23 Julho 2014

02 Julho 2014

Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen


Sophia fotografada em 1940.
Capa do livro "Sophia de Mello Breyner Andresen: Uma Vida de Poeta" (Editorial Caminho, 2011), catálogo da exposição que esteve patente na Biblioteca Nacional, de 26 de Janeiro a 30 de Abril de 2011.


«Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.»

Sophia de Mello Breyner Andresen (excerto inicial de "Arte Poética V", in "Ilhas", Lisboa: Texto Editora, 1989)


PARA UM RETRATO DE SOPHIA

              Voam no firmamento os seus cabelos
              Nas suas mãos a voz do mar ecoa
              Usa as estrelas como uma coroa
              E atravessa sorrindo os pesadelos

                                    DIA DO MAR

Da música escreveu Hoffman que era "a essência misteriosa da natureza". Digamos, a canção de embalar do nosso inconsciente ou o nosso inconsciente como canção de embalar. Tudo isto se pode aplicar à poesia que nasceu da música, ou com ela, e con­servou sempre essa umbilical referência à sua origem. Mas a poesia enquanto palavra-canto e palavra encantatória não é apenas como a música esse abandono ao mistério da natureza em nós, mas o mistério – ao mesmo tempo o do poeta e do universo que através dele é nomeado – em plena luz, ou naquilo que mais perto dela se aproxima. Poesia, mistério repassado de claridade, a poucos poetas contemporâneos se aplica tão óbvia e viva evidência, como a Sophia de Mello Breyner Andresen, aquela que nós todos, seus amigos e leitores subjugados há muito, chamam apenas Sophia.
Há nomes predestinados. Ou talvez nomes que foram para os seus ocasionais suportes uma luz íntima que os guiou com infalível presciência para o lugar e a posse do que no nome mágico já se anunciava. Sophia – sabedoria mais funda do que o simples "saber", conhecimento íntimo, ao mesmo tempo atónico e luminoso do essencial, comunhão silenciosa e sem cessar reverberante com tudo aquilo que, por original, a reflexão e seus intérminos labirintos deixarão intacto. Sibila, maga, desde a sua precoce aparição no nosso mundo de masculinos e altos combates poéticos, que Sophia encarnou essa vocação da simplicidade original recusada aos que se debruçam sem fim sobre o poço íntimo, onde se a verdade se esconde nunca volve à superfície senão envolta na túnica mortal de Narciso.
Poesia de precoce e hoje de matura sabedoria, a de Sophia foi desde o início a de uma busca no espelho do mundo e num mundo de evidências aurorais, embora por isso mesmo ocultas, a evidência elementar do vento, da bruma, do mar, do jardim exposto e secreto, com a sua divina e opaca linguagem à espera que o poeta a descubra para aceder do seu próprio silêncio à revelação da sua íntima e indevassável evidência.
Identificada como uma sílfide com a vida silenciosa e as meta­morfoses dos elementos mais fluidos do universo, a poesia da Sophia ainda quase adolescente pôde parecer irreal, etérea, aristo­crática, vaga tardia de um simbolismo tão fundo que nem de símbolos precisava, espécie de voo sem matéria através de expe­riências, evocações, presságios, de tão musical ressonância que bem audacioso seria quem descobrisse nela, para lá de rilkeanos acertos ao imponderável sentimento de si perante o universo e seu perfil indeciso, a amorosa das coisas e dos gestos que o nome justo e a visão clara subtraem à perpétua evanescência para que fiquem na nossa memória como anjos em perpétua e fulgurante vigília. Mas desde o início que a exigente nomeadora das aparências do mundo visível ou de ordem-desordem humana, que o Livro Sexto, Dual e Nome das Coisas consagrarão como uma espécie de voz anónima do ser que em cada ser se revela por uma plenitude à medida da ausência que dele nos separa, a si mesma se anunciava. Há poucos itinerários poéticos em língua portuguesa tão impregnados de posi­tividade original, tão de raiz canto ao rés de uma realidade aceite como esplendor efémero e eterno e por isso tão isentos de polemismo e intrínseca negatividade, como o de Sophia Mello Breyner. E simultaneamente, por esse mesmo autónomo florir, tão fiel à inspiração adolescente que, à parte o natural êxtase ou terrífica anunciação com que recebe a revelação do original esplendor do mundo ou a sua súbita ocultação, jamais deixará de trilhar um caminho de serenidade e irradiante presença, confundindo, com feli­cidade sem exemplo, na trama da sua visão, o olhar equânime de Apolo Muságeta, deus do "primeiro dia inteiro e puro" e o olhar de fogo do Anjo, mensageiro da transcendência que a não divide mas a liberta:

             Ele que indiferente olha e me escuta
             Sofrer, ou que feroz comigo luta,
             Ele que me entregara à solidão,
             Poisava a sua mão na minha mão.

             E foi como se tudo se extinguisse,
             Como se o mundo inteiro se calasse,
             E o meu ser liberto enfim florisse,
             E um perfeito silêncio me embalasse.

Com uma simplicidade que Caeiro só em irónica visão pôde antever, Sophia harmonizou, como quem dança ou canta para si mesma no meio do mundo, aquela conciliação que desde Pascoaes sonhava unir Apolo e Cristo e depois se transfigurou em dispersão absoluta por obra e graça de Pessoa e em tormento e drama ou escolha candente de um dos pólos da nossa aventura espiritual em Régio e Torga e cujos ecos repercutem ainda no primeiro Jorge de Sena e no próprio Eugénio de Andrade. Deste combate ficaram nos poemas da jovem Sophia esparsas referências, mas recobertas pelo sentimento pânico, inocente e vibrante de uma identificação ime­morial com o coração do mundo de que o seu será para sempre o iluminado centro e a incircunscrita circunferência:

             As ondas quebravam uma a uma,
             Eu estava só com a areia e com a espuma
             Do mar que cantava só para mim.

Uma espécie de milagre, de raro e quase incrível privilégio, deve ter preservado cedo a jovem Sophia, católica e portuguesa, daquela obsessão culpabilizante que encharca por dentro a lírica nacional. Talvez apenas a precoce e inaudita leitura de Homero em que, mais fascinada ainda que Nausica com a presença de Ulisses, terá absorvido a claridade grega que um dia arrancará à sua musa alguns dos mais altos poemas da língua portuguesa. Não haverá desde então nem "caos nem luto", nem tirania, nem treva humana, que a façam abdicar daquela "verdade e harmonia, caminho puro e absoluto" que adolescente grega do século XX visionará no rosto de Alexandre, nos passos de Dionisios, no arquipélago das Cyclades, conclusão mítica de um percurso que da ausência mesma remete, para uma eterna e informulada plenitude.
Como o dos seus mais ilustres companheiros de geração poética – Jorge de Sena, Blanc de Portugal – o espaço cultural de Sophia Mello Breyner não se recorta com aquela nitidez que tão cómoda é para arrumar os criadores nos túmulos das escolas e das correntes. Quando surge, a "Presença" está na sua máxima visibilidade e Pessoa um pouco na invisibilidade dela. Permeáveis aos ventos do largo ou sensíveis a formulários que lhes não convêm, cada um desses poetas, de rara cultura todos eles, remarão sós entre os mais conhecidos arquipélagos, mas talvez nenhum ao mesmo tempo tão distante e tão conivente com vozes que na sua ecoam como dis­traída escolta, jamais como autêntica companhia. Torga, Rilke, Hölderlin, Shelley, camaradas de geração, são "atravessados" como espelhos transparentes por uma Alice que descobrira antes o seu reino claro e inacessível. E da avassaladora presença de Pessoa nos anos quarenta e cinquenta não se vislumbra na autora de Dia do Mar e de Coral, aparentemente, um sinal de conivência. Como poderia a maga do sentimento pânico e harmonioso do mundo encontrar-se com o "dividido", a ausência feita voz, a multiplicidade sem centro, o "viajante no anverso"? Na topologia da nossa aventura poética, Sophia e Pessoa ocupam os pólos opostos e nesse sentido a poesia de Sophia, de uma maneira bem diversa e muito mais radical que a de poetas que conscientemente se quiseram outros que Pessoa, inaugura ou põe termo à longa travessia da consciência poética como consciência infeliz que começa em Antero e tem em Álvaro de Campos a sua expressão "épica". Todavia, é sem surpresa que nas últimas obras de Sophia, a presença de Pessoa surge com uma insistência enigmática, como se Sophia sentisse a necessidade de integrar a sua sombra imersa ou a plenitude inversa que ela instalou na consciência poética contemporânea no seu mundo, exactamente à hora em que nele é mais fulgurante que nunca o sentimento da realidade, a sua fosforescência irresistível de ser que impõe ao poeta a sua exacta nomeação como dever de justiça, de justeza, de libertação e íntima transparência. Contradição? Ou nova maneira de iluminar às avessas a Ítaca imortal da realidade que jamais teve forças para a dispersar e dividir pelo seu tumulto mortal?
É no Livro Sexto que Sophia esboça o primeiro retrato-diálogo com Pessoa, sem que a sua escrita, como sempre, deva a sua música e a sua forma ao invocado "deus de quatro rostos". Sophia louva-lhe "o canto justo que desdenha as sombras" e nesta posteridade formal se recupera nele. A esse título a poesia de Pessoa e de Sophia estão ambas inscritas no círculo de uma inegável classicidade. Só o surrealismo a quebrará de vez entre nós. Mas o grande aprofun­damento surge com Dual, que em si podia ser já uma homenagem ao "dividido", e é em Dual que Pessoa como Ricardo Reis é assumido e comungado, com uma perfeição gémea do original, pela visão de Sophia. O que não era pagão, mas o paganismo, é invocado como "irmão do que escrevi", não para lhe ensinar a estóica confor­midade com a essência efémera da vida, apenas para lembrar lição de deuses ausentes:

             O seu olhar ensina o nosso olhar:
             Nossa atenção ao mundo
             É o culto que pedem.

