25 abril 2015

Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde": "Grândola, Vila Morena"



Quando José Afonso, no Outono de 1971, esteve em Paris a gravar o álbum "Cantigas do Maio", se tivesse à mão um grupo coral alentejano muito provavelmente o teria convidado para participar na gravação de "Grândola, Vila Morena". E quatro anos depois, o Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde" teve a feliz ideia de a gravar no seu primeiro disco, de título genérico "Castro Verde É Nossa Terra". É essa magnífica versão, da qual a melodia e as palavras de José Afonso emanam com uma força que até arrepia, que aqui apresentamos no 41.º aniversário do 25 de Abril, o primeiro depois do reconhecimento do cante como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Afigura-se pertinente voltar a apontar o dedo à rádio do Estado pela reduzidíssima visibilidade (ou audibilidade, melhor dizendo) que continua a dar ao canto alentejano, decorridos que são cinco meses sobre a data da consagração pela UNESCO [cf. O canto alentejano é património da Humanidade]. É verdade que, de vez em quando, o cante entra nos exíguos "Cantos da Casa" (sendo de enaltecer os cuidados do seu realizador, Armando Carvalhêda), mas isso representa uma quantidade infinitesimal no cômputo geral da programação. Quem, por imperativos profissionais ou outros, não esteve sintonizado na Antena 1 àquele preciso momento, perdeu a oportunidade de ouvir cante nas ondas hertzianas nacionais. E quem diz "cante", diz outros tipos de música tradicional portuguesa – atitude essa que não pode, de maneira alguma, considerar-se razoável na estação de serviço público, que tem a obrigação de divulgar com a necessária e cabal consistência o património musical do país. Nos antípodas, com tratamento de privilégio, está a produção pop de baixo quilate, deixando transparecer a ideia de que é essa a música oficial do regime político vigente. Uma situação em tudo equiparável – acrescente-se – à do nacional-cançonetismo na Emissora Nacional, a antepassada da Antena 1. Quem disse que o dirigismo do gosto é exclusivo dos regimes totalitários?



Grândola, Vila Morena



Letra e música: José Afonso
Intérprete: Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde"* (in LP "Castro Verde É Nossa Terra", Valentim de Carvalho, 1975; 2CD "Terra: Antologia 1972-2006": CD1, Associação de Cante Alentejano "Os Ganhões", 2006)


Grândola, vila morena
Terra da fraternidade 
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade 
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade 
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola, a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade


Nota do autor: «Pequena homenagem à "Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense", onde actuei juntamente com Carlos Paredes.» (in "Cantares", de José Afonso, Tomar: Nova Realidade, 1966; 4.ª edição, Coimbra: Fora do Texto, 1995)

* Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde"
Ponto – Mário Braz Pinto
Alto – Sílvio Afilhado
URL: http://ganhoescastroverde.com.pt/
https://www.facebook.com/pages/Associação-de-Cante-Alentejano-os-Ganhões-de-Castro-Verde/421469524614637
http://www.joraga.net/gruposcorais/pags00/032CVerdeGanhoes.htm





Grândola: Monumento a José Afonso – inaugurado a 23-Abril-1999 (escultura da autoria de António Trindade)







Grândola: Monumento comemorativo do 25.º aniversário do 25 de Abril – inaugurado a 24-Abril-1999 (autoria de Bartolomeu dos Santos)



Grândola: Monumento à Liberdade – inaugurado a 25-Abril-1999 (escultura em ferro da autoria de Jorge Vieira)

23 abril 2015

Em memória de Herberto Helder (1930-2015)



