyn Hill Chapel, Hampstead (Londres), em Fevereiro de 1976
Supervisão de gravação – Michel Garcin



Capa do LP "Kinks" (Pye Records, 1964)





Capa e contracapa do EP "A Lenda de El-Rei D. Sebastião" (Columbia/VC, 1967)
Na contracapa vem reproduzido um excerto do texto de Jorge Gil, que fora lido no "Em Órbita" por Cândido Mota



Capa do LP "Telemann: Bläserkonzerte / Wind Concertos / Concertos Pour Instruments à Vent" (Archiv Produktion, 1987)



Capa do CD "Telemann: Bläserkonzerte / Wind Concertos / Concertos Pour Instruments à Vent" (Archiv Produktion, 1987)



Capa do LP "Music for Queen Mary" (Erato/Éditions Costallat, 1977)



Capa do CD "Music for Queen Mary" (Erato, 1995)



Capa do CD "Music for the Queen Mary" (Erato/Warner Classics, 2014)