21 junho 2017

Janita Salomé: "Reino de Verão"


Silva Porto, "Colheita - Ceifeiras", c.1893, óleo sobre tela, 90,5x120,3 cm, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto


Quem conhece razoavelmente o repertório poético-musical português sabe que ele é profuso em belos espécimes alusivos às estações do ano, designadamente à Primavera e ao Estio. Ora este dia de solstício, que marca o início da mais cálida das estações, é um bom pretexto para pôr-mos em destaque uma dessas canções: "Reino de Verão", na voz de Janita Salomé, com música da sua autoria sobre poema de Maria Manuela Espinho.
Não podia a Antena 1 incluir esta canção na sua lista de difusão musical, vulgo 'playlist'? Podia e devia! E isso vale igualmente para muitas outras gravadas por Janita Salomé, um dos mais categorizados artistas do nosso panorama musical mas que – absurda e criminosamente – não está representado na referida lista.



Reino de Verão



Poema: Maria Manuela Espinho
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé* (in CD "Em Nome da Rosa", Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2014)




Os dias sem vento.
As horas paradas
suspensas do tempo
da calma
do não haver sombra nem fresco.
A vida entardecendo
ante o olhar
como pintura de mestre.
A terra e o céu
acontecendo
numa espera dourada.
E a beleza a cumprir-se
no cantar da cotovia...


* Janita Salomé – voz
Filipe Raposo – piano
Mário Delgado – guitarra acústica
Pedro Jóia – cümbüs
Quiné Teles – bateria e percussão
António Quintino – contrabaixo
Direcção musical e arranjos – Filipe Raposo
Produção executiva – Cantar ao Sol, Lda.
Gravação – Rui Guerreiro, André Tavares e José Maria Sobral, nos Atlântico Blue Studios, Paço d'Arcos, de Julho a Agosto de 2013
Mistura – Rui Guerreiro
Masterização – Tó Pinheiro da Silva



Capa do CD "Em Nome da Rosa", de Janita Salomé (Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2014)

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10 junho 2017

Camões recitado e cantado (III)


Retrato de Luís de Camões (gravura), pelo flamengo Andries Pauli (Antuérpia, 1610-1639). Pertence, desde 1964, ao acervo do Rijksmuseum, de Amesterdão.


«As 10 Canções de Camões, que integravam a primeira edição de 1595 das suas "Rimas", são uma obra-prima da poesia maneirista portuguesa. Porque são alguns dos poemas de que mais gosto, e ler em voz alta é a melhor maneira de conhecer a poesia, li-as em voz alta e gravei-as com o Vasco Pimentel em 1995, há 15 anos, para a extinta Comissão dos Descobrimentos Portugueses. Não se encontra já essa edição que tinha uma capa da Cristina Reis. É essa mesma gravação, uma das que mais gosto de entre todas as que fiz, que aqui se reedita.».
Assim começa a nota de Luís Miguel Cintra para a reedição, com chancela Presente, das primeiras dez Canções saídas do punho do maior vate de língua portuguesa. E como, muito apropriadamente, refere o actor, «ler [e ouvir] em voz alta é a melhor maneira de conhecer a poesia», este 10 de Junho afigura-se um excelente pretexto para aqui apresentarmos as três primeiras, em jeito de acepipe ao manjar mais substancial que o conjunto das demais constitui.
Intercalando esses três poemas, magistralmente ditos por Luís Miguel Cintra, deixamos as outras tantas redondilhas que José Afonso musicou e cantou para edição discográfica. Serve também de homenagem ao autor de "Cantares do Andarilho", agora que se assinalam os trinta anos do seu desaparecimento.

E o que fez a rádio pública em celebração de Luís de Camões neste dia que lhe é consagrado? Quase nada! E dizemos "quase" e não simplesmente "nada" porque David Ferreira teve o cuidado de abrir o seu programa alargado de hoje, "David Ferreira a Contar... Consigo" [>> RTP-Play] com a reposição de uma rubrica emitida há quatro anos, contendo excertos dos três poemas camonianos (uma cantiga em redondilha e dois sonetos) que Amália primeiramente gravou, mais "Endechas a Bárbara Escrava" por José Afonso.
Era assim tão trabalhoso pegar numa quinzena de poemas de Camões (uns ditos/recitados e outros cantados) e transmiti-los ao longo do dia, ao ritmo de um por hora? O esforço seria pouco mas ficar de braços cruzados sempre dá menos trabalho. Mas é para termos uma rádio mandriona que somos desembolsados, a cada mês que passa, de 2,85 euros?



