06 outubro 2019

«Do João Braga para a Amália»



Neste dia em que se completam 20 anos sobre o desaparecimento da maior cantora (da alma) portuguesa, rendemos homenagem ao "heterónimo feminino de Portugal", como lhe chamou David Mourão-Ferreira, destacando dois fados expressamente consagrados a Amália que João Braga gravou ainda em vida da homenageada: "Ai, Amália!", integrante do álbum "Do João Braga para a Amália" (1984), e "Amália", incluído no CD "Fado Fado" (1997).
Na esteira de Amália, João Braga sempre teve o mui louvável cuidado de resgatar poesia ao silêncio dos livros dando-a, em canto, à fruição do público não académico. Entre os poetas que tem gravado contam-se Pedro Homem de Mello, David Mourão-Ferreira, Alexandre O'Neill, Sophia de Mello Breyner Andresen, Miguel Torga, Vasco de Lima Couto, António Botto, Luís de Camões, Fernando Pessoa, e Manuel Alegre, a quem pertence o poema do segundo fado que aqui apresentamos. No dizer do próprio autor da "Trova do Vento Que Passa", «João Braga deu a volta ao fado. Despiu-o da pieguice e do marialvismo, tirou-o da viela e fê-lo respirar de novo o ar puro do mar largo. Renovou o fado, tal como por outros caminhos já havia feito Alain Oulman [com Amália], na fidelidade às raízes, que não são as do conformismo, mas as da permanente descoberta e reinvenção. Com João Braga o fado voltou a ser navegação e risco, passado e futuro, tradição e modernidade. Ele escolheu a dificuldade e a exigência. Remou muitas vezes contra a maré, compôs e cantou, talvez ao arrepio do seu próprio público, sem qualquer cedência à tentação da moda, do fácil, do já visto. Trouxe a poesia de novo ao fado e restituiu o fado à poesia. Não foi só um processo de renovação, foi também um trabalho de pedagogia.»
Além do amor pela grande poesia, uma circunstância (essa desditosa) o irmana a Amália: o boicote reiterado a que ambos têm sido sujeitos por parte de quem administra a 'playlist' da Antena 1, sonegando assim as respectivas obras aos ouvintes durante as largas horas da emissão de continuidade (diurnas e nocturnas). O único gueto em que os dois artistas são admitidos, com a passagem de canções integrais, é o programa semanal da autoria de Edgar Canelas que dá pelo nome de "Alma Lusa" (depois da meia-noite de domingo) [>> RTP-Play].
Perguntamos: será esta situação normal e aceitável na rádio que, por determinação legal, tem inalienáveis obrigações no domínio da língua portuguesa e naquele que é um dos seus principais veículos, a canção de base literária?



Ai, Amália!



Letra: Luísa Bivar
Música: João Braga
Intérprete: João Braga* (in LP "Do João Braga para a Amália", Diapasão/Lamiré, 1984; CD "João Braga", col. Fado Alma Lusitana, vol. 19, Levoir/Correio da Manhã, 2012)


[instrumental]

És Povo feito Mulher;
A cantar és toda a gente
que sabe aquilo que quer
e diz aquilo que sente.

As tuas caras são tantas:
mais de mil que Deus te deu...
Com mil corações tu cantas
e há mais mil dentro do teu.

Ai, Amália das mil caras
e mais de mil corações!
Ai, rio que nunca páras
até à foz das canções!...
[bis]

Nos ecos da tuz voz,
nos silêncios que a torturam
sofrem pedaços do nós,
pedaços que se procuram.

Levantas a tua voz,
o Fado nasce ao teu jeito!
E sentimos todos nós
que te cabemos no peito...

Ai, Amália das mil caras
e mais de mil corações!
Ai, rio que nunca paras
até à foz das canções!...
[bis]

[instrumental]

Ai, Amália das mil caras
e mais de mil corações!
Ai, rio que nunca paras
até à foz das canções!...


* João Braga – voz
José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Jaime Santos Jr. – viola
Joel Pina – viola baixo
Participação especial:
José Pracana – guitarra portuguesa
Gravado nos Estúdios Musicorde, Lisboa, em Março de 1984
Captação de som e misturas – Rui Remígio



Amália



Poema: Manuel Alegre
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: João Braga* (in CD "Fado Fado", Ariola/BMG Portugal, 1997; CD "Fados Capitais", Impreopa/A Capital, 2002)




[instrumental]

Na tua voz há tudo o que não há,
há tudo o que se diz e não se diz;
Há os sítios da saudade em tua voz,
o passado, o futuro, o nunca, o já;
Há as sílabas da alma e há um país.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

[instrumental]

Na tua voz embarca-se e não mais,
não mais senão o mar e a despedida.
Há um rasto de naufrágio em tua voz,
onde há navios a sair do cais,
nessa voz por mil vozes repartida.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

[instrumental]

Há mar e mágoa, e a sombra de uma nau,
a gaivota de O'Neill e o rio Tejo,
saudade de saudade em tua voz,
um eco de Camões e o escravo Jau,
amor, ciúme, cinza e vão desejo.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

[instrumental]

Amor, ciúme, cinza e vão desejo.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.


* João Braga – voz
José Fontes Rocha – 1.ª guitarra portuguesa
José Luís Nobre Costa – 2.ª guitarra portuguesa
Jaime Santos Jr. – viola de fado
Joel Pina – viola baixo de fado
Produção musical – João Braga
Produção executiva – Luís Ferreira de Almeida
Gravado no Estúdio Tcha Tcha Tcha, Miraflores - Oeiras, de 17 de Agosto a 2 de Setembro de 1997
Captação de som, misturas e masterização – Rui Dias
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Braga
http://www.museudofado.pt/personalidades/detalhes.php?id=231
http://joaobraga-fado.blogspot.com/2012/03/do-jao-braga-para-amalia.html



Capa do LP "Do João Braga para a Amália" (Diapasão/Lamiré, 1984)
Fotografia – Carlos Delgado
Concepção e desenho da capa – L. Cunha e Joaquim Ribeiro



Capa do CD "Fado Fado" (Ariola/BMG Portugal, 1997)
Fotografia – Marcelo Buainain
Concepção gráfica – João Tinoco (5 em Tempo, Design)

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Outro artigo com canções de tributo a Amália:
Amália: dez anos de saudade

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Artigos com repertório de Amália em voz própria:
Ser Poeta
Celebrando Vinicius de Moraes
Camões recitado e cantado (II)

01 outubro 2019

Sérgio Godinho: "Mão na Música"


Manossolfa: método de ensino do solfejo criado pelo compositor e pedagogo húngaro Zoltán Kodály (1882-1967).


Se é assaz difícil a tarefa de definir o amor (que o diga Camões), não menos árduo se afigura o exercício de exprimir, por palavras, em que consiste a música. Sérgio Godinho resolveu meter-lhe mãos (e cabeça) e assim nasceu o texto musicado "Mão na Música", inserto no álbum "Mútuo Consentimento" (2011). Uma notável dissertação em prosa poética com música sobre a arte dos sons que o autor de "Com um Brilhozinho nos Olhos" nos legou e à qual as rádios nacionais não fizeram a justiça de lhe dar a necessária e conveniente divulgação. Ao pôr-mo-la em destaque neste Dia Mundial da Música acreditamos estarmos a torná-la parte do imaginário dos leitores/ouvintes que a ignoravam e não são desprovidos de sensibilidade.
Esta função de divulgação do património musical português mais oculto mas de qualidade superior compete, em primeiro lugar, à estatal Antena 1. No entanto, a rádio que os portugueses financiam no pressuposto de prestar esse serviço público dá-se ao desplante de ocupar quase todo o tempo de difusão musical com os mais banais e reles produtos sonoros, boa parte dos quais vindos de fora. Será que as entidades que têm por competência escrutinar e avaliar a estação pública ainda não tomaram consciência dos efeitos altamente perniciosos que a situação vigente tem na cultura musical dos ouvintes e na vida dos nossos mais categorizados criadores de música não erudita?