Estranha integração que no mesmo livro se prossegue, agora sob a égide evocadora de Campos, debruçada "sobre o rosto do real – mais preciso e mais novo do que o imaginado", real ofuscante do mundo grego que lhe traz aos lábios o seu nome, o seu "ambíguo nome", como o de Odysseus Persona:

             O teu destino deveria ter passado neste porto
             Onde tudo se torna impessoal e livre
             Onde tudo é divino como convém ao real

Dois anos depois, na mesma Grécia real e mítica, Sophia completa o mais profundo retrato de Pessoa que alguma vez foi tentado e com ele abre o seu mais recente livro, O Nome das Coisas, que se nada mais contivesse bastaria para colocar a sua autora e a inatenta obra que provisoriamente culmina entre as maiores presenças líricas nossas contemporâneas.
Através da evocação de Pessoa é o itinerário inteiro de Sophia, a sua específica e original visão que se purifica na lâmina da mais aguda consciência poética, não para se deixar observar por ela mas a situar e situar-se como não errante na errância do nosso Ulisses que nunca regressou a Ítaca por nunca dela ter partido. Jamais se revisitou, por dentro, a aventura sem fim de Fernando Pessoa, poesia e vida confundidas, como nesse admirável poema Cíclades. Não é um texto escrito à margem de um texto. Pessoa, mas um Pessoa-texto que é a um tempo foco e claridade, espelho e imagem, leito e rio, platónica e sublime visão da ideia de Pessoa, oferecida como arquipélago imaginário e real aos nossos olhos de alma incrédulos. Cada estrofe é como uma estátua solitária e silenciosa que espera da seguinte a palavra do enigma e lha devolve, e esse povo de estátuas é a impossível e para sempre inexistente estátua daquele que foi ninguém para ser tudo em todos e todo em tudo, imparcial como a neve, disperso como o fogo. No espaço insituável das evidências perdurará para sempre de Pessoa este retrato que acaso só uma mulher e um grande poeta podiam conceber oferecendo a sua disponibilidade maternal ao que não chegou a tocar-se como existente, "nascido depois quando em verdade a verdade se gastara" e "o caminho da Índia já fora descoberto" deixando a quem viesse, e ele foi o primeiro que veio depois, o percurso "no avesso", a viagem "incessante do inverso" que Sophia invoca. Na Grécia irreal donde procede o olhar imaginariamente real de Alberto Caeiro, Sophia se reconstrói em positivo no negativo que o arquipélago submetido àquela Unidade que Pessoa nunca conheceu senão como infinita nostalgia dela revela ao poeta da presença ao mundo como presença que ela mesma é:

             Porém obstinada eu invoco – ó dividido
             O instante que te unisse
             E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste

"Anima" e "animus" se fundem no texto de Sophia, convertido em texto-Pessoa e no texto de Pessoa convertido em texto-Sophia. Instalada na diferença que de Pessoa a separa e une, Sophia restitui a túnica dilacerada do imaginário português, a sua fragmentação sem remédio, na sua poesia unificante, fazendo dos plurais rostos de um continente disperso e inscrito em ausência em cada ilha, a Ítaca luminosa que desde sempre lhe foi barco e cais divino:

             Pudesse o instante da festa romper o teu luto
             Ó viúvo de ti mesmo
             E que ser e estar coincidissem
             No um da boda.

Pessoa não viveu esta festa nem Sophia por ele a revive. Mas fazendo da claridade frontal do lugar grego, da noite nele renovada, do irreal vivido como real e do real bebido como irreal o corpo místico, a presença real de Pessoa, Sophia resumiu num só poema o seu destino de Penélope, a si mesma fiel, tecedora do mais alto dia e da mais viva esperança no meio da noite, nossa e da vida.

Vence, 17 de Fevereiro de 1978

EDUARDO LOURENÇO (prefácio ao livro "Sophia de Mello Breyner Andresen: Antologia", 4.ª edição aumentada, Lisboa: Moraes Editores, 1978)


Na efeméride dos 10 anos da morte de Sophia de Mello Breyner Andresen (http://purl.pt/19841/1/), registamos com agrado que a Antena 1 tenha transmitido alguns dos seus poemas em voz própria, depois dos noticiários, e feito a cobertura em directo da cerimónia solene ocorrida no Panteão Nacional, da qual o momento mais emocionante foi aquele em que ecoou nas paredes do monumento a voz de Sophia (gravada em finais da década de 1950) dizendo a sua poesia.
No entanto, temos de apontar o dedo à 'playlist' por não incluir uma única das mais de quarenta canções com poemas de Sophia que até à data foram gravadas em disco. O blogue "A Nossa Rádio" faz o serviço público de apresentar muitas delas (num grande eclectismo de géneros e estilos), complementadas com poemas recitados.



ARTE POÉTICA III



Poema-ensaio de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Geografia": II – "Procelária", Lisboa: Edições Ática, 1967; "Antologia", 4.ª edição aumentada, Lisboa: Moraes Editores, 1978 – págs. 233-235)
Recitado pela autora (in filme "Sophia de Mello Breyner Andresen", de João César Monteiro, 1969)


A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeo de Souza-Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
[...] Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. [...] Como Antígona o poeta do nosso tempo diz: Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres. 
[...] Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.



LIBERDADE



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "O Nome das Coisas", Lisboa: Moraes Editores, 1977; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 205)
Recitado por Nuno Miguel Henriques (in CD "O Poeta É Um Fingidor", Ovação, 1999)


O poema é 
A liberdade 

Um poema não se programa 
Porém a disciplina 
— Sílaba por sílaba — 
O acompanha 

Sílaba por sílaba 
O poema emerge 
— Como se os deuses o dessem 
O fazemos 



MUSA



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Livro Sexto": I – "As Coisas", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – págs. 102-103)
Recitado por Maria Barroso* (in CD "Vozes Poéticas da Lusofonia por Timor: Festa da Língua Portuguesa", Gravisom, 1999)


Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
O canto para todos
Por todos entendido

Musa ensina-me o canto
O justo irmão das coisas
Incendiador da noite
E na tarde secreto

Musa ensina-me o canto
Em que eu mesma regresso
Sem demora e sem pressa
Tornada planta ou pedra

Ou tornada parede
Da casa primitiva
Ou tornada o murmúrio
Do mar que a cercava

(Eu me lembro do chão
De madeira lavada
E do seu perfume
Que atravessava)

Musa ensina-me o canto
Onde o mar respira
Coberto de brilhos
Musa ensina-me o canto
Da janela quadrada
E do quarto branco

Que eu possa dizer como
A tarde ali tocava
Na mesa e na porta
No espelho e no copo
E como os rodeava

Pois o tempo me corta
O tempo me divide
O tempo me atravessa
E me separa viva
Do chão e da parede
Da casa primitiva

Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
Para prender o brilho
Dessa manhã polida
Que poisava na duna
Docemente os seus dedos
E caiava as paredes
Da casa limpa e branca

Musa ensina-me o canto
Que me corta a garganta


* Gravado nos estúdios da RDP, Lisboa, a 22 de Junho de 1999
Produção digital – José M. Gouveia (RDP)
Masterização – João Oliveira, nos Estúdios Gravisom, Lisboa



Musa 



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Dual": IV – "Dual", Lisboa: Moraes Editores, 1972; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 140)
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Corpo Iluminado", Universal Music France, 2001)




Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-se o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente 


* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Produção e arranjos – Custódio Castelo
Co-produção em estúdio – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier
Gravado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em Janeiro de 2001



SONETO DE EURYDICE



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "No Tempo Dividido", Lisboa: Guimarães Editores, 1954; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 33)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Antologia da Mulher Poeta Portuguesa", Orfeu, 1981, reed. Movieplay, 2011)

  
Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.

Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.

E devagar tornei-me transparente
Como morta nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.


* Selecção de textos – António Barahona da Fonseca
Gravação e sons adicionais – Moreno Pinto
Masterização – José António Regada, nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Fevereiro de 2010



Por Delicadeza



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "O Nome das Coisas", Lisboa: Moraes Editores, 1977; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 241) 
Música: Maria de Medeiros
Intérprete: Maria de Medeiros (in CD "Pássaros Eternos", Universal, 2014)




Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi:

«Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida»



As Fontes



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Poesia", Coimbra: Edição da autora, 1944; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 60)
Música: Luís Oliveira
Intérprete: Mafalda Arnauth* (in CD "Encantamento", EMI-VC, 2003; CD "Poesia EnCantada", vol. 2, EMI-VC, 2004)




Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.


* José Elmiro Nunes – guitarra portuguesa
Luís Oliveira – viola de fado
João Penedo – contrabaixo
Direcção musical e arranjos – Luís Oliveira
Produção – Mafalda Arnauth
Produção executiva – Hélder Moutinho
Gravado nos JAP Estúdios, Sacavém
Técnico de som – José António Pedro



Chamei por Mim...



