13 setembro 2013

Celebrando Natália Correia



Quando se percorre a poesia escrita por mulheres ao longo do século XX português, o nome de Natália Correia continua a surgir como um dos que causaram uma repercussão mais duradoura, quer pela sua personalidade forte e polémica, quer pelo alcance da sua obra literária, na qual sempre se manifestou uma vocação poderosamente dionisíaca e por isso excessiva, capaz de apreender magicamente a realidade e de a transfigurar mediante uma rica imaginação metafórica, sobretudo a partir de "Dimensão Encontrada" (1957), já que os seus primeiros livros ("Rio de Nuvens", de 1947, e "Poemas", de 1955) exprimiam ainda uma atitude lírica mais tradicional.
É antiga a questão de saber até que ponto Natália Correia poderá ou não considerar-se uma escritora surrealista, embora nunca tenha pertencido a qualquer movimento com esse nome: definida algures por Claude Roy como «la violence surréaliste faite femme», a própria Autora terá admitido alguma proximidade com a visão surrealista do mundo, essencialmente no que toca a uma «identificação entre a poesia e a magia», na medida em que ambas procuram o acesso a uma alquimia libertadora. Trata-se, no fundo, de uma radical vontade criadora, de um desejo de libertar a linguagem de todos os constrangimentos e de dar livre curso à imaginação, como podemos sentir num texto que nos fala de uma ressurreição apta a transformar a morte em vida e a tristeza em alegria: «A harpa do vento / e os meus dedos de ventania / compuseram uma canção / da mais fantástica alegria. // (...) // É uma onda de magia / onde se enrolam os mortos / erguidos da terra fria / dum rosto que lhes pintou / a nossa melancolia.»
Foi sob o efeito do irresistível impulso dessa «onda de magia» que se construiu o essencial da escrita de Natália, em que um dos traços mais flagrantes consiste numa posição (sempre reafirmada) de rebeldia diante das instituições e dos poderes estabelecidos ou de quaisquer regras impostas pela força. Até certo ponto, é como um sinal dessa rebeldia que se compreendem as incursões da Autora no campo da poesia satírica e humorística, dirigida contra figuras ou acontecimentos da esfera política, como sucede na sequência das «Cantigas de Risadilha» — composta por poemas que ridicularizam episódios da vida parlamentar que Natália acompanhou enquanto foi deputada —, assim como em toda a "Epístola aos Iamitas" (1976), cujos sonetos constituem reflexões ora entusiásticas, ora sobretudo corrosivas, a respeito do Portugal pós-25 de Abril e disso a que na altura se chamou o P.R.E.C. (Processo Revolucionário Em Curso), perante o qual se manifesta por vezes uma dolorosa desilusão: «E veio Abril: cravos camonianos / aparelharam da liberdade as barcas. / Do verde pinho as flores foram-me enganos, / as tecelãs do sonho eram as parcas. // Da podridão variam os estados: / magicamente os nomes são mudados; / intacto o pasto vil das varejeiras.»
A mesma faceta surge igualmente em certos poemas isolados, como a célebre «Queixa das Almas Jovens Censuradas», fazendo eco de um profundo grito de revolta que preza, acima de tudo, a liberdade do poeta contra todas as formas de sujeição. E é também isso a estar em jogo num outro texto muito conhecido («A Defesa do Poeta»), aliás escrito com a intenção de ser lido no Tribunal Plenário que no tempo da ditadura acusou Natália Correia: «Senhores juízes sou um poeta / um multipétalo uivo um defeito / e ando com uma camisa de vento / ao contrário do esqueleto. // (...) // Sou (...) / uma avaria cantante / na maquineta dos felizes. / (...) // Sou uma impudência a mesa posta / de um verso onde o possa escrever. / Ó subalimentados do sonho! / A poesia é para comer.»
Lido este excerto, convirá atender a dois aspectos: por um lado, mesmo levando em conta o intuito profundamente afirmativo do texto (que desenvolve a vigorosa declaração: «sou um poeta»), o lugar de quem escreve poesia surge relacionado com uma excepcionalidade inquietante ou perturbadora, já que se identifica com um «defeito» ou uma «avaria cantante / na maquineta dos felizes», que corresponderiam à cinzenta maioria; por outro lado (e refiro-me agora aos dois últimos versos), acentua-se a dimensão gustativa, sensorial ou carnal da poesia, inscrevendo-se num entendimento global do mundo em que «o espírito é tão real como uma árvore», pressupondo uma integração harmoniosa na natureza. Ficamos, portanto, dentro de uma unidade fundamental entre todas as coisas humanas e cósmicas, naturais e divinas: «Vem das estrelas o sangue que nos guia / E na amorosa perfeição da carne / Está toda a eternidade resumida.»
Perante versos como estes, pode dizer-se sem grande exagero que Natália Correia nos deu, do princípio ao fim da sua obra, uma visão religiosa da existência, alicerçada não em qualquer adoração de um Deus ou num rito eclesiástico específico, mas numa espécie de comunhão pagã entre o eu e tudo o que o rodeia, religando-se a um universo do qual pretende auscultar os sinais, como se estivesse diante de um segredo que só a alguns é permitido desvendar e que a poesia aguarda, como se esperasse «o romper da manhã na noite mística». De facto, na escrita de Natália o conhecimento quase nunca se produz pela via intelectual e corresponde, acima de tudo, ao amor: fiel à tradição lírica portuguesa e à sua predilecção por temas amorosos, a Autora convoca sentimentos simultaneamente carnais e espirituais, porque neste caso é a partir dos sentidos que se intui a hipótese (ou a certeza?) de um sentido que os excede — veja-se o início do poema «Pórtico»: «Corpo, alma, razão, já os cantei, / estreme, sem me isentar em pseudónimos. / Antífrases de mim as assinei. / Contrários indaguei: eram sinónimos. // O Espírito agora cantarei. / Corpo, alma, razão lhe são compósitos.»
Também enquadrado no mesmo propósito de união e ampla comunhão universais está um politeísmo estrutural que leva a poesia desta «feiticeira cotovia» a celebrar a beleza do mundo, conotando-a com a presença do sagrado que o povoa e assim reflecte os poderes de uma pluralidade de deuses e deusas cujo culto, em vez de exigir submissão — «Os deuses não nos querem de joelhos» —, nos convida, pelo contrário, a um esfusiante cântico da vida e do amor, do qual podem ser emblemas os Jardins de Adónis, onde se recusam os labirintos da racionalidade e se declara a superioridade das sensações, tornadas elas mesmas divinas: «Sentir nos baste. Ideias são reveses. / Da vida, as naturais disposições, / Sigamos, Flávio. Até que sejam deuses / As nossas sensações.»
Perto das sensações mais vibrantes se encontram, aliás, todos os elementos de uma natureza cujo incognoscível daimon feminino se condensa na famosa imagem da «Mátria», nem sequer demasiadamente erotizada no sentido mais comum que atribuímos à sexualidade humana, mas sobretudo transmissora de paz, de bem-estar e de reconciliação com um estado primitivo, maternal ou genesíaco do universo: «E se o mundo em ti principiava, / No teu mistério entre astros absortos, / Suavemente, ó mãe, tudo termina.» Também o Amor (com maiúscula) ultrapassa, deste modo, as habituais fronteiras que limitam a consciência individual, elevando-se ao mais alto grau de gnose mística e adquirindo o estatuto de uma sabedoria esotérica comparável à de uma verdadeira alquimia: «Indemne atravessei as labaredas / porque o Amor faz a Obra / e o fogo faz o Amor.»
Para concluir, digamos que toda a poesia de Natália Correia configura um «ofício das trevas», mergulhando nas águas de mistérios que não ousa decifrar e assentando numa ideia (surrealista) de libertação total do ser, num processo de comunhão iniciática. Trata-se de um ritual posto em jogo não apenas graças aos já mencionados poderes alquímicos da escrita, mas também por uma abertura à «Saudade» portuguesa que sempre fascinou a Autora — essa «retráctil flor da ausência», cujo místico perfil se recorta sobre o passado e sobre o futuro, parecendo conferir ao conjunto da obra de Natália Correia uma indestrutível crença em qualquer coisa que extravasa os mesquinhos limites da razão humana. Na esteira dos românticos ou dos seus herdeiros surrealistas, é sempre muito para lá de tais limites que esta poesia nos deseja convocar, arrastando-nos para uma dimensão soberanamente libertadora da realidade e da linguagem — como se lê no texto final dos "Sonetos Românticos", que funciona como um «credo»:
«Creio nos anjos que andam pelo mundo, / Creio na Deusa com olhos de diamantes, / Creio em amores lunares com piano ao fundo, / Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes, // Creio num engenho que falta mais fecundo / De harmonizar as partes dissonantes, / Creio que tudo é eterno num segundo, / Creio num céu futuro que houve dantes, // Creio nos deuses de um astral mais puro, / Na flor humilde que se encosta ao muro, / Creio na carne que enfeitiça o além, // Creio no incrível, nas coisas assombrosas, / Na ocupação do mundo pelas rosas, / Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen».

