25 junho 2012

"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor

Graças à gravação pré-programada, posso dar-me ao luxo de ouvir os programas de rádio e televisão do meu interesse nos horários que mais me convêm. As minhas manhãs se sábado são por regra consagradas à audição de rádio, começando, cerca das 09:00, com o imperdível "Lugar ao Sul", seguindo-se "A Vida dos Sons", magazine histórico realizado por Ana Aranha e Iolanda Ferreira com base no arquivo sonoro da RDP (escrevo RDP porque faço questão de não deixar cair esta prestigiada marca no âmbito do casamento forçado e desigual com a RTP). Tenho acompanhado "A Vida dos Sons" desde o início (se bem me lembro, a primeira edição foi consagrada aos alvores da gravação sonora com a invenção do fonógrafo por Thomas Edison, em 1877) e com muito interesse e proveito, devo acrescentar, em reconhecimento do trabalho realizado pelas autoras. No entanto, a edição de sábado passado (respeitante a 1968) e as seis ou sete precedentes tiveram o condão de me deixar com a sensação de alguma monotonia e enfado. E porquê? Porque os acontecimentos de natureza política e militar passaram a preencher, quase em exclusivo, cada edição, ficando a componente cultural reduzida a praticamente nada. Não acredito que tal esteja a acontecer devido a uma hipotética míngua de actividade cultural na década de 60. Em todos os anos desse decénio houve certamente muitos eventos culturais dignos de referência: lançamento de livros e discos, estreias de filmes e peças de teatro, exposições, actuação em Portugal de nomes míticos da música (erudita e popular), falecimento de figuras importantes das artes, letras e ciências, etc. A menos que tenham sido entretanto destruídos, existem no arquivo da RDP muitos registos de peças de teatro radiofónico, de obras de ficção adaptadas para rádio (que eram transmitidas em episódios) e de poesia, sem esquecer as centenas de entrevistas realizadas por Igrejas Caeiro e outros. Seria de todo o interesse que esses registos fossem resgatados, em tributo a tantos homens e mulheres que marcaram o seu tempo e que, em muitos casos, deixaram obra relevante para a posteridade. E nem sequer se pede que as gravações sejam exactamente coetâneas ao evento a assinalar. Um exemplo: em 1968 (apenas para citar o ano respeitante à edição de sábado passado), saiu o romance "O Delfim", de José Cardoso Pires. Seria perfeitamente lógico que se resgatasse o excerto de uma entrevista (ainda que gravada muito mais tarde) em que o escritor tivesse falado do livro e, em complemento, caso exista, uma passagem da adaptação radiofónica da obra, mesmo que tendo sido feita nos anos 80 ou 90. E assim ficava devidamente assinalada a edição de um dos mais notáveis frescos literários do Portugal marialva que esteava o salazarismo. Outro exemplo, também relativo a 1968: a edição do belíssimo álbum "Cantares do Andarilho", de José Afonso. Para a assinalar, bastaria transmitir o excerto de uma entrevista feita ao cantautor em que ele se tivesse referido ao disco, seguida de uma das respectivas canções (talvez "Vejam Bem" [>> YouTube], visto ter-se tornado uma espécie de hino de resistência à ditadura).
As autoras do programa poderão alegar que nos 50 minutos que têm à sua disposição não dá para meter muito mais do que a vertente política e militar. Nesse caso, que se faça duas edições para cada ano. A exemplo, aliás, do que chegou a ser feito – e bem – no ano de 1961 e também em determinados anos das décadas de 30, 40 e 50. É que havendo um fabuloso acervo de fonogramas de cariz cultural no arquivo da RDP, penso que constitui uma falha grave eles não serem contemplados num programa que visa – presumivelmente – dar uma panorâmica abrangente do que aconteceu no país e no mundo desde que há registo áudio e que, por acaso, se chama "A Vida dos Sons". Afinal de contas, tais sons também têm vida: bem mais, aliás, do que boa parte dos discursos e declarações de políticos e chefes militares... Entre um inócuo discurso de Américo Thomaz ou um qualquer apontamento de reportagem laudatório de Oliveira Salazar ou apologético da Guerra Colonial e uma peça de Bernardo Santareno, uma adaptação de um conto de José Rodrigues Miguéis, ou um poema dito por João Villaret, Mário Viegas ou Carmen Dolores, eu não tenho a mais pequena dúvida acerca de quais mais satisfação e enriquecimento espiritual me proporcionam.
Em suma: deseja-se que "A Vida dos Sons" seja menos cinzenta e mais multicolor.