Poemas: Sophia de Mello Breyner Andresen ("Chamei por Mim" e "As Minhas Mãos") [textos individualizados >> abaixo]
Música: José Mesquita
Intérprete: José Mesquita* (in 2CD "Trovas Serenas... Outras Canções na 'Galáxia Sonora Coimbrã'": CD2, Ovação, 2006)


[instrumental]

Chamei por mim quando cantava o mar 
Chamei por mim quando corriam fontes 
Chamei por mim quando os heróis morriam 
E cada ser me deu sinal de mim.

Chamei por mim quando cantava o mar 
Chamei por mim quando corriam fontes 
Chamei por mim quando os heróis morriam 
E cada ser me deu sinal de mim.

Arranco o mar do mar e ponho-o em mim 
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.
As minhas mãos mantêm as estrelas, 
Seguro a minha alma para que se não quebre 
A melodia que vai de flor em flor.

A melodia que vai de flor em flor.
A melodia que vai de flor em flor.
A melodia que vai de flor em flor.

Chamei por mim quando cantava o mar 
Chamei por mim quando corriam fontes 
Chamei por mim quando os heróis morriam 
E cada ser me deu sinal de mim.

Chamei por mim quando cantava o mar 
Chamei por mim quando corriam fontes 
Chamei por mim quando os heróis morriam 
E cada ser me deu sinal de mim.

[vocalizos / instrumental]


* José Mesquita – voz
Carlos Jesus – guitarra de Coimbra
Aníbal Moreira – viola
Avelino Correia – violino



CHAMEI POR MIM

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 163) 


Chamei por mim quando cantava o mar 
Chamei por mim quando corriam fontes 
Chamei por mim quando os heróis morriam 
E cada ser deu sinal de mim.



AS MINHAS MÃOS

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 164) 


As minhas mãos mantêm as estrelas, 
Seguro a minha alma para que se não quebre 
A melodia que vai de flor em flor, 
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim 
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.


Nota: 
Originalmente os dois poemas integravam um só com o título "CHAMEI".



Não Darei o Teu Nome



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Poesia", Coimbra: Edição da autora, 1944; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 71)
Música: Nuno Nazareth Fernandes
Intérprete: João Braga* (in LP/CD "Cantigas de Mar e Mágoa", Edisom, 1991)


I

Não darei o Teu nome à minha sede
De possuir os céus azuis sem fim,
Nem à vertigem súbita em que morro
Quando o vento da noite me atravessa.

Não darei o Teu nome à limpidez
De certas horas puras que perdi,
Nem às imagens de oiro que imagino
Nem a nenhuma coisa que sonhei.

Pois tudo isso é só a minha vida,
Exalação da terra, flor da terra,
Fruto pesado, leite e sabor.

Mesmo no azul extremo da distância,
Lá onde as cores todas se dissolvem,
O que me chama é só a minha vida.


Nota:
No volume "Obra Poética I" (1990), o poema surge com o título "SINAL DE TI".

* João Braga – voz
José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa
Pedro da Veiga – guitarra portuguesa
Jaime Santos Jr. – viola
Joel Pina – viola baixo
Produção – João Braga 
Gravado e misturado no Angel Studio I e II, Lisboa, por Rui Novais



Sinal de Ti



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Poesia", Coimbra: Edição da autora, 1944; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 72)
Música e arranjo: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé* (in CD "Tão Pouco e Tanto", Capella/AudioPro, 2003)


III

A presença dos céus não é a Tua,
Embora o vento venha não sei donde.

Os oceanos não dizem que os criaste,
Nem deixas o Teu rasto nos caminhos.

Só o olhar daqueles que escolheste
Nos dá o Teu sinal entre os fantasmas.


* Janita Salomé – voz, guitarra acústica e percussões (bendir, chic-chic e tigela de açorda em porcelana)
Produção – Paulo Jorge Ferreira
Consultor de produção – Jorge Mourinha
Produção executiva – Janita Salomé, Bárbara Barros Viseu e Nuno Faria
Gravado nos Estúdios Xangrilá e Masterix, Lisboa, entre Julho de 2002 e Fevereiro de 2003
Captação – Paulo Jorge Ferreira, Carlos Jorge Vales, Pedro Rêgo e Jorge Avilez
Misturas e masterização – Paulo Jorge Ferreira



Escuto



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Geografia": III – "A Noite a Casa", Lisboa: Edições Ática, 1967; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 32)
Música: Paula Oliveira
Intérprete: Paula Oliveira* (in CD "Fado Roubado", Universal, 2007)


Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco


* Paula Oliveira – voz e piano
Produção – Bernardo Moreira e Paula Oliveira
Técnicos de som – Mário Barreiros (captação) e João Bessa (gravação)
Misturado e masterizado por Mário Barreiros, com assistência de Ricardo Fonseca



O Anjo



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Dia do Mar", Lisboa: Edições Ática, 1947; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 103)
Música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Não Sou Daqui", Vachier & Associados, 2006) 




O Anjo que em meu redor passa e me espia, 
E cruel me combate, nesse dia 
Veio sentar-se ao lado do meu leito 
E embalou-me, cantando, no seu peito. 

Ele que indiferente olha e me escuta 
Sofrer, ou que feroz comigo luta, 
Ele que me entregara à solidão, 
Poisava a sua mão na minha mão. 

E foi como se tudo se extinguisse, 
Como se o mundo inteiro se calasse, 
E o meu ser liberto enfim florisse, 
E um perfeito silêncio me embalasse. 


* [Créditos gerais do disco:]
Amélia Muge – voz, voz de sala, coros e viola braguesa
António José Martins – darbuka, triângulo, bombo, bendir, estalo, djembé, bilha, maraca, chiquitsi, voz de sala, amostrador e sintetizador
Carlos Mil-Homens – cajón
Catarina Anacleto – violoncelo
Filipe Raposo – piano acústico, piano Rhodes e acordeão
José Manuel David – flautas transversal e de bisel, tarota, trompa, garrafas e voz de sala
José Peixoto – guitarra acústica sem trastos
Yuri Daniel – contrabaixo e baixo eléctrico
Arranjos – António José Martins, José Manuel David e Filipe Raposo (partes de piano, acordeão e trompa)
Direcção musical – António José Martins
Produção – Amélia Muge e António José Martins
Gravado por Samuel Henriques no Estúdio MDL, Paço d'Arcos (voz, piano, baixo, contrabaixo e cajón)
e por António José Martins no estúdio da ETIC (Escola de Tecnologias Inovação e Criação), Lisboa, e no AJM Estúdio, Sobreda
Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e António José Martins, no Estúdio Pé-de-Meia



A Veste dos Fariseus



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Livro Sexto": III – "As Grades", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 146)
Música: Amélia Muge
Arranjo: António José Martins
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "A Monte", Vachier & Associados, 2002)


Era um Cristo sem poder
Sem espada e sem riqueza
Seus amigos o negavam
Antes do galo cantar
A polícia o perseguia
Guiada por Fariseus

O poder lavou as mãos
Daquele sangue inocente
Crucificai-o depressa
Lhe pedia toda a gente
Guiada por Fariseus

Foi cuspido e foi julgado
No centro duma cidade
Insultos o perseguiam
E morreu desfigurado

O templo rasgou seus véus
E Pilatos seus vestidos
Rasgaram seu coração
Maria Mãe de João
João Filho de Maria

A treva caiu dos céus
Sobre a terra em pleno dia

Nem uma nódoa se via
Na veste dos Fariseus


* Amélia Muge – voz 
António José Martins – piano
Catarina Anacleto – violoncelo
José Manuel David – acordeão
Produção – António José Martins
Produção executiva – Vachier & Associados
Gravado no Estúdio AJM, Sobreda, em Dezembro de 2000 e Fevereiro de 2002, e no Auditório Fernando Lopes Graça, Almada, em Agosto de 2001
Misturado por João Magalhães, António José Martins e António Pinheiro da Silva
Masterizado por António Pinheiro da Silva



ASSASSINATO DE SIMONETTA VESPUCCI



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 194)
Recitado pela autora (in EP "Sophia de Mello Breyner Andresen Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1959)


Homens
No perfil agudo dos quartos
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.

Vê como as espadas nascem evidentes
Sem que ninguém as erguesse — de repente.

Vê como os gestos se esculpem
Em geometrias exactas de destino.

Vê como os homens se tornam animais
E como os animais se tornam anjos
E um só irrompe e faz um lírio de si mesmo.

Vê como pairam longamente os olhos
Cheios de liquidez, cheios de mágoa
Duma mulher nos seus cabelos estrangulada.

E todo o quarto jaz abandonado
Cheio de horror e cheio de desordem.
E as portas ficam abertas,
Abertas para os caminhos
Por onde os homens fogem,
No silêncio agudo dos espaços,
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.



