13 maio 2017

Antena 1: uma emissora católica e apostólica? (II)



A exemplo do que se passou em Maio de 2010, aquando da visita de Bento XVI, a programação normal da Antena 1 foi totalmente elidida e substituída pela cobertura, ao milímetro e ao segundo, de todos os acontecimentos (e não acontecimentos) respeitantes à viagem que o papa Francisco acabou de fazer a Fátima. Creio que foi o próprio Jorge Bergoglio quem afirmou que vinha a Fátima como peregrino. Portanto, não se tratou de uma visita oficial do chefe de Estado do Vaticano a outro estado, no caso Portugal. Ora, sendo uma viagem de cariz estritamente apostólico, a rádio pública devia ter mais pudor e recato, em obediência ao seu estatuto de entidade laica, na cobertura do evento, cingindo-se ao que tivesse valor informativo real e objectivo para a generalidade dos cidadãos (nos intercalares noticiosos). Ao cobrir de modo intensivo, exaustivo e obsessivo tudo que era de índole meramente religiosa, designadamente as cerimónias litúrgicas na Cova da Iria, a Antena 1 comportou-se como se fosse a Rádio Renascença e isso merece o veemente repúdio de quem preza o livre-pensamento e não quer ser catequizado, como é o caso do escrevente destas linhas. E digo isto perfeitamente à vontade pois, apesar de ser agnóstico, até simpatizo com o homem que o colégio cardinalício elegeu (talvez por engano) para suceder a Joseph Ratzinger no trono pontifício.
A circunstância da maioria da população portuguesa ser (culturalmente) católica não valida a opção de quem manda na Antena 1. O Estado Português e todas as entidades da sua esfera não devem envolver-se nos assuntos da fé, porque se o fizerem, colocando-se ao lado de uma determinada confissão, estão inevitavelmente a dar a entender de que aquela é que é a verdadeira e a autêntica. Concomitantemente, os que professam outros credos e os que não têm credo algum recebem o estigma implícito de ímpios e degenerados mentais. A fé religiosa (ou a não-fé assumida em total liberdade de consciência) é do foro íntimo de cada um e jamais se poderá admitir que o Estado (que representa todos) tome partido por alguma.


Texto relacionado:
Antena 1: uma emissora católica e apostólica?

25 abril 2017

Miguel Torga: "Flor da Liberdade"



Neste aniversário (o quadragésimo terceiro) da eclosão da Revolução dos Cravos, que devolveu a Liberdade a Portugal, apresentamos o poema "Flor da Liberdade", de e por Miguel Torga. O texto veio a lume no ano de 1958, em plena autocracia salazarista, mas a mensagem não perdeu actualidade. Se "recusar", naquele tempo, significava contestar e resistir à opressão, hoje consiste em exercer plenamente a Liberdade. Deixar de exercê-la – por medo, comodismo ou apatia –, é abrir caminho ao despotismo de uns quantos sobre todos.

No caso concreto da rádio pública, quando os ouvintes não se revêem no serviço (ou falta dele) que lhes é apresentado, de que modo podem dar expressão à sua recusa? Duas vias se lhes oferecem: uma é desligar a sintonia e sem mais nada fazer, dando o caso como perdido; a outra é intervir civicamente no sentido da debelação das mazelas e, consequentemente, que o "doente" se torne um ente saudável e útil à sociedade, fazendo assim jus à nobre missão de serviço público que lhe cabe prestar: informar com isenção e pluralismo, cultivar e entreter com enlevo. Optámos pela segunda via e dela não nos iremos desviar, apesar do autismo com que nos temos deparado da parte dos decisores.
Reportando-nos à Antena 1, que é dos três canais de cobertura nacional o que se encontra, presentemente, em estado de maior enfermidade, apontamos três deficiências gritantes (por ordem crescente de importância):
  1. Ausência de uma rubrica diária de poesia tendo como âmbito os autores de língua portuguesa, seja na voz dos próprios, seja na de reputados recitadores;
  2. Ausência de teatro radiofónico, que foi durante muitos anos uma marca de excelência no serviço público de radiodifusão e que constitui um património de valor inestimável que urge resgatar;
  3. Falta de pluralismo estilístico e estético na lista de difusão musical de continuidade, vulgo 'playlist', e inerente exclusão de um extenso rol de artistas portugueses de reconhecida qualidade – que se traduz no obsceno favorecimento da produção pop e hip hop, a maioria da qual de baixíssimo quilate, e na criminosa marginalização de tudo o resto, mormente da música tradicional portuguesa e do valioso repertório dos cantautores.
    Podemos considerar razoável que, sob a alçada de um regime que se apregoa de democrático e pluralista, a pop e o hip hop desempenhem hoje na rádio estatal o mesmo papel que tinha o nacional-cançonetismo sob a vigência da ditadura?


FLOR DA LIBERDADE



Poema de Miguel Torga (in "Orfeu Rebelde", Coimbra: Edição do autor, 1958 – p.52-53; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, 2.ª edição, 2002 – p. 560)
Recitado pelo autor* (in 2LP "Miguel Torga: 80 Poemas": LP 1, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)


Sombra dos mortos, maldição dos vivos.
Também nós... Também nós... E o sol recua.
Apenas o teu rosto continua
A sorrir como dantes,
Liberdade!
Liberdade do homem sobre a terra,
Ou debaixo da terra.
Liberdade!
O não inconformado que se diz
A Deus, à tirania, à eternidade.

Sepultos insepultos,
Vivos amortalhados,
Passados e presentes cidadãos:
Temos nas nossas mãos
O terrível poder de recusar!
E é essa flor que nunca desespera
No jardim da perpétua primavera.


* Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, nos dias 31 de Junho, 1 e 31 de Julho de 1987
Engenheiro de som – Pedro Vasconcelos
Montagem – Miguel Gonçalves
Montagem digital (CD) – Fernando Paulo Boavida, nos Estúdios Valentim de Carvalho




13 abril 2017

Em memória de Fernando Campos (1924-2017)


Fernando Campos fotografado por António Pedro Ferreira


Eu sou assim: o que é histórico é histórico, o que a História não pode contar conto eu.
                    FERNANDO CAMPOS


Ficcionista, cronista e investigador português, Fernando da Silva Campos nasceu em Águas Santas, concelho da Maia, a 23 de Abril de 1924.
Filho do pintor Alberto da Silva Campos, fez os estudos universitários na Faculdade de Letras de Coimbra, onde se licenciou em Filologia Clássica. Tornou-se professor do ensino liceal, tendo sido docente do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, cidade onde passou a residir definitivamente.
Paralelamente à actividade de docente, escreveu algumas obras didácticas e monografias de investigação etimológica e exegese literária, como "Prosadores Religiosos do Século XVI" (1950), "A Redacção" (1968), "A Vila de São Teotónio: uma Fonte de 'Os Lusíadas'?" (1972) e "O Arinteiro de El-Rei" (1972).
Fernando Campos iniciou já tarde o seu mister de ficcionista, pois só aos 62 anos de idade publicou o seu primeiro romance, "A Casa do Pó" (1986), que recebeu rasgados elogios da crítica e se tornou um êxito editorial, com sucessivas edições. Trata-se dum romance histórico cuja acção decorre em finais do século XVI e conta a saga das peregrinações de Frei Pantaleão de Aveiro, o autor de "Itinerário de Terra Santa" (1593). O enigma da identidade do frade franciscano, servindo de pretexto para, ao longo de todos os itinerários que percorre (Portugal, Espanha e toda a bacia mediterrânica dominada por Venezianos e Turcos, até à Palestina), esboçar um panorama mental sobre a cristandade ocidental e oriental, e sobre o contexto político português no fim de Quinhentos, tende, porém, a adquirir, desde as primeiras páginas, uma dimensão universal: mais do que rigorosa e documentada incursão pelo romance histórico, segundo o autor (cf. Notas a "A Casa do Pó", 5.ª ed., Lisboa: Difel, 1987, p. 436), «o que aí está são velhos problemas da Humanidade que, vindos de há séculos, ainda hoje persistem nos mesmos cenários e saltam para outros mais alargados e vastos». Nesta obra magistral, que logo catapultou Fernando Campos para a esfera dos escritores maiores da língua portuguesa, surgem diversas figuras históricas, entre as quais Luís Vaz de Camões. O autor levou cerca de onze anos a preparar o livro, dez dos quais em trabalho de pesquisa histórica.
Nas obras seguintes, o autor recorre mais uma vez à ficção como género privilegiado para uma indagação ontológica, religiosa ou metafísica, enriquecida com uma cultura invulgar, alargada na convivência de autodidacta com leituras clássicas, filosóficas e históricas, fazendo ainda prova de uma versatilidade de registos (lírico, trágico, épico), já manifestada em "A Casa do Pó". Para cada um dos seus romances históricos, Fernando Campos faz uma cuidada e meticulosa pesquisa para poder recriar ao pormenor o enredo e caracterizar as personagens com o máximo rigor. Só recorre à imaginação quando se depara com a falta de dados históricos.
Em 1987, o escritor publicou a novela satírica "O Homem da Máquina de Escrever" e o romance "Psiché", retrato cruel da decadência de um comediante do teatro ligeiro ante a feroz concorrência do cinema, na primeira metade do século XX. Seguiram-se, em 1990, "O Pesadelo de dEus", romance de pendor metafísico protagonizado por um estudante de Filosofia e um casal de fantoches, e, em 1995, o livro que lhe valeu o Prémio Eça de Queiroz desse mesmo ano, "A Esmeralda Partida", admirável reconstituição do período conturbado que se situa entre os reinados de D. João I e de D. João II.
Após dois anos e meio de intenso trabalho de investigação e escrita, o autor deu à estampa o romance "A Sala das Perguntas" (1998), que aborda a vida do humanista português Damião de Góis (1502-1574). Na obra, aparecem distintas personalidades coevas, como Martinho Lutero, Thomas More, Erasmo de Roterdão, João de Barros e Luís de Camões. Em 1999, saiu o livro de contos "Viagens ao Ponto de Fuga" e, no ano seguinte, o romance "A Ponte dos Suspiros", protagonizado por D. Sebastião que surge em Veneza, vinte anos depois da Batalha de Alcácer Quibir, almejando obter do papa, com a ajuda do arcebispo de Espálato, o reconhecimento como o legítimo rei de Portugal.
Já em 2001, o escritor apresentou o livro "...que o meu pé prende...", incursão no género fantástico, a partir do conto popular "A Formiga e a Neve", que alguém considerou uma síntese perfeita de todas as lutas da Humanidade, de todas as verdades e de todas as mentiras. Regressou ao romance histórico, dois anos mais tarde, com "O Prisioneiro da Torre Velha", em que relata os momentos cruciais que antecederam a conjura de 1640, servindo-se das palavras escritas pela figura central da obra, D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666). Fernando Campos já tinha em mente escrever sobre aquele vulto seiscentista desde os tempos de estudante em Coimbra, quando a convite do professor Correia de Oliveira trabalhou num projecto de edição crítica das "Cartas Familiares".
Em 2005, lançou "O Cavaleiro da Águia", romance histórico que tem como protagonista o guerreiro medieval D. Gonçalo Mendes da Maia, cognominado O Lidador. Seguiram-se: "O Lago Azul" (2007), em torno da descendência de D. António Prior do Crato; "A Loja das Duas Esquinas" (2009), revisitação da tragédia de Édipo pelos olhos de um antiquário; "A Rocha Branca" (2011), dando-nos a poetisa grega Safo entregue à paixão sob a égide das artes mágicas da deusa Afrodite; e "Revengar" (2012), o seu último romance, tendo como fonte de inspiração recortes do folhetim homónimo publicado pelo vespertino carioca "A Noite", por sua vez decalcado do filme "The Shielding Shadow" (1917), em 15 episódios, realizado por Louis J. Gasnier.
Fernando Campos está traduzido em francês, italiano e alemão.
Foi também colaborador do "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias", com a série de crónicas "Os Trabalhos e os Dias".


