26 julho 2013

"Questões de Moral" para ler



Até finais de Dezembro de 2012, sempre que nas ondas da Antena 2 surgia a secção instrumental da ária "Così potessi anch'io" (*), de Vivaldi, era sinal quase certo de que começara ou estava a acabar uma emissão do "Questões de Moral". Infelizmente, o programa desapareceu da grelha, porque a direcção de programas não quis que ele continuasse, mesmo na modalidade de reposição, já que as emissões originais haviam cessado dois meses antes (ao ser negado a Joel Costa o exercício do direito previsto nos números 2 e 3 do artigo 78.º do Decreto-Lei n.º 498/72, de 9 de Dezembro, na redacção que lhe dada pelo Decreto-Lei n.º 179/2005, de 2 de Novembro).
Mas ao contrário dos altos (ir)responsáveis da Antena 2 e da Rádio e Televisão de Portugal, nada ralados com o prejuízo advindo para o auditório, Joel Costa sempre teve em boa conta e consideração os seus ouvintes, e entendeu por bem continuar a presenteá-los com as suas lúcidas, pertinentes e desassombradas reflexões sobre as mais variadas temáticas. Não oralmente e via rádio (pelo menos, enquanto não houver uma estação interessada em recuperar o programa) mas sob a forma escrita, e visual, através do blogue "Questões de Moral" (http://questoes-de-moral.blogspot.pt/). Aqui se deixa a lista dos artigos publicados até ao momento, com os links de acesso directo.
O salutar exercício do pensamento sem peias como profiláctico do marasmo e da torpeza mental!

(*) "Così potessi anch'io" (ária de Alcina), do II Acto da ópera "Orlando Furioso", RV 728, de Antonio Vivaldi, estreada no Teatro Sant'Angelo, de Veneza, em Novembro de 1727. O libreto tem a assinatura de Grazio Braccioli e baseia-se no poema épico homónimo de Ludovico Aristo, publicado (na versão completa) em 1532.
A gravação que Joel Costa utilizou no indicativo/genérico do "Questões de Moral" é de I Solisti Veneti, sob a direcção de Claudio Scimone, com o meio-soprano Lucia Valentini Terrani no papel de Alcina (grav. Jul-1977 – ed. Erato, 1978, reed. Erato, 1992, Apex/Warner Classics, 2005).
Aqui se apresenta o vídeo dessa gravação e também o de outra mais recente, muito aclamada, pelo Ensemble Matheus, dirigido por Jean-Christophe Spinosi, com Jennifer Larmore (grav. Théâtre des Champs-Elysées, Paris, Mar-2011 – ed. Naïve, 2011 – DVD).



Antonio Vivaldi: "Così potessi anch'io", por I Solisti Veneti, dir. Claudio Scimone, com Lucia Valentini Terrani (grav. Jul-1977).



Antonio Vivaldi: "Così potessi anch'io", por Ensemble Matheus, dir. Jean-Christophe Spinosi, com Jennifer Larmore (grav. Mar-2011).


