19 julho 2016

01 junho 2016

A infância e a música portuguesa (VII)

Sétima e última parte: Criança bem amada, criança mal amada >>> aqui

01 abril 2016

Cesário Verde por Mário Viegas



«1 de Abril

         Mário Viegas morreu. Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas a um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargo da boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto.»

José Saramago (in "Cadernos de Lanzarote: Diário - IV", Lisboa: Editorial Caminho, 1997 – p. 102)


Naquele dia das mentiras de 1996, a notícia parecia falsa, mas veio a revelar-se verdadeira. Uma enorme e irremediável perda para o teatro e – não menos importante – para a poesia (na vertente recitada). O próprio Mário Viegas tinha a perfeita consciência de que era na recitação de poesia que residia o seu contributo mais significativo e duradouro para a cultura portuguesa, quando em 1991 analisou, retrospectivamente, o seu percurso artístico: «Se alguma coisa consegui profissionalmente nestes anos todos, isso devo-o aos recitais de poesia, às centenas e centenas de autores que interpretei, aos milhares de poemas que disse, e em que, de facto, não tive concorrência. É como recitador, portanto, que hoje me sinto realizado.» (entrevista concedida a José Manuel da Nóbrega, in jornal "Se7e", 17.01.1991)
Um dos quatro poetas que Mário Viegas mais admirava era Cesário Verde (os outros três eram: Luís de Camões, Camilo Pessanha e Fernando Pessoa). É pois do autor de "O Sentimento dum Ocidental", a pretexto dos 130 anos da morte, que agora apresentamos um bom naco da sua obra, na voz do insigne recitador.
E o que fez a rádio pública portuguesa em homenagem a Mário Viegas? Nas Antenas 1 e 2 não dei por nada. Como explicar a vergonhosa omissão da direcção de programas encabeçada por Rui Pêgo? Pura e simples negligência ou propósito deliberado de apagar a memória de Mário Viegas? Absolutamente imperdoável!



CARTA A SILVA PINTO (1875)




Meu muito querido e excelente irmão:

       Como hoje é domingo, só tarde recebi a tua bondosa carta e não posso dizer-te, como desejo, a expansão que ela me produziu.
       És uma alma extraordinária; eu sou indigno de ti; acredita-o. Valho tanto como os demais.
       Não te iludas comigo.
       Os conselhos dedicados que me dás, e que eu recebo com o maior reconhecimento, são a verdade. E é isso que eu já pensava, mas julgo que não me fiz compreender bem.
       A poesia que eu hoje te mando é a minha última maneira. Vês por ela que eu não desprezo de modo algum o coração, que quando desprezado não deixa brotar nenhuma obra de arte.
       Mas o que eu desejo é aliar ao lirismo a ideia de justiça.
       Eu não sei a quem te referes quando falas dos pérfidos.
       Eu aqui não me dou senão com dois ou três rapazes do comércio, bem amigos.
       O que eu hoje recebi de ti justificou-me, sem necessidade e mais uma vez, a grande lealdade da tua alma diferente de todas que tenho observado. És um tigre amoroso.
       Perdoa-me; eu nem sei o que digo.
       Mas aqui ninguém me quer mal, também é verdade. O Junqueiro, de quem tanta gente diz mal, é um dos homens que me trata com mais especial deferência; até quando fala de mim aos rapazes. Ele tem fama de desfrutador: e apesar disso julgo-o sincero comigo, chegando a dispensar-me cavacos duma grande intimidade que ele confessa raríssima para os outros. Os versos que te mando sugeriram-lhe umas frases que, se eu não fosse desconfiado, encher-me-iam duma fatuidade intolerável.
       A mais ninguém escuto e sigo com plena confiança como a ti: afianço-te.
       Os outros entretêm-me no cavaco, têm bons ditos, conversam bem e fazem-me sorrir. Que, com verdade, não tenho razão de queixa de nenhum, e, às vezes, cismo na razão por que todo o mundo me trata bem. Ninguém me deve obséquios, ninguém me quer enganar e muitos me procuram e me penhoram de pequenas delicadezas que eu não sei pagar, muitas vezes, com igualdade.
       Isto superficialmente; que amigos íntimos, íntimos, só tenho um: és tu.
       Mas, pelo amor de Deus, não te expandas assim comigo, que me fazes mal!
       Sinto remorsos e uma grande impossibilidade de retribuir a um coração tão singular como o teu.
       Eu sou frio, pausado, calculista como todas as organizações criadas neste meio comercial. E tu não. És ardente, imaginoso, excessivo, e isso leva a imensas decepções e a imensos desgostos.
       Não te fies em mim, que sou igual a todo o mundo — sendo tu, na vida prática, a única amizade real e verdadeira que se me tem dedicado.
       Beijo-te reconhecido.

Teu
Cesário Verde


Janeiro de 1875



O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL




                       A Guerra Junqueiro


                                 I

                        AVE-MARIAS

          Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

          O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

          Batem os carros d'aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

          Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

          Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

          E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

          E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

          Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

          Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

          Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

          Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!


                                 II

                       NOITE FECHADA

          Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de "dom"!

          E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha sé, das cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

          A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

          Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

          Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

          Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico d'outrora ascende, num pilar!

          E eu sonho a Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

          Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

          Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

          E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

          E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.


                                 III

                             AO GÁS

          E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

          Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

          As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

          Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

          E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

          Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

          Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

          E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

          Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

          Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

          «Dó da miséria!... Compaixão de mim!...»
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de latim!


                                 IV

                       HORAS MORTAS

          O tecto fundo de oxigénio, d'ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

          Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

          E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

          Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

          Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

          Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

          Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

          E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

          Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

          E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

          E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!


10 de Junho de 1880

(in "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886", org. Silva Pinto, Lisboa: Typographia Elzeveriana, 1887 – p. 60-68)



               DESASTRE  




Ele ia numa maca, em ânsias, contrafeito,
Soltando fundos ais e trémulos queixumes;
Caíra dum andaime e dera com o peito,
Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

A brisa que balouça as árvores das praças,
Como uma mãe erguia ao leito os cortinados,
E dentro eu divisei o ungido das desgraças,
Trazendo em sangue negro os membros ensopados.