A obscura luminosidade

"Do tamanho das mãos faço-lhes o poema da minha vida, agudo e espesso [...] / o movimento que imita a terra com seus elementos, sem / ministérios do tempo, a aguarrás, o sal grosso, a tinta das rosas / – e é tudo quanto se pode aprender até que a noite venha
e desfaça / a noite amarga" (Herberto Helder)
Se a poesia pode ser o estiramento, a ampliação ou a procura de uma plasticidade semântica das palavras em movimento; se a poesia, como diz Blanchot, lendo Mallarmé, pode, no movimento que instaura, ser a procura de um espaço que há entre as palavras e o lugar onde elas se projectam, então a poesia de Herberto Helder, no contexto da evolução das formas poéticas em Portugal na segunda metade do século XX e ainda início deste século, é a que mais longe terá levado as possibilidades de manipulação semântica da palavra.
O lugar onde a palavra de poesia herbertiana se projecta é, para além da página em branco (esse cosmos sempre a reconfigurar-se), um lugar outro, transformado e transformante, onde o verbo parece inexistir, ou estar a um passo de explodir numa rede de significados tão radical quanto mortal. Dir-se-ia que o estiramento do sentido parece levar a poesia herbertiana a um rasgão, de tal modo a capacidade metafórica surpreende sentidos inauditos. O espaço poético do poeta é, por isso, o espaço reservado àquilo que já em Rimbaud era a epifania, a iluminação de um mundo dito nos interstícios de uma palavra sacral.
Por isso também o poema joga-se no próprio limite da sua linguagem: modificando-a, convertendo-a naquilo que ela, em princípio, não poderia significar: "[...] a laranja faz rodar os dedos, torna / leve, pelos dedos, / aquele que a levanta, e tão exacto gosto na língua / tão transbordante, / dói no fino frio do açúcar, / e a laranja levanta tudo: luz e dedos, e a pessoa / com a ferida na boca, o gosto / magoado até à pronúncia das expressões mais simples do idioma, / golpe a golpe, / como um estrangeiro brutal, / ou inexpugnável, / que faz ela? talha trémula, oh Deus! lavrada a pau de virgem e folha de ouro, / mete-lhe os polegares pelos umbigos, devora-a, celebra, embebeda-se, / que escola de laranja terrestre não pode mais que esta leveza".
Se os poemas de Herberto vêm dizer o que têm a dizer através de uma forma que só pode ser aquela – turbilhonante, labiríntica, desejante – o que eles dizem é o modo como a palavra pode ser, quando levada ao extremo da sua capacidade de sentido, não o signo verbal, acústico, mas uma espécie de som criador de imagens. Esclareça-se: imagens carnívoras, palpáveis, palavras-matéria-orgânica, de tão fulgurantes que são as cenas (quase as podemos tocar assim que a imaginação é convidada a associar o impossível) postas em andamento nesse universo em expansão que é a sua poesia toda. É essa a ruptura que Herberto Helder estabelece de forma definitiva ao publicar, em 1958, o seu primeiro livro, O Amor em Visita. O que neste livro acontece é o que não mais deixará de acontecer em todos os livros que irá publicar posteriormente: a imersão da experiência poética numa imersão, mais funda e vasta, no mundo em combustão da linguagem humana.
Ao sentenciar: "Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira / e a eternidade das mãos. / Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas / lâmpadas, todas as coisas. / As coisas que são só uma no plural dos nomes. / – E nós estamos dentro, subtis, e tensos / na música." (in As Musas Cegas), Herberto resolve um dos problemas que o surrealismo tinha colocado à poesia portuguesa, o da relação entre palavra nomeadora e a dimensão mágica da visão surrealista do real. Como nomear o denominável humano e o inominável divino de forma radical? Como superar, no regime da imagem, a mera evocação dos sonhos e das profecias, a simples retoricidade da alusão e do metafórico? Herberto, as magias de um verbo que dinamitasse o real do mundo humano, concretiza, na dicção, no ritmo e na esfera do significante esse problema: o poema, operação xamânica, e o poeta, visionário, podem nutrir esse real daquilo mesmo que, algures no tempo, esse real perdeu: a pureza de uma gramática incorruptível. Essa incorruptibilidade levá-lo-á a libertar-se de um substrato surrealista, para conquistar territórios inexplorados da poesia em língua portuguesa.
Com efeito, um desses territórios ou lugares tinha sido deixado em aberto por Caeiro e por Rilke, poetas para quem o poema é uma vidência que torna evidente, desvelando, a aura dos objectos e dos seres. Que essa aura está longe, em Herberto Helder, do mais puro angelismo, isso fica comprovado quando o autor de Cobra nos vem falar da cegueira que causa a "carnagem sonora" do poema. É de carne que os textos de Herberto se pretendem tecer. Por isso também, ao longo do seu percurso, o texto é o poemacto que abre o dizer a uma gramática excessiva. Gramática, isto é, estilo, tessitura ou trama textual que articula as "circulações imprevistas" presentes na vida da linguagem, com aquilo que literalmente se pode referir (a laranja, por exemplo).
Daí que, numa obra que, eventualmente se poderia dividir em três fases, haja, em todo o caso, uma coerência para com esse impulso inicial que levou à escrita da poesia: cumprir, numa vida "subtil, unida e invisível", o fogo das imagens. Uma vida que, em termos práticos, se traduziu no afastamento de Herberto em relação à festa literária, rechaçando, repudiando, sem hipocrisia e encenação, prémios e consagrações. No limite, a vida de Herberto Helder foi, poeticamente, como quis Rimbaud, a procura de uma outra vida, devotada à limpidez gramatical de um dia-a-dia ferozmente tenso, esperando a loucura lúcida que a poesia promete.
Assim, podendo ser hermético, mas fiel à obscuridade iluminante, que é uma forma outra de compreensão do Aberto rilkeano e da lição de ver que Caeiro nos legou, há nos seus livros finais – A Faca Não Corta o Fogo (2008), Servidões (2013) e A Morte sem Mestre (2014) – uma absoluta urgência da poesia como "pensamento da linguagem", como bem viu Manuel Gusmão. Ao mesmo tempo procura-se, pensando o poema, fazer deflagrar, num combate titânico com as imagens, o mundo humano, pejado de servidões várias. Partindo de uma "ironia mansa" e de um pessoalíssimo surrealismo inicial, feito de anarquismo, a primeira fase da sua obra (de O Amor em Visita, de 58, a Vocação Animal, de 1971) caracteriza-se por essa inquietação poética em face do terrível mistério da criação, a mais alta: a materna criação dessas mães que levitam nos sonhos dos filhos. O poeta contempla num deslumbramento inominável "o sorriso louco das mães", tange a sua "harpa de sombra" e persegue o canto, como Orpheu, que possa encantar a noite, a morte, o inferno.
Uma segunda fase, que pode corresponder ao momento em que reúne, em 1973, Poesia Toda (inicialmente em dois volumes), traduz-se na procura de novas combinações entre linguagem encantatória e as fórmulas mágicas que reenviam a William Blake ou a Whitman e o fazem mudar para português – isto é, no português dele, Herberto – tradições poéticas diversas, ameríndias e outras, num sistema de vasos comunicantes que, de algum modo, acabam por nos levar aos próprios poemas desse oficiante da palavra que é o "poeta obscuro". Essa fase, quanto a nós, encontra em O Corpo o Luxo a Obra a sua mais alta expressão ("Também as mulheres se alumiam / pela abundância, / pela boca até ao fundo, o pêlo que salta / omoplatas, / mãos redondas, os borbotões / da seda / escoada. / / Estas / têm caras ascensionais, magnéticas. Inspira-as / o movimento dos quartos, a matriz / secreta / do ouro afundada entre / a vulva e o coração / a órbita / das laranjas em torno / da estaca / viva."), já pela poderosa fulguração imaginística, já pela montagem que melhor revela "o espírito enfático da magia" que coloca a sua obra nos antípodas de todos os "ismos" da segunda metade do século XX.
A terceira fase, que se pode iniciar com Última Ciência, de 1988, prolongando-se até ao volume de 2008, livro de ruptura aparente, A Faca Não Corta o Fogo, pauta-se por um erotismo ousado, mas temperado de forte carga mística, concentrando-se o poema numa espécie de compulsão da escrita centrada na pergunta que a anima e lhe dá sentido: "Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos?" Trata-se, aqui, de questionar como quem destrói: antropofagicamente, o poeta alimenta-se do que mata e, matando, renova-se. Uma outra pergunta, feita por essa caneta/escrita "dolorosa" convoca o demoníaco, considerando que uma realidade concebida demoniacamente teria de nos levar a perguntar ao Demónio se Deus existe.
Entre carnalidade, ritualismo místico, xamanismo e energia endemoninhada (a morte como mistério da vida), a fase final da poética de Herberto Helder, feita de um léxico ora quotidiano, concreto, ora abstracto, religioso, conglomera os volumes de 2008, 2013 e 2014. É a secreta verdade dos seres o que se procura apreender através de palavras que rompem com a obscuridade, literalizando, numa "língua plena", o que não pode mais adiar-se. Reveladora dos "selos"/sinais da sua íntima verdade de homem perante a morte, declara o poeta: "a morte tem uma doce habilidade doméstica / abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos". Nesses três livros à beira do fim, Herberto vê na morte o magistério da vida humana e a poesia, se tem lugar no tempo da redundância (o nosso tempo, o que vem depois da indigência que Hölderlin invectivou) acaba por ser um constante procurar "pôr a vida na sua oculta loucura". Podem esses três livros chocar por nos parecer Herberto um outro Herberto Helder... Nada mais errado: fazendo da obra, do Livro, o espelho dessa outra obra, a do Ser, os livros continuaram sendo o lugar da alquímica transmutação da palavra em acto.
Herberto Helder foi o poeta que teve da poesia a compreensão cosmogónica da sua natureza. Foi-lhe, por isso, possível escrever, como quem olhasse para si vendo-se já de longe, versos lapidares: "Este que chegou ao seu poema pelo / mais alto que os poemas têm / chegou ao sítio de acabar com o / mundo: não quero / para o enlevo, o erro, disse, / quero-o para a estrela plenária que / há nalguns sítios de alguns poemas / abruptos, sem autoria". Morrendo exactamente cem anos depois do primeiro número da revista Orpheu (foi a 24 de Março de 1915 que veio a público), com Herberto morre o século passado.