Mão na Música



Letra e música: Sérgio Godinho
Arranjo: Hélder Gonçalves
Intérprete: Sérgio Godinho* (in CD "Mútuo Consentimento", Universal Music, 2011)




[instrumental]

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.
[4x]

Da sua mão sobe o ar ao infinito, de lá treme.
A música, por um lado, vê-se; por outro, não se vê.
Nada da música se improvisa por acaso.
A música corre nas gargantas e pode ser tocada com um só dedo.
A música mostra-se feia para os seus pares e bela para os seus ímpares.
A música emudece, por vezes, os cantores e deixa-os a sós nos camarins à espera do amigo do carrasco.
A música não é a mesma quando ouvida de longe ou quando ouvida de perto.
A música não tem explicações a dar a si mesma: isso explica tudo.
A música dá asas a quem voa: a quem tem asas para voar.
A música faz aos poemas aquilo que os poemas quiseram fazer dela: render-se. E aos outros propõe: rendam-se! Tréguas e batalhas sem ordem de aviso.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.
[bis]

A música referenda a liberdade: sim ou não? A música depende dum botão da liberdade e desunha-se a mostrar os efeitos de num dedo a voz humana.
A música faz orelhas moucas. A música não se esquece no silêncio, por isso nos lembramos dela: permanece em mais que um som.
A música vai, por vezes, mais alto e duma torre afunda o eco no centro da Terra.
A música aguenta-se de pé, dorme sentada, dança e escorrega na cama.
A música pausa e pausa, faz das malas a viagem – mas se acena, já de longe...
A música atira os seus poemas ao mar e recebe-os nas ondas do dia seguinte, nas garrafas outro povo. A música perdeu muitos bons poemas no vento contrário (quem sabe, eram bons?).
A música é uma cópia duma cópia, cara aberta vai ao fundo e vem à tona por respiração.
A música é uma revolução de estilos, é do passarinho herdeira órfã. A música é órfã. Quando nasceu, os seus pais tinham morrido há pouco. É órfã.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.
[4x]

A música esfrega os dedos em tudo o que der som.
A música nunca teve, em si mesma, uma moral; pensa que não pensa e que não perdura (diz-se que faz muito bem ouvi-la; alguém que pense e que perdure por ela).
A música não tem barreiras, mas o amor por ela sim.
A música prepara-se, destroçada mas vaidosa, para confessar tudo ao cair do sol.
A música chora e ri ao mesmo tempo: uma criança por razões não exactamente compreensíveis.
A música quer ser perfeita, sempre que por escolha é imperfeita. Por talento, dá-se a todas: a bondade, a presunção, ressentimento e, mais não fosse, a quatro tempos.
A música de repente é a mesma nota repetida e outras vezes.
A música mede-se com caneta e gravador; é maior e é menor.
A música quando se encontra já lá está.
A música nasceu antes de nós termos nascido com ela. A música segue a sua sombra e pela sombra é fácil, não há espelho. Ou é ritmo ou é pausa: ambos dúbios mas reconhecíveis.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.
[bis]

A música é feita à janela e aberta vê-se da rua.
A música eriça-se ao menor vento, arranha-se a si mesma, ladra ao ar, risca a terra. Gosta mesmo.
A música quando a chuva cai com barulho de entre as nuvens vê-se o mar em dia de acalmia, o que não é explicável nem por norma nem por excepção dos deuses: digamos que são os sons em dia de ofertório.
A música vai de rio e desagua: aquece a água doce, rebenta no mar salgado, larga os seus bichos no mar.
A música tem duas mãos, é tocada com um só peito e um só dedo.
Da música sobe o ar ao infinito.
A música tem um só dedo e um só dedo. A música tem um só dedo e um só dedo.
Nada da música se improvisa por acaso.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.
[6x]


* Sérgio Godinho – voz
Hélder Gonçalves – guitarra eléctrica, barítono, teclados, coros
Manuela Azevedo – coros, piano, glockenspiel, melódica
Produção e direcção musical – Nuno Rafael
Produção executiva – Paulo Salgado (Vachier & Associados)
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, P.R.E.C. e Tone of a Pitch, em Março e Abril de 2011, por Nelson Carvalho, Tiago de Sousa e Nuno Rafael, excepto a parte instrumental de "Mão na Música" (gravada por Hélder Gonçalves, no estúdio O Nosso Gravador)
Misturado por Nelson Carvalho, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Masterizado por Andy Vandette, no Masterdisk



Capa do CD "Mútuo Consentimento" (Universal Music, 2011)
Fotografia – Sérgio Godinho
Grafismo – Mackintóxico

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Artigos relacionados:
'Playlist' da Antena 1: uma vergonha nacional (II)
Fernando Tordo: "Bendita Música"
Pedro Barroso: "Música de Mar"

23 setembro 2019

Jorge Cravo: "Outono à Beira-Rio"


© Gracinha (in blogue "Os Olhares da Gracinha!")


Começou o Outono de 2019. Para assinalar o início da estação que tinge as folhas de tons quentes (amarelos, laranjas, vermelhos, castanhos), apresentamos uma canção que nos leva à Coimbra ribeirinha: "Outono à Beira-Rio", de e por Jorge Cravo. E que bem nos sabe ouvir a música da Lusa Atenas nestes dias amenos de luz coada que convidam à contemplação das telas que a Natureza pintou para inebriamento do nosso olhar!
A talhe de foice, uma pergunta: em que situação está a música de matriz coimbrã na Antena 1? Na 'playlist' nada existe e na programação de autor apenas o espaço "Alma Lusa" (que começa depois do noticiário da meia-noite de domingo e termina às 2:00 da madrugada de segunda-feira) lhe dá, de vez em quando, alguma guarida. O que é pouco e com a agravante do horário ser impraticável por quem trabalha ou estuda e precisa de se levantar cedo na manhã seguinte. Sem prejuízo de outras medidas, impõe-se a criação de uma rubrica diária especialmente consagrada à canção de Coimbra, que sendo um dos géneros mais identitários da nossa música deve merecer da rádio pública portuguesa o devido desvelo.



Outono à Beira-Rio



Letra e música: Jorge Cravo
Intérprete: Jorge Cravo / Quarteto de António José Moreira* (in CD "Canções d'uma Cidade e d'um Rio", Numérica, 2010)


[instrumental]

O fim de tarde em Coimbra
não tem pôr-do-sol igual:
melodia que nos timbra
um tom azul outonal.
    Em Outubro Munda é rio
    onde a brancura se pinta:
    traço azul do casario
    numa aguarela distinta.
        Coimbra a ser vivida
        por dentro do seu poente:
        é senti-la assim esculpida
        aos olhos da sua gente.
        Coimbra a ser vivida
        por dentro do seu poente:
        é senti-la assim esculpida
        aos olhos da sua gente.

No seu olhar de menina
o sol se espelha com graça
no casario da colina
como fogo nas vidraças.
    O ventar faz ondular
    o poisar no rio da ave:
    branda gaivota a adejar
    num planar de asas suave.
        Coimbra a ser vivida
        por dentro do seu poente:
        é senti-la assim esculpida
        aos olhos da sua gente.
        Coimbra a ser vivida
        por dentro do seu poente:
        é senti-la assim esculpida
        aos olhos da sua gente.