FERNANDO PINTO DO AMARAL ("Violência e Paixão", prefácio a "Antologia Poética", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002)


Natália Correia [biografia e bibliografia >> aqui] é, indubitavelmente, uma das três maiores poetisas (ou mulheres poetas, se se preferir) do século XX português (as outras duas são Florbela Espanca e Sophia). Tal evidência não foi, no entanto, suficiente para a direcção de programas da Antena 1 tomar a iniciativa de a homenagear no 90.º aniversário do seu nascimento que hoje se comemora. Isso podia (e devia) ser feito, sem prejuízo da emissão de um programa evocativo (produzido de propósito ou resgatado do arquivo histórico), com a transmissão ao longo do dia de poemas de Natália, cantados ou recitados. O difícil seria mesmo escolher pois é muito e bom o que existe em ambas as formas, gravado em disco, quer avulsamente quer em edições temáticas (destas referenciei quatro – vide as capas ao fundo – mas é provável que haja mais).
A título demonstrativo, o blogue "A Nossa Rádio" apresenta uma mão-cheia desses nutritivos espécimes, pois como afirmava Natália «a poesia é para comer» e, ao contrário de Rui Pêgo, não somos «subalimentados do sonho» e gostamos que os visitantes deste sítio tenham a oportunidade de se alimentarem.
A talhe de foice, uma interrogação: a 'playlist' que tem rodado na Antena 1 inclui alguma canção baseada em poema(s) de Natália Correia? Era capaz de apostar que nem uma...



AUTOGÉNESE



Poema de Natália Correia (de "O Diário de Cynthia", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 319-321; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 241-243)
Recitado pela autora* (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003)


Nascitura estava 
sem faca nos dentes 
cómoda e impura 
de não ter vontade 
de bater nas gentes.

Nasce-se em setúbal 
nasce-se em pequim 
eu sou dos açores 
(relativamente 
naquilo que tenho 
de basalto e flores)
mas não é assim:
a gente só nasce 
quando somos nós 
que temos as dores;

pragas e castigos 
foram-me gerando 
por trás dos postigos 
e fórceps de raiva 
me arrancaram toda 
em sangue de mim.

Nascitura estava 
sorria e jantava 
e um beijo me deste 
tu Pedro ou Silvestre 
turvo namorado 
do verão ou de outono 
hibernal afecto 
casca azul do sono 
sem unhas do feto.

Eu nasci das balas 
eu cresci das setas 
que em prendas de sala 
me foram jogando 
os mulheres poetas 
eu nasci dos seios 
dores que me cresceram 
pomos do ciúme 
dos que os não morderam;

nasci de me verem 
sempre de soslaio 
de eu dizer em junho 
e eles em maio 
de ser como eles 
às vezes por fora 
mas nunca por dentro 
perfil de uma estátua 
que não sou de frente.

Nascitura estava 
e mais que imperfeita 
de ser sorte ou dado 
que qualquer mão deita.

Eu nasci de haver 
os bairros da lata 
do dedo que escapa 
dos sapatos rotos 
da fome que mata 
o que quer nascer 
e que o sábio guarda 
em frascos de abortos;

eu nasci de ver 
cheirar e ouvir 
dum odor a mortos 
(judeus enlatados 
para caberem mais 
mas desinfectados) 
pelas chaminés 
nazis a sair 
de te ver passar 
de me despedir 
de teus olhos tristes 
como se existisses.

Nascitura estava 
tom de rosa pulcra 
eu me declinava 
vésper em latim:
impura de todos 
gostarem de mim.


* Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Masterização – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Manhã Cinzenta (À partida de S. Miguel)



Poema: Natália Correia (in "Portugal, Madeira e Açores", Abril de 1946; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 11; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 38)
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz* (in CD "Herdeiros da Maresia", Carlos Alberto Moniz, 2003)


Ai madrugada pálida e sombria 
em que deixei a terra de meus pais... 
e aquele adeus que a voz do mar trazia 
dum lenço branco, a acenar no cais...

O meu veleiro — era de espuma fria — 
levava-o o fervor dos vendavais. 
À passagem gritavam-me: onde vais? 
Mas só o meu veleiro respondia.

Cruzei o mar em direcções diferentes. 
Por quantas terras fui, por quantas gentes, 
nesta longa viagem que não finda.

Só uma estrada resta — mais nenhuma: 
na Ilha que o passado envolve em bruma, 
um lenço branco que me acena ainda...