António Carlos Cortez (in "JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias", 01-Abr-2015, p. 7-8)


E o que fez a rádio de serviço público em homenagem a Herberto Helder [>> biografia/bibliografia no site da DGLAB e dossier no "Público"], na hora em que nos deixou? Começando pela Antena 2, há que enaltecer o cuidado de Luís Caetano ao realizar uma edição especial d' "A Ronda da Noite" [>> RTP-Play] totalmente preenchida com a poesia herbertiana intercalada com alguns dos mais belos trechos da música erudita. Um encanto! Não costumo ouvir o programa do início da manhã, "Império dos Sentidos", porque não suporto o estilo verborreico, mastigado e silabofágico de Paulo Alves Guerra, mas tenho notícia de ter passado alguns poemas de Herberto ditos pelo autor. Não obstante, mais se podia (e devia) fazer na antena cultural da RDP e uma coisa bem simples, mas de belo efeito, seria resgatarem do arquivo histórico os poemas herbertianos (mais de vinte) que Paulo Rato e Eugénia Bettencourt gravaram para o memorável apontamento "Os Sons Férteis" e transmitirem-nos ao longo do dia. Uma muito lamentável omissão da direcção de programas, portanto. Negligência essa que foi extensiva à Antena 1, que praticamente ignorou aquele que foi um dos maiores vultos da poesia portuguesa contemporânea. Não fosse o zelo de David Ferreira que dedicou a Herberto Helder duas edições da sua rubrica [>> RTP-Play: 26-Mar-2015 / 27-Mar-2015] e nem um verso do genial poeta se teria ouvido no canal de maior audiência da rádio do Estado. Como é possível?! Impunha-se, sem prejuízo de uma acção mais abrangente, que a ocasião fosse aproveitada para a inclusão na 'playlist' dos poemas musicados editados em disco – os dois integrantes do CD "Os Poetas: Entre Nós e as Palavras" mais os que foram gravados por Vitorino, Luís Portugal, Janita Salomé e Joana Machado. Mas nem essa simplicíssima medida foi tomada! Infelizmente, a incúria e a irresponsabilidade de Rui Pêgo voltaram a reinar, para prejuízo dos ouvintes e da cultura portuguesa. Enfim, mais um deplorável episódio a somar ao já longo historial de incompetência da criatura aos comandos da estação pública.
Não podendo pactuar com a inércia e o obscurantismo cultural, o blogue "A Nossa Rádio" faz o serviço público de apresentar um belo punhado de poemas de Herberto Helder – uns em voz própria, outros em voz alheia. 



O AMOR EM VISITA



Poema de Herberto Helder (in "O Amor em Visita", Sintra: Contraponto, 1958; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 18-25)
Recitado por Luís Gaspar* (2013) (in "Estúdio Raposa")


Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas —
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele — imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
— Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
— Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
— Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
— Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra — invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo —
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida — e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira — para que tudo cante
pelo teu poder fechado.

Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
É sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras 
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
— Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espirito,
boa será nossa carne presa e morosa.
— Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
— o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
— E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
— No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
— Eu devo rasgar minha face para que a tua face 
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
— aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
— no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável —
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água — e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.


* Produção – Luís Gaspar



O POEMA (I)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1981 – pág. 40)
Recitado por Luís Gaspar* (2014) (in "Estúdio Raposa")


                           I

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
— Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


* Produção – Luís Gaspar



O POEMA (VII)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 39-40)
Dito pelo autor* (in EP "Herberto Helder: Poesia Portuguesa", Philips 431 999 PE, 1970)




A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu 
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas das palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.

É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
— Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

— Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.

O poema dói-me, faz-me feliz
e trágico. O povo traz coisas para a sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.

— A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto se desfaz nos campos que se levantam
aos cumes da seiva.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.


* Produção – João Martins



FONTE (I)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 41-42)
Recitado por Luís Gaspar* (2009) (in "Estúdio Raposa")


                           I

Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo —
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.


* Produção – Luís Gaspar



FONTE (II)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 43-44)
Dito pelo autor* ("No sorriso louco das mães...", in CD "Os Poetas: Entre Nós e as Palavras", Columbia /Sony Music, 1997, 2013)
Música: Rodrigo Leão e Gabriel Gomes




                           II

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São 
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.


Nota: A gravação original (sem música) foi editada em 1970, num EP com selo Philips.

