26 agosto 2013

Evocando Carlos Paião



Completam-se hoje vinte e cinco anos sobre a morte (prematura) do autor, compositor e intérprete Carlos Paião. Embora não se contando entre os nomes que mais cultivo no universo da música portuguesa, reconheço-lhe talento e uma invulgar capacidade inventiva, mormente nos jogos de palavras com que caricatura personagens, atitudes e estereótipos.
Em singela evocação do artista, aqui apresento alguns espécimes do seu repertório que aprecio e que poderiam muito bem passar, de vez em quando, na Antena 1.


Playback



Letra e música: Carlos Paião
Intérprete: Carlos Paião* (in single "Play Back", Valentim de Carvalho, 1981; 2LP/CD "O Melhor de Carlos Paião", EMI-VC, 1991; 2CD "Letra e Música: 15 Anos Depois": CD1, EMI-VC, 2003; CD "Perfil", Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; 2CD "Letra e Música: 25 Anos Depois": CD1, EMI, 2013)




Podes não saber cantar,
Nem sequer assobiar,
Com certeza que não vais desafinar
Em playback, em playback, em playback!

Só precisas de acertar,
Não tem nada que enganar,
E, assim mesmo, sem cantar vais encantar
Em playback, em playback, em playback!

Põe o microfone à frente,
Muito disfarçadamente,
Vai sorrindo, que é p'rá gente
Lá presente
Não notar!...
Em playback tu és alguém,
Mesmo afónico cantas bem...
Em playback,
A fazer playback
E viva o playback!
Hás-de sempre cantar...
Em playback, respirar p'ra quê?
Quem não sabe também não vê...
Em playback,
A fazer playback
E viva o playback!
Dá p'ra toda uma soirée!...

Podes não saber cantar,
Nem sequer assobiar,
Com certeza que não vais desafinar
Em playback, em playback, em playback!

Só precisas de acertar,
Não tem nada que enganar,
E, assim mesmo, sem cantar vais encantar
Em playback, em playback, em playback!

Abre a boca, fecha a boca,
Não te enganes, não te esganes,
Vais ter uma apoteose,
Põe-te em pose
P'ra agradar!...
Em playback é que tu és bom,
A cantar sem fugir do tom...
Em playback,
A fazer playback
E viva o playback!
Hás-de sempre cantar...
Com playback até pedem bis:
Mas, decerto, dirás feliz...
Em playback,
A fazer playback
E viva o playback!
Agradeces e sorris!...

Podes não saber cantar,
Nem sequer assobiar,
Com certeza que não vais desafinar
Em playback, em playback, em playback!

Só precisas de acertar,
Não tem nada que enganar,
E, assim mesmo, sem cantar vais encantar
Em playback, em playback, em playback!

Em playback, em playback, em playback!
Em playback, em playback, em playback!


* Arranjo e direcção de orquestra e coro – Shegundo Galarza
Produção – Mário Martins
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Pó-de-Arroz



Letra e música: Carlos Paião
Intérprete: Carlos Paião* (in single "Pó de Arroz / Ga-Gago", Valentim de Carvalho, 1981; 2LP/CD "O Melhor de Carlos Paião", EMI-VC, 1991; 2CD "Letra e Música: 15 Anos Depois": CD2, EMI-VC, 2003; CD "Perfil", Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; 2CD "Letra e Música: 25 Anos Depois": CD2, EMI, 2013)




Pó-de-arroz
Na face das pequenas
Será beleza apenas?
Só uma "corzinha" com

Pó-de-arroz
Rosa é, mulher o pôs
E o homem vai nas cenas...
Eva e Adão outra vez!

É como enfeitar um embrulho,
Arroz com gorgulho
Talvez...

Pó-de-arroz
Do teu arrozal,
Esse pó que é fatal
És a tal
Que me encanta com
Pó-de-arroz...
Não faz nenhum mal,
É de arroz integral...
Infernal,
Quando chegas com
Todo o teu arroz,
Todo o teu arroz...

[instrumental]

Pó-de-arroz
Tens hoje, só p'ra mim,
Pós de perlimpimpim,
E és um arroz-doce, assim!

Pode ser
Um canto de sereia,
Serei a tua teia
E tu serás meu algoz!...

Mas, quando te vais alindar,
Alindada, vens dar-me
O arroz...

Pó-de-arroz
Do teu arrozal,
Esse pó que é fatal
És a tal
Que me encanta com
Pó-de-arroz...
Não faz nenhum mal,
É de arroz integral...
Infernal,
Quando chegas com
Todo o teu arroz,
Todo o teu arroz...

Pó-de-arroz
Do teu arrozal,
Esse pó que é fatal
És a tal
Que me encanta com
Pó-de-arroz...
Não faz nenhum mal,
É de arroz integral...
Infernal,
Quando chegas com
Pó-de-arroz
Do teu arrozal,
Esse pó que é fatal
És a tal
Que me encanta com
Pó-de-arroz...


* Arranjo e direcção de orquestra e coro – Shegundo Galarza
Produção – Mário Martins
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Eu Não Sou Poeta



Letra e música: Carlos Paião
Intérprete: Carlos Paião* (in single "'Souvenir' de Portugal / Eu Não Sou Poeta", Valentim de Carvalho, 1981; 2LP/CD "O Melhor de Carlos Paião", EMI-VC, 1991; 2CD "Letra e Música: 15 Anos Depois": CD1, EMI-VC, 2003; CD "Perfil", Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; 2CD "Letra e Música: 25 Anos Depois": CD1, EMI, 2013)




Quem me dera saber
Fazer versos, rimar
Para um dia escrever
Que tu és a mulher que eu quero amar

Quem me dera fazer poesia
Inspirada na minha paixão
Inventar sofrimento, agonia,
Um amor de Platão

Quem me dera chamar-te de musa
Em sonetos e coisas que tais
Numa escrita solene e confusa
Com palavras a mais

Eu não sou poeta, não
Não sou poeta
Nunca fui um grande sofredor
Eu não sou poeta, não
Não sou poeta
Não te sei falar de amor
[bis]

