03 Abril 2014

Celebrando Agostinho da Silva



Sou marujo mestre e monge
marujo de águas paradas
mas que levam os navios
às terras por mim sonhadas

também sou mestre de escola
em que toda a gente cabe
se depois de estudar tudo
sentir bem que nada sabe

mas nem terra ou mar me prendem
e para voar mais longe
dum mosteiro que não houve
e não haja me fiz monge.


Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 111)


UM HOMEM EXTRA-ORDINÁRIO

Parece fácil falar de Agostinho da Silva. Em fim de vida e graças à televisão, a sua figura, o seu pensar em directo e em voz alta para milhões de pessoas, como se tivesse conseguido unir milagrosamente a unidade do seu ser à sua aparência de Sócrates familiar, missionário sem mais missão que a de inculcar que todos somos naturalmente sábios e filósofos, Agostinho da Silva era a encarnação perfeita de uma existência transparente. No sentido original do termo, uma existência não-hipócrita. O mínimo de comédia de que precisamos para representar no palco da vida era-lhe estranho. Com razão, esta ausência de pose, que em outros podia passar pela mais refinada das poses, fascinava aqueles que assistiam, nem sempre convencidos, a este exemplo, mais do que raro, de um homem em que era impossível separar o verbo da acção por ele enunciada, como se fosse o acto mais óbvio e simples do mundo.
Podíamos atenuar este espanto que já não o era, catalogando Agostinho da Silva na categoria já sem surpresas, mas sempre surpreendente, do místico. É uma roupagem que lhe assenta bem e nem se vê outra que melhor defina o estilo de existência que nele se encarnou ou ele encarnou. Acontece apenas que a imagem do «místico» arrasta consigo um certo número de referências, evoca uma atmosfera eclesial e sobretudo, entre nós, uma tradição, por assim dizer, homologada oficialmente por uma autoridade institucional ou institucionalizada. E como era visível, nada estava mais distante de Agostinho da Silva do que esta inscrição do autor de Aproximações ao círculo da mística cristã tal como vulgarmente se entende e é exemplificada desde S. João da Cruz a Santa Teresa, ou mesmo pelo tão evocado S. Francisco de Assis. Claro que todos os «místicos», ou aquilo que assim chamam aqueles que o não são, mesmo os mais teologicamente insuspeitos, relevam do excepcional e da excepção. A esse título, Agostinho da Silva não destoaria na ilustre e canónica companhia. Digamos que pode figurar na mais rara espécie de homens que são os «místicos» se lhe acrescentarmos uma dose suplementar de «extravagância» ou, se se prefere, de excentricidade.
Não em meros termos de comportamento exterior, de total desprezo pelas regras, costumes ou ritos mundanos, que fazem parte do folclore da mais inequívoca santidade, mas da íntima e irredutível ex-centricidade. Agostinho da Silva não tendeu, graças a qualquer tipo de ascese, para uma experiência inefável do que se convenciona designar por Absoluto, transcendência mais ou menos heterogénea à essência humana. Agostinho da Silva, se foi «místico», foi-o de um misticismo «sulfuroso» pela natureza naturalista da sua visão do mundo e da vida. Não se instalou na excepção, pregou e viveu no combate à ideia de excepção, em todos os domínios, numa espécie de anarquismo profético e radioso, no fundo mais próximo de Rousseau que de qualquer figura clássica da família «mística».
O misticismo de Agostinho da Silva — se assim se lhe pode chamar — é um misticismo por defeito, por intencional desconsideração daquilo que, em todas as ordens, desde a do pensamento, da imaginação, da vontade, mas também da acção, se apresenta como exemplar. Foi, com uma naturalidade quase provocante, um marginal, mas não da marginalidade maldita, sacrificial, infeliz, que tanto agrada aos «mártires» da liberdade, da criação ou da acção. Se não fosse de essência provocatória, quase demoníaca, o seu utopismo, o seu optimismo voluntarista, a sua aparente ou realíssima recusa do trágico, seriam quase intoleráveis. É possível imaginar que neste grau, a sua aposta, diametralmente antagónica da de Pascal, releva, em qualquer desvão, de não sei que paradoxal ressentimento. Há em Agostinho da Silva um tão extremado gosto pela «estaca zero» do humano, uma tão intensa denegação de tudo o que signifique ou pretenda, a que título for, ser tido como «distinto», como «valioso» no sentido de se arrogar assim como signo de qualidade ou mérito, que só em termos de ressentimento parecem explicáveis. E, todavia, precisamente, a imagem que ele deu a quem o conheceu ou teve ocasião de o ver quando, cândida e desarmadamente, se ofereceu ao juízo público, parece incompatível com esse reflexo, característica de alguém secretamente ferido, como precisamente, mas também dando a impressão oposta, o foi Jean Jacques Rousseau.
Estamos a anos-luz daquela imagem-mito que não só nos últimos anos, mas penso, sempre, se colou ao homem e à figura de Agostinho da Silva, como exemplo de existência clara, sem sombra de sombra, vida activamente inserida na sua «pregação profética» sem hiato com a sua vida. Não foi um vagabundo irónico como Sócrates, nem um provocador cénico, mais em actos do que em palavras, como Diógenes, mas de um e outro exemplificou, aparentemente sem suscitar nem fundado espanto, nem desconfiança, junto daqueles que, incapazes de medir o alcance da sua palavra intrinsecamente subversiva, mais inclinados estavam — ou estão — a compará-lo a uma figura como S. Francisco de Assis.
Quando um dia se ler a sério Agostinho da Silva — que é um original escritor e um pensador perturbante —, terá inevitavelmente que se evocar o revivalismo franciscanista que tantos ecos teve na cultura portuguesa desde os finais do século XIX. Agostinho da Silva insere-se nessa tradição conferindo-lhe uma dimensão e uma tonalidade singulares.