* [Créditos gerais do disco:]
Margarida Araújo – viola
Rodrigo Leão – sintetizadores
Gabriel Gomes – acordeão
Francisco Ribeiro – violoncelo e voz
Concepção do projecto – Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Manuel Hermínio Monteiro (Assírio & Alvim)
Produção – Gabriel Gomes e Rodrigo Leão
Recuperação e edição digital dos poemas – Carlos Jorge Vales 
Gravações e misturas – António Pinheiro da Silva e Paulo Abelho, nos estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
Assistência técnica – José Motor, Vasco, e Carlos Jorge Alves
Pós-produção – António Pinheiro da Silva e João Moura



FONTE (III)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 45-46)
Recitado por Luís Gaspar* (2009) (in "Estúdio Raposa")


                           III

Ó mãe violada pela noite, deposta, disposta
agora entre águas e silêncios.
Nada te acorda — nem as folhas dos ulmos,
nem os rios, nem os girassóis,
nem a paisagem arrebatada.
— Espero do tempo novo todos os milagres,
menos tu.

Corres somente no meu sangue memoriado
e sobes, carne das palavras outra vez
imperecíveis e virgens.
— Do tempo jovem espero o vinho e o pólen,
outras mãos mais puras
e mais sagazes,
e outro sexo, outra voz, outro gosto, outra virtude
inteligente.

— Espero cobrir-te novamente de júbilo, ó corola do canto.
Mas tu estarás mais branca com a boca selada
pelas pedras lisas.
E sei que terei o amor e o pão e a água
e o sangue e as palavras e os frutos.
Mas tu, ó rosa fria,
ó odre das vinhas antigas e limpas?

Do tempo novo espero
o sinal ardente e incorrupto,
mas levo os dedos ao teu nome prolongado,
ó cerrada mãe, levo
os dedos vazios —
e a tua morte cresce por eles totalmente.


* Produção – Luís Gaspar



FONTE (IV)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 47-48)
Recitado por Luís Gaspar* (2009) (in "Estúdio Raposa")


                           IV

Mal se empina a cabra com as patas traseiras
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.

E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apolo. 
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.

Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.

E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram — surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.

— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.


* Produção – Luís Gaspar



ELEGIA MÚLTIPLA (III)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 57-58)
Dito pelo autor* (in EP "Herberto Helder: Poesia Portuguesa", Philips 431 999 PE, 1970)




                           III

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.

Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisa puras.
Renascia.


* Produção – João Martins



Havia um homem



Poema: Herberto Helder (parte III de "Elegia Múltipla", in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 57-58)
Música e arranjo: Abe Rábade
Intérprete: Joana Machado* (in CD "Travessia dos Poetas, Rosapeixe", Nuba Records/Karonte, 2010)




Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.

Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisa puras.
Renascia.


* [Créditos gerais do disco:]
Joana Machado – voz
Abe Rábade – piano
Pablo Martín Camiñero – contrabaixo
Bruno Pedroso – bateria
Tiago Schwaebl – flauta
Hugo Queirós – clarinete
Elsa Roch – oboé, corne inglês
Pablo Pascual – clarinete baixo
Ana Cláudia Serrão – violoncelo
João Moreira – trompete, flügelhorn (fliscorne)
Jesús Santandreu – saxofone tenor
Carlos Ariel – direcção
Gravado nos Boom Studios, Canelas - Vila Nova de Gaia, por João Bessa
Misturado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Nelson Carvalho Masterizado nos Impact Mastering Labs, Barcelona, por Álvaro Balañá



AS MUSAS CEGAS (IV)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 75-76)
Recitado por Luís Gaspar* (2007) (in "Estúdio Raposa")
Música: Johann Sebastian Bach


                           IV

Mulher, casa e gato.
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.

A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.

Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.

Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.

Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo, com o amor do amor,
não só a palavra, mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.

No mundo tão concreto.


* Produção – Luís Gaspar



AS MUSAS CEGAS (VII)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 83-85)
Recitado por Luís Lucas* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD2, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)




                           VII

Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,
ressoando violentamente pelos corredores
e paredes e pátios desta própria casa
que eu sou. Que eu serei até não sei quando.
É uma doce pancada à porta, alguma coisa
que desfaz e refaz um homem. Uma pancada
breve, breve —
e eu estremeço como um archote. Eu diria
que cantam, depois de baterem, que a noite
se move um pouco para a frente, para a eternidade.
Eu diria que sangra um ponto secreto
do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente
ou se queima como uma face. Escuta:
que a noite vagarosamente se queima
como a minha face.

Essa criança tem boca, há tantas finas raízes
que sobem do meu sangue. Um novo instrumento,
uma taça situou-se na terra, e há tantas
finas raízes que sobem do meu sangue. E uma candeia,
uma flor, uma pequena lira,
podem erguer-se de um rio de sangue, sobre o mundo —
um novo instrumento rodeado pelas campânulas
inclinadas, por ligeiras pedras húmidas,
pelos animais que movem no seu calmo halo de fogo
as grandes cabeças sonhadoras.

Essa criança dorme sobre os meus lagos de treva.
Pensei algumas palavras para oferecer-lhe. Esqueço-me
tantas vezes dos mistérios dessa porta.
Porque então é muito estreita com os seus espelhos
detrás, com o vestíbulo frio.
Mas é tão belo uma criança ainda enevoada,
uma criança que ascende com uma
grande música
desta rede de ossos, deste espinho de sexo,
da confusa pungência, escuta: da pungente
confusão
de um homem restrito com a sua vida tão lenta.

Essa criança é uma coisa que está nos meus dedos.
Às vezes debruço-me sobre as cisternas, e as vertigens,
e as virilhas em chama.
É a minha vida. Mas essa criança
é tão brusca, tão brusca, ela destrói e aumenta
o meu coração.
No outono eu olhava as águas lentas,
ou as pistas deixadas na neve
de fevereiro, ou a cor feroz,
ou a arcada do céu com um silêncio completo.
Misturava-se o vinho dentro de mim, misturava-se
a ciência da minha carne
atónita. Escuta: cada vez a minha vida
é mais hermética.
Essa criança tem os pés na minha boca
dolorosa. 

