25 abril 2018

Natália Correia: "Rascunho de uma Epístola", por Ilda Feteira


Monumento "A Pomba da Liberdade" (2013), da autoria de Francisco Charneca, situado na localidade de Oriola, concelho de Portel.
Fotografia tirada por Maria Margarida Monteiro (blogue "Kantos da Terra").


Continuando a evocar Natália Correia, tomando como pretexto os 25 anos da morte, trazemos um poema que vem muito a propósito no dia em que se comemora a Revolução dos Cravos: "Rascunho de uma Epístola", recitado por Ilda Feteira, com música de e por Jorge Palma. Trata-se do poema matriz dos sonetos da "Epístola aos Iamitas" (1976) e nele está patente o desalento que a poetisa então sentia por a emergente noite já pisar os trevos da Liberdade. Foi primeiramente publicado em 1993, na edição da poesia reunida (pela própria autora) intitulada "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias".
Nesses inícios da década de 1990, em pleno consulado cavaquista, a rádio pública estava, apesar de tudo, melhor do que antes do 25 de Abril de 1974, mormente no capítulo da música. A oferta tinha qualidade e era diversificada. Em 2018, pode dizer-se, sem exagero, que a Antena 1 transmite – e massivamente – muito pior música do que a que era difundida pela Emissora Nacional. Situação que – acrescente-se – é deveras absurda e vergonhosa num regime (alegadamente) não amordaçado e tendo o nosso património fonográfico aumentado incomensuravelmente em quantidade, qualidade e variedade. Alguém que ande mais distraído que se dê ao cuidado de sintonizar o canal, a qualquer altura do dia ou da noite em que está a rodar a 'playlist', e não necessitará de mais do que uma hora para se dar conta da triste e desoladora realidade.
Vem a talhe de foice lembrar que o retrocesso não se restringe ao campo da música (o que por si só já seria motivo bastante para preocupar quem supervisiona e tutela o serviço público de radiodifusão): afecta também a poesia e o teatro. Ambas estas artes da palavra (que nenhum meio serve melhor do que a rádio, convém não esquecer) tinham lugar efectivo na Emissora Nacional e continuaram a ter na RDP-1 durante muitos anos. Na actual Antena 1 – 44 anos volvidos sobre a reconquista da Liberdade – são objecto da mais completa e obscena censura por parte da direcção de programas!



RASCUNHO DE UMA EPÍSTOLA



Poema de Natália Correia (in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 75-76; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 406-407)
Recitado por Ilda Feteira* (in CD "Vinte e Cinco Razões de Esperança", Ilda Feteira & Jorge Palma, 2004)
Música: Jorge Palma


Entre sobas solertes e solenes
Aqui estou de poeta e de passagem.
Das 25 pombas deste Abril
As melhores levo em versos na bagagem.

E aqui as solto transidas e alertadas
Pelo hálito do medo que já volta
E cada uma delas é uma concha
Carregando uma pérola de revolta.

Aqui eu as desprendo contra a noite
Que já da liberdade os trevos pisa
E cada uma delas é um rio
Desfiando uma prata insubmissa.

Se o país que na esperança exercitámos
For num desvão de Abril apunhalado
Onde a vida reclama a plenitude
É que o poeta é febre é raiva é dardo.

É canto arterial é um centauro
Com uma flecha de música no flanco,
É toda a luz na boca e a liberdade
É o mais certeiro tiro do seu canto.

Enquanto lira for de luz cantada
O poeta sem repouso no combate,
A luta não termina quando perde
A cor nos cravos que a escuridão abate.


* Ilda Feteira – voz
Jorge Palma – piano
Selecção dos textos – Ilda Feteira
Gravação – Jorge Palma



Capa do CD "Vinte e Cinco Razões de Esperança", de Ilda Feteira & Jorge Palma (2004).
Concepção por António Antunes.
Neste álbum são celebrados autores tão diferentes como Alexandre O'Neill, Alice Vieira, António Gedeão, António Ramos Rosa, Ary dos Santos, Carlos de Oliveira, Daniel Filipe, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, José Afonso, José Gomes Ferreira, Manuel Alegre, Manuel da Fonseca, Maria Velho da Costa, Miguel Torga, Natália Correia e Sophia de Mello Breyner Andresen, entre outros.