CANÇÃO I



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953; Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Fermosa e gentil Dama, quando vejo
a testa de ouro e neve, o lindo aspeito,
a boca graciosa, o riso honesto,
o marmóreo colo e branco peito,
de meu não quero mais que meu desejo,
nem mais de vós que ver tão lindo gesto.
Ali me manifesto
por vosso a Deus e ao mundo; ali me inflamo
nas lágrimas que choro;
e de mim, que vos amo,
em ver que soube amar-vos, me namoro;
e fico por mim só perdido, de arte
que hei ciúmes de mim por vossa parte.

Se porventura vivo descontente
por fraqueza de esprito, padecendo
a doce pena que entender não sei,
fujo de mim e acolho-me, correndo,
à vossa vista; e fico tão contente
que zombo dos tormentos que passei.
De quem me queixarei
se vós me dais a vida deste jeito
nos males que padeço,
senão de meu sujeito,
que não cabe com bem de tanto preço?
Mas ainda isso de mim cuidar não posso,
de estar muito soberbo com ser vosso.

Se, por algum acerto, Amor vos erra,
por parte do desejo cometendo
algum nefando e torpe desatino;
se ainda mais que ver, enfim, pretendo;
fraquezas são do corpo, que é de terra,
mas não do pensamento, que é divino.
Se tão alto imagino
que de vista me perco — peco nisto —,
desculpa-me o que vejo;
que se, enfim, resisto
contra tão atrevido e vão desejo,
faço-me forte em vossa vista pura,
e armo-me de vossa fermosura.

Das delicadas sobrancelhas pretas
os arcos, com que fere, Amor tomou,
e fez a linda corda dos cabelos;
e, porque de vós tudo lhe quadrou,
dos raios desses olhos fez as setas
com que fere quem alça os seus, a vê-los.
Olhos, que são tão belos,
dão armas de vantagem ao Amor,
com que as almas destrui;
porém, se é grande a dor,
co a alteza do mal a restitui;
e as armas com que mata são de sorte
que ainda lhe ficais devendo a morte.

Lágrimas e suspiros, pensamentos,
quem deles se queixar, fermosa Dama,
mimoso está do mal que por vós sente.
Que maior bem deseja quem vos ama
que estar desabafando seus tormentos,
chorando, imaginando docemente?
Quem vive descontente
não há-de dar alívio a seu desgosto,
por que se lhe agradeça;
mas com alegre rosto
sofra seus males, para que os mereça;
que quem do mal se queixa, que padece,
fá-lo porque esta glória não conhece.

De modo que, se cai o pensamento
em algũa fraqueza, de contente
é porque este segredo não conheço:
assi que com razões, não tão-somente
desculpo ao Amor de meu tormento,
mas ainda a culpa sua lhe agradeço.
Por esta fé mereço
a graça, que esses olhos acompanha,
o bem do doce riso;
mas, porém, não se ganha
cum paraíso outro paraíso.
E assi, de enleada, a esperança
se satisfaz co bem que não alcança.

Se com razões escuso meu remédio,
sabe, Canção, que, porque não vejo,
engano com palavras o desejo.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Na Fonte Está Lianor



Poema: Luís de Camões (cantiga em redondilha maior) (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Baladas e Canções", Ofir/Discoteca Santo António, 1964, reed. EMI-VC, 1997, EMI, 2012)




Na fonte está Lianor
lavando a talha e chorando, [3x]
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor? [3x]

[instrumental / vocalizos]

Nisto estava Lianor
o seu desejo enganando, [3x]
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor? [3x]

[instrumental / vocalizos]

O rosto sobre ũa mão,
os olhos no chão pregados, [3x]
que, de chorar já cansados,
algum descanso lhe dão. [3x]

[instrumental / vocalizos]

Na fonte está Lianor
lavando a talha e chorando, [3x]
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor? [3x]

[instrumental / vocalizos]


* José Afonso – voz
Rui Pato – viola
Gravado nos Estúdios da RTP, Monte da Virgem - Vila Nova de Gaia
Remasterização e restauro digital – Paulo Jorge Ferreira



Na fonte está Lianor

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Domingos Fernandes, Lisboa, 1616; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 812-813)


          MOTE ALHEIO

Na fonte está Lianor
lavando a talha e chorando,
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor?