BIBLIOGRAFIA ACTIVA:

Pedagogia, investigação literária e monografias:
- Prosadores Religiosos do Século XVI (antologia organizada em colaboração com Alcides Soares), Coimbra: Livraria do Castelo, 1950
- A Redacção (orientação e exercícios), Porto: Livraria Avis, 1968, 1970, 1972
- A Vila de São Teotónio: uma fonte de "Os Lusíadas"?, in "Panorama", n.º 44 e separata, Lisboa, 1972
- O Arinteiro de El-Rei (monografia de investigação etimológica), in "Armas e Troféus", III Série-tomo 1, Jul.-Set. 1972, n.º 2, p. 196-202.
- Portugal (monografia), fotografias de Jean-Charles Pinheira, Lisboa: Difel, 1989

Ficção:
- A Casa do Pó (romance), Lisboa: Difel, 1986; Lisboa: Objectiva/Alfaguara, 2011 [Prémio Literário Município de Lisboa, 1986]
- O Homem da Máquina de Escrever (novela satírica), Lisboa: Difel, 1987, 1997
- Psiché (romance), Lisboa: Difel, 1987, 1988
- O Pesadelo de dEus (romance), Lisboa: Difel, 1990
- Flor de Estufa (conto), in "Imaginários Portugueses: Antologia de Autores Portugueses Contemporâneos", Lisboa: Fora do Texto, 1992
- A Fonte da Paciência (conto), in "Boletim Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian: Memórias da Infância", VIII Série, n.º 1, Lisboa, Dez. 1994
- A Esmeralda Partida (romance), Lisboa: Difel, 1995, 2008 [Prémio Eça de Queiroz, da Câmara Municipal de Lisboa, 1995]
- Ritorni (conto em italiano), in "Europa Come: 15 Racconti per 15 Nazioni", Florença: Giunti, Gruppo Editoriale, 1996
- O Inferno e o Paraíso (conto), in "Contoário Cem", Lisboa: O Escritor, 1996
- A Sala das Perguntas (romance), Lisboa: Difel, 1998, 2000
- Viagem ao Ponto de Fuga (contos), Lisboa: Difel, 1999
- A Ponte dos Suspiros (romance), Lisboa: Difel, 2000
- ...que o meu pé prende... (romance), Lisboa: Difel, 2001, 2009
- O Prisioneiro da Torre Velha (romance), Lisboa: Difel, 2003
- O Cavaleiro da Águia (romance), Lisboa: Difel, 2005; Lisboa: Divina Comédia, 2013
- O Lago Azul (romance), Lisboa: Difel, 2007
- A Loja das Duas Esquinas (romance), Lisboa: Difel, 2009; Lisboa: Divina Comédia, 2014
- A Rocha Branca (romance), Lisboa: Objectiva/Alfaguara, 2011
- Ravengar (romance), Lisboa: Objectiva/Alfaguara, 2012


BIBLIOGRAFIA PASSIVA:

- Benedito, Silvério Augusto. Para uma Leitura de "A Casa do Pó" de Fernando Campos: Uma Busca Obsessiva das Origens, Lisboa: Editorial Presença, 1995
- Letria, José Jorge. Conversas com Letras: Entrevistas com Escritores, Lisboa: O Escritor, 1994
- Marinho, Maria de Fátima. O Romance Histórico em Portugal, Porto: Campo das Letras, 1999
- Vieira, Cristina Maria da Costa. O Universo Feminino n' "A Esmeralda Partida" de Fernando Campos, Lisboa: Difel, 2002


O que fez a rádio pública em memória do eminente escritor Fernando Campos?
Na Antena 2, há que louvar o cuidado que Luís Caetano teve em recuperar a entrevista que o escritor lhe concedeu em 2007, a propósito da publicação do romance "O Lago Azul", que inseriu, logo que a notícia da morte foi veiculada, n' "A Ronda da Noite" [>> RTP-Play] e depois também no programa "A Força das Coisas" [>> RTP-Play].
Na Antena 1, e tirando a simples notícia do falecimento, nada me constou. Daria assim tanto trabalho ir ao arquivo buscar uma entrevista e transmiti-la? Eu tenho a ideia de ter ouvido, certa vez na Antena 1, Fernando Campos a ser entrevistado por Graça Vasconcelos, mas se fosse escolhida outra entrevista que porventura exista no arquivo histórico, não haveria a mais pequena objecção da minha parte. O mesmo direi a respeito da leitura intercalar, ao longo de um ou mais dias, de excertos da obra ficcional do autor. Nada ser feito, como se Fernando Campos fosse uma figura insignificante das letras portuguesas, é que jamais se poderá tolerar no canal de maior audiência da rádio do Estado.