Piero di Cosimo, "Retrato de Simonetta Vespucci como Cleópatra", c.1480, têmpera sobre madeira, 57 cm×42 cm, Musée Condé, Chantilly (França)

Nota:
Nascida na República de Génova, Simonetta Cattaneo de Candia (c.1453-1476) casou-se aos dezasseis anos com Marco Vespucci (filho de um banqueiro florentino e primo do navegador Amerigo Vespucci). Em Florença, graças à sua fascinante beleza, passou a ser denominada "La bella Simonetta" e tornou-se amante de Giuliano de Medici, irmão de Lorenzo, o Magnífico. O maior gesto de amor de Giuliano por Simonetta foi disputar – e vencer – um torneio de cavalaria na praça Santa Croce, em Florença, no qual participaram nobres vindos de diversas partes da Itália. O prémio em jogo era um retrato de Simonetta, pintado por Sandro Botticelli, que trazia a legenda "La Sans Pareille" ("A Incomparável"). Pouco tempo após aquele torneio, morria, aos 23 anos de idade, aquela que fora uma das mulheres mais belas e admiradas do Renascimento. Giuliano será assassinado dois anos mais tarde, no mesmo dia e mês (26 de Abril), por conspiradores de duas famílias rivais dos Medici.
Botticelli passou o resto da vida obcecado com a beleza de Simonetta, retratando-a em muitas das suas obras. Entre elas, destacam-se os quadros "Vénus e Marte" (c.1483) e "O Nascimento de Vénus" (c.1485), nos quais a deusa do amor é personificada por Simonetta. Antes de falecer, Botticelli pediu para ser sepultado aos pés de Simonetta, na igreja de Ognissanti, em Florença, e o seu desejo foi cumprido.





Sandro Botticelli, "O Nascimento de Vénus" (pormenor), c.1485, têmpera sobre tela, Galleria degli Uffizi, Florença



CANTE JONDO



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Mar Novo", Lisboa: Guimarães Editores, 1958; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 49)
Recitado pela autora (in EP "Sophia de Mello Breyner Andresen Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1959)


Numa noite sem lua o meu amor morreu
Homens sem nome levaram pela rua
Um corpo nu e morto que era o meu.



MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Mar Novo", Lisboa: Guimarães Editores, 1958; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 62)
Recitado por Luís Lucas* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)




Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Ticiano, "Retrato da Imperatriz Isabel de Portugal", 1548, óleo sobre tela, 117 cm×98 cm, Museu do Prado, Madrid

Nota:
D. Isabel de Portugal (Lisboa, 24 de Outubro de 1503 - Toledo, 1 de Maio de 1539)
Filha do rei D. Manuel I de Portugal e de D. Maria de Castela, contraiu matrimónio com o primo Carlos I de Espanha (futuro Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico), por procuração, em Novembro de 1525, vindo a encontrar-se com o marido em Março do ano seguinte nos Alcazares Reais de Sevilha, onde se realizaram as bodas nupciais.
Deslumbrado com a sua beleza, Carlos V outorgou-lhe, por nova divisa, as três graças, sendo a primeira a rosa, símbolo da formosura; a segunda, o ramo de murta, símbolo do amor; e a terceira, a coroa de carvalho, símbolo da fecundidade – além da insígnia Has habet et superat.
D. Isabel assegurou, com singular tino e prudência, a regência de Espanha durante as prolongadas ausências do marido que andava em guerra com meia Europa, vindo a falecer em Toledo, a 1 de Maio de 1939, não havia ainda completado 36 anos de idade, na sequência de complicações ocorridas durante o parto do sexto filho, que também pereceu.
O Duque de Gandía de seu nome Francisco de Borja y Trastámara, que era bisneto do papa Alexandre VI (Rodrigo de Borja) e se casara com uma das damas de companhia que D. Isabel havia levado de Lisboa, D. Leonor de Castro, e que Carlos V fizera seu valido e que nomeará depois (Junho de 1939) vice-rei da Catalunha, sentia pela imperatriz uma enorme afeição, um amor platónico, pode mesmo dizer-se. Quando foi aberto perante si o féretro que continha o cadáver, já em decomposição, daquela que fora a mais bela mulher do seu tempo, segundo alguns literatos, foi tão dolorosa a sua visão que terá exclamado: «Nunca volveré a servir a señor que se me pueda morir!». Depois de enviuvar, em 1546, Francisco de Borja abraçou a vida religiosa ingressando na recém-criada Companhia de Jesus, vindo a tornar-se, em 1556, superior-geral da ordem. Morreu em 1572, sendo canonizado em 1671, pelo papa Clemente X, como São Francisco de Borja.
Sabe-se que a famosa frase atribuída ao duque, e que deu mote ao célebre poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, intitulado "Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal", foi proferida por São João de Ávila no ofício fúnebre da imperatriz. Tal não significa, em bom vigor, que seja da sua lavra. É possível que a tenha ouvido a Francisco de Borja ou que alguém lha tenha contado. (fontes: "Enciclopédia Fundamental Verbo" e "Wikipédia")



RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Dual": VI – "Em Memória", Lisboa: Moraes Editores, 1972; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 163)
Recitado por Luís Lima Barreto* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)




Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



CAMÕES E A TENÇA



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Dual": VI – "Em Memória", Lisboa: Moraes Editores, 1972; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 162) 
Recitado por Luís Gaspar* (2014) (in "Estúdio Raposa")


Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente


Nota: 
O último verso da segunda estrofe tinha originalmente a seguinte redacção: «A quem ousou mais ser que a outra gente».

* Produção – Luís Gaspar



Camões e a Tença



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Dual": VI – "Em Memória", Lisboa: Moraes Editores, 1972; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 162) 
Música: José Mário Branco
Intérprete: José Mário Branco* (in LP "A Noite", UPAV, 1985, reed. EMI-VC, 1996; CD "Poesia EnCantada", vol. 2, EMI-VC, 2004)




Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou mais ser que a outra gente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente


* Coro – Rui Vaz, Carlos Guerreiro, Gustavo Sequeira, Necas Moreira e José Mário Branco
Trompas – Adácio Pestana, Diamantino Rodrigues e Joaquim Correia
Piano – António Emiliano
Baixo – Paulo Jorge
Bateria – Henry Sousa
Roland JX-3P – José Mário Branco
Trompete – Tomás Pimentel
Coro final – Coro da Universidade Técnica de Lisboa, dirigido por Luís Pedro Faro e Isabel Biu
Tímbales – Carlos Salomé
Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Produção artística – Manuela de Freitas, José Manuel Fortes, Trindade Santos e José Mário Branco
Produção executiva – Carlos Batista
Gravado no Angel Studio II, Lisboa, de 8 a 22 de Abril de 1985
Captação de som – José Manuel Fortes
Misturas – José Manuel Fortes e José Mário Branco



SONETO À MANEIRA DE CAMÕES



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 185)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Antologia da Mulher Poeta Portuguesa", Orfeu, 1981, reed. Movieplay, 2011)


Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês — pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.


* Selecção de textos – António Barahona da Fonseca
Piano – José António Amaral e Paula Sousa
Contrabaixo – Alberto Lopes
Violão – Filipe José
Percussão – Filipe José e José António Amaral
Gravação e sons adicionais – Moreno Pinto
Masterização – José António Regada, nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Fevereiro de 2010



Soneto à Maneira de Camões



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 185)
Música: José Mário Branco (Fado Penélope)
Intérprete: Patrícia Costa* (in CD "Um Cantar Velado e Lento", Patrícia Costa, 2010)


Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês — pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.


* Patrícia Costa – voz
Miguel Amaral – guitarra portuguesa
André Teixeira – viola de fado
João Penedo – contrabaixo
Gravado e misturado por Francisco Maldonado, no Porto
Masterizado por Francisco Maldonado, em Londres



As Rosas / Promessa



Poemas: Sophia de Mello Breyner Andresen [textos individualizados >> abaixo]
Música: João Mário Veiga
Intérprete: Katia Guerreiro* (in CD "Fado Maior", Ocarina, 2001)




Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante.

[instrumental]

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a Primavera que eu esperava...


* Paulo Parreira – guitarra portuguesa
João Mário Veiga – viola de fado
Armando Figueiredo – viola baixo
Arranjos – colectivo dos músicos
Produção – Ocarina
Produção executiva – Joaquim Balas / Ocarina
Gravado no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém
Técnico de som – António Cordeiro
Misturas – António Cordeiro e Paulo Parreira
Masterização – António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia



AS ROSAS

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Dia do Mar", Lisboa: Edições Ática, 1947; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 89)


Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.



PROMESSA

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Dia do Mar", Lisboa: Edições Ática, 1947; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 93)


És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante.



TERROR DE TE AMAR



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 178) 
Recitado por Natália Luiza* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)




Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição 
Onde tudo nos quebra e emudece 
Onde tudo nos mente e nos separa. 


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Livro Sexto": II – "A Estrela", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 128)
Recitado por Afonso Dias* (in CD "Cantando Espalharey", vol. I, Edere, 2001)


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.


* Pesquisa e produção – Afonso Dias e André Dias
Gravado no Estúdio InforArte, Chinicato - Lagos
Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro



FELICIDADE



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Livro Sexto": II – "A Estrela", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 121)
Música: António Victorino d'Almeida
Intérprete: Carmo de Almeida* (in CD "Gaudeamus: A União Europeia Canta os Seus Grandes Poetas", Numérica, 1996)


Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia — por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta.


* [Créditos gerais do disco:]
Carmo de Almeida – voz
José Gomes Santos – piano
Alexandra Mendes – violino
Esther Georgie – clarinete
Varoudjian Bartikian – violoncelo
José Barrocas – flauta
Lopes da Cruz – oboé
Francisco Ferreira – saxofone tenor
Kevin Wauldron – trompete
Paulo Jorge – acordeão
Carmen Cardeal – harpa
Carlos Girão – percussão
Rosário Valinho – percussão
Joaquim Alves – percussão
Direcção – António Victorino d'Almeida



Porque



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Mar Novo", Lisboa: Guimarães Editores, 1958; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 71)
Música: Francisco Fernandes
Intérprete: Francisco Fanhais* (in LP "Canções da Cidade Nova", Zip-Zip, 1970, reed. CD "Dedicatória", Strauss, 1998)




Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não. 