* Carlos Alberto Moniz – voz 
Ricardo Dias – acordeão
João Paulo Esteves da Silva – piano
Davide Alfano – violoncelo
Captação de som e direcção técnica – Mário Barreiros



OS NUMES DOS NOMES



Poema de Natália Correia (de "O Espírito É Tão Real Como Uma Árvore", in "O Dilúvio e a Pomba", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1979; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 156-157; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 459-460)
Recitado por Tânia Silva* (in CD "Poesia de Natália Correia", col. Selecta, Música XXI, 2007)


Não por acaso Natália me puseram:
minha mãe que era fada lá sabia.
Posta a graça ao afino do mistério
para estar sempre a nascer é que eu nascia.

Da avó que era louca veio o Rego
em conduta dos anjos que ela via.
Desvairanças aladas bom emprego
São, se herdadas em grão de poesia.

Pelo avô, do matagal de nomes,
Sai-me o Raposo. Aqui ninguém me apanha.
Inomeável três vezes é o Esposo,
para fazer de solteira há que ter manha.

Também é fortuita a Oliveira
De folhas de ouro no meu nome oclusa:
a alma é paz de ideias à lareira
que o pudor em mau génio não acusa.

E Medeiros, medeiros quantas medas
de trigo sideral para que em signo
apurada a espiga entre as estrelas
Fecundo seja meu trigal de Virgo.

Vem por fim a justiça na Correia:
perdoar vendilhões só a chicote.
Absolva-os a Virgem que faz meia.
Não eu. Adivinhai-me. Eu dei o mote.


* Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias
Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn



Cântico do País Emerso



Poema: Natália Correia (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: Amélia Muge
Arranjo: Michales Loukovikas
Intérpretes: Amélia Muge* e Michales Loukovikas (in Livro/CD "Periplus: Deambulações Luso-Gregas", Periplus (AM-ML) / Eter Music, 2012)


[instrumental]

Não sou daqui das praias da tristeza
Do insone jardim dos glaciares
Levai minha nudez minha beleza
E colocai-a à sombra dos palmares.

Não sou daqui. A minha pátria não é esta
Bússola quebrada dos impulsos.
Sou rápida     Sou solta     talvez nuvem
Nuvens minhas irmãs que me argolais os pulsos!
Tomai os meus cabelos     Levai-os para a floresta.

É lá que o meu amigo pastor de estrelas pasce
O marulho das folhas com pássaros nas vozes
O sol adormecido nos braços da giesta
A manhã rarefeita na corrida do alce
O luar orbitado no salto da gazela
Os animais velozes do sítio onde se nasce...


* Amélia Muge – voz
Filipe Raposo – piano
Harris Lambrakis – ney (flauta oriental)
José Martins – percussão, sintetizador
José Salgueiro – percussão
Kyriakos Gouventas – violino
Ricardo Parreira – guitarra portuguesa
Kostas Theodorou – contrabaixo, percussão
Direcção artística – Amélia Muge e Michales Loukovikas
Produção – Amélia Muge, Michales Loukovikas e José Martins
Gravado entre Maio e Dezembro de 2011
Estúdios: Tumbuktu (Lisboa), por André Fernandes e Nuno Costa; Aeolia (Atenas), por Thodorés Manolides; AJM (Sobreda) e Adufe Música (Valejas), por José Martins
Gravações móveis em: Salónica, por Christos Megas; Guimarães, por José Martins
Misturado em AJM (Sobreda), por José Martins e Michales Loukovikas, entre Julho e Dezembro de 2011
Masterizado por Tó Pinheiro da Silva, em Dezembro de 2011



CÂNTICO DO PAÍS EMERSO (VIII)



Poema de Natália Correia (in "Cântico do País Emerso", Lisboa: Contraponto, 1961; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 282-283; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 215-217)
Recitado pela autora* (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003)


Não sou daqui. Mamei em peitos oceânicos
Minha mãe era ninfa meu pai chuva de lava
Mestiça de onda e de enxofres vulcânicos
Sou de mim mesma pomba húmida e brava.

De mim mesma e de vós, ó Capitães trigueiros
Barbeados pelo sol penteados pela bruma!
Que extraístes do ar dessa coisa nenhuma
A génese a pluma do meu país natal.

Não sou daqui das praias da tristeza
Do insone jardim dos glaciares
Levai minha nudez minha beleza
E colocai-a à sombra dos palmares.

Não sou daqui. A minha pátria não é esta
Bússola quebrada dos impulsos.
Sou rápida     Sou solta     talvez nuvem
Nuvens minhas irmãs que me argolais os pulsos!
Tomai os meus cabelos     Levai-os para a floresta.

É lá que o meu amigo pastor de estrelas pasce
O marulho das folhas com pássaros nas vozes
O sol adormecido nos braços da giesta
A manhã rarefeita na corrida do alce
O luar orbitado no salto da gazela
Os animais velozes do sítio onde se nasce...

Levai-me, peixes da minha pele itinerante!
Quero ir à pesca colher no espelho da laguna 
O lírio da nudez a perdida inocência
O coração do bosque a dar-se sem penumbra
Visto através da minha transparência.

Levai-me, ó minhas mãos branco exílio de ramos!
Meus dedos virtuais folhas de palma!
Sois os órgãos sensíveis da choupana
Onde quero deitar a minha alma.

Levai-me, olhos meus implícitas montanhas
Florescência de cumes para poisarem águias!

Quero ter pensamentos que me cheirem a lenha
Esfregar o espírito em plantas aromáticas
Uma alma com pétalas guerrilheiras selvagens

Abertas a uma lua de prata verdadeira
Uma alma que seja verde que tenha asas
E dance nua para os deuses da fogueira...

Jogai, jogo do arco laço azul infância coisas
Que o desencanto confisca e abandona na cave!
Como uma criança joga papagaio     jogai
Este farrapo de ânsia poeira da cidade
onde ninguém tem pressa de ser ave;

E tu, anjo de pedra do meu grito!      Anjo
Esculpindo em pranto seco!      Anjo enxuto!
Tu que me afogas o olhar no infinito
e as mãos no lodo dum gesto irresoluto

Tece, ó aranha de luz no esconso da garganta! 
Coração de andorinha estrangulada!
O luar o jardim a cigarra que canta
O leito de verdura para eu me dar à esperança,
Rosa que aspiro num esquivo vão de escada.


* Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Masterização – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Queixa das Almas Jovens Censuradas



Poema: Natália Correia (in "Dimensão Encontrada", Lisboa: Edição de autor, 1957; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 167-168; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 121-122)
Música: José Mário Branco
Intérprete: José Mário Branco* (in LP "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. EMI-VC, 1996; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003)




Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens de assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.


