13 fevereiro 2015

Antena 2: uma miséria de rádio (II)

Qualquer dia é bom para se reflectir e opinar sobre o serviço público de rádio e o de hoje afigura-se assaz oportuno para trazer de novo à liça a Antena 2, tão confrangedor é o mísero estado a que chegou às mãos da tríade de malfeitores Marinho/Pêgo/Almeida. 
Não há muito a acrescentar ao que foi explanado em textos anteriores (links ao fundo), mas importa frisar dois ou três pontos de capital importância. Persiste a penúria de programas culturais – nas áreas da História, da Sociologia, da Antropologia, das Artes, do Pensamento – e mesmo em matéria de música são escassíssimos os programas de autor. Prevalecem os espaços – longuíssimos! – preenchidos com trechos musicais em jeito de miscelânea: vai-se buscar à prateleira um lote de discos ao acaso e toca de passar uma ou duas faixas de cada um, de tal sorte que durante uma hora (há que não ultrapassar esse tempo porque os 'jingles' e os 'spots' promocionais têm forçosamente de ser disparados, mesmo que já tenham ido para o ar milhentas vezes) podem ser transmitidas as obras mais díspares em género, estilo e época. «Mete-se tudo no mesmo saco e logo se vê o que sai na rifa». Perguntamos: isto é prestar bom serviço público? É com este método desconexo e destruturado que a Antena 2 cumpre a nobre missão para a qual foi criada e que é, por um lado, a de satisfazer os ouvintes mais eruditos e exigentes e, por outro, a de promover o gosto e o conhecimento nos principiantes? Jamais! Não corresponde cabalmente às expectativas dos primeiros e afugenta os segundos, de tão perdidos e desorientados que se sentem no meio de tal babel musical. Vistas bem as coisas, a Antena 2, durante largas horas do dia, não é muito diferente de uma vulgar rádio de 'playlist', se exceptuarmos a atenuante de as peças musicais não estarem sujeitas a padrões de repetição durante o mesmo dia ou nos seguintes (como acontece na Antena 1, por exemplo). No fundo, o que Rui Pêgo fez foi aplicar à Antena 2 a formatação em vigor nas rádios de música pop por onde passou (a começar pela RFM), revelando assim uma evidente incapacidade para perceber as especificidades de um canal vocacionado para a alta cultura. Incapacidade e desinteresse, pois ao mesmo tempo que deixa a Antena 2 na indigência não faz a menor parcimónia em engordar a clientela de colaboradores externos da Antena 1 (como sucedeu já este ano).
No Dia Mundial da Rádio, o escrevente destas linhas e, estou em crer, muitos mais ouvintes insatisfeitos com a actual Antena 2 deixam expresso o desejo de que o novo responsável pelos conteúdos na administração da Rádio e Televisão de Portugal, Nuno Artur Silva, olhe para o canal e lhe restitua a dignidade perdida (depois da saída de João Pereira Bastos foi sempre a descer). E o primeiro passo será, inevitavelmente, voltar a autonomizar a direcção de programas e entregá-la a uma pessoa com a necessária e conveniente sensibilidade cultural. Atrevo-me a sugerir um nome: a pianista e ex-ministra da Cultura Gabriela Canavilhas.


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Grandes discos da música portuguesa: editados em 2014


[em preparação]

29 janeiro 2015

A infância e a música portuguesa (V)

Quinta parte: Na escola – Prosseguindo o caminho >>> aqui

17 janeiro 2015

23 dezembro 2014

Em memória de Fernando Machado Soares (1930-2014)



