27 março 2020

Dia Mundial do Teatro: mensagem de Edward Albee (1993)


© Jack Mitchell / Getty Images, 1995


INSTITUTO INTERNACIONAL DO TEATRO
DIA MUNDIAL DO TEATRO – 27 DE MARÇO DE 1993
MENSAGEM INTERNACIONAL DE EDWARD ALBEE

Será que o mundo se torna um lugar cada vez mais estranho à medida que o tempo passa? Penso que sim, e sei que é assim que ele se me afigura. Tenho é de descobrir se isso é obra de um absoluto, ou mero fruto da minha visão deformadora: vislumbres de sageza a par de sinais de declínio. E direi mesmo que quando começar a fazer-se luz sobre as respostas, eu já não saberei por que me preocupo.
Todavia, é uma pergunta que continua a remoer.
Que havemos de fazer, por exemplo, para contrariar a inércia, para sair do imobilismo que recomenda dois passos em frente como resposta a dois passos atrás? Sempre que um totalitarismo cai, sob o seu próprio peso morto, há uma democracia nascente que prova ser ilusória. A todos os actos generosos parecem contrapor-se outros tantos de crueldade e ganância. Sabemos – ou saberemos algum dia – qual é a verdadeira natureza do homem: se de senhor feliz da sua liberdade, se de escravo conformado e até mesmo solícito?
Inventámos a arte – desenvolvemo-la, se quiserem – para nos explicarmos a nós próprios, para dar à nossa consciência ordem, clareza e talvez também um sentido. Descobrimos, afinal, que a arte, para merecer esse nome, tem de ter útil e não só decorativa; tem de, na sua inoperância (a arte não muda nada?), mudar tudo.
Podemos abolir por decreto todos os governos do planeta – bem, podemos tentar; podemos libertar-nos de todo o controlo de pensamento imposto de fora – bem, podemos tentar; e, contudo, ainda ficaríamos com a censura mais implacável de todas: a auto-censura das pessoas que não querem (ou receiam) dar os passos decisivos e aterradores para uma completa auto-consciência.
A arte pode ajudar-nos nessa caminhada, e, se não permitirmos que ela nos anime e impulsione, jamais nos libertaremos das cadeias que nos amarram e cegam.
Já estive em sociedades totalitárias em que pessoas foram presas e morreram por quererem aceder à arte, e vivo numa sociedade em que a auto-censura é tão implacável como outra qualquer imposta de fora. O paradoxo é mais horrendo do que poderíamos admitir.
O teatro, pela sua imediatez e porque acontece no presente (em oposição ao filme que sempre aconteceu já – o que faz com que os seus excessos pareçam inofensivos), o teatro está numa posição privilegiada para fazer com que tudo aconteça, para nos tornar insatisfeitos com a segurança e com a previsibilidade, com tudo aquilo que não modifica a nossa visão das coisas.
Lembremo-nos disto no Dia Mundial de Teatro. Lembremo-nos que os limites do teatro são apenas os que nós lhe impomos... os limites que impomos a nós próprios.

                  EDWARD ALBEE (trad. Maria Helena Serôdio, da
                          Associação Portuguesa de Críticos de Teatro)


