30 setembro 2013

Em memória de António Ramos Rosa (1924-2013)



Hoje [17-Out-2004], dia em que António Ramos Rosa completa oitenta anos de idade, cumpre saudar a sua intervenção poética global, ou seja, quer no plano da criação poética, quer no da reflexão sobre a poesia, como porventura a mais marcante e plena de consequências de toda a segunda metade do século XX português.
Desde, pelo menos, aquele longínquo Outono de 1951, em que, no primeiro número da revista Árvore, da qual foi o mais proeminente director e colaborador, publicou um poema tão carismático e influente como Viagem através duma nebulosa e, entre outras, recensões críticas a obras tão importantes como Coral de Sophia de Mello Breyner ou Corpo Visível de Mário Cesariny, a presença de Ramos Rosa no quadro diverso e complexo da nossa poesia contemporânea não parou de impor-se como uma voz poderosa e inconfundível, capaz de levantar um mundo poético e ensaístico que se tem vindo a fixar no extraordinário monumento que é a sua obra, composta já por mais de setenta volumes.
Podemos dizer que, com maior insistência e mais cedo que qualquer outro crítico de poesia (e a sua acção neste campo está sólida e coerentemente ligada à sua actividade como poeta), foi António Ramos Rosa quem, sobretudo, lutou pela aceitação (por parte de leitores que, na década de 50 e no começo da de 60, eram ainda bastante reticentes, até mesmo, por vezes, em relação a Pessoa) de uma linguagem poética nova, em ruptura com os vários tradicionalismos líricos (mas não com a tradição lírica, como já o demonstrava, por exemplo, a própria poesia ortónima de Pessoa) e frequentemente apodada de incompreensível, arbitrária, incongruente.
O autor de Poesia, Liberdade Livre, que chegou a envolver-se em polémicas a este respeito, já no ensaio A Poesia é um diálogo com o Universo, saído, em 1953, no quarto e último número de Árvore, defendia que o "hermetismo, que se combate superficialmente, é muitas vezes o nome que se dá à densidade, à riqueza, à liberdade, à imaginação, ao especificamente poético". Este seu ponto de vista manteve-se, naturalmente, até ao presente e ainda recentemente, no livro A Parede Azul, e particularmente em ensaios, nele incluídos, como "A alteridade da poesia moderna", "O princípio criador", "A palavra subversiva" ou "Perspectivas da poesia portuguesa contemporânea", Ramos Rosa reformula uma idêntica concepção do poema como corpo autónomo ("A poesia moderna erige a sua total autonomia em relação ao real. Esta autonomia implica a ruptura da causalidade realista."), com o seu sentido próprio, incoincidente, muitas vezes, com o que se supõe ser o sentido de um certo real: "A palavra (poética) subverte, instaura. Um mundo em que se formula uma palavra nova é um mundo que perde as suas articulações habituais." Este entendimento do fenómeno poético determina também, obviamente, a função e a atitude do crítico: "Interpretar já não é reduzir o poema a um sentido anterior mas procurar o que o poema inaugura, sabendo de antemão que qualquer reinscrição teórica é deveras impossível. Deste modo o 'comentário' deve evitar traduzir as figuras ou as imagens obscuras porque assim as reduziria a simples alegorias a fim de as tornar claras e compreensíveis. É que a palavra poética não é da ordem do discurso. Ela atinge esse ponto em que o discurso tende a abolir-se e a transmudar-se."
Em Herberto Helder encontra Ramos Rosa o caso ideal que lhe permite ilustrar o seu conceito de poesia como liberdade absoluta, como invenção verbal surpreendente mas nunca gratuita: "Mesmo nos poemas mais obscuros e mais densos, a poesia de Herberto Helder nunca é opaca. A sua efectiva obscuridade é luminosa e, não raro, incandescente. A sua luz, aliás enigmática, é a luz de um poeta que não cessa de acorrer ao enigma da criação poética e da matéria a que ela se liga, realizando assim uma fulgurante osmose verbal com o que é vertiginosamente incompreensível."
Em António Ramos Rosa, todavia, a situação é algo diferente, sobretudo na sua fase inicial. A "aventura poética" tem raízes num contexto histórico e social de que muitos dos seus primeiros poemas são a denúncia feroz e o implacável diagnóstico. O boi da paciência ou Telegrama sem classificação especial (como diz Eduardo Lourenço, "com a fulgurante síntese de uma universal e portuguesa situação – 'Estamos nus e gramamos'"), por exemplo, são pontos de intersecção privilegiados das mais fortes e densas linhas provenientes quer do neo-realismo, quer do surrealismo, o que, de resto, não deixa de ser igualmente verdadeiro para certos textos dos outros dois poetas maiores, ao lado de Ramos Rosa, da década de 50, O'Neill e Cesariny.
O certo é que o conceito de poesia como uma potenciação da intensidade do uso da palavra, como uma "voz inicial", com peso e energia próprios, estava já lá, nesses poemas do começo, em 1958 recolhidos no pequeno caderno intitulado O Grito Claro, significativamente o número I da colecção A Palavra, em que sairia, entre outras, a obra de estreia de Luiza Neto Jorge, A Noite Vertebrada.
Para a minha geração, António Ramos Rosa representou, se não propriamente a abertura, a consolidação de uma via, paralela, sem dúvida, a algumas outras igualmente decisivas, mas especialmente consciente das exigências da inovação e da modernidade.

GASTÃO CRUZ, poeta e crítico (in "Público", 17-Out-2004)


A melhor forma de homenagear um poeta é – e sempre será – o cultivo e a divulgação da obra que nos legou. A pretexto do falecimento de António Ramos Rosa (vide a biografia e bibliografia no sítio da DGLB e o artigo do jornal "Público"), o blogue "A Nossa Rádio" apresenta uma série de poemas seus – uns recitados, outros cantados.
Não podia a Antena 1 ter transmitido, se não a totalidade, a maioria destes espécimes (bem como outros existentes no arquivo histórico da RDP) ao longo do dia em que a triste notícia foi veiculada e nos dias seguintes? Podia, com certeza, se Rui Pêgo fosse uma pessoa minimamente ciente das obrigações culturais da rádio que lhe puseram nas mãos. Lamentavelmente, e para prejuízo dos ouvintes e da cultura portuguesa, a negligência, a inércia e o marasmo voltaram a cantar vitória.



UM CAMINHO DE PALAVRAS



Poema de António Ramos Rosa (in "Sobre o Rosto da Terra", Covilhã: Livraria Nacional, col. Pedras Brancas, 1961; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 67)
Recitado por Luís Gaspar (2008) (in "Estúdio Raposa")


Sem dizer o fogo — vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso — duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que eu sei já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.

Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.

                   Caminho um caminho de palavras
                   (porque me deram o sol)
                   e por esse caminho me ligo ao sol
                   e pelo sol me ligo a mim

                   E porque a noite não tem limites
                   alargo o dia e faço-me dia
                   e faço-me sol porque o sol existe

                   Mas a noite existe
                   e a palavra sabe-o.



POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO



Poema de António Ramos Rosa (in "O Grito Claro", Faro: Ed. do Autor, col. A Palavra, 1958; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 30-31)
Recitado por Luís Gaspar (2008) (in "Estúdio Raposa")


A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só



UM MUNDO



Poema de António Ramos Rosa (in "Acordes", Lisboa: Quetzal Editores, 1989 – p. 67)
Recitado por Luís Lima Barreto* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



O que escrevo por vezes



Poema: António Ramos Rosa (in "A Intacta Ferida", Lisboa: Relógio d'Água, 1991)
Música: António Pinho Vargas (ciclo "Nove Canções de António Ramos Rosa")
Intérpretes: Rui Taveira (voz) & Jaime Mota (piano) (in CD "António Pinho Vargas: Versos", Strauss, 2001)


O que escrevo por vezes
é como se um sopro de sombra
no meu corpo abrisse
o espaço de um silêncio
um espaço intacto e puro



Entre o Deserto e o Deserto



Poema: António Ramos Rosa, tendo como referente "Daqui deste deserto em que persisto" [texto >> abaixo]
Música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Não Sou Daqui", Vachier & Associados, 2006)




Entre o deserto e o deserto
numa viagem sem destino
procuras a água e o vinho
nenhuma pista nenhum signo

vivo de pouco ou de nada
sem nunca ter um lugar
sempre a insónia mais branca
e a sede de um novo ar

escurece já o olvido
e é noite quando amanhece
nenhum barco traz aquela
por quem a escrita se tece

talvez esteja perdido
como um náufrago na areia
talvez me reste a canção
e o vento que desenleia

Entre o deserto e o deserto
Entre o deserto e o deserto


* [Créditos gerais do disco:]
Amélia Muge – voz, voz de sala, coros e viola braguesa
António José Martins – darbuka, triângulo, bombo, bendir, estalo, djembé, bilha, maraca, chiquitsi, voz de sala, amostrador e sintetizador
Carlos Mil-Homens – cajón
Catarina Anacleto – violoncelo
Filipe Raposo – piano acústico, piano Rhodes e acordeão
José Manuel David – flautas transversal e de bisel, tarota, trompa, garrafas e voz de sala
José Peixoto – guitarra acústica sem trastos
Yuri Daniel – contrabaixo e baixo eléctrico
Arranjos – António José Martins, José Manuel David e Filipe Raposo (partes de piano, acordeão e trompa)
Direcção musical – António José Martins
Produção – Amélia Muge e António José Martins
Gravado por Samuel Henriques no Estúdio MDL, Paço d'Arcos (voz, piano, baixo, contrabaixo e cajón)
e por António José Martins no estúdio da ETIC (Escola de Tecnologias Inovação e Criação), Lisboa, e no AJM Estúdio, Sobreda
Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e António José Martins, no Estúdio Pé-de-Meia



DAQUI DESTE DESERTO EM QUE PERSISTO

(António Ramos Rosa, in "A Nuvem sobre a Página", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 160-162)


Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra

escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
                                       uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras

Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto

Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto

As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito

Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único do abismo branco

Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total

Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada



Não sou daqui, mas...



Letra: Amélia Muge, inspirada no poema de António Ramos Rosa "Não podemos dizer" [texto >> abaixo]
Música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Não Sou Daqui", Vachier & Associados, 2006)




Não sou daqui
Mas gosto daqui estar
De aprender no lugar do outro
A me encontrar
De poder um lugar achar
No estar aqui
Desejar o lugar de todos neste lugar
E saber no lugar daqui
O meu lugar
Não sou daqui

Não sou daqui
Mas se aqui estou
É porque para mim
Também há aqui lugar
E porque há um eu
Que aqui se foi achar
E porque um teu
Gostou de mim
De me encontrar

Não sou daqui
Mas gosto daqui estar
De aprender no lugar do outro
A me encontrar
De poder um lugar achar
No estar aqui
Desejar o lugar de todos neste lugar
E saber no lugar daqui
O meu lugar
Não sou daqui

Não sou daqui
Mas se aqui estou
É porque para mim
Também há aqui lugar
E porque há um eu
Que aqui se foi achar
E porque um teu
Gostou de mim
De me encontrar


* [Créditos gerais do disco:]
Amélia Muge – voz, voz de sala, coros e viola braguesa
António José Martins – darbuka, triângulo, bombo, bendir, estalo, djembé, bilha, maraca, chiquitsi, voz de sala, amostrador e sintetizador
Carlos Mil-Homens – cajón
Catarina Anacleto – violoncelo
Filipe Raposo – piano acústico, piano Rhodes e acordeão
José Manuel David – flautas transversal e de bisel, tarota, trompa, garrafas e voz de sala
José Peixoto – guitarra acústica sem trastos
Yuri Daniel – contrabaixo e baixo eléctrico
Arranjos – António José Martins, José Manuel David e Filipe Raposo (partes de piano, acordeão e trompa)
Direcção musical – António José Martins
Produção – Amélia Muge e António José Martins
Gravado por Samuel Henriques no Estúdio MDL, Paço d'Arcos (voz, piano, baixo, contrabaixo e cajón)
e por António José Martins no estúdio da ETIC (Escola de Tecnologias Inovação e Criação), Lisboa, e no AJM Estúdio, Sobreda
Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e António José Martins, no Estúdio Pé-de-Meia



Não podemos dizer

(António Ramos Rosa, in "À Mesa do Vento seguido de As Espirais de Dioniso", Guimarães: Pedra Formosa, 1997; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 377-378)


Não podemos dizer
Cheguei aqui e inverter a perspectiva
olhando para trás
O solo nos solicita
e a sede de ser nos move para a frente
E é então que talvez reconheçamos o que fomos
entre os fragmentos dispersos da nossa identidade

Nós queremos sobretudo a relação mais viva
ainda quando sabemos que ela é incerta ou ilusória
As palavras desviam-se do que as excede ou as quer reter
mas elas querem corresponder com o seu lume frágil
ao que não conhecem mas pressentem para além das fronteiras silenciosas

Talvez toda a relação seja ilusória
mas poderá ser mais verdadeira do que a separação
Só a palavra adolescente não hesita embora trema
e caminhe nua sobre a linha da sua sombra
Tal é a maturidade do juvenil ardor
que abre o caminho que conduz às grandes águas

Quem escreve nunca está só na sua solidão de asceta
O espaço é de ninguém o espaço é ninguém
e de um só mas de um só em todos nós
O cantor modula a voz de mil vozes
O que no poema se move é um território de solidão comum
atraído pelo íman da unidade latente e latejante

Temos de ir ao extremo de uma solitária linha
mas é para voltarmos aqui ao ponto de partida
que já será outro começo e terá o timbre unânime das vozes
embora coadas pela espessura roxa da solidão
Estaremos então entre duas margens entre o princípio e o fim
e seremos mais do que fomos o que poderemos ser
ainda que não venhamos a ser senão o movimento de uma sombra



Passagem



Poema: António Ramos Rosa (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Diogo Clemente
Intérprete: Ana Laíns* (in CD "Sentidos", Difference, 2006)


[instrumental]

É onde escuto agora a própria casa.
Sou eu que escrevo este poema
Já onde estou agora e nada espero.
Ouço o som que vem de estar aqui lembrando
isto que sou agora mesmo esperando.
É onde escuto agora a própria casa.