* José Mário Branco – voz e viola acústica de base
Willy Lockwood – contrabaixo
Gilbert Roussel – acordeão
Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Gravado no Strawberry Studio, Chateau d’Hérouville (perto de Paris), em Fevereiro de 1971
Técnico de som – Gilles Sallé
Masterização digital – José Fortes



A DEFESA DO POETA 



Poema de Natália Correia (in "A Mosca Iluminada", Lisboa: Quadrante, 1972; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 443-444; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – págs. 330-331)
Recitado pela autora* (in LP "Amália/Vinicius", Decca/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1988, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




Senhores jurados sou um poeta 
um multipétalo uivo um defeito 
e ando com uma camisa de vento 
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis 
de armazenado espanto e por fim 
com a paciência dos versos 
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos 
(curtido coiro de cicatrizes)
uma avaria cantante 
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade 
o vosso enfarte serei 
não há cidade sem o parque 
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes 
a prémio minha rara edição 
de raptar-me em crianças que salvo 
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho 
de em pó volverdes sois os reis 
sou um poeta jogo-me aos dados 
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes 
puro exercício de ninguém 
minha cobardia é esperar-vos 
umas estrofes mais além. 

Senhores três quatro cinco e sete 
que medo vos pôs por ordem? 
que pavor fechou o leque 
da vossa diferença enquanto homem? 

Senhores juízes que não molhais 
a pena na tinta da natureza 
não apedrejeis meu pássaro 
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta 
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho! 
a poesia é para comer.


Nota da autora: «Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado, que sensatamente me advertiu de que essa minha insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.» (in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 443; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 330)

* Gravado em casa de Amália Rodrigues, na Rua de São Bento, Lisboa, a 19 de Dezembro de 1968
Gravação e mistura – Hugo Ribeiro



Uma Só Voz de Inumeráveis Bocas?



Poema: Natália Correia (de "Inéditos 1985/90", in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 303; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 555)
Música: António Afonso
Arranjo: José Moz Carrapa
Intérprete: João Afonso* com António Afonso (in CD "Zanzibar", Universal, 2002)


De Eva a mulher astronauta
vivo todas as idades,
um fausto de lua lauta
no brilho das brevidades.

Canta-me um louco na pauta,
demónios e divindades
compartilham essa flauta
das minhas variedades.

Ó universo inventado
de noutros me perceber.
Tanto tempo utilizado
numa manhã por nascer!

Sujeitos a estranhas leis
com a sua loucura a sós
solitários como os reis
os poetas dizem: nós.

E pela mesma magia
que ainda ninguém entendeu,
no côncavo da poesia
um deus que falta diz: eu.


* António Afonso – voz
Rui Alves – percussão de dedos
António Pedro – percussões
João Frazão – baixo
João Afonso – vozes
José Moz Carrapa – guitarras, bicicleta
Pré-produção – José Moz Carrapa e António Afonso
Produção – José Moz Carrapa
Produção executiva – Paulo Salgado / Vachier & Associados
Gravado por Jorge Avillez, na Verdizela - Seixal (assistido por Nuno Rebocho) e Sassoeiros - Cascais, entre Junho e Agosto de 2001
Misturado por Jorge Avillez e José Moz Carrapa, em Portalegre
Pós-produção – estúdio MDL, Paço d'Arcos
Masterizado por António Pinheiro da Silva, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



E eu sem amor...



Poemas: Natália Correia ("Já luzem as galas" e excerto de "Mocinhas gráceis, fungíveis") [textos integrais >> abaixo]
Música: Afonso Dias
Intérprete: Afonso Dias* com Tânia Silva (in CD "13", Bons Ofícios - Associação Cultural, 2010)


Já luzem as galas
Do Maio florido.
Iria à bailada
Mas não tenho amigo.
Vêm as andorinhas
No tempo da flor.
Bailam as meninas.
E eu sem amor...

Por galas luzidas
Do florido Maio,
Louçã bailaria
Mas não tenho amado.
Voam as andorinhas
À volta da flor.
Folgam as meninas.
E eu sem amor...

Já murcham as galas
Do Maio florido.
Perdi a bailada
Por não ter amigo.
Vão-se as andorinhas,
Cai do tempo a flor.
Guardam-na as meninas.
E eu sem amor...

Galas já sumidas
Do florido Maio
Porque dás bailias
Se negais amado?
Fogem as andorinhas
Do tempo sem flor.
Sonham as meninas.
E eu sem amor...

Mocinhas gráceis, fungíveis 
Mimosas de carne aérea 
Que pela erecção dos centauros 
Passais como doida hera!
Por ardentes urdiduras 
De Afrodite que abonais 
Passais como queimaduras 
E tudo em fogo deixais.

Já luzem as galas
Do Maio florido.
Iria à bailada
Mas não tenho amigo.
Voam as andorinhas
No tempo da flor.
Bailam as meninas. 
E eu sem amor...

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Adriano St. Aubyn – piano, percussões, calções, coros
Afonso Dias – guitarras, calças de ganga, kazoo, coros e mais umas coisas 
Ana Marques – coros 
Tânia Silva – voz solista (em "E eu sem amor")
Tó Correia – contrabaixo e coros 
Virgolino Zacarias "Ben" – saxofone soprano 
Paula St. Aubyn – coros
Arranjos e direcção musical – Adriano St. Aubyn
Gravado em Faro, entre Maio e Setembro de 2010
Captação e masterização – Adriano St. Aubyn
Misturas – Adriano St. Aubyn e Afonso Dias



Já luzem as galas

(Natália Correia, poema III de "Cantigas de Amigo", in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 403-404; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 621-622)


Já luzem as galas
Do Maio florido.
Iria à bailada
Mas não tenho amigo.
       Vêm as andorinhas
       No tempo da flor.
       Bailam as meninas.
       E eu sem amor...

Por galas luzidas
Do florido Maio,
Louçã bailaria
Mas não tenho amado.
       Voam as andorinhas
       À volta da flor.
       Folgam as meninas.
       E eu sem amor...

Já murcham as galas
Do Maio florido.
Perdi a bailada
Por não ter amigo.
       Vão-se as andorinhas,
       Cai do tempo a flor.
       Guardam-na as meninas.
       E eu sem amor...

Galas já sumidas
Do florido Maio
Porque dás bailias
Se negais amado?
       Fogem as andorinhas
       Do tempo sem flor.
       Sonham as meninas.
       E eu sem amor...



Mocinhas gráceis, fungíveis

(Natália Correia, poema V de "Sete Motivos do Corpo", in "Armistício", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 248-250; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 519-521)


Mocinhas gráceis, fungíveis 
Mimosas de carne aérea 
Que pela erecção dos centauros 
Trepais como doida hera!
Por ardentes urdiduras 
De Afrodite que abonais 
Passais como queimaduras 
E tudo em fogo deixais.