"Questões de Moral":
(por ordem cronológica da publicação)
  1. MUDAR A VIDA [>> Ler]
  2. A JUSTA LUTA DO PATRONATO POR MELHORES CONDIÇÕES DE VIDA (1) [>> Ler]
  3. A JUSTA LUTA DO PATRONATO POR MELHORES CONDIÇÕES DE VIDA (2) [>> Ler]
  4. A JUSTA LUTA DO PATRONATO POR MELHORES CONDIÇÕES DE VIDA (3) [>> Ler]
  5. A JUSTA LUTA DO PATRONATO POR MELHORES CONDIÇÕES DE VIDA (4) [>> Ler]
  6. APRENDER A SER [>> Ler]
  7. BAYREUTH – O IDEAL [>> Ler]
  8. O VENTO [>> Ler]
  9. RAIO SOBRE A CÚPULA DE S. PEDRO [>> Ler]
  10. A MINHA ÓPERA FAVORITA [>> Ler]
  11. REGRESSO E RECOMEÇO [>> Ler]
  12. O GARANTE? [>> Ler]
  13. A DEMOCRACIA? [>> Ler]
  14. AGUENTAR? [>> Ler]
  15. O PAPA? [>> Ler]
  16. PORTUGAL NÃO É PARA VELHOS? [>> Ler]
  17. DON LUÍS [>> Ler]
  18. OS CÍNICOS [>> Ler]
  19. A MORAL DE BAYREUTH – A REALIDADE [>> Ler]
  20. DEPOIS DE UMA LEITURA (RÁPIDA) DE BERGSON [>> Ler]
  21. O CORREIO DA NOITE [>> Ler]
  22. O VERDI WAGNERIANO E OS COMPLEXOS DE PARIS [>> Ler]
  23. QUEM SE LEMBRA DO ANO DE 2004? [>> Ler]
  24. MORAL DE BAYREUTH – A RELIGIÃO [>> Ler]
  25. A NOVA ORDEM GLOBAL DO ÓPIO [>> Ler]
  26. A NOSSA PESTE [>> Ler]
  27. A VERDADEIRA (E TRISTE) HISTÓRIA DE D. CARLOS, PRÍNCIPE DE ESPANHA [>> Ler]
  28. AS RALAÇÕES QUE A HISTÓRIA ME DÁ [>> Ler]
  29. A DEMOCRACIA QUANTITATIVA [>> Ler]
  30. O TIO WOLF [>> Ler]
  31. ÓCULOS ESCUROS [>> Ler]
  32. UM DIA GOSTAVA DE IR A S.PETERSBURGO [>> Ler]
  33. BERLIM, OU O HOMEM DAS ESQUINAS OBLÍQUAS [>> Ler]
  34. POR EXEMPLO, NÃO ME APETECIA NADA IR A PEQUIM [>> Ler]
  35. UM EPISÓDIO EM NÁPOLES [>> Ler]
  36. UMA EXPERIÊNCIA DO TEMPO [>> Ler]
  37. NEM SÓ CAPITÃES HOUVE EM ABRIL [>> Ler]
  38. O PASSEIO DE SHAKESPEARE PELO CARMO E PELA TRINDADE [>> Ler]
  39. AMARGURA [>> Ler]
  40. A MORAL DE BAYREUTH – A ESTÉTICA [>> Ler]
  41. A JUSTIÇA DE VENEZA [>> Ler]
  42. A UTOPIA, A PAZ E A IMORTALIDADE [>> Ler]
  43. VIA DEGLI AVIGNONESI [>> Ler]
  44. UMA DEMOCRACIA DA INDIFERENÇA [>> Ler]
  45. ESPERO NUNCA VIR A TER NADA QUE FAZER EM SYDNEY [>> Ler]
  46. O VENENO DOS CORTESÃOS [>> Ler]
  47. A PROVIDÊNCIA [>> Ler]
  48. AS DUAS MÃES DE LEONARDO [>> Ler]
  49. A PROVIDÊNCIA (AINDA) [>> Ler]
  50. JESUS VON NAZARETH [>> Ler]
  51. A TRAIÇÃO DO POETA [>> Ler]
  52. A INFLUÊNCIA DOS ELEVADOS NÍVEIS DE POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA NA INTERPRETAÇÃO DAS ÓPERAS DE VERDI [>> Ler]
  53. DESOBEDIÊNCIA [>> Ler]
  54. O SENSO, DE VISCONTI, OU O MELODRAMA OITOCENTISTA ITALIANO ENQUANTO AGENTE DA HISTÓRIA [>> Ler]
  55. AGORA HÁ UM DEUS QUE DANÇA EM MIM [>> Ler]
  56. UM PENSAMENTO LOUCAMENTE POSITIVO [>> Ler]
  57. ELIPSE [>> Ler]
  58. CAVE MUSICAM [>> Ler]
  59. DEVEDORES E CREDORES [>> Ler]
  60. O PADRE QUE SE PENTEAVA À ITALIANA [>> Ler]
  61. VOCAÇÃO E PROFISSÃO [>> Ler]
  62. VERDI – DE TRAFICANTE DE ARMAS A DEPUTADO [>> Ler]
  63. BOMBAS DE EFEITO MORAL [>> Ler]
  64. BILDERBERG PALACE HOTEL [>> Ler]
  65. AFINAL NÃO HAVIA MESMO VIDA PARA ALÉM DO DÉFICE [>> Ler]
  66. UM CIGARRO PARA O MOMENTO HISTÓRICO [>> Ler]
  67. A MÚSICA DE BERLIM [>> Ler]
  68. MÚSICA OU SENTIMENTOS? [>> Ler]
  69. NADA EXISTE MAIS DO QUE AQUILO QUE NÃO EXISTE [>> Ler]
  70. MONÓLOGO DAS CINZAS [>> Ler]
  71. AS AVENTURAS DA HERESIA [>> Ler]
  72. MONÓLOGO A FAVOR DE UM LICENCIADO SEM EMPREGO [>> Ler]
  73. OS REIS PERDIDOS [>> Ler]
  74. NA LINHA DA ROSA [>> Ler]
  75. VARIAÇÕES (E FUGA) SOBRE UM TEMA DE SCHOPENHAUER [>> Ler]
  76. O BRITÂNICO PRÍNCIPE ÁRABE QUE NÃO CHEGOU A NASCER [>> Ler]
  77. AGENTES SECRETOS [>> Ler]
  78. OS MILHÕES DO SENHOR PRIOR [>> Ler]
  79. PODEROSOS MESMO, OU SIMPLESMENTE PÂNDEGOS? [>> Ler]
  80. OS ENCENADORES DA HISTÓRIA [>> Ler]
  81. AQUIETAI-VOS: É A REALIDADE QUE SE ENGANA [>> Ler]
  82. QUEM DISSE QUE O PÚBLICO TINHA SEMPRE RAZÃO? [>> Ler]
  83. FAZER O GRANDE FILME [>> Ler]
  84. CARPE DIEM 1 [>> Ler]
  85. CARPE DIEM 2 [>> Ler]
  86. CARPE DIEM 3 [>> Ler]
  87. CARPE DIEM 4 [>> Ler]
  88. A INCRÍVEL E TRISTE HISTÓRIA DE UM VALENTE MURRO NAS TROMBAS [>> Ler]
  89. O SILÊNCIO E AS ELITES [>> Ler]
  90. CARPE DIEM 5 [>> Ler]
  91. O ESPELHO [>> Ler]
  92. CARPE DIEM 6 [>> Ler]
  93. ESTÁS NA MINHA LISTA NEGRA, DIZ A ZEBRA PARA O MOSQUITO (PARTE I) [>> Ler]
  94. ESTÁS NA MINHA LISTA NEGRA, DIZ A ZEBRA PARA O MOSQUITO (PARTE II) [>> Ler]
  95. ESTÁS NA MINHA LISTA NEGRA, DIZ A ZEBRA PARA O MOSQUITO (PARTE III) [>> Ler]
  96. WAGNER, O ANTI-SEMITA [>> Ler]
  97. TRISTÃO E ISOLDA PASSEIAM PELO GRANDE CANAL [>> Ler]
  98. SER E NÃO SER JUDEU [>> Ler]
  99. UM BILHETE, UM RETRATO E UM ANEL [>> Ler]
  100. O RAPTO DE RICARDO KLEMENT [>> Ler]
  101. WAGNER, O GNÓSTICO [>> Ler]
  102. JFK [>> Ler]
  103. JOE, JACK, BOBBY, JOHNNY & SAM [>> Ler]
  104. SCAPIGLIATURA E REGRESSO AO ANTIGO [>> Ler]
  105. QUOTIDIANO E MORTE NO PALÁCIO VENDRAMIN [>> Ler]
  106. O ENCENADOR QUE SAIU DO FRIO [>> Ler]
  107. NOS BRAÇOS DA VERDADEIRA CARMEN [>> Ler]
  108. IL GRAN VEGLIARDO [>> Ler]
  109. DE MAL COM OS MERCADOS POR MOR DO DIREITO [>> Ler]
  110. E AQUELE DIA DOS LOUCOS ANOS 20, EM PARIS, QUANDO RUBINSTEIN LEVOU STRAVINSKI A UMA CASA DE MENINAS? [>> Ler]
  111. E DAQUELA VEZ, NOS LOUCOS ANOS 20, EM QUE O CUNHADO ARRUINADO DE STRAVINSKI SE FEZ À VIDA GRAÇAS A UMA IDEIA DE RUBINSTEIN? [>> Ler]
  112. FRANCISCO VENDE MAIS DO QUE BENTO [>> Ler]
  113. A MORAL DE EUSÉBIO [>> Ler]
  114. O QUE CONTA É A POESIA [>> Ler]
  115. FLORENÇA-1498, OU O INDIVÍDUO [>> Ler]
  116. A PERIGOSA VONTADE DE FAZER [>> Ler]
  117. A MENOS QUE A NECESSIDADE NOS OBRIGUE A SER BONS [>> Ler]
  118. COISAS [>> Ler]
  119. SÍMBOLOS [>> Ler]
  120. A DISFUNÇÃO DO MUNDO [>> Ler]
  121. A MEMORÁVEL NOITE DO HOTEL MIYAKO [>> Ler]
  122. CONTOS DA MEDIOCRIDADE ACEITÁVEL [>> Ler]
  123. O ESTADO DA RAZÃO [>> Ler]
  124. OS IRMÃOS MARX AFINAL ERAM SEIS [>> Ler]
  125. O ESTADO COMO MODELO DE VIOLÊNCIA SOCIAL [>> Ler]