Fernando Machado Soares nasceu em S. Roque do Pico (distrito da Horta - Açores), em 3 de Setembro de 1930 e licenciou-se nos finais da década de 50, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Este cantor, poeta e compositor, começou a cantar em Coimbra, nos anos 50, integrado num histórico grupo de fados e guitarradas, do qual faziam parte, entre outros, Luiz Goes, José Afonso, Fernando Rolim e Florêncio de Carvalho, e ainda António Brojo, António Portugal (guitarras), Aurélio Reis e Mário de Castro (violas). 
Machado Soares colaborou intensamente com os organismos académicos da altura, tendo-se deslocado ao Brasil com o Orfeon em 1954 e feito o périplo de África com a Tuna, em 1956. Em 1961, já licenciado em Direito, acompanhou o Orfeon aos Estados Unidos da América. 
Em 1957, com António Portugal e Jorge Godinho (guitarras) e Manuel Pepe e Levy Baptista (violas), Fernando Machado Soares prepara a gravação de um disco que ficará para a História como um dos momentos mais altos do fado de Coimbra e onde toda a sua criatividade renovadora ficou bem patente: o LP do "Coimbra Quintet", gravado para a Philips, em Madrid, num estúdio de excelentes condições técnico-acústicas. 
Apesar da sua importante colaboração na concepção dos arranjos e de algumas composições suas figurarem no disco, acabou por ser Luiz Goes, e não Machado Soares, a registar a sua voz no vinil: pura e simplesmente, o cantor decidiu não se deslocar à gravação e, à última hora, foi substituído por Luiz Goes, o qual, rápida e talentosamente, recebeu o testemunho de Machado Soares e realizou uma brilhante performance em estúdio. 
Machado Soares é talvez, depois de Menano e Bettencourt, o nome mais importante do fado de Coimbra (mais pela renovação que promoveu e pela qualidade e quantidade das suas composições, do que pela sua forma de interpretar, aliás também excelente).
Na realidade, foi este açoriano quem criou as condições da transição do fado clássico para as baladas e para as trovas, que as vozes de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira vieram a imortalizar: sem o contributo de Machado Soares, seguramente que teria sido outra, diferente e menos rica, a trajectória do Zeca e do Adriano (o qual, aliás, gravou muitas composições de Machado Soares). 
Durante os seus tempos de Coimbra não era fácil conseguir ouvir cantar Machado Soares: ele só cantava quando lhe apetecia. E não lhe apetecia muitas vezes... 
Curiosamente, foi depois de deixar Coimbra e iniciar a sua carreira de magistrado (em comarcas como Guimarães, Santarém, Almada e outras) que Machado Soares, aos fins-de-semana, rumava à Lusa Atenas para cantar e conviver, acolhendo-se à "sua" República Baco, onde vivera durante os seus tempos de estudante e onde, nessa altura, residiam José Niza (que o acompanhava à guitarra e à viola), Fernando Gomes Alves (outro cantor de fados), Manuel Pepe (já médico, mas ainda residente na República e viola do grupo de António Portugal) e ainda Francisco Bandeira Mateus, que fez versos para alguns dos fados de Machado Soares.
Entretanto, com a transferência para o Tribunal de Almada – já como juiz corregedor – a carreira de Machado Soares conhece imprevistos desenvolvimentos. 
Nas noites de Lisboa começa a ser frequentador assíduo de casas de fado, acabando por se "fixar" no "Senhor Vinho", da fadista Maria da Fé [e do poeta José Luís Gordo], onde começou a ser acompanhado pelo grande guitarrista Fontes Rocha, pelos violas da casa e, muitas vezes, por Durval Moreirinhas. No "Senhor Vinho", Machado Soares actuava integrado no elenco dos artistas residentes, cantando sempre canções suas ou do repertório de Coimbra, e deliciando os frequentadores com a expressão da sua voz fortíssima e as "nuances" pianíssimas que imprimia às suas interpretações. 
Aliás, o facto de ser juiz de dia e cantor à noite, não caiu bem no Ministério da Justiça, que considerava lesivas da dignidade da magistratura as suas actuações públicas. Machado Soares em nada alterou este seu "desdobramento de personalidade", continua a cantar onde lhe apetece e, entretanto, chegou ao topo da sua carreira de magistrado, sendo actualmente Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça. 
De toda a sua riquíssima obra destaca-se um tema que será um dos mais conhecidos e cantados da música popular portuguesa: a Balada do 6.º ano médico "Coimbra tem mais encanto / na hora da despedida". Para Machado Soares – e já lá vão mais de 35 anos passados sobre a despedida – Coimbra continua a ter encantos infinitos e a servir de motivação para uma das obras mais importantes da música portuguesa da segunda metade do século.