É onde eu pouso a mão na terra calma
ouvindo quantos anos já vivi,
mas não aqui nem além, agora só
num tempo em que não sou mais que este estar
passando sem passar neste deserto.
É onde pouso a mão na terra calma.

É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste sem fim que escuto e oiço o seu passar.
É onde escuto agora a própria casa.

[instrumental]

É onde escuto agora a própria casa.


* [Créditos gerais do disco:]
Guitarras acústicas – Diogo Clemente
Viola baixo – Fernando Araújo
Guitarra portuguesa – Bernardo Couto
Acordeão, piano e melódica – Ruben Alves
Violoncelo – Ricardo Mota
Percussão – Vicky (Hugo Marques)
Direcção musical, arranjos e produção – Diogo Clemente
Técnico de som – Fernando Nunes
Gravado, misturado e masterizado nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em Janeiro e Fevereiro de 2006



PASSAGEM

(António Ramos Rosa, in "Voz Inicial", Lisboa: Livraria Moraes, col. Círculo de Poesia, 1960; "Não Posso Adiar o Coração", vol. I da Obra Poética, Lisboa: Plátano Editora, col. Sagitário, 1974)


É onde escuto agora a própria casa.
Sou eu que escrevo este poema.
Já onde estou agora nada espero.
Ouço o som que vem de estar aqui lembrando
isto que sou agora mesmo esperando.

É onde eu pouso a mão na terra calma
ouvindo quantos anos já vivi,
mas não aqui nem além, agora só
num tempo em que não sou mais que este estar
passando sem passar neste deserto.

É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste sem fim que escuto e sou no seu passar.



Há um ofegar de terra na garganta



Poema de António Ramos Rosa (in "Ciclo do Cavalo", Porto: Limiar, col. Os Olhos e a Memória, 1975 – p. 36)
Recitado por Luís Lima Barreto* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


Há um ofegar de terra na garganta,
há um feixe de ervas que perfuma a casa.
O ar é solidez, o caminho é de pedra.
Procuro a água funda e negra de bandeiras.

Encho a cabeça de terra, quero respirar mais alto,
quero ser o pó de pedra, o poço esverdeado,
o tempo é o de um jardim
em que a criança encontra as formigas vermelhas.

Vou até ao fim do muro buscar um nome escuro:
é o da noite próxima, é o meu próprio nome?


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Não tenho lágrimas



Poema: António Ramos Rosa (in "A Intacta Ferida", Lisboa: Relógio d'Água, 1991)
Música: António Pinho Vargas (ciclo "Nove Canções de António Ramos Rosa")
Intérpretes: Rui Taveira (voz) & Jaime Mota (piano) (in CD "António Pinho Vargas: Versos", Strauss, 2001)


Não tenho lágrimas
estou mais baixo
junto à cal

Vejo o solo extinto
não oiço ninguém
e não regresso

Adormecer talvez
junto a uma estaca
com uma pequena pedra
sobre as pálpebras



Não era um barco



Poema: António Ramos Rosa (in "A Intacta Ferida", Lisboa: Relógio d'Água, 1991)
Música: António Pinho Vargas (ciclo "Nove Canções de António Ramos Rosa")
Intérpretes: Rui Taveira (voz) & Jaime Mota (piano) (in CD "António Pinho Vargas: Versos", Strauss, 2001)


Não era um barco
nem uma guitarra
era uma pedra
que girava na sua fronte

Anoitecera
alguém cantava sobre um muro
a pedra
girava.



A PEDRA



Poema de António Ramos Rosa (in "Ocupação do Espaço", Lisboa: Portugália Editora, 1963; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 79)
Recitado por Luísa Cruz* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


A pedra é bela, opaca,
peso-a gostosamente como um pão.
É escura, baça, terrosa, avermelhada,
polvilhada de cinza.
Contemplo-a: é evidente, impenetrável,
preciosa.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Não posso adiar o coração



Poema: António Ramos Rosa (adaptado de "Não posso adiar o amor para outro século") [texto integral >> abaixo]
Música: Luís Varatojo e Dora Fidalgo
Intérprete: Linha da Frente* (in CD "Linha da Frente", Mercury/Universal, 2002)




Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o amor
Não posso adiar este abraço

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o amor
Não posso adiar este abraço

Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração

[instrumental / vocalizos]

Não posso adiar o amor para outro século
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar
não posso adiar
não posso adiar
não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar
para outro século a minha vida
nem o meu amor

Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o amor
Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o amor
Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o coração
Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o amor
Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o amor
Não posso adiar o coração


* Dora Fidalgo – voz principal
Luís Varatojo e João Aguardela – todos os instrumentos e programações
Músicos adicionais:
Samuel Palitos – bateria
João Cabrita – saxofone
Isabel Rato – teclados
João Marques – trompete
Janelo da Costa – voz
Produção – Luís Varatojo e João Aguardela
Gravado e misturado por Luís Varatojo e António Bragança, no Pérola Estúdio 1
Masterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Não posso adiar o amor para outro século



Poema de António Ramos Rosa (in "Viagem através duma Nebulosa", Lisboa: Edições Ática, 1960; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 42)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "No Palco da Poesia", Ovação, 1995, reed. Ovação, 2000)


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


* [Créditos gerais do disco:]
Produção musical – Zé Nabo
Músicas – Alexandre Manaia, José Moz Carrapa e José Nabo
Arranjos – Manuel Paulo
Guitarra – Raimundo Seixas
Viola – Carlos Manuel



Quem bate a uma porta de folhas na noite



Poema de António Ramos Rosa (in "Nos Seus Olhos de Silêncio", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970; "Respirar a Sombra Viva", vol. III da Obra Poética, Lisboa: Plátano Editora, col. Sagitário, 1975)
Recitado por Mário Viegas* (in LP/CD "Poemas de Bibe: grande poesia portuguesa escolhida para os mais pequenos", UPAV, 1990; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 10 – "Poemas de Bibe", Público, 2006)




Quem bate a uma porta de folhas na noite
uma porta de folhas na noite
Quem toca a dura casca do teu nome na noite
a uma porta de folhas

Uma porta de folhas uma porta
Quem bate a essa porta de folhas
Quem bate a essa porta de folhas na noite
Quem bate a essa porta sou eu


* Produção – José Mário Branco e António José Martins
Gravado no Angel Studio, Lisboa
Técnico de som – José Manuel Fortes



SEM SEGREDO ALGUM



Poema de António Ramos Rosa (in "Volante Verde", Lisboa: Moraes Editores, col. Círculo de Poesia, 1986)
Recitado por Luísa Cruz* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


Rodeio-te de nomes, água, fogo, sombra,
vagueio dentro das tuas formas nebulosas.
Como um ladrão aproximo-me entre palavras e nuvens.
Não te encontrei ainda. Falo dentro do teu ouvido?
Entre pedras lentas, oiço o silêncio da água.

A obscuridade nasce. Tens tu um corpo de água
ou és o fogo azul das casas silenciosas?
Não te habito, não sou o teu lugar, talvez não sejas nada
ou és a evidência rápida, inacessível,
que sem rastro se perde no silêncio do silêncio.

O que és não és, não há segredo algum.
Selvagem e suave, entre miséria e música,
o coração por vezes nasce. As luzes acendem-se na margem.
Estou no interior da árvore, entre negros insectos.
Sinto o pulsar da terra no seu obscuro esplendor.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



AMOR DA PALAVRA, AMOR DO CORPO



Poema de António Ramos Rosa (in "Nos Seus Olhos de Silêncio", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 116)
Recitado por Afonso Dias* (in CD "Cantando Espalharey", vol. I, Edere, 2001)


A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que não te vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.


* Pesquisa e produção – Afonso Dias e André Dias
Gravado no Estúdio InforArte, Chinicato - Lagos
Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro



AQUI MEREÇO-TE



Poema de António Ramos Rosa (in "A Construção do Corpo", Lisboa: Portugália Editora, 1969)
Recitado por Luís Gaspar (2008) (in "Estúdio Raposa")


O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar com um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.

A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.

Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.

Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.



TEU CORPO PRINCIPIA



Poema de António Ramos Rosa (in "Estou Vivo e Escrevo Sol", Lisboa: Editora Ulisseia, 1966)
Recitado por Luís Gaspar (2008) (in "Estúdio Raposa")


Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol – verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

Ó maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

Ó vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.



DA GRANDE PÁGINA ABERTA DO TEU CORPO



Poema de António Ramos Rosa (in "Nos Seus Olhos de Silêncio", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 117)
Recitado por José-António Moreira (2006) (in "Sons da Escrita")




Da grande página aberta do teu corpo
sai um sol verde
um olhar nu no silêncio de metal
uma nódoa no teu peito de água clara

Pela janela vejo a pequenina mão
de um insecto escuro
percorrer a madeira do momento intacto
meus braços agitam-te como uma bandeira em brasa
ó favos de sol

Da grande página aberta
sai a água de um chão vermelho e doce
saem os lábios de laranja beijo a beijo
o grande sismo do silêncio
em que soberba cais vencida flor



Viste o cavalo varado a uma varanda?



Poema de António Ramos Rosa (in "Ciclo do Cavalo", Porto: Limiar, col. Os Olhos e a Memória, 1975 – p. 21; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 133)
Recitado por Manuel Alegre* (in CD "Vozes Poéticas da Lusofonia por Timor: Festa da Língua Portuguesa", Gravisom, 1999)


Viste o cavalo varado a uma varanda?
Era verde, azul e negro e sobretudo negro.
Sem assombro, vivo da cor, arco-íris quase.
E o aroma do estábulo penetrando a noite.

Do outro lado da margem ascendia outro astro
como uma lua nua ou como um sol suave
e o cavalo varado abria a noite inteira
ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.

Uma língua de sabor para ficar na sombra
de todo um verão feliz e de uma sombra de água.
Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste
o tambor do silêncio marcar a tua força

e tudo em ti jazia na noite do cavalo.


* Gravado nos estúdios da RDP, Lisboa, a 22 de Junho de 1999
Produção digital – José M. Gouveia (RDP)
Masterização – João Oliveira, nos Estúdios Gravisom, Lisboa



O Que Vê o Meu Olhar



Letra: Popular (quadra) e Amélia Muge, inspirada no poema de António Ramos Rosa "Nada mais delicado do que o tecido do olhar" [texto >> abaixo]
Música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Não Sou Daqui", Vachier & Associados, 2006)




No alto daquele mar
Está uma pombinha branca;
Não é pomba, não é nada:
É o mar que se alevanta.

[instrumental]

O que olha o meu olhar
Por fora disto que é ver
Como se deixa esconder
No que vê o coração
Pode não ser confusão
Pode ser só sensação
Vá lá a gente saber
Mas há sempre uma ilusão
Lá ao longe a flutuar
Entre espuma e hesitação
No alto daquele mar

No alto daquele mar
Está uma pombinha branca;
Não é pomba, não é nada:
É o mar que se alevanta.
[bis]

E o mar ao dar à anca
Torna branco o movimento
E faz disto sentimento
Que se levanta do chão
Em rota de colisão
Com o olhar espião
Dele e do próprio momento
Em que voa a sedução
Que ao poisar diz que manca
E ao colo da criação
Está uma pombinha branca

Não é pomba, não é nada:
É o mar que se alevanta.

No alto daquele mar
Está uma pombinha branca;
Não é pomba, não é nada:
É o mar que se alevanta.