Nota: Não sabemos se ainda existem exemplares disponíveis deste álbum, que não teve distribuição comercial. O melhor será escrever para: geral@jorgepalma.pt.

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22 abril 2018

José Vianna da Motta: 150.º aniversário do nascimento


José Vianna da Motta retratado por Columbano Bordalo Pinheiro, 1923, óleo sobre tela, Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado, Lisboa


«José Vianna da Motta marcou o curso da História da Música em Portugal em dois aspectos fundamentais. Por um lado, formou várias gerações de pianistas portugueses, fundando uma escola interpretativa que se prolonga até aos nossos dias. Por outro lado, foi um dos primeiros compositores empenhados no "reaportuguesamento" da música erudita, na afortunada expressão de Afonso Lopes Vieira. Utilizou a música tradicional e a poesia culta portuguesas nas suas obras, fazendo parte da geração que transformou Camões em símbolo da nação. A abertura "Inês de Castro", baseada na versão narrada no poema épico "Os Lusíadas", é exemplo desta exaltação camoniana, assim como a Sinfonia "À Pátria", a sua obra mais conhecida, cujos andamentos são precedidos por epígrafes retiradas do mesmo poema. Para Vianna da Motta, a "expressão para o sentimento da nação" era o objectivo mais alto ao qual devia aspirar a composição.» [Teresa Cascudo, introdução da resenha biográfica publicada no site do Instituto Camões]


Poucos são os portugueses de hoje que nunca ouviram os primeiros compassos da Sinfonia em Lá maior, "À Pátria", op. 13 [>> YouTube], mesmo desconhecendo a que obra pertencem, mas já não se pode dizer o mesmo da demais produção de Vianna da Motta. E para essa ignorância muito tem contribuído a muito residual e esparsa transmissão das suas obras pela Antena 2, o canal do serviço público de radiodifusão que está legalmente obrigado a prestar uma particular atenção aos compositores eruditos portugueses. E se a discografia disponível tem sido quase esquecida pelos programadores, o acervo de gravações ao vivo que presumivelmente existe no arquivo histórico tem sido pura e simplesmente negligenciado. Algo que não se compreende nem se pode aceitar, ademais existindo na grelha um espaço denominado "Memória" [>> RTP-Play], justamente consagrado à divulgação do arquivo. Importa, pois, que a direcção da Antena 2 providencie no sentido do necessário resgate desse espólio, em vez de se limitar a repisar, vezes sem conta, o mesmo lote de registos 'requentados'.
Comemorando o 150.º aniversário do nascimento do insigne compositor, pianista e pedagogo, o blogue "A Nossa Rádio" apresenta a belíssima "Canção Perdida", sobre poema de Guerra Junqueiro, magnificamente interpretada pelo tenor Carlos Guilherme e pelo pianista Armando Vidal. Uma pérola!



Canção Perdida



Poema: Guerra Junqueiro (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: José Vianna da Motta (in "Canções Portuguezas para canto e piano compostas por José Vianna da Motta", Rio de Janeiro: Isidoro Bevilacqua e C.ª, 1895)
Intérpretes: Carlos Guilherme & Armando Vidal* (in CD "A Canção Portuguesa", Numérica, 1998)


Alguém de mim se não lembra
Nas terras d'além do mar...
Ó Morte, dava-te a vida,    | bis
Se tu lha fosses levar!...    |

O meu amor escondi-o
Numa cova ao pé do mar...
Morre o amor, vive a saudade...   | bis
Morre o sol, olha o luar!...           |

Quem dá ais, ó rouxinol,
Lá para as bandas do mar?...
É o meu amor que na cova    | bis
Leva as noites a chorar!...     |

Ó meu amor, dorme, dorme
Na areia fina do mar,
Que em antes da estrela-d'alva    | bis
Contigo me irei deitar!...             |