* Quarteto de António José Moreira:
António José Moreira – guitarra de Coimbra (construída em 1983, por Manuel Cardoso)
Henrique Ferrão – guitarra de Coimbra (construída em 1988, por Gilberto Grácio)
José Carlos Ribeiro – viola (Alhambra Mod. 6P)
Jorge Cravo – voz

Arranjos e composição final – António José Moreira, com a colaboração de Henrique Ferrão e José Carlos Ribeiro
Gravado nos estúdios da Quinta da Música, Grijó, e nos estúdios da Numérica, Paços de Brandão, de Maio a Julho de 2010
Técnico de som – Jorge Fidalgo
Misturas, edição e masterização – Jorge Fidalgo, em Setembro e Outubro de 2010, no Porto (estúdio particular)
URL: http://numerica-pt.blogspot.com/2011/04/quarteto-de-antonio-jose-moreira.html
http://guitarrasdecoimbra2.blogspot.com/2011/04/homenagem-e-lancamento-do-disco-cancoes.html



Capa do CD "Canções d'uma Cidade e d'um Rio" (Numérica, 2010).
Grafismo – José Carlos Ribeiro.

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Outros artigos com canções alusivas do Outono:
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Outros artigos com música de matriz coimbrã:
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Camões recitado e cantado (III)
José Afonso: "Vejam Bem"

02 agosto 2019

José Afonso: "Vejam Bem"


Fotograma do filme "O Anúncio" (1966), realizado e protagonizado por José Cardoso.


«Música do filme "O Anúncio", a apresentar no Festival de Cinema Amador pelo Cineclube da Beira [Moçambique]. O filme foi projectado, em sessão privada, ainda incompleto e sem diálogos. Um homem procura emprego num escritório, dirige-se ao gerente de uma firma conceituada, a capatazes e mestres-de-obras. Em vão! Privado de fundos, vê-se obrigado a dormir ao relento e a roubar para comer. Na retrete de um restaurante, único lugar onde não é visto, devora apressadamente dois ovos que metera no bolso, aproveitando-se da algazarra geral. É à luz deste contexto dramático que poderão entender-se a linha melódica e o texto rimado apensos às sequências julgadas mais expressivas.»

Assim escreveu José Afonso, a propósito da sua canção "Vejam Bem", em nota publicada no livro "Cantares José Afonso", organizado por Manuel Simões e publicado, em 1966, pela editora Nova Realidade, de Tomar.
Naquela curta-metragem de ficção, o realizador, o luso-moçambicano José Cardoso (natural de Figueira de Castelo Rodrigo), resolveu ser ele mesmo a encarnar o protagonista, um homem desempregado e sem meios para prover ao seu sustento, o que suscitou alguma incompreensão, atendendo à situação de muitos negros, reduzidos que estavam à condição de quase escravatura (muito trabalho mas exígua remuneração). Tal opção, segundo alegou posteriormente o cineasta, tinha a intenção de não confinar a acção à realidade colonial e conferir à obra uma leitura mais universal.
E se a pobreza era, em meados dos anos 60, volvidas que estavam duas décadas sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, um flagelo que grassava em muitas regiões do mundo, a verdade é que não desapareceu, com o decorrer do tempo, apesar do incremento da segurança social. A pobreza atinge hoje pessoas que, embora empregadas, vivem (sobrevivem) com carências várias, inclusive alimentares (tome-se como exemplo as muitas crianças que em Portugal vão para a escola em jejum porque os pais não possuem recursos para lhes dar o pequeno-almoço). E estamos no chamado mundo desenvolvido. No terceiro mundo, mormente na África Subsariana e na América Latina, a falta de condições de vida associada à explosão demográfica, ao esgotamento dos solos, à corrupção e às guerras ao não deixa aos naturais na flor da idade outra alternativa que não seja o êxodo para os países industrializados do Norte (Europa e Estados Unidos da América). Mas os países ricos, apesar de necessitarem de mão-de-obra jovem, levantam barreiras à sua entrada e assistem indiferentes à sua sorte que, no caso dos migrantes que tentam atravessar o Mediterrâneo, tem, frequentemente, como desfecho a própria morte. Neste contexto, a canção "Vejam Bem" adquire um significado ainda mais dramático, pois a palavra "dorme", nos versos «Quem lá vem / dorme à noite ao relento n'areia / dorme à noite ao relento no mar», pode ser lida como "morre".
Pela mensagem de agudíssima actualidade, pela maravilhosa melodia, pela tocante interpretação vocal de José Afonso e pelo magistral acompanhamento à viola de Rui Pato, "Vejam Bem" (versão gravada para o álbum "Cantares do Andarilho”, de 1968) é uma pérola superlativa da música portuguesa e mundial. Razão bastante para a pôr-mos em evidência no dia em que o nosso cantautor maior completaria, se fosse vivo, 90 anos de idade.
A Antena 1 vem passando ao longo do dia, ao ritmo de uma por hora, algumas canções de José Afonso em voz própria, o que é de saudar. Importa, no entanto, ter presente que nos demais dias do ano é virtualmente impossível de ouvir o quer que seja da discografia do artista durante os larguíssimos períodos em que reina a 'playlist'.



Vejam Bem



Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968, 1970, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012)




[instrumental]

Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem se põe a pensar
quando um homem se põe a pensar

Quem lá vem
dorme à noite ao relento n'areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar

E se houver
uma praça de gente madura
e uma estátua
e uma estátua de febre a arder

Anda alguém
pela noite de breu à procura
e não há quem lhe queira valer
e não há quem lhe queira valer

[instrumental]

Vejam bem
daquele homem a fraca figura
desbravando os caminhos do pão
desbravando os caminhos do pão

E se houver
uma praça de gente madura
ninguém vem levantá-lo do chão
ninguém vem levantá-lo do chão

Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem
quando um homem se põe a pensar

Quem lá vem
dorme à noite ao relento n'areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar

[instrumental]

Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem se põe a pensar
quando um homem se põe a pensar

Quem lá vem
dorme à noite ao relento n'areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar

E se houver
uma praça de gente madura
e uma estátua
e uma estátua de febre a arder

Anda alguém
pela noite de breu à procura
e não há quem lhe queira valer
e não há quem lhe queira valer

[instrumental]


* José Afonso – voz
Rui Pato – viola
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1968
Técnico de som – Moreno Pinto
Remasterização (edição de 2012) – António Pinheiro da Silva



Capa da 1.ª edição do LP "Cantares do Andarilho" (Orfeu, 1968)
Concepção – Fernando Aroso



Capa da 2.ª edição do LP "Cantares do Andarilho" (Orfeu, 1970)
Concepção – José Santa-Bárbara
Esta foi a capa adoptada nas posteriores edições, em vinil e em CD.

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Outros artigos neste blogue com canções de José Afonso ou em sua homenagem:
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Filipa Pais: "Zeca"
José Afonso: "Fui à Beira do Mar"
Camões recitado e cantado
Celebrando Luís Pignatelli
Camões recitado e cantado (II)
José Mário Branco: "Zeca (Carta a José Afonso)"
Dulce Pontes: "O Primeiro Canto" (dedicado a José Afonso)
José Medeiros: "O Cantador"

21 junho 2019

Fernando Pardal: "Estio" (Manuel da Fonseca)


© Faísca, 2005 (https://www.flickr.com/photos/faisca/albums)