JOSÉ NIZA (texto publicado no livro apenso ao duplo CD "Fados e Guitarradas de Coimbra: Vol. 1", Movieplay, 1996)


Fernando Machado Soares faleceu em Almada, a 7 de Dezembro de 2014. 
A notícia veio a lume no dia 10 (vide artigo de Gonçalo Fragata no "Público") mas a rádio estatal manteve-se completamente alheada do triste acontecimento. Como se explica que a Antena 1, atendendo às especiais obrigações que tem no domínio da música portuguesa, não tenha feito a devida homenagem ao eminente artista? A explicação encontra-se, evidentemente, no já sobejamente conhecido obscurantismo cultural de quem a dirige... 
O blogue "A Nossa Rádio" pauta-se por uma atitude bem diferente e faz o serviço público de apresentar um punhado dos mais belos espécimes do repertório de Fernando Machado Soares, pois a melhor forma de render tributo à sua memória é ouvi-lo. E como se afigura muito a propósito na presente quadra, o rol termina com a canção "Oh Meu Menino Jesus", uma das mais maravilhosas peças do cancioneiro natalício que até hoje se criaram em Portugal (e no mundo). Uma pérola perdida no vinil...



Balada do Entardecer



Letra e música: Fernando Machado Soares
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in EP "Fados e Guitarradas de Coimbra", Alvorada MEP 60109, 1958; "Fados e Guitarradas de Coimbra: Vol. 1": CD1, Movieplay, 1996)


[instrumental]

Ó Mondego, ó Mondego, 
Diz-me se corres p'ró mar!
Ao meu amor, em segredo, 
Saudades quero mandar.

Ó Mondego, ó Mondego, 
Diz-me se corres p'ró mar!

[instrumental]

Quero saudades mandar
Em troca das minhas dores.
Diz-me se corres p'ró mar,
Espelho das minhas dores!

Diz-me se corres p'ró mar,
Espelho das minhas dores!


* António Portugal e Jorge Godinho – guitarras de Coimbra
Manuel Pepe e Levy Baptista – violas



O Que Mais me Prende ao Mundo



Letra: Popular (1.ª quadra) e Fernando Machado Soares
Música: Fernando Machado Soares
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in EP "Fados e Guitarradas de Coimbra", Alvorada MEP 60110, 1958; "Fados e Guitarradas de Coimbra: Vol. 1": CD1, Movieplay, 1996)


[instrumental]

O que mais me prende ao mundo
Não é amor de ninguém;
É que a morte, de esquecida,
Deixa o mal e leva o bem.

[instrumental]

Quando eu um dia morrer,
Não chores, ó minha amada!
Também a morte é viver
Quando a vida não é nada.


* António Portugal e Jorge Godinho – guitarras de Coimbra
Manuel Pepe e Levy Baptista – violas



Fado da Noite



Letra: Popular
Música: Jorge de Morais (Xabregas)
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in EP "Fados e Guitarradas de Coimbra", Alvorada MEP 60111, 1958; "Fados e Guitarradas de Coimbra: Vol. 1": CD2, Movieplay, 1996)


[instrumental]

A vida é negra, tão negra,
Como a noite nos pinhais;
Mas é nas noites mais negras
Que as estrelas brilham mais.

[instrumental]

Dá-me os teus olhos profundos
E pode o mundo acabar!
Que importa o mundo se há mundos
Lá dentro do teu olhar!


* António Portugal e Jorge Godinho – guitarras de Coimbra
Manuel Pepe e Levy Baptista – violas



Balada da Despedida (Coimbra Tem Mais Encanto)



Letra: Francisco Bandeira Mateus
Música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




Coimbra tem mais encanto 
Na hora da despedida.
[bis]

Que as lágrimas do meu pranto 
São a luz que lhe dá vida.

Coimbra tem mais encanto 
Na hora da despedida.
[bis]

Quem me dera estar contente, 
Enganar a minha dor, 
Mas a saudade não mente 
Se é verdadeiro o amor.

Coimbra tem mais encanto 
Na hora da despedida.
[bis]

Não me tentes enganar
Com a tua formosura,
Que para além do luar 
Há sempre uma noite escura. 

Coimbra tem mais encanto 
Na hora da despedida.
[bis]

Que as lágrimas do meu pranto 
São a luz que lhe dá vida.