  126. QUANDO HOJE OS AMANHÃS CANTAM, OUVE-SE A CANÇÃO DO BANDIDO, OU A MINHA CULTURA DE ESQUERDA [>> Ler]
  127. O ROMANCE ONDE TUDO ACONTECESSE [>> Ler]
  128. A SOCIEDADE DOS OBESOS ÓBVIOS [>> Ler]
  129. COESÃO NACIONAL [>> Ler]
  130. ESQUIZOFRENIA [>> Ler]
  131. VARIAÇÃO IMPERFEITA SOBRE OS PEQUENOS PODERES [>> Ler]
  132. SEGUNDA VARIAÇÃO IMPERFEITA SOBRE OS PEQUENOS PODERES [>> Ler]
  133. OPTIMISMO [>> Ler]
  134. ROBERTO ROSSELLINI, OU A MORAL DA TERNURA [>> Ler]
  135. UMA MULHER ENTRE AS SUAS SOMBRAS [>> Ler]
  136. MENTIRA NACIONAL [>> Ler]
  137. OPOSIÇÃO [>> Ler]
  138. AUTOBIOGRAFIA DE UM CÍNICO [>> Ler]
  139. A ATENÇÃO [>> Ler]
  140. MAS PARA QUE É QUE A EUROPA PRECISA DE CULTURA? [>> Ler]
  141. HONRA E GLÓRIA AOS MAIS ALTOS VALORES PORTUGUESES DO SÉC. XXI [>> Ler]
  142. CULTURA – PAIXÃO DE ESTADO, OU PROBLEMA MEU? [>> Ler]
  143. O CAOS DO NOSSO PASSADO [>> Ler]
  144. SOBRE A ELITE PORTUGUESA PAIRA UMA QUADRILHA DE MALFEITORES [>> Ler]
  145. ENTRE A MAFIA E O APOCALIPSE [>> Ler]
  146. SINATRA E O CASO DA CABEÇA DO CAVALO [>> Ler]
  147. POR DETRÁS DE O PADRINHO [>> Ler]
  148. OS FINANCIAMENTOS DE CAVACO [>> Ler]
  149. SINATRA & FRIENDS [>> Ler]
  150. MY KIND OF TOWN, CHICAGO IS [>> Ler]
  151. A FRÁGIL NORMA JEAN E OS QUE NUNCA MORREM NA CAMA [>> Ler]
  152. O GIGOLO E A ESTRELA ASSASSINA [>> Ler]
  153. REPRESENTAR [>> Ler]
  154. MR. ALFONSO GABRIEL CAPONE VISITA HOLLYWOOD [>> Ler]
  155. SCARFACE [>> Ler]
  156. O REI ESTÁ A MORRER [>> Ler]
  157. COTTON CLUB [>> Ler]
  158. PORNOMÁFIA [>> Ler]
  159. O FILHO DE ESTALINE [>> Ler]
  160. A MÚSICA, A MEDICINA, O TEMPO E O MEDO [>> Ler]
  161. CÂNDIDO DE OLIVEIRA NÃO BEBEU PELA SUPERTAÇA [>> Ler]
  162. FALAR DE SI MESMO [>> Ler]
  163. MAS AFINAL ANDA TUDO DOIDO LÁ PELAS MAÇONARIAS? [>> Ler]
  164. AS CALÇAS DO JUIZ ALEXANDRE [>> Ler]
  165. FALANDO DE ECONOMIA, DE FINANÇAS E DE JUSTIÇA [>> Ler]
  166. OS QUE CHEGARAM ANTES DE SÓCRATES [>> Ler]
  167. OS QUE CHEGARAM ANTES DE SÓCRATES, OU O HOMEM SEMELHANTE AO PEIXE [>> Ler]
  168. OS QUE CHEGARAM ANTES DE SÓCRATES, OU OS IRMÃOS DO MAIS ALTO SEGREDO [>> Ler]
  169. OS QUE CHEGARAM ANTES DE SÓCRATES, OU SUBSÍDIO PARA UMA REABILITAÇÃO FILOSÓFICA DE LILI CANEÇAS [>> Ler]
  170. OS QUE CHEGARAM ANTES DE SÓCRATES, OU O MAGO DAS SANDÁLIAS DE BRONZE [>> Ler]
  171. A CULPA DE DOSTOIEVSKI [>> Ler]
  172. OS MASSACRES DE PARIS E O ERUDITO QUINHENTISTA POLITICAMENTE CORRECTO [>> Ler]
  173. O NAZISMO ÁRABE [>> Ler]
  174. O NAZISMO ÁRABE 2 [>> Ler]
  175. O NAZISMO ÁRABE 3 [>> Ler]
  176. O HOMEM QUE EDUCOU SECRETAMENTE OS FALHADOS ASSASSINOS DE HITLER, E OUTRAS HISTÓRIAS, E OUTROS MESTRES [>> Ler]
  177. A REALIDADE [>> Ler]
  178. OS ESTÁDIOS SUPREMOS DO CAPITALISMO [>> Ler]
  179. A SOLUÇÃO NOVA [>> Ler]
  180. A LIBERDADE, O INDIVÍDUO [>> Ler]
  181. ANARCO-CAPITALISMO [>> Ler]
  182. É A DEMOCRACIA TOTALITÁRIA, MEU ESTÚPIDO! [>> Ler]
  183. UMA CAMBADA DE VIGARISTAS? [>> Ler]
  184. TEOCRACIA [>> Ler]
  185. O REINADO DE LEÃO X [>> Ler]
  186. LITERATURA [>> Ler]
  187. LITERATURA 2 [>> Ler]
  188. QUANDO O IMPOSSÍVEL ACONTECE... [>> Ler]
  189. AS SOMBRAS QUE NOS GOVERNAM [>> Ler]
  190. A MÃE, E A CHEGADA DOS NOVOS DEUSES [>> Ler]
  191. OS AVISOS DO FUTURO [>> Ler]
  192. O MAIO DE 68 E A QUESTÃO SEXUAL [>> Ler]
  193. KANE [>> Ler]
  194. FADO, FUTEBOL E FÁTIMA, SEMPRE [>> Ler]
  195. O PARADIGMA, A CEREJA, O BOLO, A ESTRATÉGIA, A FILOSOFIA, A ESTRUTURA [>> Ler]
  196. O MUNDO SOU EU! [>> Ler]
  197. SALVÉ, ESCRAVOS DA DEUSA DE METAL [>> Ler]
  198. OIKONOMIKÉ [>> Ler]
  199. PÒLEMOS [>> Ler]
  200. DEMOS [>> Ler]
  201. HIERÒS [>> Ler]
  202. MYSTÈRIA [>> Ler]
  203. ZEUS [>> Ler]
  204. TÈRPSIS [>> Ler]
  205. AXIOTHÉETON [>> Ler]
  206. EKPLEXIS [>> Ler]
  207. CRÓNICAS DE UMA CONSPIRAÇÃO SICILIANA (PARTE UM) [>> Ler]
  208. CRÓNICAS DE UMA CONSPIRAÇÃO SICILIANA (PARTE DOIS) [>> Ler]
  209. O VOTO INÚTIL [>> Ler]
  210. MATEM ESSA MULHER! [>> Ler]
  211. ALGO AMEAÇADORAMENTE ESTRANHO: O DUPLO [>> Ler]
  212. ALGO AMEAÇADORAMENTE ESTRANHO: O HOMEM DA AREIA [>> Ler]
  213. A AUSTERIDADE NÃO É CANCERÍGENA [>> Ler]
  214. NINGUÉM É PERFEITO [>> Ler]
  215. A CONVERGÊNCIA, A CONVIVÊNCIA E OS FANTASMAS [>> Ler]
  216. BATACLAN – SER E PARECER [>> Ler]
  217. CHE GUEVARA NA ÁFRICA "PORTUGUESA" [>> Ler]
  218. A ARTE DE DISCUTIR [>> Ler]
  219. AS AVENTURAS DO DINHEIRO [>> Ler]
  220. O CASO MANON [>> Ler]
  221. JESUS E SÓCRATES [>> Ler]
  222. A ESQUERDA E A DIREITA DESNECESSÁRIAS, OU O UNISEXO POLÍTICO [>> Ler]
  223. UM DESVIO DE DIREITA E OUTRO DE ESQUERDA [>> Ler]
  224. PRAGA, PRIMAVERA DE 1968 [>> Ler]
  225. PARIS, SETEMBRO DE 1968 [>> Ler]
  226. ZITA CONTRA ZÉ DOS BIGODES [>> Ler]
  227. OS AUTOS SECRETOS [>> Ler]
  228. SHAKESPEARE 400-SIR JOHN GIELGUD [>> Ler]
  229. UM SÍTIO MAL FREQUENTADO [>> Ler]
  230. shakespeare 400 – jorge luis borges [>> Ler]
  231. shakespeare 400 – polanski [>> Ler]
  232. shakespeare 400 – álvaro cunhal [>> Ler]
  233. shakespeare 400 – as imagens [>> Ler]
  234. shakespeare 400 – visconti [>> Ler]
  235. shakespeare 400 – george steiner [>> Ler]
  236. shakespeare 400 – the globe theatre [>> Ler]
  237. shakespeare 400 – aristocracia [>> Ler]
  238. SHAKESPEARE 400 – WOODY ALLEN [>> Ler]
  239. shakespeare 400 – louis jouvet [>> Ler]
  240. shakespeare 400 – autenticidade [>> Ler]
  241. shakespeare 400 – chaplin [>> Ler]
  242. shakespeare 400 – noite de reis (o tempo) [>> Ler]
  243. shakespeare 400 – franco zeffirelli [>> Ler]
  244. shakespeare 400 – antonin artaud [>> Ler]
  245. shakespeare 400 – charles dullin [>> Ler]
  246. shakespeare 400 – robert louis stevenson [>> Ler]
  247. SHAKESPEARE 400 – A VERDADE DE CADA UM [>> Ler]
  248. shakespeare 400 – hamlet e o tempo [>> Ler]
  249. SHAKESPEARE 400 – SIR LAURENCE OLIVIER, OU OS BRINQUEDOS ESQUECIDOS [>> Ler]
  250. shakespeare 400 – uma sombra que passa, um pobre actor que gesticula [>> Ler]