Se ela um dia adormecer com cerejas junto ao pequeno
respirar, e sonhar
estes imensos arcos que os séculos vão colocando
sob os astros — e se de tudo
a sua cabeça estremecer como numa loucura,
com altos picos em volta, com enormes faróis
acendendo e apagando — escuta: se essa criança
imaginar, e todas as cordas se juntarem tensamente
para que ela invente o seu próprio rio
sem nome —
será ainda que do meu sangue se erguem finas
raízes, e o tenebroso tumulto
das minhas sombras
está no fundo, no fundo da sua ingénua vida,
da sua terrível vida sem remédio.
Se ela morrer, escuta, será que a minha boca
diz lá em baixo
essas majestosas e violentas palavras
dos poemas.

Essa criança que aperta as veias que iluminam
a minha garganta. Ela dorme. Escuta:
a sua vida estala como uma brasa, a sua vida
deslumbrante estala e aumenta.
Se um dia os archotes incendiarem essa boca,
e as faúlhas cercarem
o silêncio tremendo dessa pequena boca, escuta:

a minha boca, lá em baixo, está coberta de fogo.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



POEMACTO (II)



Poema de Herberto Helder* (in "Poemacto", Lisboa: Contraponto, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 98-101)
Dito pelo autor* ("Minha cabeça estremece...", in CD "Os Poetas: Entre Nós e as Palavras", Columbia /Sony Music, 1997, 2013)
Música: Rodrigo Leão e Gabriel Gomes




                           II

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida. 

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

— Era uma casa — como direi? — absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
— Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam no cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta — como
direi? — um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

— Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
— Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


Nota: A gravação original (sem música) foi editada em 1970, num EP com selo Philips.

* [Créditos gerais do disco:]
Margarida Araújo – viola
Rodrigo Leão – sintetizadores
Gabriel Gomes – acordeão
Francisco Ribeiro – violoncelo e voz
Concepção do projecto – Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Manuel Hermínio Monteiro (Assírio & Alvim)
Produção – Gabriel Gomes e Rodrigo Leão
Recuperação e edição digital dos poemas – Carlos Jorge Vales 
Gravações e misturas – António Pinheiro da Silva e Paulo Abelho, nos estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
Assistência técnica – José Motor, Vasco, e Carlos Jorge Alves
Pós-produção – António Pinheiro da Silva e João Moura



Minha cabeça estremece



Poema: Herberto Helder (excerto inicial da parte II de "Poemacto") [texto integral >> acima]
Música e arranjo: Abe Rábade
Intérprete: Joana Machado* (in CD "Travessia dos Poetas, Rosapeixe", Nuba Records/Karonte, 2010)


Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida. 

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

— Era uma casa — como direi? — absoluta.



Eu jogo, eu juro



Poema: Herberto Helder (excerto intermédio da parte II de "Poemacto") [texto integral >> acima]
Música e arranjo: Abe Rábade
Intérprete: Joana Machado* (in CD "Travessia dos Poetas, Rosapeixe", Nuba Records/Karonte, 2010)


Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
— Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta — como
direi? — um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

— Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.



Eu agora mergulho



Poema: Herberto Helder (excerto final da parte II de "Poemacto") [texto integral >> acima]
Música e arranjo: Abe Rábade
Intérprete: Joana Machado* (in CD "Travessia dos Poetas, Rosapeixe", Nuba Records/Karonte, 2010)




Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
— Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


* [Créditos gerais do disco:]
Joana Machado – voz
Abe Rábade – piano
Pablo Martín Camiñero – contrabaixo
Bruno Pedroso – bateria
Tiago Schwaebl – flauta
Hugo Queirós – clarinete
Elsa Roch – oboé, corne inglês
Pablo Pascual – clarinete baixo
Ana Cláudia Serrão – violoncelo
João Moreira – trompete, flügelhorn (fliscorne)
Jesús Santandreu – saxofone tenor
Carlos Ariel – direcção
Gravado nos Boom Studios, Canelas - Vila Nova de Gaia, por João Bessa
Misturado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Nelson Carvalho Masterizado nos Impact Mastering Labs, Barcelona, por Álvaro Balañá



Aos Amigos



Poema: Herberto Helder (in "Lugar", Lisboa: Guimarães Editores, 1962; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – pág. 113)
Música: Vitorino Salomé
Intérprete: Vitorino* (in LP "Flor de la Mar", EMI-VC, 1983, reed. EMI-VC, 1992, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.


* Vitorino – voz
João Lucas – piano
Pedro Caldeira Cabral – viola de gamba
Tó Pinheiro da Silva – flauta
Pedro Wallenstein – baixo acústico
Direcção musical e arranjos – Vitorino, Pedro Caldeira Cabral e Janita Salomé
Produção – Vitorino, Manuel Salomé e Francisco Vasconcelos
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnicos de som – António Pinheiro da Silva e Pedro Vasconcelos



MULHERES CORRENDO, CORRENDO PELA NOITE



Poema de Herberto Helder (in "Electrònicolírica", col. Poesia e Verdade, Lisboa: Guimarães Editores, 1964; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 260-261)
Dito pelo autor* (EP, Philips, 1970)


Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.

É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.

De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras — nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.

Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.

Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.

Correndo, lembrando, batendo.


* Produção – João Martins



Este lugar não existe...



Poema de Herberto Helder (in "Apresentação do Rosto", Lisboa: Editora Ulisseia, 1968)
Dito pelo autor* (in EP "Herberto Helder: Poesia Portuguesa", Philips 431 999 PE, 1970)