Mas se eu fosse poeta dotado
Ou se ao menos julgasse que sim
Falaria com um ar afectado
Aprenderia latim

Só faria canções eruditas
E se as ditas ninguém entendesse
Rematava com frases bonitas
P'ró que desse e viesse

Eu não sou poeta, não
Não sou poeta
Nunca fui um grande sofredor
Eu não sou poeta, não
Não sou poeta
Não te sei falar de amor
[3x]


* Arranjo e direcção – Shegundo Galarza
Produção – Mário Martins
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Marcha do "Pião-das-Nicas"



Letra e música: Carlos Paião
Intérprete: Carlos Paião* (in single "Marcha do 'Pião-das-Nicas' / Telefonia (Nas Ondas do Ar)", Valentim de Carvalho, 1982; 2LP/CD "O Melhor de Carlos Paião", EMI-VC, 1991; 2CD "Letra e Música: 15 Anos Depois": CD1, EMI-VC, 2003; "Perfil", Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; 2CD "Letra e Música: 25 Anos Depois": CD1, EMI, 2013)




[instrumental]

Anda p'la vida à futrica
O estica-larica,
O mangas-portuga;
Fecha-se em copos e copas,
Cafés e cachopas,
Trabuca e madruga.

Galfarro afiambrado,
Pachola arremelgado,
De grimpa levantada e garrafal;
Amigo do amigo
Farelo e muito umbigo,
Vestiu-se e veio a pé p'ró arraial.

Viva o Santo António, viva o São João!
Viva o 10 de Junho e a Restauração!
Viva até São Bento se nos arranjar
Muitos feriados para festejar!

Gosta d'armar ao efeito,
Baboso e com jeito
P'ra ser bagalhudo;
Mas na mulher do carteiro
Já manca o dinheiro,
Alfaces e é tudo...

Se ele anda com o nerveco,
Grazina dum caneco,
Lá vai o lascarino p'ró granel;
E faz as partes gagas,
Fosquinhas de aldiagas,
Palrando até fazer grande aranzel.

Viva o Santo António, viva o São João!
Viva o 10 de Junho e a Restauração!
Viva até São Bento se nos arranjar
Muitos feriados para festejar!

Chorou por causa da seca,
Que a terra ficou viúva;
Até correu seca-e-meca,
Fartou-se de pedir chuva.

A chuva quis-lhe agradar,
Banhou a terra, as culturas;
A água deu-lhe p'la barba,
A fome em farturas.

Às vezes, já nem petisca,
A doença na isca
É má p'ró vistaço;
Os vinhos e os jaquinzinhos
São só descaminhos,
Vai dar ao esquinaço.

És tu, "Pião-das-Nicas",
Das bocas e das dicas,
Que pegas nos calcantes e te vais;
Adeus, leão dos trouxas,
Chupado das carochas,
Que foste no embrulho uma vez mais.

Viva o Santo António, viva o São João!
Viva o 10 de Junho e a Restauração!
Viva até São Bento se nos arranjar
Muitos feriados para festejar!

[instrumental]

Viva o Santo António, viva o São João,
Viva o 10 de Junho e a Restauração!
Viva até São Bento se nos arranjar
Muitos feriados para festejar!
[bis]


* Arranjo e direcção de orquestra e coro – Shegundo Galarza
Produção – Mário Martins
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Zero a Zero



Letra e música: Carlos Paião
Intérprete: Carlos Paião* (in LP "Algarismos", Valentim de Carvalho, 1982; 2CD "Letra e Música: 15 Anos Depois": CD1, EMI-VC, 2003; CD "Perfil", Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; 2CD "Letra e Música: 25 Anos Depois": CD1, EMI, 2013)




[instrumental]

A zero, a zero, a zero
Vai o jogo começar
Já se sente o desespero
Precisamos de empatar
Azeda, azeda, azeda
A derrota é de amargar
Zero a zero é labareda
Não perdemos sem ganhar

E zero a zero, grão a grão, de nada em nada
Vai se erguendo a barricada
Que há um zero a defender
E são ferrolhos, tira-olhos, tira-teimas
Correrias, saltos, queimas
Quem mas dera perceber

Há zero ao meio, zero ao lado, acima, abaixo
Jogo branco, barbicacho, 
Ziguezague, volta atrás
Há um vazio revirando e regelando
Passatempo, jogo brando 
Vezes zero tanto faz

Há zero a zero, há sem a sem
Com zero a zero vai tudo bem
Há zero a zero, há sem a sem
Com zero a zero, vai tudo bem

[instrumental]

Depois, depois, depois, 
Vai dar muito que falar
Nulidades ou heróis
Todos têm que zelar
A zero, a zero, a zero
Há-de o jogo terminar
P'ra dizer sem exagero: 
"Foi a zero, não há azar"

A zero a zero, vou partir do ponto zero
Já não espero e acelero
Quem se queda também cai
A zero à hora, vou de roda e recupero
Quero dar a volta ao zero 
Para ver aonde vai

Com dois acordes faço a zero apologia
Muitos zeros é mania
Zero a zero é pequenez
Duas batatas são as lógicas baratas
Dos empates, dos empatas
Empatamos outra vez

Há zero a zero, há sem a sem
Com zero a zero vai tudo bem
Há zero a zero, há sem a sem
Com zero a zero, vai tudo bem

[instrumental]

Há zero a zero, há sem a sem
Com zero a zero vai tudo bem
Há zero a zero, há sem a sem
Com zero a zero, vai tudo bem

Há zero a zero, zero a zero
Zero a zero, tudo bem
Há zero a zero, zero a zero
Zero a zero, tudo bem
Há zero a zero, zero a zero
Zero a zero, tudo bem
Há zero a zero, zero a zero
Zero a zero, tudo bem


* Arranjo e direcção musical – Shegundo Galarza
Produção – Mário Martins
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Telefonia (Nas Ondas do Ar)



Letra e música: Carlos Paião
Intérprete: Carlos Paião* (in single "Marcha do 'Pião-das-Nicas' / Telefonia (Nas Ondas do Ar)", Valentim de Carvalho, 1982; 2CD "Letra e Música: 15 Anos Depois": CD1, EMI-VC, 2003; CD "Perfil", Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; 2CD "Letra e Música: 25 Anos Depois": CD1, EMI, 2013)




Será que estou em sintonia?
Será que sintonizo mal?
Eu quero ter a companhia
Da novidade musical
Bom humor, simpatia
Uma ou outra afonia
A notícia normal

(Esta tarde faltou a luz no parlamento
durante acesa discussão...)