[Lista actualizada em 30-Dez-2016]

22 julho 2013

"Vozes da Lusofonia" em inglês?! (III)



O conceito do programa "Vozes da Lusofonia", subjacente ao nome que enverga e ao que está expresso no próprio texto de apresentação (cf. http://www.rtp.pt/play/p276/e124201/vozes-de-lusofonia), designadamente na frase «Um ponto comum une os convidados de "Vozes da Lusofonia": a língua portuguesa!» voltou a ser impiedosamente violentado com o destaque dado a um disco cantado em inglês – "Sight of Truth", de Syana.
Será que o rol de Edgar Canelas relativo a álbuns cantados em português ou instrumentais, editados no último ano e meio, se esgotou, a ponto de sentir necessidade de deitar mão a um CD não lusófono?
Cingindo-me à produção nacional (que é a que conheço melhor), não tive dificuldade em referenciar uma mão-cheia de bons discos, lançados desde Janeiro de 2012, que ainda não marcaram presença no programa "Vozes da Lusofonia".
Ei-los, por ordem alfabética dos nomes dos intérpretes:


- Afonso Dias & A Sopa dos Pobres: "Fado Aleixo" (CD, Bons Ofícios - Associação Cultural, 2012)
- Anafaia: "ComTradições" (CD, 2012)
- António Crespo: "Coimbra em Balada" (CD, Public-art, 2012)
- Artesãos da Música: "Puleando" (CD, Artesãos da Música/ARMA, 2012)
- Assobio: "Fado 2.0" (CD, Teatro Municipal da Guarda, 2012)
- Bandarra: "Bicho do Diabo" (CD, Bandarra, 2012)
- Cantigas do Baú: "Cantigas do Baú" (CD, Cantigas do Baú, 2012)
- Canto D'Aqui: "Tributo a Zeca Afonso" (CD, Açor/Emiliano Toste, 2012)
- Capagrilos: "São Bassáridas" (CD, Capagrilos, 2012)
- Estudantina Universitária de Coimbra: "25 Anos de Sonho e Tradição" (2CD, Public-art, 2012)
- Frei Fado: "Se o Meu Coração Não Erra" (CD, Bartilotti, 2012)
- Miguel Calhaz: "Estas Palavras" (CD, Miguel Calhaz, 2012)
- Mísia: "Senhora da Noite" (CD, Silene, 2012)
- Mosca Tosca: "Assimetria" (CD, Tradballs, 2013)
- Mu: "Folhas Que Ardem" (CD, Mu, 2012)
- Musicalbi: "Adufando: Sinais da Beira Baixa" (CD, Musicalbi, 2012)
- O Baú: "Achega-te" (CD, O Baú, 2012)
- Pensão Flor: "O Caso da Pensão Flor" (CD, Brandit Music, 2013)
- Pedro Barroso: "Cantos da Paixão e da Revolta" (CD, Ovação, 2012)
- Pedro Barroso: "Palavras Mal Ditas" (Livro/CD, Lua de Marfim/Ovação, 2013)
- Stockholm Lisboa Project: "Aurora" (CD, Nomis Musik/Westpark Music, 2012)
- Strella do Dia: "Equinox" (CD, 2012)
- Teresa Salgueiro: "O Mistério" (CD, Clepsidra Música, 2012)
- Trasga: "Al Absedo..." (CD, Centro de Música Tradicional Sons da Terra, 2012)
- Urze de Lume: "Ibéria Oculta" (CD, 2012)
- Xarabanda: "Quem Anda na Roda" (CD, Associação de Música e Cultura Xarabanda, 2013)


Edgar Canelas não tomou conhecimento da existência daqueles álbuns? Não creio. Não lhes reconhece qualidade bastante? Também não quero acreditar. Então como se explica que os tenha ignorado? Os respectivos artistas, agentes ou editoras não o contactaram? Se foi essa a razão, é caso para dizer que procedeu muito mal.
A rádio pública não deve ficar parada e quietinha (qual "Maria tão te rales!") à espera que os artistas ou os seus representantes lhe batam à porta a pedir encarecidamente que os discos que levam na mão sejam divulgados. Tem a obrigação ela mesma, logo que tome conhecimento de determinado trabalho com notória qualidade, de tomar a iniciativa de convidar o artista em questão, qualquer que seja o local onde resida, ainda que muito longe da capital. Acaso se torne oneroso ao artista a deslocação a Lisboa para a realização da entrevista, que se faça uso dos estúdios regionais. Sendo financiada pelos cidadãos e empresas de Portugal inteiro (continental e insular), a Antena 1 não pode nem deve comportar-se como se fosse uma rádio local da grande Lisboa...


Textos relacionados:
"Vozes da Lusofonia" em inglês?!
"Vozes da Lusofonia" em inglês?! (II)

19 julho 2013

Em memória de Guilherme de Melo (1931-2013)



