01 junho 2020

Gina Branco: "Cantiga do Leite" (José Mário Branco)


© George Doyle / Getty Images


Natural e nutritivo, o leite materno é o alimento mais completo e indicado para o bebé nos primeiros seis meses de vida. Rico em água, proteínas, lípidos, glícidos, vitaminas, sais minerais e anticorpos, o leite materno está perfeitamente adaptado ao recém-nascido, fornecendo-lhe tudo o que necessita para um desenvolvimento equilibrado e saudável. Além da importantíssima componente nutritiva e imunológica, estão cientificamente provados relevantes benefícios da amamentação para o bebé, a saber: normal desenvolvimento da estrutura bucal e da função respiratória; prevenção de alergias, da intolerância ao glúten e da obesidade; diminuição do risco de morte súbita no primeiro ano de vida e prevenção de doenças várias inclusive do foro mental. E para a lactante também são múltiplos os benefícios e nada despiciendos: redução da hemorragia pós-parto, evitando a anemia; recuperação mais fácil do peso anterior à gravidez; diminuição do risco de problemas cardiovasculares e da diabetes tipo 2; redução da incidência do cancro da mama, do útero e dos ovários; prevenção da osteoporose. Tudo isto sem esquecer o fortalecimento do vínculo afectivo entre mãe e filho e o consequente aumento da auto-estima de ambos.
Vem este preâmbulo a propósito da "Cantiga do Leite", concebida por José Mário Branco, inicialmente para a peça de teatro "O Guardião do Rio", levada à cena em 1980 pela companhia Teatro do Mundo no Teatro Aberto, onde foi cantada pela actriz Fernanda Neves, e depois recuperada para a suite "A Noite" [>> YouTube] que preenche todo o lado B do LP homónimo gravado e editado em 1985, tendo o cantautor convidado a sua irmã, Gina Branco, para a interpretar, o que fez soberbamente. É pois pondo em destaque esta pérola que assinalamos o Dia da Criança que hoje se comemora em Portugal e na maioria dos países do mundo. Dedicamo-la a todas as crianças que, pelas razões mais diversas, não têm a sorte e o privilégio (que devia ser um direito) de serem amamentadas pela mãe.
Não podia a Antena 1 ter transmitido na presente data esta ternurenta "Cantiga do Leite", bem como outras excelentes canções para crianças ou alusivas à infância que se gravaram entre nós, com arranjos tão bons que até os adultos (sem a sensibilidade embotada) gostam de ouvi-las? Podia e devia, mas não aconteceu. A oferta musical resumiu-se ao mesmíssimo cardápio de intragáveis enxúndias dos outros dias. É triste assistir a tanta inércia e a tamanho desleixo na rádio do Estado!



Cantiga do Leite



Letra e música: José Mário Branco
Intérprete: Gina Branco (in LP "A Noite", de José Mário Branco*, UPAV, 1985, reed. Schiu!/Transmédia, 1987, EMI-VC, 1996, Warner Music Portugal, 2017)


[instrumental]

Mama, meu menino!
O leite é como um rio
Que nunca pára de correr;
O leite branco
É o remédio santo
Com que tu vais crescer.

Entre as duas margens,
Quentes e fecundas,
Mama, meu menino, sem parar!
Rio sem fundo,
Âncora do mundo,
Que corre devagar.

Mama o leite, meu passarinho!
Mata a sede sem temor!
Este rio é o teu caminho,
O cordão do meu amor.

[instrumental]

Mama, meu menino,
Mais um poucochinho,
Que eu paro o tempo só p'ra ti!
Seiva da vida
Com que fui enchida
Quando te concebi.

Um pequeno esforço:
Mete-te ao caminho!
Duas colinas mais além,
Asas de estrume
P'ra te dar o lume,
Oh meu supremo bem!

Mama o leite, meu passarinho!
Mata a sede sem temor!
Este rio é o teu caminho,
O cordão do meu amor.


* [Créditos da faixa "A Noite":]
Voz de "Cantiga do Leite" – Gina Branco
Violoncelo solo – Irene Lima
Clarinete – Artur Moreira
Oboé – António Serafim
Flauta – Ricardo Ramalho
Piano acústico e Roland HP-450 – António Emiliano
Trompete – Tomás Pimentel
Trombone – José Oliveira
Trompas – Adácio Pestana e Diamantino Rodrigues
Acordeão – Fernando Ribeiro
Tímbales – Carlos Salomé
Bombos – José Mário Branco
Violinos – Luís Cunha, António José Miranda, Curral Arteta, Leonor Moreira, António Veiga Lopes, Cecília Branco, Vasco Broco e Aníbal Lima
Violas – Alexandra Mendes, Isabel Pimentel, Jorge Lé e Teresa Beatriz
Violoncelos – Clélia Vital, Richard e Alberto Campos
Contrabaixo – Alejandro Erlich Oliva
Coro – Coro da Universidade Técnica de Lisboa, dirigido por Luís Pedro Faro e Isabel Biu
Soprano solista – Isabel Biu
Roland HP-450 e JX-8P em "Alvorada" – José Mário Branco

Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Produção artística – Manuela de Freitas, José Manuel Fortes, Trindade Santos e José Mário Branco
Produção executiva – Carlos Batista
Gravado no Angel Studio II, Lisboa, de 8 a 22 de Abril de 1985
Captação de som – José Manuel Fortes
Misturas – José Manuel Fortes e José Mário Branco
Transferência e remasterização para CD (edição de 1996) – José Manuel Fortes



Capa do LP "A Noite", de José Mário Branco (UPAV, 1985)
Concepção – Artur Henriques
Fotografia – Luiz Carvalho

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Artigos relacionados:
A infância e a música portuguesa
Júlio Pereira com Sara Tavares: "Os Ponteirinhos"
Diabo a Sete: "Cantiga de Vir ao Mundo"
O Baú: "Cala-te, Menino, Cala!"