Este lugar não existe, fica na Arábia Saudita, no deserto.
Gosto do deserto.
Levei tábuas e pregos.
Ferramentas, as belas ferramentas dos homens.
Levei água, víveres, sementes.
Não eram sementes de trigo ou aveia, nem de cravos — também não eram sementes de máquinas.
As belas máquinas dos homens.
Não me lembro se fui pelo ar.
Não me lembro da lenta e progressiva despedida, quando se anda pelas terras, o labirinto doloroso, a alegria, quando se vai pelas terras, e nos despedimos, primeiro de um corpo, depois de um sítio, depois de um odor, uma luz, uma voz, os arrabaldes, os sinais, as palavras, as temperaturas.
Não me lembro de quando se vai deixando.
Foi portanto pelo ar.
Levei tudo para experimentar o deserto.
Comprei tábuas, água, sementes, ferramentas — as belas ferramentas.
Tenho uma pequena ciência.
Aprendi.
Vamos lá ver esse lugar que não existe, na Arábia Saudita, no deserto.
Ficava no meio.
No meio é bom — há uma coisa que se chama à volta.
Serve para estar bem só.
Comprei tábuas, sementes e águas.
Não era trigo, nem cravos, nem sementes de cores, das cores que amamos com uma dor no corpo.
Eram sementes de cabeças de crianças.
Não serão nabos, ou rosas, ou sementes de algodão?, perguntei no ervanário.
Não serão sementes de sono, ou sementes de tabaco, ou daquelas sementes de paisagem verde ocidental?
Eram sementes de cabeças de crianças.
Tenho uma pequena ciência.
Fiz como nos livros.
Dividi-me em sete dias.
Com os meus dez dedos enchi os dias, e depois com os meus ouvidos e o meu coração sôfrego.
Da minha virgindade dos desertos tirei a minha ciência dos desertos.
Espalhei os dez dedos pelos dias e, primeiro, criei os céus e as areias daquele lugar que não havia.
Depois, os dois luzeiros: um para o dia e o outro para a noite do deserto.
No terceiro dia, fiz uma casa com um alpendre e uma cadeira no alpendre.
Foi então que senti o sangue bater na minha noite e soube do sinistro silêncio de toda a minha vida, e era o quarto dia.
No quinto, lancei às areias, a toda a volta da casa, até onde podia, todas aquelas sementes que não eram de cravos, nem de trigo, nem de algodão — as sementes — lancei à minha volta o futuro nascimento, e fiquei no meio do nascimento, cercado pelo futuro nascimento.
Depois pensei, como pode pensar um animal criador extenuado, porque eu tinha-me criado a mim mesmo, e era uma criatura quente e exausta, e estava cheio da dor e da alegria da minha obra — era então o sexto dia.
E no sétimo dia vi que tudo tinha um sentido, e sentei-me na minha casa, no meu alpendre, na minha cadeira.
Pela escrita tinha eu pois chegado ao sétimo dia, ligando tudo, ligando o que não é como que visível mas é como que audível, semelhante às correntes de água subterrânea que o nosso próprio corpo solitário sente deitado sobre a terra.
Estava sentado na cadeira criada no terceiro dia, rodeado pela sementeira do quinto dia.
Era uma sementeira de cabeças de crianças.
Não serão nabos ou rosas?, perguntei no ervanário.
Não eram.
Porque principiaram a sair da areia na tarde do sétimo dia, e floresceram, sombrias e doces cabeças de crianças — era terrível.
Seriam verdes-garrafa?
Cabeças de crianças do tamanho de cabeças de crianças — vivas, oscilantes, latejantes sobre o pedúnculo que irrompia do deserto, à volta da minha casa, do meu alpendre, da minha cadeira, do meu coração que nunca mais dormiria.
Começaram então a sussurrar — e eu pensei: a aragem do fim do sétimo dia passa sobre um campo de corolas verdes, como no mundo, e há o sussurro vegetal, o ondular verde-garrafa, em frente da casa de um proprietário como no mundo.
Mas eram cabeças de crianças.
E as minhas tábuas e pregos e víveres, a minha água e a cadeira, e o meu coração estavam cercados pelo sussurro das cabeças das crianças.
Eu nunca mais dormiria — era de noite, era agora a minha noite.
E então elas começaram a cantar — na minha noite.
Eu estava sentado na cadeira, no alpendre, na casa — e as vozes levantavam-se, eram altas, altas, inocentes e terríveis, cada vez mais belas, mais sufocantes.
No deserto.
O meu coração nunca mais dormiria.
Não serão cravos, ou nabos, ou máquinas?, perguntei no ervanário.
Eram cabeças de crianças.


* Produção – João Martins



Canção da Cabília



Poema: Tradicional argelino; trad. Herberto Helder (adaptado) [texto original da tradução >> abaixo]
Música: Eugénio Barreiros
Intérprete: Luís Portugal* (in CD "Coisas Simples", Pôr do Som, 1993)


[instrumental]

Leve, aparece na dança 
e ninguém lhe sabe o nome. 
Vai e vem entre os seus peitos 
um amuleto de prata. 

Mergulha fundo na dança. 
Tilintam em seus artelhos 
muitas argolas de prata. 
Cintila, vivo, um colar. 

Por ela vendi 
um pomar de macieiras. 
Por ela vendi 
o meu olival antigo. 
Por ela vendi 
o meu campo de figueiras. 
Por ela vendi 
um milhão de laranjeiras.

[instrumental]

Leve, aparece na dança 
e ninguém lhe sabe o nome. 
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora. 

Ela cai dentro da dança, 
abrem-se ao meio os cabelos. 
Vai e vem entre os seus peitos 
um amuleto de prata. 

Por ela vendi 
um pomar de macieiras. 
Por ela vendi 
o meu olival antigo. 
Por ela vendi 
o meu campo de figueiras. 
Por ela vendi 
um milhão de laranjeiras.

[instrumental / coros]

Por ela vendi 
um pomar de macieiras. 
Por ela vendi 
o meu olival antigo. 
Por ela vendi 
o meu campo de figueiras. 
Por ela vendi 
um milhão de laranjeiras.

Por ela vendi 
um pomar de macieiras. 
Por ela vendi 
o meu olival antigo. 
Por ela vendi 
o meu campo de figueiras. 
Por ela vendi 
um milhão de laranjeiras.