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Nota: 
O pronome "tu" diz respeito ao marido de Sophia, o advogado e jornalista Francisco Sousa Tavares, intrépido e denodado lutador pela liberdade e democracia.

* Fernando Alvim e Pedro Caldeira Cabral – violas
Arranjos e direcção musical – Thilo Krasmann
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, em 1970
Técnico de som – Heliodoro Pires
Remasterização digital – Jorge d'Avillez, no Strauss Studio, em 1998



Sophia de Mello Breyner Andresen com o marido, Francisco Sousa Tavares.



Apesar



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Poesia", Coimbra: Edição da autora, 1944; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 15) 
Música: Eurico Carrapatoso (1.ª peça do "Pequeno Poemário de Sophia", 2004)
Intérprete: Coro de Câmara Lisboa Cantat* (in CD "Compositores Portugueses XX-XXI: Volume 2", Mu Records/Arte das Musas, 2008)


Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.



Pudesse Eu



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Poesia", Coimbra: Edição da autora, 1944; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 35) 
Música: Eurico Carrapatoso (2.ª peça do "Pequeno Poemário de Sophia", 2004)
Coro de Câmara Lisboa Cantat* (in CD "Compositores Portugueses XX-XXI: Volume 2", Mu Records/Arte das Musas, 2008)


Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.



Se



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Poesia", Coimbra: Edição da autora, 1944; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 38) 
Música: Eurico Carrapatoso (3.ª peça do "Pequeno Poemário de Sophia", 2004)
Coro de Câmara Lisboa Cantat* (in CD "Compositores Portugueses XX-XXI: Volume 2", Mu Records/Arte das Musas, 2008)




Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.


* Direcção – Jorge Carvalho Alves
Gravado no auditório da Faculdade de Medicina Veterinária (Universidade Técnica de Lisboa), em Junho e Julho de 2008



CATARINA EUFÉMIA



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Dual": VI – "Em Memória", Lisboa: Moraes Editores, 1972; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 164)
Recitado por José Manuel Mendes* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro

Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Fotografia de Catarina Eufémia (1928-1954) reproduzida na capa do livro de José Miguel Tarquini "A Morte no Monte: Catarina Eufémia" (Lisboa: Emp. Tip. Casa Portuguesa, 1974).

Nota:
Natural da localidade de Baleizão (concelho de Beja), a trabalhadora rural Catarina Efigénia Sabino Eufémia foi barbaramente assassinada, a tiro, por um tenente da GNR, por ousar reivindicar por "trabalho e pão".



EIS QUE MORRESTE



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 180)
Recitado por José Manuel Mendes* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


Eis que morreste. Mortalmente triste
Divaga a flor da aurora entre os teus dedos
E o teu rosto ficou entre as estátuas
Velado até que o novo dia nasça.

Se nenhum amor pode ser perdido
Tu renascerás — mas quando?
Pode ser que primeiro o tempo gaste
A frágil substância do meu sono.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Pranto pelo Dia de Hoje



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Livro Sexto": III – "As Grades", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 143)
Música: Fernando Lopes-Graça (1.ª peça de "Quatro Cantos de Sophia", 1969)
Intérpretes: Dulce Cabrita & Fernando Lopes-Graça* (in CD "Guirlanda", ASA Art and Technology, 1997)


Nunca choraremos bastante quando vemos 
O gesto criador ser impedido 
Nunca choraremos bastante quando vemos 
Que quem ousa lutar é destruído 
Por troças por insídias por venenos 
E por outras maneiras que sabemos 
Tão sábias tão subtis e tão peritas 
Que não podem sequer ser bem descritas.


* Dulce Cabrita – voz (meio-soprano)
Fernando Lopes-Graça – piano
Gravado no Estúdio A da RDP (Rua do Quelhas, Lisboa)



Carta aos Amigos Mortos



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Livro Sexto": II – "A Estrela", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – págs. 130-131) 
Música: Fernando Lopes-Graça (2.ª peça de "Quatro Cantos de Sophia", 1969)
Intérpretes: Dulce Cabrita & Fernando Lopes-Graça* (in CD "Guirlanda", ASA Art and Technology, 1997)


Eis que morrestes — agora já não bate
O vosso coração cujo bater
Dava ritmo e esperança ao meu viver
Agora estais perdidos para mim
— O olhar não atravessa esta distância —
Nem irei procurar-vos pois não sou
Orpheu tendo escolhido para mim
Estar presente aqui onde estou viva.
Eu vos desejo a paz nesse caminho
Fora do mundo que respiro e vejo.
Porém aqui eu escolhi viver
Nada me resta senão olhar de frente
Neste país de dor e de incerteza.
Aqui eu escolhi permanecer
Onde a visão é dura e mais difícil

Aqui me resta apenas fazer frente
Ao rosto sujo de ódio e de injustiça
A lucidez me serve para ver
A cidade a cair muro por muro
E as faces a morrerem uma a uma
E a morte que me corta ela me ensina
Que o sinal do homem não é uma coluna.

E eu vos peço por este amor cortado
Que vos lembreis de mim lá onde o amor
Já não pode morrer nem ser quebrado.
Que o vosso coração que já não bate
O tempo denso de sangue e de saudade
Mas vive a perfeição da claridade
Se compadeça de mim e de meu pranto
Se compadeça de mim e de meu canto.


* Dulce Cabrita – voz (meio-soprano)
Fernando Lopes-Graça – piano
Gravado no Estúdio A da RDP (Rua do Quelhas, Lisboa)



PÁTRIA



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Livro Sexto": III – "As Grades", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 141)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Antologia da Mulher Poeta Portuguesa", Orfeu, 1981, reed. Movieplay, 2011)


Por um país de pedra e vento duro 
Por um país de luz perfeita e clara 
Pelo negro da terra e pelo branco do muro 

Pelos rostos de silêncio e de paciência 
Que a miséria longamente desenhou 
Rente aos ossos com toda a exactidão 
Dum longo relatório irrecusável 

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento 

E pela limpidez das tão amadas 
Palavras sempre ditas com paixão 
Pela cor e pelo peso das palavras 
Pelo concreto silêncio limpo das palavras 
Donde se erguem as coisas nomeadas 
Pela nudez das palavras deslumbradas 

— Pedra   rio   vento   casa 
Pranto   dia   canto   alento 
Espaço   raiz   e água 
Ó minha pátria e meu centro 

Me dói a lua me soluça o mar 
E o exílio se inscreve em pleno tempo 


* Selecção de textos – António Barahona da Fonseca
Gravação – Moreno Pinto
Masterização – José António Regada, nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Fevereiro de 2010



Pátria



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Livro Sexto": III – "As Grades", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 141)
Música: Fernando Lopes-Graça (3.ª peça de "Quatro Cantos de Sophia", 1969)
Intérpretes: Dulce Cabrita & Fernando Lopes-Graça* (in CD "Guirlanda", ASA Art and Technology, 1997)


Por um país de pedra e vento duro 
Por um país de luz perfeita e clara 
Pelo negro da terra e pelo branco do muro 

Pelos rostos de silêncio e de paciência 
Que a miséria longamente desenhou 
Rente aos ossos com toda a exactidão 
Dum longo relatório irrecusável 

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento 

E pela limpidez das tão amadas 
Palavras sempre ditas com paixão 
Pela cor e pelo peso das palavras 
Pelo concreto silêncio limpo das palavras 
Donde se erguem as coisas nomeadas 
Pela nudez das palavras deslumbradas 

— Pedra   rio   vento   casa 
Pranto   dia   canto   alento 
Espaço   raiz   e água 
Ó minha pátria e meu centro 

Me dói a lua me soluça o mar 
E o exílio se inscreve em pleno tempo 


* Dulce Cabrita – voz (meio-soprano)
Fernando Lopes-Graça – piano
Gravado no Estúdio A da RDP (Rua do Quelhas, Lisboa)



Ressurgiremos



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Livro Sexto": I – "As Coisas", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 109)
Música: Fernando Lopes-Graça (4.ª peça de "Quatro Cantos de Sophia", 1969)
Intérpretes: Dulce Cabrita & Fernando Lopes-Graça* (in CD "Guirlanda", ASA Art and Technology, 1997)


Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta 

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta.