* Carlos Guilherme – voz (tenor)
Armando Vidal – piano
Gravado no Aurastudio, Paços de Brandão - Santa Maria da Feira, em Janeiro de 1996
Engenheiros de som – Jorge Fidalgo e Fernando Rocha
Mistura – Jorge Fidalgo
Montagem – Fernando Rocha



CANÇÃO PERDIDA

(Guerra Junqueiro, in "Os Simples", Porto: Typographia Occidental, 1892 – p. 73-76; "Os Simples: Poesias Líricas", Porto: Lello & Irmão – Editores, 1978 – p. 73-76)


Hálitos de lilás, de violeta e d'opala,
Roxas macerações de dor e d'agonia,
O campo, anoitecendo e adormecendo, exala...

Triste, canta uma voz na síncope do dia:


            Alguém de mim se não lembra
            Nas terras d'além do mar...
            Ó Morte, dava-te a vida,
            Se tu lha fosses levar!...

            Ó Morte, dava-te a vida,
            Se tu lha fosses levar!...


Com o beijo do Sol na face cadavérica,
Beijo que a morte esvai em palidez algente.
Eis a Lua a boiar sonâmbula e quimérica...

Doce, canta uma voz melancolicamente:


            O meu amor escondi-o
            Numa cova ao pé do mar...
            Morre o amor, vive a saudade...
            Morre o sol, olha o luar!...

            Morre o amor, vive a saudade...
            Morre o sol, olha o luar!...


Latescente a neblina opálica flutua,
Diluindo, evaporando os montes de granito
Em colossos de sonho, extasiados de lua...

Flébil, chora uma voz no letargo infinito:


            Quem dá ais, ó rouxinol,
            Lá para as bandas do mar?...
            É o meu amor que na cova
            Leva as noites a chorar!...

            É o meu amor que na cova
            Leva as noites a chorar!...


A Lua enorme, a Lua argêntea, a Lua calma,
Imponderalisou a natureza inteira,
Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma...

Triste, expira uma voz na canção derradeira:


            Ó meu amor, dorme, dorme
            Na areia fina do mar,
            Que em antes da estrela-d'alva
            Contigo me irei deitar!...

            Que em antes da estrela-d'alva
            Contigo me irei deitar!...


                                                             Maio — 91.



Capa do CD "A Canção Portuguesa", de Carlos Guilherme & Armando Vidal (Numérica, 1998)

27 março 2018

"Ecos da Ribalta": homenagem a Carmen Dolores


Carmen Dolores encarnando Isabella, na peça "Dente por Dente" ("Measure for Measure"), de William Shakespeare, levada à cena pelo Teatro Moderno de Lisboa, com encenação de António Pedro, no Cinema Império, em 1964
© J. Marques