Coimbra tem mais encanto 
Na hora da despedida.
[4x]


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



O Fado dos Passarinhos (Passarinho da Ribeira)



Letra: Popular
Música: António Menano
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Passarinho da ribeira,
Se não és meu inimigo,
Empresta-me as tuas asas,
Deixa-me ir voar contigo!

Passarinho da ribeira,
Ai... deixa-me ir voar contigo!

Ao longe, cortando o espaço,
Vai um bando de andorinhas...
Que te leva um abraço
E muitas saudades minhas.

Ao longe, cortando o espaço,
Ai... vai um bando de andorinhas...


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



Canção das Lágrimas



Letra e música: Armando Goes
Arranjo: Fernando Machado Soares
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Lágrimas que a gente chora
E sufocam nossos ais,
Deixai-as lá ir embora,
Que elas vão, nem voltem mais.

[instrumental]

Tanta dor, tanta amargura,
A sulcar faces tão belas;
E tanta água que é pura
A lavar sujas vielas.


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



Fado da Mentira



Letra: António Menano
Música: António Menano e Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Fiz uma cova na areia
P'ra enterrar minha mágoa;
Entrou por ela o mar todo,
Não encheu a cova d'água.

[instrumental]

Ninguém conhece no rosto
Todo o bem que a alma inspira;
A vida é gosto e desgosto:
Mentira, tudo mentira.

[instrumental]


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



Rosas Brancas



Letra e música: António de Sousa
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Quando eu morrer, nem sequer
Na campa uma cruz erguida!
Para calvário, já basta
A cruz que eu levo da vida.

Quando eu morrer, nem sequer
Na campa uma cruz erguida!

[instrumental]

Quando eu morrer, rosas brancas
Para mim ninguém as corte!
Quem as não teve na vida
Também as não quer na morte.

Quando eu morrer, nem sequer
Na campa uma cruz erguida!


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



Vira de Coimbra



Letra e música: Popular (anterior ao século XVIII)
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Coimbra, p'ra ser Coimbra,
Três coisas há-de contar:
Guitarras, tricanas lindas
E um estudante a cantar.

Ó Portugal que mais queres
Que mais podes desejar,
Se tem tão lindas mulheres,
O teu fado, o teu luar?

Dizem que amor de estudante
Não dura mais que uma hora;
Só o meu é tão velhinho
E inda se não foi embora.

[instrumental]


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



O Meu Menino



Letra: Popular (1.ª quadra) e Alexandre Resende
Música: Alexandre Resende 
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

O meu Menino é d'oiro,
É d'oiro o meu Menino;
Hei-de levá-lo ao céu
Enquanto for pequenino!

[instrumental]

Enquanto for pequenino,
Tão puro como o luar,
Hei-de levá-lo ao céu,
Hei-de ensiná-lo a cantar!


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



Santa Clara



Letra e música: Ângelo de Araújo
Arranjo: Ângelo de Araújo
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Santa Clara, Santa Clara,
A teus pés corre o Mondego,
A namorar-te em segredo,
Minha linda Santa Clara!

[instrumental]

Beija-te os pés, Santa Clara,
O Mondego sonhador;
E nesse beijo de amor
Vão mil preces, Santa Clara!

[instrumental]


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



Fado das Andorinhas



Letra e música: António Almeida d'Eça
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Porque os meus olhos se apartam
Dos teus, não lhes queiras mal,
Que as andorinhas que partem
Voltam ao mesmo beiral!

[instrumental]

Eu hei-de voltar um dia,
Eu sou como as andorinhas,
Se as tuas saudades forem
Bater à porta das minhas.


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



Fado Corrido



Letra: Augusto Hilário (1.ª quadra) e Popular
Música: Popular
Arranjo: António Portugal
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

A minha capa velhinha
É da cor da noite escura;
Nela quero amortalhar-me
Quando for p'ra a sepultura.

[instrumental]

Coimbra, rio Mondego
Dos roussinóis ao luar,
Em tuas margens de sonho
Ficou minha alma a chorar.

[instrumental]

Hei-de perguntar um dia
Ao vento o que diz às flores,
Para ver se é só uma
Esta linguagem de amores.