15 junho 2012

Em memória de Raul Nery (1921-2012)



Raul Nery, de seu nome completo Raul Filipe Nery, nasceu em Lisboa (freguesia de Santa Engrácia), a 10 de Janeiro de 1921. Revelou, desde tenra idade, vocação para a música, dedicando-se primeiramente ao bandolim. Por influência de um tio, aprende a tocar guitarra portuguesa, recebendo lições do pai de Salvador Freire. Com apenas nove anos de idade, começa a tocar publicamente em diversos recintos de fado amador e, dois anos depois, recebe o epíteto de "o jovem e prodigioso guitarrista", no programa que anunciava um espectáculo misto, em que acompanharia, ao lado do violista Alfredo Gomes de Azevedo, a fadista Ercília Costa, a quem o povo chamava "a Santa do Fado". Em 1938, com 17 anos de idade, estreia-se no "Retiro da Severa", ao lado de músicos consagrados como Armando Freire, mais conhecido como Armandinho, Abel Negrão e Santos Moreira. Armandinho foi, de facto, a sua grande referência na arte de tocar a guitarra portuguesa, conforme declarou numa entrevista: «Eu aprendi muito com o Armandinho. Ele ia criando umas melodias, e eu fixava-as de cabeça com muita facilidade. Ia para casa e no outro dia continuávamos a trabalhar na melodia. Foi quem mais me influenciou e ganhei algumas maneiras como ele tocava».
Trabalhou no teatro de revista acompanhando diversos artistas, entre os quais Estêvão Amarante, Berta Cardoso e Hermínia Silva. Esteve também ligado a várias casas de fado, como o "Café Luso", a "Adega Machado" e a "Adega Mesquita". Nesta última, acompanhou Fernando Farinha, com quem estabeleceu «fortes laços de amizade, a ponto de o convidar para padrinho dos meus filhos».
Depois da II Guerra Mundial, foi o acompanhador, com Santos Moreira (viola), de Amália Rodrigues em muitos espectáculos no país e no estrangeiro, designadamente os realizados ao âmbito do Plano Marshall. Entre vários episódios marcantes, o músico recordou a ovação que receberam de pé no Teatro Argentina, em Roma, onde actuaram «integrados num elenco predominantemente da música clássica».
Nunca descurando os estudos académicos, Raul Nery veio a concluir o curso de agente técnico de engenharia já no auge da sua carreira de guitarrista, integrando, em 1954, os quadros da companhia petrolífera Sacor. Acabou, naturalmente, por encontrar algumas dificuldades de conciliação de ambas as actividades, sobretudo aquando das deslocações ao estrangeiro, sendo por vezes forçado a abdicar do acompanhamento dos artistas, nomeadamente de Amália Rodrigues.
Sucedendo a Fernando de Freitas, foi, durante duas décadas, o guitarrista exclusivo de Maria Teresa de Noronha, emparceirando com o violista Joaquim do Vale (Covinhas), no programa semanal que a fadista manteve até 1961 na Emissora Nacional, em actuações na televisão, na gravação de discos, em espectáculos no estrangeiro e em festas particulares. «Foi uma das mais extraordinárias artistas de fado que conheci e tinha um estilo incomparável.», afirmou o músico.
Em 1958, Raul Nery actuou em Londres, como solista, em gravações com a orquestra de George Melachrino, com a qual gravou os temas "Uma Casa Portuguesa", "Canção do Mar", "Mãe Preta", "Coimbra", "Um Pequeno Café", "Fado Obrigado", "Rapsódia Portuguesa", "Variações em Ré". Foi também convidado pela BBC para uma actuação no programa televisivo "In Town Tonight", merecendo da imprensa inglesa o epíteto "the musical memory man".
A convite da Emissora Nacional, em 1959, fundou com José Fontes Rocha (segunda guitarra portuguesa), Júlio Gomes (viola) e Joel Pina (viola baixo) o Conjunto de Guitarras de Raul Nery. Além do programa quinzenal que durante uma década manteve na rádio pública, o quarteto foi o suporte instrumental de muitos fadistas, quer em espectáculos ao vivo, quer em gravações discográficas. «Todos os grandes, de Amália, Maria Teresa de Noronha, Hermínia, a Tony de Matos, Max, Fernanda Maria, gravaram connosco», recorda Joel Pina. A fama que o conjunto granjeou valeu-lhe um contrato com a orquestra inglesa de George Melachrino, para a gravação do disco "Lisbon at Twilight", que obteria enorme sucesso.
Raul Nery, acabaria por abandonar relativamente cedo, nos inícios dos anos 80, a actividade que o consagrou como um dos maiores executantes de guitarra portuguesa e uma personalidade incontornável da História do Fado.
Entre as distinções que recebeu em vida, conta-se o prémio de consagração de carreira da Fundação Amália Rodrigues.
Em declarações ao jornal "Público", Ricardo Parreira, um dos mais talentosos guitarristas da nova geração, fala assim do grande músico: «Raul Nery foi o guitarrista que mais desenvolveu o acompanhamento à voz. Tinha como característica essencial o bom gosto. Em todos os discos dele que eu tenho, o bom gosto está presente. Sempre foi uma referência para mim. Desde pequeno, o meu pai [António Parreira] punha-me a ouvir Raul Nery para eu aprender.» (fontes principais: "Museu do Fado" e "Público")

