11 novembro 2018

Primeira Grande Guerra: centenário do armistício


Cemitério militar português de Richebourg l'Avoué, no departamento de Pas-de-Calais, França.
Contém 1 831 sepulturas de combatentes portugueses, dos quais 238 estão por identificar, provenientes dos cemitérios de Le Touret, de Ambleteuse e de Brest (França), de Tournai (Bélgica) e também da Alemanha, neste caso de prisioneiros de guerra aí falecidos. A transladação dos restos mortais decorreu entre 1924 e 1938.


Quem tiver um mínimo de sensibilidade não pode deixar de ficar impressionado ante os cemitérios militares, cartesianamente ordenados, existentes no Norte de França e na Bélgica, ao longo da faixa territorial que foi o cenário da frente ocidental da Primeira Grande Guerra. Aos soldados que morreram no teatro de guerra ou em campos de prisioneiros não era possível perguntar, post-mortem, qual o local preferido para a 'última morada', mas é de presumir que quase todos preferissem 'repousar' nas freguesias onde residiam, perto das famílias. Alguém das cúpulas dirigentes teve a clarividência de optar pela solução dos cemitérios de guerra, homogéneos e em larga escala, e o significado subjacente a esta opção não é despiciendo para os vivos que os contemplam. Em boa verdade, é aos vivos que se destina a mensagem que estas gigantescas necrópoles transmitem. Mensagem essa que pode resumir-se nestes termos: «Guerra é destruição e morte. Tenham juízo e tomem a Paz como um valor supremo! Amem a Vida!»
Nesse esforço de promoção da paz e da concórdia entre todos os seres humanos, as canções também desempenham um papel importante e é com um belo espécime de produção endógena que comemoramos o centenário do armistício que pôs fim às hostilidades, na Europa, da hecatombe bélica que causou cerca de oito milhões de mortos e ainda maior número de deficientes e incapacitados. Tem por título "Dois Soldados" e faz parte do álbum "Canções de Amor e Guerra" (2002), de João Lóio, um cantautor que tem sido votado a um criminoso ostracismo por quem administra a lista de difusão musical, vulgo 'playlist', da Antena 1.



Dois Soldados



Letra e música: João Lóio
Intérprete: João Lóio* (in CD "Canções de Amor e Guerra", João Lóio, 2002)


Num campo há duas bandeiras:
qual delas a mais querida?
Uma é de oiro bordada,
outra é de seda tecida.

Numa pegava um soldado,
noutra um soldado pegava.
Qual deles o mais ousado?
Se um valente, o outro é bravo.

Num campo há dois regimentos:
Qual possui mais munições?
Um é cheio de espingardas,
outro é cheio de canhões.

Num um soldado gritava,
noutro gritava um soldado.
Um ao outro respondiam:
«À morte os do outro lado!»

«Viva a guerra e viva a morte!»,
diz em coro o batalhão,
com os olhos revirados,
com balas no coração.

Alto sobem as bandeiras:
qual delas terá mais sorte?
Mais alto sobe a ceifeira
com a gadanha da morte.

Já se acabou a batalha,
já se acabou a batalha...
qual deles mais derrotado?
Um todo cheio de feridos,
o outro é seu igual:
todo cheio de aleijados.

Num morrera o soldado,
num morrera o soldado
que a bandeira segurava;
no outro caíra a bandeira,
a bandeira em tudo igual
que outro soldado levava.

Num campo há duas bandeiras:
qual delas a mais querida?
Jaz o oiro do bordado,
de sangue a seda é tingida.

Num campo há duas bandeiras:
qual delas a mais querida?
Uma serve de mortalha,
outra é de morte tecida.

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco]:
Carlos Rocha – guitarras acústica e eléctrica
João Lóio – voz e guitarra acústica
Firmino Neiva – baixo eléctrico
Arnaldo Fonseca – acordeão
Mário Teixeira – caixa de rufo
Regina Castro e Guilhermino Monteiro – coros
Arranjos e direcção musical – Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Gravado por Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, em Abril de 2002
Mistura – Fernando Rangel, Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Masterização – Fernando Rangel



Capa do CD "Canções de Amor e Guerra", de João Lóio.
Fotografia por Renato Roque.