Em Portugal, não há Verão tão tórrido e tão inclemente para os seres viventes – pessoas, animais e plantas – quanto o do interior alentejano. Dessa severidade extrema, no limiar do insuportável, é bem eloquente o poema de Manuel da Fonseca que tem precisamente por título "Estio". O texto foi primeiramente publicado em 1941, no livro "Planície" (Coimbra, Col. Novo Cancioneiro, N.º 6), e republicado nas sucessivas edições da poesia reunida do ilustre escritor de Santiago do Cacém, sob os títulos de "Poemas Completos" e de "Obra Poética".
Terá sido provavelmente numa destas compilações que o também alentejano (bejense) Paulo Ribeiro o leu e achou por bem musicá-lo a fim de fazer parte do seu álbum de tributo a Manuel da Fonseca, a que deu o título genérico de "O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis" (passagem do poema "O Vagabundo"). A edição aconteceu em 2017 com chancela Açor, uma etiqueta independente criada pelo Prof. Emiliano Toste (https://www.emilianotoste.pt/aeditora/), que embora estando mais vocacionada para a música tradicional portuguesa, mormente a açoriana, não deixa de dar um mui louvável acolhimento a valorosos artistas de outros géneros musicais que são enjeitados pelas chamadas 'majors'.
Paulo Ribeiro pensou não ser ele o único intérprete a dar voz a todos os poemas e resolveu convidar, além de dois grupos corais e etnográficos da margem esquerda do Guadiana ("Os Camponeses de Pias" e o da Casa do Povo de Serpa), vários cantores amigos e com provas dadas – Vitorino, Tim, Manuel João Vieira, Ana Lúcia Magalhães e Fernando Pardal –, entregando ao último a interpretação do poema "Estio". É pois com este belo espécime poético-musical que assinalamos a chegada do Verão de 2019.
Na Antena 1, o CD "O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis" esteve em destaque nos programas "Viva a Música" [>> RTP-Play] e "Vozes da Lusofonia" [>> RTP-Play], e aproveitamos para enaltecer o cuidado que tiveram os seus realizadores, respectivamente, Armando Carvalhêda e Edgar Canelas. Incompreensivelmente, nunca mais foi possível ouvir na emissão de continuidade (que é o extenso reino da 'playlist') o quer que fosse daquele álbum, nem – acrescente-se – de quaisquer outros da discografia de Paulo Ribeiro.
Perguntamos: com que ânimo e vontade poderão os ouvintes/contribuintes continuar a suportar uma estação que marginaliza os artistas mais talentosos do seu país e se empenha na promoção do lixo sonoro, seja o vindo de fora seja o produzido cá dentro?



Estio



Poema: Manuel da Fonseca (in "Planície", Coimbra: Novo Cancioneiro, 1941; "Poemas Completos", Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; "Poemas Completos", pref. Mário Dionísio, 3.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1969 – p. 97; "Poemas Completos", pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 108; "Obra Poética", pref. Mário Dionísio, Lisboa: Editorial Caminho, 1984 – p. 113)
Música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Fernando Pardal* (in CD "O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis", de Paulo Ribeiro, Açor/Emiliano Toste, 2017)


Horizonte
todo de roda
caiado de sol.
Ao meio
do cerro gretado
esguia cabeça de cobra
olha assobios de lume
sobre espigas amarelas...
(...Campaniços degredados
na vastidão das searas
sonham bilhas de água fria!...)


* Fernando Pardal – voz
Jorge Vinhas – violino
Hugo Morais – clarinete
João Vitorino – guitarra
João Custódio – contrabaixo
Jorge Moniz – bateria e órgão
Arranjos e produção musical – Jorge Moniz
Gravado no estúdio Musibéria, Serpa, por Tito Carreno, e no estúdio de Vale de Lobos, Almargem do Bispo (Sintra), por Pedro Vidal
Pós-produção, mistura e masterização – Pedro Vidal
URL: https://www.facebook.com/PauloRibeiro.musico/



Capa da 1.ª edição do livro "Planície", de Manuel da Fonseca (Col. Novo Cancioneiro, N.º 6, Coimbra, 1941)
Ilustração de Manuel Ribeiro de Pavia



Capa do CD "O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis", de Paulo Ribeiro (Açor/Emiliano Toste, 2017)
Design – Ana Faísca
Fotografia de Paulo Ribeiro – Ana Rodrigues
Fotografia de Manuel da Fonseca extraída do catálogo da exposição "Por todas as estradas do mundo" (2011), organizada por Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Câmara Municipal de Santiago do Cacém e Museu do Neo-Realismo (Vila Franca de Xira)

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Artigos relacionados:
Janita Salomé: "Reino de Verão"
Grupo Banza: "Verão"

10 junho 2019

Camões recitado e cantado (V)


"Luís de Camões preso e tendo aos pés quem quis perdê-lo. Pintado nas Índias e foi do próprio".
De autoria anónima, este retrato foi revelado pela investigadora Maria Antonieta Soares de Azevedo, em 1972, num artigo publicado na revista "Panorama" (N.º 42/43, IV Série), que o situa em 1556, sendo anterior ao outro retrato feito em vida do poeta, por Fernão Gomes.
Figurou na exposição que a Biblioteca Nacional organizou, no mesmo ano de 1972, a propósito do IV centenário da publicação de "Os Lusíadas".

«Sendo um testemunho muito importante, este retrato não é propriamente uma obra de arte. A peça é de execução tão imperfeita quanto colorida. O desenho é tosco e desajeitado, com flagrantes erros de perspectiva. Mostra um Camões arruivado, de guias do bigode assimétricas, sentado a uma mesa, segurando uma travessa na mão direita e uma pequena peça escura na esquerda. Estará prestes a trabalhar num dos cantos de Os Lusíadas (o décimo para Maria Antonieta Soares de Azevedo). Há duas folhas sobre essa mesa, mais um fragmento de outra folha.
O poeta parece dispor de um certo "conforto intelectual": vemos vários cartapácios na parede, está em fase de escrever ou a corrigir o seu poema, pode consultar uma carta geográfica que tem perto de si, certamente para verificar qualquer afirmação ou referência do poema. Mas o gibão está roto na manga esquerda e a comida representada não parece abundante, não se percebendo bem que objecto mostra na mão esquerda: um pedaço de pão ou biscoito? Uma pedra para raspar eventualmente a tinta com que escreve? Uma noz gálica para fazer mais tinta? Outra coisa?»

Vasco Graça Moura (in "Retratos de Camões", Lisboa: Guerra e Paz Editores, 2014 – p. 54-55)


Neste Dia de Camões, apresentamos a três últimas Canções, do conjunto de dez que compõe o CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra" [as sete anteriores foram apresentadas nos artigos "Camões recitado e cantado (III)" e "Camões recitado e cantado (IV)"].
No que concerne a poemas camonianos musicados/cantados, resgatamos os cinco que Luís Cília gravou em França e incluiu no seu álbum "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", editado em 1967. Sendo Luís Cília, hoje em dia, um compositor/intérprete banidíssimo do éter nacional, presumimos que seja elevado o número de rádio-ouvintes que nunca tiveram contacto auditivo com estas gravações, pelo que esta possibilidade de descoberta e fruição se pode considerar verdadeiro serviço público.
À laia de preâmbulo, e igualmente com música de Luís Cília, deixamos o poema "Lamento de Luís de Camões na morte de António, seu escravo", da autoria de Eugénio de Andrade, nas vozes de Mário Viegas (recitação) e de Luís Cília (canto).

