30 novembro 2015

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Dois Excertos de Odes"

No dia em que se assinala os 80 anos da morte de Fernando Pessoa, o blogue "A Nossa Rádio" apresenta "Dois Excertos de Odes", de Álvaro de Campos, na voz de Mário Viegas. Serve também de homenagem ao saudoso recitador, a poucos meses de se completarem 20 anos sobre o seu prematuro desaparecimento.
Não podemos deixar de lastimar, uma vez mais, a imperdoável lacuna que persiste na Antena 1 de um apontamento regular de poesia, no qual se pudesse ouvir Mário Viegas e outros eminentes recitadores (não poetas), complementando assim a rubrica "A Vida Breve", de Luís Caetano, na Antena 2, que dá acolhimento exclusivo aos próprios autores (os que têm registo áudio, bem entendido).



DOIS EXCERTOS DE ODES



...de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos (30-6-1914, in "Revista de Portugal", n.º 4, Lisboa: Julho de 1938; "Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa.", Lisboa: Edições Ática, 1944)
Recitados por Mário Viegas* (in "Mário Viegas: Discografia Completa", Vol. 13 – Inéditos III, Público, 2006)




                I

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas.
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo.
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora.
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela.
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto.
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena.
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.

Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes.
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos.
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...

Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé-ante-pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil.

Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente com um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

A lua começa a ser real.


                II

Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades
E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exacta e precisa e activa da Vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó do «Sentimento de um Ocidental»!

30-6-1914


* Gravado ao vivo no Porto, a 23 de Novembro de 1986

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Outros artigos com poesia de Fernando Pessoa neste blogue:
João Villaret: centenário do nascimento
Ser Poeta
Fernando Pessoa por João Villaret

30 setembro 2015

Petição a favor da reposição da rubrica "Cantos da Casa" (Antena 1)

Ao Conselho Geral Independente da Rádio e Televisão de Portugal,
À Administração da Rádio e Televisão de Portugal,
À Direcção de Programas da RDP-Antena 1,

Como é facilmente constatável, a música tradicional (e mesmo a de autor radicada/inspirada naquela) tem uma presença muito residual na emissão da RDP-Antena 1. É algo que vai ao arrepio do que se espera do serviço público de rádio, que deve ter como preocupação primeira, no que à música diz respeito, acarinhar e divulgar convenientemente o nosso património mais identitário.
Urge que a situação, de tão anómala que é, seja alterada, de molde a possibilitar ao auditório da Antena 1 um contacto mais regular e consistente com a nossa música tradicional/regional/popular, abrangendo um leque tão vasto quanto possível de intérpretes (em nome individual ou em grupo). E se é de capital importância que isso seja feito através da lista de difusão musical, vulgo 'playlist', não menos importante é que existam, nos horários nobres, espaços específicos em que se faça a devida contextualização do repertório da tradição oral e dos seus recriadores em registo fonográfico.
A rubrica "Cantos da Casa", proficientemente realizada pelo Sr. Armando Carvalhêda, cumpria de forma muito satisfatória esse desiderato. Era também o único espaço da Antena 1 que acolhia o cante alentejano que assim fica sem tempo de antena no serviço público de rádio, poucos meses – pasme-se! – após o reconhecimento internacional como Património Cultural da Humanidade.
Nesta conformidade, os subscritores solicitam a V. Exas. que se dignem providenciar no sentido de a rubrica "Cantos da Casa" ser reposta na grelha da Antena 1 (em horários praticáveis pela generalidade dos ouvintes). No caso de eventual indisponibilidade do Sr. Armando Carvalhêda para retomar a sua realização, que se convide outra pessoa com os necessários conhecimentos e preparação na matéria. A bem da cultura portuguesa!