Um preto, que sustinha o peso dum varal,
Chorava ao murmurar-lhe: «Homem não desfaleça!»
E um lenço esfarrapado em volta da cabeça
Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

Flanavam pelo Aterro os dândis e as cocottes,
Corriam char-à-bancs cheios de passageiros
E ouviam-se canções e estalos de chicotes,
Junto à maré, no Tejo, e as pragas dos cocheiros.

Viam-se os quarteirões da Baixa: um bom poeta,
A rir e a conversar numa cervejaria,
Gritava para alguns: «Que cena tão faceta!
Reparem! Que episódio!» Ele já não gemia.

Findara honradamente. As lutas, afinal,
Deixavam repousar essa criança escrava,
E a gente da província, atónita, exclamava:
«Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!»

Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos;
Mornas essências vêm duma perfumaria,
E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,
Numa travessa escura em que não entra o dia!

Um fidalgote brada a duas prostitutas:
«Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!»
Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas
E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,
De bagas de suor tinha uma vida cheia;
Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,
Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

Depois da sesta, um pouco estonteado e fraco,
Sentira a exalação da tarde abafadiça;
Quebravam-lhe o corpinho o fumo do tabaco
E o fato remendado e sujo da caliça.

Gastara o seu salário — oito vinténs ou menos —,
Ao longe o mar, que abismo! e o sol, que labareda!
«Os vultos, lá em baixo, oh! como são pequenos!»
E estremeceu, rolou nas atracções da queda.

O mísero a doença, as privações cruéis
Soubera repelir — ataques desumanos!
Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos
Andara a apregoar diários de dez réis.

Anoitecia então. O féretro sinistro
Cruzou com um coupé seguido dum correio,
E um democrata disse: «Aonde irás, ministro!
Comprar um eleitor? Adormecer num seio?»

E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro,
— Conservador, que esmaga o povo com impostos —,
Mandava arremessar — que gozo! estar solteiro! —
Os filhos naturais à roda dos expostos...

Mas não, não pode ser... Deite-se um grande véu...
De resto, a dignidade e a corrupção... que sonhos!
Todos os figurões cortejam-no risonhos
E um padre que ali vai tirou-lhe o solidéu.

E o desgraçado? Ah! Ah! Foi para a vala imensa,
Na tumba, e sem o adeus dos rudes camaradas:
Isto porque o patrão negou-lhes a licença,
O Inverno estava à porta e as obras atrasadas.

E antes, ao soletrar a narração do facto,
Vinda numa local hipócrita e ligeira,
Berrara ao empreiteiro, um tanto estupefacto:
«Morreu! Pois não caísse! Alguma bebedeira!»


30 de Outubro de 1875



CARTA A ANTÓNIO DE MACEDO PAPANÇA (CONDE DE MONSARAZ) (1877)




António

       Fiquei hoje em casa, um pouco adoentado, com suposições de doenças, de futuros quebrados, confusamente baço, sem lucidez de cérebro nem de ponto de vista. Enquanto o sol, numa grande esteira clara, me entrou pelo quarto, estive bem contente, exuberante, cheio; a luz doirada e tépida sorria no estuque das paredes, nas cercaduras de flores pintadas, no mogno polido das cadeiras, no verniz de ferro do meu leito modesto de solteiro, na colcha muito lavada, com um bom cheiro de barreia e de alfazema, e na minha imaginação de rapaz saudável.
       Mais tarde abri todas as três janelas para receber mais claridade; invadiu-me a sombra triste, a melancolia do crepúsculo, a friagem antipática da humidade. Quando pus a testa sobre os vidros para espairecer os olhos pelo jardim que vegeta debaixo, lembrei-me de imensas coisas que passaram, dos meus tempos de criança, do colégio de que voltava às quatro horas a um toque de sineta, de minha irmã que morreu e que iluminava todas as casas com a sua beleza alta e sossegada, dos meus temas de francês, dum caixeiro que foi para o Brasil e que me agarrava ao colo balançando-me com ameaças e sustos de me arremessar lá ao fundo do pátio que já não existe também.
       Agora há aqui uma padaria em que se está erguendo uma chaminé enorme de forno, para deitar o fumo muito acima. Os pedreiros, porque era quase Ave-Marias, demoravam o trabalho devagarinho, poupavam o resto do aviamento, da cal; e tudo, a natureza, os arvoredos dos quintais próximos, a linha dos prédios na Praça da Alegria aonde mora o Oliveira, o rumor longínquo dos trens, e até um homem que passava descalço, com um regador verde numa das mãos, pelas sinuosidades das áleas no jardim; tudo, tudo me parecia lento, tristonho, com silêncios de preguiça iluminada.
       Mandei acender o candeeiro e passou-me a doença imediatamente; e não sei por que corrente de pensamentos. Ah! já sei: No domingo encomendei um fiambre numa salsicharia francesa que há na Rua Nova do Carmo e que tem na montra um pequenino viveiro de peixinhos de água doce, num rio em miniatura.
       Ora, ou eu me engano bastante ou a casa de madame é a única daquele género que se encontra em Lisboa. Pois bem, lembrei-me de lhe fazer concorrência, de me estabelecer com luxo, espavento, réclame e fregueses da alta vida que se dissipa em molhos apetitosos, em carnes frias que vêm do estrangeiro, em temperos esquisitos.
       Eu queria ver o salame, o porco, as frutas em pirâmides, as conservas com grandes rótulos, o chouriço de sangue, as hortaliças em grande toilette, todos os peixes variegados do Oceano a reluzirem; eu queria ver tudo preparado, a ganhar dinheiro, a fazer escândalo honesto, a dar-me celebridade prática, satisfação, gordura recomendável.
       E que me dizes?
       No entanto, os desejos imensos de te enviar um bouquet de saudades.