Darão aquela melodia
Que fala lá de não-sei-quê?
E ao passatempo eu concorria
Talvez ganhasse um LP
Dantes eu bem escrevia
Mas ninguém respondia
Na má-fé, já se vê

(Escreva aquilo que quiser num postal
ilustrado e mande, mande!
Bela colecção...)

Locutor falador, cheio de razões
Uma voz amiga que destroça corações
Locutriz, com verniz e uma voz de fada
Fala num suspiro ou numa gargalhada

Telefonia nas ondas do ar
Cacofonia, euforia no lar
Epidemia de dia após dia
Num nunca parar
Sabedoria para ter e vendar
E a freguesia não vai desligar
Telefonia, mania, mania de todo o lugar
Telefonia, magia, magia nas ondas do ar

Será que sei dizer a frase?
É tão importante p'ra mim
Um dia até talvez me case
Se ela me ouvir na rádio assim
Tenho que ser capaz
E vou dizer aliás
O meu nome no fim

(Olhe, posso pedir um disco?
Pode ser um qualquer, obrigada...)

Será que dão hoje o relato?
Gostava de ir p'ra lá sofrer
Mas como eu sou muito pacato
Ouço em casa o que eles vão dizer

(........Gooooooo...ao lado!)

Compre aqui, compre ali
E acolá também
E no fim das contas 'tou na mesma mal ou bem
Venha cá, venha lá
Temos um concurso
Prémios só p'ra quem fizer figura... de urso

Telefonia nas ondas do ar
Cacofonia, euforia no lar
Epidemia de dia após dia
Num nunca parar
Sabedoria para ter e vendar
E a freguesia não vai desligar
Telefonia, mania, mania de todo o lugar
Telefonia, magia, magia nas ondas do ar

Telefonia
Telefonia
Telefonia
Telefonia

Telefonia nas ondas do ar
Cacofonia, euforia no lar
Epidemia de dia após dia
Num nunca parar
Sabedoria para ter e vendar
E a freguesia não vai desligar
Telefonia, mania, mania de todo o lugar
Telefonia, magia, magia nas ondas do ar

Telefonia
Telefonia nas ondas do ar
Telefonia
Telefonia nas ondas do ar
Telefonia
Telefonia nas ondas do ar
Telefonia
Telefonia
Telefonia
Telefonia
Telefonia


* Arranjo e direcção de orquestra e coro – Shegundo Galarza
Produção – Mário Martins
Técnico de som – Hugo Ribeiro
URL: http://anos80.no.sapo.pt/carlospaiao.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Pai%C3%A3o
http://carlos-paiao.blogspot.pt/
http://rubicat5.paginas.sapo.pt/cpaiao.html
http://marius706.no.sapo.pt/carlospaiao.html
http://palcoprincipal.sapo.pt/bandasMain/carlos_pai_o
http://cotonete.clix.pt/artistas/home.aspx?id=448
http://www.lastfm.pt/music/Carlos+Pai%C3%A3o



Capa da compilação "Letra e Música: 25 Anos Depois" (2CD, EMI, 2013)
Uma reedição da compilação "Letra e Música: 15 Anos Depois" (2CD, EMI-VC, 2003)
Selecção de repertório: David Ferreira
Masterização: Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores 
Design: Transglobal (http://www.transglobalsite.com/)
Adaptação da capa: Roda Dentada (http://www.facebook.com/rodadentada)

16 agosto 2013

Em memória de Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013)



Eu sou marxista mas nunca achei que lutar pela transformação do mundo seja suficiente.
É preciso lutar no concreto por cada ser humano.
                 URBANO TAVARES RODRIGUES