Álvaro José Ferreira
Fundador do Grupo de Amigos do LUGAR AO SUL


Adenda (em 15-Out-2015):
Entretanto, mais precisamente a 12 de Outubro, a rubrica "Cantos da Casa" voltou à Antena 1, mas só com uma transmissão diária (05:55). Sem prejuízo de continuar a ser emitida naquele horário (a pensar nos ouvintes mais madrugadores), a rubrica deve ter uma transmissão (uma, pelo menos – se forem mais, tanto melhor) no período compreendido entre as 08:00 e as 20:00, de modo a chegar a muitos outros ouvintes que apreciam ou desejam descobrir a maravilhosa música tradicional portuguesa e os artistas que, com paixão e talento, se dedicam ou dedicaram à sua recriação.
A rubrica "David Ferreira a Contar" passa às 07:35 (que é um horário mais favorável) e repete às 18:55. Nada contra. Não podemos é aceitar que a rubrica "Cantos da Casa" não receba idêntico tratamento. Por conseguinte, a petição vai continuar.

Para assinar a petição é favor aceder à página:
http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT78590

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Textos relacionados:
"Cantos da Casa": o cantinho da música tradicional
Não ao fim da rubrica "Cantos da Casa"!

08 agosto 2015

Não ao fim da rubrica "Cantos da Casa"!

Desde o passado 17 de Julho, último dia de um ciclo consagrado à Brigada Victor Jara, a rubrica "Cantos da Casa" não mais apareceu na emissão da Antena 1. Supus, na minha boa-fé, que se tratasse de uma pausa estival devida às merecidas férias do seu autor e realizador, o Sr. Armando Carvalhêda. Entretanto, recebi de fonte fidedigna a informação de que foi Rui Pêgo, sem dizer "água vai!", quem resolveu eliminar da grelha aquela que se havia tornado uma das (poucas) marcas de excelência da Antena 1. Perguntamos: qual o motivo? Os artistas e os discos que o Sr. Armando Carvalhêda vinha divulgando estão tão profusamente representados na lista de difusão musical, vulgo 'playlist', que o apontamento se revelava redundante e supérfluo? Não. Na 'playlist', quase não há música tradicional. Mas mesmo que houvesse em abundância, ainda assim o espaço "Cantos da Casa" não deixaria de ter muita razão de ser, justamente por fazer a contextualização do repertório e dos intérpretes, coisa bem diferente do que acontece com a 'playlist' em que a música é atirada a seco e sem o mais pequeno enquadramento. Acresce que havendo um espaço específico para a música tradicional (ou regional, como Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça preferiam designá-la) e num horário certo, os seus apreciadores sabem de antemão onde encontrá-la. De igual modo, os músicos que a ela se dedicam, recriando-a com paixão e bom gosto, também sabem que existe no éter nacional uma janela de divulgação (ainda que estreita) para o trabalho que vão desenvolvendo, por imperativos artísticos e por amor ao nosso ancestral e riquíssimo cancioneiro popular. Então, em que ideia assenta a supressão dos "Cantos da Casa"? É por as 'majors' discográficas entenderem que a música tradicional portuguesa não tem valor de mercado? Se é esse o argumento, cumpre-nos lembrar a Rui Pêgo (e, bem assim, a quem lhe é hierarquicamente superior) que a estação pública não existe para funcionar como um veio de transmissão dos produtos (e subprodutos) que as multinacionais do disco querem vender. A rádio estatal existe – e só nesse pressuposto se justifica o financiamento público – para dar visibilidade (ou audibilidade, melhor dizendo) a tudo o que, com reconhecível qualidade, se edita em Portugal, independentemente de ter ou não a chancela das editoras mais poderosas e influentes. E de entre toda essa produção de qualidade, a nossa música mais identitária deve merecer, como é óbvio, uma atenção muito especial. Nesta ordem de ideias, a abolição da rubrica "Cantos da Casa" é de todo descabida e contrária ao mais elementar bom senso. Se Rui Pêgo, fiel à caturrice que o caracteriza, teimar em não reconsiderar a sua desastrosa medida, então que a administração da Rádio e Televisão de Portugal tenha a clarividência de o demitir e de confiar a direcção de programas a uma pessoa mais competente e conscienciosa da missão de serviço público que cabe à Antena 1 prosseguir.
Os ouvintes/contribuintes que amam a bela música tradicional portuguesa clamam a uma só voz: «Não ao fim da rubrica "Cantos da Casa"!»