Ofegar de onda retida
Na ocupação epidérmica
De serdes a exactidão
Florida da primavera,
Todas de luz invadidas,
Sois, porém, as irreais
Bonecas de sol sumidas
No fulgor com que alumbrais.

Lá do fundo dos desejos
Chegais macias e quentes
Com violas nos cabelos,
Nas ancas, quartos crescentes;
Nas pernas, esguios confeitos,
Na frescura, o vermelhão
De uma alvorada que rompe
Em seios de requeijão.

Enleais, mas se enleadas,
Ó volúveis, ó felinas!
Saltais fazendo tinir
Risadas de turmalinas;
E com as asas do segredo
Que vos faz misteriosas
— Pois sendo divinas, sois
Do breve povo das rosas —,
Adejais de beijo em beijo
Já que para gerar assombros
Vicejam as folhas verdes
Que vos farfalham nos ombros.

Ó doçaria que em línguas
Acres sois torrões de mel,
Quando idoneamente ninfas
Vos vestis da vossa pele!
Se a olhares venéreos furtar-vos
Em roupas não vale a pena,
Pois mesmo vestidas estais
Nuinhas de graça plena,
De esbelta nudez plantai
Róseos calcanhares nos dias
Fugazes, não vá Vulcano
Levar-vos para sombras frias;
Não sequem os anos corpinhos
De aragem que os deuses sopram,
Que os anos são os malignos
Sinos que pela morte dobram.

Mocinhas fúteis que sois
Da vida as espumas altas
Leves de não vos pesar
O peso de terdes almas;
Que essa força de encantar,
Ó belas! cria, não pensa.
Ser perdidamente corpo
É a vossa transcendência.



Poema Destinado a Haver Domingo 



Poema: Natália Correia (in "Passaporte", Lisboa: Edição de autor, 1958; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 205; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 153-154)
Música: Aníbal Raposo
Arranjo: Carlos Frazão
Intérprete: Helena Oliveira* (in CD "Helena Cant'Autores Açorianos", Helena Oliveira, 2007)
Versão original: Aníbal Raposo (in CD "Maré Cheia", MM Music, 1999)




Bastam-me as cinco pontas duma estrela
E a cor dum navio em movimento.
E como ave, ficar parada a vê-la.
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio do cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama dum domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa num flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre.

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha 
Onde o Amor por fim tenha recreio.


* Carlos Frazão – piano
Mike Ross – contrabaixo
Manuel Rocha – violinos
Joaquim Manuel Teles (Quiné) – bateria e percussões
Helena Oliveira – voz
Direcção musical – Carlos Frazão e Helena Oliveira
Concepção artística – Helena Oliveira
Concepção de percussão – Joaquim Manuel Teles (Quiné)
Concepção de violinos – Manuel Rocha
Concepção de contrabaixo – Mike Ross
Produção executiva – Jorge Lavouras e Helena Oliveira
Gravação – Raul Resendes
Misturas – Raul Resendes e Carlos Frazão
Edição de voz e masterização – António Pinheiro da Silva



O Encontro



Poema: Natália Correia (de "Rebis", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 303; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 231-232)
Música: Amélia Muge
Arranjo: António José Martins
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "A Monte", Vachier & Associados, 2002)


Como se um raio mordesse 
meu corpo pêro rosado 
e o namorado viesse 
ou em vez do namorado 

um novilho atravessasse 
meus flancos de seda branca 
e o trajecto me deixasse 
uma açucena na anca 

como se eu apenas fosse 
o efeito de um feitiço 
um astro me desse um couce 
e eu não sofresse com isso 

como se eu já existisse 
antes do sol e da lua 
e se a morte me despisse 
eu não me sentisse nua 

como se deus cá em baixo 
fosse um cigano moreno 
como se deus fosse macho 
e as minhas coxas de feno 

como se alguém dos espaços 
me desse o nome de flor 
ou me deixasse nos braços 
este cordeiro de amor.


* Amélia Muge – voz
António José Martins – piano, percussões
Catarina Anacleto – violoncelo
José Manuel David – acordeão
Produção – António José Martins
Produção executiva – Vachier & Associados
Gravado no Estúdio AJM, Sobreda, em Dezembro de 2000 e Fevereiro de 2002, e no Auditório Fernando Lopes Graça, Almada, em Agosto de 2001
Misturado por João Magalhães, António José Martins e António Pinheiro da Silva
Masterizado por António Pinheiro da Silva



O TESTAMENTO DOS NAMORADOS



Poema de Natália Correia (de "Rebis", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 308; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 235-236)
Recitado pela autora* (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003)


Escolhamos as coisas mais inúteis 
o verde água o rumor das frutas 
e partamos como quem sai 
ao domingo naturalmente. 

Deixemos entretanto o sinal 
de ter existido carnalmente: 
da tua força um castiçal 
da minha fragilidade um pente. 

Esse hieróglifo essa lousa 
deixemos para que uma criança 
a encontre como quem ousa 
um novo passo de dança. 


* Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Masterização – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Projecto de Bodas



Poema: Natália Correia (in "Passaporte", Lisboa: Edição de autor, 1958; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 207-208; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 155-156)
Música: Teresa Gentil
Intérprete: Teresa Gentil* (in CD "Natália Descalça", Descalças - Cooperativa Cultural, 2006)


Hoje apetece que uma rosa seja
O coração exterior do dia;
E a tua adolescência de cereja
No meu bico de Isolda Cotovia.

Hoje apetece a intuição dum cais
Para a lucidez de não chegar a tempo;
E ficarmos violetas nupciais
Com a lua a celebrar o casamento.

Apetece uma casa cor-de-rosa
Com um galo vermelho no telhado
E os degraus duma seda vagarosa
Que nunca chegue à varanda do noivado.

Hoje apetece que o cigarro saiba
A ter fumado uma cidade toda.
Ser o anel onde o teu dedo caiba
E faltarmos os dois à nossa boda.

Hoje apetece um interior de esponja
E como estátua a que moldar o vento.
Deitar as sortes e, se sair monja,
Navegar ao acaso o meu convento.

Hoje apetece o mundo pelo modo
Como vai despenhar-se um trapezista.
Abrir mais uma flor no nosso lodo:
Pedir-lhe um salto e retirar-lhe a pista.

Hoje apetece que a cor dum automóvel
Seja o Egipto de novo em movimento;
E que no espaço duma gota imóvel
Caiba a possível capital do vento.

Hoje apetece ter nascido loiro
Como apetece ter havido Atenas;
E tu nas curvas rápidas de um toiro.
E eu quase inatingível como as renas.

Hoje apetece que venhas no jornal
Como um anúncio. Sem fotografia.
E inventar-te uma lenda de cristal
Para reflectir a minha biografia.


