25 Novembro 2008

'Playlist' da Antena 1: uma vergonha nacional

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro de Portugal,
Exmo. Senhor Presidente do Conselho de Administração da Rádio e Televisão de Portugal,
Exmo. Senhor Provedor do Ouvinte,

A programação musical de uma estação de rádio, ainda que com uma forte componente informativa, como é o caso da Antena 1 da RDP, é sempre um factor de primordial importância para a qualidade genérica do serviço que se pretende prestar. Ora quem se der ao trabalho de ligar para o principal canal generalista da rádio pública, rapidamente se apercebe da muito baixa qualidade, em termos gerais, da música que preenche os espaços de continuidade, vulgo 'playlist'. Digo mais: a 'playlist' actualmente em vigor na Antena 1 é tão má e intragável que a expressão popular "abaixo de cão" se lhe pode aplicar com toda a justeza e propriedade. E para não ser acusado de uma apreciação vaga e subjectiva, passo a fundamentar a minha asserção. Em primeiro lugar, começo por abordar o insustentável desequilíbrio que a 'playlist' evidencia no tocante à representatividade de diversos géneros musicais. Senão vejamos: mais e mais pop, a maior parte da qual de baixa extracção, e uma presença muito discreta e bastante rarefeita dos grandes autores/compositores/intérpretes. E absolutamente nada de música tradicional/folk e de fado e também muito pouca coisa de música latina (além de alguns intérpretes brasileiros). De facto, nomes tão importantes da música popular portuguesa como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, Carlos Paredes, Fausto Bordalo Dias, Vitorino, Janita Salomé, Teresa Silva Carvalho, Pedro Barroso, Paco Bandeira, Madredeus, Amélia Muge, Filipa Pais... não estão representados, ou então passam tão esporadicamente que se torna tão difícil dar por eles como encontrar uma agulha num palheiro. No caso da música de matriz tradicional, grupos tão referenciais como Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, Vai de Roda, Raízes, Maio Moço e Navegante estão de todo ausentes. E a situação não é diferente para os grupos (e intérpretes solistas) da nova e florescente folk portuguesa – Frei Fado d’El Rei, Gaiteiros de Lisboa, Realejo, Danças Ocultas, Diabo a Sete, Chuchurumel, Mandrágora, Dazkarieh, Mu, At-Tambur, Roldana Folk, Lúmen, Roda Pé, Pé na Terra, Origem, Fol&ar, Roncos do Diabo, Ventos da Líria, Monte Lunai, Arco da Velha, Nem Truz Nem Muz, Moçoilas, Segue-me à Capela, Manuel d’Oliveira, etc. (muitos outros exemplos podem ser vistos e ouvidos através da página dos Amigos do LUGAR AO SUL no My Space:
http://www.myspace.com/lugaraosul). O fado também não foge à regra: se nomes tão superlativos como Amália Rodrigues, Maria Teresa de Noronha, Lucília do Carmo, António dos Santos ou Luiz Goes estão completamente banidos, pouco melhor tratamento é dado à geração actual, de cujos intérpretes apenas são passados dois ou três temas durante a semana em que se dá o lançamento de discos. Depois disso são rapidamente descartados e atirados para o baú das coisas inúteis. E porquê? Porque destoam da omnipresente e hegemónica pop, a maior parte da qual, como já disse atrás, é absolutamente intragável. E como se isto não bastasse é por demais notório o favorecimento que alguns nomes da pop nacional recebem (porquê?), a ponto de passarem todos os dias, não sendo raro rodarem duas ou mais vezes num período de 24 horas – Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa, Rui Reininho/GNR, Luís Represas, Xutos & Pontapés, Filarmónica Gil, Santos e Pecadores, Beto, Mesa, Clã, Pólo Norte, Delfins, André Sardet, João Pedro Pais, Pedro Khima, Pedro Miguéis, Adelaide Ferreira, Rita Guerra, Margarida Pinto, Sandra Fidalgo, Susana Félix, Diana Basto, Lúcia Moniz, Ritual Tejo, Pedro e os Apóstolos, Classificados, Perfume, Cool Hipnoise, Blackout, Black Company, Da Weasel, David Fonseca, Silence 4, Rita Redshoes, Ana Free, The Gift, Fingertips, Hands on Aproach, ZZ Special, etc. A estes (todos nacionais, embora alguns, como os nomes deixam adivinhar, não façam música portuguesa) há que juntar "coisas imperdíveis" da pop internacional como Shakira, Anastacia, Mariah Carey, Alicia Keys, Melanie C, Kylie Minogue, Robbie Williams, James Blunt, Seal, Eros Ramazzotti, Alejandro Sanz, Jennifer Lopez, Christina Aguilera, Ricky Martin, Maroon 5, Keane, Brandi Carlile, Colbie Caillat, Leona Lewis, James Morrison (não confundir com o vocalista dos Doors, James Douglas Morrison, mais conhecido por Jim Morrison), e muitos outros nomes do 'mainstream' comercial, de tal modo que eu às vezes fico na dúvida se estou a ouvir a Antena 1 ou se uma rádio subsidiária do canal televisivo MTV. Bem, pelos nomes citados, dá bem para perceber qual a música que predomina na rádio