Passaram 27 anos e esta mensagem do insigne dramaturgo norte-americano não perdeu uma pontinha de actualidade. O mundo vem-se tornando, de facto, um lugar cada vez mais estranho e desconcertado, devido a múltiplos factores, sendo que os antropogénicos se revelam preponderantes. Bastará apontar as alterações climáticas, em resultado da utilização massiva e continuada de combustíveis fósseis, e as repercussões maléficas que já se fazem sentir na vida de muita gente, principalmente em países do chamado Terceiro Mundo.
De entre todas as artes, o teatro é aquela que, de modo mais imediato e incisivo, nos pode acordar do marasmo e, como escreve o autor de "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?", modificar a nossa visão (estabelecida e comodista) das coisas. E se o teatro é imprescindível – ao homem livre e mentalmente não entorpecido por ideias feitas – em tempos considerados normais (se é que tempos normais alguma vez houve na História da Humanidade), mais aguda e pertinente se revela a sua importância quando surgem momentos de crise e de disrupção, como o presente em que as salas de teatro (e de outros espectáculos) tiveram de fechar, como medida profiláctica contra a disseminação da pandemia do COVID-19, e milhões de pessoas estão confinados aos seus domicílios. Numa situação destas, o que fazer para que os (potenciais) espectadores não cessem de fruir a arte de Talma, até como preventivo à insanidade mental? Algumas companhias perceberam logo que a internet era a via a seguir e já estão a usar esse meio para possibilitarem ao público teatrófilo o acesso ao seu trabalho, seja peças gravadas seja produções em directo.
E o que estão a fazer os meios de comunicação social tradicionais: a rádio e a televisão? Quase nada. Na rádio do Estado, e uma vez que aquela coisa manhosa e entediante a que deram o nome de "Teatro sem Fios" não pode considerar-se, em rigor, teatro radiofónico, e tendo sido eliminado o espaço "Memória" (medida deveras descabida e absurda), o programa "Ecos da Ribalta" [>> RTP-Play], de João Pereira Bastos, tem sido o único e honroso reduto a dar guarida ao teatro do imaginário, mediante o resgate de registos do arquivo histórico. Mas dado que o âmbito do programa, como o seu nome deixa entender, não é somente o teatro mas a generalidade das artes de palco, a transmissão de peças declamadas não pode ter a frequência desejada e necessária. Portanto, urge que, num horário fixo que poderá ser diário (porque não?) ou semanal, a Antena 2 passe a fazer a reposição das centenas e centenas de peças de teatro radiofónico existentes no arquivo histórico (mormente as mais antigas, já que os ouvintes menos veteranos nunca as ouviram).
Escusado será dizer que os outros canais da estação pública, mormente a Antena 1, não devem ficar alheados da oferta de teatro aos seus ouvintes, atendendo às obrigações culturais que também têm. É tudo uma questão de se saber escolher o repertório mais recomendado ao perfil dos respectivos auditórios.

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21 março 2020

Miguel Torga: "A um Negrilho"


Negrilho (Ulmus minor): árvore caducifólia de grande porte, da família das Ulmáceas, pode atingir mais de 20 metros de altura e apresenta tronco grosso com casca áspera, copa ampla com folhagem densa e ramos finos, folhas simples e ovadas de margens serradas, flores esverdeadas ou avermelhadas e sâmaras quase sésseis, sendo também conhecida por lamegueiro, mosqueiro, olmo, ulmeiro, etc.. [in Infopédia]
Mais informação em: http://www.florestar.net/negrilho/negrilho.html


Neste tempo de pandemia do terrífico coronavírus COVID-19 e de reclusão domiciliária em que se encontram milhões de pessoas, por determinação das mais altas autoridades político-sanitárias, um dos estratagemas mais válidos para mitigar a ansiedade e a angústia é a leitura e/ou audição de poesia, quer recitada quer cantada.
Neste Dia Mundial da Poesia que é também o Dia Mundial da Árvore apresentamos o poema "A um Negrilho", de Miguel Torga, dito pelo autor. O texto foi escrito na aldeia natal, S. Martinho de Anta, no concelho de Sabrosa, a 26 de Abril de 1954, e primeiramente publicado em 1956, no volume VII do seu "Diário". O registo fonográfico aconteceu em meados de 1987, para fazer parte do duplo LP "Miguel Torga: 80 Poemas", editado no mesmo ano, assinalando o 80.º aniversário do nascimento do poeta. A reedição do álbum em disco compacto deu-se em 1995, o ano da morte. Há já um quarto de século que o autor de "Orfeu Rebelde" não se encontra fisicamente entre nós, mas perdura na memória daqueles que com ele conviveram e em todos quantos se alimentam da sua obra: a poética e também a narrativa, mormente os contos que formam os livros "Bichos" e "Contos da Montanha", cuja leitura recomendamos vivamente.
No que concerne à poesia na rádio pública, temos na Antena 2 as rubricas "A Vida Breve" [>> RTP-Play] e "O Som Que os Versos Fazem ao Abrir" [>> RTP-Play], ambas realizadas por Luís Caetano (e aproveitamos para enaltecer, uma vez mais, este profissional da nossa rádio), mas nada existe nas Antenas 1 e 3. Porquê? No caso do primeiro canal da rádio do Estado, a ausência de um apontamento de poesia recitada é particularmente censurável, atendendo à boa tradição que o canal teve nesse capítulo desde os seus primórdios e que se manteve até 2003, quando terminou a memorável rubrica "À Esquina do Mundo", de António Cardoso Pinto, consagrada à poesia compilada na monumental antologia "Rosa do Mundo: 2001 Poemas para o Futuro" (Assírio & Alvim, 2001). A lacuna de poesia dita na Antena 1 torna-se ainda mais gritante em face da indigência poética da esmagadora maioria das cançonetas que escolheram para preencher a 'playlist', deixando de fora tanta e boa poesia cantada que até hoje se gravou na língua de Camões.