* Teresa Gentil – guitarra e voz
Maria Simões – voz (recitação)
Produção – Descalças - Cooperativa Cultural (S. Vicente Ferreira, ilha de São Miguel, Açores)
Produção executiva – Sara Seabra
Gravação – Cláudia Rangel, Joaquim Azevedo e Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, entre os dias 20 e 28 de Outubro de 2006
Mistura - Cláudia Rangel e Teresa Gentil



A EXALTAÇÃO DA PELE



Poema de Natália Correia (de "Biografia", in "Poemas", Porto: Edição de autor, 1955; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 62; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 69)
Recitado por Rita Neves* (in CD "Poesia de Natália Correia", col. Selecta, Música XXI, 2007)


Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias.


* Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias
Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn



REBIS



Poema de Natália Correia (de "Rebis", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 301; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 230)
Recitado pela autora* (in LP "Improviso", Guilda da Música/Sassetti, 1973; CD "Natália Correia: Poemas Ditos (e até Cantados) pela Autora", CNM, 2011)
Música: António Victorino d'Almeida




Oh a mulher como é côncava
de teclas ter no abdómen
de sua porção de seda
ser o curso do rio homem

como é mina espadanar de água
na cama abobadada de homem
gargalhada de lustre se sentada
dique de nuvens estar de dólmen!

Oh o homem como é ângulo
aberto de procurar
o sítio onde nasce o oiro
na salmoura da mulher mar

como é cúpula de copular
nadador de braçadas de mirto
como é nado de a nado formar
o quadrado da mulher círculo!

Oh os dois como se fundem
na preia-mar dos lençóis
despidos como fogo e água
deus de dois ventres ferozes
e quatro olhos de fava!


* António Victorino d'Almeida – teclados, percussão
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Fado



Poema: Natália Correia (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: Nuno Rodrigues
Intérprete: Patrícia Rodrigues* (in CD "Ternura", CNM, 2004)


Falam de nós na cidade
Porque dizem que te ofereço 
Coisas de que não disponho,
Como se fosse maldade
Dar-te os olhos para berço 
E os cabelos para sonho.

Dizem que quando eu me deito
Contigo uma lua negra 
Vem fazer o casamento.
Como se fosse defeito
Saber que a vida não chega
Para o nosso sentimento.

Dizem que este desatino
É a maldita lembrança 
Do pecado original?
Eu só sei que isto é destino
E mesmo que seja herança 
É legado natural.

Porque é virtude tocar-te
Tu és mais puro que um deus
Purificas o que afagas.
Meu amor, só de afagar-te
A minha mão chega aos céus 
E sou mais forte que as pragas.

Dizem que este desatino
É a maldita lembrança 
Do pecado original?
Eu só sei que isto é destino
E mesmo que seja herança 
É legado natural.

[instrumental]

Meu amor, só de afagar-te
A minha mão chega aos céus 
Meu amor, só de afagar-te...

[instrumental]


* José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Jorge Fernando – viola
José Marino de Freitas – viola baixo
Arranjos e direcção musical – Jorge Fernando
Produção – Nuno Rodrigues



FADO

(Natália Correia, de "Inéditos 1947/55", in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 41-42; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 57-58)


Falam de nós na cidade
Porque dizem que te ofereço 
Coisas de que não disponho,
Como se fosse maldade
Dar-te os olhos para berço 
E os cabelos para sonho.
Dizem que quando eu me deito
Contigo uma lua negra 
vem fazer o casamento.
Como se fosse defeito
Saber que a vida não chega
Para o nosso sentimento.
Lá porque o nosso passeio
É uma fuga das grades
Que em cada gesto partimos,
Dão um nome muito feio
Àquelas intimidades
Em que ficando, fugimos.
Dizem que este desatino
É a maldita lembrança 
Do pecado original?
Eu só sei que isto é destino
E mesmo que seja herança 
É legado natural.
Porque é virtude tocar-te
Tu és mais puro que um deus
Purificas o que afagas.
Meu amor, só de afagar-te
A minha mão chega aos céus 
E sou mais forte que as pragas.



Sol Oculto



Poema: Natália Correia ("De amor nada mais resta que um Outubro", poema II de "O Beijo de Antikonie", in "O Dilúvio e a Pomba", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1979; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 168; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 467)
Música: Nuno Rodrigues
Intérprete: Patrícia Rodrigues* (in CD "Ternura", CNM, 2004)




De amor nada mais resta que um Outubro 
e quanto mais amada mais desisto: 
quanto mais tu me despes mais me cubro 
e quanto mais me escondo mais me avisto. 

E sei que mais te enleio e te deslumbro 
porque se mais me ofusco mais existo. 
Por dentro me ilumino, sol oculto, 
por fora te ajoelho, corpo místico. 

Não me acordes. Estou morta na quermesse 
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie 
nem teus zelos amantes a demovem. 

Mas quanto mais em nuvem me desfaço 
mais de terra e de fogo é o abraço 
com que na carne queres reter-me jovem. 


* José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Jorge Fernando – viola
José Marino de Freitas – viola baixo
Arranjos e direcção musical – Jorge Fernando
Produção – Nuno Rodrigues



Rio de Nuvens (VIII)



Poema: Natália Correia (in "Rio de Nuvens", Coimbra: Edição de autor, 1947; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 22; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 45)
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Corpo Iluminado", Universal Music France, 2001)


Turva hora onde
Principia a noite
E o dia se esconde.

Hora de abandonos
Em que a gente esquece
Aquilo que somos
E o tempo adormece.

Nevoenta hora,
Hora de ninguém
Em que a gente chora
Não sabe por quem.

E tudo se esconde
Nessa hora onde
Por estranha magia
Brilha o sol de noite
E o luar de dia.


* Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Produção e arranjos – Custódio Castelo
Co-produção em estúdio – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier
Gravado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em Janeiro de 2001



Nictofagia



Poema: Natália Correia (in "Passaporte", Lisboa: Edição de autor, 1958; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 206; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 154-155)
Música: Aníbal Raposo
Intérprete: Aníbal Raposo* (in CD "A Palavra e o Canto", Açor/Emiliano Toste, 2005)


Se eu pudesse beber-te, ó noite,
Até encontrar o teu gosto,
Ou mordendo a ponta do açoite
Da tua treva no meu rosto,

Achasse a planície de lume
De que és uma aresta de estrelas
E sonhando sem peso e volume
Fosse um sonho do chão a tecê-las

E na praia de um trilo sem flauta,
Instrumento das harpas do fundo
Duma água escorrida da pauta
Da manhã mais antiga do mundo,

Me estendesses, ó noite florida
Das sementes que trazes no punho,
Uma manhã de ouro impelida
Pelo arco das brisas de Junho!