Cesário


Lisboa, 1877



               DE VERÃO




                       A Eduardo Coelho


                                   I

No campo; eu acho nele a musa que me anima:
      A claridade, a robustez, a acção.
      Esta manhã, saí com minha prima,
      Em quem eu noto a mais sincera estima
      E a mais completa e séria educação.


                                   II

Criança encantadora! Eu mal esboço o quadro
      Da lírica excursão, de intimidade.
      Não pinto a velha ermida com seu adro;
      Sei só desenho de compasso e esquadro,
      Respiro indústria, paz, salubridade.


                                   III

Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;
      E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas?
      Apaga-o teu cachimbo junto às eiras;
      Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!
      Quanto me alegra a calma das debulhas!»


                                   IV

E perguntavas sobre os últimos inventos
      Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!
      Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!
      Olha: Os saloios vivos, corpulentos,
      Como nos fazem grandes barretadas!


                                   V

Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens
      Dos olivais escuros. Onde irás?
      Regressam os rebanhos das pastagens;
      Ondeiam milhos, nuvens e miragens,
      E, silencioso, eu fico para trás.


                                   VI

Numa colina azul brilha um lugar caiado.
      Belo! E arrimada ao cabo da sombrinha,
      Com teu chapéu de palha, desabado,
      Tu continuas na azinhaga; ao lado
      Verdeja, vicejante, a nossa vinha.


                                   VII

Nisto, parando, como alguém que se analisa,
      Sem desprender do chão teus olhos castos,
      Tu começastes, harmónica, indecisa,
      A arregaçar a chita, alegre e lisa
      Da tua cauda um poucochinho a rastos.


                                   VIII

Espreitam-te, por cima, as frestas dos celeiros;
      O sol abrasa as terras já ceifadas,
      E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,
      Sobre os teus pés decentes, verdadeiros,
      As saias curtas, frescas, engomadas.


                                   IX

E, como quem saltasse, extravagantemente,
      Um rego d'água sem se enxovalhar,
      Tu, a austera, a gentil, a inteligente,
      Depois de bem composta, deste à frente
      Uma pernada cómica, vulgar!


                                   X

Exótica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo!
      No atalho enxuto, e branco das espigas
      Caídas das carradas no salmejo,
      Esguio e a negrejar em um cortejo,
      Destaca-se um carreiro de formigas.


                                   XI

Elas, em sociedade, espertas, diligentes,
      Na natureza trémula de sede,
      Arrastam bichos, uvas e sementes;
      E atulham, por instinto, previdentes,
      Seus antros quase ocultos na parede.


                                   XII

E eu desatei a rir como qualquer macaco!
      «Tu não as esmagares contra o solo!»
      E ria-me, eu ocioso, inútil, fraco,
      Eu de jasmim na casa do casaco
      E de óculo deitado a tiracolo!


                                   XIII

«As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora
      Um sublimado corrosivo, uns pós
      De solimão, eu, sem maior demora,
      Envenená-las-ia! Tu, por ora,
      Preferes o romântico ao feroz.


                                   XIV

Que compaixão! Julgava até que matarias
      Esses insectos importunos! Basta.
      Merecem-te espantosas simpatias?
      Eu felicito suas senhorias,
      Que honraste com um pulo de ginasta!»


                                   XV

E enfim calei-me. Os teus cabelos muito loiros
      Luziam, com doçura, honestamente;
      De longe o trigo em monte, e os calcadoiros,
      Lembravam-me fusões de imensos oiros,
      E o mar um prado verde e florescente.


                                   XVI

Vibravam, na campina, as chocas da manada;
      Vinham uns carros e gemer no outeiro,
      E finalmente, enérgica, zangada,
      Tu inda assim bastante envergonhada,
      Volveste-me, apontando o formigueiro:


                                   XVII

«Não me incomode, não, com ditos detestáveis!
      Não seja simplesmente um zombador!
      Estas mineiras negras, incansáveis,
      São mais economistas, mais notáveis,
      E mais trabalhadoras que o senhor.»


(in "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886", org. Silva Pinto, Lisboa: Typographia Elzeveriana, 1887 – p. 55-59)



                   NÓS




                             A A. da S. V.


                                     I

Foi quando em dois Verões, seguidamente, a Febre
e a Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas,
(Até então nós só tivéramos sarampo),
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

Na parte mercantil, foco da epidemia,
Um pânico! Nem um navio entrava a barra,
A alfândega parou, nenhuma loja abria,
E os turbulentos cais cessaram a algazarra.

Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados,
Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
Que triste a sucessão dos armazéns fechados!
Como um domingo inglês na city, que desterros!

Sem canalização, em muitos burgos ermos,
Secavam dejecções cobertas de mosqueiros.
E os médicos ao pé dos padres e coveiros,
Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!

Uma iluminação a azeite de purgueira,
De noite, amarelava os prédios macilentos.
Barricas de alcatrão ardiam; de maneira
Que tinham tons de inferno outros arruamentos.

Porém, lá fora, à solta, exageradamente,
Enquanto acontecia essa calamidade,
Toda a vegetação, pletórica, potente,
Ganhava imenso com a enorme mortandade!

Num ímpeto de seiva os arvoredos fartos,
Numa opulenta fúria as novidades todas,
Como uma universal celebração de bodas,
Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
Triste de ouvir falar em órfãos e em viúvas,
E em permanência olhando o horizonte em brasa,
Não quis voltar senão depois das grandes chuvas.

Ele, dum lado, via os olhos achacados,
Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!
E via, do outro lado, eiras, lezírias, prados,
E um salutar refúgio e um lucro na vivenda!

E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
É todo o meu amor de todos estes anos!
Nós vamos para lá; somos provincianos,
Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!


                                     II

Que de fruta! E que fresca e temporã,
Nas duas boas quintas bem muradas,
Em que o sol, nos talhões e nas latadas,
Bate de chapa, logo de manhã!

O laranjal de folhas negrejantes
(Porque os terrenos são resvaladiços)
Desce em socalcos todos os maciços,
Como uma escadaria de gigantes.

Das courelas, que criam cereais,
De que os donos — ainda! — pagam foros,
Dividem-no fechados pitosporos,
Abrigos de raízes verticais.