26 maio 2020

Maio Moço: "Romance da Pastorinha"


Maio Moço, em 1989:
(da esquerda para a direita) Sérgio Contreiras, Vítor Reino, Mário Gameiro, Rui Sardinha e Ana Rita Reino.


Desde muito cedo apaixonado pelas questões ligadas à defesa e preservação do nosso riquíssimo património musical tradicional, Vítor Reino encontrou no Grupo de Recolha e Divulgação de Música Popular [fundado em 1974, a partir do coro da Juventude Musical Portuguesa], depois rebaptizado de Almanaque, agrupamento pioneiro e multifacetado, as condições essenciais que lhe permitiram iniciar uma fecunda actividade em que procurou aliar o trabalho científico de natureza etnomusicológica à criação e divulgação de uma nova música de raiz tradicional susceptível de contribuir para manter viva e actuante a inesgotável fonte do folclore musical português.
Em parceria com José Alberto Sardinha, Vítor Reino foi responsável pelos arranjos e direcção musical de dois discos que marcaram profundamente o movimento de progressivo interesse pela tradição musical portuguesa que atingiu o seu apogeu nos inícios da década de 80: Descantes e Cantaréus (1979) e Desfiando Cantigas (1984).
Ao mesmo tempo que continuava a colaborar com José Alberto Sardinha, nos inúmeros trabalhos de campo promovidos por este investigador que rapidamente se afirmou como nome cimeiro da moderna etnomusicologia portuguesa, Vítor Reino criou em 1983 o grupo Ronda dos Quatro Caminhos, sendo responsável pela selecção musical, estudo e textos explicativos, arranjos, produção e direcção artística dos álbuns Ronda dos Quatro Caminhos (1984) e Cantigas do Sete-Estrelo (1985), que incluem diversos temas e trechos musicais de sua autoria.
Com a preciosa participação de Ana Rita Reino, Sérgio Contreiras e João Simões Lima, que com ele haviam já integrado os dois agrupamentos atrás referidos, a que se juntou Mário Gameiro e, posteriormente, Rui Sardinha e Rui Sá Sequeira, Vítor Reino fundou em 1985 o grupo Maio Moço, cuja direcção continuou a assegurar. Projecto inovador por excelência, o Maio Moço impôs-se a árdua mas aliciante tarefa de lutar pela recuperação e revitalização da vasta e valiosa tradição musical portuguesa, criando uma nova música de raiz tradicional em que as ricas e fascinantes sonoridades tão características dos nossos velhos instrumentos populares se 'casam' com os modernos recursos da tecnologia actual, patente nos seis álbuns editados: Inda Canto, Inda Danço (1987), Cantigas de Marear (1989), Histórias de Portugal: De Dom Afonso Henriques a Dom Sebastião (1991), Amores Perfeitos (1994), Estrada de Santiago (1996) e CantoMaior (2002).
A convite do grupo de música tradicional Notas & Voltas, formado por funcionários do Banco de Portugal, Vítor Reino foi também o responsável pelas adaptações e arranjos, produção e direcção musical, execução de vários instrumentos, concepção, estudo e textos explicativos do álbum Decantado (2004), editado pela Tradisom. [ligeiramente adaptado do texto publicado no blogue "Rebaldeira"]


Vítor Reino deixou-nos este fim-de-semana, vítima de doença incurável (paralisia supra-nuclear progressiva). Neste blogue, em Dezembro de 2013, tivemos o ensejo de celebrar a sua obra, ainda que parcialmente, no artigo "Celebrando a Ronda dos Quatro Caminhos", pelo que decidimos trazer, para este breve e singelo tributo à sua memória, o belíssimo "Romance da Pastorinha", oriundo da aldeia de Monsanto, magnificamente cantado por ele próprio e pela companheira (na música e na vida) Ana Rita Reino. É a faixa que abre o lado B do LP conceptual Cantigas de Marear, primeiramente publicado em 1989, com chancela Discossete, que seria distinguido com o "Grande Prémio do Disco" da Rádio Renascença e, pouco depois (em 1991), reeditado no estrangeiro (em 26 países dos cinco continentes), com o título Portugal Novo e o selo Playa Sound.
A Antena 1, por vontade e capricho de Rui Pêgo e dos seus acólitos, há largos anos que vem marginalizando a música tradicional, negando-lhe lugar na 'playlist' e confinando-a a guetos em horários de sono da generalidade dos ouvintes: a rubrica "Cantos da Casa" [>> RTP-Play], o programa homónimo [>> RTP-Play] e, em parte, o programa "Alma Lusa" [>> RTP-Play]. E apesar de Vítor Reino ter tantos pergaminhos no domínio da nossa música mais genuína (aquela que melhor nos identifica como país) e, nessa medida, ser credor do reconhecimento das entidades oficiais de Portugal, a opção dos altos (ir)responsáveis da rádio pública foi nada fazer. Vergonhoso!