[instrumental]


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola
Produção – José Luís Gordo



Canto de Amor e de Amar



Letra: Ana Costa Nunes, Luís de Camões e Fernando Machado Soares
Música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Um amor p'ra ser amor
Dura sempre a vida inteira;
Quem amar segunda vez
Não amou bem da primeira.

Um amor p'ra ser amor
Dura sempre a vida inteira...

De qualquer modo que existas,
És a minha divindade;
Ventura quando te vejo,
Se te não vejo, saudade.

Um amor p'ra ser amor
Dura sempre a vida inteira...
[bis]

E quando já for saudade
Sem que nada nos conforte,
É sinal que ainda vive
Mesmo para além da morte.

Um amor p'ra ser amor
Dura sempre a vida inteira;
Quem amar segunda vez
Não amou bem da primeira.

Um amor p'ra ser amor
Dura sempre a vida inteira...
[bis]

[instrumental]


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



Serra d'Arga



Letra: Popular
Música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Abaixa-te, ó Serra d'Arga,
Que eu quero ver São Lourenço!
Quero ver o meu amor,
Acenar-lhe com o lenço.

[instrumental]

Menina do lenço preto,
Diga-me quem lhe morreu:
Se foi pai ou se foi mãe?
Que por ela morro eu!

[instrumental]


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



Balada do Outono



Letra e música: José Afonso
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Águas passadas do rio,
Meu sono vazio
Não vão acordar!
Águas das fontes calai,
Ó ribeiras chorai,
Que eu não volto a cantar!

Rios que vão dar ao mar,
Deixem meus olhos secar!
Águas das fontes calai,
Ó ribeiras chorai,
Que eu não volto a cantar!

[instrumental]

Águas das fontes calai,
Ó ribeiras chorai,
Que eu não volto a cantar!

[instrumental]

Águas do rio correndo,
Poentes morrendo
P'rás bandas do mar...
Águas das fontes calai,
Ó ribeiras chorai,
Que eu não volto a cantar!

Rios que vão dar ao mar,
Deixem meus olhos secar!
Águas das fontes calai,
Ó ribeiras chorai,
Que eu não volto a cantar!

[instrumental]

Águas das fontes calai,
Ó ribeiras chorai,
Que eu não volto a cantar!


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



Maria



Letra e música: Ângelo de Araújo
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Maria, se fores ao baile,
Leva o teu xaile,
Pode chover!
De manhã, de madrugada
Cai a geada,
Podes morrer.

[instrumental]

Maria, se ouvires cantar,
Vem ao luar
Ouvir quem canta!
Que a noite, com seu luar,
Lembra o olhar
De quem me encanta.


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



Maria Faia



Letra e música: Popular (Beira Baixa)
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Eu não sei como te chamas,
Ó Maria Faia,
Nem que nome te hei-de eu pôr,
Ó Maria Faia, ó Faia Maria!

Cravo não, que tu és rosa,
Ó Maria Faia;
Rosa não, que não tem flor,
Ó Maria Faia, ó Faia Maria!

[instrumental]

Não te quero chamar cravo,
Ó Maria Faia,
Que te vou engrandecer,
Ó Maria Faia, ó Faia Maria!

Chamo-te antes espelho,
Ó Maria Faia,
Onde espero de me ver,
Ó Maria Faia, ó Faia Maria!

[instrumental]

Dizem que a saudade espera,
Ó Maria Faia,
A ausência para chegar,
Ó Maria Faia, ó Faia Maria!

Eu tenho saudades tuas,
Ó Maria Faia,
Inda antes de te deixar,
Ó Maria Faia, ó Faia Maria!


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola
Mário Duarte – adufe



Foi Deus



Letra e música: Alberto Janes
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Não sei...
Não sabe ninguém
Porque canto o fado
Neste tom magoado
De dor e de pranto;
E neste tormento,
Todo sofrimento,
Eu sinto que a alma
Cá dentro se acalma
Nos versos que canto.

Foi Deus
Que deu voz ao vento,
Luz ao firmamento
E deu o azul às ondas do mar;
Foi Deus
Que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que eu vou desfiando e choro a cantar.

Pôs as estrelas no céu,
Fez o espaço sem fim,
Deu o luto às andorinhas
Ai... e deu-me esta voz a mim.