Ao meio, a casaria branca assenta
À beira da calçada, que divide
Os escuros pomares de pevide,
Da vinha numa encosta soalhenta!

Entretanto, não há maior prazer
Do que, na placidez das duas horas,
Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
No largo tanque as bicas a correr!

Muito ao fundo, entre olmeiros seculares
Seca o rio! Em três meses de estiagem,
O seu leito é um atalho de passagem,
Pedregosíssimo, entre dois lugares.

Como lhe luzem seixos e burgaus
Roliços! Marinham nas ladeiras
Os renques africanos das piteiras,
Que como aloés espigam altos paus!

Montanhas inda mais longinquamente,
Com restevas, e combros como boças,
Lembram cabeças estupendas, grossas,
De cabelo grisalho, muito rente.

E, a contrastar, nos vales, em geral,
Como em vidraça duma enorme estufa,
Tudo se atrai, se impõe, alarga e entufa,
Duma vitalidade equatorial!

Que de frugalidades nós criamos!
Que torrão espontâneo que nós somos!
Pela outonal maturação dos pomos,
Com a carga, no chão pousam os ramos.

E assim postas, nos barros e areais,
As maceiras vergadas fortemente,
Parecem, duma fauna surpreendente,
Os pólipos enormes, diluviais.

Contudo, nós não temos na fazenda
Nem uma planta só de mero ornato!
Cada pé mostra-se útil, é sensato,
Por mais finos aromas que rescenda!

Finalmente, na fértil depressão,
Nada se vê que a nossa mão não regre:
A florescência dum matiz alegre
Mostra um sinal — a frutificação!


                                  *
                                *  *

Ora, há dez anos, neste chão de lava
E argila e areia e aluviões dispersas,
Entre espécies botânicas diversas,
Forte, a nossa família radiava!

Unicamente, a minha doce irmã,
Como uma ténue e imaculada rosa,
Dava a nota galante e melindrosa
Na trabalheira rústica, aldeã.

E foi num ano pródigo, excelente,
Cuja amargura nada sei que adoce,
Que nós perdemos essa flor precoce,
Que cresceu e morreu rapidamente!

Ai daqueles que nascem neste caos,
E, sendo fracos, sejam generosos!
As doenças assaltam os bondosos
E — custa a crer — deixam viver os maus!


                                  *
                                *  *

Fecho os olhos cansados, e descrevo
Das telas da memória retocadas,
Biscates, hortas, batatais, latadas,
No país montanhoso, com relevo!

Ah! Que aspectos benignos e rurais
Nesta localidade tudo tinha,
Ao ires, com o banco de palhinha,
Para a sombra que faz nos parreirais!

Ah! Quando a calma, à sesta, nem consente
Que uma folha se mova ou se desmanche,
Tu, refeita e feliz com o teu lunch,
Nos ajudavas voluntariamente!...

Era admirável — neste grau do Sul! —
Entre a rama avistar teu rosto alvo,
Ver-te escolhendo a uva diagalvo,
Que eu embarcava para Liverpool.

A exportação de frutas era um jogo:
Dependiam da sorte do mercado
O boal, que é de pérolas formado,
E o ferral, que é ardente e cor de fogo!

Em Agosto, ao calor canicular,
Os pássaros e enxames tudo infestam;
Tu cortavas os bagos que não prestam
Com a tua tesoura de bordar.

Douradas, pequeninas, as abelhas,
E negros, volumosos, os besoiros,
Circundavam, com ímpetos de toiros,
As tuas candidíssimas orelhas.

Se uma vespa lançava o seu ferrão
Na tua cútis — pétala de leite! —
Nós colocávamos dez réis e azeite
Sobre a galante, a rósea inflamação!

E se um de nós, já farto, arrenegado,
Com o chapéu caçava a bicharia,
Cada zângão voando, à luz do dia,
Lembrava o teu dedal arremessado.


                                  *
                                *  *

Que d'encantos! Na força do calor
Desabrochavas no padrão da bata,
E, surgindo da gola e da gravata,
Teu pescoço era o caule duma flor!

Mas que cegueira a minha! Do teu porte
A fina curva, a indefinida linha,
Com bondades de herbívora mansinha,
Eram prenúncios de fraqueza e morte!

À procura da libra e do shilling,
Eu andava abstracto e sem que visse
Que o teu alvor romântico de miss
Te obrigava a morrer antes de mim!

E antes tu, ser lindíssimo, nas faces
Tivesses "pano" como as camponesas;
E sem brancuras, sem delicadezas,
Vigorosa e plebeia, inda durasses!

Uns modos de carnívora feroz
Podias ter em vez de inofensivos;
Tinhas caninos, tinhas incisivos,
E podias ser rude como nós!

Pois neste sítio, que era de sequeiro,
Todo o género ardente resistia,
E, à larguíssima luz do Meio-dia,
Tomava um tom opálico e trigueiro!


                                  *
                                *  *

Sim! Europa do Norte, o que supões
Dos vergéis que abastecem teus banquetes,
Quando às docas, com frutas, os paquetes
Chegam antes das tuas estações?!

Oh! As ricas primeurs da nossa terra
E as tuas frutas ácidas, tardias,
No azedo amoniacal das queijarias
Dos fleumáticos farmers d'Inglaterra!

Ó cidades fabris, industriais,
De nevoeiros, poeiradas de hulha,
Que pensais do país que vos atulha
Com a fruta que sai dos seus quintais?

Todos os anos, que frescor se exala!
Abundâncias felizes que eu recordo!
Carradas brutas que iam para bordo!
Vapores por aqui fazendo escala!

Uma alta parreira moscatel
Por doce não servia para embarque:
Palácios que rodeiam Hyde-Park,
Não conheceis esse divino mel!

Pois a Coroa, o Banco, o Almirantado,
Não as têm nas florestas em que há corças,
Nem em vós que dobrais as vossas forças,
Pradarias dum verde ilimitado!