A um Negrilho



Poema de Miguel Torga (in "Diário VII", Coimbra: Edição do autor, 1956; "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, 2000, 2.ª edição, 2002 – p. 519)
Recitado pelo autor* (in 2LP "Miguel Torga: 80 Poemas": LP 2, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)


Na terra onde eu nasci há um só poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!


S. Martinho de Anta, 26 de Abril de 1954


* Miguel Torga – voz
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, nos dias 30 de Junho, 1 e 31 de Julho de 1987
Engenheiro de som – Pedro Vasconcelos
Montagem – Miguel Gonçalves
Montagem digital – Fernando Paulo Boavida, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
URL: http://cvc.instituto-camoes.pt/figuras/mtorga.html
http://purl.pt/13860/1/miguel-torga.htm



Capa do duplo LP "Miguel Torga: 80 Poemas" (EMI-VC, 1987)
Concepção – Fátima Rolo Duarte
Fotografia – Manuel Cardoso

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Camões recitado e cantado (IV)
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Fernando Namora: centenário do nascimento
Camões recitado e cantado (V)

20 março 2020

Amália Rodrigues: "Primavera" (David Mourão-Ferreira)


Claude Monet, "Printemps" ("Primavera"), 1886, óleo sobre tela, 65 x 81 cm, The Fitzwilliam Museum, Cambridge, Inglaterra


Para assinalar a chegada da Primavera de 2020 que um maldito vírus pneumónico, oriundo das partes do Oriente, veio tornar funesta, e estando a decorrer as comemorações do centenário do nascimento de Amália Rodrigues, não podia vir mais a propósito o fado "Primavera", uma das mais admiráveis criações amalianas. Das quatro gravações que a diva fez deste fado – três em estúdio (1951, 1965, 1966) e uma ao vivo (1955) –, escolhemos a de 1965, que permaneceu inédita até ao Outono de 1997, altura em que saiu no CD "Segredo", voltando a ser publicada, em 2011, na compilação "Amália canta David". Os versos desencantados de David Mourão-Ferreira, a música pungente de Pedro Rodrigues e a superlativa interpretação de Amália, apoiada no lendário Conjunto de Guitarras de Raul Nery, fazem deste espécime uma pérola do mais alto quilate do repertório do fado e da música portuguesa em geral.
Sendo certo que uma intérprete da dimensão de Amália nunca devia deixar de receber o mais desvelado tratamento da parte da rádio pública do seu país, era expectável e justíssimo que neste ano de celebração fosse redobrada a atenção dada ao seu legado fonográfico, ademais tendo vindo a lume novas edições contendo gravações inéditas. Atentamos na 'playlist' da Antena 1 e a voz de Amália não aparece. Como explicar tamanha monstruosidade?



Primavera



Poema: David Mourão-Ferreira
Música: Pedro Rodrigues
Intérprete: Amália Rodrigues* (1965, in CD "Segredo", EMI-VC, 1997; CD "Amália canta David", Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011)




Todo o amor que nos prendera,
como se fora de cera,
se quebrava e desfazia.
Ai funesta Primavera,                | bis
quem me dera, quem nos dera  |
ter morrido nesse dia!               |

E condenaram-me a tanto:
viver comigo o meu pranto,
viver, viver... e sem ti!
Vivendo sem, no entanto,         | bis
eu me esquecer desse encanto  |
que nesse dia perdi...               |

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão,
o que nos dão a comer...
Que importa que o coração  | bis
diga que sim ou que não,    |
se continua a viver?            |

Todo o amor que nos prendera
se quebrara e desfizera,
em pavor se convertia.
Ninguém fale em Primavera!      | bis
Quem me dera, quem nos dera  |
ter morrido nesse dia!               |


* Amália Rodrigues – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery:
Raul Nery – 1.ª guitarra portuguesa
José Fontes Rocha – 2.ª guitarra portuguesa
Júlio Gomes – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em 1965
Engenheiro de som – Hugo Ribeiro