Para os franciscanistas da geração de 70 e das gerações seguintes, desde Guerra Junqueiro a Eça de Queirós até Teixeira de Pascoaes e Cortesão, o culto e mesmo a mitologia de S. Francisco foi uma espécie de hipercristianismo de gente que cortara com o catolicismo tradicional e, sobretudo, com um clericalismo omnipresente e retrógrado, ainda muito sensível na sociedade portuguesa. Esse aspecto é o que avulta no autor d' A Velhice do Padre Eterno, mas não é o mais importante. A sua forma acabada e aquela onde a «filosofia» do cristianismo, segundo Francisco de Assis, se exprime de maneira convincente, encontra-se n' Os Simples. S. Francisco de Assis é para essas gerações o S. Paulo da nova igreja dos «Simples», o santo que concilia o culto da Santa Pobreza com o amor e a efusão da Natureza. A componente e a função social deste franciscanismo onde se conciliava simbolicamente o revolucionarismo utópico dos «Jacques» tão caros a Eça, com as aspirações místicas de um cristianismo puro, não é a mais significativa. Em todo o caso, não o será, nem para Jaime Cortesão nem para Agostinho da Silva, que prolonga e transfigura a visão franciscanista do poeta de Águia e futuro historiador dos Descobrimentos. O essencial da visão franciscanista da vida para ambos concentra-se nessa paixão pela Natureza, mas uma natureza, por assim dizer, «sem mancha de pecado original». Em suma, como corpo de Deus com o qual o corpo e a pulsão natural da Humanidade, logo desvinculada dos artifícios da civilização e da cultura (herança de Rousseau), se confundem. Isto foi lido, e não sem razão, no que diz respeito a Jaime Cortesão, como uma forma de paganização subtil do cristianismo, coberta pela referência insuspeita a S. Francisco, menos do que, como forma imposta pelos imperativos de um Evangelho depurado das excrescências da autoridade e do dogma. Daí os grandes hinos de Cortesão ao instintivo, ao sensual e mesmo ao erótico e a grande complacência com que exalta como expressão da nossa singularidade nacional uma cultura impregnada do sentimento pânico da vida ou louva a nossa lírica tão inocentemente sensual.
Agostinho da Silva retém um certo número de traços da visão do mundo ou da leitura da nossa maneira de ser proposta por Jaime Cortesão. Não foi impunemente que o universitário Agostinho da Silva se interessou pelo mais «erótico» e pouco recomendável, segundo os nossos hipócritas códigos vigentes, autor antigo, Catulo. A escrita límpida, o lado de profetismo e misticidade característicos da prosa de Agostinho da Silva, velam um pouco o que não pode deixar de se designar por «erótica» agostiniana. Um erotismo que não tem apenas o conteúdo negativo da recusa ou denegação do ascetismo, essência da comum espiritualidade lusitana, desde os bons tempos de Heitor Pinto, mas o gosto positivo pela vida, na sua natural pulsão vital e fonte de sedução. O seu famoso paracletismo, a apologia do Espírito Santo, não é apenas um eco mimético da tradição joaquimista [referente a Joaquim de Fiore], uma maneira de considerar findo o reino da Lei (o do Pai) e o do Sacrifício (o do Filho) com a entrada no terceiro reino, o da Liberdade, que é, sobretudo, o do Amor. Esse seu culto do Espírito Santo é o de uma nova Criação, filha da esperança e aberta como a esperança sobre um futuro em que o homem se descobrirá, ou descobrirão, ao abdicarem das formas imperfeitas da Lei e da Dor, como «eternas crianças» e imperadores da sua própria vida. Foi isto que Agostinho da Silva reteve como mais válido e profundo em Fernando Pessoa, o Fernando Pessoa da Mensagem, a quem dedicou a primeira leitura simbólica coerente (na luz da própria visão) que se conhece. Este homem de uma vasta e segura cultura, como Pessoa, encontra-se com ele numa mesma espécie de recusa transcendente, mas não menos decidida, de uma cultura livresca, esquecida da silenciosa sabedoria que a todos nos habita quando nos abandonamos ao sopro do «Espírito Santo», à lição de uma Natureza que ensina quando nós nos calamos. E assim, com o tempo, e cada vez mais despojado das realidades e investiduras do mundo, do mundo social e dos seus ritos, do mundo intelectual e das suas rendosas imposturas, Agostinho da Silva se revestiu, com todos os sinais da autenticidade, das conotações de um verdadeiro símbolo e até herói da Contra-Cultura. Ou melhor, de qualquer coisa mais rara que não vive da negação, mesmo a mais fundada — e em Agostinho da Silva também esse aspecto existe —, mas da transcendência do cultural, da vitória sobre ele quando se olha todo o seu imponente império, não como mera poesia da sandália dos deuses, mas com a inocência de uma criança que acaba de abrir os olhos para o Universo e a sua gratuita magnificência.
Como toda a gente da minha geração, conheci Agostinho da Silva através dos célebres fascículos vendidos então a quinze tostões, que punham o público ledor, culto ou popular, na intimidade de grandes figuras e, sobretudo, grandes e saborosos textos do passado. O primeiro que comprei foi sobre Stendhal, autor então em vias de reconhecimento universal e hoje, pensando bem, vejo nisso não um mero acaso, mas a chave para a futura inscrição de um homem que foi a Liberdade, mesmo no campo de um autor tão pessoal, tão classicamente inclassificável como o autor d' A Cartuxa de Parma. Mais tarde, li a sua tradução de três ensaios de Montaigne, pai da prosa do corpo, da alma e da inteligência, seu outro modelo — à parte o impessoal dos clássicos da infância — que o da sua própria vida, observados sem complacência, mas também sem reticências. Mas só o acaso de uma errância brasileira me fez encontrar o homem dos sete ofícios, profeta, pedagogo, sábio, naturalista por conta própria, em Santa Catarina, onde então Agostinho da Silva era uma espécie de oficioso secretário de assuntos culturais e, como sempre, um pólo de vida activamente contemplativa, de que não conheci segundo exemplo. Recebeu-me (recebeu-nos, a mim e minha mulher) como se me conhecesse desde sempre. Com uma enorme e negra aranha dos trópicos na palma da mão esquerda, divertido com o meu assombro e não menos pequeno temor. A Natureza e a sua face misteriosa, terrífica, o símbolo dos pesadelos e das ficções científicas, repousava nas suas mãos como num berço. Tinha domesticado «o mal» como se ele não existisse. Ou como se ele não o quisesse ver. Não sei se isto basta para perceber que espécie de «misticismo» era o seu. Mas bastou-me para sentir, e definitivamente, que estava diante de um dos Homens mais extra-ordinários que me foi dado conhecer.