Ficcionista, cronista, ensaísta, crítico literário e poeta, Urbano Augusto Tavares Rodrigues nasceu em Lisboa (freguesia de Santa Catarina), a 6 de Dezembro de 1923, e faleceu na mesma cidade (Hospital dos Capuchos), a 9 de Agosto de 2013.
Filho do jornalista e escritor republicano Urbano da Palma Rodrigues (que foi chefe de gabinete de Afonso Costa) e de Maria da Conceição Tavares, senhora devota, viveu, dos três aos onze anos de idade, na herdade da família, o Monte da Esperança, na margem esquerda do Guadiana, a escassos quilómetros da sede do concelho, Moura. O contacto íntimo com a Natureza alentejana e a percepção da exploração de que era objecto a gente mais humilde marcariam indelevelmente a sua sensibilidade e índole humanista. 
«A casa da minha infância foi um "monte" alentejano, próximo do rio Ardila, a cerca de quatro quilómetros da branca cidade de Moura. A frontaria dava para um pátio empedrado, de onde ainda se vêem, num alto, a eira, e mais perto, outras construções: a habitação do feitor, a cavalariça, a vacaria, o galinheiro, o curral dos porcos, o alpendre onde guardavam o trem, o churrião e vários carros de lavoura e alfaias agrícolas, a charrua, a debulhadora, o trilho... A toda a volta da casa, mansas oliveiras, quase cinzentas por tempo fosco, mas de prata quando o sol se mostra. E, quase encostada à casa, as olaias, muito visitadas pelos pardais sobretudo à noitinha, e a suave glicínia, trepando por uma parede caiada, junto a janelas de grega do quarto dos meus pais. Foi nesse cenário rústico, que de Inverno acordava muitas vezes branco de geada e onde a Primavera vinha cedo, de ouro e azul, sobre a verde germinação das searas, que decorreram os anos mágicos da minha infância, escutando os cantos e os dizeres dos camponeses, brincando com os pastorinhos das ovelhas e das vacas, galopando pelos montados do outro lado do rio, escalando cabeços cobertos de estevas e mistério, descobrindo os caminhos que levam ao Guadiana, a imensa herdade da Rola, aos longes de Espanha. Entre a catequização da minha professora, a D. Guilhermina, piedosa senhora docemente ridícula no seu outono de vida cheio de folhos, fitas e sonhos gorados, e a rebeldia franca dos trabalhadores ranchos, que pelo nosso "monte" passavam, vindos da Amieira e de Portel, comecei a tactear a vida, a dar pela injustiças sociais mesmo ao meu lado, a crescer entre cheiros e sons, visões, bem diferentes, mas misturadas, do paraíso e do inferno. Sentimentos em guerra nasciam dentro de mim e aos meus momentos contemplativos do fim do dia, após as horas de estudo ou os passeios pela beira do Ardila, a pé ou a cavalo, sucediam-se interrogações sem resposta. Deixara de acreditar nos mitos cristãos e procurava outras crenças, outros valores. Era o fim da minha infância, na altura em que meu pai ia ter de hipotecar a herdade (salvando-se anos depois do descalabro) e nós já víamos pela frente a partida para Lisboa, o liceu, o "exílio" entrecortado por breves férias no Alentejo.» ("A Casa da Minha Infância", in "Seixo Review: Revista Semestral de Artes e Letras", n.º 6, s/d.)
Feita a instrução primária em Moura, matriculou-se no Liceu Camões, em Lisboa, onde foi colega do futuro linguista Luís Lindley Cintra. Concluídos os estudos liceais, ingressou na Faculdade de Letras de Lisboa, vindo a licenciar-se em Filologia Românica, em 1949, com a tese "Manuel Teixeira Gomes: Introdução ao Estudo da sua Obra", redigida sob orientação de Jacinto do Prado Coelho. Entre 1949 e 1955, foi professor de Língua, Literatura e Cultura Portuguesas em Montpellier, Aix-en-Provence e Paris (Sorbonne). Na Cidade-Luz, trava conhecimento e relaciona-se com grandes vultos das letras francesas, mormente com os existencialistas Jean-Paul Sartre e Albert Camus. De regresso a Portugal, a par da actividade literária e ensaística dedicou-se ao jornalismo, ao serviço do "Diário de Lisboa", fazendo diversas viagens ao estrangeiro como repórter, das quais resultarão crónicas reunidas em livros. Em 1957, foi nomeado assistente da Faculdade de Letras de Lisboa, cargo de que seria destituído, dois anos mais tarde, por ter apoiado a candidatura do General Humberto Delgado nas eleições presidenciais de 1958. Para prover ao seu sustento e da família (havia-se casado, em 1949, com a escritora Maria Judite de Carvalho de quem tinha uma filha, a futura escritora Isabel Fraga) retomou a actividade jornalística, como redactor e crítico literário e teatral, no "Diário de Lisboa" (e a partir 1963 n' "O Século"), leccionando no ensino particular (no Colégio Moderno, da família Soares, e depois no Lycée Français Charles Lepierre, vulgo Liceu Francês) e fazendo traduções. 
O seu envolvimento em sucessivas acções de luta contra o Estado Novo (solidariedade com as rebeliões estudantis, viagens clandestinas a Cuba e à Checoslováquia, militância na resistência ao lado do Partido Comunista Português, ao qual aderiu formalmente em 1969, apesar da sua aversão ao estalinismo) valeram-lhe a perseguição da PIDE, livros apreendidos e três encarceramentos (em 1961, 1963 e 1968).
Em Outubro de 1974, por proposta de Luís Lindley Cintra, foi reintegrado no corpo docente da Faculdade de Letras de Lisboa, onde se veio a doutorar em 1984 com uma nova tese sobre Manuel Teixeira Gomes ("Manuel Teixeira Gomes: O Discurso do Desejo"), jubilando-se em 1993, mas continuando a exercer a docência na Universidade Autónoma de Lisboa Luís de Camões.
Paralelamente, colaborou em diversas publicações periódicas, como "Bulletin des Études Portugaises", "Colóquio", "Colóquio/Letras", "Cosmos", "Estudos Italianos em Portugal", "Europa" (de que foi director), "Gazeta Musical e de Todas as Artes", "Letras e Artes", "Suplemento Cultural" (do jornal "O Diário"), "Vértice", "Vida Literária" (suplemento do "Diário de Lisboa"), "JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias", "Nouvel Observateur", Seara Nova, Prelo. Foi ainda presidente da Associação Portuguesa de Escritores (1980/82) e membro da secção portuguesa do PEN Club, da Associação Internacional dos Críticos Literários, da Associação Portuguesa de Literatura Comparada, da Academia das Ciências de Lisboa, da Academia Brasileira de Letras e da Académie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres, além de integrar vários júris de prémios literários.