Anglo-Saxónios, tendes que invejar!
Ricos suicidas, comparai convosco!
Aqui, tudo espontâneo, alegre, tosco,
Facílimo, evidente, salutar!

Opondo às regiões que dão os vinhos
Vossos montes de escórias inda quentes!
E as febris oficinas estridentes
Às nossas tecelagens e moinhos!

E ó condados mineiros! Extensões
Carboníferas! Fundas galerias!
Fábricas a vapor! Cutelarias!
E mecânicas, tristes fiações!

Bem sei que preparais correctamente
O aço e a seda, as lâminas e o estofo;
Tudo o que há de mais dúctil, de mais fofo,
Tudo o que há de mais rijo e resistente!

Mas isso tudo é falso, é maquinal,
Sem vida, como um círculo ou um quadrado,
Com essa perfeição do fabricado,
Sem o ritmo do vivo e do real!

E cá o santo sol, sobre isso tudo,
Faz conceber as verdes ribanceiras;
Lança as rosáceas belas e fruteiras
Nas searas de trigo palhagudo!

Uma aldeia d'aqui é mais feliz,
Londres sombria, em que cintila a corte!...
Mesmo que tu, que vives a compor-te,
Grande seio arquejante de Paris!...

Ah! Que de glória, que de colorido,
Quando, por meu mandado e meu conselho,
Cá se empapelam "as maçãs de espelho"
Que Herbert Spencer talvez tenha comido!

Para alguns são prosaicos, são banais
Estes versos de fibra suculenta;
Como se a polpa que nos dessedenta
Nem ao menos valesse uns madrigais!

Pois o que a boca trava com surpresas
Senão as frutas tónicas e puras!
Ah! Num jantar de carnes e gorduras
A graça vegetal das sobremesas!...

Jack, marujo inglês, tu tens razão
Quando, ancorando em portos como os nossos,
As laranjas com cascas e caroços
Comes com bestial sofreguidão!...


                                  *
                                *  *

A impressão d'outros tempos, sempre viva,
Dá estremeções no meu passado morto,
E inda viajo, muita vez, absorto,
Pelas várzeas da minha retentiva.

Então recordo a paz familiar,
Todo um painel pacífico de enganos!
E a distância fatal duns poucos anos
É uma lente convexa, de aumentar.

Todos os tipos mortos ressuscito!
Perpetuam-se assim alguns minutos!
E eu exagero os casos diminutos
Dentro dum véu de lágrimas bendito.

Pinto quadros por letras, por sinais,
Tão luminosos como os do Levante,
Nas horas em que a calma é mais queimante,
Na quadra em que o Verão aperta mais.

Como destacam, vivas, certas cores,
Na vida externa cheia de alegrias!
Horas, vozes, locais, fisionomias,
As ferramentas, os trabalhadores!

Aspiro um cheiro a cozedura, e a lar
E a rama de pinheiro! Eu adivinho
O resinoso, o tão agreste pinho
Serrado nos pinhais da beira-mar.

Vinha cortada, aos feixes, a madeira,
Cheia de nós, de imperfeições, de rachas;
Depois armavam-se, num pronto, as caixas
Sob uma calma espessa e calaceira!

Feias e fortes! Punham-lhes papel,
A forrá-las. E em grossa serradura
Acamava-se a uva prematura
Que não deve servir para tonel!

Cingiam-nas com arcos de castanho
Nas ribeiras cortadas, nos riachos;
E eram d'açúcar e calor os cachos,
Criados pelo esterco e pelo amanho!

Ó pobre estrume, como tu compões
Estes pâmpanos doces como afagos!
"Dedos-de-dama": transparentes bagos!
"Tetas-de-cabra": lácteas carnações!

E não eram caixitas bem dispostas
Como as passas de Málaga e Alicante;
Com a sua forma estável, ignorante,
Estas pesavam, brutalmente, às costas!

Nos vinhatórios via fulgurar,
Com tanta cal que torna as vistas cegas,
Os paralelogramos das adegas,
Que têm lá dentro as dornas e o lagar!

Que rudeza! Ao ar livre dos estios,
Que grande azáfama! Apressadamente
Como soava um martelar frequente,
Véspera da saída dos navios!

Ah! Ninguém entender que ao meu olhar
Tudo tem certo espírito secreto!
Com folhas de saudades um objecto
Deita raízes duras de arrancar!

As navalhas de volta, por exemplo,
Cujo bico de pássaro se arqueia,
Forjadas no casebre duma aldeia,
São antigas amigas que eu contemplo!

Elas, em seu labor, em seu lidar,
Com sua ponta como a das podoas,
Serviam probas, úteis, dignas, boas,
Nunca tintas de sangue e de matar.

E as enxós de martelo, que dum lado
Cortavam mais do que as enxadas cavam,
Por outro lado, rápidas, pregavam,
Duma pancada, o prego fasquiado!

O meu ânimo verga na abstracção,
Com a espinha dorsal dobrada ao meio;
Mas se de materiais descubro um veio
Ganho a musculatura dum Sansão!

E assim — e mais no povo a vida é corna —
Amo os ofícios como o de ferreiro,
Com seu fole arquejante, seu braseiro,
Seu malho retumbante na bigorna!

E sinto, se me ponho a recordar
Tanto utensílio, tantas perspectivas,
As tradições antigas, primitivas,
E a formidável alma popular!

Oh! Que brava alegria eu tenho quando
Sou tal qual como os mais! E, sem talento,
Faço um trabalho técnico, violento,
Cantando, praguejando, batalhando!


                                  *
                                *  *

Os fruteiros, tostados pelos sóis,
Tinham passado, muita vez, a raia,
E, espertos, entre os mais da sua laia,
— Pobres campónios — eram uns heróis.

E por isso, com frases imprevistas,
E colorido e estilo e valentia,
As haciendas que há na Andaluzia
Pintavam como novos paisagistas.

De como às calmas, nessas excursões,
Tinham águas salobras por refrescos;
E amarelos, enormes, gigantescos,
Lá batiam o queixo com sezões!