Lisboa, 7 de Março de 1995.

Eduardo Lourenço (prefácio ao livro "A Última Conversa - Agostinho da Silva, Entrevista de Luís Machado", Lisboa: Editorial Notícias, 1995)


Agostinho da Silva [>> resenha biográfica e >> bibliografia] faleceu a 3 de Abril de 1994, faz agora vinte anos. Ocasião para revisitarmos o ideário do visionário pensador, servindo-nos de alguns dos seus escritos (poemas e textos de cariz ensaístico), em voz alheia, seguidos dos vídeos das "Conversas Vadias", pois esta homenagem ficaria incompleta se não se pudesse ouvir o professor pela sua boca.
A propósito de registos em voz própria, importa não esquecer os realizados para a rádio, que não foram poucos, dos quais destaco as entrevistas concedidas a José Nuno Martins (para a Rádio Comercial), a Fernando Alves (para a Antena 1 e, mais tarde, para a TSF) e a Graças Vasconcelos (para a Antena 1 – programa "Imaginário"). Afigura-se pois pertinente lançar um repto à direcção da Antena 1: que se faça um ciclo evocativo de Agostinho da Silva aproveitando o material existente no arquivo histórico da RDP!



Soldado no Brasil, Marinheiro em Portugal



Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 46)
Música: Paulo de Carvalho 
Intérprete: Paulo de Carvalho* (in CD "Cores do Fado", MDL/Som Livre, 2004)


Fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal
dos meses prefiro Abril
aurora primaveril
de liberdade ideal
das festas vou por Natal
em que inocência infantil
triunfante vence o mal
e sempre em sonhos de anil
sempre em vagas de real
fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal.


* Paulo de Carvalho – voz
André Sarbib – piano acústico
Paulo Jorge Santos – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola acústica
Produção musical – Fernando Abrantes e Paulo de Carvalho
Produção executiva - Fernando Abrantes e Renato Júnior
Gravado nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos, em Março de 2004
Gravação, mistura e masterização – Fernando Abrantes



Ontem sonhei que sonhava



Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 77)
Música: Henrique Lopes
Intérprete: Contrabando* (in CD "Coisas do Ser e do Mar", AE-Artes do Espectáculo, 2008)




Ontem sonhei que sonhava
e me mantinha desperto
contente por me escapar
de um mundo que me era incerto

Quando tornei a dormir
já rompia a madrugada
e na clara luz não tinha
certeza alguma de nada

Seguro porque voltava
ao que é lógico e real
à vida que firme sabe
do que é bem e do que é mal


* Nuno Cabrita – voz
Henrique Lopes – viola campaniça
Carlos Menezes – baixo eléctrico, contrabaixo
Valter Passarinho – percussão, bateria
Direcção musical – Nuno Cabrita, Henrique Lopes e Carlos Menezes 
Produção – AE-Artes do Espectáculo, Lda.
Produção executiva – Nuno Cabrita & AE-Artes do Espectáculo, Lda.   
Gravado, misturado e masterizado entre Junho e Dezembro de 2005
Captação de som – António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém & Carlos Menezes, no CM Estúdio, Évora
Mistura – António Cordeiro e Nuno Cabrita, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém
Masterização – António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém



Teria passado a vida



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 123)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)


Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho

umas vezes são de noite
outras em pleno de sol
com relâmpagos saltados
ou vagar de caracol

quem os manda não sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.