          VOLTAS

Posto o pensamento nele,
porque a tudo o amor obriga,
cantava, mas a cantiga
eram suspiros por ele.
Nisto estava Lianor
o seu desejo enganando,
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor?

O rosto sobre ũa mão,
os olhos no chão pregados,
que, de chorar já cansados,
algum descanso lhe dão.
Desta sorte Lianor
suspende de quando em quando
sua dor; e, em si tornando,
mais pesada sente a dor.

Não deita dos olhos água,
que não quer que a dor se abrande
amor, porque, em mágoa grande,
seca as lágrimas a mágoa.
Despois que de seu amor
soube, novas perguntando,
de improviso a vi chorando.
Olhai que extremos de dor!



CANÇÃO II



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953; Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




A instabilidade da Fortuna,
os enganos suaves de Amor cego,
— suaves, se duraram longamente —,
direi, por dar à vida algum sossego;
que pois a grave pena me importuna,
importune meu canto a toda a gente.
E se o passado bem co mal presente
me endurece a voz no peito frio,
o grande desvario
dará de minha pena sinal certo;
que um erro, em tantos erros, é concerto.
E pois nesta verdade me confio
— se verdade se achar no mal que digo —,
saiba o mundo de Amor o desconcerto,
que já co a Razão se fez amigo,
só por não deixar culpa sem castigo.

Já Amor fez leis, sem ter comigo algũa;
já se tornou, de cego, arrazoado,
só por usar comigo sem-razões.
E se em algũa cousa o tenho errado,
com siso grande dor não vi nenhũa,
nem ele deu sem erros afeições.
Mas, por usar de suas isenções,
buscou fingidas causas por matar-me;
que, para derrubar-me
no abismo infernal de meu tormento,
não foi soberbo nunca o pensamento,
nem pretende mais alto alevantar-me
daquilo que ele quis; e se ele ordena
que eu pague seu ousado atrevimento,
saiba que o mesmo Amor, que me condena,
me fez cair na culpa e mais na pena.

Os olhos que eu adoro, aquele dia
que desceram ao baixo pensamento,
n'alma os aposentei suavemente;
e pretendendo mais, como avarento,
o coração lhe dei por iguaria,
que a meu mandado tinha obediente.
Porém, como ante si lhe foi presente
que entenderam o fim de meu desejo,
ou por outro despejo,
que a língua descobriu por desvario,
de sede morto estou posto num rio,
onde de meu serviço o fruto vejo;
mas logo se alça, se a colhê-lo venho,
e foge-me a água, se beber porfio.
Assi que em fome e sede me mantenho:
não tem Tântalo a pena que eu sustenho.

Despois que aquela em quem minh'alma vive
quis alcançar o baixo atrevimento,
debaixo deste engano a alcancei:
a nuvem do contino pensamento
ma afigurou nos braços, e assi a tive,
sonhando o que acordado desejei.
Porque a meu desejo me gabei
de alcançar um bem de tanto preço,
além do que padeço,
atado em ũa roda estou penando,
que em mil mudanças me anda rodeando,
onde, se a algum bem subo, logo deço.
E assi ganho e perco a confiança;
e assi de mi fugindo, trás mi ando;
e assi me tem atado ũa vingança,
como Ixião, tão firme na mudança.

Quando a vista suave e inumana
meu humano desejo, de atrevido,
cometeu, sem saber o que fazia,
(que de sua beleza foi nacido,
o cego Moço que, co a seta insana,
o pecado vingou desta ousadia),
e afora este mal que eu merecia,
me deu outra maneira de tormento:
que nunca o pensamento,
que sempre voa dũa a outra parte,
destas entranhas tristes não se farte,
imaginando sobre o famulento,
quanto mais come, mais está crecendo,
por que de atormentar-me não se aparte;
assi que para a pena estou vivendo,
sou outro novo Tício, e não me entendo.

De vontades alheias, que roubava,
e que enganosamente recolhia
em meu fingido peito, me mantinha.
De maneira o engano lhe fingia
que, depois que a meu mando as sojugava,
com amor as matava, que eu não tinha.
Porém, logo o castigo que convinha
o vingativo Amor me fez sentir,
fazendo-me subir
ao monte da aspereza que em vós vejo,
co pesado penedo do desejo,
que do cume do bem me vai cair.
Torno a subi-lo ao desejado assento;
torna a cair-me; embalde, enfim, pelejo.
Não te espantes, Sísifo, deste alento,
que às costas o subi do sofrimento.