Tinham corrido já na adusta Espanha,
Todo um fértil plató sem arvoredos,
Onde armavam barracas nos vinhedos,
Como tendas alegres de campanha.

Que pragas castelhanas, que alegrão
Quando contavam cenas de pousadas!
Adoravam as cintas encarnadas
E as cores, como os pretos do sertão!

E tinham, sem que a lei a tal obrigue,
A educação vistosa das viagens!
Uns por terra partiam, e estalagens,
Outros, aos montes, no convés dum brigue!

Só um havia, triste e sem falar
Que arrastava a maior misantropia,
E, roxo como um fígado, bebia
O vinho tinto que eu mandava dar!

Pobre da minha geração exangue
De ricos! Antes, como os abrutados,
Andar com os sapatos ensebados,
E ter riqueza química no sangue!


                                  *
                                *  *

Mas hoje a rústica lavoura, quer
Seja o patrão, quer seja o jornaleiro,
Que inferno! Em vão o lavrador rasteiro
E a filharada lidam, e a mulher!...

Desde o princípio ao fim é uma maçada
De mil demónios! Torna-se preciso
Ter-se muito vigor, muito juízo
Para trazer a vida equilibrada!

Hoje eu sei quanto custam a criar
As cepas, desde que eu as podo e empo.
Ah! O campo não é um passatempo
Com bucolismos, rouxinóis, luar.

A nós tudo nos rouba e nos dizima:
O rapazio, o imposto, as pardaladas,
As osgas peçonhentas, achatadas,
E as abelhas que engordam na vindima.

E o pulgão, a lagarta, os caracóis,
E há inda, além do mais com que se ateima,
As intempéries, o granizo, a queima,
E a concorrência com os espanhóis.

Na venda, os vinhateiros d'Almeria
Competem contra os nossos fazendeiros.
Dão frutas aos leilões dos estrangeiros,
Por uma cotação que nos desvia!

Pois tantos contras, rudes como são,
Forte e teimoso, o camponês destrói-os!
Venham de lá pesados os comboios
E os "buques" estivados no porão!

Não, não é justo que eu a culpa lance
Sobre estes nadas! Puras bagatelas!
Nós não vivemos só de coisas belas,
Nem tudo corre como num romance!

Para a Terra parir há-de ter dor,
E é para obter as ásperas verdades,
Que os agrónomos cursam nas cidades,
E, à sua custa, aprende o lavrador.

Ah! Não eram insectos nem as aves
Que nos dariam dias tão difíceis,
Se vós, sábios, na gente descobrísseis
Como se curam as doenças graves.

Não valem nada a cava, a enxofra, e o mais!
Dificultoso trato das searas!
Lutas constantes sobre as jornas caras!
Compras de bois nas feiras anuais!

O que a alegria em nós destrói e mata,
Não é rede arrastante d'escalracho,
Nem é suão queimante como um facho,
Nem invasões bulbosas d'erva pata.

Podia ter secado o poço em que eu
Me debruçava e te pregava sustos,
E mais as ervas, árvores e arbustos
Que — tanta vez! — a tua mão colheu.

"Moléstia negra" nem "charbon" não era,
Como um archote incendiando as parras!
Tão-pouco as bastas e invisíveis garras,
Da enorme legião da filoxera!

Podiam mesmo, com o que contêm,
Os muros ter caído às invernias!
Somos fortes! As nossas energias
Tudo vencem e domam muito bem!

Que os rios, sim, que como touros mugem,
Transbordando atulhassem as regueiras!
Chorassem de resina as laranjeiras!
Enegrecessem outras com ferrugem!

As turvas cheias de Novembro, em vez
Do nateiro subtil que fertiliza,
Fossem a inundação que tudo pisa,
No rebanho afogassem muita rês!

Ah! Nesse caso pouco se perdera,
Pois isso tudo era um pequeno dano,
À vista do cruel destino humano
Que os dedos te fazia como cera!

Era essa tísica em terceiro grau,
Que nos enchia a todos de cuidado,
Te curvava e te dava um ar alado
Como quem vai voar dum mundo mau.

Era a desolação que inda nos mina
(Porque o fastio é bem pior que a fome)
Que a meu pai deu a curva que o consome,
E a minha mãe cabelos de platina.

Era a clorose, esse tremendo mal,
Que desertou e que tornou funesta
A nossa branca habitação em festa,
Reverberando a luz meridional.

Não desejamos, — nós, os sem defeitos, —
Que os tísicos pereçam! Má teoria,
Se pelos meus o apuro principia,
Se a Morte nos procura em nossos leitos!

A mim mesmo, que tenho a pretensão
De ter saúde, a mim que adoro a pompa
Das forças, pode ser que se me rompa
Uma artéria, e me mine uma lesão.

Nós outros, teus irmãos, teus companheiros,
Vamos abrindo um matagal de dores!
E somos rijos como os serradores!
E positivos como os engenheiros!

Porém, hostis, sobressaltados, sós,
Os homens arquitectam mil projectos
De vitória! E eu duvido que os meus netos
Morram de velhos como os meus avós!

Porque, parece, ou fortes ou velhacos
Serão apenas os sobreviventes;
E há pessoas sinceras e clementes,
E troncos grossos com seus ramos fracos!

E que fazer se a geração decai!
Se a seiva genealógica se gasta!
Tudo empobrece! Extingue-se uma casta!
Morre o filho primeiro do que o pai!

Mas seja como for, tudo se sente
Da tua ausência! Ah! como o ar nos falta,
Ó flor cortada, susceptível, alta,
Que assim secaste prematuramente!

Eu que de vezes tenho o desprazer
De reflectir no túmulo! E medito
No eterno Incognoscível infinito,
Que as ideias não podem abranger!

Como em paul em que nem cresça a junca
Sei d'almas estagnadas! Nós, absortos,
Temos ainda o culto pelos Mortos,
Esses ausentes que não voltam nunca!

Nós ignoramos, sem religião,
Ao rasgarmos caminho, a fé perdida,
Se te vemos ao fim desta avenida,
Ou essa horrível aniquilação!...