Três votos fará aquele



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 124)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)


Três votos fará aquele
que não ser tolo decida
e venha deles primeiro
o de obediência à vida

será o segundo a vir
o de não querer ser rico
o muito passe de largo
o pouco lhe apure o bico

não violar-se a si próprio
como principal o veja
alto ou baixo gordo ou magro
assim nasceu assim seja.



Tudo pode vir do nada



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 125)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)


Tudo pode vir do nada
várias tintas várias telas
esta vida em que vivemos
é apenas uma delas

mil outras no mesmo espaço
mil outras em hora igual
rivalizam no sonhar
o que pensamos real

e podemos ir além
neste quadro que vos traço
tempo é tempo imaginado
em que se limita o espaço.



Vos direi o que é o tal



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 140)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)


Vos direi o que é o tal
alicerce em que me afundo
todos somos limitados
não o é porém o mundo

não ireis pois por ninguém
e por mim menos que nada
a vida vos seja guia
consultada e meditada

ou quem sabe se sonhada
ou quem sabe se inventada.



Por causa do mundo curvo



Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 83)
Música: Henrique Lopes
Intérprete: Contrabando* (in CD "Fresta", Contrabando, 2000)


Por causa do mundo curvo
eis aqui o que procuro
ter eu amor do passado
com a paixão do futuro

mas há remédio bem simples
para não ser inseguro
é amar vida sem tempo
ou seja o presente puro.


* Nuno Cabrita – voz
Henrique Lopes – guitarras acústicas
José Carias – baixo eléctrico
Luís Melgueira – percussões
Arranjos e direcção musical – Nuno Cabrita e Henrique Lopes
Produção – Nuno Cabrita e Contrabando
Produção executiva – Nuno Cabrita 
Gravado por Rui Guerreiro, no MG Estúdio, entre Setembro de 1998 e Março de 1999
Misturado por António Cordeiro e Nuno Cabrita, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém, em Abril e Maio de 1999
Masterizado por António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, em Junho de 1999



Como penso que a matéria



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – págs. 28-29)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24-Set-2010)


Como penso que a matéria
é só construção das almas
tenho eu que a examinar
com atenção e nas calmas

guiado por quem a sabe
com precisão matemática
lhe conhece o que é seguro
e o que é audácia temática

e como espero que a ciência
tenha sempre um atractivo
o de não dar do que existe
conceito definitivo

não só irei prosseguindo
em a saber mais e mais
me esforçarei por que todos
me possam ser como iguais

passarei com todo o gosto
por bom materialista
e em tudo que digam espírito
lhe procurarei a pista

incitarei a comer
incitarei a dormir
incitarei a morar
e às doenças resistir

goze cada qual matéria
até dela se enjoar
e solte as asas depois
se seu gosto for voar

que eu voarei por meu lado
no céu que os outros fizerem
quando depois de ter tudo
nem migalhas mais quiserem

irei calmo como sempre
pois nada me precipita
só depois de ser da física
passarei à metafísica

e bailarei com as almas
que quiserem vir comigo
feliz de serem felizes
as que ficaram consigo.



Viva a Vida (Disse a Vida)



Poema: Agostinho da Silva (poema "Mas que gente esta tão triste" + dois primeiros versos do poema "Viva a vida disse a vida", in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – págs. 63 e 142)
Música: Paulo de Carvalho 
Intérprete: Claud* (in CD "Contradições", Som Livre, 2006)




Mas que gente esta tão triste 
fumadores e fumadoras 
com o seu império perdido 
seu passado esquecido 
e o futuro inconcebido 
mas tem a vida seu jeito 
com seu destino perfeito 
seus planos a cumprir 
só não os quis descobrir 
para nada os demolir 

Viva a vida, disse a vida 
e nunca mais se morreu
[4x] 

Que ridícula figura 
farão perante seus netos 
se é que têm energia 
bastante para haver netos
ou se não recusem estes 
a nascer de tais avós 
que sois claro todos vós
e seremos todos nós 
se formos no mesmo rumo 

Viva a vida, disse a vida 
e nunca mais se morreu
[4x] 

Que sois claro todos vós
e seremos todos nós 
se formos no mesmo rumo 
com uma excepção parece 
esta de mim que não fumo 
[2x]

Viva a vida, disse a vida 
e nunca mais se morreu
[6x] 