* Dulce Cabrita – voz (meio-soprano)
Fernando Lopes-Graça – piano
Gravado no Estúdio A da RDP (Rua do Quelhas, Lisboa)



Ali, Então



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Geografia": IV – "Dual", Lisboa: Edições Ática, 1967; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 58) 
Música: João Braga
Intérprete: João Braga* (in CD "Em Nome do Fado", Strauss, 1994)




Ali então em pleno mundo antigo
À sombra do cipreste e da videira
Olhando o longo tremular do mar
Num silêncio de luas e de trigo

(Como se a morte a dor o tempo e a sorte
Não nos tivessem nunca acontecido)

Em nossas mãos a pausa há-de poisar
Como o luar que poisa nas videiras
E em frente ao longo tremular do mar
Num perfume de vinho e de roseiras
A sombra da videira há-de poisar
Em nossas mãos e havemos de habitar
O silêncio das luas e do trigo
No instante ameaçado e prometido

E os poemas serão o próprio ar
— Canto do ser inteiro e reunido — 
Tudo será tão próximo do mar
Como o primeiro dia conhecido


* João Braga – voz
José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa
Pedro da Veiga – guitarra portuguesa
Jaime Santos Jr. – viola de fado
Joel Pina – viola baixo de fado
Produção – António Manuel Rolo Duarte 
Gravado no Angel Studio II, Lisboa, durante os meses de Abril e Maio de 1994
Engenheiro de som – Rui Novais



Cantata da Paz



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (1969) 
Música: Rui Paz
Intérprete: Francisco Fanhais* (in LP "Canções da Cidade Nova", Zip-Zip, 1970, reed. CD "Dedicatória", Strauss, 1998)




Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinza
A carne das crianças

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

D'África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar


Nota: 
Estas são algumas das quadras que Sophia escreveu para a vigília, organizada por um grupo de leigos católicos, que se seguiu à Missa pela Paz, celebrada no dia 1 de Janeiro de 1969, na igreja de São Domingos em Lisboa, e que reuniu cerca de 150 fiéis. Foram publicadas em folhetos e, depois, incluídas no livro "Católicos e Política" (1970), do Padre José da Felicidade Alves.

* Fernando Alvim e Pedro Caldeira Cabral – violas
Arranjos e direcção musical – Thilo Krasmann
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, em 1970
Técnico de som – Heliodoro Pires
Remasterização digital – Jorge d'Avillez, no Strauss Studio, em 1998



Gritava Contra o Silêncio



Texto: Sophia de Mello Breyner Andresen (do conto "O Silêncio", in "Histórias da Terra e do Mar", Lisboa: Edições Salamandra, 1984, Lisboa: Texto Editora, 1990 – pág. 53)
Música: João Gil
Intérprete: João Gil* com Carminho* (in CD "João Gil", EMI, 2008)


Gritava como se estivesse só no mundo,
como se tivesse ultrapassado
toda a companhia e toda a razão
e tivesse encontrado a pura solidão.
Gritava contra as paredes, contra as pedras,
contra a sombra da noite.

Erguia a sua voz como se a arrancasse do chão,
como se o seu desespero e a sua dor
brotassem do próprio chão que a suportava.
Erguia a sua voz como se quisesse atingir com ela
os confins do universo e aí,
tocar alguém, acordar alguém, obrigar alguém a responder.
Gritava contra o silêncio.


* João Gil – guitarras acústicas
Rui Costa – guitarras acústicas e baixo
Massimo Cavalli – contrabaixo
Ruben Alves – piano e acordeão
Artista convidada:
Carminho – voz
Arranjos – Rui Costa
Produção – Rui Costa e João Gil
Produção executiva – Manuel Moura dos Santos
Gravado por Rui Guerreiro, nos Estúdios de Vale de Lobos, Almargem do Bispo - Sintra
Misturado por Joel Conde, nos Estúdios de Vale de Lobos, Almargem do Bispo – Sintra
Masterizado por Ricardo Garcia, nos Estúdios Master Disk, Rio de Janeiro



AQUELE QUE PARTIU



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Mar Novo", Lisboa: Guimarães Editores, 1958; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 67)
Recitado por Luísa Cruz* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.

Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto
Intacta é a sua ausência
Como a estátua dum deus
Poupada pelos invasores duma cidade em ruínas

Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e à vitória do tempo

Que ao longe
Na mais longínqua praia
Onde só haja espuma sal e vento
Ele se perca tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento

E que ninguém repita o seu nome proibido.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Regresso



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Mar Novo", Lisboa: Guimarães Editores, 1958; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – págs. 75-76)
Música: Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Tereza Tarouca (Portugal Triste)", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994)


Quem cantará vosso regresso morto
Que lágrimas, que grito hão-de dizer
A desilusão e o peso em vosso corpo.

Portugal tão cansado de morrer
Ininterruptamente e devagar
Enquanto o vento vivo vem do mar

Quem são os vencedores desta agonia?
Quem os senhores sombrios desta noite
Onde se perde morre e se desvia
A antiga linha clara e criadora
Do nosso rosto voltado para o dia?


* Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



ESTA GENTE



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Geografia": II – "Procelária", Lisboa: Edições Ática, 1967; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – págs. 22-23)
Recitado pela autora (in filme "Sophia de Mello Breyner Andresen", de João César Monteiro, 1969)


Esta gente cujo rosto 
Às vezes luminoso 
E outras vezes tosco 

Ora me lembra escravos 
Ora me lembra reis 

Faz renascer meu gosto 
De luta e de combate 
Contra o abutre e a cobra 
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem 
O rosto desenhado 
Por paciência e fome 
É a gente em quem 
Um país ocupado 
Escreve o seu nome 

E em frente desta gente 
Ignorada e pisada 
Como a pedra do chão 
E mais do que a pedra 
Humilhada e calcada 

Meu canto se renova 
E recomeço a busca 
Dum país liberto 
Duma vida limpa 
E dum tempo justo 



Esta Gente



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Geografia": II – "Procelária", Lisboa: Edições Ática, 1967; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – págs. 22-23)
Música: Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP "Tereza Tarouca (Portugal Triste)", Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD "Tereza Tarouca", col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994)


Esta gente cujo rosto 
Às vezes luminoso 
E outras vezes tosco 

Ora me lembra escravos 
Ora me lembra reis 

Faz renascer meu gosto 
De luta e de combate 
Contra o abutre e a cobra 
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem 
O rosto desenhado 
Por paciência e fome 
É a gente em quem 
Um país ocupado 
Escreve o seu nome 

E em frente desta gente 
Ignorada e pisada 
Como a pedra do chão 
E mais do que a pedra 
Humilhada e calcada 

Meu canto se renova 
E recomeço a busca 
Dum país liberto 
Duma vida limpa 
E dum tempo justo 


* Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais



25 DE ABRIL



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "O Nome das Coisas", Lisboa: Moraes Editores, 1977; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 195)
Recitado por Luísa Cruz* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo 


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Maria Helena Vieira da Silva, "A Poesia Está na Rua II", 1975, têmpera sobre papel, 105x79,5 cm, Museu da Fundação Arpad-Szenes-Vieira da Silva, Lisboa

Nota:
Esta é a segunda de três obras que Maria Helena Vieira da Silva criou para celebrar a Revolução dos Cravos, na sequência de um pedido feito por Sophia de Mello Breyner Andresen.



O PRIMEIRO HOMEM



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Dia do Mar", Lisboa: Edições Ática, 1947; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 118)
Recitado pela autora (in EP "Sophia de Mello Breyner Andresen Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1959)


Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida,
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias.

Criados à medida dos elementos 
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves, grandes, vagos,
Lagos
Reflectindo o mundo,
E eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços.



MARINHEIRO SEM MAR



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Mar Novo", Lisboa: Guimarães Editores, 1958; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – págs. 50-52)
Recitado pela autora (in EP "Sophia de Mello Breyner Andresen Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1959)


Longe o marinheiro tem
Uma serena praia de mãos puras
Mas perdido caminha nas obscuras
Ruas da cidade sem piedade

Todas as cidades são navios
Carregados de cães uivando à lua
Carregados de anões e mortos frios

E ele vai baloiçando como um mastro
Aos seus ombros apoiam-se as esquinas
Vai sem aves nem ondas repentinas
Somente sombras nadam no seu rastro.

Nas confusas redes do seu pensamento
Prendem-se obscuras medusas
Morta cai a noite com o vento

E sobe por escadas escondidas
E vira por ruas sem nome
Pela própria escuridão conduzido
Com pupilas transparentes e de vidro

Vai nos contínuos corredores
Onde os polvos da sombra o estrangulam
E as luzes como peixes voadores
O alucinam.

Porque ele tem um navio mas sem mastros
Porque o mar secou
Porque o destino apagou
O seu nome dos astros
Porque o seu caminho foi perdido
O seu triunfo vendido
E ele tem as mãos pesadas de desastres

E é em vão que ele se ergue entre os sinais
Buscando a luz da madrugada pura
Chamando pelo vento que há nos cais

Nenhum mar lavará o nojo do seu rosto
As imagens são eternas e precisas
Em vão chamará pelo vento
Que a direito corre pelas praias lisas

Ele morrerá sem mar e sem navios
Sem rumo distante e sem mastros esguios
Morrerá entre paredes cinzentas
Pedaços de braços e restos de cabeças
Boiarão na penumbra das madrugadas lentas

                              *

E ao Norte e ao Sul
E ao Leste e ao Poente
Os quatro cavalos do vento
Sacodem as suas crinas

E o espírito do mar pergunta:

«Que é feito daquele
Para quem eu guardava um reino puro
De espaço e de vazio
De ondas brancas e fundas
E de verde frio?»

Ele não dormirá na areia lisa
Entre medusas, conchas e corais

Ele dormirá na podridão
E ao Norte e ao Sul
E ao Leste e ao Poente
Os quatro cavalos do vento
Exactos e transparentes
O esquecerão

Porque ele se perdeu do que era eterno
E separou o seu corpo da unidade
E se entregou ao tempo dividido
Das ruas sem piedade.



NOCTURNO DA GRAÇA



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Mar Novo", Lisboa: Guimarães Editores, 1958; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – págs. 79-80)
Recitado por Luís Gaspar* (2013) (in "Estúdio Raposa")


Há um rumor de bosque no pequeno jardim
Um rumor de bosque no canto dos cedros
Sob o íman azul da lua cheia
O rio cheio de escamas brilha.
Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.