Quem também entrevistou Fernando Campos, a pretexto da edição do romance "A Ponte dos Suspiros", foi o saudoso Carlos Pinto Coelho, para o programa radiofónico "Agora... Acontece!". Uma agradabilíssima entrevista que o blogue "A Nossa Rádio" proporciona, com a maior das honras, à audição dos seus leitores/visitantes.


"Agora... Acontece!" N.º 111, de 15-Jan-2001



Fernando Campos entrevistado por Carlos Pinto Coelho [a partir de 9':15'']



Capa da primeira edição do romance "A Casa do Pó" (Difel, 1986)
Concepção gráfica de Rogério Petinga.

27 março 2017

É preciso resgatar o teatro radiofónico


Ruy Furtado (1919-1991), dono de uma das vozes mais carismáticas do teatro radiofónico.
Entre as numerosas peças e adaptações de obras romanescas em que entrou, contam-se "Deus Lhe Pague", de Joracy Camargo, e "Esteiros", de Soeiro Pereira Gomes.
Também participou em vários filmes, tais como "Os Verdes Anos" (de Paulo Rocha), "Uma Abelha na Chuva" (de Fernando Lopes), "Amor de Perdição" (de Manoel de Oliveira), "Um Adeus Português" (de João Botelho) e "A Divina Comédia" (de Manoel de Oliveira), ao qual pertence a imagem supra.


No Dia Mundial do Teatro, afigura-se oportuno fazer um ponto de situação da arte de Talma na rádio pública. Falamos, obviamente, de teatro radiofónico e não de notícias e anúncios relativos a peças levadas à cena em Lisboa e noutras localidades do país.
Na Antena 2, há um espaço chamado "Teatro Sem Fios" [>> RTP-Play] onde a intervalos de várias semanas (às vezes meses) surgem umas "coisas". E dizemos "coisas" porque estão a milhas de distância da melhor tradição de teatro radiofónico feito em Portugal. Na verdade, os "produtos" lá apresentados estão longe de ser interessantes e apetecíveis: textos marginais ao grande repertório, não raras vezes dramaturgicamente insípidos e difíceis de tragar (mesmo pelo ouvinte mais tolerante à sensaboria), e ainda com a agravante de serem deficientemente produzidos, quer em termos técnicos quer artísticos – sem sonorização (por exemplo, quando bate uma porta, em vez de se colocar o som da porta a bater põe-se alguém a dizer: "bateu uma porta") e utilizando frequentemente vozes inexperientes, de timbres vulgares e sem qualquer carisma. Em suma: produtos bastante indigestos, mesmo para os ouvintes mais ávidos e famintos de teatro.
Nas Antenas 1 e 3, nada existe. Um lastimável estado coisas que urge alterar. No caso da Antena 1, a situação roça mesmo o absurdo, atendendo ao honroso historial que o canal possui no capítulo do teatro pois, durante décadas a fio, transmitiu muitas peças e sobretudo admiráveis adaptações de romances referenciais de grandes vultos da Literatura Portuguesa e Mundial (Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Lev Tolstoi, etc.).
Ao contrário do que alguns julgam e querem fazer crer, o teatro radiofónico não é uma arte menor. É uma arte maior pois constitui a suprema prova de fogo para os actores – e só os que são dignos desse nome conseguem ultrapassá-la. De facto, é unicamente com a voz, modulando as entoações, os ritmos, as nuances, os timbres – enfim, fazendo uso de todos os recursos expressivos ao alcance da voz humana – que os actores comunicam ao rádio-ouvinte os estados de alma, os pensamentos, as acções e o carácter da personagens que incarnam – permitindo àquele construir o seu próprio imaginário (experiência, aliás, em tudo semelhante à leitura). Não era certamente por capricho ou devaneio que Amélia Rey Colaço, uma das maiores figuras do teatro português do século XX, começava por avaliar o desempenho dos novos actores que chegavam à sua companhia teatral, não sentando-se na plateia a observá-los, mas indo-se posicionar ao fundo do palco, por detrás do ciclorama, para somente os ouvir.
O hábito da leitura deve ser sempre promovido (a quem não é analfabeto, evidentemente), pelo enriquecimento cultural que proporciona (nele se incluindo o domínio da língua portuguesa, nas vertentes morfológica, sintáctica e lexical), mas o teatro radiofónico oferece uma vantagem importante: proporciona a quem o ouve o contacto com a prosódia do português, isto é, a maneira correcta de pronunciar as palavras (aspecto nada despiciendo nos tempos que correm). Ouvir falar bem contribui para uma melhor expressão oral (e até escrita). Resgatar o teatro radiofónico é também dar aos mais jovens a oportunidade de descobrirem os grandes textos dramáticos na voz de figuras gradas do nosso teatro (e não há melhor forma de as lembrar e homenagear do que ouvi-las e tirar prazer dessa experiência).
Importa também não esquecer os cidadãos que nascerem cegos ou perderam o sentido da visão mais tarde. Que outro teatro podem eles fruir – plenamente – a não ser o radiofónico? Políticos e funcionários de topo da administração pública aparecem amiúde na rádio e na televisão a falar dos direitos dos deficientes, mas depois deparamo-nos com a triste realidade de serem as entidades estatais as primeiras a fazer letra morta dos mesmos direitos.
Se os altos responsáveis da rádio pública não querem aplicar (investir) o dinheiro dos contribuintes na produção de verdadeiro e bom teatro radiofónico, ao menos que tenham a clarividência de trazer para a luz do éter o muito de bom que se fez outrora e está a apodrecer no arquivo histórico da RDP. Escusado será dizer que tal resgate para o espaço hertziano não invalida a disponibilização do acervo completo na nova plataforma https://arquivos.rtp.pt/ (na qual – acrescente-se – os conteúdos radiofónicos têm sido enormemente descurados, a favor dos televisivos).
Deixamos a seguir um rol de textos, ordenados por ordem alfabética dos apelidos dos respectivos autores, que garantidamente foram transmitidos pela rádio pública portuguesa até 2005 (quando terminou o "Teatro Imaginário", na sequência da aposentação do seu realizador, Eduardo Street, que viria a falecer no ano seguinte). Trata-se de um inventário inevitavelmente incompleto mas que não deixa de ser bem demonstrativo da imensa riqueza do acervo de teatro radiofónico (e também de textos lidos).