E ó minha mártir, minha virgem, minha
Infeliz e celeste criatura,
Tu lembras-nos de longe a paz futura,
No teu jazigo, como uma santinha!

E enquanto a mim, és tu que substituis
Todo o mistério, toda a santidade,
Quando em busca do reino da verdade
Eu ergo o meu olhar aos céus azuis!


                                     III

Tínhamos nós voltado à capital maldita,
Eu vinha de polir isto tranquilamente,
Quando nos sucedeu uma cruel desdita,
Pois um de nós caiu, de súbito, doente.

Uma tuberculose abria-lhe cavernas!
Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo!
E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas,
Com que se despediu de todos e do mundo!

Pobre rapaz robusto e cheio de futuro!
Não sei dum infortúnio imenso como o seu!
Viu o seu fim chegar como um medonho muro,
E, sem querer, aflito e atónito, morreu!

De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo
Com tanta crueldade e tantas injustiças,
Se inda trabalho é como os presos no degredo,
Com planos de vingança e ideias insubmissas.

E agora, de tal modo a minha vida é dura,
Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos,
Que sinto só desdém pela literatura,
E até desprezo e esqueço os meus amados versos!


5 de Setembro de 1884

(in "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886", org. Silva Pinto, Lisboa: Typographia Elzeveriana, 1887 – p. 76-99)



CARTA A ANTÓNIO DE MACEDO PAPANÇA (CONDE DE MONSARAZ) (1886)




Bom e prezado Amigo:

       Não há desculpas possíveis; eu devia responder imediatamente à tua carta, tão fina e tão delicada. Fiquei-me: porquê? Porque sou e estou um desleixado. Não posso ser perdoado, bem sei. Aqui está o meu magro pescoço, faze favor de passar a corda e de puxar o nó de correr. Só enforcado.
       Mas olha, sério, em volta de mim, pessoas, coisas, tudo anda amolentado, cansado. As melhoras, as próprias melhoras que medicamentos chamam e espicaçam com o aguilhão da sua química, e que eu estimulo com a aguilhada da minha vontade, essas mesmas vão ronceiras, moles, a passo de boi, muito devagar, muito devagar. Mal as vejo mexerem-se na longa estrada do tempo. De modo que apenas a grandes intervalos te posso noticiar, meu amigo, um avanço, um adiantamento. Sabes, já tenho casa em Caneças, é na situação e por acaso tem o feitio que eu tinha imaginado, e que eu havia indicado a meu pai e a meu irmão, que lá foram.
[...]
       A minha nova pequena casa é tudo o que há de mais rústico e de mais pitoresco; da janela do meu quarto, estendendo o braço, toco a rama dum pinheiro balsâmico e bravo. De roda tudo pinhais espessos e rumorejantes. Não fica na Caneças oficial e consagrada, das fanfarras, dos Hintzes e dos hotéis; fica longe, do outro lado das ribeiras e dos pomares, no sítio a que chamam O lugar d'além. Sabes quem fez esta minha habitação? Foi o próprio dono, mestre carpinteiro e marceneiro, à hora presente fabricando com mais 30 companheiros, numa grande oficina do Aterro, numa rica mobília para a princesa de Orléans.
[...]
       Mas subitamente chegam-me dúvidas, descrenças, terrores do futuro. Curo-me? Sim, talvez. Mas como fico eu? Um cangalho, um canastrão, um grande cesto roto, entra-me o vento, entra-me a chuva no corpo escangalhado.

Cesário


Caneças, 16 de Junho de 1886, pela manhã


Nota: Gravações realizadas ao vivo no Teatro Experimental do Porto, a 23 de Novembro e a 6 de Dezembro de 1986 (recitais patrocinados pelo Sindicato dos Professores, no âmbito do centenário da morte de Cesário Verde) e publicadas, pela primeira vez, no Vol. 14 da "Discografia Completa" de Mário Viegas ("Público", 2006), organizada por José Niza, cuja capa se apresenta a seguir.



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Outros artigos neste blogue com poesia recitada por Mário Viegas:
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Em memória de António Ramos Rosa (1924-2013)
Celebrando Vinicius de Moraes
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Celebrando Eugénio de Andrade
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Dois Excertos de Odes"
Cesário Verde: "De Tarde"

21 março 2016

Cesário Verde: "De Tarde"


Silva Porto, "Primavera", c.1882, óleo sobre madeira, 37,2x55 cm, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Lisboa


No corrente 2016 completam-se 130 anos sobre a morte de Cesário Verde (1855-1886). O Dia Mundial da Poesia afigura-se um excelente pretexto para uma primeira homenagem a esse nome grande da poesia (de língua) portuguesa, com a apresentação do poema "De Tarde" em seis gravações: quatro recitadas e duas cantadas. Uma experiência auditiva que, além de muito aprazível, nos dá uma boa noção das múltiplas maneiras de abordar um texto poético quando se toma a iniciativa de resgatá-lo ao silêncio dos livros.
A sequência é cronológica, começando pela gravação mais antiga, na voz do imortal João Villaret. Seguem-se Pedro Barroso, José Campos e Sousa, Mário Viegas, Afonso Dias e Vítor de Sousa.
Não podemos deixar, uma vez mais, de apontar o dedo à direcção de programas da Antena 1 pela absurda ausência, na grelha, de uma rubrica diária de poesia. Uma lacuna grave que persiste desde 2003, quando desapareceu o memorável apontamento "À Esquina do Mundo", de António Cardoso Pinto.



Aguarela



Poema de Cesário Verde ("De Tarde", in "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886", org. Silva Pinto, Lisboa: Typographia Elzeveriana, 1887 – p. 69)
Recitado por João Villaret (in LP "João Villaret no São Luís", Parlophone/EMI, 1959, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!



O Ramalhate Rubro das Papoulas



Poema: Cesário Verde ("De Tarde", in "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886", org. Silva Pinto, Lisboa: Typographia Elzeveriana, 1887 – p. 69)
Música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso* (in LP "Cantos à Terra Madre", Da Nova, 1982, reed. Movieplay, 1997; 2CD "Antologia 1982-1990": CD 2, Movieplay, 2005)




Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!