Romance da Pastorinha



Letra: Tradicional (Monsanto, Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Música: Tradicional (Beira Baixa) e Vítor Reino
Recolha: Vítor Reino
Intérprete: Maio Moço* (in LP "Cantigas de Marear", Discossete, 1989, reed. CD "Portugal Novo", Playa Sound, 1991; CD "Histórias de Portugal: De Dom Afonso Henriques a Dom Sebastião / Cantigas de Marear", Discossete, 1991, reed. Espacial, 2013)


— Linda pastorinha
De além da ribeira,
Tira-te do sol,             | bis
Do sol que te queima. |

— O sol não me queima
Que eu estou calejada:
Do vento, da chuva,  | bis
Do rigor da calma.    |

— No cimo da serra
Ouvi berrar gado...
— São três ovelhinhas  | bis
Que me têm faltado.    |

— Dá-me a cestinha,
Também o cajado;
Que eu irei buscá-las  | bis
Com todo o cuidado.  |

— Não quero criados
Com meias de seda,
Que se rompem todas  | bis
Por essas estevas.       |

— Sapatos e meias,
Tudo romperei:
Pela pastorinha  | bis
A vida darei!      |

— Não quero criados
Com meias de linho,
Que se rompem todas  | bis
Pelo rosmaninho.         |

— O teu gado, ó Rosa,
Trago-o eu aqui.
Vem tu, pastorinha,  | bis
Para ao pé de mim!  |

[instrumental]


Nota: «Este belo e gracioso romance, em cujo fundo Almeida Garrett pretende ver uma verdadeira pastorela do género provençal, apresenta grande quantidade de variantes, podendo afirmar-se, com o mesmo autor, que "todo o reino a sabe e canta".
Não tendo embora uma relação directa com o tema do presente trabalho, o seu carácter tão tocantemente medieval-renascentista, que nos faz remontar de imediato a todo o mistério e magia da época das Descobertas, não deixa de se enquadrar à maravilha no ambiente histórico-musical que aqui procuramos recriar, justificando amplamente a respectiva inclusão. Decerto os próprios mareantes das nossas caravelas o cantariam no decurso das suas longas viagens, para lembrar as delícias da terra que deixavam para trás, ou como forma de entreter as lentas horas de calmaria que tinham pela frente...
A versão tão admirável de singeleza e sentimento — que colhemos pessoalmente na aldeia de Monsanto (Idanha-a-Nova) — inspirou-nos um arranjo musical de sabor ao mesmo tempo bucólico e palaciano, que termina com uma dança festiva por nós composta, em que alguns amigos têm pretendido identificar, para lá do tom marcadamente renascentista, ecos distantes da velha música celta (cuja influência, aliás, não será tão longínqua e desprezível, como se pode pensar, em certos aspectos do nosso folclore).» (Vítor Reino)

* [Créditos gerais do disco:]
Maio Moço:
Ana Rita Reino – bandolim, banjo, cavaquinho, e voz
Mário Gameiro – viola acústica, viola eléctrica, viola braguesa e voz
Sérgio Contreiras – bombo, castanholas, pandeireta, guizos, pinhas e voz
Vítor Reino – harmónio, concertina, acordeão, gaita-de-foles, ponteira, flautas, sintetizadores e voz
Colaborador regular:
Rui Sardinha – baixo, cavaquinho e voz
Músicos convidados:
Henry (Sousa) – bateria
João Nuno Represas – percussões
Jorge Lé – violinos
Participação especial:
Mulheres do grupo Etnograma, do Centro Cultural e Desportivo Rádio Marconi

Direcção musical, adaptações e arranjos, concepção e textos explicativos – Vítor Reino
Gravação efectuada em Março de 1989
Técnicos de som – José Félix e Victor Florêncio
Mistura – José Félix e Vítor Reino
URL: https://www.sinfonias.org/mais/musica-portuguesa-anos-80/directorio/858-maio-moco
https://tradicao.wordpress.com/projecto-rebaldeira/arquivos/grupos-musicais/maio-moco/
https://www.youtube.com/channel/UCKaVshF7etjejpZaWftgmNQ
https://www.youtube.com/user/HomemDeMuge/videos?query=maio+moco



Capa do LP "Cantigas de Marear", do grupo Maio Moço (Discossete, 1989)
Concepção – João Vaz de Carvalho

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Outro artigo contendo repertório com a marca de Vítor Reino:
Celebrando a Ronda dos Quatro Caminhos

01 maio 2020

Dialecto: "Instrumentos de Trabalho" (Maria Teresa Horta)


Lewis Wickes Hine, "Power House Mechanic", 1921, fotografia, 34,3 x 24,1 cm, Brooklyn Museum, Nova Iorque


O trabalho operário, além de ser geralmente mal remunerado, é quase sempre duro e violento para o corpo e para a mente, não sendo raros os acidentes de que resulta a invalidez ou a morte. Um drama que, felizmente, tem vindo a perder expressão com a gradual substituição de mão-de-obra humana por maquinaria e robótica.
Muitos poetas versaram sobre o árduo trabalho operário e campesino, entre eles se contando Maria Teresa Horta, cujo poema "Instrumentos de Trabalho", primeiramente publicado em 1967, no livro "Cronista Não É Recado", o grupo Dialecto gravou no seu álbum "Aromas", de 2011.
É pois apresentando aquele poema feito canção, com música de Lindolfo Paiva, que assinalamos este Dia do Trabalhador e homenageamos os milhões de operários, do passado e do presente, que contribuíram e contribuem para o regular funcionamento das sociedades modernas, mas que são comummente desconsiderados e até olhados com desdém pelas classes privilegiadas.
Na estatal Antena 1, o grupo Dialecto já teve divulgação nos espaços da responsabilidade do realizador Armando Carvalhêda – "Viva a Música" [>> RTP-Play] e "Cantos da Casa" [rubrica >> RTP-Play / programa >> RTP-Play] –, mas nunca lhe foi dada entrada na 'playlist'. Porquê?