Coordenação do projecto (para a edição do CD "Segredo") – Manuel Falcão e Jorge Mourinha
Produção – Rui Valentim de Carvalho
Assistente de produção – Inês Penalva
Misturas e restauro digital – Hugo Ribeiro, João Martins e Raul Ribeiro, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Setembro de 1997
Masterização – Julius Newel, no estúdio Mission Control, Lisboa, em Outubro de 1997



Capa do CD "Segredo", de Amália Rodrigues (EMI-VC, 1997)
Design – Fátima Rolo Duarte
Fotografia – Charles Ichaï



Capa do CD "Amália canta David" (Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011)
Design gráfico – Roda Dentada
Pós-produção de imagem – Mackintóxico

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Outros artigos com canções alusivas à Primavera:
Cantos d'Aurora: "Primavera"
Roda Pé: "Primavera Alentejana"
Grupo Coral "Os Ceifeiros de Cuba": "No Tempo da Primavera"

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Outros artigos com repertório de Amália em voz própria:
Ser Poeta
Celebrando Vinicius de Moraes
Camões recitado e cantado (II)

18 março 2020

Pedro Barroso: "Epitáfio"



«Um dia, parto, assim, sem despedida / Entre memórias e cantos partilhados», escreveu Pedro Barroso no poema "Epitáfio", primeiramente publicado, na forma dita, no livro/CD "Palavras Mal Ditas", de 2013, e novamente publicado, já musicado e cantado, no álbum "Palavras ao Vento", lançado a 14 de Abril de 2014. O poeta, compositor e intérprete partiu na noite da pretérita segunda-feira, mas teve tempo de se ir despedindo do seu público, ante o gradual avanço da doença oncológica que o atingira. O último concerto, assinalando os 50 anos de música e palavras, aconteceu a 21 de Dezembro de 2019, no Teatro Virgínia, de Torres Novas, parte do qual a Antena 1 transmitiu ontem, após o bloco de anúncios que se seguiu ao noticiário das 22:00. O canal generalista da estação pública esteve bem, mas a completa ausência de repertório de Pedro Barroso na actual 'playlist' é de todo incompreensível e falha de razoabilidade, atendendo às inalienáveis e particulares obrigações da rádio estatal no campo da música portuguesa, mormente naquela que tem a assinatura dos mais categorizados cantautores. Uma situação que se afigura ainda mais absurda se atendermos ao facto de alguns dos últimos álbuns do artista, como foi o caso deste "Palavras ao Vento", terem recebido o rótulo "Disco Antena 1".
Aqui apresentamos o epitáfio poético-musical de Pedro Barroso, à laia de prólogo a uma homenagem mais ampla que tencionamos render-lhe brevemente.



Epitáfio



Poema e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso* (in CD "Palavras ao Vento", Ovação, 2014)


Que do céu tombassem violinos
Decidindo por nós, gente maior,
Na forma, no projecto e na ideia,
No fazer sempre mais, sempre melhor!

Que o povo alcançasse em sentimento
Sempre a classe mais alta do poema
E a vida fosse mais que este momento
Entre farrapos de nada e alfazema!

Que a vida fosse alma e fosse vinho,
Fosse vento nas searas ondulantes
E orgasmos de prazer e rosmaninho
E luxo e sonho e fúria a cada instante!

E oceanos de espuma nos levassem
Cavalgando o desespero de partir!
E tudo fosse simples e elevado
Como um prado orvalhado no sentir!

[instrumental]

De tudo, tanto que eu acreditei
Tantos anos de espera convertida,
Sobra um sabor de que nada aconteceu
Pelas regras que devia haver na vida.

Por isso, um dia, parto, assim, sem despedida
Entre memórias e cantos partilhados.
E este excesso fabuloso sem ter fim
Vai comigo, fiquem, disso, descansados.

Sobrará de mim, talvez, fraca memória,
Esta luxúria da vida, alguns recados,
Este modo amordaçado de sorrir
E uma montanha de amores nunca alcançados.

Espantosamente, como é qu'inda deixo sonhos?
Mais que o dobro dos feitos consumados!
Só não deixo meias-tintas nem favores,
Nem regras, nem peias, nem pudores.

Deixo excessos, truculências e humores.
Mas virtudes?! Nem pensar! Tudo pecados!

[instrumental]

Espantosamente, como é qu'inda deixo sonhos?
Mais que o dobro dos feitos consumados!
Só não deixo meias-tintas nem favores,
Nem regras, nem peias, nem pudores.

Deixo excessos, truculências e humores.
Mas virtudes?! Nem pensar! Tudo pecados!