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Cem Mil Portugueses na Primeira Guerra Mundial

13 outubro 2018

António Fragoso: centenário da morte


© AAF, 2009


António Fragoso tinha a envergadura necessária para se tornar o maior compositor português de todos os tempos. […] morrer aos vinte e um anos é quase não ter vivido.
                PEDRO DE FREITAS BRANCO, maestro


Filho de Viriato de Sá Fragoso e de Maria Isabel de Sá Lima Fragoso, António Fragoso nasceu a 17 de Junho de 1897, na freguesia da Pocariça, concelho de Cantanhede, onde viria a falecer a 13 de Outubro de 1918, vitimado pela gripe pneumónica que nessa época se abateu sobre toda a Europa.
A sua vocação para a música foi evidenciada logo aos seis anos de idade, quando começou a aprender a ler pautas e a tocar piano com António dos Santos Tovim, seu tio e médico em Cantanhede, figura com vasta cultura musical que teve uma influência marcante nesses primeiros anos da sua formação musical. Entre 1907 e 1914, concluiu na cidade do Porto o curso geral dos liceus e os dois primeiros anos do Curso Superior de Comércio, sem nunca ter deixado de aprofundar os seus estudos de piano, agora sob a orientação do Prof. Ernesto Maia. Aos 16 anos, publicou e deu a primeira audição da sua primeira composição – "Toadas da Minha Aldeia" – muito aplaudida pela crítica musical. Algumas notas biográficas referem que teve de vencer uma certa resistência dos pais para se matricular no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, que viria a frequentar até 1918, ano em que obteve o diploma do Curso Superior de Piano com 20 valores, a classificação máxima.
Ainda como estudante iniciou um percurso artístico amplamente reconhecido nos círculos culturais do país, não apenas como exímio pianista, mas também como compositor, ao ponto de ser considerado pelos críticos da época como «um dos mais poderosos talentos da sua geração». João de Freitas Branco refere mesmo que entre as suas peças «se encontram páginas surpreendentes num compositor com menos de 21 anos».
Geralmente, os musicólogos destacam do conjunto da sua obra os "Prelúdios" e a "Petite Suite" para piano, os lieder para canto e piano, as partituras de música de câmara e os Nocturnos, sendo o "Nocturno em Ré bemol maior" considerada a peça mais emblemática do seu imenso talento como compositor. [Fonte: site da Associação António Fragoso]

No dia em que se completa um século sobre a morte (muito prematura) do compositor António Fragoso, rendemos homenagem à sua memória apresentado uma bela canção saída do seu punho e que não podia vir mais a propósito na presente estação: "Chanson d'Automne", sobre poema do simbolista francês Paul Verlaine, aqui na interpretação do tenor Carlos Guilherme e do pianista Armando Vidal.
Em complemento, pensando naqueles que desejem conhecer o fugaz mas fulgurante percurso artístico de António Fragoso, deixamos ao fundo os links dos treze episódios da série "António Fragoso – Biografia Musical", da autoria de Margarida Prates, que a Antena 2 emitiu durante o primeiro trimestre de 2018 no espaço "Caleidoscópio". Perdoe-se o tom professoral de quem está a dar aulas a crianças da instrução primária!



Chanson d'Automne



Poema: Paul Verlaine (in "Poèmes Saturniens", Paris: Alphonse Lemerre, 1866) [tradução em português >> abaixo]
Música: António Fragoso (in "Poèmes Saturniens", 1917)
Intérpretes: Carlos Guilherme & Armando Vidal* (in CD "A Canção Portuguesa", Numérica, 1998)




[instrumental]

Les sanglots longs
Des violons
     De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
     Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
     Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
     Et je pleure;

Et je m'en vais
Au vent mauvais
     Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
     Feuille morte.

[instrumental]


* Carlos Guilherme – voz (tenor)
Armando Vidal – piano
Gravado no Aurastudio, Paços de Brandão - Santa Maria da Feira, em Janeiro de 1996
Engenheiros de som – Jorge Fidalgo e Fernando Rocha
Mistura – Jorge Fidalgo
Montagem – Fernando Rocha



CANÇÃO DE OUTONO

(Paul Verlaine, trad. Paulo Mendes Campos)
[outras propostas de tradução em: http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet312.htm]


Os longos trinos
Dos violinos
     Do outono
Ferem minh'alma
Com uma calma
     Que dá sono.

Ao ressoar
A hora, alvar,
     Sufocado,
Choro os errantes
Dias distantes
     Do passado.

E em remoinho,
O ar daninho
     Me transporta
De cá p'ra lá,
De lá p'ra cá,
     Folha morta.