Jornalista, escritor e poeta português, Guilherme José de Melo nasceu na cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo), a 20 de Janeiro de 1931, e faleceu em Lisboa, a 29 de Junho de 2013. Fez os estudos liceais na cidade natal, ingressando no funcionalismo público que abandonou, aos vinte anos de idade, para iniciar a actividade de jornalista, primeiro no "Notícias da Tarde" (1952) e depois no "Notícias", de Lourenço Marques (1952-1974), onde atinge o lugar de director-adjunto. Os seus primeiros poemas saíram, em 1949, no jornal laurentino "Itinerário", continuando a colaborar com poesia e contos em diversos suplementos literários e revistas, tais como "Capricórnio", de Lourenço Marques, "Paralelo 20", da cidade da Beira, e "Colóquio/Letras", de Lisboa. Entre 1956 a 1959, colaborou num programa de teatro radiofónico dirigido por Reinaldo Ferreira, no Rádio Clube de Moçambique, quer escrevendo peças originais, quer adaptando obras de outros autores, designadamente de Henrik Ibsen e de Federico Garcia Lorca. Foi como ficcionista que publicou os primeiros livros: "A Menina Elisa e Outros Contos" (1960), "A Estranha Aventura" (contos, 1961) e "As Raízes do Ódio" (romance, 1965). Neste último, a abordagem feita ao racismo gerou acesa polémica, acabando a PIDE por apreender a edição. Em 1969, publicou um trabalho de reportagem sobre a Guerra Colonial, que então decorria, sob o título de "Moçambique, Norte – Guerra e Paz", que lhe valeu o Prémio Pêro Vaz de Caminha. Em Outubro de 1974, perante a convulsão em que Moçambique entrou, resolveu radicar-se em Lisboa, trabalhando no gabinete de imprensa do IARN - Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais e, a partir de Janeiro de 1976, como redactor do "Diário de Notícias", onde se manteve até 31 de Dezembro de 1996, altura em que se aposentou. «O Almeida Santos telefona-me e dá-me duas hipóteses de emprego: ou chefe de redacção da ANOP ou redactor do "Diário de Notícias". Escolhi ser redactor do "Diário de Notícias" e ele ficou muito admirado por eu ter decidido recomeçar por baixo.», confessou em 1998 numa entrevista concedida ao seu DN. O regresso à vida literária aconteceu com a publicação, em 1981, do romance "A Sombra dos Dias", «uma autobiografia escrita na terceira pessoa», distinguida pelo júri do Prémio Literário Círculo de Leitores para obras inéditas, em que tratou com frontalidade a homossexualidade, temática continuada nos romances "Ainda Havia Sol" (1984) e "O Que Houver de Morrer" (1989). O regresso à temática africana deu-se com "Os Leões Não Dormem Esta Noite" (1989), biografia romanceada de Gungunhana, que lhe fora sugerida por Samora Machel, já presidente da República Popular de Moçambique, quando se voltaram a encontrar em 1984 (haviam-se conhecido em 1961, quando o escritor, na sequência de um acidente de viação, esteve internado num hospital onde Samora era um anónimo ajudante de enfermeiro). Da sua produção romanesca posterior sobressaem "Como Um Rio sem Pontes" (1992) e "As Vidas de Elisa Antunes" (1997), olhar cúmplice e irónico sobre uma Lisboa corroída pela desumanização. Embora os primeiros textos literários que publicou fossem poemas, foi já perto do fim da vida, que Guilherme de Melo se decidiu a publicar o seu primeiro e único livro de poesia, "A Raiz da Pele" (2011).

Bibliografia:
- A Menina Elisa e Outros Contos (contos), col. Textos Moçambicanos, Lourenço Marques: Associação dos Naturais de Moçambique, 1960
- A Estranha Aventura (contos), ilustrações de Jorge Garizo do Carmo, col. Prosadores de Moçambique, vol. 3, Beira, 1961
- As Raízes do Ódio (romance), Lisboa: Arcádia, 1965; Lisboa: Editorial Notícias, 1990
- Moçambique, Norte – Guerra e Paz (reportagem), Lourenço Marques: Minerva Central, 1969
- Menino Candulo, Senhor Comandante... (conto), Lourenço Marques: Emp. Moderna, 1974
- A Sombra dos Dias (romance), Lisboa: Bertrand, 1981; Lisboa: Notícias, 1985
- Ser Homossexual em Portugal (reportagem), col. Cadernos de Reportagem, vol. 1, Lisboa: Relógio d'Água Editores, 1982
- Ainda Havia Sol (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1984
- Moçambique: Dez Anos Depois (reportagem), Lisboa: Editorial Notícias, 1985
- O Que Houver de Morrer (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1989
- Os Leões Não Dormem Esta Noite (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1989
- Como Um Rio sem Pontes (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1992
- As Vidas de Elisa Antunes (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1997
- O Homem que Odiava a Chuva e Outras Estórias Perversas (contos), Lisboa: Editorial Notícias, 1999
- A Porta ao Lado (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 2001
- Gayvota: Um Olhar (por Dentro) sobre a Homossexualidade (ensaios), Lisboa: Editorial Notícias, 2002
- Crónicas de Bons Costumes (contos), Lisboa: Editorial Notícias, 2004
- A Raiz da Pele (poesia), Montijo: Humanity's Friends Books, 2011



Paralelamente à edição do livro "A Raiz da Pele", o actor Vítor de Sousa gravou metade (vinte e sete) desses poemas num CD homónimo. Desse disco seleccionei uns quantos para aqui apresentar, em homenagem a Guilherme de Melo. É serviço público que o blogue "A Nossa Rádio" se orgulha de prestar aos seus leitores, mormente aos ouvintes da rádio pública, pois a Antena 1 (pelo menos) voltou a pecar, por omissão, na homenagem que lhe cabe render aos artistas e autores quando nos deixam.
Carlos Pinto Coelho, se cá estivesse, não teria certamente deixado de honrar a memória de Guilherme de Melo, com quem, aliás, esteve duas vezes à conversa no programa "Agora... Acontece!". Portanto, afigura-se de toda a oportunidade trazer esses fonogramas à luz do dia, ademais não sendo de somenos o proveito cultural que deles poderá tirar quem se der ao cuidado de ouvi-los.



"Agora... Acontece!" N.º 82, de 22-Mai-2000



Guilherme de Melo entrevistado por Carlos Pinto Coelho [a partir de 13':30'']


"Agora... Acontece!" N.º 334, de 04-Jul-2005



Eugénio Lisboa e Guilherme de Melo conversam com Carlos Pinto Coelho sobre o poeta Reinaldo Ferreira



Capa do CD "A Raiz da Pele", de Vítor de Sousa (Ovação, 2011)
As receitas dos direitos de autor revertem a favor da Associação Sol (
http://www.sol-criancas.pt/), por vontade expressa de Guilherme de Melo.



LEGENDA



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Venho de um país que nenhum de vós conhece.
Tenho um destino que nenhum de vós entende.
Moro onde mora o dia que amanhece.
Guardo na alma um temporal desfeito
e cobre-me a nudez espuma em novelo.


Brame o mar, represo, no meu peito.
Escuto búzios em longas sinfonias.
Trago agarrados ao sal do meu cabelo
algas, conchas, limos e corais
ali deixados pela mão das ventanias.




COLONIZAÇÃO



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Sinto-te, África.
Sinto-te em cada músculo
de cada negro do cais.
Sinto-te em cada fulgor
do sol de Verão nas enxadas.
Sinto-te em cada soluço
das Marias-qualquer-coisa
sobre a esteira desfloradas.


Sinto-te, África, em meu sangue,
na alma, no coração,
e queria poder soltar
esta febre, esta paixão,
esta revolta incontida
de te sentir, minha terra,
nos olhos de quem me olha,
nas mãos presas às enxadas,
nos braços de quem trabalha
no manobrar das lingadas,
nos ventres prenhes de vidas
que não foram desejadas
nem o amor fez gerar.


De te sentir, minha África,
e não ganhar a coragem
do teu grito em mim gritar.




TAMBOR



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Estenderam meu corpo,
esticaram-me a pele.
Tambor me fizeram,
tambor me tangeram,
tambor me tocaram.


Tão longos os gritos,
tão longe gritaram.


Falou-me no sangue
a terra calcada
pelos negros curvados
perdidos no nada,
o ódio escondido
ao branco e senhor
– o milho perdido,
a seca mordendo,
o gado caindo,
meninos morrendo,
os choros, a dor,
na noite subindo
num longo crescendo.


Estenderam meu corpo,
esticaram-me a pele.
Tambor me fizeram,
tambor me tangeram,
tambor me tocaram.
E agora assombrados,
que longos os gritos
tão longe gritaram,
e agora aterrados,
que longos os sons
de mim se soltaram,
a pele me romperam,
enfim me calaram.




FRATERNIDADE



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Se um dia tiver um filho hei-de ensinar-lhe,
antes mesmo que diga Pai e Mãe,
a maravilhosa palavra que é Irmão.


Hei-de repetir-lha,
letra a letra,
de lábios a tocar-lhe o coração
para que entenda e se aperceba, assim,
que amar a vida
é amar em cada homem um Irmão.