Carmen Dolores [>> resenha biográfica no site do Instituto Camões] é, indiscutivelmente, uma das mais notáveis actrizes portuguesas de sempre e não apenas do período que vai, sensivelmente, da II Guerra Mundial até 2005 (ano em que se retirou). Testemunham-no aqueles que a viram e ouviram em palco e também os documentos áudio e audiovisuais que existem da sua arte na rádio, no cinema e na televisão. De entre todos estes meios, o que sempre mais a cativou foi a rádio, onde começou a dizer poesia, aos catorze anos de idade [na Rádio Sonora, de Lacombe Neves, à rua Morais Soares, em Lisboa], actividade que manteve pelos anos fora, a par do teatro radiofónico (peças e obras romanescas por episódios, vulgo folhetins). Uma paixão perpétua, como a própria actriz tem reafirmado em várias entrevistas, não deixando de lamentar a lastimável ausência de teatro nas hodiernas ondas hertzianas e também a míngua de poesia dita por categorizados recitadores. Em ambos os campos Carmen Dolores deu cartas na rádio do Estado, sendo de menção obrigatória os espaços "Tempo de Poesia" (de Carlos Queiroz), "Poesia, Música e Sonho" (de Miguel Trigueiros), "Teatro das Comédias" (de Álvaro Benamor), "Tempo de Teatro" (de Fernando Curado Ribeiro) e "Teatro Imaginário" (de Eduardo Street). São disso prova os mais de setecentos registos guardados no arquivo histórico.
Pelo relevante serviço que prestou à rádio pública, todas as acções que a mesma desenvolva em homenagem da emérita actriz serão sempre poucas. Nesta ordem de ideias, cumpre-me aplaudir o realizador João Pereira Bastos pelo ciclo, em quatro capítulos, que em boa hora consagrou a Carmen Dolores, no seu programa "Ecos da Ribalta" [>> RTP-Play]. Foi a oportunidade que muitos ouvintes tiveram de descobrir ou revisitar quatro magníficas peças de teatro e uma mão-cheia de poemas, uns retirados do arquivo histórico (programa "Poesia, Música e Sonho") e outros extraídos do CD "Poemas da Minha Vida" (Dito e Feito, 2003). No caso das peças, apenas uma – "A Súplica", de Fernando Dacosta – não era estranha aos meus ouvidos. As outras três – "A Gaivota", de Anton Tchekov; "Um Mês no Campo", de Ivan Turgueniev; e "Na Vida como no Palco", de Clifford Odets – nunca as havia ouvido, simplesmente porque foram produzidas/emitidas antes de eu ter nascido, sem que nunca mais tenham sido repostas por alguma das antenas nacionais da rádio estatal, Antena 1 ou Antena 2 (é possível que muitas tenham sido retransmitidas pela RDP-Internacional enquanto Eduardo Street lá permaneceu, em regime de quase 'emprateleirado', mas essas estavam fora do meu alcance auditivo). E muitas mais dezenas de peças interessantes haverá no arquivo (com ou sem Carmen Dolores no elenco) que são desconhecidas ao escrevente destas linhas e, bem assim, aos ouvintes do mesmo escalão etário e mais novos. Por conseguinte, e sem prejuízo do resgate das mais bem conseguidas realizações, para o programa "Memória" ou para outro espaço a criar na grelha da Antena 2, importa que todo o acervo de teatro radiofónico seja disponibilizado na plataforma RTP-Arquivos, a fim de que possa ser fruído por todos quantos apreciam a nobre e difícil arte de representar só com a voz. Um espólio de tão elevado valor cultural não pode permanecer fora do alcance da comunidade: podendo aceder-lhe, os cidadãos de hoje têm a oportunidade de se enriquecerem intelectualmente e, por arrasto, de cultivarem a memória dos actores, "encenadores", realizadores e técnicos que deram o seu melhor para que as obras fossem audíveis e cativantes. Penso, aliás, que essa é a melhor forma de prestar tributo aos artistas e aos briosos profissionais do "teatro do imaginário" (e da arte de Talma, genericamente entendida). Vale mais do que mil estátuas ou nomes de ruas, praças e pracetas.
Aqui ficam as sinopses e os links relativos às quatro edições do programa "Ecos da Ribalta" consagradas à arte de Carmen Dolores:


ECOS DA RIBALTA | 20 Dez. 2017 [>> RTP-Play]
  1. Poema "Quase", de Mário de Sá-Carneiro, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  2. Poema "A Rainha de Kachmir", de Gomes Leal, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  3. Peça "A Súplica" (monólogo), um original de Fernando Dacosta, em adaptação de Filipe La Féria / direcção: Filipe La Féria / intérprete: Carmen Dolores / realização: Eduardo Street, com Noel Cardoso e Fernando Pires (TEMPO DE TEATRO, 1985).

ECOS DA RIBALTA | 27 Dez. 2017 [>> RTP-Play]
  1. Peça "A Gaivota", um original de Anton Tchekov, em tradução e adaptação de Alice Ogando / direcção: Alice Ogando / intérpretes: Carmen Dolores, Rogério Paulo, Aura Abranches, Alves da Costa, Carlos Duarte, Luís Filipe, Maria Filomena, Luís Santos, Carlos Gonçalves, Ivone de Moura e Alice Ogando / produção: Castela Esteves / assistência técnica: Francisco Vicente / realização: Alice Ogando (RÁDIO-DRAMA, 9 Nov. 1959).

