15 julho 2013

"Palavras Mal Ditas" ou "Palavras Malditas"?



O muro das palavras vive dentro do papel. Da voz. Da ideia que levanta o pensamento. Devia saber por onde; e quantas vezes, não sei.
A poesia sempre foi em mim a procura permanente do sonho que me evada e me descubra. A minha e a dos outros.
Há muito que dizer poesia me fascina. Se não é, afinal, o que tenho feito toda esta vida de cantor e músico? Acho que sim.
A música das palavras antecede-lhes o significado. Depois reforça-o. E por fim, sobra-nos dele, também.
Apenas há que descobrir o ponto encoberto da emoção. E a cada língua e dialecto me imagino pensando a nova sonoridade, a nova residência do vocábulo, com o fascínio da procura eterna e da multiculturalidade. E da melhor forma de fazer circular e invadir cada pessoa.
Saber uma língua é saber comunicá-la.
Ouvia em criança o Villaret, o Lereno, a Cármen Dolores, como ícones; depois o Ruy Matos, o Varela Silva, o Victor de Sousa. Tive, no entanto, as maiores referências, que me perdoem todos, no Ary e no Mário Viegas, de quem fui colega nos palcos e na vida.
Dizer a poesia sempre me transportou. E, no caso, a minha poesia. Por isso ousei a novidade deste projecto. Veículo de mim que assim, de modo tão inesperado, aqui vos deixo.
As canções não morreram. Depressa voltarão. Algumas aqui ancoram; outras talvez daqui tenham despertado...
Mas a eternidade deste espaço secreto, essa só a quero partilhar com os íntimos mais íntimos de mim. Todos os que ainda sentem e sabem ouvir as coisas, do lado de dentro da alma.
Todos os que ainda gostem de afundar-se neste susto apaixonante de viver. Esses estarão comigo e vão perdoar-me a ousadia.
Disse. Está dito. Se são ou não "palavras mal ditas", está nas vossas mãos julgá-lo.

                                   Pedro Barroso


Palavras Mal Ditas, de Pedro Barroso
(Livro/CD, Lua de Marfim/Ovação, 2013)


1. Estados Unidos da Europa
2. Aurora
3. Madrugada
4. Árvore
5. Limites
6. A Morte e a Morte
7. Estrela d'Alva
8. Quero Viver Numa Cidade
9. O Mundo pela TV
10. Balada do Desespero
11. Perda
12. Caso Sério
13. Fornicação dos Tristes
14. Menina dos Olhos d'Água
15. Rugas
16. Aniversário
17. Noite de Afago
18. Memória
19. Outro Edifício
20. Excesso
21. À Porta Fechada do Castelo
22. Transgressão Tardia
23. Eterno
24. Outro Dia
25. D. Sebastião
26. Partido
27. Governação
28. Esperança
29. Epitáfio
30. Legado Vigilante / ...Atlantes / ...Carta Transmontana


Gravado e misturado por Rui Dias, nos Estúdios Mister Master, Vila Nova da Caparica
Foto da capa – Veríssimo Dias
Grafismo – Pedro Matias



Fernando Pessoa escreveu a dado passo: "A canção é uma poesia ajudada". Está implícito que um poema fica a ganhar se for cantado, mas não deixa de valer per si, isto é, sem a muleta da música e do canto (caso contrário não seria poesia). Quem conhece a obra discográfica de Pedro Barroso sabe que muitos dos seus textos musicados/cantados pertencem a essa categoria: são poemas, antes de tudo. Como tal, bons para serem lidos em silêncio ou ouvidos, na forma dita, podendo acompanhar-se a audição com a leitura. Esta edição de livro com CD faculta ao amante de poesia todas essas opções, para alguns textos anteriormente cantados e muitos inéditos. Já tive o ensejo de fazer a audição acompanhada com a leitura e posso testemunhar o quanto essa experiência me foi gratificante e enriquecedora.
Em vez de "Palavras Mal Ditas" (só "mal ditas" quando se tem como referente, altíssimo e praticamente inatingível, as "Palavras Ditas", de Mário Viegas), a obra bem poderia ter o título de "Palavras Malditas". Na verdade, muitas delas são mesmo malditas: para a desonestidade, a intrujice, a corrupção, a cupidez, a mediocridade, a mesquinhez, a ignorância arrogante, a irresponsabilidade (individual e colectiva), a incúria, a inércia, a indiferença ao sofrimento alheio, o desrespeito pela Natureza... – em suma, tudo o que vai em sentido contrário ao bem-comum e ao direito que todo e qualquer ser humano tem de viver com dignidade. Palavras de um poeta desencantado, mas não de um céptico: subsiste a esperança – não a esperança tola e zé-povinha, mas a ideia de que os homens (livres, lúcidos e honestos) podem – assim nisso se empenhem – construir um Futuro mais justo, harmonioso e vivível.
Estranhamente, ou talvez não, estas "Palavras Mal Ditas" têm sido (quase) completamente ignoradas por rádios e televisões, inclusive as do sector público. O blogue "A Nossa Rádio" não pactua com essa ocultação e é com muita honra que faculta a audição/leitura de 5 dos 32 poemas.