* [Créditos gerais do disco:]
Claud – voz
Paulo Cavaco – piano, teclados e programações
Ruca Rebordão e Paulo de Carvalho – percussões
Amadeu Magalhães – violas braguesas, cavaquinho e gaita-de-foles
Rui Curto – acordeão
Paulo Sousa – sitar
João Moreira – tablas
Coros – Claud, Paulo Cavaco e Paulo de Carvalho
Arranjos – Paulo Cavaco
Direcção musical de projecto – Paulo de Carvalho
Produção – Paulo Cavaco e Paulo de Carvalho
Produção executiva – Claud
Gravado nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos, por Samuel Henriques, e nos Estúdios MusicArt, Barreiro, por Paulo Cavaco
Mistura – Fernando Abrantes e Paulo Cavaco, nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos
Masterização – Fernando Abrantes



Bendito seja o desejo



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 21)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24-Set-2010)


Bendito seja o desejo
abençoada a carícia
quanta pena das meninas
deserdadas de malícia

ou por medo do diabo
ou pelo dente de siso
não tiveram a feliz
propulsão do paraíso

propulsão não expulsão
que foi ela a força dada
para que houvesse na vida
a mais perfeita jornada

em que regresso nenhum
desejamos ao céu falho
em que do pai só havia
parado olhar duro ralho

a outro mundo vagamos
nossos votos ali vão
os de sumirmos de todo
no ponto sem dimensão

e vai uma nota ainda
de que peço mil perdões
o ponto sem dimensão
dá todas as dimensões.



Meu amor que te foste sem te ver



Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 59)
Música: Paulo de Carvalho 
Intérprete: Joana Amendoeira* & Mar Ensemble (in CD/DVD "Joana Amendoeira & Mar Ensemble", HM Música, 2008)


Meu amor que te foste sem te ver 
que de mim te perdeste sem te amar 
quem sabe se outra vida tu vais ter 
ou se tudo se perde sem voltar 

ou se é dentro de mim que tem de haver 
tanta força no meu imaginar 
que o poeta que é Deus o vá reter 
e te dê vida e faça regressar 

para de novo o sonho desfazer 
num contínuo surgir e retornar 
ao nada que dá ser ao que é querer 
ao fado que só dá para se dar 

por tudo estou amor e merecer 
o que venha para eu te relembrar 
só adorando o nada pretender 
só vogando nas águas de aceitar. 


* Joana Amendoeira – voz
Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – viola de fado
Paulo Paz – contrabaixo 
Filipe Raposo – acordeão
Mar Ensemble:
António Barbosa – 1.º violino
Paula Pestana – 2.º violino 
Ricardo Mateus – viola d'arco
Paulo Moreira – contrabaixo e direcção do naipe de cordas
Maria Rosa – flauta
Rui Travasso – clarinete
Carlos Alberto – trompete
João Carlos – trompa
Arranjos de Mar Ensemble – João Godinho
Pós-produção musical – António Pinheiro da Silva
Produção executiva – Hélder Moutinho / HM Música
Gravado ao vivo nas Praça de Armas do Castelo de São Jorge, Lisboa, no dia 21 de Junho de 2008 (no âmbito da 5.ª edição da Festa do Fado)
Captação de áudio – Luiz Delgado
Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e Maria João Castanheira, entre Setembro e Outubro de 2008



Nada fiz a contragosto



Poema de Agostinho da Silva (in "Quadras Inéditas", Lisboa: Ulmeiro, 1990 – págs. 62 e 90)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)


Nada fiz a contragosto
tudo foi um prazer meu
e nada pedi à vida
do que a vida tanto deu.

Para tantos existir
é uma queixa pegada
terem de ganhar a vida
quando afinal lhes foi dada.



Na tristeza dos triunfos



Poema de Agostinho da Silva (in "Quadras Inéditas", Lisboa: Ulmeiro, 1990 – pág. 73)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24-Set-2010)


Na tristeza dos triunfos
e na alegria das dores
és nada pelo que digas
só vales pelo que fores.



Quem fala de Amor...



Texto de Agostinho da Silva (in "Sete Cartas a um Jovem Filósofo", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – pág. 23; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – pág. 239)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)


Quem fala de Amor não ama verdadeiramente: talvez deseje, talvez possua, talvez esteja realizando uma óptima obra literária, mas realmente não ama; só a conquista do vulgar é pelo vulgar apregoado aos quatro ventos; quando se ama, em silêncio se ama.



Nem verdade nem mentira



Poema de Agostinho da Silva (quinta e última quadra do poema "Por tudo perguntou Sócrates", in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 88)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)


Nem verdade nem mentira
uma coisa assim assim
e se queres saber mais
não me perguntes a mim.



O que escrevo de versinho



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 79)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)


O que escrevo de versinho
é na verdade o que sinto
mas porque procuro a forma
de qualquer maneira minto

o que eu quero era poder
dar naquilo que escrevesse
de tal modo o que me sou
que a todos apreendesse

sem os prender no entanto
deixando-os livres de ser
mas que sentissem então
o que eu fosse sem dizer

ser poema não poeta
é que vejo como um alvo
se o não for para que vivo
mas se for me vivo e salvo.