ECOS DA RIBALTA | 21 Fev. 2018 [>> RTP-Play]
  1. Sete poemas de Rainer Maria Rilke, em tradução de Paulo Quintela (com versos de ligação da autoria de Miguel Trigueiros), recitados por Carmen Dolores e Manuel Lereno / assistência técnica: Manuel Sanches / realização: Manuel Cunha (POESIA, MÚSICA E SONHO, 1972).
  2. Poema "Os Atacadores", de Alexandre O'Neill, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  3. Poema "Se eu fosse...", de Irene Lisboa, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  4. Peça "Um Mês no Campo", um original de Ivan Turgueniev, em tradução e adaptação de Ricardo Alberty / direcção e ensaio: Álvaro Benamor / intérpretes: Carmen Dolores, Brunilde Júdice, Assis Pacheco, Maria Emília Baptista, João Lourenço, Ivone de Moura, Carlos Fernando, Santos Gomes e Álvaro Benamor / montagem: Gomes Serra / assistência técnica: Fernando Pires (TEATRO DAS COMÉDIAS, 1964).

ECOS DA RIBALTA | 28 Fev. 2018 [>> RTP-Play]
  1. Peça "Na Vida como no Palco", um original de Clifford Odets, em adaptação de Carlos de Évora-Monte (pseudónimo de Vítor Veres) / direcção e ensaio: Álvaro Benamor / intérpretes: Carmen Dolores, Assis Pacheco, Álvaro Benamor, António Sarmento e Gabriel Pais / montagem: Jorge Santos / captação: Teixeira Alves / registo de som: Mendes de Oliveira (TEATRO DAS COMÉDIAS).
  2. Poema "O Som de um Piano Antigo", de João José Cochofel, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  3. Poema "É preciso saber porque se é triste", de Manuel Alegre, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  4. Poema "Meio-Dia", de Sophia de Mello Breyner Andresen, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  5. Poema "Sugestão", de Carlos Queiroz, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  6. Poema "Vivam, apenas", de José Gomes Ferreira, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  7. Poema "Canção", de António Pedro, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  8. Poema "Dez Reis de Esperança", de António Gedeão, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  9. Poema "Lusitânia no Bairro Latino", de António Nobre, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  10. Poema "Voz nos Campos de Almada", de Mário Cesariny, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).



Capa do livro "Retrato Inacabado", de Carmen Dolores (Lisboa: Edições O Jornal, 1984)



Capa do livro "No Palco da Memória", de Carmen Dolores (Lisboa: Sextante Editora, 2013)



Capa do livro "Vozes Dentro de Mim", de Carmen Dolores (Lisboa: Sextante Editora, 2017)

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21 março 2018

Sebastião da Gama: "Louvor da Poesia", por José Nobre


Cascata na Serra da Arrábida


Poucos terão sido os poetas, mormente os eruditos, que não versejaram a respeito da poesia ou, dito por outras palavras, que não fizeram da poesia (ou da arte poética, se se preferir) o objecto do poema. Entre eles, e com vários espécimes publicados, conta-se o poeta que chamava à Serra da Arrábida a sua Serra-Mãe: Sebastião da Gama. A nossa escolha, para este Dia Mundial da Poesia, recaiu naquele que dá pelo título de "Louvor da Poesia". É recitado pelo actor José Nobre, sobre lastro musical concebido e executado pelo (já desaparecido) pianista e compositor Rui Serôdio, e foi extraído do CD "Sebastião da Gama: Meu Caminho É por Mim Fora" [vide capa ao fundo], produzido pela Associação Cultural Sebastião da Gama e publicado em 2010, com chancela JGC.
António Cardoso Pinto, saudoso realizador de rádio, recitador e poeta [biografia e poemas no site Triplo V], manteve na Antena 1, durante sete anos (de 1996 a 2003) um memorável apontamento de poesia, primeiramente chamado "À Esquina da 1", depois "À Esquina do Século", e finalmente "À Esquina do Mundo". Esta última denominação prendia-se com o facto da fonte dos poemas ser a volumosa antologia "Rosa do Mundo: 2001 Poemas para o Futuro" (Assírio & Alvim, 2001), organizada por Manuela Correia, sob a direcção editorial de Manuel Hermínio Monteiro. Nunca mais existiu no canal uma rubrica regular de poesia. Perguntamos: e porquê, se há tanto e bom material no arquivo, sem esquecer o disponível em discos? Uma coisa nada dispendiosa de se fazer e com a vantagem de dar à Antena 1 um toque de distinção no panorama das rádios de 'playlist'. Ou será que a direcção de programas entende que os ouvintes de hoje já não são merecedores desse "luxo cultural" que é a poesia?