No torpor da madrugada
Todas as ondas são uma
Vemos todas e nenhuma
E toda a espuma é fusão
Irmã da própria ficção
Que transforma a emoção
Em breve gesto de espuma
E nesta desatenção
Esta morte alevantada
É um véu no som do não
Não é pomba, não é nada

No alto daquele mar
Está uma pombinha branca;
Não é pomba, não é nada:
É o mar que se alevanta.
[bis]

E a cegueira se espanta
De ninguém lhe querer falar
E nem sequer p'ra ela olhar
Já que é dela a condição
De encontrar outra razão
P'ra iludir a solidão
E a vista não se calar
Em nenhuma situação
E só de ouvir ela canta
Que não há engano não
É o mar que se alevanta

No alto daquele mar
Está uma pombinha branca;
Não é pomba, não é nada:
É o mar que se alevanta.


* [Créditos gerais do disco:]
Amélia Muge – voz, voz de sala, coros e viola braguesa
António José Martins – darbuka, triângulo, bombo, bendir, estalo, djembé, bilha, maraca, chiquitsi, voz de sala, amostrador e sintetizador
Carlos Mil-Homens – cajón
Catarina Anacleto – violoncelo
Filipe Raposo – piano acústico, piano Rhodes e acordeão
José Manuel David – flautas transversal e de bisel, tarota, trompa, garrafas e voz de sala
José Peixoto – guitarra acústica sem trastos
Yuri Daniel – contrabaixo e baixo eléctrico
Arranjos – António José Martins, José Manuel David e Filipe Raposo (partes de piano, acordeão e trompa)
Direcção musical – António José Martins
Produção – Amélia Muge e António José Martins
Gravado por Samuel Henriques no Estúdio MDL, Paço d'Arcos (voz, piano, baixo, contrabaixo e cajón)
e por António José Martins no estúdio da ETIC (Escola de Tecnologias Inovação e Criação), Lisboa, e no AJM Estúdio, Sobreda
Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e António José Martins, no Estúdio Pé-de-Meia



Nada mais delicado do que o tecido do olhar

(António Ramos Rosa, in "Delta seguido de Pela Primeira Vez", Lisboa: Quetzal Editores, 1996; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 356)


Nada mais delicado do que o tecido do olhar
absoluta nascente do silêncio abóbada cristalina
Em inocência branca os olhos vêem a concreta limpidez
e a sua essência é como um levíssimo aroma rapidíssimo
Entre ser e não ser ondula esta alfombra transparente
cuja exactidão é terna e subtil potência breve
Uma cortesia do imponderável armistício do indizível
secreta graça da atenção e distracção do centro
Como uma lua entre sombras esquiva e confidente
ou como um cristal em movimento ou um nadador redondo
o olhar é um nascimento no permanente olvido
e como um navio equilibra a substância das coisas



NÓS SOMOS



Poema: António Ramos Rosa (in "Sobre o Rosto da Terra", Covilhã: Livraria Nacional, col. Pedras Brancas, 1961; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 72)
Música: Tiago Bettencourt
Intérprete: Tiago Bettencourt* com Dalila Carmo (in CD "Tiago na Toca e os Poetas", Metropolitana/EMI, 2011)




Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.

Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos

Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.


* Dalila Carmo – voz, coros
Tiago Bettencourt – guitarras, Fender Rhodes, coros
Produção executiva – Tiago Bettencourt e Paulo Ventura
Gravado na TOCA, por Tiago Bettencourt
Misturado por Artur David, no Lisboa Studio
Masterizado por Ars Lindberg, no Lisboa Studio

































Desenhos de António Ramos Rosa


Os olhos, os traços soltos em carícias leves,
murmuram o mundo, a sua dança, o seu clamor,
os seus aromas festivos,
e a lua, em seu rosto levíssimo flutua,
porque o sol é o astro, que em seu silêncio levita.

Na extremidade das flores, onde um veludo
precioso dormita,
a vida é o anoitecer deslumbrado.
Nos olhos de um Poeta, a dança do mundo,
os seus desenhos festivos acariciam a luz,
os seus bailados.
Nos jardins do seu nome, as palavras
resplandecem.

Nos ramos do silêncio, um pássaro pousou,
ainda há pouco,
nas praias obscuras, em suas fúlgidas areias,
o Poeta, em seus olhos de silêncio se banhou,
inebriado de canto e púrpura

e os seus traços, acompanhando os acordes
misteriosos, reinventaram os ritmos,
a criação,

              sobre membranas fluidas,
                                                   recamadas de vida.

Maria do Sameiro Barroso ("Poema com desenhos de António Ramos Rosa", in "António Ramos Rosa: Imagens do Caminho das Palavras e dos Afectos: Fotobiografia", de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005)

18 setembro 2013

Celebrando António dos Santos



António dos Santos, de seu nome completo António dos Santos Caio Castanheira, nasceu em Lisboa (no Hospital de São José, freguesia do Socorro), a 14 de Março de 1919.
Aos 15 anos de idade, começa a cantar fado em recintos amadores, vindo a profissionalizar-se cerca de quatro anos mais tarde, em Março de 1938, no Café Mondego. Em 1943, casa-se com Julieta Rebelo Martins com quem terá cinco filhos. Para fazer face aos crescentes encargos familiares, ingressa na marinha mercante (Mala Real Inglesa e Blue Star Line), viajando muito e por longas temporadas (chegou, por exemplo, a permanecer dois anos nos Estados Unidos da América). Mas nunca deixou de cantar, mantendo ao longo de duas décadas uma nítida preferência pelo fado jocoso. E é precisamente nesse registo que grava o seu primeiro disco, o EP "Um Congresso de Gatos" (Alvorada, 1959) que inclui, além do tema-título, "A Moda Traz Cada Coisa", "Boa Resolução" e "Um Macho Inteligente". Alguns anos antes, abrira no Beco do Azinhal, em Alfama, o restaurante/casa de fados "Solar" do António dos Santos, que ficará popularmente conhecido como o "Cantinho do António". Nesse espaço de convívio e de confraternização fadista, actuava para clientes e amigos, acompanhando-se a si próprio à viola. Assim se sedimenta e afirma um novo estilo de interpretação, nostálgico e dolente, que ficará conhecido como a balada de Lisboa.
Incentivado pelo técnico de som Hugo Ribeiro, grava em 1964, para a Valentim de Carvalho, o seu primeiro EP de baladas, sob o título genérico de "Alfama-Lisboa", contendo "Minha Alma de Amor Sedenta" (que se tornará um dos seus temas mais emblemáticos), "Recordando", "Uma Chuva de Tristeza" e "As Tuas Mãos". Segue-se, no ano subsequente, o EP "Nostalgia de Alfama" que, além do tema homónimo, inclui "Disseste-me Adeus", "Fado Triste" e "Ilusão Perdida". Em 1968, sai o EP "Fado É Canto Peregrino", composto por, além do tema-título, "Gaivotas em Terra", "Partir É Morrer um Pouco" (que fica como o seu grande cartão de visita) e "Ficas a Saber". Os doze temas desta trilogia de EPs (que serão reunidos na compilação "Minha Alma de Amor Sedenta", 1972) constituem o supra-sumo da produção de António dos Santos e garantem-lhe um lugar de relevo, e singularíssimo, na História da Música Portuguesa. Todas as composições são do próprio António dos Santos, que também assina três letras, sendo as outras nove da autoria de António Veloso Reis Camelo (duas), Mendes de Carvalho, Figueiredo Barros, Carlos Miguel de Araújo, Augusto Mascarenhas Barreto (três) e Maria Alexandrina. António Pessoa assegura sempre o acompanhamento à viola, contando com a ajuda, no terceiro EP, da viola baixo de Liberto Conde.
António dos Santos recebeu então o epíteto de "Baladeiro de Alfama", que se tornou ainda mais popular após a actuação, em 1969, no programa televisivo "Zip-Zip". O artista ainda gravaria mais dois discos de longa duração – "António dos Santos" (Philips, 1970) e "É Assim a Minha Alfama" (Roda, 1977) – mas retomando a linguagem tradicional do fado e sem o mesmo brilho que o celebrizou na balada.
Faleceu a 18 de Setembro de 1993, aos 74 anos de idade, na cidade natal, não deixando seguidores do seu estilo inconfundível, apesar de alguns fadistas, como Carlos do Carmo, Beatriz da Conceição, Maria Leopoldina Guia, Mísia e Hélder Moutinho, terem gravado temas seus.

Discografia:
- Um Congresso de Gatos (EP, Alvorada, 1959)
- Alfama-Lisboa (EP, Columbia/VC, 1964)
- Nostalgia de Alfama (EP, Columbia/VC, 1965)
- Fado É Canto Peregrino (EP, Columbia/VC, 1968)
- António dos Santos (LP, Philips/Phonogram, 1970)
- Penso Que Já Não Existes (EP, Philips/Phonogram, 1971)
- Minha Alma de Amor Sedenta (LP, Columbia/VC, 1972; CD, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [reúne os 12 temas dos 3 EPs editados pela Valentim de Carvalho, selo Columbia]
- É Assim a Minha Alfama (LP, Roda/J.C. Donas, 1977)
- António dos Santos: Saudade (LP, EMI-VC, 1986) [mesmo conteúdo do LP "Minha Alma de Amor Sedenta", 1972]
- O Melhor de António dos Santos (CD, EMI-VC, 1992) [mesmo conteúdo do LP "Minha Alma de Amor Sedenta", 1972]


António dos Santos, apesar do seu superlativo legado, é nome votado ao ostracismo pelo editor da 'playlist' da Antena 1. E se isso acontece com o beneplácito de Rui Pêgo, seria de admirar que este tomasse a iniciativa de lhe render a devida homenagem no dia em que se assinalam os 20 anos do seu desaparecimento. Mesmo tendo a rádio pública a obrigação de divulgar e acarinhar o nosso património musical mais valioso e perene e de, ironicamente, até difundir um 'slogan' que diz "Antena 1: uma rádio com memória".
O blogue "A Nossa Rádio" não podia deixar de celebrar o emérito artista e apresenta uma série das suas mais sublimes criações. A pensar nos seus admiradores e, sobretudo, naqueles a quem a rádio tem negado a oportunidade de o descobrir.



Não Tarda a Neve



Poema: António Nobre (excerto ligeiramente adaptado de "Adeus!") [texto integral >> abaixo]
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in LP "António dos Santos", Philips/Phonogram, 1970)


Adeus! Ó Mar, quero que me respondas,
Águas tão altas! dizei, dizei:
Quais mais salgadas? as vossas ondas
Quais mais salgadas? as vossas ondas
Ou as que eu choro, e chorarei?

Adeus! Ó Lua, Lua dos Meses,
Lua dos Meses, ora por nós!...
Ó Mar antigo dos Portugueses,
Ó Mar antigo dos Portugueses,
Ó Mar antigo dos meus Avós!

Adeus! Eu parto, mas volto, breve,
À tua casa que eu deixei lá!
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!

Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!


* Francisco Carvalhinho – guitarra portuguesa
Pais da Silva e Martinho d'Assunção – violas
José Maria Nóbrega – viola baixo
Produção – Phonogram
Gravado no Estúdio Nacional Filmes, Lisboa



ADEUS!
(POR UMA TEMPESTADE NA COSTA DE INGLATERRA)

(António Nobre, in "Só", ciclo "Lua-Quarto Minguante", 2.ª ed. revista e aumentada, Lisboa: Guillard, Aillaud e C.ª, 1898; "Poesia Completa", Lisboa: Círculo de Leitores, 1988 – p. 185-188)


Adeus! Eu parto, mas volto, breve,
À tua casa que deixei lá!
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!

Adeus! Na ausência meses são anos,
Dias são meses, que aí são ais:
Ah tu tens sonhos, eu tenho enganos.
Eu sou sozinho, tu tens teus Pais.

Adeus! Nas velas o Vento toca
«Aves» e «Paters» de imensa dor.
Enquanto rezas, fia na roca
Enquanto rezas, fia na roca
O linho branco do nosso amor.

Adeus! Paquete, que vai fugido
Com um Poeta lá dentro a orar!
Ai que destino tão parecido.
Andar aos ventos, ó Mar! ó Mar!

Adeus! Mar, quero que me respondas,
Águas tão altas! dizei, dizei:
Quais mais salgadas? as vossas ondas
Quais mais salgadas? as vossas ondas
Ou as que eu choro, que eu chorarei?

Adeus! (Que é isto? treme o Paquete!)
Fiel me seja teu Coração:
Não que eu fechei-o num aloquete
E a chave é de oiro, trago-a na mão!

Adeus! O Vento soluça e geme,
O Mar é negro, mas «lá» é azul...
Francês tão moço, que vais ao leme,
Francês tão moço, que vais ao leme,
Ah se pudesses voltar ao Sul!

Adeus! (Piloto, que nuvens essas,
Façamos juntos o «plo sinal!»)
Menina e Moça, nunca me esqueça
Que eu tenho os olhos em Portugal!

Adeus. Um brigue de pano roto
Vede que passa, faz-nos sinais:
Tenha piedade, Sr. Piloto,
Tenha piedade, Sr. Piloto,
Seja pela alma dos nossos Pais...