* Aníbal Raposo – voz
Carlos Frazão – piano
Eduardo Botelho – guitarras
Emanuel Bettencourt – percussões
Zica – baixo
Gravação, mistura e masterização – Eduardo Botelho, nos Estúdios M.M. Music, Ponta Delgada, nos anos de 2003 a 2005



Sete Luas



Poema: Natália Correia ("Há noites que são feitas dos meus braços", poema IV de "A recusa das imagens evidentes", in "Dimensão Encontrada", Lisboa: Edição de autor, 1957; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 162-163; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 117-118)
Música: Renato Varela (Fado Varela)
Arranjo: Ricardo J. Dias
Intérprete: Mísia* (in CD "Garras dos Sentidos", Erato, 1998)


Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum cometa.

Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
À mais longínqua onda do seu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde 
E só o nosso nome estava certo.

Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil.


* Mísia – voz
Ricardo J. Dias – piano
Manuel Rocha – violino
Mário Franco – contrabaixo
Direcção musical – Ricardo J. Dias
Co-direcção – Mísia
Produção executiva – Ricardo J. Dias
Gravado nos Estúdios Xangrilá, Lisboa, em Outubro de 1997
Técnico de som – Nuno Pimentel
Mistura – Ricardo J. Dias e Mísia (Studios Plus XXX, Paris)
Técnico de som – Emmanuel Pothier
Masterização – Yves Delaunay (Dyam Studios, Paris)



Passageira da Noite



Poema: Natália Correia ("Em cada estrela cadente", in "Rio de Nuvens", Coimbra: Edição de autor, 1947; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 32; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 50-51)
Música: Francisco Viana (Fado Vianinha)
Intérprete: Patrícia Costa* (in CD "Um Cantar Velado e Lento", Patrícia Costa, 2010)


Em cada estrela cadente
Que vai perder-se no rio
Uma parte de mim parte
No mistério de um navio.

Sou passageira da noite,
Num veleiro de luar.
O porto onde eu embarquei
É onde devo parar.

A onda que vem à praia
E volta de novo ao mar,
Abriu um lírio na areia
Que a brisa vem desfolhar!

Passem navios ao longe,
Num jeito de não parar!...


* João Penedo – contrabaixo
Gravação e mistura – Francisco Maldonado, no Porto
Masterização – Francisco Maldonado, em Londres



E Se a Morte me Despisse



Poema: Natália Correia (quadras avulsas extraídas de vários poemas, in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I e II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999)
Música: Mário Pacheco
Intérprete: Mísia* (in CD "Drama Box", Liberdades Poéticas, 2005


Andam palavras na noite
Cansadas de me chamar.
Trago os meus lábios salgados
E algas no paladar.

Aberta a porta selada,
Sou pensada já não penso.
Se a Musa fica calada
Como dizer o silêncio?

Inúteis os meus anéis
Já os troquei por poemas,
Se hão-de perder-se os papéis
Voam com as minhas penas.

Só sei que, neste destino,
Vou atrás do que não sei...
E já me sinto cansada
Dos passos que nunca dei.

Ficou entre nós o tempo
Que fica uma andorinha.
Deu-nos essa primavera
Porque deu tudo o que tinha.

Ficou a morte caída
Antes de tempo no chão
E uma estátua dividida
Pela linha do coração.

Há dias em que sou monja
Há outros em que sou fêmea
E, embruxada, na fogueira
Do amor ponho mais lenha.

Como se eu já existisse
Antes do sol e da lua 
E se a morte me despisse 
Eu não me sentisse nua.

Quando me derem por morta
De lágrimas nem uma pinga:
Um trevo de quatro folhas
Tenho debaixo da língua.

E nada de biografia
Senão a da lua nova:
O que escreverem um dia
Os astros na minha cova.


* [Créditos gerais do disco:]
Mísia – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola de fado
Daniel Pinto – baixo acústico
Luís Cunha – violino
Ricardo Dias – piano e acordeão
António Aguiar – contrabaixo
Victor Villena – bandoneon (Hartenhauer)
Arranjos – José Manuel Neto, em colaboração com Carlos Manuel Proença
Conceito e produção artística – Mísia
Produção executiva – Inês Mota / Liberdades Poéticas, Lda.
Gravado nos Estúdios Xangrilá (Lisboa), Studio Plus XXX (Paris), Studio de la Seine (Paris), Audio Spot Studio Digital (Madrid), Gallery Studio (Londres), Todd's Studio (Nova York)
Engenheiro de som – Silvio Soave



Nuvens Correndo num Rio



Poema: Natália Correia ("Nuvens correndo num rio", in "Rio de Nuvens", Coimbra: Edição de autor, 1947; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 15; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 41)
Música: Valter Rolo
Intérprete: Inês Duarte* (in CD "Este Fado", Iplay, 2012)




Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.


* Valter Rolo – piano
Bernardo Couto – guitarra portuguesa
Diogo Clemente – viola
José Marino de Freitas – baixo acústico
Bruno Baião – violoncelo
Produção e direcção musical – Valter Rolo



Ricochete



Poema: Natália Correia (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: Popular ("Não se Me Dá Que Vindimem" e "Meninas, Vamos à Murta" – Beira Baixa)
Intérprete: Ana Laíns* (in CD "Quatro Caminhos", Difference, 2010)


Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento 
E a Terra se unem na lua?

Que sereia, é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

[instrumental]

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?

Chora flores dentro de nós
Deste soluço suspenso
Que silêncio é esta voz?
Que palavra é o silêncio?

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

[vocalizos]

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?


* Diogo Clemente – guitarra acústica
Marino de Freitas – baixo acústico
Bernardo Couto – guitarra portuguesa 
Paulo Loureiro – clarinete
Vicky (Hugo Marques) – percussão
Ana Laíns – coros
Produção e arranjos – Diogo Clemente
Assistente de produção – Vilma Costa
Produção executiva – Samuel Lopes, Ana Laíns & António Cunha
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, por Joaquim Montes, e no Lisboa Studio, por Luís Delgado & Diogo Tavares
Mistura e masterização – Luís Delgado & Diogo Clemente, no Lisboa Studio



RICOCHETE

(Natália Correia, in "Passaporte", Lisboa: Edição de autor, 1958; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 202-203; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 152)


Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
Nos articulam os braços
Em formas interrompidas
Para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento 
E a Terra se unem na lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?

Que sereia, é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
De estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
Um corpo à alma que é?



Corpo Abolido



Poema: Natália Correia ("Balada para um homem na multidão", de "O Diário de Cynthia", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 330; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 249)
Música: José Cid
Intérprete: José Cid* (in EP "Camarada", Columbia/VC, 1972; CD "O Melhor de José Cid", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)


Este homem que entre a multidão 
enternece por vezes destacar 
é sempre o mesmo aqui ou no Japão 
a diferença é ele ignorar. 