Dest'arte o sumo bem se me oferece
ao faminto desejo, por que sinta
a perda de perdê-lo mais penosa.
Como o avaro a quem o sonho pinta
achar tesouro grande, onde enriquece
e farta sua sede cobiçosa
e, acordando, com fúria pressurosa
vai cavar o lugar onde sonhava,
mas tudo o que buscava
lhe converte em carvão a desventura;
ali sua cobiça mais se apura,
por lhe faltar aquilo que esperava;
dest'arte Amor me faz perder o siso.
Porque aqueles, que estão na noite escura,
nunca sentirão tanto o triste abiso,
se ignorarem o bem do Paraíso.

Canção, nõ mais, que já não sei que digo;
mas por que a dor me seja menos forte,
diga o pregão a causa desta morte.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Endechas a Bárbara Escrava



Poema (endechas em redondilha menor): Luís de Camões (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968, ree. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012)




Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.


* José Afonso – voz
Rui Pato – viola
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1968
Técnico de som – Moreno Pinto
Remasterização (edição de 2012) – António Pinheiro da Silva



Endechas a Bárbara Escrava

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 770-771)


          Endechas a ũa cativa
          com quem andava d'amores na Índia,
          chamada Bárbara.

Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

Ũa graça viva,
que neles lhe mora,
pera ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.



CANÇÃO III



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953; Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Já a roxa manhã clara
do Oriente as portas vem abrindo,
dos montes descobrindo
a negra escuridão da luz avara.
O Sol, que nunca pára,
de sua alegre vista saudoso,
trás ela, pressuroso,
nos cavalos cansados do trabalho,
que respiram nas ervas fresco orvalho,
se estende, claro, alegre e luminoso.
Os pássaros, voando
de raminho em raminho modulando,
com ũa suave e doce melodia
o claro dia estão manifestando.

A manhã bela e amena,
seu rosto descobrindo, a espessura
se cobre de verdura,
branda, suave, angélica, serena.
Oh, deleitosa pena!
Oh, efeito de Amor tão preeminente!
Que permite e consente
que onde quer que me ache, e onde esteja,
o seráfico gesto sempre veja,
por quem de viver triste sou contente!
Mas tu, Aurora pura,
de tanto bem dá graças à ventura,
pois as foi pôr em ti tão diferentes,
que representes tanta fermosura.

A luz suave e leda
a meus olhos me mostra por quem mouro,
e os cabelos de ouro
não igual aos que vi, mas arremeda:
esta é a luz que arreda
a negra escuridão do sentimento
ao doce pensamento;
o orvalho das flores delicadas
são nos meus olhos lágrimas cansadas,
que eu choro co prazer de meu tormento;
os pássaros que cantam
os meus espritos são, que a voz levantam,
manifestando o gesto peregrino
com tão divino som que o mundo espantam.

Assim como acontece
a quem a cara vida está perdendo,
que, enquanto vai morrendo,
algũa visão santa lhe aparece;
a mim, em quem falece
a vida, que sois vós, minha Senhora,
a esta alma que em vós mora
(enquanto da prisão se está apartando)
vos estais juntamente apresentando
em forma da fermosa e roxa Aurora.
Oh, ditosa partida!
Oh, glória soberana, alta e subida!
Se mo não impedir o meu desejo;
porque o que vejo, enfim, me torna a vida.

Porém, a Natureza,
que nesta vista pura se mantinha,
me falta tão asinha,
quão asinha o sol falta à redondeza.
Se houverdes que é fraqueza
morrer em tão penoso e triste estado,
Amor será culpado,
ou vós, onde ele vive tão isento,
que causastes tão longo apartamento,
porque perdesse a vida co cuidado.
Que se viver não posso,
(um homem sou só, de carne e osso),
esta vida que perco, Amor ma deu;
que não sou meu: se mouro, o dano é vosso.

Canção de cisne, feita na hora extrema:
na dura pedra fria
da memória te deixo, em companhia
do letreiro de minha sepultura;
que a sombra escura
já me impede o dia.