Peças de teatro (e adaptações de contos e novelas):

Andresen, Sophia de Mello Breyner:
- A Fada Oriana
- Os Três Reis do Oriente

Anouilh, Jean:
- A Cotovia (Joana d'Arc)

Aristófanes:
- A Paz

Assis, Machado de:
- Não Consultes Médico

Ávila, Norberto:
- O Homem Que Caminhava sobre as Ondas

Barbosa, Miguel:
- O Discurso

Barca, Calderón de la:
- A Vida É Sonho

Barros, Jorge Figueiredo de:
- O Cárcere Branco

Botas, José Loureiro:
- Noite Maldita

Brandão, Raul:
- O Doido e a Morte

Büchner, Georg:
- Leôncio e Lena

Cabral, Carlos:
- A Amante do Dr. Simões
- Amores! E o Tempo Incerto? (inspirada em "Viagens na Minha Terra", de Almeida Garrett)
- As Crianças
- As Meninas
- Concerto para Piano em Lá menor, op. 54, de Schumann
- Da Minha Janela Vê-se o Rio
- O Cerco
- O Mestre e o seu Discípulo
- O Sonho
- Pela Segunda Vez
- Recortados na Noite contra o Brilho da Lua
- Um Casal Desinteressado
- Um Lamentável Acidente
- Uma Outra História da Branca de Neve

Camargo, Joracy:
- Deus Lhe Pague
- Maria Cachucha

Camões, Luís de:
- Auto de El-Rei Seleuco
- Auto dos Anfitriões

Casona, Alejandro:
- Outra Vez o Diabo

Castelo Branco, Camilo:
- Amor de Salvação
- O Morgado de Fafe em Lisboa

Cesariny, Mário:
- Um Auto para Jerusalém

Cocteau, Jean:
- A Voz Humana

Correia, Romeu:
- Casaco de Fogo
- Jangada

Couto, Mia:
- Os Anjos Embriagados
- A Menina de Futuro Torcido

Curto, Ramada:
- Madame Solange

Dacosta, Fernando:
- A Súplica

Daguila, Carlos:
- Fui Raptado por um OVNI

Dantas, Júlio:
- A Ceia dos Cardeais
- Outono em Flor

Dumas (pai), Alexandre:
- O Caçador

Durão, Américo:
- A Ave de Rapina

Ésquilo:
- As Euménides

Ferro, António:
- Mar Alto

Garrett, Almeida:
- Frei Luís de Sousa
- O Conde de Novion
- Tio Simplício

Ghelderode, Michel de:
- Escurial

Goethe, Johann Wolfgang von:
- Fausto (em contraponto com a ópera homónima de Charles Gounod)
- Irmão e Irmã

Goldoni, Carlo:
- A Estalajadeira
- O Avarento

Gomes, Manuel Teixeira:
- Sabina Freire

Hsing-Tao, Li:
- O Círculo de Giz

Ibsen, Henrik:
- Casa de Bonecas
- Hedda Gabler

Kazantzakis, Nikos:
- Cristo Recrucificado

La Féria, Filipe:
- Os Marinheiros (adaptação de "O Marinheiro", de Fernando Pessoa)

Labiche, Eugène:
- A Viagem do Sr. Perrichon

Leite, Fausto Correia:
- Algures no Arizona
- Encontro em Siracusa
- Verão Ardente

Letria, José Jorge:
- A Pistola de Antero
- Os Buracos Negros

Lermontov, Mikhail:
- Um Homem Estranho

Lobato, Gervásio:
- O Comissário de Polícia

Lopes, Álvaro Martins:
- A Mulher Que Matou Maurice Ravel
- Fígaro (baseada nas peças "O Barbeiro de Sevilha" e "O Casamento de Fígaro", de Beaumarchais)
- Inocente ou Culpada
- Lisístrata (inspirada na comédia homónima de Aristófanes)
- O Caso do Ourives da Rua da Prata
- Os Benefícios do Tabaco
- Tutto nel Mondo è Burla! (inspirada na ópera "Falstaff", de Verdi)
- Um Fantasma no São Carlos
- Verdi e Falstaff

Lorca, Federico Garcia:
- A Sapateira Prodigiosa
- Dona Rosinha, a Solteira
- Yerma

Maeterlink, Maurice:
- Pelléas et Mélisande (em contraponto com a ópera homónima de Claude Debussy)

Marcel, Jean:
- Uma Noite em Monte Carlo

Marques, Raul Malaquias:
- Tinha de Ser Aqui

Marivaux, Pierre de:
- A Colónia

Matos, Maria:
- Escola de Mulheres (A História Começou de Manhã)