ÁRVORE



Amei-te como o vento ama a montanha,
Tive por ti silente essa paixão
Abracei-te os braços, os espaços
A beleza adulta e firme do teu tronco
E converti no dia-a-dia ir visitar-te
Num exercício de beleza e emoção.


Fiz de ti, com os anos, minha cúmplice,
Minha confidente sempre, minha amante
E naquele sítio eras, sem saber,
A única coisa realmente bela e importante.


Quantas vezes, passando, te admirava,
Em contraluz, ao pôr-do-sol, num gesto;
E havia qualquer coisa de fidalgo no teu porte,
E na tua solidão um manifesto.


Mas ao passar no outro dia a curva,
Ao sopé do velho outeiro,
Pelo sítio onde habitavas, enorme, a tua dignidade,
Tinham-te cortado cerce por inútil e doente.


Ficou no verde monte aquele vulto ausente
E a marca solene do que me foste sempre:
– Matriz, forma antiga, sombra, abrigo, confidente,
Espanto de céu, recortada intensidade.


Regras da vida e da morte revistas num momento:
Para eles eras apenas lenha velha comida pela idade,
Ninguém te prestou especial solenidade.


Apenas para mim, ao que parece,
Eras mais que um ser vivo – um monumento.
Para toda a gente, eras apenas
Uma árvore secular atacada pelo tempo.




LIMITES



Há homens que se vendem por vaidade
Há homens que se vendem por dinheiro
Há até quem se venda um bocadinho
E outros que se vendem por inteiro


Uns crescem comprando a consciência
Outros fabricando um futurozinho
Para uns já perdi a paciência
Para os outros não lhes quero ser nem vizinho


Vivo no lado norte extremo do orgulho
Cavalheiro, cavaleiro doutra idade
Quando canto, atrevo a elegância
Quando escrevo, atrevo a liberdade


Não ergo as mãos por causas sibilinas
Em curvas encobertas de encoberto
Grito o gesto e mordo o desespero
Se vejo injustiça, aí, estou perto


Não há meio de deixar de ser assim
Nem me quereria eu doutra maneira
Esmoleres caricaturas, compromissos,
Chatos em geral, gente toupeira,


Besuntados, comprados, graciosos,
Respeitáveis, colunáveis de carreira,
Untuosos perfis, lugares manhosos,
Deixem-me ser livre assim e sem coleira.


E caso a caso dir-vos-ei que penso
Vento limpo soprará minha bandeira
Não me vendo por vida nem por morte
Ninguém me comprará outra carreira


Acomodei-me demais a esta obediência
Guerreiro das palavras sem viseira
Por bússola sigo a minha consciência
E tenho a minha boca por fronteira.




A MORTE E A MORTE



Velhos sem amor e sem notícia de ninguém.
Descobrimo-los por toda a parte agora, espantados; como se nunca fora assim.
Está bem patente o modelo de sociedade do futuro.
Filhos no desemprego ficam adolescentes eternos.
Casas vazias albergam a miséria da morte envergonhada de abandono.
Sobrinhos distantes, netos sem saber.
Um estado vigilante e curador que não cura, nem cuida, nem zela, nem protege; negligente, distante, indiferente.
Vizinhos com medo de vizinhos.
Silêncios que não se investigam por inércia e indiferença. Eu quero lá saber!
Afinal que morte nos aguarda? Que regime de pré-morte por ignomínia? E por nojo de viver assim? Sem o halo humano de um abraço.
Dói no peito que tenhamos caído neste coabitar com as rotinas mais bestiais da indiferença humana.
Construímos um monstro social. O valor das paredes vale mais que o valor dos abraços e da vida.
Vestimos a morte em vida, na injustiça, no trabalho e no cansaço.
Durante a vida visível compete-nos sermos travestis de felicidade, irmos andando.
E afinal agora descobrimos que depois da morte, ainda vem mais morte e mais silêncio.
Como se uma só morte não bastasse já.
A da vergonha imensa de que tudo seja insensibilidade assim.
Camuflada por um qualquer parágrafo e artigo legal que juridicamente desculpará o impropério.
O insulto dos vivos na febre invisível dos dias insensatos e indiferentes.