Um dos espécimes em que está bem patente a arte do exímio guitarrista que foi Raul Nery é o "Fado Anadia", de Maria Teresa de Noronha, que aqui se deixa, em jeito de tributo à sua memória.



Fado Anadia



Letra: Marques dos Santos
Música: José Maria dos Cavalinhos (1874, dedicada ao 4.º Conde da Anadia, D. José Maria de Sá Pereira e Menezes Pais do Amaral de Almeida e Vasconcelos Quifel Barberino, amante de fado, falecido a 10 de Julho de 1870, com 31 anos de idade)
Arranjo: Maria Teresa de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)





[instrumental]

Eu sei que no céu profundo
Nunca brilhou minha estrela;
Sinto que a vida do mundo     | bis
Jamais poderei vivê-la.          |

[instrumental]

Penso que a vida que vivo
Não passa duma ilusão,
Pois não encontro o motivo   | bis
Do bater do coração.            |

[instrumental]

Creio viver sem ter vida,
Viver vida sem alento
Tal como folha caída              | bis
Andando ao sabor do vento.   |

[instrumental]

Não quero sofrer a sorte
Nesta má sina contida;
Prefiro pedir à morte           | bis
Que me leve à outra vida.   |

[instrumental]


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho

URL: http://www.museudofado.pt/personalidades/detalhes.php?id=362
http://www.portaldofado.net/content/view/1647/280/
http://www.portaldofado.net/content/view/1648/280/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Raul_Nery
http://www.macua.org/biografias/raulfilipenery.html
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/70294.html
http://ofadodelisboa.blogspot.com/2007/02/o-conjunto-de-guitarras-de-ral-nery.html
http://cotonete.clix.pt/artistas/home.aspx?id=2145