Neste 10 de Junho, o que vem fazendo (está a fazer) a rádio pública em celebração do Poeta maior da língua portuguesa? Andámos a fazer 'zapping' entre as três antenas nacionais e apenas lográmos ouvir na Antena 2, pela mão de Gabriela Canavilhas, no programa "O Ar do Tempo" [>> RTP-Play], uma versão de "Na Fonte Está Lianor", na voz de Jennifer Smith, acompanhada ao alaúde por Manuel Morais, que faz parte do CD "Saudade, Amor e Morte: Cancioneiros Ibéricos dos Séculos XVI e XVII (Philips, 1998). O poema é diferente do que foi cantado por José Afonso e não é garantido que seja de Camões pois não aparece na generalidade das edições da Lírica, mas admitamos que sim. Assim sendo, aquele espécime foi a minúscula ilha poético-musical no imenso mar de silêncio a que o Poeta foi votado. E se o silêncio imperou até agora, que são 21:45, não é de crer que o deplorável panorama se modifique durante o curto período que falta para a meia-noite.
Na Antena 2, devem ter-se esquecido, decerto, de que existem, gravadas em disco, abundantes canções sobre poemas de Camões, saídas do punho de compositores tão importantes como Luís de Freitas Branco, Joly Braga Santos e Fernando Lopes-Graça. Isto, sem referir obras evocativas de grande fôlego como é o caso do "Requiem à Memória de Camões", de João Domingos Bomtempo, e da "Sinfonia à Pátria", de José Vianna da Motta.
Na Antena 1, e sem prejuízo da transmissão de poemas ditos/recitados (coisa que as Antenas 2 e 3 também podiam e deviam fazer), já não seria mau se, ao menos no Dia de Camões, a oferta musical da 'playlist' fosse constituída somente por canções baseadas em poemas do genial Vate e de outros autores portugueses. Mas não! Nada! Apenas as mesmíssimas imundícies sonoras (exógenas e endógenas) que rodam nos demais 364 dias do ano. Absolutamente vergonhoso!
Meu caro Luís Vaz, foste grande demais para um país tão rasteiro, que não soube merecer-te em vida e continua a matar a tua memória a cada momento que passa, mesmo no dia que escolheu para te honrar. Citando Sophia, «Este país te mata lentamente».



Lamento de Luís de Camões na morte de António, seu escravo



Poema: Eugénio de Andrade (27-12-1979, de "Escrita da Terra / Epitáfios", in "Poesia e Prosa", Vol. I, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1980; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 242)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* com Mário Viegas (in LP "Marginal", Diapasão/Sassetti, 1981)


         ...viveu em tanta pobreza, que se não tivera
         um jau, chamado António, que da Índia trouxe,
         que de noite pedia esmola para o ajudar a
         sustentar, não pudera aturar a vida. Como se
         viu, tanto que o jau morreu, não durará ele
         muitos meses.
                                    PEDRO DE MARIZ


Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

— eu vi a terra limpa no teu rosto,
só no teu rosto e nunca em mais nenhum.


* [créditos gerais do disco:]
Luís Cília – voz e viola
Mário Viegas – voz (em
António Serafim – oboé
Filomena Cardoso – violino
Teresa Ribeiro – violeta
João Neves – violoncelo
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Pedro Osório – acordeão e sintetizador
Pedro Casaes – contrabaixo
Direcção musical – Luís Cília
Gravado nos Estúdios Musicorde, Lisboa, em Agosto de 1981
Técnico de som – Rui Remígio



Se de Saudade



Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 782-783)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", Moshé-Naïm, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", EMEN, 1996)


          MOTE ALHEIO

Saudade minha,
quando vos veria?

          VOLTAS

Este tempo vão,
esta vida escassa,
pera todos passa,
só pera mim não.
Os dias se vão
sem ver este dia
quando vos veria.

Vede esta mudança
se está bem perdida
em tão curta vida
tão longa esperança!
Se este bem se alcança,
tudo sofreria,
quando vos veria.

Saudosa dor,
eu bem vos entendo;
mas não me defendo,
porque ofendo Amor.
Se fôsseis maior,
em maior valia
vos estimaria.

Minha saudade,
caro penhor meu,
a quem direi eu
tamanha verdade?
Na minha vontade,
de noite e de dia
sempre vos teria.


* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris



CANÇÃO VIII



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Tomei a triste pena
já de desesperado
de vos lembrar as muitas que padeço,
com ver que me condena
a ficar eu culpado
o mal que me tratais e o que mereço.
Confesso que conheço
que, em parte, eu causei
o mal em que me vejo,
pois sempre meu desejo
tão comprido, em vós cumprir deixei;
mas não tive suspeita
que seguísseis tenção tão imperfeita.

Se em vosso esquecimento
tão envolto estou
como os sinais demonstram, que mostrais;
vivo neste tormento,
lembranças mais não dou
que a que de razão tomar queirais:
olhai que me tratais
assi de dia em dia
com vossas esquivanças;
e as vossas esperanças,
de que, vãmente, eu me enriquecia,
renovam a memória;
pois com tê-la de vós, só tenho glória.

E se isto conhecêsseis
que é verdade pura
como ouro de Arábia reluzente,
inda que não quisésseis,
a condição tão dura
mudáreis noutra muito diferente.
E eu, como inocente
que estou neste caso,
isto em mãos pusera
de quem sentença dera
que ficasse o direito justo e raso,
se não arreceara
que a vós por mim, e a mim por vós matara.

Em vós escrita vi
vossa grande dureza,
e n'alma escrita está que de vós vive;
não que acabasse ali
sua grande firmeza
o triste desengano que então tive;
porque antes que a dor prive
de todos meus sentidos,
ao grande tormento
acode o entendimento
com dous fortes soldados, guarnecidos
de rica pedraria,
que ficam sendo minha luz e guia.

Destes acompanhado,
estou posto sem medo
a tudo o que o fatal destino ordene;
pode ser que, cansado,
ou seja tarde, ou cedo,
com pena de penar-me, me despene.
E quando me condene
(que isto é o que espero)
inda a maiores dores,
perdidos os temores,
por mais que venha, não direi: não quero.
Contudo estou tão forte
que nem me mudará a mesma morte.

Canção, se já não queres
ver tanta crueldade,
lá vás onde verás minha verdade.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Quem Ora Soubesse



Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 771-772)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", Moshé-Naïm, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", EMEN, 1996)


          MOTE

Quem ora soubesse
onde o Amor nasce,
que o semeasse!

          VOLTAS

D'Amor e seus danos
me fiz lavrador;
semeava amor
e colhia enganos.
Não vi, em meus anos,
homem que apanhasse
o que semeasse.

Vi terra florida
de lindos abrolhos:
lindos pera os olhos,
duros pera a vida.
Mas a rês perdida
que tal erva pasce
em forte hora nasce.

Conquanto perdi,
trabalhava em vão:
se semeei grão,
grande dor colhi.
Amor nunca vi
que muito durasse,
que não magoasse.


* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris



CANÇÃO IX



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Junto de um seco, fero e estéril monte,
inútil e despido, calvo, informe,
da natureza em tudo aborrecido,
onde nem ave voa, ou fera dorme,
nem rio claro corre, ou ferve fonte,
nem verde ramo faz doce ruído;
cujo nome, do vulgo introduzido,
é Félix, por antífrase, infelice;
o qual a Natureza
situou junto à parte
onde um braço de mar alto reparte
Abássia da arábica aspereza,
onde fundada já foi Berenice,
ficando à parte donde
o Sol que nele ferve se lhe esconde;

nele aparece o Cabo com que a costa
Africana, que vem do Austro correndo,
limite faz, Arómata chamado
(Arómata outro tempo; que, volvendo
os céus, a ruda língua mal composta
dos próprios outro nome lhe tem dado).
Aqui, no mar que quer apressurado
entrar pela garganta deste braço,
me trouxe um tempo e teve
minha fera ventura.
Aqui, nesta remota, áspera e dura
parte do mundo, quis que a vida breve
também de si deixasse um breve espaço,
por que ficasse a vida
pelo mundo em pedaços repartida.

Aqui me achei gastando uns tristes dias,
tristes, forçados, maus e solitários,
trabalhosos, de dor e de ira cheios,
não tendo tão-somente por contrários
a vida, o sal ardente e águas frias,
os ares grossos, férvidos e feios;
mas os meus pensamentos, que são meios
para enganar a própria Natureza,
também vi contra mi,
trazendo-me à memória
algũa já passada e breve glória,
que eu já no mundo vi, quando vivi,
por me dobrar dos males a aspereza,
por me mostrar que havia
no mundo muitas horas de alegria.