QUERO VIVER NUMA CIDADE



Quero viver numa cidade
Onde o dia seja brando
Onde a noite seja branca
E um rio vá deslizando...
Onde a vida seja calma
A segurança vulgar
E os jardins sejam longos
E as tardes de vagar...
E onde a História me relembre
Entre lendas de além-mar
De heroísmos e bravuras
E romances de encantar.


Quero viver numa cidade
Com a montanha a espreitar
Casas mistério, tão alto
Penduradas, a pensar
Quero praias, quero rios
Um sorriso em cada porta
Um afago em cada mão
Um abraço que conforta.


Quero viver numa cidade
Com as taxas moderadas:
Quanto baste para a saúde
Quanto baste para as estradas!
Onde a morte seja a lua
Com as estrelas ao vento
Ao fim de duzentos anos
Ainda saudáveis, sem sofrimento.


Quero viver numa cidade
Com operários construtores
Mulheres de sonho na boca
Homens de pedra aos amores
Monumentos para a memória
Obeliscos para o prazer
Coisas do gozo e da glória
Volúpias sem ter vergonha
Sem medo de acontecer.


Quero viver numa cidade
Com casas lindas ao sol
Como palácios ao vento
Ou castelos de Almourol
Parques frondosos e largos
Onde os amantes se recolhem
Com beijos doces e amargos
Tendo o céu como lençol.


Quero viver numa cidade
Nem nua nem pardacenta
Onde cada qual trabalhe
No que gosta de fazer;
Eu canto – tu dás-me o pão
E assim decorre o viver
Mesmo o trânsito nas ruas
Decorre, modéstia à parte,
Fluente e sem acidente
Não há pressa nem enfarte
E só chegar é urgente!
Há tempo de passear
E, já agora, a cidade
– Como enorme novidade!... –
Tem espaço p'ra se estacionar.


Quero viver numa cidade
Onde há gente sorridente
Que te acolhe em cada loja
Com o prazer de ajudar-te
E onde vais poder comprar
Em vez de drogas e punhos
Pedaços de poesia
Numa galeria d'arte!


Quero viver numa cidade
Com gosto, respeito e espaço
Com autocarros humanos
Tocando em fundo Vivaldi
E tempo para andar a passo.


Quero viver numa cidade
Grande como a terra inteira
Onde caiba todo o campo
Todo o mundo, todo o encanto
Tu e eu e toda a gente
Passageiros de primeira
Numa cidade diferente
Que mesmo sendo modesta
É uma cidade imponente
Onde viver é uma festa
Pelo sorriso, pela gente
Aqui mesmo à minha beira...




BALADA DO DESESPERO



Porque nasceste, vives;
Porque vivias, cresceste;
Porque cresceste, tiveste
A sorte que não previas;
Porque estudaste, aprendeste
As coisas de se saber,
E outras, inúteis de sobra
As coisas para se esquecer
As coisas para se esquecer.


Porque cumpriste, fizeste
O que mandaram fazer
Os padres, o pai, a mãe
O professor, o mais velho
O sargento, o comandante
O senhorio, a porteira
O ministro, o governante
O cobrador, o pedreiro
– Esteja cá na terça-feira! –
O bancário, o carpinteiro
O homem do gás, da luz
Da água, do pão, do leite
E acabaste cumprindo
Cumprindo tudo a preceito.


Encomendaste gravatas
Fatos novos e sapatos
Dedicaste-te ao chinquilho
Ou, se for noutro horizonte,
Talvez ao king, à canasta
Fizeste um filho, e outro filho
E nas horas livres, às vezes,
Em havendo futebol
Sentiste-te um homem de tasca
Sentiste que eras uma besta
E puseste um cachecol
Mas segunda-feira cedo
Bem cedo, bem matinal
De novo te achaste pronto
Partindo para o mesmo emprego
Comprando o mesmo jornal.