Como ficcionista, estreou-se em 1952 com a colectânea de contos e novelas "A Porta dos Limites". Desde logo se manifesta uma tendência que se irá confirmar com "Vida Perigosa" (1955), "A Noite Roxa" e "Uma Pedrada no Charco": a influência do existencialismo francês, em particular do modelo literário de Albert Camus. Simultaneamente, se manifesta a marca de um certo decadentismo finissecular português, herdado quer de Fialho de Almeida (em particular nas sucessivas evocações do Alentejo que percorrem toda a sua obra), quer de António Patrício e do já citado Manuel Teixeira Gomes, várias vezes revisitado na sua ensaística. Nessa primeira fase, é toda uma geração do pós-guerra na Europa que se exprime, com as suas angústias existenciais (elemento predominante também, na mesma altura, no seu livro de crónicas de viagem "Jornadas na Europa", 1958). Igualmente se revela outra vertente marcante em toda a sua obra ficcional: o erotismo, com fundamentos míticos donjuanescos, sendo de maior relevo, paradoxalmente, as personagens femininas, quase sempre desencadeadoras de momentos privilegiados da acção, de tomadas de consciência muitas vezes agónicas, levando a inesperados actos de revolta e de sacrifício individual a favor do colectivo. Neste sentido, o primeiro romance (ou longa novela) que publicou, "Bastardos do Sol" (1959), constitui uma obra de viragem. Toda a intriga (passada no Alentejo e no íntimo de uma jovem filha de um latifundiário, Irisalva, que se revolta contra o sistema) desenvolve-se significativamente numa noite, ganhando assim o tempo, até então linear, uma dimensão propriamente mítica. Inicia-se a partir daí o que poderá considerar-se uma segunda fase, que vai até "Estrada de Morrer" (1971), e se caracteriza por uma ampliação da temática erótica a nível de um crescente dramatismo de consciencialização política, predominando as alegorias sociais no interior do próprio imaginário erótico e fundindo Eros e Tanatos. Todavia, a morte aqui é mais do que alucinação erótica individual: torna-se situação-limite de revolta, oposta a um quotidiano pequeno-burguês cinzento, vazio, dominado pelo medo, como se vê sobretudo nas colectâneas de novelas "As Máscaras Finais" (1963), "Terra Ocupada" (1964) e naquele que pode talvez ser considerado o melhor de livro de plena maturidade no género, o romance "Imitação da Felicidade (1966). Uma terceira fase será aquela que parte do romance "Dissolução" (1974) e manifesta mais explicitamente os conflitos ideológicos revolucionários e pós-revolucionários, quer em termos de exaltação – "Viamorolência" (1976), "As Pombas Vermelhas (1977), "Desta Água Beberei" (1979) –, quer em termos de angustiada interrogação e testemunho social finissecular – "Fuga Imóvel" (1982), "A Vaga de Calor" (1986), "Deriva" (1993) e "A Hora da Incerteza" (1995).
Em entrevista a José Manuel Mendes para o jornal "Letras e Letras" (n.º 18, 5 de Junho de 1989), o escritor afirmou ter sempre oscilado entre "o realismo e o fantástico": «a pressão da realidade envolvente, que era política e socialmente sórdida, empurrava-me com frequência, com o imperativo das grandes obrigações morais, para o testemunho, mas nunca esse testemunho-denúncia, tão marcado, parece-me, em "Uma Pedrada no Charco" ou em "Os Insubmissos", se alheou da experimentação estética ou da infinita curiosidade pelos recessos e pelas contradições da alma humana. Por tudo isso nunca tive propriamente escola. Sinto-me devedor do simbolismo. Do realismo e naturalmente do neo-realismo, mas também do surrealismo, que desde o início terá deixado sedimentos no meu estilo.»
A sua extensa obra foi várias vezes distinguida, tendo recebido, entre outros, o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, em 1958, para "Uma Pedra no Charco"; o Prémio da Imprensa Cultural, em 1966, para "Imitação da Felicidade"; o Prémio Aquilino Ribeiro da Academia de Ciências de Lisboa, em 1983, para "Fuga Imóvel"; o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, em 1987, para "Vaga de Calor"; o Prémio Fernando Namora, em 1992, para "Violeta e a Noite"; e o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo-Branco da Associação Portuguesa de Escritores, em 2004, para "A Estação Dourada". Foram-lhe ainda outorgados o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2000, e o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, em 2002. 
Urbano Tavares Rodrigues participou, como actor (fazendo o papel de si próprio), no filme "Visita, ou Memórias e Confissões", realizado em 1982 por Manoel de Oliveira (ainda não exibido comercialmente). O cineasta, em entrevista a José Matos Cruz, afirmou que «"Visita" surge de uma circunstância, que provocou o acaso, do qual resultou o filme. Eu entendi que devia guardar aquela memória, e passei-a ao cinema...» – a circunstância em causa foi o encontro do realizador com o escritor na prisão do Aljube, em 1963. Mais recentemente, foram realizados dois documentários sobre a sua vida e obra: um por António Castanheira ("Memória das Palavras: Urbano Tavares Rodrigues", 2008) e outro por Possidónio Cachapa ("O Adeus à Brisa", 2009).
Depois do 25 de Abril, aquando da Reforma Agrária, em coerência com o seu ideário e com o lema "a terra a quem a trabalha", Urbano Tavares Rodrigues despojou-se das suas propriedades no Alentejo. Em entrevistas recentes, confessou: «Éramos três. O meu irmão Jorge não tinha as mesmas ideias – era um homem que se interessava fundamentalmente pelo dinheiro. Para podermos dar ao Jorge a parte dele vendemos aquilo a um primo nosso, grande agrário. Comprava se lhe garantíssemos que não lhe ocupavam as terras. Garantimos. A nossa parte, minha e do Miguel [jornalista Miguel Urbano Rodrigues], ficou para o sindicato dos trabalhadores agrícolas do distrito de Beja. Pedi licença para tirar da minha parte uma pequena quantia para ajudar a minha filha a comprar uma casa.» (entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro, in "Jornal de Negócios", 7-Set-2012). «Foi um gesto romântico, separei-me de uma casa à qual tinha um amor profundo. Se não fosse isso era hoje um homem rico. Mas não quero saber. Fiz aquilo que achava certo e coerente com as minhas convicções.» (entrevista concedida a Luís Leal Miranda, in jornal "I", 4-Fev-2010).
[Fontes principais: "Infopédia" e "Dicionário da Literatura Portuguesa", organização e direcção de Álvaro Manuel Machado, Editorial Presença, 1996]