Ser Poema



Poema: Agostinho da Silva (quadras avulsas extraídas de vários poemas, in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989; "Quadras Inéditas", Lisboa: Ulmeiro, 1990)
Música: Pedro Abrunhosa
Intérprete: Anamar* (in CD "Anamar", Metropolitana, 2013)




Se eu chegar a ser de um Outro
mas de mim não me perdendo 
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo

Não só homens mas também
os animais e as plantas 
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas

Terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já renascida da morte

Mais que tudo quero ter
pé bem firme em leve dança
que o saber seja de adulto
mas o brincar de criança

Não corro como corria
nem salto como saltava
mas vejo mais do que via
e sonho mais que sonhava

Ser poema não poeta
é que vejo como um alvo
se não o for para que vivo
mas se for me vivo e salvo
[bis]

Viva a vida disse a vida
e nunca mais se morreu
Deus em si nos retomando
o tempo eterno nos deu

Nunca voltemos atrás
tudo passou se passou
livres amemos o tempo
que ainda não começou

Cada vez mente que sonha
dentro de mim tem mais voz
sonhadora que se sonha
e nos sonha a todos nós

Mais que tudo quero ter
pé bem firme em leve dança
que o saber seja de adulto
mas o brincar de criança

Não corro como corria
nem salto como saltava
mas vejo mais do que via
e sonho mais que sonhava

Ser poema não poeta
é que vejo como um alvo
se não o for para que vivo
mas se for me vivo e salvo.
[bis]


* [Créditos gerais do disco:]
Anamar – voz
Paulo Borges – acordeão, piano, samplers
Tiago Maia – guitarras (eléctrica e acústica)
Francisco Santos – baixo, contrabaixo
Rui Freire – bateria, percussão
Coros – Anamar, Francisco Santos, José Bettencourt, Paulo Borges, Rui Freire, Tiago Maia
Arranjos e direcção musical – Paulo Borges
Produção – Anamar
Co-produção – Paulo Borges
Produção executiva – Anamar, Paulo Borges, Paulo Ventura
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, por Joaquim Monte e José Fortes, em Agosto de 2012
Misturas – José Fortes
Masterização – Andy Van Dette



Queria que os portugueses



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – págs. 97-98)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24-Set-2010)


Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor

sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal

todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler

teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura

e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale

até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião

que hoje é uma amanhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira

alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto

se a nação analfabeta
derrubou a filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia

deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro.



Portugal foi formado na beira de um Oceano



Texto de Agostinho da Silva (in "Nova Águia: Revista de Cultura para o Século XXI", N.º 3, Lisboa: Zéfiro, 1.º Semestre de 2009)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)


Portugal foi formado na beira de um Oceano, não nas margens do Danúbio ou nas escuras florestas góticas da Escandinávia ou nas cinzentas colinas dos Países Baixos. A viva luz ambiente, a pressão por vezes esmagadora imposta pela presença de uma imensa e turbulenta massa oceânica imprimiu desde cedo um carácter muito especial aos povos que foram chegando a este extremo europeu, que aqui se foram mesclando, camada após camada, até enformarem aquilo que hoje conhecemos como o "português" e que espalhando-se pelo mundo fora, haveria de botar sementes de Lusofonia no Brasil, em África e na Oceânia que ainda hão-de frutificar e unir nesse carácter aventureiro comum todos estes povos dispersos pela geografia e pelos acasos da História.
Foi a paixão pela aventura, que nunca existiu num formato tão essencial e absoluto em nenhum outro povo além, talvez, excepto, nos Gregos e nos Fenícios, de que a portugalidade é plena herdeira, quer geneticamente, quer em termos de temperamento e alma. Se holandeses, ingleses e alemães se bastam e satisfazem como formiguinhas metódicas e organizadas, o português aborrece-se de morte nessas tarefas contabilistas e contadoras e sonha com mares abertos, com aventuras em terras distantes e feitos únicos. Por isso, um país tão pequeno conseguiu colonizar um país continente tão extenso e diverso como o Brasil, por isso o regime de Salazar fez tudo quanto pôde para travar os fluxos migratórios para África, por isso a emigração portuguesa foi sempre tão intensa ao longo de tantas décadas (e por isso mesmo regressa agora em plena força). O português não se fez para viver em Portugal. O português é acima de tudo um cidadão do mundo, fiel à aventura do Descobrimento e do Desbravamento e sonhando com novos mares e terras renovadas. Quando tentaram fazer de nós um "país europeu" entrámos em longa depressão colectiva numa Europa de germânicos e eslavos com quem não nos identificamos nem na alma profunda, nem no temperamento superficial. Os nossos irmãos mediterrâneos, espanhóis, italianos e gregos comungam connosco deste sentido sentimento de inferioridade em relação aos Senhores do norte da Europa, mas não têm a força anímica que já revelámos ter, resistindo a duas perdas de independência e mantendo as fronteiras mais estáveis de todo o continente.
Portugal tem a missão e o dever históricos de liderar os povos mediterrâneos, da margem nortenha deste mar, até a um ponto comum, que os separe dos povos do norte que sempre cobiçaram os seus Estados e solarengas paragens, que os afaste para as escuras e húmidas florestas do Norte e que refundem em torno dos conceitos mediterrâneos de "vida conversável" e aventura empolgante as formas de vida que os neo-germânicos tornaram em contabilidade e aforramento financeiro. O Homem mediterrâneo não foi formado para contar e somar; o mediterrâneo, de onde brota em primeira linha o português e através dele, o lusófono, fez se para viver e contar o que viveu, não para somar o número de pregos que usou na sua caravela, nem os quilos de pimenta que embarcou em Cochim. Foi quando o passámos a fazer que desenhámos o fim de Portugal e preparámos séculos depois a adesão a uma Comunidade Europeia com a qual nada temos a ver.