E sempre, todos os dias
Cobiçaste a secretária
Do teu chefe, o Sr. Lima
Cobiçaste o horário do Saavedra
E a mini-saia da Lina
Ah! Para à noite, corpo cansado
Tomares o trinta e sete
O carrito, a bicicleta
E regressares, esgotado
Do trabalho e da ausência
Para te sentires confortado
Da solidão na indolência
De um canapé, recostado
Aquecedor, televisão
Tudo muito bem ligado
Pijama posto, chinelos
Conforto que traz descanso
E uma certa sonolência
Concordância e anuência.


Nas férias redecoraste-te
Bizarro na concepção
E arriscaste um figurino
Compraste um chapéu assim
Foste às compras de calção
E sorriste aos teus parceiros
De barraquinha na praia
E à senhora vizinha
Que nunca tirou a saia
Agosto inteiro com saia
Calculem só os senhores
Agosto inteiro com saia.


E aturaste a pequenada
Brigas, birras, fraldas, caca
Apreciaste o traseiro
Da amiga do teu amigo
Rechonchudinha, mulata
Quase nua, fio dental
– Já é preciso ter lata!


Por decoro, viras a cara 
Não vão os putos ver isto;
Assobias, disfarçando
Espalhas óleo pelas espaldas
Enquanto a tua mulher
Um pouco desconfiada
Desabrida e despeitada
Te exigiu:
– Ó Silva! Tu muda as fraldas!


Depois à noite, porreiro
Caminhaste na avenida
Muito fresco e prazenteiro
Com a pança bem comida
Às vezes um frango inteiro
(Que não és homem dos fracos
Dos fracos não reza a História
E o Silva é alguém na vida
Homem de bem, de memória
Contabilista da firma
Tal e tal, Rua da Glória
– Sempre que quiser já sabe
Uma casa às suas ordens...)


E depois, pelo caminho
Regressas, gritas, dás ordens
Recuas, gritas, dás ordens
E ameaças o outro
Que guinou para este lado
– Se calhar querias, coitado!
E o camião chateado
De se ver ultrapassado
– Viste aquele? Tu viste aquele?


Regressas mais bronzeado
Mais gordo, talvez mais magro
Mais velho um mês e, quem sabe?,
Mais cansado que à partida.


Regressas ao rame-rame
Enquanto suspirarás
Todo o ano, por um mês
Todo o mês, por outra vida
Toda a vida, por viver
Algo que te valha a pena
Ou então, tu já nem sentes
E mentes-te enquanto mentes
E mentes e já não sentes
E já não sentes, mas mentes.


Ano a ano te esfolharam
Te roubaram prestações
Letras, fantasmas, viagens
Cromos, selos, colecções
Hálito fresco e saudável
Graxa, sabão, brilhantina.


Mudaste a cor do salão
De azul para um verde marinho
De castanho para um branquinho
E depois, por fim, como a Lurdinhas,
Para uma espécie de lilás
– O que é que tu achas, Gertrudes, meu amor?
– Eu escolhia... o mais clarinho...


E ao fim de tanto trocares
Baralhares e confundires
Acabas por rebentar
– Evitando, pelo menos
Teres enfim de destruir
Tudo o que creste ser belo
Ser lindo, ser valioso...


Acabaste confundindo
Viver com reeducar-te
Passaste o tempo calcando
O que podias ter sido tu
Nu, inteiro e pessoal
Pois que assim, afinal
Foste um entre milhões
Que de morte natural
Tem uma cruz, lega uns tostões
E cai podre numa cova,
No funeral.


Não te ficou nem um gesto
Que não façam mais milhares
Não te ficou nem um risco
Um grito para espalhares;
Não te ficou nem uma sobra
Uma intenção, uma diferença
Isto é caso p'ra dizer
Parvo, incapaz e castrado
Rastejante e cumpridor
Rastejante e tão honrado
Foste um escravo do dever
Sem glória, nem recompensa.


Repousa em paz, meu rapaz,
Que a cova te seja leve
Como a vida te foi breve,
Oca e breve, sem ofensa.




"Zé Povinho e Xico Esperto"
© Cristina Sampaio (http://www.cristinasampaio.com/)



"Apertar o cinto"
© Cristina Sampaio (http://www.cristinasampaio.com/)

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