* [Créditos gerais do disco:]
Pedro Barroso – voz, viola, piano, metalofone e adufe
Susana Castro Santos – violoncelo
Manuel Rocha – violino
David Coelho – piano
Luís Petisca – guitarra portuguesa
Abel Moura – acordeão
Miguel Carreira – viola e acordeão
Ensemble Ribatejo – trompas
Produção e direcção musical – Pedro Barroso
Co-produção – Uriel Pereira
Gravado por Uriel Pereira, nos estúdios Quinta da Voz, Casal da Raposa, Riachos, de Junho a Dezembro de 2013
URL: http://nossaradio.blogspot.com/2007/11/galeria-da-msica-portuguesa-pedro.html
http://pedro-sc-barroso.blogspot.pt/p/discografia.html



Capa do CD "Palavras ao Vento" (Ovação, 2014)
Grafismo – Pedro Chora

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Galeria da Música Portuguesa: Pedro Barroso
Ser Poeta
Pedro Barroso: "Palavras Mal Ditas" ou "Palavras Malditas"?
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Cesário Verde: "De Tarde"
Pedro Barroso: "Música de Mar"

08 março 2020

Carlos Mendes: "Calçada de Carriche" (António Gedeão)


Paula Rego, "Amor", 1995, pastel sobre papel montado em alumínio, 120 x 160 cm, Casa das Histórias Paula Rego, Cascais (Inv. P44 DEP)


Mulheres que além das lides domésticas exerciam actividades manuais remuneradas para proverem ao seu sustento e ao da família sempre existiram. Refira-se, a título de exemplo, as trabalhadoras rurais (nos trabalhos de sementeiras, mondas, ceifas, colheitas, vindimas, apanha da azeitona), as tecedeiras, as costureiras, as lavadeiras, as varinas, as carvoeiras. O fenómeno do operariado fabril feminino, porém, e exceptuando as duas conflagrações bélicas mundiais pois os maridos estavam a combater e as fábricas não podiam parar, só se incrementou após a Segunda Grande Guerra. Aconteceu sobretudo no chamado primeiro mundo – Europa, América do Norte e Japão –, e Portugal não foi excepção, porque havia que aproveitar os dinheiros do Plano Marshall, apesar de Salazar ser avesso à industrialização do país. Assim, e principalmente nos subúrbios de Lisboa, Porto e Setúbal, surgiu um novo tipo de mulher trabalhadora: a que labora nas fábricas ou em trabalhos indiferenciados do sector terciário, mas que continua a arcar com todo o serviço doméstico e as obrigações próprias de uma esposa e mãe. Dessa lufa-lufa quotidiana, rotineira, mecânica e desgastante, que não deixa tempo para o ócio indispensável ao equilíbrio emocional e à fruição cultural, trata o poema "Calçada de Carriche" saído do punho de António Gedeão, pseudónimo literário do professor de Ciências Físico-Químicas Rómulo de Carvalho, e publicado primeiramente em 1958, no livro "Teatro do Mundo", e republicado nas posteriores edições da poesia reunida que dão pelos títulos de "Poesias Completas" (Portugália Editora), "Poesia Completa" (Edições João Sá da Costa) e "Obra Completa" (Relógio d'Água), bem como no volume "Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor" (Edições João Sá da Costa, 1997). Foi de uma edição das "Poesias Completas", com chancela da Portugália Editora, que José Niza retirou aquele e os demais dez poemas que achou por bem musicar para serem cantados por Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha, com orquestração de José Calvário, e constituírem o álbum "Fala do Homem Nascido", publicado em 1972.
É pois com o poema musicado "Calçada de Carriche", magnificamente interpretado por Carlos Mendes, que neste Dia Internacional da Mulher homenageamos essas mulheres sobrecarregadas de trabalho, quase escravas, que são autênticas heroínas anónimas, pois, quais robustas cariátides, suportam na cabeça a arquitrave económica familiar e, por extensão, a nacional.

E o que fez a rádio pública neste dia dedicado à mulher? Nada nos constou, andando a fazer 'zapping' entre aqueles dois canais (mau grado o incómodo e fugindo logo para Antena 2 ou para a nossa fonoteca). E não se está a pedir algo dispendioso nem que requeira muito trabalho: bastaria que a oferta musical ao longo do dia fosse ora interpretada por artistas femininas ora de homenagem à mulher, independentemente do sexo do intérprete. Nada fazer é puro desleixo e só serve para dar argumentos àqueles que contestam o financiamento público de canais de rádio que se comportam como os privados (e até pior, nalguns aspectos).