O povo culto



Texto de Agostinho da Silva (de "O Terceiro Caminho", in "Diário de Alcestes", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – pág. 26; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – pág. 217)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)


Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos, não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno.



Tolerância às opiniões



Texto de Agostinho da Silva (de "Tolerância", in "Diário de Alcestes", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – pág. 20; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – pág. 214)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)


Para que os homens possam sentir-se felizes com a minha companhia, é necessário antes de tudo que eu tenha a grande força de ver como prováveis as opiniões a que aderiram, desde que as não venham contradizer os factos que posso observar; não devo supor-me infalível; não devo considerar-me a inteligência superior e única entre o bando de pobres seres incapazes de pensar; cumpre-me abafar todo o ímpeto que possa haver dentro de mim para lhes restringir o direito de pensarem e de exprimirem, como souberem e quiserem, os resultados a que puderam chegar; de outro modo, nada mais faria do que contribuir para matar o universo: porque ele só vive da vida que lhe insufla o pensamento poderoso e livre.



Realização e êxtase



Texto de Agostinho da Silva (de "Sobre o Êxtase", in "Diário de Alcestes", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – págs. 17-18; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – págs. 212-213)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)


Conviria distinguir bem um do outro o caminho para o êxtase e o próprio êxtase; o primeiro ainda pode ter algum interesse por todas as lutas interiores, por todas as incertezas, por todo o esforço de pensar amplamente a que em geral dá origem; no entanto já nele mesmo poderíamos ver, além de uma preocupação egoísta, uma alternativa de esperança e desespero, um gosto da revelação e dos auxílios sobrenaturais que não poderão talvez classificar-se como superiores. 
Do êxtase, porém, não alimentamos grandes desejos; o amor que nele descobrimos não pertence à categoria do amor que mais nos interessa — o que eleva o amado acima de si próprio, o que se esforça por esculpir uma alma com entusiasmo e paciência; é um amor a que se chega como recompensa de tarefa cumprida; não marca as delícias do caminho difícil, apaga-as da memória; faz desaparecer do peito do homem o seu único motivo de alegria, a sua única fonte de verdadeira glória. 
Viver interessa mais que ter vivido; e a vida só é vida real quando sentimos fora de nós qualquer coisa de diferente; se a diferença se tornar oposição, se o que era caminho diverso se transformar em muro de rocha, então no duelo que se trava, no instável equilíbrio que a cada momento se pode romper e precipitar-nos das alturas, nesta batalha em que não há um minuto de rancor pelo adversário, encontraremos a grande e forte vida; ora o êxtase consiste realmente no apagar das distinções, na identificação perfeita de dois termos.



O grande educador



Texto de Agostinho da Silva (de "Sanderson of Oundle", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – págs. 45-46; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – págs. 106-107)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)


É além de tudo essencial que a escola se não separe do mundo; não há escolas e oficinas; há um certo género de oficinas em que trabalham crianças nas tarefas que lhes são adequadas e lhes vão facilitando o desenvolvimento do corpo e do espírito; vão colaborando no que podem e no que sabem para que a vida melhore. Ninguém fugirá da escola e a olhará como um horror no dia em que a deixemos de conceber como o lugar a que se vai para receber uma lição, para a considerarmos como o ponto de condições óptimas para que uma criança efectivamente dê a sua ajuda a todos os que estão procurando libertar a condição humana do que nela há de primitivo; não se veja no aluno o ser inferior e não preparado a que se põe tutor e forte adubo; isso é o diálogo entre o jardineiro e o feijão; outra ideia havemos de fazer das possibilidades do homem e do arranjo da vida; que a criança se não deixe nunca de ver como elemento activo na máquina do mundo e de reconhecer que a comunidade está aproveitando o seu trabalho; de número na classe e de fixador de noções temos de a passar a cidadão. 
O grande educador não pensa na escola pela escola, como o grande artista não aceita a arte pela arte; é incapaz de se encerrar na relativa estreiteza de uma vida de ensino; a escola, de tudo o que lhe oferecia o universo, é apenas o ponto a que dedicou maior interesse; mas é-lhe impossível furtar-se a mais larga actividade. De outro modo: trabalha com ideias gerais; não dirá que esta escola é o seu mundo, mas que esta escola é parte indispensável do seu mundo. E quererá também que toda a oficina passe a ser uma escola; que haja o trabalho proporcionado e alegre, amorosamente feito, porque se sabe necessário ao progresso, levado a cabo numa atitude de artista e de voluntário, disciplinado remador na jangada comum; que se não esmaguem as faculdades superiores do operário sob o peso e a monotonia de tarefas sem interesse e sem vida; que se faça a clara distinção entre o homem e a máquina; que, finalmente, se ajude o trabalhador a encontrar na sua ocupação, em todas as ideias que a cercam e a condicionam ou que ela própria provoca, o Bem Supremo da sua vida e da vida dos outros.