Medina, João:
- A Orelha de Van Gogh

Melo, D. Francisco Manuel de:
- O Fidalgo Aprendiz

Mesquita, Marcelino:
- Envelhecer
- Peraltas e Cécias

Miguéis, José Rodrigues:
- A Escola do Paraíso
- À Esquina do Vento
- Saudades para Dona Genciana

Mihura, Miguel:
- Sublime Decisão

Miller, Arthur:
Morte dum Caixeiro Viajante

Molière:
- A Condessa de Escarbagnas
- Dom Juan (em contraponto com a ópera "Don Giovanni", de Mozart)
- Escola de Maridos

Molina, Tirso de:
- O Sedutor de Sevilha e o Convidado de Pedra

Monteiro, Luís de Sttau:
- As Mãos de Abraão Zacut
- Felizmente Há Luar

Neves, Orlando:
- Memórias de um Piano
- O Bilhete e o Martelo
- O Círculo
- O Frigorífico

Ogando, Alice:
- O Príncipe Imperial

Pepetela:
- O Cão e os Caluandas

Pinheiro, Pedro:
- Amorosamente
- Roubaram os Nossos Sonhos
- Schumann: a Inquietação Romântica (baseada na biografia de Schumann, escrita pela sua filha Eugenie Schumann)
- Suicídio

Pinho, Teresa Correia de:
- A Última Página
- Um Pedaço de Paraíso

Pushkin, Aleksandr:
- A Dama de Espadas (em contraponto com a ópera homónima de Tchaikovski)
- Mozart e Salieri

Rodrigues, Pedroso:
- Bodas de Lia

Queiroz, Eça de:
- Civilização
- No Moinho
- O Conde de Abranhos
- O Defunto
- O Mandarim
- O Senhor Diabo
- Singularidades de uma Rapariga Loira

Rebello, Luiz Francisco:
- A Desobediência
- É Urgente o Amor
- O Destino Bateu à Porta

Régio, José:
- Jacob e o Anjo
- O Vestido Cor de Fogo

Ribeiro, Aquilino:
- O Arcanjo Negro

Rio, João do:
- A Bela Madame Vargas

Rubio, José López:
- A Ceia de Natal

Salom, Jaime:
- A Casa das Cabras

Santareno, Bernardo:
- O Crime da Aldeia Velha
- O Duelo
- O Lugre
- O Pecado de João Agonia

Schiller, Friedrich:
- Cabala e Amor (em contraponto com a ópera "Luísa Miller", de Verdi)

Shakespeare, William:
- Os Dois Cavaleiros de Verona

Silva, António José da:
- Guerras do Alecrim e Manjerona

Sófocles:
- Antígona

Strindberg, August:
- Almas em Conflito
- O Holandês Errante

Synge, John Millington:
- O Valentão do Mundo Ocidental

Tabucchi, Antonio:
- Marconi, se Bem me Lembro

Tchekov, Anton:
- As Três Irmãs
- O Cerejal

Torga, Miguel:
- O Senhor Nicolau

Torrado, António:
- Alguém (inspirada na peça "Frei Luís de Sousa", de Almeida Garrett)
- As Palavras Difíceis
- Diálogos Imprevistos
- Homem-Mulher... a Cores
- Mulher e Marido
- O Calendário
- O Doce Perfume
- O Fecho Éclair
- O Recepcionista
- O Túnel
- Palavras Há Muitas
- Quatro Histórias Impossíveis
- Uma História Natural

Valle-Inclán, Ramón del:
- A Rosa de Papel

Vicente, Gil:
- Amadis de Gaula
- Auto da Barca do Inferno
- Auto da Cananeia
- Auto de Mofina Mendes
- Auto de Sibila Cassandra
- Dom Duardos
- Farsa de Inês Pereira
- O Juiz da Beira
- O Velho da Horta
- Romagem dos Agravados

Wilkinson, Roderick:
- Mistério nas Terras Altas


Adaptações de romances (por episódios):

Castelo Branco, Camilo:
- Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado
- O Retrato de Ricardina

Castro, Ferreira de:
- A Lã e a Neve
- A Selva
- Terra Fria

Cooper, James Fenimore:
- O Último Moicano

Dickens, Charles:
- Oliver Twist

Diniz, Júlio:
- A Morgadinha dos Canaviais
- As Pupilas do Senhor Reitor
- Os Fidalgos da Casa Mourisca
- Serões da Província

Douglas, Lloyd C.:
- A Túnica

Dumas (pai), Alexandre:
- O Visconde de Bragelonne
- Os Três Mosqueteiros
- Vinte Anos Depois

Fonseca, Manuel da:
- Cerromaior

Gomes, Soeiro Pereira:
- Esteiros

Haggard, H. Rider:
- As Minas de Salomão

Herculano, Alexandre:
- O Bobo
- O Monge de Cister

Hugo, Victor:
- Os Miseráveis

Kazantzakis, Nikos:
- Cristo Recrucificado

Lopes, Álvaro Martins:
- O Jogral de Deus (S. Francisco de Assis)

Martins, Oliveira:
- Febo Moniz

Miguéis, José Rodrigues:
- A Escola do Paraíso
- Uma Aventura Inquietante

Navarro, Judite:
- Os Emigrados

Queiroz, Eça de:
- A Cidade e as Serras
- A Ilustre Casa de Ramires
- O Primo Basílio

Redol, Alves:
- Avieiros

Régio, José:
- O Príncipe com Orelhas de Burro

Reis, Fernando:
- Roça

Ribeiro, Aquilino:
- Quando os Lobos Uivam
- Terras do Demo

Rodrigues, Urbano Tavares:
- Bastardos do Sol

Saint-Maurice, Odette de:
- O Apóstolo da Juventude (S. João Bosco)