LOUVOR DA POESIA



Poema de Sebastião da Gama (in "Campo Aberto", Lisboa: Portugália, 1951; Lisboa: Edições Ática, Colecção Poesia, 4.ª edição, 1983 – p. 45)
Recitado por José Nobre* (in CD "Sebastião da Gama: Meu Caminho É por Mim Fora", JGC, 2010)
Música: Rui Serôdio


Dá-se aos que têm sede,
não exige pureza.
Ah!, se fôssemos puros,
p'ra melhor merecê-la...

Sabe a terra, a montanhas,
caules tenros, raízes,
e no entanto desce
da floresta dos mitos.

Água tão generosa
como a que a gente bebe,
fuja dela Narciso
e quem não tenha sede.


* José Nobre – voz
Rui Serôdio – piano
Selecção de textos – João Reis Ribeiro e Maria Barroso
Produção – Associação Cultural Sebastião da Gama
Gravado no estúdio Sounds of Heaven, em Outubro de 2009
Gravação de vozes – David Neutel
Mistura e masterização – Jorge Calheiros



Capa do CD "Sebastião da Gama: Meu Caminho É por Mim Fora" (JGC, 2010)
Grafismo por Jorge Calheiros

20 março 2018

Roda Pé: "Primavera Alentejana"


© Teresa Azevedo

Rafael Correia, durante as quase três décadas em que realizou, nos estúdios da RDP-Faro para a emissão nacional da Antena 1, o seu maravilhoso programa "Lugar ao Sul" [reedição >> RTP-Play], sempre teve o mui louvável cuidado de aguçar o apetite dos ouvintes, para as saborosas e nutritivas iguarias sonoras que recolhia no Portugal profundo, com canções, poemas recitados e trechos instrumentais extraídos de edições discográficas. Enquanto fiel ouvinte, tive assim a oportunidade de descobrir muitos e magníficos espécimes do nosso património fonográfico que de outro modo me teriam passado ao lado. Aliás, dezenas e dezenas dessas gravações nunca mais as ouvi na Antena 1, nem em qualquer outra rádio. É o caso da canção "Primavera Alentejana", sobre poema de Hermínia Gaidão Costa, que o grupo eborense Roda Pé gravou no CD "Escarpados Caminhos", editado em 2004 pela editora conimbricense Public-Art. E que melhor dia para revisitá-la do que este em que começa a Primavera, e estando os campos alentejanos já cobertos de verdura depois da abundante chuva? Espero que a apreciem.
A talhe de foice, não posso deixar de, uma vez mais, apontar o dedo à direcção de programas da Antena 1 pela reiterada marginalização a que vem votando a música popular portuguesa, seja a tradicional seja a de autor tributária da matriz tradicional. Atente-se na 'playlist' que é um perfeito deserto de música tradicional e nos escassíssimos espaços a ela consagrados – "Cantos da Casa", de Armando Carvalhêda [rubrica >> RTP-Play / programa >> RTP-Play], e "O Povo Que Volta a Cantar", de Tiago Pereira [>> RTP-Play] – que estão em horários de sono e sem que sejam repetidos a horas de vigília.