Calçada de Carriche



Poema: António Gedeão (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: José Niza
Arranjo: José Calvário
Intérprete: Carlos Mendes* (in LP "Fala do Homem Nascido", Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1998)




[instrumental]

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa...


* Arranjos e direcção de orquestra – José Calvário
Produção – José Niza
Gravação de orquestra nos Estúdios Celada, Madrid, por Pepe Fernandez, Enrique Rielo e Vinader, em Novembro de 1972
Gravação de vozes nos Estúdios Polysom, Lisboa, por Moreno Pinto



CALÇADA DE CARRICHE

(António Gedeão, in "Teatro do Mundo", Coimbra: Edição do autor, 1958; "Poesias Completas", Portugália Editora, 1964, 5.ª edição, 1975 – p. 115-120; "Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor", Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997 – p. 34-37)


Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.



Capa do LP "Fala do Homem Nascido", com poemas de António Gedeão musicados por José Niza e cantados por Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha, com orquestração de José Calvário (Orfeu, 1972).
Arranjo gráfico – Beatriz Morais Alçada

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Artigo relacionado:
João Lóio: "Cicatriz de Ser Mulher"

23 fevereiro 2020

Janita Salomé: "Quando a Luz Fechou os Olhos"


© Joaquim Lobo


Da floresta de criadores poético-musicais alguns logram elevar-se acima do manto copal e atingem uma tal dimensão que se afirmam como referências de admiração e de respeito, tanto da sua geração como das posteriores. José Afonso pertence a essa categoria de colossos que, pelo exemplo de vida e pela mensagem que a sua arte tão eloquentemente transmite, se tornaram faróis indicadores e iluminadores do caminho a seguir por todos quantos demandam a «cidade do homem / não do lobo, mas irmão». A Luz fechou os olhos perfaz hoje 33 anos mas a sua cintilação não se apagou e continua a iluminar quer aqueles que a presenciaram quando foi tocha acesa na noite escura quer – e mais importante – os que tendo nascido depois já só puderam contar com o legado musical/fonográfico. Provam-no as muitas revisitações que se vêm fazendo ao repertório do autor de "Cantares do Andarilho", seja em actuações ao vivo seja em gravações de estúdio [Cf. Letra e/ou música: José Afonso]. Como diz Janita Salomé, na canção que hoje aqui destacamos em tributo à memória do trovador maior da música popular portuguesa, «basta um sopro mágico, liberto, / para que a luz acorde a cantar».
Uma pergunta, a talhe de foice: como se explica que José Afonso, Janita Salomé e tantos outros nomes grados da nossa música estejam hoje excluídos da 'playlist' da Antena 1 e só, de tempos a tempos, surja uma ou outra das suas canções em programas de autor geralmente transmitidos a horas de sono? Fica à reflexão de quem tem por competência escrutinar e avaliar o serviço prestado pela rádio pública no domínio (importantíssimo) da música.



Quando a Luz Fechou os Olhos



Letra e música: Janita Salomé (Aos amores que nos ficam / Ao Zeca)
Arranjo: José Peixoto e José Mário Branco
Intérprete: Janita Salomé* (in LP "Olho de Fogo", Schiu!/Transmédia, 1987)




[instrumental]

Quando a luz fechou os olhos,
Amansou a terra um ar morno
De cinza, doce, de cores desmaiadas
Pelos perfumes vindos no bafo da noite.

Do ramo mais fino do silêncio
Soou o rouxinol num canto dorido
De seda e ondas, que soltava em cada nota
Um fio delicado de fumo como fogo-fátuo.

[instrumental]

Teceu um véu e ali se guardou
De volta às entranhas da vida.

[instrumental]

Basta um sopro mágico, liberto,
Para que a luz acorde a cantar.