Tolstoi, Lev:
- Anna Karenina
- Guerra e Paz

Verne, Júlio:
- Mathias Sandorf


Leitura de textos literários (prosa):

Almada Negreiros, José de:
- Nome de Guerra (1925), por Rogério Vieira

Almeida, Fialho de:
- A Taça do Rei de Tule (in "O País das Uvas", 1893)
- O Menino Jesus do Paraíso (in "O País das Uvas", 1893)
- O Ninho de Águia (in "Contos", 1881)

Botelho, Abel:
- O Solar de Longroiva (in "Mulheres da Beira", 1898), por Varela Silva

Brandão, Raul:
- Os Pescadores (1923)

Castelo Branco, Camilo:
- A Sereia (1865)
- O Cego de Landim (1876)

Coelho, Trindade:
- Abyssus Abyssum (in "Os Meus Amores", 1891)
- Vae Victis! (in "Os Meus Amores", 1891)
- Vae Victoribus! (in "Os Meus Amores", 1891)

Diniz, Júlio:
- O Espólio do Senhor Cipriano (1863)

Ficalho, Conde de (Francisco Manuel de Melo Breyner):
- A Caçada do Malhadeiro (in "Uma Eleição Perdida", 1888)
- A Maluca de A-dos-Corvos (in "Uma Eleição Perdida", 1888)
- A Pesca do Sável (in "Uma Eleição Perdida", 1888)
- Os Cravos (in "Uma Eleição Perdida", 1888)

Garrett, Almeida:
- Viagens na Minha Terra (1846), por Carlos Achemann

Gomes, Manuel Teixeira:
- Profecia Certa (in "Gente Singular", 1909)
- Sêde de Sangue (in "Gente Singular", 1909)

Herculano, Alexandre:
- A Morte do Lidador (in "Lendas e Narrativas", 1851)
- O Bispo Negro (in "Lendas e Narrativas", 1851)

Machado, Júlio César:
- O Casal (in "Contos ao Luar", 1861)
- Pedrinho (in "Contos ao Luar", 1861)

Meynell, Esther:
- A Pequena Crónica de Anna Magdalena Bach (The Little Chronicle of Magdalena Bach, 1925), por Eunice Muñoz

Patrício, António:
- O Homem das Fontes (in "Serão Inquieto", 1920)
- Suze (in "Serão Inquieto", 1920)

Pinto, Fernão Mendes:
- Peregrinação (1614, na adaptação de Maria Alberta Menéres, 1971), por José Mário Branco e André Maia

Queiroz, Eça de:
- Adão e Eva no Paraíso (1896, in "Contos", 1902)

Sá-Carneiro, Mário de:
- O Homem dos Sonhos (1913)
- O Mistério (1914)

Silva, Rebelo da:
- A Última Corrida de Touros em Salvaterra (in "Contos e Lendas", 1873)

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Textos relacionados:
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21 março 2017

Camilo Pessanha: "Singra o navio"



No Dia Mundial da Poesia, e estando a comemorar-se o 150.º aniversário do nascimento de Camilo Pessanha, expoente maior do simbolismo português, o blogue "A Nossa Rádio" apresenta o belíssimo soneto "Singra o navio", magistralmente recitado por Mário Viegas.
Em que situação está actualmente a poesia nos três canais nacionais da rádio pública? Vejamos: na Antena 2, temos "A Vida Breve" [>> RTP-Play] e "O Som Que os Versos Fazem ao Abrir" [>> RTP-Play], ambos realizados por Luís Caetano (e aproveitamos para reconhecer a sua dedicação ao serviço público), mas não vislumbramos o quer que seja nas Antenas 1 e 3. Será normal? Não! É muito anormal, porque a poesia – uma das mais excelsas formas de expressão artística – tem obrigatoriamente de marcar presença em qualquer antena da estação pública, ainda que mais vocacionada para a informação e o entretenimento, pois o enriquecimento cultural do auditório é responsabilidade de todas (não é – e seria muito redutor se fosse – um exclusivo da Antena 2). Acresce que a rádio, sendo puro som, é o meio que por excelência serve a palavra dita no seu máximo potencial!
A Antena 1 teve durante alguns anos (de 1996 a 2003) uma rubrica diária de poesia a cargo de António Cardoso Pinto: primeiro, "À Esquina da Um"; depois, "À Esquina do Século"; e, por último, "À Esquina do Mundo". Após a aposentação daquele emérito profissional da nossa rádio, o programa "Lugar ao Sul" tornou-se o único reduto da Antena 1 onde era possível ouvir poesia, quer popular (dita pelos interlocutores de Rafael Correia), quer erudita (extraída de discos). Com o desaparecimento do "Lugar ao Sul" passou a imperar o vazio total.
Renovamos o pedido: se não se quiser contratar alguém com provas dadas na difícil arte de dizer poesia (por exemplo, Luís Lima Barreto e Luísa Cruz), ao menos que se faça uso do rico acervo existente no arquivo da RDP (registos na voz de Manuel Lereno, Humberto Botto, Carmen Dolores, Maria Germana Tânger, Rui Pedro, Maria Clara, Carlos Acheman, António Cardoso Pinto, Graça Vasconcelos, Paulo Rato, etc.) e, complementarmente, de edições discográficas!



Singra o navio



Poema de Camilo Pessanha (in "Clepsydra", Lisboa: Edições Lusitânia, 1920; "Clepsydra", ed. crítica de Paulo Franchetti, Lisboa: Relógio d'Água, 1995 – p. 111)
Recitado por Mário Viegas* (in LP/CD "Poemas de Bibe: Grande Poesia Portuguesa Escolhida para os Mais Pequenos", UPAV, 1990, reed. Público, 2006)


Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
— Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente côr-de-rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.