* [Créditos gerais do disco:]
António Chainho – guitarra portuguesa
António Veríssimo – sapateado e ferrinhos
Carlos Augusto – violas de 6 e de 12 cordas
Carlos Alberto Moniz – violas
Luís Sá Pessoa – violoncelos
Miguel Sá Pessoa – piano
Pedro Barroso – voz, concertina, harmónica bocal, violas, cavaquinhos, adufes e bombo
Pedro Osório – piano, acordeão e caixa
Samuel e Henrique Marques – trancanholas "gémeas"
Zé Calhau – flauta transversal, flauta de bisel e bombo
Arranjos e direcção musical – Pedro Barroso
Gravado do Estúdio Musicorde, Lisboa
Técnico de som – Rui Remígio
Fitas magnéticas – Rui Remígio e Serra de Morais



Pic-nic



Poema: Cesário Verde ("De Tarde", in "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886", org. Silva Pinto, Lisboa: Typographia Elzeveriana, 1887 – p. 69)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: José Campos e Sousa (in LP "Nossa Senhora do Carmo: Fados", Transmédia, 1988)


Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!



DE TARDE



Poema de Cesário Verde (in "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886", org. Silva Pinto, Lisboa: Typographia Elzeveriana, 1887 – p. 69)
Recitado por Mário Viegas* (in LP/CD "Poemas de Bibe: grande poesia portuguesa escolhida para os mais pequenos", UPAV, 1990; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 10 – "Poemas de Bibe", Público, 2006)


Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!


* Produção – José Mário Branco e António José Martins
Gravado no Angel Studio, Lisboa, em 2, 6, 7 e 8 de Outubro de 1990
Engenheiro de som – José Manuel Fortes



DE TARDE



Poema de Cesário Verde (in "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886", org. Silva Pinto, Lisboa: Typographia Elzeveriana, 1887 – p. 69)
Recitado por Afonso Dias* (in CD "Cantando Espalharey", vol. I, Edere, 2001)


Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!


* Pesquisa e produção – Afonso Dias e André Dias
Gravado no Estúdio InforArte, Chinicato - Lagos
Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro



DE TARDE



Poema de Cesário Verde (in "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886", org. Silva Pinto, Lisboa: Typographia Elzeveriana, 1887 – p. 69)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "Eu Quero Amar, Amar...", Ovação, 2002)
Música: Luigi Boccherini


Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!


* Supervisão de produção – Carlos Lacerda, Fernando Matias (Ovação)
Produção executiva – Henrique Amoroso
Gravação e montagem – Fernando Gomes, no Estúdio Gravisom, Lisboa
Masterização – João Oliveira (Artes & Sons)

23 fevereiro 2016

José Mário Branco: "Zeca (Carta a José Afonso)"


© Alexandre Carvalho

No dia em que se completa mais um ano sobre o falecimento de José Afonso, o blogue "A Nossa Rádio" rende tributo à sua memória apresentando "Zeca (Carta a José Afonso)", de e por José Mário Branco.
À parte algum repertório de cariz mais circunstancial, a obra de José Afonso não sofreu a erosão do tempo. Nessa medida, não se pode aceitar que a rádio pública a subestime, silenciando-a ou afunilando a sua divulgação a dois ou três dos espécimes mais conhecidos, como vem acontecendo na Antena 1.



Zeca (Carta a José Afonso)



Letra e música: José Mário Branco
Arranjo: José Mário Branco
Intérprete: José Mário Branco* (in LP/CD "Correspondências", UPAV, 1990, reed. EMI-VC, 1996)




Vieste de menino d'oiro pela mão
Acordar a madrugada
E fez mais, às vezes, uma só canção
Do que muita panfletada
         Grandes janelas soubeste abrir
         Por onde o ar correu sem te pedir
         Que não se cansem de nascer
         As fontes onde vais beber

         Nunca mais te hás-de calar,
         Ó Zeca, para nós
         Canta sempre sem parar
         Que é seiva e flor a tua voz

Vestiste a capa de caloiro coimbrão
Para ultrapassar o fado
E, em cada Natal, teu fruto temporão
Nunca foi ultrapassado
         Na distracção jogas à defesa
         Com o humor disfarças a tristeza
         Cantas a esp'rança e o amor
         Que o povo te ensinou, de cor

         Nunca mais te hás-de calar,
         Ó Zeca, para nós
         Canta sempre sem parar
         Que é seiva e flor a tua voz

Nem tudo o que reluz é oiro, pois então
E bem gostaria o facho
De te ver calado e manso pela mão
Com medalhas no penacho
         Co'a a tua ronha felina e sã
         Vais-lhe atirando as flechas de amanhã
         O olho pisco a acender
         E a garganta a acontecer

         Nunca mais te hás-de calar,
         Ó Zeca, para nós
         Canta sempre sem parar
         Que é seiva e flor a tua voz

Vieste de menino d'oiro pela mão...


* José Mário Branco – voz
José Castro – sintetizador
Graça Moreira, Isabel Campelo, Maria Guinot, Gustavo Sequeira, Carlos Alberto Moniz, Fernando Tordo e Necas Moreira – coros
Direcção artística – José Mário Branco e Manuela de Freitas
Produção – António José Martins e José Mário Branco
Gravado e misturado no Angel Studio 2, Lisboa, de Janeiro a Julho de 1989
Engenheiros de gravação – Fernando Abrantes, Jorge Barata e José Manuel Fortes
Misturas – Rui Novais, Jorge Barata, António José Martins, José Peixoto e José Manuel Fortes


Nota:
Outros dois poemas de homenagem a José Afonso, escritos por Natália Correia e Hélia Correia, e gravados, respectivamente, por Afonso Dias e Filipa Pais, já foram apresentados neste blogue, nos seguintes artigos:
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Zeca

Grandes discos da música portuguesa: editados em 2015


[em preparação]