* [Créditos gerais do disco:]
Luís Portugal – voz
Rui Vilhena – guitarras e voz
Telmo Marques e Jorge Filipe – teclados
Paulo Filipe – baixo eléctrico
Luís Filipe – bateria
Músicos convidados:
Manuel Rocha – violino
Ernesto Taipa – harmónica 
Quim Né – percussões
"Vozes da Rádio" (Nuno Aragão, Jorge Prendas, Mário Alves, Rui Vilhena, António Miguel e Ricardo Fráguas) – vozes
Pedro Moura – vozes 
Sérgio Castro – botões
Participação especial:
Eugénio Barreiros – voz
Produção e arranjos – Jorge Filipe Santos, Telmo Marques e Luís Portugal
Gravado nos Estúdios Pôr do Som, Porto, em Março de 1993, por Jorge Filipe Santos e
Telmo Marques.
Misturado por Jorge Filipe Santos e Sérgio Castro



CANÇÃO DA CABÍLIA

(Poema tradicional argelino; trad. Herberto Helder, in "O Bebedor Nocturno", col. Antologias Universiais, Lisboa: Portugália Editora, 1968; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 227-228)


Leve, aparece na dança — 
e ninguém lhe sabe o nome. 
Vai e vem entre os seus peitos 
um amuleto de prata. 

Mergulha fundo na dança. 
Tilintam em seus artelhos 
muitas argolas de prata. 

— Foi por ela que vendi 
um pomar de macieiras. 

Ela cai dentro da dança, 
e abrem-se ao meio os cabelos. 

— Foi por ela que vendi 
o meu olival antigo. 

Vai até ao centro da dança. 
Cintila, vivo, um colar. 

— Foi por ela que vendi 
o meu campo de figueiras. 

E no coração da dança
todo um sorriso a enflora. 

— Foi por ela que vendi 
um milhão de laranjeiras.



RITUAL DA CHUVA



Poema dos peles-vermelhas; trad. Herberto Helder (in "O Bebedor Nocturno", Lisboa: Portugália Editora, 1968; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 237-238)
Recitado por Mário Viegas* (in LP/CD "Poemas de Bibe: Grande Poesia Portuguesa Escolhida para os Mais Pequenos", UPAV, 1990, reed. Público, 2006)




Desde os tempos antigos, 
       vem a chuva, 
       vem a chuva comigo. 
Da montanha de Água, 
de seus cumes altíssimos, 
       vem a chuva, 
       vem a chuva comigo. 

Entre a luz dos relâmpagos, 
relâmpagos que brilham, 
fulmíneos relâmpagos, 
       vem a chuva, 
       vem a chuva comigo. 

Entre as andorinhas, 
andorinhas azuis, 
que gritam, que gritam, 
       vem a chuva, 
       vem a chuva comigo. 

Atravessando o pólen, 
o pólen sagrado, 
vestida de pólen, 
       vem a chuva, 
       vem a chuva comigo. 

Desde os tempos antigos, 
       vem a chuva, 
       vem a chuva comigo. 


* Produção – José Mário Branco e António José Martins 
Gravado no Angel Studio, Lisboa, em 2, 6, 7 e 8 de Outubro de 1990
Engenheiro de som – José Manuel Fortes



Era uma vez um pintor que tinha um aquário



Poema (em prosa) de Herberto Helder (in "Vocação Animal", col. Cadernos de Poesia, vol. 19, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1971 – págs. 11-12)
Dito por Mário Viegas* ("Poemas Proibidos", 1972) (in Livro/CD "Inéditos I", Público, 2006)
Música: José Calvário




Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir — digamos — de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que o pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos factos e punham-se por uma ordem, a saber: 1.º — peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor; 2.º — peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá de dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existe apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.

(1963)


* José Calvário e José Luís Tinoco – piano
José Niza – viola acústica
Direcção musical e produção – José Niza
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1972
Técnico de som – Moreno Pinto



A carta da paixão



Poema de Herberto Helder (in "Photomaton & Vox", Lisboa: Assírio & Alvim, 1979; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – págs. 406-408)
Recitado por Luís Gaspar* (2015) (in "Estúdio Raposa")


Esta mão que escreve a ardente melancolia da
idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra 
a sua queimadura desde os recessos negros
onde
se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se. O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, a lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponta a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços, a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tão feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.


* Produção – Luís Gaspar



Com uma rosa no fundo da cabeça...



Poema de Herberto Helder (in "Última Ciência", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – pág. 517)
Recitado por José Manuel Mendes* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD2, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


                           1

Com uma rosa no fundo da cabeça, que maneira obscura
de morte. O perfume a sangue à volta da camisa
fria, a boca cheia de ar, a memória
ecoando com as vozes
de agora. Onde está sentada brilha de tantas
moléculas
vivas, tanto hidrogénio, tanta seda escorregadia dos ombros
para baixo. Toca em
de onde rompe a rosa. Uma criança
luciferina. A mãe fechava,
abria em torno a torrente dos átomos
sobre a cara. Aquilo que a estrangula dos pulmões
à garganta
é a rosa infundida. Leva um braço às costas,
suando, raiando
pelo sono fora. Está queimada onde lhe toca. Falaria alto
se o peso a enterrasse à altura das vozes.
Via a matéria radiosa de que é feito o mundo.
A língua doce de leite,
a mão direita na massa agre, o sexo banhado
no manancial secreto.
O dom que transtorna a criança ardente é leve como
a respiração, leve como
a agonia.
Uma rosa no fundo da cabeça.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Ninguém tem mais peso que o seu canto



Poema: Herberto Helder (in "Última Ciência", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – pág. 543)
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé* (in CD "Raiano", Farol Música, 1994)

Ninguém tem mais peso que o seu canto.
A lua agarra-o pela raiz,
arranca-o.
Deixa um grito que embriaga,
deixa sangue na boca.
Que seja a demonia: — a arte mais forte de morrer
pela música, pela
memória.


* Janita Salomé – voz, coros
Filipa Pais – voz (introdução)
Sandra e Dora – coros
Mário Delgado – guitarra de 12 cordas, guitarra clássica
Paulo Curado – flautas
Filipe Valentim – teclados
Paulo Jorge Ferreira – baixo eléctrico
Alexandre Frazão – bateria
José Salgueiro – percussões
Arranjo – Mário Delgado
Direcção musical – Fernando Júdice e Janita Salomé
Produção – Fernando Júdice
Gravado e misturado no Regiestúdio, Amadora
Técnico de som – Branko Neskov
Masterizado por Mike Brown (Inglaterra)



As manhãs começam logo com a morte das mães



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – pág. 23; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)




As manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente



E eu que sopro e envolvo teu corpo tremulamente intacto...