Brilha a cidade dos anúncios luminosos
Com espiritismo bares cinemas
Com torvas janelas e seus torvos gozos
Brilha a cidade alheia.

Com seus bairros de becos e de escadas
De candeeiros tristes e nostálgicas
Mulheres lavando a loiça em frente das janelas
Ruas densas de gritos abafados
Castanholas de passos pelas esquinas
Viragens chiadas dos carros
Vultos atrás das cortinas
Cíclopes alucinados.

De igreja em igreja batem a hora os sinos
E uma paz de convento ali perdura
Como se a antiga cidade se erguesse das ruínas
Com sua noite trémula de velas
Cheia de aventurança e de sossego.

Mas a cidade alheia brilha
Numa noite insone
De luzes fluorescentes
Numa noite cega surda presa
Onde soluça uma queixa cortada.

Sozinha estou contra a cidade alheia.
Comigo
Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua
Límpido e aceso
O silêncio dos astros continua.


* Produção – Luís Gaspar



OS PÁSSAROS



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 199)
Recitado pela autora (in EP "Sophia de Mello Breyner Andresen Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1959)


Ouve que estranhos pássaros de noite
Tenho defronte da janela:
Pássaros de gritos sobreagudos e selvagens
O peito cor de aurora, o bico roxo.
Falam-se de noite, trazem 
Dos abismos da noite lenta e quieta
Palavras estridentes e cruéis.
Cravam no luar as suas garras
E a respiração do terror desce
Das suas asas pesadas.


Nota: 
No volume "Obra Poética I" (1990), o poema surge com o título "OUVE".



CIDADE



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Poesia", Coimbra: Edição da autora, 1944; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 27)
Recitado pela autora (in EP "Sophia de Mello Breyner Andresen Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1959)


Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.



DIA 



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "No Tempo Dividido", Lisboa: Guimarães Editores, 1954; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 25)
Recitado pela autora (in EP "Sophia de Mello Breyner Andresen Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1959)


Como um oásis branco era o meu dia 
Nele secretamente eu navegava 
Unicamente o vento me seguia. 



PEDIDO



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 212)
Recitado pela autora (in EP "Sophia de Mello Breyner Andresen Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1959)


Dai-me o sol das águas azuis e das esferas
Quando o mundo está cheio de novas esculturas
E as ondas inclinando o colo marram
Como unicórnios brancos.


Nota: 
No volume "Obra Poética I" (1990), o poema surge com o título "DAI-ME O SOL".



MARINHEIRO REAL



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Mar Novo", Lisboa: Guimarães Editores, 1958; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 72)
Dito por Maria Bethânia* (in CD "Mar de Sophia", Biscoito Fino, 2006)


Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.


* Jorge Helder – contrabaixo
Naná Vasconcelos – percussão
Direcção musical – Jaime Alem
Produção – Moogie Canazio e Ana Basbaum



PIRATA



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 217)
Dito por Maria Bethânia* (in CD "Mar de Sophia", Biscoito Fino, 2006)


Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.


* Jaime Alem – violão
Naná Vasconcelos – percussão
Direcção musical – Jaime Alem
Produção – Moogie Canazio e Ana Basbaum



MAR



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Poesia", Coimbra: Edição da autora, 1944; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 18) 
Recitado por Luísa Cruz* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


I

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



INICIAL



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Dual": IV – "Dual", Lisboa: Moraes Editores, 1972; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 134)
Dito por Maria Bethânia* (in CD "Mar de Sophia", Biscoito Fino, 2006)


O mar azul e branco e as luzidias
Pedras — O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida.


* Jaime Alem – violão
Direcção musical – Jaime Alem
Produção – Moogie Canazio e Ana Basbaum



Neste Dia de Mar e Nevoeiro



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 200)
Música e arranjo: Abe Rábade
Intérprete: Joana Machado* (in CD "Travessia dos Poetas, Rosapeixe", Nuba Records/Karonte, 2010)


Neste dia de mar e nevoeiro
É tão próximo o teu rosto.

São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses

Aquelas aves que tinham
Uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse.


* [Créditos gerais do disco:]
Joana Machado – voz
Abe Rábade – piano
Pablo Martín Camiñero – contrabaixo
Bruno Pedroso – bateria
Tiago Schwaebl – flauta
Hugo Queirós – clarinete
Elsa Roch – oboé, corne inglês
Pablo Pascual – clarinete baixo
Ana Cláudia Serrão – violoncelo
João Moreira – trompete, flügelhorn (fliscorne)
Jesús Santandreu – saxofone tenor
Carlos Ariel – direcção
Gravado nos Boom Studios, Canelas - Vila Nova de Gaia, por João Bessa
Misturado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Nelson Carvalho Masterizado nos Impact Mastering Labs, Barcelona, por Álvaro Balañá



CAMINHO DA MANHÃ



Poema (em prosa) de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Livro Sexto": I – "As Coisas", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – págs. 105-106)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Antologia da Mulher Poeta Portuguesa", Orfeu, 1981, reed. Movieplay, 2011)


Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco de cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégão, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.


* Selecção de textos – António Barahona da Fonseca
Trilha sonora – Constança Capdeville
Gravação – Moreno Pinto
Masterização – José António Regada, nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Fevereiro de 2010



Lagos: escadaria do Mercado Municipal
Em homenagem a Sophia, a 27 de Outubro de 2004, foi inscrito ao cimo um excerto do poema (em prosa) "Caminho da Manhã".



MEIO-DIA



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Poesia", Coimbra: Edição da autora, 1944; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 19)
Recitado por Carmen Dolores* (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003)


Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo
Parece bater palmas.


* Produção – Dito e Feito
Gravado nos Estúdios Goya, Lisboa, em Dezembro de 2002



MAR SONORO



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Dia do Mar", Lisboa: Edições Ática, 1947; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 84)
Dito por Maria Bethânia* (in CD "Mar de Sophia", Biscoito Fino, 2006)
Música: Sérgio Ricardo


Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.


* Antônio Adolfo – piano
Direcção musical – Jaime Alem
Produção – Moogie Canazio e Ana Basbaum



Dia do Mar no Ar



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 166)
Música e arranjo: Abe Rábade
Intérprete: Joana Machado* (in CD "Travessia dos Poetas, Rosapeixe", Nuba Records/Karonte, 2010)


Dia do mar no ar, construído
Com sombras de cavalos e de plumas

Dia do mar no meu quarto — cubo
Onde os meus gestos sonâmbulos deslizam
Entre o animal e a flor como medusas.

Dia do mar no ar, dia alto
Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem
Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.


* [Créditos gerais do disco:]
Joana Machado – voz
Abe Rábade – piano
Pablo Martín Camiñero – contrabaixo
Bruno Pedroso – bateria
Tiago Schwaebl – flauta
Hugo Queirós – clarinete
Elsa Roch – oboé, corne inglês
Pablo Pascual – clarinete baixo
Ana Cláudia Serrão – violoncelo
João Moreira – trompete, flügelhorn (fliscorne)
Jesús Santandreu – saxofone tenor
Carlos Ariel – direcção
Gravado nos Boom Studios, Canelas - Vila Nova de Gaia, por João Bessa
Misturado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Nelson Carvalho Masterizado nos Impact Mastering Labs, Barcelona, por Álvaro Balañá



PROCELÁRIA



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Geografia": II – "Procelária", Lisboa: Edições Ática, 1967; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 19)
Dito por Maria Bethânia* (in CD "Mar de Sophia", Biscoito Fino, 2006)


É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta à tempestade 
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa 
Para quem vive e canta no mau tempo


* Naná Vasconcelos – percussão
Direcção musical – Jaime Alem
Produção – Moogie Canazio e Ana Basbaum



NAVIO NAUFRAGADO



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Dia do Mar", Lisboa: Edições Ática, 1947; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 111)
Recitado pela autora (in EP "Sophia de Mello Breyner Andresen Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1959)


Vinha dum mundo
Sonoro, nítido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.

É um esqueleto branco o capitão,
Branco como as areias,
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de coração.

Em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.

E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias —
Das sereias leves de cabelos verdes
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos dos videntes.