Instrumentos de Trabalho



Poema: Maria Teresa Horta (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Lindolfo Paiva
Intérprete: Dialecto* (in CD "Aromas", Dialecto/Cloudnoise, 2011)




Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham

[instrumental]

Instrumentos de trabalho
ou mortes de mão primeiro
Cresce o tempo no trabalho
de um martelo de ferreiro

Primeiro os mortos são peso
(ferro no sangue não fere)
Instrumentos de trabalho
de um calor que não requer

Desespero não é palavra
nem será nunca instrumento
A mão recobra o metal
de material nos dedos

Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumentos de acidente
na justiça de um salário

Semidesliza o arado
que o camponês não acusa
Ou comemora a semente
com as mãos sem armadura
[bis]

[instrumental]

Movimento de calor
nos músculos que se recusam
Sol a sol de instrumentos
ou mortes de qualquer cura

Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham

Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumento de acidente
na justiça de um salário

Semidesliza o arado
que o camponês não acusa
Ou comemora a semente
com as mãos sem armadura
[bis]

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Dialecto:
Álvaro M. B. Amaro – guitarra, acordeão e voz
Lindolfo Paiva – guitarra, bandolim, ukelele e voz
Eduardo Matos – bateria e percussão
Jorge Pimentel – baixo, guitarra e guitarra portuguesa
Carlos Varela – saxofone soprano e voz
Paulo Duarte – piano
Participação especial de:
Zé Negreiros – gaita-de-foles e flauta
Artur Graxinha – guitarra
Paulo Toledo – saxofone alto
Produção – Dialecto
Gravado e misturado por Paulo Cavaco, no Musicart Studio, Barreiro, de Janeiro a Outubro de 2011
Masterizado por António Pinheiro da Silva, no Estúdio Pé-de-Meia, Oeiras, em Novembro de 2011
URL: https://sites.google.com/site/dialectomp/home
https://www.youtube.com/user/ematos88/videos



INSTRUMENTOS DE TRABALHO

(Maria Teresa Horta, in "Cronista Não É Recado", Col. Poesia e Verdade, Lisboa: Guimarães Editores, 1967; "Poesia Reunida", pref. Maria João Reynaud, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009 – p. 262-63)


Instrumentos de trabalho
ou mortes
de mão primeiro

Cresce o tempo no
trabalho
de um martelo de ferreiro

Primeiro
os mortos são peso
(ferro no sangue não fere)

Instrumentos de trabalho
de um calor
que não requer

Desespero não é palavra
nem será nunca
instrumento

A mão recobra
o metal
de material nos dedos

Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumento de acidente
na justiça de um salário

Semidesliza o arado
que o camponês
não acusa

Ou comemora
a semente
com as mãos sem armadura

Movimento de calor
nos músculos
que se recusam

Sol a sol
de instrumentos
ou mortes de qualquer cura

Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham



Capa do livro "Cronista Não É Recado", de Maria Teresa Horta (Col. Poesia e Verdade, Guimarães Editores, 1967)



Capa do livro "Poesia Reunida", de Maria Teresa Horta (Publicações Dom Quixote, 2009)



Capa do CD "Aromas", do grupo Dialecto (Cloudnoise, 2011)
Grafismo – Luís Amaro

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Artigo relacionado:
Sérgio Godinho: "Que Força É Essa?"

25 abril 2020

Amália Rodrigues: "Abril" (Manuel Alegre)



Lançado em Janeiro de 1965, integrando a colecção "Cancioneiro Vértice", da revista "Vértice", o livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre, não tardou a ser apreendido pela PIDE, passando a figurar no índex dos livros proibidos pela ditadura salazarista. No entanto, quando a polícia política chegou às livrarias já poucos exemplares encontrou. A maioria dos exemplares dessa primeira edição já fora distribuída de mão em mão ou enviada pelo correio aos adquirentes. Antevendo-se a proibição, o livro já tinha seguido o seu caminho de resistência, passando a circular clandestinamente em cópias improvisadas (copiografadas, dactilografadas e até manuscritas).
José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília tiveram o privilégio de serem os primeiros a cantar poesia de "Praça da Canção" ainda antes do livro ser uma realidade, por deferência do autor, mas foi de uma dessas cópias clandestinas que outros compositores se serviram para musicar a poesia alegriana, fazendo dela canção. Um deles foi Manuel Freire, conforme o próprio confessou a Maria Leonor Nunes para um artigo do "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias" evocativo do cinquentenário da primeira edição [cf. http://www.manuelalegre.com/], no caso concreto das baladas "Pedro, o Soldado", "Trova do Emigrante" e "Trova", incluídas nos discos EP "Dedicatória" e "Trovas, Trovas, Trovas", editados em 1968.
Em 1969, aproveitando o abrandamento repressivo trazido pela chamada Primavera Marcelista, a Editora Ulisseia atreveu-se a publicar uma nova edição, tendo alguns poemas sido bastante modificados pelo autor, presumimos que não tanto por medo da Censura mas mais por insatisfação com os textos originais. Terá sido muito provavelmente um exemplar desta segunda edição que Alain Oulman leu e o motivou a musicar algumas estrofes de três poemas, que Amália veio a gravar com os títulos "Trova do Vento que Passa", "Abril" e "Meu Amor É Marinheiro" [o quarto poema de Manuel Alegre presente na discografia amaliana, também com música de Alain Oulman, intitula-se "As Facas" e foi extraído do volume "Coisa Amar (Coisas do Mar)", de 1976].
De "Abril", adaptado do poema "A Rapariga do País de Abril" [vide abaixo os textos tal como figuram nas duas primeiras edições], cujo original Manuel Alegre escreveu nos Açores ou em Angola, onde cumpria o serviço militar, existem duas gravações publicadas em disco: uma realizada em 1973, que teve a primeira aparição pública em 1997 no CD "Silêncio", e outra, executada três ou quatro anos mais tarde, que saiu no LP "Cantigas numa Língua Antiga" (1977). Escolhemos a publicada em 1997 para celebrar o Dia da Liberdade, neste ano do centenário do nascimento de Amália.
O país de Abril que o poeta procurava na pátria amada, tristemente amordaçada e oprimida, só emergiu cerca de uma década mais tarde, desconhecendo-se se tal iria acontecer precisamente no mês de Abril (era provável que fosse na Primavera, mas poderia ser em Março, Maio ou Junho) mas um acaso da História teve o bendito condão de conferir ao poema um cunho profético. Presentemente, volvidos 46 anos sobre a Revolução dos Cravos, a emblemática flor encontra-se vergada sob o efeito de ventos hostis, originados por uma nefanda pandemia vírica, e mesmo que a ciência descubra uma vacina ou um medicamento antiviral, a crise económica e social será inevitável e severa. A resistência do cravo será posta à prova, competindo a todos quantos não abdicam da Liberdade e prezam os valores de Abril zelar para que a haste não quebre e, melhor ainda, volte a adquirir o aprumo que já teve!
Neste país que o poder político quer fazer crer que ainda é de Abril e, nessa conformidade, supostamente democrático e pluralista, há uma rádio, por sinal sob a alçada estatal – a Antena 1 –, que se não tem coibido de praticar a mais ignóbil censura. Atente-se na 'playlist' que vem sendo reiteradamente usada para silenciar uma vasta galeria de categorizados artistas portugueses, entre os quais se contam, além dos supracitados José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília e Manuel Freire, a maior embaixatriz da cultura portuguesa além-fronteiras, Amália Rodrigues, a qual nem no ano do seu centenário é possível ouvir fora daquele gueto esconso depois da meia-noite de domingo chamado "Alma Lusa".