Adeus! «St. Jacques», vai depressinha...
Meu Anjo, a esta hora, tu que farás?
O Mar faz medo (Salve, Rainha...)
E tu, meu Anjo, tão longe estás!

Adeus! Tão longe, tão longe a terra!
Longe de tudo, longe de ti!
A trinta milhas, fica a Inglaterra,
A trinta milhas, fica a Inglaterra,
A uma (ou menos) a Morte, ali...

Adeus! Na hora de me deixares,
Já pressentias o meu porvir:
«Meu Deus!» disseste, mostrando os ares...
Mas era urgente partir! partir!

Adeus! Já faltam os mantimentos,
Falta-nos água, falta-nos luz!
Morrer, à lua, sem sacramentos,
Morrer, à lua, sem sacramentos,
Morrer tão novo, Jesus! Jesus!

Adeus! E os dias nascem e morrem;
Tanta água e falta para beber!
E já puseram (rumores correm)
Sola de molho para comer.

Adeus! — Bons dias, meu Comandante,
A nossa sorte... morrer, talvez...
E o rude velho segue pra diante:
E o rude velho segue pra diante:
— Morrer, meu Amo, só uma vez!

Adeus! — Gajeiro! — boa criança!
Que vais em cima no mastaréu,
Vê lá se avistas terras de França...
- Ah nada avisto, só água e céu!

Adeus! Ó Lua, Lua dos Meses,
Lua dos Mares, ora por nós!...
Ó Mar antigo dos Portugueses,
Ó Mar antigo dos Portugueses,
Ó Mar antigo dos meus Avós!

Adeus! Ai triste de quem embarca
Sem ver a sorte que o espera ao fim!
Façamos vela prà Dinamarca,
Que Hamlet espera no Cais por mim.

Adeus! À Vida sinto-me preso,
(Morrer não custa) pelas paixões...
Vamos ao fundo, meu Anjo, ao peso
Vamos ao fundo, meu Anjo, ao peso
Das minhas trinta desilusões!

Adeus! Que estranha Visão é aquela
Que vem andando por sobre o mar?
Todos exclamam de mãos para ela:
«Nossa Senhora! que vens a andar!»

Adeus! A Virgem com um afago,
Pôs manso o Oceano, que assim o quis:
O Mar agora parece um lago,
O Mar agora parece um lago,
O rio Lima do meu País!

Adeus! Menina, que estás rezando,
Desceu a Virgem e já te ouviu:
Agora, quero ver-te cantando,
A Santa Virgem já me acudiu.

Adeus! Os Ventos são meigas brisas
E brilha a Lua como um farol!
Ponde nas vergas vossas camisas,
Ponde nas vergas vossas camisas,
Ó Marinheiros, que a Lua é o Sol!

Adeus! «St. Jacques» lá entra a barra,
Nossa Senhora vai indo a pé:
Com seu cabelo fez uma amarra,
Lá vai puxando, que boa ela é!

Adeus! Eu parto, mas volto, breve,
À tua casa que deixei lá!
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!

Paris, 1893.



É Assim a Minha Alfama



Letra: Alexandre Fontes
Música: Jorge Fontes
Intérprete: António dos Santos* (in LP "É Assim a Minha Alfama", Roda/J.C. Donas, 1977)


"Quantos becos tem Alfama?",
Insististe em perguntar;
Mas Alfama não engana
E quer que a vás visitar.

Anda ver estas vielas
Que nos falam do passado,
Tão antigas e tão belas
Onde mora o velho fado.

Andam mil pregões no ar
Logo que o dia começa,
As varinas par a par
De canastrinha à cabeça.

Pelos santos populares
Tudo baila nas vielas;
E os namoricos aos pares
Dançam à luz das estrelas.

É assim a minha Alfama:
Gente de valor profundo,
Bairro tão cheio de fama
Espalhada pelo mundo.


* Conjunto de Jorge Fontes
Produção – Carlos Cunha
Técnico de som – Fernando Santos



Nostalgia de Alfama



Letra: António Veloso Reis Camelo
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Nostalgia de Alfama", Columbia/VC, 1965; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Eu não sei que tem Alfama
P'ra que dela me prendesse;
Não na sente quem a infama
Com famas que não merece.

Nos seus becos e vielas,
Onde o sol põe tanta graça,
Há flores e há donzelas;
Não há apenas desgraça.

Tanto as casas se entrelaçam
P'ra caberem dentro dela
Que os namorados se abraçam
De janela p'ra janela.

Quando acesas permanecem
E já tudo adormeceu,
Há janelas que parecem
Dependuradas do céu.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Recordando



Letra: António Veloso Reis Camelo
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Alfama-Lisboa", Columbia/VC, 1964; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)




Existe ainda em Alfama
Uma casa pequenina
Onde habitava uma dama
Que tratavam de menina.

Nesse tempo tal casinha
Era toda cor-de-rosa
E, a condizer, a velhinha
De sua graça era Rosa.

Hoje a casa é amarela
Como tantas em Alfama;
Outra dama vive nela
Mas não sei como se chama.

Para mim, seja quem for,
Essa casa tão airosa,
Mesmo mudada de cor,
É a da menina Rosa.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Fado Triste



Letra e música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Nostalgia de Alfama", Columbia/VC, 1965; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Do sonho fiz o meu fado,
Fado triste, amargurado;
E desde então vou vivendo
Ao meu fado acorrentado.

Fado triste, minha oração
Que todos os dias rezo
Com a maior devoção;
Tu és o meu padre-nosso,
As minhas ave-marias
Que rezando vou ganhando
O pão de todos os dias.

Das minhas lágrimas sem fim
Fiz um rosário p'ra mim;
E uma a uma desfiando
Às minhas penas dou fim.

Tu és o meu padre-nosso,
As minhas ave-marias
Que rezando vou ganhando
O pão de todos os dias.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Fado É Canto Peregrino



Letra: Augusto Mascarenhas Barreto
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Fado É Canto Peregrino", Columbia/VC, 1968; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Fado é canto peregrino,
Fado de ontem é saudade,
Fado de hoje é ansiedade,
O de amanhã é destino.


Nasce quando nasce a lua,
Morre ao alvor matutino,
Vagueia de rua em rua:
Fado é canto peregrino.

Se recorda uma aventura
Da risonha mocidade
É lembrança que perdura:
Fado de ontem é saudade.

Canto da alma perdida
Pelos cantos da cidade
É mágoa da própria vida:
Fado de hoje é ansiedade.

Tem sempre um quê de pecado,
Algo também de divino;
Amor que passou é fado,
O de amanhã é destino.


* António Pessoa – viola
Liberto Conde – viola baixo
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Gaivotas em Terra



Letra: Augusto Mascarenhas Barreto
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Fado É Canto Peregrino", Columbia/VC, 1968; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)




Gaivotas em terra, de asas fechadas,
Marujos sem rumo, num banco dum bar;
Barcaças dormentes, no cais ancoradas,
Meninas morenas que pensam casar...

Preciso é que voem, que batam as asas;
Preciso é que deixem as altas janelas;
Preciso é que saiam as portas das casas;
Preciso é que soltem amarras e velas...

Marujos sozinhos, pensando outro mundo...
Meninas em casa, fiando desejo...
Preciso é que cruzem seu olhar profundo;
Preciso é que colem as bocas num beijo!

Mãos de marinheiro não temem procelas,
Se houver outras mãos, p'ra além vendaval;
Rezando por ele e tecendo outras velas
Mais brancas, mais belas, do seu enxoval!


* António Pessoa – viola
Liberto Conde – viola baixo
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Minha Alma de Amor Sedenta



Letra e música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Alfama-Lisboa", Columbia/VC, 1964; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)




Minha alma de amor sedenta,
Barco sem rumo e sem Deus,
Anda à mercê da tormenta
Desse mar dos olhos teus.

Essa dádiva total,
Que me pedes hora a hora,
É o que minha alma te dá
Quando de amor por ti chora.

Se um dia te perder
Jurarei virado aos céus;
E os perdões que Deus me der,
Meu amor, são todos teus.

É uma causa perdida
O ser proibido amar:
Quem perde um amor na vida
Jamais devia cantar.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



As Tuas Mãos



Letra: Figueiredo Barros
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Alfama-Lisboa", Columbia/VC, 1964; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Ai, senhora, as tuas mãos
São torres de catedral
Em que se acolhe meu corpo
Cansado de tanto mal.

As tuas mãos são o oásis
Onde encontro o lenitivo
Para o cansaço da vida
Que vou tendo sem motivo.

As tuas mãos são a manta
Que me cobre a nudez
Desta miséria que sinto
E que eu vejo e tu não vês.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Ficas a Saber



Letra: Maria Alexandrina
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Fado É Canto Peregrino", Columbia/VC, 1968; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)




Tinha um coração e dei-to,
E agora que não é meu
Sinto até no meu peito
Outro maior do que o teu.

Foi só depois de eu dizer
Que te amava loucamente
Que tu quiseste saber
Quanto é que um louco sente.

Todo o amor repartido
Ensina à gente a maneira
De ter num beijo sentido
O sabor da vida inteira.

Porque num beijo trocado
Com amor louco e profundo
Fica um tratado assinado
Mais forte que as leis do mundo.


* António Pessoa – viola
Liberto Conde – viola baixo
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Disseste-me Adeus



Letra: Carlos Miguel de Araújo
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Nostalgia de Alfama", Columbia/VC, 1965; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Disseste-me adeus um dia,
Fiz tudo para o esquecer;
Na tua a minha mão fria
Sentiu-se triste morrer.

Na vida não vale a pena
Sentir saudades de alguém;
Tudo morre e tudo esquece,
Morre a saudade também.

Morre a saudade também
No coração onde mora;
Saudades quem as não tem
Quando uma guitarra chora.

Quando uma guitarra chora
Fala pela boca da gente;
Saudades quem as não tem,
Saudades quem as não sente.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Uma Chuva de Tristeza



Letra: Mendes de Carvalho
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Alfama-Lisboa", Columbia/VC, 1964; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Uma chuva de tristeza
Caiu no meu coração;
E o mar ficou-me deserto
Morrendo numa canção.

Bebo p'ra não me lembrar,
Para de ti me esquecer;
Mas tu és a minha fonte
E eu só nela sei beber!

Porque me deixaste, amor,
Se outra mulher não existe?
Tu ficaste em mim gravada
E a saudade persiste!

Vem depressa! Volta, amor!
Eu vou morrendo em saudade;
Não posso ficar sem ti,
Tu és a minha verdade!


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Novamente Primavera



Letra: Alexandre Fontes
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in LP "É Assim a Minha Alfama", Roda/J.C. Donas, 1977)


Meu amor, a primavera
Acabou e tenho pena;
Nosso sonho foi quimera
Na paisagem amena.

Tanta folha pelo chão
Pisada a todo o momento;
E a nossa velha afeição
Transformou-se num tormento.

Primavera, primavera
Com andorinhas voando...
Quem me dera, quem me dera
Ver o meu amor voltando!

Na minha vida vazia
Meu coração vive à espera
Que o nosso amor seja um dia
Novamente primavera!


* Conjunto de Jorge Fontes
Produção – Carlos Cunha
Técnico de som – Fernando Santos



De Mãos Amarradas



Letra: Alexandre Fontes
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in LP "É Assim a Minha Alfama", Roda/J.C. Donas, 1977)


Eu passo o tempo a pensar
Por que é que à noite o luar
Traz minha voz magoada;
Folha levada pelo vento,
Caída no esquecimento,
Pela rua abandonada.

Trago mágoas no meu peito
E no meu sonho desfeito
Vejo-te sempre distante;
Sonho de amor indeciso,
Criança sem ter sorriso,
Beijo falso duma amante.

Madrugada sem ter sono
Lembrando o teu abandono
Não consigo adormecer;
Andam no céu trovoadas
E eu de mãos amarradas
Inda espero por te ver.

Andam no céu trovoadas
E eu de mãos amarradas
Inda espero por te ver.


* Conjunto de Jorge Fontes
Produção – Carlos Cunha
Técnico de som – Fernando Santos



Ilusão Perdida



Letra e música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Nostalgia de Alfama", Columbia/VC, 1965; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Amei uma vez na vida,
Mas não pude ser amado
Por uma formosa cigana;
Era de raça diferente,
Diferente a sua cor
E tinha uma lei tirana.

Disse-me um dia, a chorar,
Essa linda ciganita:
"Perdoa-me, meu amor!
Jamais poderei ser tua
Porque só posso casar
Com alguém da minha cor!"

A soluçar, concordei,
Enchi-lhe a boca de beijos,
Foi a nossa despedida;
E com a raiva nos olhos
Vi partir a caravana
Que levava a minha vida.

Não mais a tornei a ver,
Não sei se vive, se é morta,
Se anda pelo mundo fora;
Se lá longe, muito longe,
Me tenta agora esquecer
Como eu a recordo agora.