Bibliografia:

Ficção:
- A Porta dos Limites (contos e novelas), Lisboa: Editorial Notícias, 1952
- Vida Perigosa (novelas), Amadora: Bertrand, 1955
- A Noite Roxa (novelas), Lisboa: Bertrand, 1956
- Uma Pedrada no Charco (novelas), Lisboa: Bertrand, 1957 [Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa]
- As Aves da Madrugada (novelas), Lisboa: Bertrand, 1959
- Bastardos do Sol (romance), Lisboa: Arcádia, 1959
- Nus e Suplicantes (novelas), Lisboa: Bertrand, 1960
- Os Insubmissos (romance), Lisboa: Bertrand, 1961
- Uma Noite e Nunca (conto), Lisboa: Tempo, 1962
- Exílio Perturbado (romance), Lisboa: Bertrand, 1962
- As Máscaras Finais (novelas), Lisboa: Bertrand, 1963
- A Samarra (novela), Lisboa: Estúdios Cor, 1964
- Terra Ocupada (novelas), Lisboa: Bertrand, 1964
- A Masmorra (contos), São Paulo (Brasil): Clube do Livro, 1964
- Dias Lamacentos (contos), Lisboa: Portugália Editora, 1965
- Imitação da Felicidade (romance), Lisboa: Bertrand, 1966 [Prémio da Imprensa Cultural]
- Despedidas de Verão (romance), Lisboa: Bertrand, 1967
- Casa de Correcção (novelas), Lisboa: Bertrand, 1968
- Tempo de Cinzas (romance), Lisboa: Editora Ulisseia, 1968
- Horas Perdidas (romance), Lisboa: Bertrand, 1969
- Contos da Solidão (contos), Lisboa: Bertrand, 1970
- Estrada de Morrer (contos e novelas), Amadora: Bertrand, 1971
- A Impossível Evasão (novelas), Porto: Editorial Inova, 1972
- Dissolução (romance), Amadora: Bertrand, 1974
- Viamorolência (novelas), Amadora: Bertrand, 1976
- As Pombas São Vermelhas (contos e novelas), Amadora: Bertrand, 1977
- Estórias Alentejanas (contos), Lisboa: Editorial Caminho, 1977
- Desta Água Beberei (romance), Amadora: Bertrand, 1979
- Abecê da Negação, Lisboa: Editorial Caminho, 1980
- Fuga Imóvel (ficções), Lisboa: Moraes Editores, 1982 [Prémio Aquilino Ribeiro da Academia de Ciências de Lisboa]
- Oceano Oblíquo (contos e novelas), Mem-Martins: Publicações Europa-América, 1985
- A Vaga de Calor (romance), Mem-Martins: Publicações Europa-América, 1986 [Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários]
- Filipa Nesse Dia (novelas), Mem-Martins: Publicações Europa-América, 1989
- Violeta e a Noite (romance), Mem-Martins: Publicações Europa-América, 1991 [Prémio Fernando Namora]
- Deriva (romance), Mem-Martins: Publicações Europa-América, 1993 [Prémio Literatura e Ecologia do Lyons Club de Aveiro]
- A Hora da Incerteza (romance), Mem-Martins: Publicações Europa-América, 1995
- O Ouro e o Sonho (romance), Mem-Martins: Publicações Europa-América, 1997
- O Adeus à Brisa (contos), Mem-Martins: Publicações Europa-América, 1998
- Os Campos da Promessa (novela), fotografias de Pedro Letria, Évora: Ataegina, 1998
- Margem da Ausência (novela), fotografias de Carlos Melo Santos e Fernando Curado Matos, Porto: Edições Asa, 1998
- O Dia Último e o Primeiro (novela), Lisboa: Editorial Caminho, 1999
- O Supremo Interdito (romance), Mem-Martins: Publicações Europa-América, 2000
- Nunca Diremos Quem Sois (romance), Mem-Martins: Publicações Europa-América, 2002
- A Estação Dourada (contos), Mem-Martins: Publicações Europa-América, 2003 [Grande Prémio de Conto Camilo Castelo-Branco da Associação Portuguesa de Escritores]
- God Bless América! (contos), fotografias de Rui Ochôa, Mem-Martins: Publicações Europa-América, 2003
- O Eterno Efémero (romance), Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005
- Carnaval Negro (antologia de novelas), Porto: Edições Asa, 2005
- O Cavalo da Noite (narrativa para a infância), ilustrações de Raffaello Bergonse, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2006
- Ao Contrário das Ondas (romance), Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2006
- Os Cadernos Secretos do Prior do Crato (romance), Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007
- A Última Colina (contos), Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008
- Assim se Esvai a Vida (novelas), Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010
- Os Terraços de Junho (contos e sonhos), Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011
- Escutando o Rumor da Vida seguido de Solidões em Brasa (novelas), Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2012
- A Imensa Boca dessa Angústia e Outras Histórias (contos), Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2013

Poesia:
- Zona Xis (poemas em prosa), fotografias de Joel Moniz, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2003
- Rostos da Índia e Alguns Sonhos (poemas em prosa), Porto: Edições Asa, 2005
- Horas de Vidro, prefácio de Manuel Gusmão, Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010

Teatro:
- As Torres Milenárias: peça em dois actos, Amadora: Bertrand, 1971

Literatura de viagens e crónicas:
- Santiago de Compostela, Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, 1949
- Jornadas no Oriente: Lisboa-Goa e Volta, Lisboa: Bertrand, 1956
- Jornadas na Europa, Lisboa: Publicações Europa-América, 1958
- De Florença a Nova Iorque, Lisboa: Portugália Editora, 1963
- Roteiro de Emergência, Lisboa: Portugália Editora, 1966
- A Palma da Mão, Porto: Editorial Inova, 1970
- Deserto com Vozes, Porto: Editorial Inova, 1971
- Esta Estranha Lisboa, Lisboa: Prelo, 1972
- Redescoberta da França, Lisboa: Seara Nova, 1973
- Viagem à União Soviética e Outras Páginas, Lisboa: Seara Nova, 1973
- As Grades e o Rio, Porto: Editorial Inova, 1974
- Perdas e Danos, Lisboa: Seara Nova, 1974
- Diário da Ausência e Textos de Presença Activa, Amadora: Bertrand, 1975
- Vinte e um Dias de Luta, Lisboa: Seara Nova, 1975
- Palavras de Combate, Lisboa: Seara Nova, 1975
- Registos de Outono Quente: algumas notas de viagem, Lisboa: Seara Nova, 1976 - A Luz da Cal: Itinerário Alentejano, fotografias de António Homem Cardoso, Lisboa: Éter, 1996
- Agosto no Cairo: 1956, Lisboa: Instituto Camões, 1999