Se canto...
Não sei o que canto:
Misto de ventura,
Saudade, ternura 
E talvez amor;
Mas sei que cantando
Sinto o mesmo quando
Se tem um desgosto
E o pranto no rosto 
Nos deixa melhor.

Foi Deus
Que deu luz aos olhos,
Perfumou as rosas,
Deu oiro ao sol e prata ao luar;
Foi Deus
Que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que eu vou desfiando e choro a cantar.

Fez poeta o rouxinol,
Pôs no campo o alecrim,
Deu as flores à Primavera
Ai... e deu-me esta voz a mim.

[instrumental]

Deu as flores à Primavera
Ai... e deu-me esta voz a mim.


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



Estrelinha do Norte



Letra: Popular (1.ª quadra) e Ângelo de Araújo
Música: João Gonçalves Jardim
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)




[instrumental]

Ó estrelinha do norte,
Espera por mim que eu já vou!
Alumia meu caminho, 
Já que o luar me enganou!

[instrumental]

Seguirei sempre a teu lado
No rasto da tua luz;
Não quero mais o luar
Alumiar minha cruz.


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola



Fado Resende



Poema: Manuel Laranjeira
Música: Alexandre Resende
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)


[instrumental]

Ao morrer, os olhos dizem:
– «Pára, Morte, e espera aí!
Vida, não vás tão depressa
Que eu inda te não vivi...»

[instrumental]

A Vida foge e a Morte
É quem responde em vez dela:
– «Mas que culpa tem a Vida
De que não saibam vivê-la?»


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola
Produção – João Calado
Gravado e misturado no Estúdio Angel 2, Lisboa



A Ilha e o Sonho



Letra e música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)


[instrumental]

No meu sonho de menino 
Via-te ao longe a vogar, 
Como Bela Adormecida 
Entre o céu e o azul do mar.

Em noites de tempestade, 
Enfrentando a maresia, 
Eras um Barco Encantado 
No meu sonho e fantasia.

Tantos anos já passaram,
Foi-se a vida, foi-se a esperança,
Mas ficou sempre em minha alma 
Esse sonho de criança.

[instrumental]



Senhora d'Aires



Letra e música: Popular (Alentejo)
Arranjo: Fernando Machado Soares
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)


[instrumental]

A Senhora d'Aires 
De ao pé de Viana 
Tem o seu altar 
Feito à romana.

Tem o seu altar 
Feito à romana 
A senhora d'Aires 
De ao pé de Viana.

As cobrinhas d'água 
São minhas comadres; 
Quando lá passares 
Dá-lhes saudades.

Dá-lhes saudades, 
Saudades minhas,
Quando lá passares 
Ao pé das cobrinhas.

As cobrinhas d'água 
São minhas comadres; 
Quando lá passares 
Dá-lhes saudades.

Dá-lhes saudades, 
Saudades minhas,
Quando lá passares 
Ao pé das cobrinhas.

[instrumental]

A Senhora d'Aires 
De ao pé de Viana 
Tem o seu altar 
Feito à romana.

Tem o seu altar 
Feito à romana 
A senhora d'Aires 
De ao pé de Viana.

[instrumental]

A Senhora d'Aires 
De ao pé de Viana 
Tem o seu altar 
Feito à romana.

[instrumental]





Viana do Alentejo: Santuário de Nossa Senhora de Aires.
O altar em baldaquino faz lembrar o da Basílica de São Pedro, em Roma.



Santa Luzia



Letra: Popular da Beira Baixa (1.ª quadra) e Fernando Machado Soares
Música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)


[instrumental]

Para que quero eu olhos, 
Senhora Santa Luzia, 
Se eu não vejo meu amor 
Nem de noite, nem de dia?

[instrumental]

Senhora Santa Luzia, 
Senhora do meu pesar, 
Porque não me dais os olhos 
P'ra o meu amor encontrar?



Teu Nome



Letra e música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)


[instrumental]

Teu nome na voz do vento,
Teu nome na voz do mar,
Teu nome encantamento 
Da vida só por te amar.

Teu nome na voz do vento,
Teu nome na voz do mar...

[instrumental]

Teu nome traz o luar,
Traz o sonho, traz a esperança
De um dia eu te encontrar 
Como um barco, a bonança.