Abril



Poema: Manuel Alegre (excerto adaptado do poema "A Rapariga do País de Abril") [texto original >> abaixo]
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (1973, in CD "Segredo", EMI-VC, 1997)




Habito o sol dentro de ti,
descubro a terra, aprendo o mar;
por tuas mãos, naus antigas, chego ao longe
que era sempre tão longe, aqui tão perto.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruto. Meu navio.
Este navio onde embarquei
para encontrar, dentro de ti, o país de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza,
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava quem eras.

Meu amor, por ti cantei. E tu me deste
um chão tão puro: algarves de ternura.
Por ti cantei à beira-terra, à beira-povo
e achei achando-te o País de Abril. [bis]


* Amália Rodrigues – voz
José Fontes Rocha – 1.ª guitarra portuguesa
Carlos Gonçalves – 2.ª guitarra portuguesa
Pedro Leal – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em 1973
Engenheiro de som – Hugo Ribeiro

Coordenação do projecto (para a edição do CD "Segredo") – Manuel Falcão e Jorge Mourinha
Produção – Rui Valentim de Carvalho
Assistente de produção – Inês Penalva
Misturas e restauro digital – Hugo Ribeiro, João Martins e Raul Ribeiro, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Setembro de 1997
Masterização – Julius Newel, no estúdio Mission Control, Lisboa, em Outubro de 1997



A RAPARIGA DO PAÍS DE ABRIL [1]

(Manuel Alegre, in "Praça da Canção", Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965 – p. 64-65)


Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

Começa a pátria onde começas. Verde campo
verde mar. Capital da ternura.
Tu és a lâmpada no meio desta festa
com fogueiras e povo dentro dos poemas.

Era a estranha paisagem da pobreza
o cheiro secular das coisas que apodrecem
era a canção cantada pelos bêbados
que vomitam seu fardo de viver.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando uma flecha azul atravessava as noites
e eu perguntava atónito quem eras.

Quando vieste tudo ficou certo.
Encheram-se de trevo os campos das palavras
encheram-se de gente as mãos de cada verso
com sete estrelas sete luas nós cantámos.

E tu disseste: ergue-te e vai.
Não ouves este vento este soluço?
Ergue-te e canta uma canção para o meu povo.
Com sete barcos sete espadas nós partimos.

Raparigas sentaram-se ao redor do poema.
E então cantei de amor por ti cantei
na língua que por vezes é tão triste
a nossa língua que por vezes é assim: tão pura.

Mulher por ti cantei. E tu me deste
um puro continente algarves de ternura.
Por ti cantei entre meu povo e meu poema
e achei achando-te o País de Abril.



A RAPARIGA DO PAÍS DE ABRIL [II]

(Manuel Alegre, in "Praça da Canção", 2.ª edição, Lisboa: Editora Ulisseia, 1969 – p. 88-89)


Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

Por ti eu me perdi eu me encontrei
por ti que eras ausente e tão presente
por ti cheguei ao longe aqui tão perto.
E achei achando-te o País de Abril.



Capa da 1.ª edição do livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre (Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965)
Organização da edição – Ivo Cortesão



Capa da 2.ª edição do livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre (Col. Poesia e Ensaio, Lisboa: Editora Ulisseia, 1969)
Concepção – Espiga Pinto



Capa do CD "Segredo", de Amália Rodrigues (EMI-VC, 1997)
Design – Fátima Rolo Duarte
Fotografia – Charles Ichaï

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Outros artigos com canções ou poemas alusivos à Revolução dos Cravos ou à Liberdade:
Contrabando: "Verdade ou Mentira?"
Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde": "Grândola, Vila Morena"
Miguel Torga: "Flor da Liberdade"
Natália Correia: "Rascunho de uma Epístola", por Ilda Feteira
Carlos do Carmo: "O Madrugar de um Sonho"

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Outros artigos com repertório de Amália em voz própria:
Ser Poeta
Celebrando Vinicius de Moraes
Camões recitado e cantado (II)
Amália Rodrigues: "Primavera" (David Mourão-Ferreira)

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Outros artigos com poesia de Manuel Alegre:
"Viva a Música": lugar à música portuguesa
E Alegre se Fez Triste
Galeria da Música Portuguesa: Adriano Correia de Oliveira
Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes
Em memória de Adriano
Celebrando Carlos Paredes
Em memória de Fernando Machado Soares (1930-2014)
«Do João Braga para a Amália»