ORGULHO



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Pouco ou nada me importa que vós outros
vos choqueis com a forma como eu amo.
Amo a quem amo como entendo e quero amar.
Amo a quem amo porque os nervos tensos
e toda a carne e sangue do meu corpo
impõem e me gritam que assim ame.
E o que se passa aqui, dentro de mim,
somente a mim pertence porque é meu.


Ficai sabendo, pois, que força alguma
pode mudar o que nasceu quando eu nasci
e que, nem sei porquê, aconteceu.


Sabei então, para sempre e de uma vez,
que aí fora, na rua, mandais vós
– mas aqui, dentro de mim, só mando eu.




DUALIDADE



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Metade do meu corpo é Marco António,
outra metade – mistério! – é Cleópatra.
Eu sou, ao mesmo tempo, o torvo Otelo
e Desdémona que a tremer se entrega
na fronteira da noite que amanhece.


Dentro de mim há sempre o que domina,
ao lado da metade que se oferece.




GIRASSOL



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Havia a imensidão que há nas paisagens lunares.
Havia o longo silêncio que escorre dos glaciares.


Havia a desolação que há sobre a terra queimada.
Havia o tenso mistério de uma freira emparedada.


Havia a aspereza salgada que há num longínquo recife.
Havia o cinzento frio que tem o céu em Cardiff.


Havia o pávido assombro duma descida ao inferno.
Havia a tristeza imensa de Veneza no inverno.


Havia um grito sem voz suspenso no ar parado.
Havia a face terrosa dum cigano esfaqueado.


Havia a nudez marmórea duma Acrópole derruída.
Havia o baço fulgor duma pupila sem vida.


Havia o que tendo havido nunca mais voltara a haver.
Havia a premonição das coisas por acontecer.


E foi então que vieste, assim num esplendor, num clarão,
como um girassol de fogo que irrompe, rasgando o chão.




DORIAN GRAY



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Sou eu,
inteiro, eu mesmo
– ou o retrato?


As rugas que não tenho e ele contém,
a ironia amarga nos meus lábios
feita cansaço fundo em sua boca,
o engelhado dos meus dedos lisos,
fio por fio nas suas mãos traçado,
tudo afinal sou eu nele retratado.


E olho no retrato do que sonhei.
E vejo nele o mundo que vivi.
O muito que odiei.
Os corpos que abracei, tive e perdi.
Olho o desejo, a raiva e o prazer,
a lama, o céu, o nada,
a volúpia a que, rindo, me entreguei.
Olho-me olhando o tudo que assim fiz,
tudo o que fui e quis,
lucidamente frio nesse meu querer.


Remorsos? E de quê? De ter vivido?
Remorsos? Para quê – se o proibido
é afinal estar vivo e não viver.




LISBOA



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Quando vim de África
faltava-me a lonjura,
o som e o silêncio, o espaço.
Quando vim de África
faltava-me a distância
onde o olhar se perde
e vai e vem e volta
e passeia sem peias,
receio ou embaraço.


Tudo é diferente
na Lisboa que adoptei e me adoptou.
Diferente o céu, o cheiro, a cor do mar,
diferente o chão que piso, a chuva, a gente.
Não há nas suas ruas
o clarão das acácias a florir.


Só pouco a pouco, lento, devagar,
a fui de manso
aprendendo a amar.


Hoje sinto que a Lisboa que adoptei e me adoptou
tem mais a ver com Cesário do que Eça.
Nela mergulho o rosto
como quem esconde a face que o sol esquenta
entre os seios doces, maternais,
da ama que a sorrir nos acalenta.




A RAIZ DA PELE



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Guardo na raiz da pele
os gritos, as emoções,
os desesperos, os medos,
a raiva, o ódio, a perfídia,
os sonhos, as frustrações,
as cicatrizes das feridas
que a vida em mim foi abrindo,
os mistérios, os segredos.


Guardo na raiz da pele
a verdade do que sou.
Deixo que à flor da pele
emerja a máscara, o sorriso,
o jogo do gato-e-rato
onde, estando, nunca estou.




O QUARTO FECHADO



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Pintei de verde o teu barco,
pus-lhe um mastro e uma vela.
Soltei-o por sobre as águas,
fiquei a vê-lo na margem.


Desenhei nuvens, bonecos,
nas paredes do teu quarto.
Enchi de sol a janela,
fiquei olhando, entre a porta.


Cobri de relva os canteiros
que tracei em frente à casa.
Trouxe-te um cachorro branco,
fiquei sentado a afagá-lo.


Peguei num livro de histórias
quando a tarde foi caindo.
Debruçado para o teu berço
fiquei a lê-lo calado.


Nada faltou ou esqueci,
em tudo pensei e trouxe:
brinquedos, livros, canções,
o riso que alegre riste;


apenas faltaste tu,
o filho que não existe.




VELHICE



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Velhice, agora os dias são imensos,
são longos e vazios.
Agora os dias são pesados, arrastam-se, são frios.
Quieto, em meu lugar.
Passeio por entre as cruzes
dos mortos que guardo em mim.
Falo com eles em silêncio.
Esquecido, à espera do fim.



Outubro de 2008


* Guitarra portuguesa – Luísa Amaro
Percussão – Marta Ribeiro
Gravado nos Estúdios Gravisom, Lisboa
Captação áudio – Gino Vitali
URL:
http://www.ovacao.pt/compra/vitor-de-sousa-a-raiz-da-pele-52226



Capa do livro "A Raiz da Pele", de Guilherme de Melo (Humanity's Friends Books, 2011)
8% do preço de capa reverte para a Associação Sol (
http://www.sol-criancas.pt/)

15 julho 2013

"Palavras Mal Ditas" ou "Palavras Malditas"?



O muro das palavras vive dentro do papel. Da voz. Da ideia que levanta o pensamento. Devia saber por onde; e quantas vezes, não sei.
A poesia sempre foi em mim a procura permanente do sonho que me evada e me descubra. A minha e a dos outros.
Há muito que dizer poesia me fascina. Se não é, afinal, o que tenho feito toda esta vida de cantor e músico? Acho que sim.
A música das palavras antecede-lhes o significado. Depois reforça-o. E por fim, sobra-nos dele, também.
Apenas há que descobrir o ponto encoberto da emoção. E a cada língua e dialecto me imagino pensando a nova sonoridade, a nova residência do vocábulo, com o fascínio da procura eterna e da multiculturalidade. E da melhor forma de fazer circular e invadir cada pessoa.
Saber uma língua é saber comunicá-la.
Ouvia em criança o Villaret, o Lereno, a Cármen Dolores, como ícones; depois o Ruy Matos, o Varela Silva, o Victor de Sousa. Tive, no entanto, as maiores referências, que me perdoem todos, no Ary e no Mário Viegas, de quem fui colega nos palcos e na vida.
Dizer a poesia sempre me transportou. E, no caso, a minha poesia. Por isso ousei a novidade deste projecto. Veículo de mim que assim, de modo tão inesperado, aqui vos deixo.
As canções não morreram. Depressa voltarão. Algumas aqui ancoram; outras talvez daqui tenham despertado...
Mas a eternidade deste espaço secreto, essa só a quero partilhar com os íntimos mais íntimos de mim. Todos os que ainda sentem e sabem ouvir as coisas, do lado de dentro da alma.
Todos os que ainda gostem de afundar-se neste susto apaixonante de viver. Esses estarão comigo e vão perdoar-me a ousadia.
Disse. Está dito. Se são ou não "palavras mal ditas", está nas vossas mãos julgá-lo.