Capa do CD "A Canção Portuguesa", de Carlos Guilherme & Armando Vidal (Numérica, 1998)


ANTÓNIO FRAGOSO – BIOGRAFIA MUSICAL
Autora: Margarida Prates
Ep. 1 | 06 Jan. 2018 [>> RTP-Play]
De 1897 a 1913: nascimento de um artista.

Ep. 2 | 13 Jan. 2018 [>> RTP-Play]
De 1913 a 1914: primeiros rasgos de criação.

Ep. 3 | 20 Jan. 2018 [>> RTP-Play]
1914: O 1.° semestre no Conservatório de Música de Lisboa.

Ep. 4 | 27 Jan. 2018 [>> RTP-Play]
1915: Construindo uma carreira musical (I).

Ep. 5 | 03 Fev. 2018 [>> RTP-Play]
1915: Construindo uma carreira musical (II).

Ep. 6 | 10 Fev. 2018 [>> RTP-Play]
1916: O afirmar de um talento (I).

Ep. 7 | 17 Fev. 2018 [>> RTP-Play]
1916: O afirmar de um talento (II).

Ep. 8 | 24 Fev. 2018 [>> RTP-Play]
1916/1917: Consolidação do nome António Fragoso no meio musical (I).

Ep. 9 | 03 Mar. 2018 [>> RTP-Play]
1916/1917: Consolidação do nome António Fragoso no meio musical (II).

Ep. 10 | 10 Mar. 2018 [>> RTP-Play]
1916/1917: Consolidação do nome António Fragoso no meio musical (III).

Ep. 11 | 17 Mar. 2018 [>> RTP-Play]
1917: A afirmação de António Fragoso como pianista solista e de música de câmara.

Ep. 12 | 24 Mar. 2018 [>> RTP-Play]
1918: O exame final de piano.

Ep. 13 | 31 Mar. 2018 [>> RTP-Play]
1918: Últimas obras compostas.





Casa e busto de António Fragoso na localidade de Pocariça, concelho de Cantanhede.
O busto, concebido pelo escultor Cabral Antunes, foi inaugurado a 13 de Outubro de 1968, assinalando o cinquentenário da morte do compositor.

01 outubro 2018

Pedro Barroso: "Música de Mar"


John William Waterhouse, "A Mermaid" ("Uma Sereia"), 1900, óleo sobre tela, 96,5 x 66,6 cm, Royal Academy of Arts, Londres


Para celebrar este Dia Mundial da Música trazemos uma belíssima canção do repertório de Pedro Barroso: "Música de Mar", com poema do cantor sobre música do basco Imanol. Faz parte do LP "Pedro Barroso", publicado em 1988, e que – lamentavelmente – ainda não teve edição em CD. Nessa medida é uma pérola perdida no vinil, se bem que em álbuns do cantautor já reeditados ou originalmente editados em disco compacto abundem pérolas 'perdidas'. Neste caso, porque não são tomadas em consideração pelos indivíduos que gerem as 'playlists', seja por não as conhecerem seja por terem um atávico e pacóvio preconceito contra Pedro Barroso e outros categorizados artistas portugueses. Isto é grave nas rádios privadas mas assume especial gravidade na estação pública, a qual os cidadãos são chamados a financiar, através da chamada contribuição do audiovisual, no pressuposto de nela poderem ouvir o que de melhor se produziu e produz no país em matéria de música. O vazadouro de lixo sonoro em que 'playlist' da Antena 1 foi transformada subverte, como é bom de ver, esse contrato tácito. Perante esta insustentável realidade, de que está à espera quem tem por competência escrutinar e avaliar o serviço (ou a falta dele) que a Antena 1 presta no domínio da música?



Música de Mar



Poema: Pedro Barroso
Música: Imanol (Manuel Eusebio Larzábal Goñi, 1947-2004)
Intérprete: Pedro Barroso* (in LP "Pedro Barroso", Schiu!/Transmédia, 1988)


[instrumental]

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Paro p'ra te ver para lá do olhar
e param-me as mãos a pensar.

Tão pura, tão simples, tão meiga de ouvir:
canto de embalar e dormir,
eixo ribaldeixo como a cantilena
que tu soletraste em pequena.

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Quando nos invades, quando nos tormentas,
risos, choros, silêncios inventas.

Música e amante mal te conheci,
três vidas num instante vivi;
música de mar que nas ondas vem
toca-me nos dedos também!