Ensaio:
- Manuel Teixeira Gomes: Introdução ao Estudo da sua Obra, Lisboa: Portugália Editora, 1950
- Présentation de Castro Alves, Coimbra: Coimbra Editora, 1954
- O Tema da Morte na Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa: separata da revista "Graal", No. 4, 1957
- O Mito de Don Juan e o Donjuanismo em Portugal, Lisboa: Edições Ática, 1960
- Teixeira Gomes e a Reacção Antinaturalista, Lisboa: Casa do Algarve, 1960
- Noites de Teatro, 2 vols., Lisboa: Edições Ática, 1961/1962
- O Romance Francês Contemporâneo, Lisboa: Sociedade Portuguesa de Escritores, 1964
- Realismo, Arte de Vanguarda e Nova Cultura, Lisboa: Editora Ulisseia, 1966
- O Tema da Morte: Ensaios, Lisboa: Cronos, 1966
- A Saudade na Poesia Portuguesa, Lisboa: Portugália Editora, 1968
- Escritos Temporais, Lisboa: Livros Alicerce, 1969
- Ensaios de Escreviver, Porto: Editorial Inova, 1970
- Uma Etapa da Revolução, Lisboa: Seara Nova, 1975
- Ensaios de Após-Abril, Lisboa: Moraes Editores, 1977
- Reflexões sobre Três Sonetos de Camilo Pessanha, Lisboa: Academia das Ciências, 1978.
- O Gosto de Ler, Porto: Nova Crítica, 1980
- O Rosto e a Máscara na Obra de Fernando Namora, Lisboa: Academia das Ciências, 1980
- Aprendizagem da Vida, da Escrita e da Morte na Obra de Cesare Pavese, Lisboa: separata da revista "Estudos Italianos em Portugal", 1980
- Jogos de Água: a Líbido, a Morte e a Mãe em "O Homem das Fontes" de António Patrício, Lisboa: Academia das Ciências, 1980
- Um Novo Olhar sobre o Neo-Realismo, Lisboa: Moraes Editores, 1981
- Manuel Teixeira Gomes: O Discurso do Desejo, Lisboa: Edições 70, 1984
- A Horas e Desoras, Lisboa: Edições Colibri, 1993 [Prémio de Ensaio Jacinto do Prado Coelho]
- Tradição e Ruptura, Lisboa: Editorial Presença, 1994
- O Homem sem Imagem: a persistência das marcas surrealistas nos romances de Aragon, Lisboa: Edições Colibri, 1995
- Os Tempos e os Lugares na Obra Lírica, Épica e Narrativa de Manuel Alegre, Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas, 1996
- O Texto sobre o Texto, Lisboa: IN-CM, 2001
- A Flor da Utopia, ilustrações de Rogério Ribeiro, Porto: Edições Asa, 2003
- A Obra Literária de Álvaro Cunhal / Manuel Tiago Vista por Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa: Editorial Caminho, 2005
- A Natureza do Acto Criador, Lisboa: IN-CM, 2011

Organização de antologias:
- Romanceiro Português, escolha, notas e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, ilustrações de Maria Judite, Lisboa: Campanha Nacional de Educação de Adultos, 1956
- Alto e Baixo Alentejo, introdução, selecção e notas de Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa: Bertrand, 1958
- O Algarve na Obra de Teixeira Gomes, prefácio e selecção de Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa: Portugália Editora, 1962
- O Mundo do Toureio na Literatura de Língua Portuguesa, selecção e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa: Portugália Editora, 1966
- A Estremadura, introdução, selecção e notas de Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa: Bertrand, 1968
- Poesia da Noite, selecção e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa: Neo-Farmacêutica, 1970
- O Cristal da Palavra: Cartas Inéditas de Manuel Teixeira Gomes a Afonso Lopes Vieira, Lisboa-Portimão: Edições Colibri, 1999
- Retratos para Aquilino (texto e pintura, em colaboração com outros autores), Paredes de Coura: Câmara Municipal de Paredes de Coura - Cooperativa Árvore, 2000
- O Algarve em Poemas, Porto: Edições Asa, 2003
- Os Poemas da Minha Vida, Lisboa: Público, 2005
- É Tempo de Começar a Falar de Álvaro Cunhal, organização e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Porto: Edições Asa, 2006


E como se comportou desta vez a rádio estatal? A Antena 2 repôs a entrevista concedida pelo escritor a João Almeida, em 2008. A Antena 1 transmitiu uma entrevista realizada por Mário Galego em finais de 2012 e recuperou do arquivo a edição do programa "Vidas Que Contam" consagrada a Urbano Tavares Rodrigues, que havia sido emitida em Março passado.
As entrevistas e as resenhas biográficas são, sem dúvida, importantes, mas algo mais a rádio pública podia e devia fazer no sentido de dar a conhecer a obra, em si mesma, do autor. Refiro-me concretamente à transmissão, na íntegra, da adaptação radiofónica do romance "Bastardos do Sol" e à inclusão na 'playlist' da Antena 1 (e mesmo na da Antena 3 – porque não?) das canções que se gravaram baseadas em poemas seus (que aproveito para aqui apresentar).
Antes, deixo os atalhos para os referidos programas e também para outros com entrevistas, a começar pelo "Agora... Acontece!", de 14-Dez-1998. Destaco entre todos "A Força das Coisas" que contém duas entrevistas: uma realizada pelo autor do programa, Luís Caetano, em meados de 2012, e outra por Francisco Igrejas Caeiro, em 1957.


"Agora... Acontece!" N.º 11, de 14-Dez-1998



Urbano Tavares Rodrigues entrevistado por Carlos Pinto Coelho, a propósito do lançamento do livro "Margem da Ausência" (Edições Asa, 1998) [a partir de 20':45"]


"Quinta Essência", de 10-Out-2008 [reposição em 10-Ago-2013]

http://www.rtp.pt/play/p319/e125826/quinta-essência

Urbano Tavares Rodrigues entrevistado por João Almeida, em 2008
Produção e coordenação de Manuela Gomes


"Última Hora", de 18-Jun-2012
http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Interior.aspx?content_id=2616857

Urbano Tavares Rodrigues entrevistado por Ricardo Oliveira Duarte, a propósito do lançamento do livro "Escutando o Rumor da Vida seguido de Solidões em Brasa" (Junho de 2012)


"A Força das Coisas", de 28-Jul-2012
http://www.rtp.pt/play/p321/e89014/a-forca-das-coisas

Urbano Tavares Rodrigues entrevistado por Luís Caetano, em Julho de 2012
Urbano Tavares Rodrigues entrevistado por Francisco Igrejas Caeiro para o programa "Perfil dum Artista" (1957)