Nunca mais amei no mundo
A ninguém um só momento;
Já pouco me importa a vida:
Sou monge, um vagabundo
Encerrado no convento
Da minha ilusão perdida.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Partir é Morrer Um Pouco



Letra: Augusto Mascarenhas Barreto
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Fado É Canto Peregrino", Columbia/VC, 1968; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)




Adeus, parceiros das farras,
Dos copos e das noitadas;
Adeus, sombras da cidade;
Adeus, langor das guitarras,
Canto de esperanças frustradas,
Alvorada de saudade.

Meu coração, como louco,
Quer desgarrar-me do peito,
Transforma em soluço a voz;
Partir é morrer um pouco:
A alma de certo jeito
A expirar dentro de nós.

Voam mágoas em pedaços
Como aves que se não cansam,
Ilusões esparsas no ar;
Partir é estender os braços
Aos sonhos que não se alcançam
Cujo destino é ficar.

Deixo a minh'alma no cais;
De longe, canso sinais
Feitos de pranto a correr;
Quem morre não sofre mais,
Mas quem parte é dor demais:
É bem pior que morrer.

Quem morre não sofre mais,
Mas quem parte – é dor demais:
É bem pior que morrer.


* António Pessoa – viola
Liberto Conde – viola baixo
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Capa do EP "Alfama-Lisboa" (Columbia/VC, 1964)



Capa da compilação "Minha Alma de Amor Sedenta" (Columbia/VC, 1972)



Contracapa do LP "É Assim a Minha Alfama" (Roda/J.C. Donas, 1977)

13 setembro 2013

Celebrando Natália Correia



Quando se percorre a poesia escrita por mulheres ao longo do século XX português, o nome de Natália Correia continua a surgir como um dos que causaram uma repercussão mais duradoura, quer pela sua personalidade forte e polémica, quer pelo alcance da sua obra literária, na qual sempre se manifestou uma vocação poderosamente dionisíaca e por isso excessiva, capaz de apreender magicamente a realidade e de a transfigurar mediante uma rica imaginação metafórica, sobretudo a partir de "Dimensão Encontrada" (1957), já que os seus primeiros livros ("Rio de Nuvens", de 1947, e "Poemas", de 1955) exprimiam ainda uma atitude lírica mais tradicional.
É antiga a questão de saber até que ponto Natália Correia poderá ou não considerar-se uma escritora surrealista, embora nunca tenha pertencido a qualquer movimento com esse nome: definida algures por Claude Roy como «la violence surréaliste faite femme», a própria Autora terá admitido alguma proximidade com a visão surrealista do mundo, essencialmente no que toca a uma «identificação entre a poesia e a magia», na medida em que ambas procuram o acesso a uma alquimia libertadora. Trata-se, no fundo, de uma radical vontade criadora, de um desejo de libertar a linguagem de todos os constrangimentos e de dar livre curso à imaginação, como podemos sentir num texto que nos fala de uma ressurreição apta a transformar a morte em vida e a tristeza em alegria: «A harpa do vento / e os meus dedos de ventania / compuseram uma canção / da mais fantástica alegria. // (...) // É uma onda de magia / onde se enrolam os mortos / erguidos da terra fria / dum rosto que lhes pintou / a nossa melancolia.»
Foi sob o efeito do irresistível impulso dessa «onda de magia» que se construiu o essencial da escrita de Natália, em que um dos traços mais flagrantes consiste numa posição (sempre reafirmada) de rebeldia diante das instituições e dos poderes estabelecidos ou de quaisquer regras impostas pela força. Até certo ponto, é como um sinal dessa rebeldia que se compreendem as incursões da Autora no campo da poesia satírica e humorística, dirigida contra figuras ou acontecimentos da esfera política, como sucede na sequência das «Cantigas de Risadilha» — composta por poemas que ridicularizam episódios da vida parlamentar que Natália acompanhou enquanto foi deputada —, assim como em toda a "Epístola aos Iamitas" (1976), cujos sonetos constituem reflexões ora entusiásticas, ora sobretudo corrosivas, a respeito do Portugal pós-25 de Abril e disso a que na altura se chamou o P.R.E.C. (Processo Revolucionário Em Curso), perante o qual se manifesta por vezes uma dolorosa desilusão: «E veio Abril: cravos camonianos / aparelharam da liberdade as barcas. / Do verde pinho as flores foram-me enganos, / as tecelãs do sonho eram as parcas. // Da podridão variam os estados: / magicamente os nomes são mudados; / intacto o pasto vil das varejeiras.»
A mesma faceta surge igualmente em certos poemas isolados, como a célebre «Queixa das Almas Jovens Censuradas», fazendo eco de um profundo grito de revolta que preza, acima de tudo, a liberdade do poeta contra todas as formas de sujeição. E é também isso a estar em jogo num outro texto muito conhecido («A Defesa do Poeta»), aliás escrito com a intenção de ser lido no Tribunal Plenário que no tempo da ditadura acusou Natália Correia: «Senhores juízes sou um poeta / um multipétalo uivo um defeito / e ando com uma camisa de vento / ao contrário do esqueleto. // (...) // Sou (...) / uma avaria cantante / na maquineta dos felizes. / (...) // Sou uma impudência a mesa posta / de um verso onde o possa escrever. / Ó subalimentados do sonho! / A poesia é para comer.»
Lido este excerto, convirá atender a dois aspectos: por um lado, mesmo levando em conta o intuito profundamente afirmativo do texto (que desenvolve a vigorosa declaração: «sou um poeta»), o lugar de quem escreve poesia surge relacionado com uma excepcionalidade inquietante ou perturbadora, já que se identifica com um «defeito» ou uma «avaria cantante / na maquineta dos felizes», que corresponderiam à cinzenta maioria; por outro lado (e refiro-me agora aos dois últimos versos), acentua-se a dimensão gustativa, sensorial ou carnal da poesia, inscrevendo-se num entendimento global do mundo em que «o espírito é tão real como uma árvore», pressupondo uma integração harmoniosa na natureza. Ficamos, portanto, dentro de uma unidade fundamental entre todas as coisas humanas e cósmicas, naturais e divinas: «Vem das estrelas o sangue que nos guia / E na amorosa perfeição da carne / Está toda a eternidade resumida.»
Perante versos como estes, pode dizer-se sem grande exagero que Natália Correia nos deu, do princípio ao fim da sua obra, uma visão religiosa da existência, alicerçada não em qualquer adoração de um Deus ou num rito eclesiástico específico, mas numa espécie de comunhão pagã entre o eu e tudo o que o rodeia, religando-se a um universo do qual pretende auscultar os sinais, como se estivesse diante de um segredo que só a alguns é permitido desvendar e que a poesia aguarda, como se esperasse «o romper da manhã na noite mística». De facto, na escrita de Natália o conhecimento quase nunca se produz pela via intelectual e corresponde, acima de tudo, ao amor: fiel à tradição lírica portuguesa e à sua predilecção por temas amorosos, a Autora convoca sentimentos simultaneamente carnais e espirituais, porque neste caso é a partir dos sentidos que se intui a hipótese (ou a certeza?) de um sentido que os excede — veja-se o início do poema «Pórtico»: «Corpo, alma, razão, já os cantei, / estreme, sem me isentar em pseudónimos. / Antífrases de mim as assinei. / Contrários indaguei: eram sinónimos. // O Espírito agora cantarei. / Corpo, alma, razão lhe são compósitos.»
Também enquadrado no mesmo propósito de união e ampla comunhão universais está um politeísmo estrutural que leva a poesia desta «feiticeira cotovia» a celebrar a beleza do mundo, conotando-a com a presença do sagrado que o povoa e assim reflecte os poderes de uma pluralidade de deuses e deusas cujo culto, em vez de exigir submissão — «Os deuses não nos querem de joelhos» —, nos convida, pelo contrário, a um esfusiante cântico da vida e do amor, do qual podem ser emblemas os Jardins de Adónis, onde se recusam os labirintos da racionalidade e se declara a superioridade das sensações, tornadas elas mesmas divinas: «Sentir nos baste. Ideias são reveses. / Da vida, as naturais disposições, / Sigamos, Flávio. Até que sejam deuses / As nossas sensações.»
Perto das sensações mais vibrantes se encontram, aliás, todos os elementos de uma natureza cujo incognoscível daimon feminino se condensa na famosa imagem da «Mátria», nem sequer demasiadamente erotizada no sentido mais comum que atribuímos à sexualidade humana, mas sobretudo transmissora de paz, de bem-estar e de reconciliação com um estado primitivo, maternal ou genesíaco do universo: «E se o mundo em ti principiava, / No teu mistério entre astros absortos, / Suavemente, ó mãe, tudo termina.» Também o Amor (com maiúscula) ultrapassa, deste modo, as habituais fronteiras que limitam a consciência individual, elevando-se ao mais alto grau de gnose mística e adquirindo o estatuto de uma sabedoria esotérica comparável à de uma verdadeira alquimia: «Indemne atravessei as labaredas / porque o Amor faz a Obra / e o fogo faz o Amor.»
Para concluir, digamos que toda a poesia de Natália Correia configura um «ofício das trevas», mergulhando nas águas de mistérios que não ousa decifrar e assentando numa ideia (surrealista) de libertação total do ser, num processo de comunhão iniciática. Trata-se de um ritual posto em jogo não apenas graças aos já mencionados poderes alquímicos da escrita, mas também por uma abertura à «Saudade» portuguesa que sempre fascinou a Autora — essa «retráctil flor da ausência», cujo místico perfil se recorta sobre o passado e sobre o futuro, parecendo conferir ao conjunto da obra de Natália Correia uma indestrutível crença em qualquer coisa que extravasa os mesquinhos limites da razão humana. Na esteira dos românticos ou dos seus herdeiros surrealistas, é sempre muito para lá de tais limites que esta poesia nos deseja convocar, arrastando-nos para uma dimensão soberanamente libertadora da realidade e da linguagem — como se lê no texto final dos "Sonetos Românticos", que funciona como um «credo»:
«Creio nos anjos que andam pelo mundo, / Creio na Deusa com olhos de diamantes, / Creio em amores lunares com piano ao fundo, / Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes, // Creio num engenho que falta mais fecundo / De harmonizar as partes dissonantes, / Creio que tudo é eterno num segundo, / Creio num céu futuro que houve dantes, // Creio nos deuses de um astral mais puro, / Na flor humilde que se encosta ao muro, / Creio na carne que enfeitiça o além, // Creio no incrível, nas coisas assombrosas, / Na ocupação do mundo pelas rosas, / Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen».

FERNANDO PINTO DO AMARAL ("Violência e Paixão", prefácio a "Antologia Poética", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002)


Natália Correia [biografia e bibliografia >> aqui] é, indubitavelmente, uma das três maiores poetisas (ou mulheres poetas, se se preferir) do século XX português (as outras duas são Florbela Espanca e Sophia). Tal evidência não foi, no entanto, suficiente para a direcção de programas da Antena 1 tomar a iniciativa de a homenagear no 90.º aniversário do seu nascimento que hoje se comemora. Isso podia (e devia) ser feito, sem prejuízo da emissão de um programa evocativo (produzido de propósito ou resgatado do arquivo histórico), com a transmissão ao longo do dia de poemas de Natália, cantados ou recitados. O difícil seria mesmo escolher pois é muito e bom o que existe em ambas as formas, gravado em disco, quer avulsamente quer em edições temáticas (destas referenciei quatro – vide as capas ao fundo – mas é provável que haja mais).
A título demonstrativo, o blogue "A Nossa Rádio" apresenta uma mão-cheia desses nutritivos espécimes, pois como afirmava Natália «a poesia é para comer» e, ao contrário de Rui Pêgo, não somos «subalimentados do sonho» e gostamos que os visitantes deste sítio tenham a oportunidade de se alimentarem.
A talhe de foice, uma interrogação: a 'playlist' que tem rodado na Antena 1 inclui alguma canção baseada em poema(s) de Natália Correia? Era capaz de apostar que nem uma...



AUTOGÉNESE



Poema de Natália Correia (de "O Diário de Cynthia", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 319-321; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 241-243)
Recitado pela autora* (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003)


Nascitura estava
sem faca nos dentes
cómoda e impura
de não ter vontade
de bater nas gentes.

Nasce-se em setúbal
nasce-se em pequim
eu sou dos açores
(relativamente
naquilo que tenho
de basalto e flores)
mas não é assim:
a gente só nasce
quando somos nós
que temos as dores;

pragas e castigos
foram-me gerando
por trás dos postigos
e fórceps de raiva
me arrancaram toda
em sangue de mim.

Nascitura estava
sorria e jantava
e um beijo me deste
tu Pedro ou Silvestre
turvo namorado
do verão ou de outono
hibernal afecto
casca azul do sono
sem unhas do feto.