27 março 2020

Dia Mundial do Teatro: mensagem de Edward Albee (1993)


© Jack Mitchell / Getty Images, 1995


INSTITUTO INTERNACIONAL DO TEATRO
DIA MUNDIAL DO TEATRO – 27 DE MARÇO DE 1993
MENSAGEM INTERNACIONAL DE EDWARD ALBEE

Será que o mundo se torna um lugar cada vez mais estranho à medida que o tempo passa? Penso que sim, e sei que é assim que ele se me afigura. Tenho é de descobrir se isso é obra de um absoluto, ou mero fruto da minha visão deformadora: vislumbres de sageza a par de sinais de declínio. E direi mesmo que quando começar a fazer-se luz sobre as respostas, eu já não saberei por que me preocupo.
Todavia, é uma pergunta que continua a remoer.
Que havemos de fazer, por exemplo, para contrariar a inércia, para sair do imobilismo que recomenda dois passos em frente como resposta a dois passos atrás? Sempre que um totalitarismo cai, sob o seu próprio peso morto, há uma democracia nascente que prova ser ilusória. A todos os actos generosos parecem contrapor-se outros tantos de crueldade e ganância. Sabemos – ou saberemos algum dia – qual é a verdadeira natureza do homem: se de senhor feliz da sua liberdade, se de escravo conformado e até mesmo solícito?
Inventámos a arte – desenvolvemo-la, se quiserem – para nos explicarmos a nós próprios, para dar à nossa consciência ordem, clareza e talvez também um sentido. Descobrimos, afinal, que a arte, para merecer esse nome, tem de ter útil e não só decorativa; tem de, na sua inoperância (a arte não muda nada?), mudar tudo.
Podemos abolir por decreto todos os governos do planeta – bem, podemos tentar; podemos libertar-nos de todo o controlo de pensamento imposto de fora – bem, podemos tentar; e, contudo, ainda ficaríamos com a censura mais implacável de todas: a auto-censura das pessoas que não querem (ou receiam) dar os passos decisivos e aterradores para uma completa auto-consciência.
A arte pode ajudar-nos nessa caminhada, e, se não permitirmos que ela nos anime e impulsione, jamais nos libertaremos das cadeias que nos amarram e cegam.
Já estive em sociedades totalitárias em que pessoas foram presas e morreram por quererem aceder à arte, e vivo numa sociedade em que a auto-censura é tão implacável como outra qualquer imposta de fora. O paradoxo é mais horrendo do que poderíamos admitir.
O teatro, pela sua imediatez e porque acontece no presente (em oposição ao filme que sempre aconteceu já – o que faz com que os seus excessos pareçam inofensivos), o teatro está numa posição privilegiada para fazer com que tudo aconteça, para nos tornar insatisfeitos com a segurança e com a previsibilidade, com tudo aquilo que não modifica a nossa visão das coisas.
Lembremo-nos disto no Dia Mundial de Teatro. Lembremo-nos que os limites do teatro são apenas os que nós lhe impomos... os limites que impomos a nós próprios.

                  EDWARD ALBEE (trad. Maria Helena Serôdio, da
                          Associação Portuguesa de Críticos de Teatro)


Passaram 27 anos e esta mensagem do insigne dramaturgo norte-americano não perdeu uma pontinha de actualidade. O mundo vem-se tornando, de facto, um lugar cada vez mais estranho e desconcertado, devido a múltiplos factores, sendo que os antropogénicos se revelam preponderantes. Bastará apontar as alterações climáticas, em resultado da utilização massiva e continuada de combustíveis fósseis, e as repercussões maléficas que já se fazem sentir na vida de muita gente, principalmente em países do chamado Terceiro Mundo.
De entre todas as artes, o teatro é aquela que, de modo mais imediato e incisivo, nos pode acordar do marasmo e, como escreve o autor de "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?", modificar a nossa visão (estabelecida e comodista) das coisas. E se o teatro é imprescindível – ao homem livre e mentalmente não entorpecido por ideias feitas – em tempos considerados normais (se é que tempos normais alguma vez houve na História da Humanidade), mais aguda e pertinente se revela a sua importância quando surgem momentos de crise e de disrupção, como o presente em que as salas de teatro (e de outros espectáculos) tiveram de fechar, como medida profiláctica contra a disseminação da pandemia do COVID-19, e milhões de pessoas estão confinados aos seus domicílios. Numa situação destas, o que fazer para que os (potenciais) espectadores não cessem de fruir a arte de Talma, até como preventivo à insanidade mental? Algumas companhias perceberam logo que a internet era a via a seguir e já estão a usar esse meio para possibilitarem ao público teatrófilo o acesso ao seu trabalho, seja peças gravadas seja produções em directo.
E o que estão a fazer os meios de comunicação social tradicionais: a rádio e a televisão? Quase nada. Na rádio do Estado, e uma vez que aquela coisa manhosa e entediante a que deram o nome de "Teatro sem Fios" não pode considerar-se, em rigor, teatro radiofónico, e tendo sido eliminado o espaço "Memória" (medida deveras descabida e absurda), o programa "Ecos da Ribalta" [>> RTP-Play], de João Pereira Bastos, tem sido o único e honroso reduto a dar guarida ao teatro do imaginário, mediante o resgate de registos do arquivo histórico. Mas dado que o âmbito do programa, como o seu nome deixa entender, não é somente o teatro mas a generalidade das artes de palco, a transmissão de peças declamadas não pode ter a frequência desejada e necessária. Portanto, urge que, num horário fixo que poderá ser diário (porque não?) ou semanal, a Antena 2 passe a fazer a reposição das centenas e centenas de peças de teatro radiofónico existentes no arquivo histórico (mormente as mais antigas, já que os ouvintes menos veteranos nunca as ouviram).
Escusado será dizer que os outros canais da estação pública, mormente a Antena 1, não devem ficar alheados da oferta de teatro aos seus ouvintes, atendendo às obrigações culturais que também têm. É tudo uma questão de se saber escolher o repertório mais recomendado ao perfil dos respectivos auditórios.