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – pág. 28; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)


E eu que sopro e envolvo teu corpo tremulamente intacto com meu corpo de bode coroado
fedendo a testosterona e sangue,
num mundo de aromas e de orvalho,
farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome,
e se brotas em tua donzelia e és ao modo de festejo,
e de minha bruteza te encurvas tanto que te sussurro um poema de louvação e embalo,
tão soluto e agudo e soberano,
algures, quando
a água quebre e os verbos soberbos cantem,
e tudo se desfaça,
e refaça,
não como soía,
mas com um assombro novo:
faz-se-me tarde para o poema das frutas que de macias se fendem e fundem nas gengivas,
e no ímpeto da luz rasgada em baixo,
como-te antes que morra:
e eu sei quanto depressa morro



Funda manhã onde fundei o prodígio da minha vida airada



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – pág. 30; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)


Funda manhã onde fundei o prodígio da minha vida airada,
vou dar que fazer aos pássaros jardineiros,
um botão de prata, uma folhinha de ouro,
a gota alquímica de mercúrio ao meio,
oh trabalhosa delicadeza,
andam por todo o lado como quem pisa espuma ou pólen
— vinde cá, fêmeazinhas que tanto amais o donaire e a invenção, e a arte,
é uma cilada sim,
mas a vossa plumagem, a atenção ao mundo, a cabeça inquieta,
tudo tão de estudo para o fascínio absoluto,
que venha uma e se arrebate e se perca no enigma,
armadilha de guerra,
sabe Deus quanto a beleza me custa e quanto o ganho é imponderável,
pois sou eu mesmo quem se fascina com este jogo:
que se devoro o mundo também o mundo me devora,
oh malícia, oh
perícia voadora!



Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – pág. 53; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)




Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas
uma que rebenta floralmente branca à direita
outra à esquerda só com ar lá dentro

e o ouro íngreme puxando o começo da noite
e o fim do enorme dia onde todos morreremos
como filhos escorraçados 
ou disso a que chamam demónio da analogia 

quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde
só depois de estar maduro

quem baixa a mão para quebrar um selo
há-de baixá-la para quebrar os outros e há-de fechar os olhos

e de tanto ter visto não poderá nunca mais abri-los

e como pão e bebo água de olhos fechados
como se fosse para sempre

e assim adeus a quem vê
que eu morro inteiro para dentro

e vejo tudo só de entendê-lo



Agora se tivesses alma tinhas de salvá-la...



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – pág. 65; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)


Agora se tivesses alma tinhas de salvá-la, agora
se tivesses génio tinhas de resgatar o pacto, agora
que não tiveste senão quotidiano terás de trazer muita da luz sumida 
pelo mundo fora à tua roupa: camisa, calças,
sapatos leves com os pés andando
junto às águas salgadas,
não em cima delas, 
com tanta luz no teu passeio distraído pelos acessos à memória,
águas salgadas batidas, 
a tua altura medida em espuma contra as fráguas,
agora tens de saber que é falsa,
vens pela babugem como um peixe meio dentro meio fora,
guelras aflitas e o ar enorme à volta para arvoar,
não fossem as barbatanas



Um quarto dos poemas é imitação literária



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – pág. 72; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)




Um quarto dos poemas é imitação literária,
outro quarto é ainda imitação mas já irónica e colérica,
outro quarto é das labaredas da inquisição à volta,
outro quarto, o quarto, o que falta, é por causa da
magnificência do mundo
o quinto quarto absurdo é o das quatro patas cortadas,
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na 
pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
como se fosse tão frio que cortasse até ao osso,
o imo do próprio nome assim metido na pedra,
tanto que ninguém sabia de quem era,
porque ficou todo dentro e não se via de fora:
nem o suor nem o sangue nem o sopro



Levanto à vista



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – pág. 111; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)




Levanto à vista
o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas
E estou tão leve
porque não tenho nenhum segredo
e tão oculto
porque daqui a nada 
já posso dizer tudo.

Daqui a uma pouca ciência
saberei pensar que algum pouco depois
estarei morto
e só de o pensar
já nem respiro
já quase
em nada toco
Já vejo no fundo das mãos
daquilo que fica escrito
Que escrevi coisa nenhuma do mundo
até ao esquecimento e movendo-me com as unhas
movo os nomes inúmeros
para dizer que mal nasci
logo me deram por morto.

E não fui tido nem havido
na razão do episódio de um rosto
ter passado por um espelho e ter desaparecido.
Portanto não me venha ninguém falar de nada
sei bastante do que sabem todos
Vejo a água a mover-se contra si mesma
tão marítima e acho até que é bonito
cada qual morre do quanto alcança e não alcança
e ninguém compreende
a água quebra os dedos que escreveram até às pontas
e passa a água fácil
sem retorno
porque nada tem retorno
e tudo é dificílimo
não só o máximo, mas também o mínimo.



Capa do EP "Herberto Helder: Poesia Portuguesa" (Philips 431 999 PE, 1970)



Capa do CD "Os Poetas: Entre Nós e as Palavras" (Columbia/Sony Music, 1997, 2013)
Ilustração de Ilda David



Capa do livro "Electrònicolírica", col. Poesia e Verdade (Guimarães Editores, 1964)



Capa do livro "Apresentação do Rosto" (Editora Ulisseia, 1968)
Ilustração de Espiga Pinto



Capa do livro "Vocação Animal", col. Cadernos de Poesia, vol. 19 (Publicações Dom Quixote, 1971)



Capa do livro "Poesia Toda", Vol. 1, 1.ª edição (Plátano Editora, 1973)



Capa do livro "Poesia Toda", 2.ª edição (Assírio & Alvim, 1981)



Capa do livro "Poesia Toda", 3.ª edição (Assírio & Alvim, Novembro de 1990)



Capa do livro "Ofício Cantante: Poesia Completa" (Assírio & Alvim, Janeiro de 2009)
Pintura de Ilda David (2008)



Capa do livro "Servidões" (Assírio & Alvim, Maio de 2013)
Xilogravura de Ilda David



Capa do livro "Poemas Completos" (Porto Editora, Outubro de 2014)