[instrumental]

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Como hei-de compor, como hei-de cantar
tanto qu'inda tens p'ra me dar?

Como uma criança canta a tabuada
e junta três sons encantada,
assim te encontramos a ti, melodia,
nós que cinzentamos o dia.

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Viril, feminina, velhota ou senhora,
riso de menina e doutora.

Nua te despi, nua te deixei
e entre sol e lua cantei.
Como poderemos nós falar de ti
se andamos tão longe e tu aqui?!


* Pedro Barroso – voz, 2.ª voz e viola
Carlos Carlos – acordeão
José Carlos Gonçalves – violoncelos
Pedro Fragoso – viola campaniça
Arranjo – Pedro Barroso, com a colaboração colegial de todos os músicos
Produção e direcção musical – Pedro Barroso
Gravado nos Estúdios Musicorde, Lisboa
Engenheiro de som – Rui Remígio



Capa do LP "Pedro Barroso" (Schiu!/Transmédia, 1988)
Concepção – Mestre Martins Correia

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23 setembro 2018

Max: "Outono na Cidade"



Começou hoje o Outono de 2018. Assinalamos a entrada da estação da nostalgia resgatando a canção "Outono na Cidade", na voz de Max. Trata-se de uma das mais belas que o ilustre cantor madeirense gravou, mas também – e estranhamente – uma das menos conhecidas. Motivo acrescido para aqui a apresentarmos e com ela comemorarmos, ainda que muito singelamente, o centenário do nascimento do criador de "Pomba Branca, Pomba Branca", "Noite" e "A Rosinha dos Limões".
Sem prejuízo da inclusão deste e de outros espécimes do repertório de Max na 'playlist' da Antena 1 (o que teria o efeito – benéfico – de diminuir o insuportável peso da escória com que a atafulharam), a direcção de programas peca por omissão se não aproveitar o tempo que falta para o ano terminar (três meses e uma semana) para render a Max a homenagem que o país lhe deve em razão do relevante contributo que deu para o enriquecimento do nosso património musical/fonográfico. David Ferreira, que o evocou na sua rubrica a 19 de Abril [>> RTP-Play] e que lamentou (com inteira razão) o facto das entidades oficiais do continente se estarem a esquecer do centenário do reputado compositor e intérprete, está em boa posição para levar a cabo essa celebração com a amplitude e o desenvolvimento que se impõem.



Outono na Cidade



Letra: Ferro Rodrigues e Fernando Santos
Música: Carlos Dias
Intérprete: Max* (in EP "Tingo Lingo Lingo", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Max: Vol. 2", EMI-VC, 1993; CD "Max: Essencial", Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)




[instrumental]

Vento que traz nostalgia
D'um amor perdido
Nas ruas da vida,
Sombras e melancolia,
Um adeus sentido
De mulher esquecida.
       Nas folhas da esperança
       Caídas sem dono,
       Há passos de criança:
       É Outono!

Outono na cidade
Tem gosto de saudade:
É terna despedida que não esquece,
É doce melodia
Que vem no fim do dia
Que o Sol – bom e doirado – ainda aquece.

Cai a folha – folha nua –,
Chuva d'oiro molhando a rua:
Outono na cidade,
Que fria claridade!
Sorriso que desce da Lua!

Gente que corre apressada
Na manhã brumosa,
Sonolenta e fria;
Vida que sonha acordada
A canção formosa,
Luz do meio-dia.
       No azul infindo
       O povo bem sente
       O teu adeus, tão lindo,
       Sol poente!

[instrumental]

Cai a folha – folha nua –,
Chuva d'oiro molhando a rua:
Outono na cidade,
Que fria claridade!
Sorriso que desce da Lua!


* Max – voz
Orquestra dirigida por Jorge Costa Pinto



Capa da compilação "Max: Essencial" (Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)

21 junho 2018

Grupo Banza: "Verão"