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21 março 2020

Miguel Torga: "A um Negrilho"



Lançado em Janeiro de 1965, integrando a colecção "Cancioneiro Vértice", da revista "Vértice", o livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre, não tardou a ser apreendido pela PIDE, passando a figurar no índex dos livros proibidos pela ditadura salazarista. No entanto, quando a polícia política chegou às livrarias já poucos exemplares encontrou. A maioria dos exemplares dessa primeira edição já fora distribuída de mão em mão ou enviada pelo correio aos adquirentes. Antevendo-se a proibição, o livro já tinha seguido o seu caminho de resistência, passando a circular clandestinamente em cópias obtidas de copiógrafo a 'stencil', dactilografadas e até manuscritas.
José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília tiveram o privilégio de serem os primeiros a cantar poesia de "Praça da Canção" ainda antes do livro ser uma realidade, por deferência do autor, mas foi de uma dessas cópias clandestinas que outros compositores se serviram para musicar a poesia alegriana, fazendo dela canção. Foi o caso de Manuel Freire e de Alain Oulman, este para a voz de Amália. "Trova do Vento que Passa", "Abril", "Meu Amor É Marinheiro" e "As Facas" são os títulos dos quatro espécimes amalianos com versos de Manuel Alegre, todos extraídos de "Praça da Canção", com excepção de "As Facas", retirado do volume "Coisa Amar (Coisas do Mar)", de 1976.
De "Abril", adaptado do poema "A Rapariga do País de Abril", que Manuel Alegre escreveu nos Açores ou em Angola, onde cumpria o serviço militar, existem duas gravações publicadas em disco: uma realizada em 1973, que teve a primeira aparição pública em 1997 no CD "Silêncio", e outra, executada três ou quatro anos mais tarde, que saiu no LP "Cantigas numa Língua Antiga" (1977). Escolhemos a publicada em 1997 para celebrar o Dia da Liberdade, neste ano do centenário do nascimento de Amália.
O país de Abril que o poeta procurava na pátria amada, tristemente amordaçada e oprimida, só emergiu cerca de uma década mais tarde, desconhecendo-se se tal iria acontecer precisamente no mês de Abril (era provável que fosse na Primavera, mas poderia ser em Março, Maio ou Junho) mas um acaso da História teve o bendito condão de conferir ao poema um cunho profético. Presentemente, volvidos 46 anos sobre a Revolução dos Cravos, a emblemática flor encontra-se vergada sob o efeito de ventos hostis, originados por uma nefanda pandemia vírica, e mesmo que a ciência descubra uma vacina ou um medicamento retroviral, a crise económica e social será inevitável e severa. A resistência do cravo será posta à prova, competindo a todos quantos não abdicam da Liberdade e prezam os valores de Abril zelar para que a haste não quebre e, melhor ainda, volte a adquirir o aprumo que já teve!
Neste país que o poder político quer fazer crer que ainda é de Abril e, nessa conformidade, supostamente democrático e pluralista, há uma rádio, por sinal sob a alçada estatal – a Antena 1 –, que se não tem coibido de praticar a mais ignóbil censura. Atente-se na 'playlist' que vem sendo reiteradamente usada para silenciar uma vasta galeria de categorizados artistas portugueses, entre os quais se contam, além dos supracitados José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília e Manuel Freire, a maior embaixatriz da cultura portuguesa além-fronteiras, Amália Rodrigues, a qual nem no ano do seu centenário é possível ouvir fora daquele gueto esconso depois da meia-noite de domingo chamado "Alma Lusa".



Abril



Poema: Manuel Alegre (excerto adaptado do poema "A Rapariga do País de Abril") [texto original >> abaixo]
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (1973, in CD "Segredo", EMI-VC, 1997)




Habito o sol dentro de ti,
descubro a terra, aprendo o mar;
por tuas mãos, naus antigas, chego ao longe
que era sempre tão longe, aqui tão perto.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruto. Meu navio.
Este navio onde embarquei
para encontrar, dentro de ti, o país de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza,
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava quem eras.

Meu amor, por ti cantei. E tu me deste
um chão tão puro, algarves de ternura.
Por ti cantei à beira-terra, à beira-povo
e achei achando-te o País de Abril. [bis]


* Amália Rodrigues – voz
José Fontes Rocha – 1.ª guitarra portuguesa
Carlos Gonçalves – 2.ª guitarra portuguesa
Pedro Leal – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em 1973
Engenheiro de som – Hugo Ribeiro

Coordenação do projecto (para a edição do CD "Segredo") – Manuel Falcão e Jorge Mourinha
Produção – Rui Valentim de Carvalho
Assistente de produção – Inês Penalva
Misturas e restauro digital – Hugo Ribeiro, João Martins e Raul Ribeiro, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Setembro de 1997
Masterização – Julius Newel, no estúdio Mission Control, Lisboa, em Outubro de 1997



A RAPARIGA DO PAÍS DE ABRIL

(Manuel Alegre, in "Praça da Canção", Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965 – p. 64-65)


Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

Começa a pátria onde começas. Verde campo
verde mar. Capital da ternura.
Tu és a lâmpada no meio desta festa
com fogueiras e povo dentro dos poemas.

Era a estranha paisagem da pobreza
o cheiro secular das coisas que apodrecem
era a canção cantada pelos bêbados
que vomitam seu fardo de viver.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando uma flecha azul atravessava as noites
e eu perguntava atónito quem eras.

Quando vieste tudo ficou certo.
Encheram-se de trevo os campos das palavras
encheram-se de gente as mãos de cada verso
com sete estrelas sete luas nós cantámos.