                                   Pedro Barroso


Palavras Mal Ditas, de Pedro Barroso
(Livro/CD, Lua de Marfim/Ovação, 2013)


1. Estados Unidos da Europa
2. Aurora
3. Madrugada
4. Árvore
5. Limites
6. A Morte e a Morte
7. Estrela d'Alva
8. Quero Viver Numa Cidade
9. O Mundo pela TV
10. Balada do Desespero
11. Perda
12. Caso Sério
13. Fornicação dos Tristes
14. Menina dos Olhos d'Água
15. Rugas
16. Aniversário
17. Noite de Afago
18. Memória
19. Outro Edifício
20. Excesso
21. À Porta Fechada do Castelo
22. Transgressão Tardia
23. Eterno
24. Outro Dia
25. D. Sebastião
26. Partido
27. Governação
28. Esperança
29. Epitáfio
30. Legado Vigilante / ...Atlantes / ...Carta Transmontana


Gravado e misturado por Rui Dias, nos Estúdios Mister Master, Vila Nova da Caparica
Foto da capa – Veríssimo Dias
Grafismo – Pedro Matias



Fernando Pessoa escreveu a dado passo: "A canção é uma poesia ajudada". Está implícito que um poema fica a ganhar se for cantado, mas não deixa de valer per si, isto é, sem a muleta da música e do canto (caso contrário não seria poesia). Quem conhece a obra discográfica de Pedro Barroso sabe que muitos dos seus textos musicados/cantados pertencem a essa categoria: são poemas, antes de tudo. Como tal, bons para serem lidos em silêncio ou ouvidos, na forma dita, podendo acompanhar-se a audição com a leitura. Esta edição de livro com CD faculta ao amante de poesia todas essas opções, para alguns textos anteriormente cantados e muitos inéditos. Já tive o ensejo de fazer a audição acompanhada com a leitura e posso testemunhar o quanto essa experiência me foi gratificante e enriquecedora.
Em vez de "Palavras Mal Ditas" (só "mal ditas" quando se tem como referente, altíssimo e praticamente inatingível, as "Palavras Ditas", de Mário Viegas), a obra bem poderia ter o título de "Palavras Malditas". Na verdade, muitas delas são mesmo malditas: para a desonestidade, a intrujice, a corrupção, a cupidez, a mediocridade, a mesquinhez, a ignorância arrogante, a irresponsabilidade (individual e colectiva), a incúria, a inércia, a indiferença ao sofrimento alheio, o desrespeito pela Natureza... – em suma, tudo o que vai em sentido contrário ao bem-comum e ao direito que todo e qualquer ser humano tem de viver com dignidade. Palavras de um poeta desencantado, mas não de um céptico: subsiste a esperança – não a esperança tola e zé-povinha, mas a ideia de que os homens (livres, lúcidos e honestos) podem – assim nisso se empenhem – construir um Futuro mais justo, harmonioso e vivível.
Estranhamente, ou talvez não, estas "Palavras Mal Ditas" têm sido (quase) completamente ignoradas por rádios e televisões, inclusive as do sector público. O blogue "A Nossa Rádio" não pactua com essa ocultação e é com muita honra que faculta a audição/leitura de 5 dos 32 poemas.




ÁRVORE



Amei-te como o vento ama a montanha,
Tive por ti silente essa paixão
Abracei-te os braços, os espaços
A beleza adulta e firme do teu tronco
E converti no dia-a-dia ir visitar-te
Num exercício de beleza e emoção.


Fiz de ti, com os anos, minha cúmplice,
Minha confidente sempre, minha amante
E naquele sítio eras, sem saber,
A única coisa realmente bela e importante.


Quantas vezes, passando, te admirava,
Em contraluz, ao pôr-do-sol, num gesto;
E havia qualquer coisa de fidalgo no teu porte,
E na tua solidão um manifesto.


Mas ao passar no outro dia a curva,
Ao sopé do velho outeiro,
Pelo sítio onde habitavas, enorme, a tua dignidade,
Tinham-te cortado cerce por inútil e doente.


Ficou no verde monte aquele vulto ausente
E a marca solene do que me foste sempre:
– Matriz, forma antiga, sombra, abrigo, confidente,
Espanto de céu, recortada intensidade.


Regras da vida e da morte revistas num momento:
Para eles eras apenas lenha velha comida pela idade,
Ninguém te prestou especial solenidade.


Apenas para mim, ao que parece,
Eras mais que um ser vivo – um monumento.
Para toda a gente, eras apenas
Uma árvore secular atacada pelo tempo.




LIMITES



Há homens que se vendem por vaidade
Há homens que se vendem por dinheiro
Há até quem se venda um bocadinho
E outros que se vendem por inteiro


Uns crescem comprando a consciência
Outros fabricando um futurozinho
Para uns já perdi a paciência
Para os outros não lhes quero ser nem vizinho


Vivo no lado norte extremo do orgulho
Cavalheiro, cavaleiro doutra idade
Quando canto, atrevo a elegância
Quando escrevo, atrevo a liberdade


Não ergo as mãos por causas sibilinas
Em curvas encobertas de encoberto
Grito o gesto e mordo o desespero
Se vejo injustiça, aí, estou perto


Não há meio de deixar de ser assim
Nem me quereria eu doutra maneira
Esmoleres caricaturas, compromissos,
Chatos em geral, gente toupeira,


Besuntados, comprados, graciosos,
Respeitáveis, colunáveis de carreira,
Untuosos perfis, lugares manhosos,
Deixem-me ser livre assim e sem coleira.


E caso a caso dir-vos-ei que penso
Vento limpo soprará minha bandeira
Não me vendo por vida nem por morte
Ninguém me comprará outra carreira


Acomodei-me demais a esta obediência
Guerreiro das palavras sem viseira
Por bússola sigo a minha consciência
E tenho a minha boca por fronteira.




A MORTE E A MORTE



Velhos sem amor e sem notícia de ninguém.
Descobrimo-los por toda a parte agora, espantados; como se nunca fora assim.
Está bem patente o modelo de sociedade do futuro.
Filhos no desemprego ficam adolescentes eternos.
Casas vazias albergam a miséria da morte envergonhada de abandono.
Sobrinhos distantes, netos sem saber.
Um estado vigilante e curador que não cura, nem cuida, nem zela, nem protege; negligente, distante, indiferente.
Vizinhos com medo de vizinhos.
Silêncios que não se investigam por inércia e indiferença. Eu quero lá saber!
Afinal que morte nos aguarda? Que regime de pré-morte por ignomínia? E por nojo de viver assim? Sem o halo humano de um abraço.
Dói no peito que tenhamos caído neste coabitar com as rotinas mais bestiais da indiferença humana.
Construímos um monstro social. O valor das paredes vale mais que o valor dos abraços e da vida.
Vestimos a morte em vida, na injustiça, no trabalho e no cansaço.
Durante a vida visível compete-nos sermos travestis de felicidade, irmos andando.
E afinal agora descobrimos que depois da morte, ainda vem mais morte e mais silêncio.
Como se uma só morte não bastasse já.
A da vergonha imensa de que tudo seja insensibilidade assim.
Camuflada por um qualquer parágrafo e artigo legal que juridicamente desculpará o impropério.
O insulto dos vivos na febre invisível dos dias insensatos e indiferentes.




QUERO VIVER NUMA CIDADE



Quero viver numa cidade
Onde o dia seja brando
Onde a noite seja branca
E um rio vá deslizando...
Onde a vida seja calma
A segurança vulgar
E os jardins sejam longos
E as tardes de vagar...
E onde a História me relembre
Entre lendas de além-mar
De heroísmos e bravuras
E romances de encantar.