Aqui estive eu co estes pensamentos
gastando o tempo e a vida; os quais tão alto
me subiam nas asas que caía
— e vede se seria leve o salto! —
de sonhados e vãos contentamentos
em desesperação de ver um dia.
Aqui o imaginar se convertia
num súbito chorar e nuns suspiros,
que rompiam os ares.
Aqui, a alma cativa,
chagada toda, estava em carne viva,
de dores rodeada e de pesares,
desamparada e descoberta aos tiros
da soberba Fortuna:
soberba, inexorável e importuna.

Não tinha parte donde se deitasse,
nem esperança algũa onde a cabeça
um pouco reclinasse, por descanso.
Todo lhe é dor e causa que padeça,
mas que pereça não, por que passasse
o que quis o Destino nunca manso.
Oh! que este irado mar, gritando, amanso!
Estes ventos da voz importunados,
parece que se enfreiam!
Somente o Céu severo,
as Estrelas e o Fado sempre fero
com meu perpétuo dano se recreiam,
mostrando-se potentes e indignados
contra um corpo terreno,
bicho da terra vil e tão pequeno.

Se de tantos trabalhos só tirasse
saber inda por certo que algũa hora
lembrava a uns claros olhos que já vi;
e se esta triste voz, rompendo fora,
as orelhas angélicas tocasse
daquela em cujo riso já vivi;
a qual, tornada um pouco sobre si,
revolvendo na mente pressurosa
os tempos já passados
de meus doces errores,
de meus suaves males e furores,
por ela padecidos e buscados,
tornada — inda que tarde — piadosa,
um pouco lhe pesasse
e consigo por dura se julgasse;

isto só que soubesse, me seria
descanso para a vida que me fica;
co isto afagaria o sofrimento.
Ah! Senhora, Senhora, que tão rica
estais que, cá tão longe, de alegria
me sustentais cum doce fingimento!
Em vos afigurando o pensamento,
foge todo o trabalho e toda a pena.
Só com vossas lembranças
me acho seguro e forte
contra o rosto feroz da fera Morte,
e logo se me ajuntam esperanças
com que a fronte, tornada mais serena,
torna os tormentos graves
em saudades brandas e suaves.

Aqui co eles fico, perguntando
aos ventos amorosos, que respiram
da parte donde estais, por vós, Senhora;
às aves que ali voam, se vos viram,
que fazíeis, que estáveis praticando,
onde, como, com quem, que dia e que hora.
Ali a vida cansada, que melhora,
toma novos espritos, com que vença
a Fortuna e Trabalho,
só por tornar a ver-vos,
só por ir a servir-vos e querer-vos.
Diz-me o Tempo que a tudo dará talho;
mas o Desejo ardente, que detença
nunca sofreu, sem tento
me abre as chagas de novo ao sofrimento.

Assi vivo; e se alguém te perguntasse,
Canção, como não mouro,
podes-lhe responder que porque mouro.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Se me Levam Águas



Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 772-773)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", Moshé-Naïm, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", EMEN, 1996)


          MOTE ALHEIO

Se me levam águas,
nos olhos as levo.

          VOLTAS

Se de saudade
morrerei ou não,
meus olhos dirão
de mim a verdade.
Por eles me atrevo
a lançar as águas
que mostrem as mágoas
que nesta alma levo.

As águas que em vão
me fazem chorar,
se elas são do mar
estas de amor são.
Por elas relevo
todas minhas mágoas;
que, se força de águas
me leva, eu as levo.

Todas me entristecem,
todas são salgadas;
porém as choradas
doces me parecem.
Correi, doces águas,
que, se em vós me enlevo,
não doem as mágoas
que no peito levo.


* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris



CANÇÃO X



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Vinde cá, meu tão certo secretário
dos queixumes que sempre ando fazendo,
papel, com que a pena desafogo!
As sem-razões digamos que, vivendo,
me faz o inexorável e contrário
Destino, surdo a lágrimas e a rogo.
Deitemos água pouca em muito fogo;
acenda-se com gritos um tormento
que a todas as memórias seja estranho.
Digamos mal tamanho
a Deus, ao mundo, à gente e, enfim, ao vento,
a quem já muitas vezes o contei,
tanto debalde como o conto agora;
mas, já que para errores fui nacido,
vir este a ser um deles não duvido.
Que, pois já de acertar estou tão fora,
não me culpem também, se nisto errei.
Sequer este refúgio só terei:
falar e errar sem culpa, livremente.
Triste quem de tão pouco está contente!

Já me desenganei que de queixar-me
não se alcança remédio; mas quem pena,
forçado lhe é gritar se a dor é grande.
Gritarei; mas é débil e pequena
a voz para poder desabafar-me,
porque nem com gritar a dor se abrande.
Quem me dará sequer que fora mande
lágrimas e suspiros infinitos
iguais ao mal que dentro n'alma mora?
Mas quem pode algũa hora
medir o mal com lágrimas ou gritos?
Enfim, direi aquilo que me ensinam
a ira, a mágoa, e delas a lembrança,
que é outra dor por si, mais dura e firme.
Chegai, desesperados, para ouvir-me,
e fujam os que vivem de esperança
ou aqueles que nela se imaginam,
porque Amor e Fortuna determinam
de lhe darem poder para entenderem,
à medida dos males que tiverem.

Quando vim da materna sepultura
de novo ao mundo, logo me fizeram
Estrelas infelices obrigado;
com ter livre alvedrio, mo não deram,
que eu conheci mil vezes na ventura
o melhor, e o pior segui, forçado.
E, para que o tormento conformado
me dessem com a idade, quando abrisse
inda menino, os olhos, brandamente,
mandam que, diligente,
um Menino sem olhos me ferisse.
As lágrimas da infância já manavam
com ũa saudade namorada:
o som dos gritos, que no berço dava,
já como de suspiros me soava.
Co a idade e Fado estava concertado;
porque quando, por caso, me embalavam,
se versos de Amor tristes me cantavam,
logo me adormecia a natureza,
que tão conforme estava co a tristeza.

Foi minha ama ũa fera, que o destino
não quis que mulher fosse a que tivesse
tal nome para mim; nem a haveria.
Assi criado fui, porque bebesse
o veneno amoroso, de menino,
que na maior idade beberia,
e, por costume, não me mataria.
Logo então vi a imagem e semelhança
daquela humana fera tão fermosa,
suave e venenosa,
que me criou aos peitos da esperança;
de que eu vi despois o original,
que de todos os grandes desatinos
faz a culpa soberba e soberana.
Parece-me que tinha forma humana,
mas cintilava espíritos divinos.
Um meneio e presença tinha tal
que se vangloriava todo o mal
na vista dela; a sombra, co a viveza,
excedia o poder da Natureza.

Não sei como sabia estar roubando
cos raios das entranhas, que fugiam
por ela, pelos olhos sutilmente!
Pouco a pouco invencíveis me saíam,
bem como do véu húmido exalando
está o sutil humor o Sol ardente.
Enfim, o gesto puro e transparente,
para quem fica baixo e sem valia
deste nome de belo e de fermoso;
o doce e piadoso
mover de olhos, que as almas suspendia
foram as ervas mágicas, que o Céu
me fez beber; as quais, por longos anos,
noutro ser me tiveram transformado,
e tão contente de me ver trocado
que as mágoas enganava cos enganos;
e diante dos olhos punha o véu
que me encobrisse o mal, que assi creceu,
como quem com afagos se criava
daquele para quem crecido estava.

Que género tão novo de tormento
teve Amor, que não fosse, não somente
provado em mim, mas todo executado?
Implacáveis durezas, que o fervente
desejo, que dá força ao pensamento,
tinham de seu propósito abalado,
e de se ver, corrido e injuriado;
aqui, sombras fantásticas, trazidas
de algũas temerárias esperanças;
as bem-aventuranças
nelas também pintadas e fingidas;
mas a dor do desprezo recebido,
que a fantasia me desatinava,
estes enganos punha em desconcerto;
aqui, o adevinhar e o ter por certo
que era verdade quanto adevinhava,
e logo o desdizer-se, de corrido;
dar às cousas que via outro sentido,
e para tudo, enfim, buscar razões;
mas eram muitas mais as sem-razões.