"Entrevista Antena 1", de 09-Ago-2013
http://www.rtp.pt/play/p314/e125745/entrevista-antena-1

Urbano Tavares Rodrigues entrevistado por Mário Galego, em finais de 2012


"Vidas Que Contam", de 19-Mar-2013
http://www.rtp.pt/play/p328/e111194/vidas-que-contam

Documentário radiofónico sobre Urbano Tavares Rodrigues; autoria e realização de Ana Aranha



Canção do Soldado (No Cerco do Porto)



Poema: Urbano Tavares Rodrigues
Música: Adriano Correia de Oliveira
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira (in EP "Menina dos Olhos Tristes", Orfeu, 1964; "Obra Completa: CD "A Noite dos Poetas", Movieplay, 1994, 2007)




[instrumental]

Sete balas só na mão,
Já começa a amanhecer;
Sete flores de limão
P'ra lutar até vencer.
Sete flores de limão
P'ra lutar até morrer.

[instrumental]

Já estremece a tirania,
Já o sol amanheceu;
Mil olhos tem o dragão,
Há chamas d'oiro no céu.
Mil olhos tem o dragão,
Há chamas d'oiro no céu.

[instrumental]

Abriu o peito o luar,
Companheiros, acercai-vos!
Arde em nós a luz do dia,
Companheiros, revezai-vos!
Arde em nós a luz do dia,
Companheiros, revezai-vos!

[instrumental]

Já o rouxinol cantou,
Tomai o nosso estandarte!
No seu sangue misturado
Já não há desigualdade.
No seu sangue misturado
Já não há desigualdade.

[instrumental]

Sete balas só na mão,
Já começa a amanhecer;
Sete flores de limão
P'ra lutar até vencer.


* Rui Pato – viola



Margem Sul (Canção Patuleia)



Poema: Urbano Tavares Rodrigues
Música: Adriano Correia de Oliveira
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira* (in LP "Margem Sul", Orfeu, 1967; "Obra Completa: CD "A Noite dos Poetas", Movieplay, 1994, 2007)




[instrumental]

Ó Alentejo dos pobres,
Reino da desolação,
Não sirvas quem te despreza!
É tua a tua nação.
Não sirvas quem te despreza!
É tua a tua nação.

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte!
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte.
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte.

Terra sangrenta de Serpa,
Terra morena de Moura,
Vilas de angústia em botão,
Dor cerrada em Baleizão.

[instrumental]

Ó margem esquerda do Verão,
Mais quente de Portugal,
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal.
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal.

A foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravada,
Ó minha terra morena,
Como bandeira sonhada.
Ó minha terra morena,
Como bandeira sonhada.

Terra sangrenta de Serpa,
Terra morena de Moura,
Vilas de angústia em botão,
Dor cerrada em Baleizão.

[instrumental]


* Rui Pato – viola



Margem Esquerda



Poema: Urbano Tavares Rodrigues
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de nos Jours et de Toujours N.º 2", Moshé-Naim, 1969)




[instrumental]

Ó Alentejo dos pobres,
Reino da desolação,
Não sirvas quem te despreza!
É tua a tua nação!

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte!
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte!

Terra sangrenta de Serpa,
Terra morena de Moura,
Vilas de angústia em botão,
Dor cerrada em Baleizão.

[instrumental]

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte!
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte!

A foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravada,
Ó minha terra vermelha,
Como bandeira sonhada. [bis]

[instrumental]


* Luís Cília – canto e guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy



Canção do Soldado no Cerco do Porto



Poema: Urbano Tavares Rodrigues
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de nos Jours et de Toujours N.º 2", Moshé-Naim, 1973 – edição espanhola)




[instrumental]

Sete balas só na mão,
Já começa a amanhecer;
Sete flores de limão
P'ra lutar até morrer.

Já estremece a tirania,
Já o sol amanheceu;
Mil olhos tem o dragão,
Há chamas d'oiro no céu.

Cresçam monstros e canhões
Contra este mar de vontades!
A força bruta não pode
Vencer o sol das verdades!

Abriu-me o peito o luar,
Companheiros, acercai-vos!
Arde em nós a luz do dia,
Companheiros, revezai-vos!

Já o rouxinol cantou,
Tomai o nosso estandarte!
No seu sangue misturado
Já não há desigualdade.

Cresçam monstros e canhões
Contra este mar de vontades!
A força bruta não pode
Vencer o sol das verdades! [bis]

[instrumental]


* Luís Cília – canto e guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy



Paixão



Poema: Urbano Tavares Rodrigues
Música: António Victorino d'Almeida
Intérprete: Maria João Pires & Carlos do Carmo* (in CD "Maria João Pires & Carlos do Carmo", Universal, 2012)


Ai coração de Lisboa
Sangrando por tantas feridas!
Dizem que excesso de amor,
Tantas rosas comovidas.

Arde a paixão no teu rosto
E as ondas altas do mar
Rolam no fervor do ar;
Ai tempestades de Agosto!
[bis]

Com um beijo me prendeste
À tua blusa dourada;
Com outro beijo me deste
Os mirtos da madrugada.

Arde a paixão no teu rosto
E as ondas altas do mar
Rolam no fervor do ar;
Ai tempestades de Agosto!
[bis]

Maria, filha da luz,
Ancoraste em meus abraços;
E a espuma do sol reluz
No segredo dos teus braços.

[instrumental]

Arde a paixão no teu rosto
E as ondas altas do mar
Rolam no fervor do ar;       | bis
Ai tempestades de Agosto!  |


* Maria João Pires – piano
Carlos do Carmo – voz
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Maio, Julho e Outubro de 2012

Engenheiro de gravação – Joaquim Monte
Misturado e masterizado por Alfredo Almeida e Carlos Vales, no Bebop Studio



Capa da primeira edição do romance "Bastardos do Sol" (Arcádia, 1959)



Capa da edição em DVD do documentário "Memória das Palavras: Urbano Tavares Rodrigues", realizado por António Castanheira em 2008 (Edições Cão Menor, 2009)