Eu nasci das balas
eu cresci das setas
que em prendas de sala
me foram jogando
os mulheres poetas
eu nasci dos seios
dores que me cresceram
pomos do ciúme
dos que os não morderam;

nasci de me verem
sempre de soslaio
de eu dizer em junho
e eles em maio
de ser como eles
às vezes por fora
mas nunca por dentro
perfil de uma estátua
que não sou de frente.

Nascitura estava
e mais que imperfeita
de ser sorte ou dado
que qualquer mão deita.

Eu nasci de haver
os bairros da lata
do dedo que escapa
dos sapatos rotos
da fome que mata
o que quer nascer
e que o sábio guarda
em frascos de abortos;

eu nasci de ver
cheirar e ouvir
dum odor a mortos
(judeus enlatados
para caberem mais
mas desinfectados)
pelas chaminés
nazis a sair
de te ver passar
de me despedir
de teus olhos tristes
como se existisses.

Nascitura estava
tom de rosa pulcra
eu me declinava
vésper em latim:
impura de todos
gostarem de mim.


* Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Masterização – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Manhã Cinzenta (À partida de S. Miguel)



Poema: Natália Correia (in "Portugal, Madeira e Açores", Abril de 1946; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 11; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 38)
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz* (in CD "Herdeiros da Maresia", Carlos Alberto Moniz, 2003)


Ai madrugada pálida e sombria
em que deixei a terra de meus pais...
e aquele adeus que a voz do mar trazia
dum lenço branco, a acenar no cais...

O meu veleiro — era de espuma fria —
levava-o o fervor dos vendavais.
À passagem gritavam-me: onde vais?
Mas só o meu veleiro respondia.

Cruzei o mar em direcções diferentes.
Por quantas terras fui, por quantas gentes,
nesta longa viagem que não finda.

Só uma estrada resta — mais nenhuma:
na Ilha que o passado envolve em bruma,
um lenço branco que me acena ainda...


* Carlos Alberto Moniz – voz
Ricardo Dias – acordeão
João Paulo Esteves da Silva – piano
Davide Alfano – violoncelo
Captação de som e direcção técnica – Mário Barreiros



OS NUMES DOS NOMES



Poema de Natália Correia (de "O Espírito É Tão Real Como Uma Árvore", in "O Dilúvio e a Pomba", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1979; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 156-157; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 459-460)
Recitado por Tânia Silva* (in CD "Poesia de Natália Correia", col. Selecta, Música XXI, 2007)


Não por acaso Natália me puseram:
minha mãe que era fada lá sabia.
Posta a graça ao afino do mistério
para estar sempre a nascer é que eu nascia.

Da avó que era louca veio o Rego
em conduta dos anjos que ela via.
Desvairanças aladas bom emprego
São, se herdadas em grão de poesia.

Pelo avô, do matagal de nomes,
Sai-me o Raposo. Aqui ninguém me apanha.
Inomeável três vezes é o Esposo,
para fazer de solteira há que ter manha.

Também é fortuita a Oliveira
De folhas de ouro no meu nome oclusa:
a alma é paz de ideias à lareira
que o pudor em mau génio não acusa.

E Medeiros, medeiros quantas medas
de trigo sideral para que em signo
apurada a espiga entre as estrelas
Fecundo seja meu trigal de Virgo.

Vem por fim a justiça na Correia:
perdoar vendilhões só a chicote.
Absolva-os a Virgem que faz meia.
Não eu. Adivinhai-me. Eu dei o mote.


* Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias
Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn



Cântico do País Emerso



Poema: Natália Correia (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: Amélia Muge
Arranjo: Michales Loukovikas
Intérpretes: Amélia Muge* e Michales Loukovikas (in Livro/CD "Periplus: Deambulações Luso-Gregas", Periplus (AM-ML) / Eter Music, 2012)


[instrumental]

Não sou daqui das praias da tristeza
Do insone jardim dos glaciares
Levai minha nudez minha beleza
E colocai-a à sombra dos palmares.

Não sou daqui. A minha pátria não é esta
Bússola quebrada dos impulsos.
Sou rápida     Sou solta     talvez nuvem
Nuvens minhas irmãs que me argolais os pulsos!
Tomai os meus cabelos     Levai-os para a floresta.

É lá que o meu amigo pastor de estrelas pasce
O marulho das folhas com pássaros nas vozes
O sol adormecido nos braços da giesta
A manhã rarefeita na corrida do alce
O luar orbitado no salto da gazela
Os animais velozes do sítio onde se nasce...


* Amélia Muge – voz
Filipe Raposo – piano
Harris Lambrakis – ney (flauta oriental)
José Martins – percussão, sintetizador
José Salgueiro – percussão
Kyriakos Gouventas – violino
Ricardo Parreira – guitarra portuguesa
Kostas Theodorou – contrabaixo, percussão
Direcção artística – Amélia Muge e Michales Loukovikas
Produção – Amélia Muge, Michales Loukovikas e José Martins
Gravado entre Maio e Dezembro de 2011
Estúdios: Tumbuktu (Lisboa), por André Fernandes e Nuno Costa; Aeolia (Atenas), por Thodorés Manolides; AJM (Sobreda) e Adufe Música (Valejas), por José Martins
Gravações móveis em: Salónica, por Christos Megas; Guimarães, por José Martins
Misturado em AJM (Sobreda), por José Martins e Michales Loukovikas, entre Julho e Dezembro de 2011
Masterizado por Tó Pinheiro da Silva, em Dezembro de 2011



CÂNTICO DO PAÍS EMERSO (VIII)



Poema de Natália Correia (in "Cântico do País Emerso", Lisboa: Contraponto, 1961; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 282-283; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 215-217)
Recitado pela autora* (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003)


Não sou daqui. Mamei em peitos oceânicos
Minha mãe era ninfa meu pai chuva de lava
Mestiça de onda e de enxofres vulcânicos
Sou de mim mesma pomba húmida e brava.

De mim mesma e de vós, ó Capitães trigueiros
Barbeados pelo sol penteados pela bruma!
Que extraístes do ar dessa coisa nenhuma
A génese a pluma do meu país natal.

Não sou daqui das praias da tristeza
Do insone jardim dos glaciares
Levai minha nudez minha beleza
E colocai-a à sombra dos palmares.

Não sou daqui. A minha pátria não é esta
Bússola quebrada dos impulsos.
Sou rápida     Sou solta     talvez nuvem
Nuvens minhas irmãs que me argolais os pulsos!
Tomai os meus cabelos     Levai-os para a floresta.

É lá que o meu amigo pastor de estrelas pasce
O marulho das folhas com pássaros nas vozes
O sol adormecido nos braços da giesta
A manhã rarefeita na corrida do alce
O luar orbitado no salto da gazela
Os animais velozes do sítio onde se nasce...

Levai-me, peixes da minha pele itinerante!
Quero ir à pesca colher no espelho da laguna
O lírio da nudez a perdida inocência
O coração do bosque a dar-se sem penumbra
Visto através da minha transparência.

Levai-me, ó minhas mãos branco exílio de ramos!
Meus dedos virtuais folhas de palma!
Sois os órgãos sensíveis da choupana
Onde quero deitar a minha alma.

Levai-me, olhos meus implícitas montanhas
Florescência de cumes para poisarem águias!

Quero ter pensamentos que me cheirem a lenha
Esfregar o espírito em plantas aromáticas
Uma alma com pétalas guerrilheiras selvagens

Abertas a uma lua de prata verdadeira
Uma alma que seja verde que tenha asas
E dance nua para os deuses da fogueira...

Jogai, jogo do arco laço azul infância coisas
Que o desencanto confisca e abandona na cave!
Como uma criança joga papagaio     jogai
Este farrapo de ânsia poeira da cidade
onde ninguém tem pressa de ser ave;

E tu, anjo de pedra do meu grito!      Anjo
Esculpindo em pranto seco!      Anjo enxuto!
Tu que me afogas o olhar no infinito
e as mãos no lodo dum gesto irresoluto

Tece, ó aranha de luz no esconso da garganta!
Coração de andorinha estrangulada!
O luar o jardim a cigarra que canta
O leito de verdura para eu me dar à esperança,
Rosa que aspiro num esquivo vão de escada.


* Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Masterização – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Queixa das Almas Jovens Censuradas



Poema: Natália Correia (in "Dimensão Encontrada", Lisboa: Edição de autor, 1957; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 167-168; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 121-122)
Música: José Mário Branco
Intérprete: José Mário Branco* (in LP "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. EMI-VC, 1996; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003)




Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens de assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.


* José Mário Branco – voz e viola acústica de base
Willy Lockwood – contrabaixo
Gilbert Roussel – acordeão
Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Gravado no Strawberry Studio, Château d’Hérouville (perto de Paris), em Fevereiro de 1971
Técnico de som – Gilles Sallé
Masterização digital – José Fortes



A DEFESA DO POETA



Poema de Natália Correia (in "A Mosca Iluminada", Lisboa: Quadrante, 1972; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 443-444; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 330-331)
Recitado pela autora* (in LP "Amália/Vinicius", Decca/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1988, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido coiro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.


Nota da autora: «Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado, que sensatamente me advertiu de que essa minha insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.» (in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 443; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 330)

* Gravado em casa de Amália Rodrigues, na Rua de São Bento, Lisboa, a 19 de Dezembro de 1968
Gravação e mistura – Hugo Ribeiro



Uma Só Voz de Inumeráveis Bocas?



Poema: Natália Correia (de "Inéditos 1985/90", in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 303; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 555)
Música: António Afonso
Arranjo: José Moz Carrapa
Intérprete: João Afonso* com António Afonso (in CD "Zanzibar", Universal, 2002)


De Eva a mulher astronauta
vivo todas as idades,
um fausto de lua lauta
no brilho das brevidades.

Canta-me um louco na pauta,
demónios e divindades
compartilham essa flauta
das minhas variedades.

Ó universo inventado
de noutros me perceber.
Tanto tempo utilizado
numa manhã por nascer!

Sujeitos a estranhas leis
com a sua loucura a sós
solitários como os reis
os poetas dizem: nós.

E pela mesma magia
que ainda ninguém entendeu,
no côncavo da poesia
um deus que falta diz: eu.


* António Afonso – voz
Rui Alves – percussão de dedos
António Pedro – percussões
João Frazão – baixo
João Afonso – vozes
José Moz Carrapa – guitarras, bicicleta
Pré-produção – José Moz Carrapa e António Afonso
Produção – José Moz Carrapa
Produção executiva – Paulo Salgado / Vachier & Associados
Gravado por Jorge Avillez, na Verdizela - Seixal (assistido por Nuno Rebocho) e Sassoeiros - Cascais, entre Junho e Agosto de 2001
Misturado por Jorge Avillez e José Moz Carrapa, em Portalegre
Pós-produção – estúdio MDL, Paço d'Arcos
Masterizado por António Pinheiro da Silva, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



E eu sem amor...



Poemas: Natália Correia ("Já luzem as galas" e excerto de "Mocinhas gráceis, fungíveis") [textos integrais >> abaixo]
Música: Afonso Dias
Intérprete: Afonso Dias* com Tânia Silva (in CD "13", Bons Ofícios - Associação Cultural, 2010)


Já luzem as galas
Do Maio florido.
Iria à bailada
Mas não tenho amigo.
Vêm as andorinhas
No tempo da flor.
Bailam as meninas.
E eu sem amor...

Por galas luzidas
Do florido Maio,
Louçã bailaria
Mas não tenho amado.
Voam as andorinhas
À volta da flor.
Folgam as meninas.
E eu sem amor...

Já murcham as galas
Do Maio florido.
Perdi a bailada
Por não ter amigo.
Vão-se as andorinhas,
Cai do tempo a flor.
Guardam-na as meninas.
E eu sem amor...

Galas já sumidas
Do florido Maio
Porque dás bailias
Se negais amado?
Fogem as andorinhas
Do tempo sem flor.
Sonham as meninas.
E eu sem amor...

Mocinhas gráceis, fungíveis
Mimosas de carne aérea
Que pela erecção dos centauros
Passais como doida hera!
Por ardentes urdiduras
De Afrodite que abonais
Passais como queimaduras
E tudo em fogo deixais.

Já luzem as galas
Do Maio florido.
Iria à bailada
Mas não tenho amigo.
Voam as andorinhas
No tempo da flor.
Bailam as meninas.
E eu sem amor...

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Adriano St. Aubyn – piano, percussões, calções, coros
Afonso Dias – guitarras, calças de ganga, kazoo, coros e mais umas coisas
Ana Marques – coros
Tânia Silva – voz solista (em "E eu sem amor")
Tó Correia – contrabaixo e coros
Virgolino Zacarias "Ben" – saxofone soprano
Paula St. Aubyn – coros
Arranjos e direcção musical – Adriano St. Aubyn
Gravado em Faro, entre Maio e Setembro de 2010
Captação e masterização – Adriano St. Aubyn
Misturas – Adriano St. Aubyn e Afonso Dias



Já luzem as galas

(Natália Correia, poema III de "Cantigas de Amigo", in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 403-404; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 621-622)


Já luzem as galas
Do Maio florido.
Iria à bailada
Mas não tenho amigo.
       Vêm as andorinhas
       No tempo da flor.
       Bailam as meninas.
       E eu sem amor...