E tu disseste: ergue-te e vai.
Não ouves este vento este soluço?
Ergue-te e canta uma canção para o meu povo.
Com sete barcos sete espadas nós partimos.

Raparigas sentaram-se ao redor do poema.
E então cantei de amor por ti cantei
na língua que por vezes é tão triste
a nossa língua que por vezes é assim: tão pura.

Mulher por ti cantei. E tu me deste
um puro continente algarves de ternura.
Por ti cantei entre meu povo e meu poema
e achei achando-te o País de Abril.



Capa da 1.ª edição do livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre (Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965)
Organização da edição – Ivo Cortesão



Capa do CD "Segredo", de Amália Rodrigues (EMI-VC, 1997)
Design – Fátima Rolo Duarte
Fotografia – Charles Ichaï

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Outros artigos com canções ou poemas alusivos à Revolução dos Cravos ou à Liberdade:
Contrabando: "Verdade ou Mentira?"
Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde": "Grândola, Vila Morena"
Miguel Torga: "Flor da Liberdade"
Natália Correia: "Rascunho de uma Epístola", por Ilda Feteira
Carlos do Carmo: "O Madrugar de um Sonho"

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Outros artigos com repertório de Amália em voz própria:
Ser Poeta
Celebrando Vinicius de Moraes
Camões recitado e cantado (II)
Amália Rodrigues: "Primavera" (David Mourão-Ferreira)

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Outros artigos com poesia de Manuel Alegre:
"Viva a Música": lugar à música portuguesa
E Alegre se Fez Triste
Galeria da Música Portuguesa: Adriano Correia de Oliveira
Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes
Em memória de Adriano
Celebrando Carlos Paredes
Em memória de Fernando Machado Soares (1930-2014)
«Do João Braga para a Amália»

20 março 2020

Amália Rodrigues: "Primavera" (David Mourão-Ferreira)


Claude Monet, "Printemps" ("Primavera"), 1886, óleo sobre tela, 65 x 81 cm, The Fitzwilliam Museum, Cambridge, Inglaterra


Para assinalar a chegada da Primavera de 2020 que um maldito vírus pneumónico, oriundo das partes do Oriente, veio tornar funesta, e estando a decorrer as comemorações do centenário do nascimento de Amália Rodrigues, não podia vir mais a propósito o fado "Primavera", uma das mais admiráveis criações amalianas. Das quatro gravações que a diva fez deste fado – três em estúdio (1951, 1965, 1966) e uma ao vivo (1955) –, escolhemos a de 1965, que permaneceu inédita até ao Outono de 1997, altura em que saiu no CD "Segredo", voltando a ser publicada, em 2011, na compilação "Amália canta David". Os versos desencantados de David Mourão-Ferreira, a música pungente de Pedro Rodrigues e a superlativa interpretação de Amália, apoiada no lendário Conjunto de Guitarras de Raul Nery, fazem deste espécime uma pérola do mais alto quilate do repertório do fado e da música portuguesa em geral.
Sendo certo que uma intérprete da dimensão de Amália nunca devia deixar de receber o mais desvelado tratamento da parte da rádio pública do seu país, era expectável e justíssimo que neste ano de celebração fosse redobrada a atenção dada ao seu legado fonográfico, ademais tendo vindo a lume novas edições contendo gravações inéditas. Atentamos na 'playlist' da Antena 1 e a voz de Amália não aparece. Como explicar tamanha monstruosidade?



Primavera



Poema: David Mourão-Ferreira
Música: Pedro Rodrigues
Intérprete: Amália Rodrigues* (1965, in CD "Segredo", EMI-VC, 1997; CD "Amália canta David", Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011)




Todo o amor que nos prendera,
como se fora de cera,
se quebrava e desfazia.
Ai funesta Primavera,                | bis
quem me dera, quem nos dera  |
ter morrido nesse dia!               |

E condenaram-me a tanto:
viver comigo o meu pranto,
viver, viver... e sem ti!
Vivendo sem, no entanto,         | bis
eu me esquecer desse encanto  |
que nesse dia perdi...               |

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão,
o que nos dão a comer...
Que importa que o coração  | bis
diga que sim ou que não,    |
se continua a viver?            |

Todo o amor que nos prendera
se quebrara e desfizera,
em pavor se convertia.
Ninguém fale em Primavera!      | bis
Quem me dera, quem nos dera  |
ter morrido nesse dia!               |


* Amália Rodrigues – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery:
Raul Nery – 1.ª guitarra portuguesa
José Fontes Rocha – 2.ª guitarra portuguesa
Júlio Gomes – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em 1965
Engenheiro de som – Hugo Ribeiro

Coordenação do projecto (para a edição do CD "Segredo") – Manuel Falcão e Jorge Mourinha
Produção – Rui Valentim de Carvalho
Assistente de produção – Inês Penalva
Misturas e restauro digital – Hugo Ribeiro, João Martins e Raul Ribeiro, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Setembro de 1997
Masterização – Julius Newel, no estúdio Mission Control, Lisboa, em Outubro de 1997



Capa do CD "Segredo", de Amália Rodrigues (EMI-VC, 1997)
Design – Fátima Rolo Duarte
Fotografia – Charles Ichaï



Capa do CD "Amália canta David" (Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011)
Design gráfico – Roda Dentada
Pós-produção de imagem – Mackintóxico

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Outros artigos com canções alusivas à Primavera:
Cantos d'Aurora: "Primavera"
Roda Pé: "Primavera Alentejana"
Grupo Coral "Os Ceifeiros de Cuba": "No Tempo da Primavera"

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Outros artigos com repertório de Amália em voz própria:
Ser Poeta
Celebrando Vinicius de Moraes
Camões recitado e cantado (II)