E a vista sonda, reconstrói, compara.
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
— Ó fúlgida visão, linda mentira!

Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...


* Produção – José Mário Branco e António José Martins
Gravado no Angel Studio, Lisboa, em 2, 6, 7 e 8 de Outubro de 1990
Engenheiro de som – José Manuel Fortes



Capa do LP/CD "Poemas de Bibe: Grande Poesia Portuguesa Escolhida para os Mais Pequenos" (UPAV, 1990), de Mário Viegas e Manuela de Freitas

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Outros artigos neste blogue com poesia dita/recitada:
Mário Viegas: 10 anos de saudade
Natal
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes
Arte e poesia
Poesia na rádio (II)
Jorge de Sena: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya"
Sebastião da Gama: "Poesia"
João Villaret: centenário do nascimento
Camões recitado e cantado
Ser Poeta
"Palavras Mal Ditas" ou "Palavras Malditas"?
Em memória de Guilherme de Melo (1931-2013)
Celebrando Natália Correia
Em memória de António Ramos Rosa (1924-2013)
Celebrando Vinicius de Moraes
Fernando Pessoa por João Villaret
Miguel Torga: "Ode à Poesia"
Celebrando Agostinho da Silva
Camões recitado e cantado (II)
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Al-Mu'tamid: "Evocação de Silves"
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)
Celebrando Eugénio de Andrade
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Dois Excertos de Odes"
Cesário Verde: "De Tarde"
Cesário Verde por Mário Viegas
António Gedeão: "Dia de Natal"

20 março 2017

Cantos d'Aurora: "Primavera"


Claude Monet, "Champs au Printemps", 1887, óleo sobre tela, 93x74 cm, Staatsgalerie, Estugarda, Alemanha


No equinócio de mais uma Primavera, apresentamos um espécime que não podia vir mais a propósito: a canção "Primavera" de assunto amoroso-pastoril (segundo a classificação de Fernando Lopes Graça), oriunda da localidade alto-duriense de Paradela (concelho de Miranda do Douro), na magnífica recriação do grupo eborense Cantos d'Aurora. Uma pérola do nosso cancioneiro tradicional cuja descoberta nos foi proporcionada por Rafael Correia, no seu memorável "Lugar ao Sul".
Não podia a Antena 1, ao abrigo da missão a que está vinculada de divulgar o património musical português, ter esta e outras belíssimas canções populares na sua lista musical computorizada, vulgo 'playlist'? Podia e devia, mas não tem! E para ajudar à desgraça no que à música tradicional diz respeito, os escassíssimos programas a ela consagrados – "Cantos da Casa" e "O Povo Que Ainda Canta" – são unicamente transmitidos em horários esconsos (de madrugada), circunstância que os deixa arredados da maioria dos ouvintes.
Importa, pois, proporcionar a todo o auditório a oportunidade de conhecer e fruir o que de melhor se fez (e faz) no campo da música regional portuguesa. Nada de complicado: basta que aqueles programas sejam também emitidos quando a generalidade das pessoas não está a dormir. Isso, claro está, sem prejuízo de haver música tradicional nos alinhamentos de continuidade preenchidos pela referida 'playlist'. O regresso do programa "Lugar ao Sul", na modalidade de reposição (caso não se consiga convencer Rafael Correia a voltar), será também uma excelente forma de atenuar a aberrante penúria de música tradicional portuguesa na rádio pública de Portugal.



Primavera (Canção amoroso-pastoril)



Letra e música: Popular (Paradela, Miranda do Douro, Trás-os-Montes e Alto Douro)
Recolha: Fernando Lopes Graça (in livro "A Canção Popular Portuguesa", Publicações Europa-América, 1953; 3.ª edição, col. Saber, Publicações Europa-América, s/d. – p. 75)
Intérprete: Cantos d'Aurora* (in CD "Sabores", Cantos d'Aurora, 1996)


Ai lé lé lai lé lá,
Ai lé lé lai ló:
Foi a primeira cantiga
Que me ensinou minha avó.
[bis]

[instrumental]

A Primavera passada
Foi o meu divertimento:
Tomei amores mui cedo,
Logrei-os mui pouco tempo.

Primavera, Primavera,
Tempo de tomar amores;
Não há tempo mais alegre
Que Maio com suas flores.

Primavera, Primavera,
Primavera dos boieiros;
Coitadinhos dos pastores
Que dormem pelos chiqueiros.

[instrumental]

Ai lé lé lai lé lá,
Ai lé lé lai ló:
Foi a primeira cantiga
Que me ensinou minha avó.
[bis]

[instrumental]

Ai lé lé lai lé lá,
Ai lé lé lai ló:
Foi a primeira cantiga
Que me ensinou minha avó.
[3x]


* Cantos d'Aurora:
Francisco Carvalho – voz, baixo eléctrico
Daniel Monginho – voz, percussão
João Cágado – voz, viola acústica, guitarra portuguesa
Tolentino Manuel Cabo – voz, viola acústica
São Assis – voz, percussão
Biosca – voz, percussão
José de Melo – voz, viola acústica
João Assis – voz, acordeão
Arranjos – Cantos d'Aurora
Produção – João Cágado / Cantos d'Aurora
Gravado no Estúdio Kubículo, Évora, de Março de 1995 a Fevereiro de 1996



Capa do CD "Sabores" (1996), do grupo Cantos d'Aurora

23 fevereiro 2017

19 fevereiro 2017