* Gravado por Vasco Pimentel, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Verdes São os Campos



Poema: Luís de Camões (cantiga em redondilha menor) (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Traz Outro Amigo Também", Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012)




[instrumental]

Verdes são os campos,
da cor de limão:
assim são os olhos
do meu coração.

Campo, que te estendes
com verdura bela;
ovelhas, que nela
vosso pasto tendes,
de ervas vos mantendes
que traz o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.

Isso que comeis
não são ervas, não:
são graças dos olhos
do meu coração;
de ervas vos mantendes
que traz o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.

Verdes são os campos,
da cor de limão:
assim são os olhos
do meu coração.

Campo, que te estendes
com verdura bela;
ovelhas, que nela
vosso pasto tendes,
de ervas vos mantendes
que traz o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.

Isso que comeis
não são ervas, não:
são graças dos olhos
do meu coração.


* José Afonso – voz
Carlos Correia (Bóris) – viola
Luís Filipe Sousa Colaço – 2.ª viola
Gravado nos Estúdios Pye Records, Londres, em 1970
Remasterização (edição de 2012) – António Pinheiro da Silva



Verdes são os campos

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Estêvão Lopes, Lisboa, 1598; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 807-808)


          MOTE ALHEIO

Verdes são os campos,
de cor de limão:
assi são os olhos
do meu coração.

          VOLTAS

Campo, que te estendes
com verdura bela;
ovelhas, que nela
vosso pasto tendes,
d'ervas vos mantendes
que traz o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.

Gados, que pasceis,
co contentamento
vosso mantimento
não no entendeis:
isso que comeis
não são ervas, não:
são graças dos olhos
do meu coração.



Capa da primeira edição das "Rimas", de Luís de Camões, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita (Lisboa, 1595)



Capa do CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra" (Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995)
Concepção por Cristina Reis

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01 junho 2017

Júlio Pereira com Sara Tavares: "Os Ponteirinhos"



Assinalamos este Dia Mundial da Criança apresentando a belíssima canção "Os Ponteirinhos", por Júlio Pereira com Sara Tavares, retirada do álbum "Faz de Conta" (2003). É apenas um exemplo entre o muito repertório de excelente qualidade (cantigas, músicas instrumentais, poemas ditos e histórias contadas) que até hoje se gravou em Portugal [cf. "A infância e a música portuguesa"], mas que – e infelizmente – perde em visibilidade (ou audibilidade, melhor dizendo) para a abundante ganga que se produz (e propagandeia nas televisões) para consumo do público infantil.
Nesse esforço de divulgação do que de melhor existe, a estação pública podia (e devia) desempenhar um papel fulcral, mas só a 19 de Setembro de 2016 é que surgiu uma rádio online vocacionada para as crianças, chamada ZigZag.
Porém, não chega! É importante que haja no espaço hertziano um programa regular – diário ou semanal – que dê às crianças que não têm internet em casa a oportunidade de ouvirem as histórias, os poemas, as cantigas e as peças instrumentais que artistas de mérito gravaram especialmente para elas. E qual a rádio mais indicada para acolher esse programa? A Antena 3, evidentemente!



Os Ponteirinhos



Letra e música: Júlio Pereira
Intérprete: Júlio Pereira* com Sara Tavares (in CD "Faz de Conta", EMI-VC, 2003)


[instrumental]

Tic-tac, tic-tac,
Martelinhos maneirinhos.
Tic-tac, tic-tic-tac,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos.

Diz "bom dia!" ao tic-tac!
Abre os olhos fechadinhos!
Vai p'rá escola! Tic-tac,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos. [bis]

[instrumental / vocalizos]

Boa tarde, tic-tac!
Vai brincar aos adivinhos!
E cansados, cansadinhos,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos.

[instrumental / vocalizos]

Boa noite, tic-tac!
Vai sonhar com os moinhos!
Lá no escuro, tic-tac,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos. [bis]

Tic-tac, vão dançando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos.

[instrumental / vocalizos]


* Júlio Pereira – instrumentação e voz
Convidada especial:
Sara Tavares – voz
Participação especial de:
Simão e Julinha – vozes
Conceito original e produção – Júlio Pereira
Assistente de produção – João Luís Oliva
Programação, sintetizadores, mistura e masterização – Quico Serrano
Gravado e misturado em 2002



Capa do CD "Faz de Conta", de Júlio Pereira (EMI-VC, 2003).


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