Pois quem pode pintar a vida ausente,
com um descontentar-me quanto via,
e aquele estar tão longe donde estava;
o falar, sem saber o que dezia;
andar, sem ver por onde, e juntamente
suspirar sem saber que suspirava?
Pois quando aquele mal me atormentava
e aquela dor que das Tartáreas águas
saiu ao mundo, e mais que todas dói,
que tantas vezes soe
duras iras tornar em brandas mágoas;
agora, co furor da mágoa irado,
querer e não querer deixar de amar,
e mudar noutra parte por vingança
o desejo privado de esperança,
que tão mal se podia já mudar;
agora, a saudade do passado
tormento, puro, doce e magoado,
fazia converter estes furores
em magoadas lágrimas de amores.

Que desculpas comigo que buscava
quando o suave Amor me não sofria
culpa na cousa amada, e tão amada!
Enfim, eram remédios que fingia
o medo do tormento que ensinava
a vida a sustentar-se, de enganada.
Nisto ũa parte dela foi passada,
na qual se tive algum contentamento
breve, imperfeito, tímido, indecente,
não foi senão semente
de longo e amaríssimo tormento.
Este curso contino de tristeza,
estes passos tão vãmente espalhados,
me foram apagando o ardente gosto
que tão de siso n'alma tinha posto,
daqueles pensamentos namorados
em que eu criei a tenra natureza,
que do longo costume da aspereza,
contra quem força humana não resiste,
se converteu no gosto de ser triste.

Dest'arte a vida noutra fui trocando;
eu não, mas o destino fero, irado,
que eu ainda assi por outra não trocara.
Fez-me deixar o pátrio ninho amado,
passando o longo mar, que ameaçando
tantas vezes me esteve a vida cara.
Agora, exprimentando a fúria rara
de Marte, que cos olhos quis que logo
visse e tocasse o acerbo fruto seu
(e neste escudo meu
a pintura verão do infesto fogo);
agora, peregrino vago e errante,
vendo nações, linguagens e costumes,
Céus vários, qualidades diferentes,
só por seguir com passos diligentes
a ti, Fortuna injusta, que consumes
as idades, levando-lhe diante
ũa esperança em vista de diamante,
mas quando das mãos cai se conhece
que é frágil vidro aquilo que aparece.

A piadade humana me faltava,
a gente amiga já contrária via,
no primeiro perigo; e, no segundo,
terra em que pôr os pés me falecia,
ar para respirar se me negava,
e faltavam-me, enfim, o tempo e o mundo.
Que segredo tão árduo e tão profundo:
nacer para viver, e para a vida
faltar-me quanto o mundo tem para ela!
E não poder perdê-la,
estando tantas vezes já perdida!
Enfim, não houve transe de fortuna,
nem perigos, nem casos duvidosos,
injustiças daqueles, que o confuso
regimento do mundo, antigo abuso,
faz sobre os outros homens poderosos,
que eu não passasse, atado à grã coluna
do sofrimento meu, que a importuna
perseguição de males em pedaços
mil vezes fez, à força de seus braços.

Não conto tanto males como aquele
que, despois da tormenta procelosa,
os casos dela conta em porto ledo;
que inda agora a Fortuna flutuosa
a tamanhas misérias me compele,
que de dar um só passo tenho medo.
Já de mal que me venha não me arredo,
nem bem que me faleça já pretendo,
que para mim não vale astúcia humana;
de força soberana,
da Providência, enfim, divina, pendo.
Isto que cuido e vejo, às vezes tomo
para consolação de tantos danos.
Mas a fraqueza humana, quando lança
os olhos no que corre, e não alcança
senão memória dos passados anos,
as águas que então bebo, e o pão que como,
lágrimas tristes são, que eu nunca domo
senão com fabricar na fantasia
fantásticas pinturas de alegria.

Que se possível fosse, que tornasse
o tempo para trás, como a memória,
pelos vestígios da primeira idade,
e de novo tecendo a antiga história
de meus doces errores, me levasse
pelas flores que vi da mocidade;
e a lembrança da longa saudade
então fosse maior contentamento,
vendo a conversação leda e suave,
onde ũa e outra chave
esteve de meu novo pensamento,
os campos, as passadas, os sinais,
a fermosura, os olhos, a brandura,
a graça, a mansidão, a cortesia,
a sincera amizade, que desvia
toda a baixa tenção, terrena, impura,
como a qual outra algũa não vi mais...
Ah! vãs memórias, onde me levais
o fraco coração, que ainda não posso
domar este tão vão desejo vosso?

Nõ mais, Canção, nõ mais; que irei falando,
sem o sentir, mil anos. E se acaso
te culparem de larga e de pesada,
não pode ser (lhe dize) limitada
a água do mar em tão pequeno vaso.
Nem eu delicadezas vou cantando
co gosto do louvor, mas explicando
puras verdades já por mim passadas.
Oxalá foram fábulas sonhadas!


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Babel e Sião



Poema (trova em redondilha maior): Luís de Camões (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", Moshé-Naïm, 1967)


[instrumental]

Canta o caminhante ledo
no caminho trabalhoso,
por entre o espesso arvoredo;
e, de noite, o temeroso,
cantando, refreia o medo. [bis]

Canta o preso docemente,
os duros grilhões cantando;
canta o segador contente;
e o trabalhador, cantando,
o trabalho menos sente. [bis]

Como poderá cantar
quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu só descansos enjeito. [bis]

Canta o preso docemente,
os duros grilhões cantando;
canta o segador contente;
e o trabalhador, cantando,
o trabalho menos sente. [bis]

[instrumental]


* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris



Sôbolos rios que vão

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 711-721)


Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
onde sentado chorei
as lembranças de Sião,
e quanto nela passei.

Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado;
e tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

Ali, lembranças contentes
na alma se representam;
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes,
como se nunca passaram.

Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.

E vi que todos os danos
se causavam das mudanças,
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.

Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura;
o mal quão depressa vem;
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.

Vi aquilo que mais val
que então se entende milhor
quando mais perdido for;
vi ao bem suceder mal,
e ao mal muito pior.

E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento;
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.

Bem são rios estas águas
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.

Como homem que, por exemplo
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou;

assi, despois que assentei
que tudo a tempo gastava,
da tristeza que tomei,
nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.

Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: — «Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.

Frauta minha que, tangendo
os montes fazíeis vir
para onde estáveis, correndo;
e as águas, que iam descendo,
tornavam logo a subir;

jamais vos não ouvirão
os tigres, que se amansavam;
e as ovelhas, que pastavam,
das ervas se fartarão
que por vos ouvir deixavam.

Já não fareis docemente
em rosas tornar abrolhos
na ribeira florescente;
nem poreis freio à corrente,
e mais, se for dos meus olhos.

Não movereis a espessura,
nem podereis já trazer
atrás vós a fonte pura,
pois não pudestes mover
desconcertos da ventura.

Ficareis oferecida
à Fama que sempre vela,
frauta de mim tão querida;
porque, mudando-se a vida,
se mudam os gostos dela.»

Acha a tenra mocidade
prazeres acomodados,
e logo a maior idade
já sente por pouquidade
aqueles gostos passados.

Um gosto que hoje se alcança,
amanhã já o não vejo;
assi nos traz a mudança
de esperança em esperança,
e de desejo em desejo.

Mas em vida tão escassa
que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte,
que, quanto da vida passa,
está receitando a morte!

Mas deixar nesta espessura
o canto da mocidade,
não cuide a gente futura
que será obra da idade
o que é força da ventura.