A Conquista de Cacela



Poemas: Sophia de Mello Breyner Andresen ("As Cigarras", "A Conquista de Cacela", "Barcos" e "Pescador") [textos individualizados >> abaixo]
Música: José Cid
Intérprete: José Cid* (in CD "Pelos Direitos do Homem", BMG Ariola/RCA, 1996; 2CD "Pop-Rock & Vice-Versa": CD2, Farol Música, 2007)


Com o fogo do céu a calma cai
No muro branco as sombras são direitas
A luz persegue cada coisa até
Ouvem-se mais as cigarras que maré

As praças-fortes foram conquistadas
Por seu poder e foram sitiadas 
As cidades do mar pela riqueza
Mas Cacela foi pela beleza

[instrumental]

Um por um para o mar passam os barcos 
Em frente de promontórios e terraços 
Cortando as águas lisas como um chão 
Alinhados os barcos assim vão

[instrumental]

As praças-fortes foram conquistadas
Por seu poder e foram sitiadas 
As cidades do mar pela riqueza
Mas Cacela foi pela beleza

[instrumental]

Pescador que está inteiro em sua vida
Fez do mar e do céu seu ser profundo
E manteve com serena lucidez
Aberto o seu olhar por sobre o mundo

As praças-fortes foram conquistadas
Por seu poder e foram sitiadas 
As cidades do mar pela riqueza
Mas Cacela foi pela beleza

Mas Cacela foi pela beleza
Mas Cacela foi pela beleza

[instrumental]

Com o fogo do céu a calma cai
No muro branco as sombras são direitas


* Chico Martins – violas acústicas, viola baixo, slide guitar
Rui Vaz – programação rítmica
José Cid – voz, sintetizadores
Produção – Rui Vaz
Gravado no Estúdio Estúdio Vinyl, em 1996
Reequalizados todos os temas no Estúdio Vinyl, em 2007
Masterizado no TEMPESTÚDIO, Coimbra, por Gonçalo Gomes



Cacela Velha (concelho de Vila Real de Santo António)



AS CIGARRAS

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Livro Sexto": I – "As Coisas", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 96)


Com o fogo do céu a calma cai
No muro branco as sombras são direitas
A luz persegue cada coisa até
Ao mais extremo limite do visível
Ouvem-se mais as cigarras do que o mar



A CONQUISTA DE CACELA

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Livro Sexto": I – "As Coisas", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 101)


As praças-fortes foram conquistadas
Por seu poder e foram sitiadas 
As cidades do mar pela riqueza

Porém Cacela 
Foi desejada só pela beleza



BARCOS

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Livro Sexto": I – "As Coisas", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 98)


Um por um para o mar passam os barcos 
Passam em frente de promontórios e de terraços 
Cortando as águas lisas como um chão 

E todos os deuses são de novo nomeados 
Para além das ruínas de seus templos 



PESCADOR

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Livro Sexto": I – "As Coisas", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 97)


1

Irmão limpo das coisas
Sem pranto interior
Sem introversão

2

Este que está inteiro em sua vida
Fez do mar e do céu seu ser profundo
E manteve com serena lucidez
Aberto seu olhar e posto sobre o mundo



Açores



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "O Nome das Coisas", Lisboa: Moraes Editores, 1977; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – págs. 234-236) 
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz* (in CD "Herdeiros da Maresia", Carlos Alberto Moniz, 2003)


Há um intenso orgulho
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior

Como num convés
Respiro amplidão
No ar brilha a luz
Da navegação

Mas este convés 
É de terra escura
É de lés-a-lés
Prado agricultura

É de terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores

Por isso há nos homens
Aprumo de proa
E não sei que sonho
Em cada pessoa

As casas são brancas 
Em luz de pintor
Quem pintou as barras
Afinou a cor

Aqui o antigo
Tem o limpo do novo —
É o mar que traz 
Do largo o renovo

É como num convés 
De intensa limpeza
Há no ar um brilho
De bruma e de clareza

É convés lavrado
Em plena amplidão
É o mar que traz 
As ilhas na mão

Buscámos no mundo
Mar e maravilhas
Deslumbradamente
Surgiram nove ilhas

E foi na Terceira
Com o mar à proa
Que nasceu a mãe 
Do poeta Pessoa

Em cujo poema
Respiro amplidão 
E me cerca a luz
Da navegação

Em cujo poema
Como num convés
A limpeza extrema
Luz de lés-a-lés

Poema onde está 
A palavra pura
De um povo cindido
Por tanta aventura

Poema onde está
A palavra extrema
Que une e reconhece —
Pois só no poema

Um povo amanhece

1976


* Carlos Alberto Moniz – voz 
Ricardo Dias – acordeão
João Paulo Esteves da Silva – piano
Davide Alfano – violoncelo
Captação de som e direcção técnica – Mário Barreiros



Navegavam sem o mapa que faziam



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (poema V do ciclo "As Ilhas", in "Navegações", Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1983; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 256)
Recitado por Maria Barroso* (in CD "Abraço Musical Entre Dois Povos: 500 Anos, Uma História Comum", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses/Sondex, 2000)


Navegavam sem o mapa que faziam

(Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços)

Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável

Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tacteava espaços

Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente

1979


* Realização – Dell'Arte, Soluções Culturais



Vi as águas os cabos vi as ilhas



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (poema VIII do ciclo "Deriva", in "Navegações", Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1983; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 268)
Recitado por Maria Barroso* (in CD "Abraço Musical Entre Dois Povos: 500 Anos, Uma História Comum", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses/Sondex, 2000)
Música: Heitor Villa-Lobos (Choros)


Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som de suas falas
Que já nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri

1982


* Dagoberto Linhares – violão
Realização – Dell'Arte, Soluções Culturais



Não Sei



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (poema VIII do ciclo "Deriva", in "Navegações", Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1983; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 268)
Música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso* (in LP/CD "Longe d'Aqui", Discossete, 1990; 2CD "Antologia": CD2, Movieplay, 2005)




Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som de suas falas
Que já nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri

1982


* [Créditos gerais do disco:]
Pedro Barroso – voz, viola beiroa, viola, adufe, caixa, percussões, piano e coros
Pedro Fragoso da Silva – teclados
António Chainho – guitarra portuguesa
Sérgio Mestre – violas e flauta
Francisco Raimundo – acordeão
Luís Sá Pessoa – violoncelos
Nuno Fernandes – bombardino
Direcção musical e produção – Pedro Barroso
Gravado em Outubro e Novembro de 1990
Técnicos de som – Rui Remígio e Paulo Feijão
Misturas – Rui Remígio e Pedro Barroso



Através do Teu Coração



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (poema XIV do ciclo "Deriva", in "Navegações", Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1983; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 274) 
Música: Arrigo Capelletti
Intérprete: Ana Moura* (in 2CD "Aconteceu": CD1 – "À Porta do Fado", Universal, 2004)




Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho

1982


* Ana Moura – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Jorge Fernando – viola
Filipe Larsen – viola baixo
Músico convidado:
Davide Zaccaria – violoncelo
Produção e arranjos – Jorge Fernando
Co-produção – André Déquech
Gravado nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos, por Samuel Henriques
Gravações adicionais – Luís Delgado
Misturado e masterizado por Fernando Abrantes



BIOGRAFIA



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Mar Novo", Lisboa: Guimarães Editores, 1958; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 73)
Recitado por Natália Luiza* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


Tive amigos que morriam, outros que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



INSCRIÇÃO



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Livro Sexto": II – "A Estrela", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 127)
Recitado por Natália Luiza* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)




Quando eu morrer voltarei para buscar 
Os instantes que não vivi junto do mar


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



QUANDO



Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Dia do Mar", Lisboa: Edições Ática, 1947; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 145)
Recitado por Carmen Dolores* (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003)


Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.


* Produção – Dito e Feito
Gravado nos Estúdios Goya, Lisboa, em Dezembro de 2002



Quando



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Dia do Mar", Lisboa: Edições Ática, 1947; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 145)
Música: José Niza
Intérprete: Katia Guerreiro* (in CD "Tudo ou Nada", Katia Guerreiro Produções Musicais/Som Livre, 2005)




Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.


* Paulo Valentim – guitarra portuguesa
João Mário Veiga – viola
Rodrigo Serrão – contrabaixo, baixo acústico
Direcção musical e produção – Rodrigo Serrão
Produção executiva – Katia Guerreiro
Gravado nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, entre Julho e Agosto de 2005
Captações – Fernando Nunes e Rodrigo Serrão
Misturas e masterização – Fernando Nunes, Rodrigo Serrão, Luís Petisca e Katia Guerreiro



Em Todos os Jardins



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Poesia", Coimbra: Edição da autora, 1944; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 58)
Música: Miguel Amaral
Intérprete: Patrícia Costa* (in CD "Um Cantar Velado e Lento", Patrícia Costa, 2010)


Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.


* Patrícia Costa – voz
Miguel Amaral – guitarra portuguesa
André Teixeira – viola de fado
João Penedo – contrabaixo
Gravado e misturado por Francisco Maldonado, no Porto
Masterizado por Francisco Maldonado, em Londres





Sophia fotografada por Fernando Lemos, no jardim da casa da Travessa das Mónicas (bairro da Graça, Lisboa), no limiar dos anos 50.





Sophia fotografada por Eduardo Gageiro, na casa da Travessa das Mónicas (1964).



"Retrato de Sophia", desenho, por Arpad Szenes (1958).



"Retrato de Sophia", desenho a crayon, por Bottelho (2007).



"Sophia de Mello Breyner Andresen", curta-metragem de João César Monteiro (1969).



Sophia de Mello Breyner Andresen entrevistada por Bernard Pivot, para o programa "Apos’", do canal Antenne 2 (1988).



Documentário "Sophia de Mello Breyner Andresen - O Nome das Coisas", transmitido pela RTP-2 em 2007.
Guião: Carmen Inácio
Textos de Sophia lidos por Luísa Cruz
Realização: Pedro Clérigo
Produção: Panavídeo 



Episódio da série documental "Grandes Livros" sobre o livro "Navegações", transmitido pela RTP-2 em 2009.
Guião: Alexandre Borges
Locução: Diogo Infante
Realização: João Osório
Produção: Companhia de Ideias


Adenda:
Mais poemas de Sophia ditos pela autora (em 1993, para o programa "A Ilha de Opheu", de João Paes) podem ser ouvidos na edição do programa "A Ronda da Noite" de 02-Jul-2014:
http://www.rtp.pt/play/p1299/e159352/a-ronda-da-noite