Balada para uma Vida



Letra e música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)


[instrumental]

Meu amor na primavera,
Flor de sol do meu jardim 
Que me enlaça como a hera 
No corpo que nasce em mim.

Meu amor na primavera,
Flor de sol do meu jardim...

[instrumental]

Pôr-do-sol, morto, sem cor 
Nas sombras do meu Outono 
Onde agoniza uma flor 
E a minha noite, sem sono.

Pôr-do-sol, morto, sem cor 
Nas sombras do meu Outono...



Noites de Festa



Letra e música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)


[instrumental]

Todos gostam de Coimbra, 
Todos querem lá passar 
Mas ninguém sabe o que custa 
Ter um dia que a deixar.

[instrumental]

És tão velha, tão antiga,
Ninguém sabe a tua idade,
Mas ainda és tão bela 
Que a todos deixas saudades.

[instrumental]

Minha dor já era grande 
Ao cantar nas tuas ruas, 
Pois ainda em estudante 
Já tinha saudades tuas.

[instrumental]



Trova do Vento Que Passa



Poema: Manuel Alegre
Música: António Portugal
Arranjo: António Portugal
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)


[instrumental]

Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
O vento cala a desgraça
O vento nada me diz.

[instrumental]

Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.

[instrumental]

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.

[instrumental]


* Fernando Machado Soares – voz e viola
José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Ricardo Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola
Direcção artística – Frédéric Deval
Gravado e misturado em Arles à la Chapelle du Méjan, em Setembro de 1993, por Jean-Claude Chabin, assistido por Gérard Faucilhon



Oh Meu Menino Jesus



Letra e música: Fernando Machado Soares
Arranjo: Fernando Machado Soares
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in single "Natal / Oh Meu Menino Jesus", Philips/Polygram, 1986)


[instrumental]

Oh meu Menino Jesus,
Vestido cor de marfim,
Um corpo tão pequenino,
Um coração sem ter fim!

Oh meu Menino Jesus,
Vestido cor de marfim...

[instrumental / vocalizos]

Abrem-se as flores do monte
Para o Menino as pisar;
Rasgam-se as águas da fonte
Para a sede lhe matar.

Abrem-se as flores do monte
Para o Menino as pisar...

[instrumental / vocalizos]

Deixem passar o Menino
Pela mão da Virgem Maria!
Onde põe os seus pezinhos
Há para sempre alegria.

Deixem passar o Menino
Pela mão da Virgem Maria!...

[instrumental / vocalizos]


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola
Ramon Galarza – teclas
Produção – Ramon Galarza
Gravado no Estúdio Angel 2, Lisboa



Capa do EP "Fados e Guitarradas de Coimbra" (Alvorada MEP 60109, 1958) 
Disco colectivo; contém um tema por Fernando Machado Soares: "Balada do Entardecer"



Capa do EP "Fados e Guitarradas de Coimbra" (Alvorada MEP 60110, 1958) 
Disco colectivo; contém um tema por Fernando Machado Soares: "O Que Mais me Prende ao Mundo"



Capa do EP "Fados e Guitarradas de Coimbra" (Alvorada MEP 60111, 1958) 
Disco colectivo; contém um tema por Fernando Machado Soares: "Fado da Noite"



Capa do LP "Coimbra Tem Mais Encanto" (Philips/Polygram, 1986)
Contém dez temas (todos cantados)



Capa do single "Natal / Oh Meu Menino Jesus" (Philips/Polygram, 1986)



Capa do LP "Serenata" (Philips/Polygram, 1988)
Contém oito temas (todos cantados)



Capa do CD "Fernando Machado Soares" (Philips/Polygram, 1988)
Reúne os temas (dezoito) dos LPs "Coimbra Tem Mais Encanto" e "Serenata"



Capa do CD "Le Fado de Coimbra" (Ocora/Radio France, 1988)
Contém catorze temas (doze cantados e dois instrumentais) gravados ao vivo no Grand Auditoire da Radio France, Paris, a 18 de Março de 1987 



Capa do CD "Le Fado de Coimbra" (Ethnic/Auvidis, 1994)
Fotografia de azulejos do Palácio Fronteira, em Lisboa. © Nicolas Sapieha
Contém doze temas (dez cantados e dois instrumentais)