Por galas luzidas
Do florido Maio,
Louçã bailaria
Mas não tenho amado.
       Voam as andorinhas
       À volta da flor.
       Folgam as meninas.
       E eu sem amor...

Já murcham as galas
Do Maio florido.
Perdi a bailada
Por não ter amigo.
       Vão-se as andorinhas,
       Cai do tempo a flor.
       Guardam-na as meninas.
       E eu sem amor...

Galas já sumidas
Do florido Maio
Porque dás bailias
Se negais amado?
       Fogem as andorinhas
       Do tempo sem flor.
       Sonham as meninas.
       E eu sem amor...



Mocinhas gráceis, fungíveis

(Natália Correia, poema V de "Sete Motivos do Corpo", in "Armistício", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 248-250; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 519-521)


Mocinhas gráceis, fungíveis
Mimosas de carne aérea
Que pela erecção dos centauros
Trepais como doida hera!
Por ardentes urdiduras
De Afrodite que abonais
Passais como queimaduras
E tudo em fogo deixais.

Ofegar de onda retida
Na ocupação epidérmica
De serdes a exactidão
Florida da primavera,
Todas de luz invadidas,
Sois, porém, as irreais
Bonecas de sol sumidas
No fulgor com que alumbrais.

Lá do fundo dos desejos
Chegais macias e quentes
Com violas nos cabelos,
Nas ancas, quartos crescentes;
Nas pernas, esguios confeitos,
Na frescura, o vermelhão
De uma alvorada que rompe
Em seios de requeijão.

Enleais, mas se enleadas,
Ó volúveis, ó felinas!
Saltais fazendo tinir
Risadas de turmalinas;
E com as asas do segredo
Que vos faz misteriosas
— Pois sendo divinas, sois
Do breve povo das rosas —,
Adejais de beijo em beijo
Já que para gerar assombros
Vicejam as folhas verdes
Que vos farfalham nos ombros.

Ó doçaria que em línguas
Acres sois torrões de mel,
Quando idoneamente ninfas
Vos vestis da vossa pele!
Se a olhares venéreos furtar-vos
Em roupas não vale a pena,
Pois mesmo vestidas estais
Nuinhas de graça plena,
De esbelta nudez plantai
Róseos calcanhares nos dias
Fugazes, não vá Vulcano
Levar-vos para sombras frias;
Não sequem os anos corpinhos
De aragem que os deuses sopram,
Que os anos são os malignos
Sinos que pela morte dobram.

Mocinhas fúteis que sois
Da vida as espumas altas
Leves de não vos pesar
O peso de terdes almas;
Que essa força de encantar,
Ó belas! cria, não pensa.
Ser perdidamente corpo
É a vossa transcendência.



Poema Destinado a Haver Domingo



Poema: Natália Correia (in "Passaporte", Lisboa: Edição de autor, 1958; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 205; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 153-154)
Música: Aníbal Raposo
Arranjo: Carlos Frazão
Intérprete: Helena Oliveira* (in CD "Helena Cant'Autores Açorianos", Helena Oliveira, 2007)
Versão original: Aníbal Raposo (in CD "Maré Cheia", MM Music, 1999)




Bastam-me as cinco pontas duma estrela
E a cor dum navio em movimento.
E como ave, ficar parada a vê-la.
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio do cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama dum domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa num flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre.

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.


* Carlos Frazão – piano
Mike Ross – contrabaixo
Manuel Rocha – violinos
Joaquim Manuel Teles (Quiné) – bateria e percussões
Helena Oliveira – voz
Direcção musical – Carlos Frazão e Helena Oliveira
Concepção artística – Helena Oliveira
Concepção de percussão – Joaquim Manuel Teles (Quiné)
Concepção de violinos – Manuel Rocha
Concepção de contrabaixo – Mike Ross
Produção executiva – Jorge Lavouras e Helena Oliveira
Gravação – Raul Resendes
Misturas – Raul Resendes e Carlos Frazão
Edição de voz e masterização – António Pinheiro da Silva



O Encontro



Poema: Natália Correia (de "Rebis", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 303; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 231-232)
Música: Amélia Muge
Arranjo: António José Martins
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "A Monte", Vachier & Associados, 2002)


Como se um raio mordesse
meu corpo pêro rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado

um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajecto me deixasse
uma açucena na anca

como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um couce
e eu não sofresse com isso

como se eu já existisse
antes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua

como se deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se deus fosse macho
e as minhas coxas de feno

como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor.


* Amélia Muge – voz
António José Martins – piano, percussões
Catarina Anacleto – violoncelo
José Manuel David – acordeão
Produção – António José Martins
Produção executiva – Vachier & Associados
Gravado no Estúdio AJM, Sobreda, em Dezembro de 2000 e Fevereiro de 2002, e no Auditório Fernando Lopes Graça, Almada, em Agosto de 2001
Misturado por João Magalhães, António José Martins e António Pinheiro da Silva
Masterizado por António Pinheiro da Silva



O TESTAMENTO DOS NAMORADOS



Poema de Natália Correia (de "Rebis", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 308; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 235-236)
Recitado pela autora* (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003)


Escolhamos as coisas mais inúteis
o verde água o rumor das frutas
e partamos como quem sai
ao domingo naturalmente.

Deixemos entretanto o sinal
de ter existido carnalmente:
da tua força um castiçal
da minha fragilidade um pente.

Esse hieróglifo essa lousa
deixemos para que uma criança
a encontre como quem ousa
um novo passo de dança.


* Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Masterização – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Projecto de Bodas



Poema: Natália Correia (in "Passaporte", Lisboa: Edição de autor, 1958; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 207-208; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 155-156)
Música: Teresa Gentil
Intérprete: Teresa Gentil* (in CD "Natália Descalça", Descalças - Cooperativa Cultural, 2006)


Hoje apetece que uma rosa seja
O coração exterior do dia;
E a tua adolescência de cereja
No meu bico de Isolda Cotovia.

Hoje apetece a intuição dum cais
Para a lucidez de não chegar a tempo;
E ficarmos violetas nupciais
Com a lua a celebrar o casamento.

Apetece uma casa cor-de-rosa
Com um galo vermelho no telhado
E os degraus duma seda vagarosa
Que nunca chegue à varanda do noivado.

Hoje apetece que o cigarro saiba
A ter fumado uma cidade toda.
Ser o anel onde o teu dedo caiba
E faltarmos os dois à nossa boda.

Hoje apetece um interior de esponja
E como estátua a que moldar o vento.
Deitar as sortes e, se sair monja,
Navegar ao acaso o meu convento.

Hoje apetece o mundo pelo modo
Como vai despenhar-se um trapezista.
Abrir mais uma flor no nosso lodo:
Pedir-lhe um salto e retirar-lhe a pista.

Hoje apetece que a cor dum automóvel
Seja o Egipto de novo em movimento;
E que no espaço duma gota imóvel
Caiba a possível capital do vento.

Hoje apetece ter nascido loiro
Como apetece ter havido Atenas;
E tu nas curvas rápidas de um toiro.
E eu quase inatingível como as renas.

Hoje apetece que venhas no jornal
Como um anúncio. Sem fotografia.
E inventar-te uma lenda de cristal
Para reflectir a minha biografia.


* Teresa Gentil – guitarra e voz
Maria Simões – voz (recitação)
Produção – Descalças - Cooperativa Cultural (S. Vicente Ferreira, ilha de São Miguel, Açores)
Produção executiva – Sara Seabra
Gravação – Cláudia Rangel, Joaquim Azevedo e Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, de 20 a 28 de Outubro de 2006
Mistura – Cláudia Rangel e Teresa Gentil



A EXALTAÇÃO DA PELE



Poema de Natália Correia (de "Biografia", in "Poemas", Porto: Edição de autor, 1955; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 62; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 69)
Recitado por Rita Neves* (in CD "Poesia de Natália Correia", col. Selecta, Música XXI, 2007)


Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias.


* Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias
Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn



REBIS



Poema de Natália Correia (de "Rebis", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 301; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 230)
Recitado pela autora* (in LP "Improviso", Guilda da Música/Sassetti, 1973; CD "Natália Correia: Poemas Ditos (e até Cantados) pela Autora", CNM, 2011)
Música: António Victorino d'Almeida




Oh a mulher como é côncava
de teclas ter no abdómen
de sua porção de seda
ser o curso do rio homem

como é mina espadanar de água
na cama abobadada de homem
gargalhada de lustre se sentada
dique de nuvens estar de dólmen!

Oh o homem como é ângulo
aberto de procurar
o sítio onde nasce o oiro
na salmoura da mulher mar

como é cúpula de copular
nadador de braçadas de mirto
como é nado de a nado formar
o quadrado da mulher círculo!

Oh os dois como se fundem
na preia-mar dos lençóis
despidos como fogo e água
deus de dois ventres ferozes
e quatro olhos de fava!


* António Victorino d'Almeida – teclados, percussão
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Fado



Poema: Natália Correia (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: Nuno Rodrigues
Intérprete: Patrícia Rodrigues* (in CD "Ternura", CNM, 2004)


Falam de nós na cidade
Porque dizem que te ofereço
Coisas de que não disponho,
Como se fosse maldade
Dar-te os olhos para berço
E os cabelos para sonho.

Dizem que quando eu me deito
Contigo uma lua negra
Vem fazer o casamento.
Como se fosse defeito
Saber que a vida não chega
Para o nosso sentimento.

Dizem que este desatino
É a maldita lembrança
Do pecado original?
Eu só sei que isto é destino
E mesmo que seja herança
É legado natural.

Porque é virtude tocar-te
Tu és mais puro que um deus
Purificas o que afagas.
Meu amor, só de afagar-te
A minha mão chega aos céus
E sou mais forte que as pragas.

Dizem que este desatino
É a maldita lembrança
Do pecado original?
Eu só sei que isto é destino
E mesmo que seja herança
É legado natural.

[instrumental]

Meu amor, só de afagar-te
A minha mão chega aos céus
Meu amor, só de afagar-te...

[instrumental]


* José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Jorge Fernando – viola
José Marino de Freitas – viola baixo
Arranjos e direcção musical – Jorge Fernando
Produção – Nuno Rodrigues



FADO

(Natália Correia, de "Inéditos 1947/55", in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 41-42; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 57-58)


Falam de nós na cidade
Porque dizem que te ofereço
Coisas de que não disponho,
Como se fosse maldade
Dar-te os olhos para berço
E os cabelos para sonho.
Dizem que quando eu me deito
Contigo uma lua negra
vem fazer o casamento.
Como se fosse defeito
Saber que a vida não chega
Para o nosso sentimento.
Lá porque o nosso passeio
É uma fuga das grades
Que em cada gesto partimos,
Dão um nome muito feio
Àquelas intimidades
Em que ficando, fugimos.
Dizem que este desatino
É a maldita lembrança
Do pecado original?
Eu só sei que isto é destino
E mesmo que seja herança
É legado natural.
Porque é virtude tocar-te
Tu és mais puro que um deus
Purificas o que afagas.
Meu amor, só de afagar-te
A minha mão chega aos céus
E sou mais forte que as pragas.



Sol Oculto



Poema: Natália Correia ("De amor nada mais resta que um Outubro", poema II de "O Beijo de Antikonie", in "O Dilúvio e a Pomba", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1979; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 168; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 467)
Música: Nuno Rodrigues
Intérprete: Patrícia Rodrigues* (in CD "Ternura", CNM, 2004)




De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.


* José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Jorge Fernando – viola
José Marino de Freitas – viola baixo
Arranjos e direcção musical – Jorge Fernando
Produção – Nuno Rodrigues



Rio de Nuvens (VIII)



Poema: Natália Correia (in "Rio de Nuvens", Coimbra: Edição de autor, 1947; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 22; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 45)
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Corpo Iluminado", Universal Music France, 2001)


Turva hora onde
Principia a noite
E o dia se esconde.

Hora de abandonos
Em que a gente esquece
Aquilo que somos
E o tempo adormece.

Nevoenta hora,
Hora de ninguém
Em que a gente chora
Não sabe por quem.

E tudo se esconde
Nessa hora onde
Por estranha magia
Brilha o sol de noite
E o luar de dia.


* Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Produção e arranjos – Custódio Castelo
Co-produção em estúdio – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier
Gravado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em Janeiro de 2001



Nictofagia



Poema: Natália Correia (in "Passaporte", Lisboa: Edição de autor, 1958; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 206; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 154-155)
Música: Aníbal Raposo
Intérprete: Aníbal Raposo* (in CD "A Palavra e o Canto", Açor/Emiliano Toste, 2005)


Se eu pudesse beber-te, ó noite,
Até encontrar o teu gosto,
Ou mordendo a ponta do açoite
Da tua treva no meu rosto,

Achasse a planície de lume
De que és uma aresta de estrelas
E sonhando sem peso e volume
Fosse um sonho do chão a tecê-las

E na praia de um trilo sem flauta,
Instrumento das harpas do fundo
Duma água escorrida da pauta
Da manhã mais antiga do mundo,

Me estendesses, ó noite florida
Das sementes que trazes no punho,
Uma manhã de ouro impelida
Pelo arco das brisas de Junho!