Muitos mortos foram necessários 
para formar seus dentes um cabelo 
vai movido por pés involuntários 
e endoidece ser eu a percebê-lo. 

Sentam-no à mesa de um café 
num andaime ou sob um pinheiro 
tanto faz desde que se esqueça 
que é homem à espera que cresça 
a árvore que dá dinheiro. 

Alimentam-no do ar proibido 
de um sonho que não é dele 
não tem mais que esse frasco de vidro 
para fechar a estrela do norte. 
E só o seu corpo abolido 
lhe pertence na hora da morte. 


* Todos os instrumentos executados por José Cid 



Do Sentimento Trágico da Vida



Poema: Natália Correia (de "Apontamentos", in "Poemas", Porto: Edição de autor, 1955; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 100; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 83-84)
Música: Teresa Gentil
Intérprete: Teresa Gentil* (in CD "Natália Descalça", Descalças - Cooperativa Cultural, 2006)


Não há revolta no homem 
que se revolta calçado. 
O que nele se revolta 
é apenas um bocado 
que dentro fica agarrado 
à tábua da teoria. 

Aquilo que nele mente 
e parte em filosofia 
é porventura a semente 
do fruto que nele nasce 
e a sede não lhe alivia. 

Revolta é ter-se nascido 
sem descobrir o sentido 
do que nos há-de matar. 

Rebeldia é o que põe 
na nossa mão um punhal 
para vibrar naquela morte 
que nos mata devagar. 

E só depois de informado 
só depois de esclarecido 
rebelde nu e deitado 
ironia de saber 
o que só então se sabe 
e não se pode contar. 


* Teresa Gentil – guitarra, flauta de bisel, adufe, voz e coros
Miguel Cardoso – contrabaixo e caxixi
Cláudia Rangel – coros
Produção – Descalças - Cooperativa Cultural (S. Vicente Ferreira, ilha de São Miguel, Açores)
Produção executiva – Sara Seabra
Gravação – Cláudia Rangel, Joaquim Azevedo e Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, entre os dias 20 e 28 de Outubro de 2006
Mistura - Cláudia Rangel e Teresa Gentil



SETE MOTIVOS DO CORPO (I)



Poema de Natália Correia (in "Armistício", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 243; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 516)
Recitado por Afonso Dias* (in CD "Poesia de Natália Correia", col. Selecta, Música XXI, 2007)


Não te importe, ó mortal, depois de morto
Desaparecer na curva do caminho.
Aqui és corpo; e injuriar o corpo
É pisar a sombra do divino.
Lúcida a carne, num fugaz milagre,
É de eternos assuntos a medida:
De ar, água, terra e fogo sumidade,
Lugar de amor onde se ganha a vida.

Se concorrem na alma embuste e danos,
O corpo em qualquer língua é verdadeiro.
P'ra que ao além não fie a Parca enganos,
Retrata-nos a morte em corpo inteiro.
Vem das estrelas o sangue que nos guia
E em amorosa perfeição na carne
Está toda a eternidade resumida.
Corpo! Sombra de deus. Simples verdade.


* Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias
Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn



Credo



Poema: Natália Correia ("Creio nos anjos que andam pelo mundo", poema IV de "Poesia: ó véspera de prodígio!", in "Sonetos Românticos", Lisboa: O Jornal, 1990; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 392; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 616)
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé* (in CD "Raiano", Farol Música, 1994)




Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.


* Janita Salomé – voz
Dudas – guitarra de 12 cordas, guitarra clássica
Paulo Jorge Santos – guitarra portuguesa
João Falcato – piano, sintetizador
Carlos Barreto – contrabaixo
Arranjo – Rui Luís Pereira
Direcção musical – Fernando Júdice e Janita Salomé
Produção – Fernando Júdice
Gravado e misturado no Regiestúdio, Amadora
Técnico de som – Branko Neskov
Masterizado por Mike Brown (Inglaterra)



Tomai estes meus versos na vazante



Poema de Natália Correia (poema XI de "Na câmara de reflexão", in "Sonetos Românticos", Lisboa: O Jornal, 1990; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 371; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 601)
Recitado por Telma Veríssimo* (in CD "Poesia de Natália Correia", col. Selecta, Música XXI, 2007)


Tomai estes meus versos na vazante
Da lua cheia que foi a minha vida:
Ora monja, ora maga, amortecida
No júbilo. Na dor esfuziante.

De nácar e cetim felina amante
Mas só pelo prazer da despedida.
Sala por sonhos muito concorrida
Sempre a contar com um deus num visitante.

Plenilúnio num campo de ruínas;
Ó cinzas seminais da renovada
Pena de aladas obras sibilinas!

E de tanto me encher, maré vazada
Que por tomar a peito ordens divinas,
Me despeço. Que não aposentada.


* Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias
Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn



Capa do EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria" (col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969)



Capa do CD "A Defesa do Poeta" (EMI-VC, 2003)
Faixas 1 a 6: do EP "Natália Correia Diz Poemas de sua Autoria" (Decca/VC, 1969)
Faixa 7: do LP "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", de José Mário Branco (Guilda da Música/Sassetti, 1971)
Faixas 8 a 27: do LP "Alegre Eu Ando" (Decca/VC, 1972)
Adaptação de cantigas de trovadores galego-portugueses por Natália Correia
Acompanhamento:
Viola - Cristiana
Piano - António Victorino d'Almeida
Faixas 28 a 32: do LP "Cantigas de Amigos", de Natália Correia, Amália Rodrigues e Ary dos Santos (Columbia/VC, 1971)
Adaptação de cantigas de trovadores galego-portugueses por Natália Correia
Direcção de edição – Helena Roseta com o apoio de David Ferreira
Produção executiva – Maria João Fortes, Helena Mata, Helena Evangelista, João Ruas e Aldina Duarte
Masterização – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Capa do LP "Improviso" (Guilda da Música/Sassetti, 1973)
15 poemas ditos/entoados por Natália Correia: treze da sua autoria e dois de trovadores galego-portugueses por si adaptados.
Música e execução instrumental (teclados, percussão) – António Victorino d'Almeida



Capa do CD "Natália Correia: Poemas Ditos (e até Cantados) pela Autora" (CNM, 2011)
O conteúdo é o mesmo do LP "Improviso" (1973)



Capa do CD "Natália Descalça" (Descalças - Cooperativa Cultural, 2006)
Poesia de Natália Correia musicada e cantada por Teresa Gentil



Capa do CD "Poesia de Natália Correia" (col. Selecta, Música XXI, 2007)
40 poemas ditos/cantados por Afonso Dias, Isabel Afonso Dias, Meguy, Rita Neves, Tânia Silva e Telma Veríssimo
Música de Afonso Dias e de compositores do fado (Raul Ferrão, Fernando Freitas e Pedro Rodrigues)

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