* Janita Salomé – voz e taarijas
José Martins – sintetizador
Fernando Júdice – viola baixo
Paulo Curado – flauta e saxofone soprano
Tomás Pimentel – flügelhorn (fliscorne)
Produção e direcção musical – José Mário Branco
Gravado e misturado no Angel Studio II, Lisboa, de 29 de Outubro a 11 de Novembro de 1987
Captação de som – José Manuel Fortes, Rui Novais e Jorge Barata, assistidos por Luís Flores
Misturas – Jorge Barata, José Mário Branco e José Peixoto
URL: http://www.facebook.com/janitasalome
http://nossaradio.blogspot.com/2007/05/galeria-da-msica-portuguesa-janita.html



Capa do LP "Olho de Fogo" (Schiu!/Transmédia, 1987)
Concepção – Carlos Ramalho
Fotografia – Roberto Santadreu

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Outros artigos neste blogue com poemas/canções de homenagem a José Afonso:
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Filipa Pais: "Zeca"
José Mário Branco: "Zeca (Carta a José Afonso)"
Dulce Pontes: "O Primeiro Canto" (dedicado a José Afonso)
José Medeiros: "O Cantador"

01 janeiro 2020

Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata: "Entrada de Aninovo"



Ao contrário do que aconteceu com outras tradições portuguesas, a de cantar as janeiras não se extinguiu ante a industrialização e a aculturação anglo-saxónica, muito graças ao empenho de algumas associações culturais e de muitas autarquias (câmaras municipais e juntas de freguesia). A motivação, essa, é que já não é a mesma: hoje, o que realmente importa é manter viva a manifestação cultural dos cantares e tocares que vieram de um passado ainda próximo; antigamente, porém, era a dura e crua necessidade de angariar alimento que impelia os menos afortunados da vida a andarem de porta em porta a anunciar, cantando, a boa nova do nascimento do Menino Jesus ou a chegada dos Reis Magos a Belém, na esperança de que as casas ricas ou remediadas lhes retribuíssem a gentileza com uma chouriça, uma morcela, uma talisca de presunto ou mesmo um naco de toucinho, não se dispensando, em tempo de frialdade, uma boa pinga para aquecer a alma. Dessa finalidade de confortar o estômago e de restaurar as forças que a caminhada e as cantorias exauriram dá bem conta o rico repertório que portugueses e galegos criaram ao longo de gerações. Um magnífico exemplo é a cantiga "Entrada de Aninovo", tradicional da Galiza, que Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata interpretam magistralmente no álbum "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", recentemente publicado pela editora galega aCentral Folque. É pois com este belíssimo espécime que damos as boas-vindas ao Novo Ano, no calendário gregoriano pelo qual se rege o Ocidente, aproveitando para deixar aos leitores/visitantes do blogue "A Nossa Rádio" os nossos votos de saúde, paz, boa música e outras coisas gratas (desde que não prejudiciais ao bem-estar alheio e à casa comum de todos que é o planeta Terra).
Sendo esta a altura do ano em que se costuma formular desejos, aqui fica um: que seja feita a tão necessária operação de higienização na Antena 1, que a liberte da imundície sonora (que os contribuintes/ouvintes não merecem) e que a boa música passe a ser a sua marca distintiva e alternativa no éter nacional!



Entrada de Aninovo



Letra e música: Tradicional (Galiza)
Arranjo: Ariel Ninas
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)




Despedida de Ano Vello
e entrada de Aninovo,
os señores desta casa
as conten con moito gozo.

Catro mancebos xuntiños
aqui xuntiños estamos
e tan cansados os catro
que é preciso alimentarnos.

De moi lonxe xa viñemos,
noite que andar aínda falta
as forzas piden reparo,
mollo ás gorxas e non d'auga!

Chourizo e longaniza,
uña de porco, fuciño,
ou de xamón dúas tortillas
con dous xarriños de viño.

[instrumental]

Abran a porta, señores,
que por honrados nos temos!
Sabe Deus se p'ra outro ano
á porta lles cantaremos...

De cantar xa nos cansamos,
por probes non nos desprezem
que se algo os ricos non dan
os probes mal se remexen!

E esta vai por despedida,
hoxe eiqui non canto outra.
Os señores desta casa,
hoxe un ano me oian outra!

E esta vai por despedida,
hoxe eiqui non canto outra.
Os señores desta casa,
hoxe un ano me oian outra!


* [Créditos gerais do disco:]
Catarina Moura – voz
Ariel Ninas – sanfona, sinos, harmónica, chocalhos, adufe e voz
César Prata – guitarras, dulcimer, adufe, harmónio, mbira, beat root e voz
Gravado por César Prata, no estúdio RequeRec (Trancoso)
Misturas e masterização – César Prata
URL: http://artistas.folque.com/do-natal-aos-reis/



Capa do CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", de Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata (aCentral Folque, 2019)
Desenho e arte final – Mauro Sanin Leira