Primavera Alentejana



Poema: Hermínia Gaidão Costa (em memória de Margarida Gaidão)
Música: Hermínia Gaidão Costa e Roda Pé
Arranjo: Roda Pé e João Bacelar
Intérprete: Roda Pé* (in CD "Escarpados Caminhos", Public-Art, 2004)


[instrumental]

Rompe a aurora, nasce o dia
Iluminando o montado;
Como um hino à alegria
Ouve-se balir o gado.

Roxo, verde e amarelo –
Olho à volta – é o que vejo;
Não há nada assim tão belo,
Ó meu querido Alentejo!

Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas,
Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas.

Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas,
Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas.

[coros / instrumental]

Perfumados de poejo
Os campos de solidão:
É assim o Alentejo
Que trago no coração.

O melro canta no silvado,
O grilo num buraquinho;
E eu por ti apaixonada,
Alentejo, meu cantinho!

Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas,
Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas.

Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas,
Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas.

[coros / instrumental]


* Agostinho Teodoro – baixo eléctrico
Daniel Canelas – violino
Estêvão – guitarra acústica
Joaquim Manuel – acordeão
João Bacelar – percussão, bandola, berimbau de boca, reco-sapo, almofariz, programação e sampling
Participações especiais:
Joana Negrão – voz
Celina da Piedade – 2.ª voz
Produção – João Bacelar e Roda Pé
Gravado no Estúdio Quinta Dimensão, Azaruja-Évora, de Dezembro de 2003 a Abril de 2004
Misturas e masterização – João Bacelar
URL: http://www.roda-pe.com/



Capa do CD "Escarpados Caminhos", do grupo Roda Pé (Public-Art, 2004)
Concepção gráfica por Fernando Costa e Ricardo Costa

16 março 2018

Ana Moura: "Creio" (Natália Correia)



Um dos mais belos poemas de Natália Correia e, por extensão, de toda a poesia de língua portuguesa é aquele que começa com o verso "Creio nos anjos que andam pelo mundo". Finda o livro "Sonetos Românticos", publicado em 1990 e que no ano seguinte seria galardoado com o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores.
A primeira versão cantada do soneto é de Janita Salomé, com música da sua autoria, e integra o CD "Raiano" (1994), a qual incluímos, em 2013, no artigo "Celebrando Natália Correia". Outros intérpretes vieram também a gravá-lo, tendo um deles sido a fadista Ana Moura, com música de Jorge Fernando, no álbum "Aconteceu" (2004). É essa versão que aqui apresentamos, em evocação da insigne poetisa, no dia em que se completa um quarteirão de anos sobre o seu desaparecimento.
Não podia a Antena 1 ter este poema cantado na respectiva 'playlist'? Podia e devia! Não só este como muitos outros saídos do punho de Natália Correia, alguns dos quais podem ser apreciados no artigo acima referido. E isso assume ainda mais pertinência se atentarmos na confrangedora pobreza da esmagadora maioria das canções que meteram na 'playlist'. Indigência essa – acrescente-se – que não se restringe à vertente poética: abrange igualmente as componentes da música e da interpretação (sem esquecer a qualidade genérica das vozes, que é de bradar aos céus).



Creio



Poema: Natália Correia ("Creio nos anjos que andam pelo mundo", poema IV de "Poesia: ó véspera de prodígio!", in "Sonetos Românticos", Lisboa: O Jornal, 1990; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 392; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 616)
Música: Jorge Fernando
Intérprete: Ana Moura* (in 2CD "Aconteceu": CD 1 – "À Porta do Fado", Mercury/Universal Music, 2004)




Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.


* Ana Moura – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Jorge Fernando – viola
Filipe Larsen – viola baixo
Produção e arranjos – Jorge Fernando
Co-produção – André Déquech
Gravado nos Estúdios MDL, Paço de Arcos, por Samuel Henriques
Gravações adicionais – Luís Delgado
Misturado e masterizado por Fernando Abrantes



Capa do duplo CD "Aconteceu", de Ana Moura (Mercury/Universal Music, 2004)