António Saiote, "Ceifeiros VII", c.1999, óleo sobre tela


Para assinalar, poética e musicalmente, o solstício de hoje, que dá início ao Estio de 2018 (no hemisfério norte, evidentemente), tivemos a ideia de trazer a belíssima moda da autoria de Manuel Conde Fialho (já falecido e que foi regente da banda filarmónica de São Pedro do Corval, Reguengos de Monsaraz), a qual surge nos discos com o título de "Verão, Alentejo e os Homens" ou "Verão, Brasa Dourada" ou simplesmente "Verão".
Tivemos acesso a nove gravações por outros tantos intérpretes (por ordem alfabética): Alencanto, António Zambujo, Grupo Banza, Grupo Coral Etnográfico "Amigos do Alentejo", Grupo Coral "Vozes de Almodôvar", Mário Moita, Modas ao Luar, Monda, e Raízes do Sul. A do Grupo Banza, publicada no álbum "Açorda Alentejana" (2004) e na compilação "25 Anos" (2006), foi a que mais nos cativou e é essa que aqui apresentamos.
Com a introdução da ceifa mecanizada, desapareceram dos campos do Alentejo os ranchos de ceifeiros que, de corpos curvados e sob um sol abrasador, cortavam e atavam em molhos a bênção loira da vida (parafraseando versos da cantiga). Tal trabalho, de tão árduo e extenuante que era, não terá deixado grandes saudades naqueles que o viram acabar, mau grado a contingência da procura de outro modo de sustento, mas perdeu-se irremediavelmente o contexto laboral que fez nascer alguns dos mais belos espécimes do cancioneiro popular português, de que o presente é um magnífico exemplo. O progresso cobra sempre um preço. Disso foram boas testemunhas as pessoas (portadoras de saberes ancestrais) a quem Rafael Correia deu voz no maravilhoso programa "Lugar ao Sul" durante três decénios (os dois últimos do século XX e o primeiro do século XXI), para proveito do afortunado e fiel auditório que nas matinas de sábado escutava religiosamente a Antena 1. É oportuno lembrar que, sendo o acervo do "Lugar ao Sul" algo de fabuloso e único (enquanto documento cultural e antropológico), importa que a entidade que o detém, a Rádio e Televisão de Portugal, não demore mais a resgatá-lo todo das perecíveis cassetes DAT e a disponibilizá-lo na plataforma RTP-Arquivos para que os cidadãos que com ele se queiram cultivar o possam fazer.
Às gentes que ao longo de séculos e séculos verteram o seu suor a segar o pão da vida, e desse esforçado labor souberam recolher inspiração para criar as modas e as cantigas que hoje constituem um património precioso, rendemos a nossa penhorada homenagem!



Verão



Letra e música: Manuel Conde Fialho
Intérprete: Grupo Banza* / voz solo de António Jacob (in CD "A Açorda Alentejana", Grupo Banza, 2004; CD "25 Anos", Grupo Banza, 2006)


Verão,
A brasa dourada e celeste
Esvaiu do Sol agreste
Doirando mais as espigas;
Ceifeiros, corpos curvados
Cortando e atando em molhos
A bênção loira da vida.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa,
O sol ferino e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada;
O suor rasga as camisas,
Um homem queimado mais fica,
E a vida é feita de brasa.

O calor caustica os corpos,
Os ceifeiros vão ceifando
Sem parar no seu labor;
O seu cantar é dolente,
É certo que é boa gente,
É verdade e tem mais sol.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa,
O sol ferino e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada;
O suor rasga as camisas,
Um homem queimado mais fica,
E a vida é feita de brasa.

O calor caustica os corpos,
Os ceifeiros vão ceifando
Sem parar no seu labor;
O seu cantar é dolente,
É certo que é boa gente,
É verdade e tem mais sol.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa,
O sol ferino e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada;
O suor rasga as camisas,
Um homem queimado mais fica,
E a vida é feita de brasa.


* [Créditos gerais do disco:]
Grupo Banza:
Victor Godinho (n. Barreiro) – voz e baixo
Joaquim Banza (n. Entradas) – voz e bandolim
Jacinto Gaspar (n. Safara) – voz e guitarra
Zé Rita (n. Safara) – acordeão
João Soares (n. Aljustrel) – voz e guitarras
António Farinha (n. Moura) – voz
António Jacob (n. Panóias) – voz e guitarra
Participação de:
Guilherme Banza – guitarra portuguesa
Diogo Clemente – guitarra clássica
Tio Bejinha – castanholas
Jorge Miguel – acordeão e teclados
Produção – Jorge Miguel / JM Produções
Gravado por Jorge Miguel, nos Estúdios IN/OUT, Vale Figueira, Sobreda da Caparica



Capa do álbum "A Açorda Alentejana", do Grupo Banza (2004).



Capa da compilação "25 Anos", do Grupo Banza (2006).

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