Que idade, tempo, o espanto
de ver quão ligeiro passe,
nunca em mim puderam tanto
que, posto que deixe o canto,
a causa dele deixasse.

Mas em tristezas e enojos,
em gosto e contentamento,
por sol, por neve, por vento,
terné presente à los ojos
por quien muero tan contento.

Órgãos e frauta deixava,
despojo meu tão querido,
no salgueiro que ali estava,
que para troféu ficava
de quem me tinha vencido.

Mas lembranças de afeição
que ali cativo me tinha,
me perguntaram então
que era da música minha
que eu cantava em Sião?

Que foi daquele cantar,
das gentes tão celebrado?
Porque o deixava de usar,
pois sempre ajuda passar
qualquer trabalho passado?

Canta o caminhante ledo
no caminho trabalhoso,
por entre o espesso arvoredo;
e, de noite, o temeroso,
cantando, refreia o medo.

Canta o preso docemente,
os duros grilhões tocando;
canta o segador contente;
e o trabalhador, cantando,
o trabalho menos sente.

Eu, que estas cousas senti
na alma, de mágoas tão cheia,
como dirá, respondi,
quem tão alheio está de si
doce canto em terra alheia?

Como poderá cantar
quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu só descansos enjeito.

Que não parece razão
nem seria cousa idónea,
por abrandar a paixão,
que cantasse em Babilónia
as cantigas de Sião.

Que, quando a muita graveza
da saudade quebrante
esta vital fortaleza,
antes moura de tristeza
que, por abrandá-la, cante.

Que se o fino pensamento
só na tristeza consiste,
não tenho medo ao tormento:
que morrer de puro triste,
que maior contentamento?

Nem na frauta cantarei
o que passo, e passei já,
nem menos o escreverei,
porque a pena cansará,
e eu não descansarei.

Que, se vida tão pequena
se acrecenta em terra estranha;
e se Amor assim o ordena,
razão é que canse a pena
de escrever pena tamanha.

Porém se, pera assentar
o que sente o coração,
a pena já me cansar,
não canse para voar
a memória em Sião.

Terra bem-aventurada,
se, por algum movimento
da alma me fores mudada,
minha pena seja dada
a perpétuo esquecimento.

A pena deste desterro,
que eu mais desejo esculpida
em pedra ou em duro ferro,
essa nunca seja ouvida,
em castigo de meu erro.

E se eu cantar quiser,
em Babilónia sujeito,
Hierusalém, sem te ver,
a voz, quando a mover,
se me congele no peito.

A minha língua se apegue
às fauces, pois te perdi,
se, enquanto viver assi,
houver tempo em que te negue
ou que me esqueça de ti.

Mas ó tu, terra de Glória,
se eu nunca vi tua essência,
como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
senão na reminiscência.

Que a alma é tábua rasa,
que, com a escrita doutrina
celeste, tanto imagina,
que voa da própria casa
e sobre à Pátria divina.

Não é, logo, a saudade
das terras onde naceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa Cidade
donde esta alma descendeu.

E aquela humana figura,
que cá me pode alterar,
não é quem se há-de buscar:
é raio de Fermosura,
que só se deve de amar.

Que os olhos e a luz que ateia
o fogo que cá sujeita,
não do Sol, nem da candeia,
é sombra daquela Ideia,
que em Deus está mais perfeita.

E os que cá me cativaram,
são poderosos afeitos
que os corações tem sujeitos;
sofistas que me ensinaram
maus caminhos por direitos.

Destes o manto tirano
me obriga, com desatino,
a cantar, ao som do dano,
cantares de amor profano
por versos de amor divino.

Mas eu, lustrado co santo
Raio, na terra de dor,
de confusão e de espanto,
como hei-de cantar o canto
que se deve ao Senhor?

Tanto pode o benefício
da Graça que dá saúde,
que ordena que a vida mude;
e o que eu tomei por vício
me faz grau pera a virtude;

e faz que este natural
amor, que tanto se preza,
suba da sombra ao Real,
da particular beleza
para a Beleza geral.

Fique logo pendurada
a frauta com que tangi,
ó Hierusalém sagrada,
e tome a lira dourada
para só cantar de ti.

Não cativo e ferrolhado
na Babilónia infernal,
mas dos vícios desatado,
e cá desta a ti levado,
Pátria minha natural.

E se eu mais der a cerviz
a mundanos acidentes,
duros, tiranos e urgentes,
risque-se quanto já fiz
do grão livro dos viventes.

E, tomando já na mão
a lira santa, e capaz
doutra mais alta invenção,
cale-se esta confusão,
cante-se a visão de paz.

Ouça-me o pastor e o rei,
retumbe este acento santo,
mova-se no mundo espanto,
que do que já mal cantei
a palinódia já canto.

A vós só me quero ir,
Senhor e grão Capitão
da alta torre de Sião,
à qual não posso subir
se me vós não dais a mão.

No grão dia singular
que na lira o douto som
Hierusalém celebrar,
lembrai-vos de castigar
os ruins filhos de Edom.

Aqueles que tintos vão
no nobre sangue inocente,
soberbos co poder vão,
arrasá-los igualmente,
conheçam que humanos são.

E aquele poder tão duro
dos afeitos com que venho,
que encendem alma e engenho,
que já me entraram o muro
do livre alvidrio que tenho;

estes, que tão furiosos
gritando vêm a escalar-me,
maus espíritos danosos,
que querem como forçosos
do alicerce derrubar-me;

derrubai-os, fiquem sós,
de forças fracos, imbeles,
porque não podemos nós
nem com eles ir a Vós,
nem sem Vós tirar-nos deles.

Não basta minha fraqueza
para me dar defensão,
se Vós, santo Capitão,
nesta minha fortaleza
não puserdes guarnição.

E tu, ó carne que encantas,
filha de Babel tão feia,
toda de misérias cheia,
que mil vezes te levantas
contra quem te senhoreia:

beato só pode ser
quem co a ajuda celeste
contra ti prevalecer,
e te vier a fazer
o mal que lhe tu fizeste;

quem com disciplina crua
se fere mais que ũa vez,
cuja alma, de vícios nua,
faz nódoas na carne sua,
que já a carne na alma fez.

E beato quem tomar
seus pensamentos recentes
e, em nacendo, os afogar,
por não virem a parar
em vícios graves e urgentes;

quem com eles logo der
na pedra do furor santo,
e, batendo, os desfizer
na Pedra, que veio a ser
enfim cabeça do Canto;

quem logo, quando imagina
nos vícios da carne má,
os pensamentos declina
àquela Carne divina
que na Cruz esteve já;

quem do vil contentamento
cá deste mundo visível,
quanto ao homem for possível,
passar logo o entendimento
para o mundo inteligível:

ali achará alegria,
em tudo perfeita e cheia
de tão suave harmonia
que, nem por pouca, recreia,
nem, por sobeja, enfastia;

ali verá tão profundo
mistério na Suma Alteza,
que, vencida a natureza,
os mores faustos do mundo
julgue por maior baixeza.

Ó tu, divino aposento,
minha Pátria singular,
se só com te imaginar,
tanto sobe o entendimento,
que fará se em ti se achar?

Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tão justo e tão penitente,
que, despois de a ti subir
lá descanse eternamente.



Alma minha gentil, que te partiste



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", Moshé-Naïm, 1967)


Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.


Nota:
No manuscrito da "Década VIII", atribuído a Diogo do Couto, lê-se: «Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas "Lusíadas", como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: "Alma minha gentil, que te partiste...»

* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris
URL: http://www.luiscilia.com/



Capa do LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", de Luís Cília (Moshé-Naïm, 1967).
Fotografia – Ludwik Lewin.
Concepção – Henri Matchavariani.



Capa da antologia em CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", de Luís Cília (EMEN, 1996).



Capa do CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra" (Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995).
Concepção – Cristina Reis.

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