Quero viver numa cidade
Com a montanha a espreitar
Casas mistério, tão alto
Penduradas, a pensar
Quero praias, quero rios
Um sorriso em cada porta
Um afago em cada mão
Um abraço que conforta.


Quero viver numa cidade
Com as taxas moderadas:
Quanto baste para a saúde
Quanto baste para as estradas!
Onde a morte seja a lua
Com as estrelas ao vento
Ao fim de duzentos anos
Ainda saudáveis, sem sofrimento.


Quero viver numa cidade
Com operários construtores
Mulheres de sonho na boca
Homens de pedra aos amores
Monumentos para a memória
Obeliscos para o prazer
Coisas do gozo e da glória
Volúpias sem ter vergonha
Sem medo de acontecer.


Quero viver numa cidade
Com casas lindas ao sol
Como palácios ao vento
Ou castelos de Almourol
Parques frondosos e largos
Onde os amantes se recolhem
Com beijos doces e amargos
Tendo o céu como lençol.


Quero viver numa cidade
Nem nua nem pardacenta
Onde cada qual trabalhe
No que gosta de fazer;
Eu canto – tu dás-me o pão
E assim decorre o viver
Mesmo o trânsito nas ruas
Decorre, modéstia à parte,
Fluente e sem acidente
Não há pressa nem enfarte
E só chegar é urgente!
Há tempo de passear
E, já agora, a cidade
– Como enorme novidade!... –
Tem espaço p'ra se estacionar.


Quero viver numa cidade
Onde há gente sorridente
Que te acolhe em cada loja
Com o prazer de ajudar-te
E onde vais poder comprar
Em vez de drogas e punhos
Pedaços de poesia
Numa galeria d'arte!


Quero viver numa cidade
Com gosto, respeito e espaço
Com autocarros humanos
Tocando em fundo Vivaldi
E tempo para andar a passo.


Quero viver numa cidade
Grande como a terra inteira
Onde caiba todo o campo
Todo o mundo, todo o encanto
Tu e eu e toda a gente
Passageiros de primeira
Numa cidade diferente
Que mesmo sendo modesta
É uma cidade imponente
Onde viver é uma festa
Pelo sorriso, pela gente
Aqui mesmo à minha beira...




BALADA DO DESESPERO



Porque nasceste, vives;
Porque vivias, cresceste;
Porque cresceste, tiveste
A sorte que não previas;
Porque estudaste, aprendeste
As coisas de se saber,
E outras, inúteis de sobra
As coisas para se esquecer
As coisas para se esquecer.


Porque cumpriste, fizeste
O que mandaram fazer
Os padres, o pai, a mãe
O professor, o mais velho
O sargento, o comandante
O senhorio, a porteira
O ministro, o governante
O cobrador, o pedreiro
– Esteja cá na terça-feira! –
O bancário, o carpinteiro
O homem do gás, da luz
Da água, do pão, do leite
E acabaste cumprindo
Cumprindo tudo a preceito.


Encomendaste gravatas
Fatos novos e sapatos
Dedicaste-te ao chinquilho
Ou, se for noutro horizonte,
Talvez ao king, à canasta
Fizeste um filho, e outro filho
E nas horas livres, às vezes,
Em havendo futebol
Sentiste-te um homem de tasca
Sentiste que eras uma besta
E puseste um cachecol
Mas segunda-feira cedo
Bem cedo, bem matinal
De novo te achaste pronto
Partindo para o mesmo emprego
Comprando o mesmo jornal.


E sempre, todos os dias
Cobiçaste a secretária
Do teu chefe, o Sr. Lima
Cobiçaste o horário do Saavedra
E a mini-saia da Lina
Ah! Para à noite, corpo cansado
Tomares o trinta e sete
O carrito, a bicicleta
E regressares, esgotado
Do trabalho e da ausência
Para te sentires confortado
Da solidão na indolência
De um canapé, recostado
Aquecedor, televisão
Tudo muito bem ligado
Pijama posto, chinelos
Conforto que traz descanso
E uma certa sonolência
Concordância e anuência.


Nas férias redecoraste-te
Bizarro na concepção
E arriscaste um figurino
Compraste um chapéu assim
Foste às compras de calção
E sorriste aos teus parceiros
De barraquinha na praia
E à senhora vizinha
Que nunca tirou a saia
Agosto inteiro com saia
Calculem só os senhores
Agosto inteiro com saia.


E aturaste a pequenada
Brigas, birras, fraldas, caca
Apreciaste o traseiro
Da amiga do teu amigo
Rechonchudinha, mulata
Quase nua, fio dental
– Já é preciso ter lata!


Por decoro, viras a cara 
Não vão os putos ver isto;
Assobias, disfarçando
Espalhas óleo pelas espaldas
Enquanto a tua mulher
Um pouco desconfiada
Desabrida e despeitada
Te exigiu:
– Ó Silva! Tu muda as fraldas!


Depois à noite, porreiro
Caminhaste na avenida
Muito fresco e prazenteiro
Com a pança bem comida
Às vezes um frango inteiro
(Que não és homem dos fracos
Dos fracos não reza a História
E o Silva é alguém na vida
Homem de bem, de memória
Contabilista da firma
Tal e tal, Rua da Glória
– Sempre que quiser já sabe
Uma casa às suas ordens...)


E depois, pelo caminho
Regressas, gritas, dás ordens
Recuas, gritas, dás ordens
E ameaças o outro
Que guinou para este lado
– Se calhar querias, coitado!
E o camião chateado
De se ver ultrapassado
– Viste aquele? Tu viste aquele?


Regressas mais bronzeado
Mais gordo, talvez mais magro
Mais velho um mês e, quem sabe?,
Mais cansado que à partida.


Regressas ao rame-rame
Enquanto suspirarás
Todo o ano, por um mês
Todo o mês, por outra vida
Toda a vida, por viver
Algo que te valha a pena
Ou então, tu já nem sentes
E mentes-te enquanto mentes
E mentes e já não sentes
E já não sentes, mas mentes.


Ano a ano te esfolharam
Te roubaram prestações
Letras, fantasmas, viagens
Cromos, selos, colecções
Hálito fresco e saudável
Graxa, sabão, brilhantina.


Mudaste a cor do salão
De azul para um verde marinho
De castanho para um branquinho
E depois, por fim, como a Lurdinhas,
Para uma espécie de lilás
– O que é que tu achas, Gertrudes, meu amor?
– Eu escolhia... o mais clarinho...


E ao fim de tanto trocares
Baralhares e confundires
Acabas por rebentar
– Evitando, pelo menos
Teres enfim de destruir
Tudo o que creste ser belo
Ser lindo, ser valioso...


Acabaste confundindo
Viver com reeducar-te
Passaste o tempo calcando
O que podias ter sido tu
Nu, inteiro e pessoal
Pois que assim, afinal
Foste um entre milhões
Que de morte natural
Tem uma cruz, lega uns tostões
E cai podre numa cova,
No funeral.


Não te ficou nem um gesto
Que não façam mais milhares
Não te ficou nem um risco
Um grito para espalhares;
Não te ficou nem uma sobra
Uma intenção, uma diferença
Isto é caso p'ra dizer
Parvo, incapaz e castrado
Rastejante e cumpridor
Rastejante e tão honrado
Foste um escravo do dever
Sem glória, nem recompensa.


Repousa em paz, meu rapaz,
Que a cova te seja leve
Como a vida te foi breve,
Oca e breve, sem ofensa.




"Zé Povinho e Xico Esperto"
© Cristina Sampaio (http://www.cristinasampaio.com/)



"Apertar o cinto"
© Cristina Sampaio (http://www.cristinasampaio.com/)