* Aníbal Raposo – voz
Carlos Frazão – piano
Eduardo Botelho – guitarras
Emanuel Bettencourt – percussões
Zica – baixo
Gravação, mistura e masterização – Eduardo Botelho, nos Estúdios M.M. Music, Ponta Delgada, nos anos de 2003 a 2005



Sete Luas



Poema: Natália Correia ("Há noites que são feitas dos meus braços", poema IV de "A recusa das imagens evidentes", in "Dimensão Encontrada", Lisboa: Edição de autor, 1957; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 162-163; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 117-118)
Música: Renato Varela (Fado Varela)
Arranjo: Ricardo J. Dias
Intérprete: Mísia* (in CD "Garras dos Sentidos", Erato, 1998)


Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum cometa.

Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
À mais longínqua onda do seu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.

Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil.


* Mísia – voz
Ricardo J. Dias – piano
Manuel Rocha – violino
Mário Franco – contrabaixo
Direcção musical – Ricardo J. Dias
Co-direcção – Mísia
Produção executiva – Ricardo J. Dias
Gravado nos Estúdios Xangrilá, Lisboa, em Outubro de 1997
Técnico de som – Nuno Pimentel
Mistura – Ricardo J. Dias e Mísia (Studios Plus XXX, Paris)
Técnico de som – Emmanuel Pothier
Masterização – Yves Delaunay (Dyam Studios, Paris)



Passageira da Noite



Poema: Natália Correia ("Em cada estrela cadente", in "Rio de Nuvens", Coimbra: Edição de autor, 1947; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 32; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 50-51)
Música: Francisco Viana (Fado Vianinha)
Intérprete: Patrícia Costa* (in CD "Um Cantar Velado e Lento", Patrícia Costa, 2010)


Em cada estrela cadente
Que vai perder-se no rio
Uma parte de mim parte
No mistério de um navio.

Sou passageira da noite,
Num veleiro de luar.
O porto onde eu embarquei
É onde devo parar.

A onda que vem à praia
E volta de novo ao mar,
Abriu um lírio na areia
Que a brisa vem desfolhar!

Passem navios ao longe,
Num jeito de não parar!...


* João Penedo – contrabaixo
Gravação e mistura – Francisco Maldonado, no Porto
Masterização – Francisco Maldonado, em Londres



E Se a Morte me Despisse



Poema: Natália Correia (quadras avulsas extraídas de vários poemas, in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I e II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999)
Música: Mário Pacheco
Intérprete: Mísia* (in CD "Drama Box", Liberdades Poéticas, 2005


Andam palavras na noite
Cansadas de me chamar.
Trago os meus lábios salgados
E algas no paladar.

Aberta a porta selada,
Sou pensada já não penso.
Se a Musa fica calada
Como dizer o silêncio?

Inúteis os meus anéis
Já os troquei por poemas,
Se hão-de perder-se os papéis
Voam com as minhas penas.

Só sei que, neste destino,
Vou atrás do que não sei...
E já me sinto cansada
Dos passos que nunca dei.

Ficou entre nós o tempo
Que fica uma andorinha.
Deu-nos essa primavera
Porque deu tudo o que tinha.

Ficou a morte caída
Antes de tempo no chão
E uma estátua dividida
Pela linha do coração.

Há dias em que sou monja
Há outros em que sou fêmea
E, embruxada, na fogueira
Do amor ponho mais lenha.

Como se eu já existisse
Antes do sol e da lua
E se a morte me despisse
Eu não me sentisse nua.

Quando me derem por morta
De lágrimas nem uma pinga:
Um trevo de quatro folhas
Tenho debaixo da língua.

E nada de biografia
Senão a da lua nova:
O que escreverem um dia
Os astros na minha cova.


* [Créditos gerais do disco:]
Mísia – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola de fado
Daniel Pinto – baixo acústico
Luís Cunha – violino
Ricardo Dias – piano e acordeão
António Aguiar – contrabaixo
Victor Villena – bandoneon (Hartenhauer)
Arranjos – José Manuel Neto, em colaboração com Carlos Manuel Proença
Conceito e produção artística – Mísia
Produção executiva – Inês Mota / Liberdades Poéticas, Lda.
Gravado nos Estúdios Xangrilá (Lisboa), Studio Plus XXX (Paris), Studio de la Seine (Paris), Audio Spot Studio Digital (Madrid), Gallery Studio (Londres), Todd's Studio (Nova York)
Engenheiro de som – Silvio Soave



Nuvens Correndo num Rio



Poema: Natália Correia ("Nuvens correndo num rio", in "Rio de Nuvens", Coimbra: Edição de autor, 1947; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 15; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 41)
Música: Valter Rolo
Intérprete: Inês Duarte* (in CD "Este Fado", Iplay, 2012)




Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.


* Valter Rolo – piano
Bernardo Couto – guitarra portuguesa
Diogo Clemente – viola
José Marino de Freitas – baixo acústico
Bruno Baião – violoncelo
Produção e direcção musical – Valter Rolo



Ricochete



Poema: Natália Correia (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: Popular ("Não se Me Dá Que Vindimem" e "Meninas, Vamos à Murta" – Beira Baixa)
Intérprete: Ana Laíns* (in CD "Quatro Caminhos", Difference, 2010)


Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento
E a Terra se unem na lua?

Que sereia, é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

[instrumental]

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?

Chora flores dentro de nós
Deste soluço suspenso
Que silêncio é esta voz?
Que palavra é o silêncio?

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

[vocalizos]

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?


* Diogo Clemente – guitarra acústica
Marino de Freitas – baixo acústico
Bernardo Couto – guitarra portuguesa
Paulo Loureiro – clarinete
Vicky (Hugo Marques) – percussão
Ana Laíns – coros
Produção e arranjos – Diogo Clemente
Assistente de produção – Vilma Costa
Produção executiva – Samuel Lopes, Ana Laíns & António Cunha
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, por Joaquim Montes, e no Lisboa Studio, por Luís Delgado & Diogo Tavares
Mistura e masterização – Luís Delgado & Diogo Clemente, no Lisboa Studio



RICOCHETE

(Natália Correia, in "Passaporte", Lisboa: Edição de autor, 1958; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 202-203; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 152)


Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
Nos articulam os braços
Em formas interrompidas
Para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento
E a Terra se unem na lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?

Que sereia, é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
De estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
Um corpo à alma que é?



Corpo Abolido



Poema: Natália Correia ("Balada para um homem na multidão", de "O Diário de Cynthia", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 330; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 249)
Música: José Cid
Intérprete: José Cid* (in EP "Camarada", Columbia/VC, 1972; CD "O Melhor de José Cid", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)


Este homem que entre a multidão
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no Japão
a diferença é ele ignorar.

Muitos mortos foram necessários
para formar seus dentes um cabelo
vai movido por pés involuntários
e endoidece ser eu a percebê-lo.

Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a árvore que dá dinheiro.

Alimentam-no do ar proibido
de um sonho que não é dele
não tem mais que esse frasco de vidro
para fechar a estrela do norte.
E só o seu corpo abolido
lhe pertence na hora da morte.


* Todos os instrumentos executados por José Cid



Do Sentimento Trágico da Vida



Poema: Natália Correia (de "Apontamentos", in "Poemas", Porto: Edição de autor, 1955; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 100; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 83-84)
Música: Teresa Gentil
Intérprete: Teresa Gentil* (in CD "Natália Descalça", Descalças - Cooperativa Cultural, 2006)


Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.


* Teresa Gentil – guitarra, flauta de bisel, adufe, voz e coros
Miguel Cardoso – contrabaixo e caxixi
Cláudia Rangel – coros
Produção – Descalças - Cooperativa Cultural (S. Vicente Ferreira, ilha de São Miguel, Açores)
Produção executiva – Sara Seabra
Gravação – Cláudia Rangel, Joaquim Azevedo e Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, de 20 a 28 de Outubro de 2006
Mistura – Cláudia Rangel e Teresa Gentil



SETE MOTIVOS DO CORPO (I)



Poema de Natália Correia (in "Armistício", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 243; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 516)
Recitado por Afonso Dias* (in CD "Poesia de Natália Correia", col. Selecta, Música XXI, 2007)


Não te importe, ó mortal, depois de morto
Desaparecer na curva do caminho.
Aqui és corpo; e injuriar o corpo
É pisar a sombra do divino.
Lúcida a carne, num fugaz milagre,
É de eternos assuntos a medida:
De ar, água, terra e fogo sumidade,
Lugar de amor onde se ganha a vida.

Se concorrem na alma embuste e danos,
O corpo em qualquer língua é verdadeiro.
P'ra que ao além não fie a Parca enganos,
Retrata-nos a morte em corpo inteiro.
Vem das estrelas o sangue que nos guia
E em amorosa perfeição na carne
Está toda a eternidade resumida.
Corpo! Sombra de deus. Simples verdade.


* Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias
Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn



Credo



Poema: Natália Correia ("Creio nos anjos que andam pelo mundo", poema IV de "Poesia: ó véspera de prodígio!", in "Sonetos Românticos", Lisboa: O Jornal, 1990; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 392; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 616)
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé* (in CD "Raiano", Farol Música, 1994)




Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.


* Janita Salomé – voz
Dudas – guitarra de 12 cordas, guitarra clássica
Paulo Jorge Santos – guitarra portuguesa
João Falcato – piano, sintetizador
Carlos Barreto – contrabaixo
Arranjo – Rui Luís Pereira
Direcção musical – Fernando Júdice e Janita Salomé
Produção – Fernando Júdice
Gravado e misturado no Regiestúdio, Amadora
Técnico de som – Branko Neskov
Masterizado por Mike Brown (Inglaterra)



Tomai estes meus versos na vazante



Poema de Natália Correia (poema XI de "Na câmara de reflexão", in "Sonetos Românticos", Lisboa: O Jornal, 1990; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 371; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 601)
Recitado por Telma Veríssimo* (in CD "Poesia de Natália Correia", col. Selecta, Música XXI, 2007)


Tomai estes meus versos na vazante
Da lua cheia que foi a minha vida:
Ora monja, ora maga, amortecida
No júbilo. Na dor esfuziante.

De nácar e cetim felina amante
Mas só pelo prazer da despedida.
Sala por sonhos muito concorrida
Sempre a contar com um deus num visitante.

Plenilúnio num campo de ruínas;
Ó cinzas seminais da renovada
Pena de aladas obras sibilinas!

E de tanto me encher, maré vazada
Que por tomar a peito ordens divinas,
Me despeço. Que não aposentada.


* Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias
Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn



Capa do EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria" (col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969)



Capa do CD "A Defesa do Poeta" (EMI-VC, 2003)
Faixas 1 a 6: do EP "Natália Correia Diz Poemas de sua Autoria" (Decca/VC, 1969)
Faixa 7: do LP "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", de José Mário Branco (Guilda da Música/Sassetti, 1971)
Faixas 8 a 27: do LP "Alegre Eu Ando" (Decca/VC, 1972)
Adaptação de cantigas de trovadores galego-portugueses por Natália Correia
Acompanhamento:
Viola - Cristiana
Piano - António Victorino d'Almeida
Faixas 28 a 32: do LP "Cantigas de Amigos", de Natália Correia, Amália Rodrigues e Ary dos Santos (Columbia/VC, 1971)
Adaptação de cantigas de trovadores galego-portugueses por Natália Correia
Direcção de edição – Helena Roseta com o apoio de David Ferreira
Produção executiva – Maria João Fortes, Helena Mata, Helena Evangelista, João Ruas e Aldina Duarte
Masterização – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Capa do LP "Improviso" (Guilda da Música/Sassetti, 1973)
15 poemas ditos/entoados por Natália Correia: treze da sua autoria e dois de trovadores galego-portugueses por si adaptados.
Música e execução instrumental (teclados, percussão) – António Victorino d'Almeida



Capa do CD "Natália Correia: Poemas Ditos (e até Cantados) pela Autora" (CNM, 2011)
O conteúdo é o mesmo do LP "Improviso" (1973)



Capa do CD "Natália Descalça" (Descalças - Cooperativa Cultural, 2006)
Poesia de Natália Correia musicada e cantada por Teresa Gentil



Capa do CD "Poesia de Natália Correia" (col. Selecta, Música XXI, 2007)
40 poemas ditos/cantados por Afonso Dias, Isabel Afonso Dias, Meguy, Rita Neves, Tânia Silva e Telma Veríssimo
Música de Afonso Dias e de compositores do fado (Raul Ferrão, Fernando Freitas e Pedro Rodrigues)