Os malefícios da rivalidade na escola



Texto de Agostinho da Silva (de "Da Emulação", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – págs. 49-50; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – págs. 109-110)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)


Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de emulação; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e a ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar. 
A mesquinhez de uma vida em que os outros não aparecem como colaboradores, mas como inimigos, não pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma visão mais ampla do mundo; esforço de vencer, temor de ser vencido; é já todo o temperamento de "struggle" que se afina na escola e lançará amanhã sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam. 
Quem não sabe combater ou não tem interesse pela luta ficará para trás, entre os piores; e é certamente esta predominância dada ao espírito de batalha um dos grandes malefícios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos; não se trata de ajudar, nem de ser ajudado, de aproveitar em comum, para benefício de todos, o que o mundo ambiente nos oferece; urge chegar primeiro e defender as suas posições; cada um trabalhará isolado, não amigo dos homens, mas receoso dos lobos; o saber e o ser não se fabricam, para eles, no acordo e na harmonia; disputam-se na luta. 
Urge quanto antes alargar a reforma radical que as escolas novas fizeram triunfar na experiência; que só haja dois estímulos para o trabalho nas aulas: a comparação de cada dia com o dia anterior e com o dia futuro e o desejo de aumentar o valor, as possibilidades do grupo; por eles se terá a confiança indispensável na capacidade de realizar e a marcha irresistível da seta para o alvo; por eles também o sentido social, o hábito da cooperação, a tolerância e o amor que gera a convivência em vez de um isolamento de caverna e de uma agressividade permanente; a vitória de uma ideia de paz sobre uma ideia de guerra.



O professor como mestre



Texto de Agostinho da Silva (de "Projecto de um Mestre", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – págs. 41-43; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – págs. 103-104)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)


Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário. 
Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.



Compreender e unir



Texto de Agostinho da Silva (de "Por um Fim de Batalha", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – págs. 59-60; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – págs. 116-117)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)


Já são em número demasiado os que vieram ao mundo para combater e separar; o progresso e valor de cada seita e de cada grupo dependeram talvez desta atitude descriminadora e intransigente; aceitemos como o melhor que foi possível tudo o que nos apresenta o passado; mas procuremos que seja outra a atitude que tomarmos; lancemos sobre a terra uma semente de renovação e de íntimo aperfeiçoamento. 
Reservemos para nós a tarefa de compreender e unir; busquemos em cada homem e em cada povo e em cada crença não o que nela existe de adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um mútuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia. 
Reflictamos em que são diferentes os caminhos que toma cada um para seguir em busca da verdade, em que muitas vezes só um antagonismo de nomes esconde um acordo real. Surja à luz a íntima corrente tanta vez soterrada e nela nos banhemos. Aprendamos a chamar irmão ao nosso irmão e façamos apelo ao nosso maior esforço para que se não quebre a atitude fraternal, para que se não perca o dom de amor, para que se não cerre o coração à mais perfeita voz que nos chama e solicita. 
Não os queremos trazer ao nosso grémio nem ingressar no deles; apenas desejamos que da melhor compreensão entre uns e outros, do conhecimento das essências, se erga a morada de um Pai que não distingue entre os eleitos e a todos por igual protege e incita; cada um ficará em sua lei; só pretendemos que não tome os de leis diferentes por implacáveis inimigos ou por almas perversas e perdidas; são homens como nós e vão-se dirigindo ao mesmo fim; desde já os vejamos como futuros companheiros.



Capa do livro "Uns Poemas de Agostinho" (Ulmeiro, 1989)
Desenho de Miguel Horta.


A seguir, apresenta-se a integral das "Conversas Vadias" (treze episódios), originalmente transmitidas pela RTP-1 no ano de 1990.



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 1 - Maria Elisa Domingues (jornalista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 2 - Adelino Gomes (jornalista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 3 - Joaquim Letria (jornalista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 4 - Isabel Barreno (escritora)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 5 – Baptista-Bastos (jornalista e escritor)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 6 - Alice Cruz (locutora e apresentadora de televisão)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 7 - Cáceres Monteiro (jornalista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 8 - Fernando Alves (jornalista de rádio)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 9 - Vasco Ramalho e João Carlos (estudantes)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 10 - Herman José (humorista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 11 - Miguel Esteves Cardoso (jornalista e escritor)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 12 - Manuel António Pina (poeta e escritor)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 13 - Joaquim Vieira (jornalista e investigador)