pública e também a que é deliberadamente marginalizada e silenciada. Em face disto, uma pergunta se impõe: será aceitável que os dois géneros musicais mais idiossincraticamente portugueses – a música popular (tradicional e de autor) e o fado – tenham o tratamento indigno e perfeitamente criminoso que estão a receber precisamente na rádio do Estado Português? Quantos ouvintes/contribuintes apreciadores desses géneros (e não são tão poucos quanto alguma gente nos quer fazer crer) estão a ver frustradas as suas legítimas expectativas relativamente ao serviço facultado pela emissora que eles financiam? Já sei que o director de programas, Rui Pêgo, vai dizer que esses géneros estão bem representados nas rubricas "Alma Lusa" e "Cantos da Casa". Mas estarão, em boa verdade? Qual é efectivamente o peso em termos percentuais de tempo de antena que ambos os géneros têm na programação geral? O fado, por acaso, tem desde Setembro de 2007 uma edição alargada (depois da meia-noite de domingo), mas isso não é razão para que o género não figure nos alinhamentos de continuidade. Mas a situação é ainda pior no que respeita à música tradicional (ou de inspiração tradicional), encafuada que está num minúsculo apontamento de 4 a 5 minutos por dia (imediatamente antes das 15:00). Será isto uma maneira digna de tratar essa importante vertente da nossa música? Façamos este exercício: meta-se o fado, a música tradicional e a música latina na 'playlist' e enfie-se a pop numa exígua rubrica ao género das outras. Aí Rui Pêgo também diria que a música pop estava bem representada? Haja seriedade e não se brinque com a inteligência dos ouvintes, por favor!
E quanto à música instrumental, não erudita, quer portuguesa quer estrangeira, como se explica a sua total ausência da famigerada 'playlist'? No caso da música endógena, será razoável e eticamente aceitável que nomes tão importantes como Carlos Paredes, Pedro Caldeira Cabral, Júlio Pereira, Rão Kyao, António Pinho Vargas, Edgar Nogueira e José Peixoto não se possam ouvir na rádio estatal? E relativamente a instrumentistas e grupos mais recentes como Mário Pacheco, Custódio Castelo, Ricardo Rocha, Ricardo Parreira, Pedro Jóia, Joel Xavier, Realejo, Danças Ocultas e Mandrágora, entre outros, será também admissível que estejam arredados?
Mesmo sem a música tradicional, o fado e a música instrumental, opção que enquanto ouvinte/contribuinte jamais aceitarei, ainda assim julgo que a 'playlist' podia ser muito melhor, pois no domínio do pop/rock há muita e boa música, sobretudo de origem anglo-americana. Mas como não é essa a que é escolhida (tirando um ou outro caso pontual: Katie Melua...), deve inferir-se que a miserável 'playlist' da Antena 1 reflecte as preferências e as predilecções musicais do seu editor, Ricardo Soares (aliás, não muito diferentes das do seu antecessor, Rui Santos). Na verdade, tal indivíduo, além de revelar uma estreita e limitada mundividência musical a ponto de só ter olhos para a pop, mostra ter ainda um estranha e insólita inclinação pelo que de mais reles e medíocre existe dentro do género. Abro aqui um parêntesis: é evidente que se Ricardo Soares não fosse o editor da 'playlist' da estação pública eu estaria a marimbar-me para os seus gostos pessoais (que lhe fizessem bom proveito!), mas estando em causa a qualidade e a diversidade da oferta musical da rádio para a qual me cobram, na factura da electricidade, uma taxa obrigatória (20.52 euros por ano + IVA), a que acrescem ainda outras verbas provenientes dos meus impostos (na dotação anual do Orçamento Geral do Estado), cumpre-me dizer de minha justiça. E como um mal nunca vem só, à apetência de Ricardo Soares pelo lixo musical junta-se ainda outra circunstância de peso e não menos preocupante. Refiro-me à escandalosa e insustentável permeabilidade de Rui Pêgo às estratégias comerciais do 'lobby' da indústria discográfica e à pressão de determinados agentes de 'management', os quais tudo fazem para que os artistas que representam passem com frequência e de preferência nos picos de audiência. Não é certamente por acaso que os temas promocionais dos novos discos (dos nomes mais vendáveis, evidentemente) que se ouvem na Antena 1 são exactamente os mesmos que rodam na RFM e na Rádio Comercial (dois exemplos perfeitos de estações ao serviço das multinacionais do disco) e também nas telenovelas da TVI (canal de televisão que, como se sabe, pertence ao mesmo grupo da editora Farol). Infere-se, portanto, que os responsáveis pela 'playlist' da estatal e pública Antena 1 assinam de cruz, e de olhos fechados, tudo aquilo que os departamentos comerciais das editoras mais preponderantes decidiram de antemão que é para passar nas rádios (e televisões). Mas terá sido para isso que foi criado o serviço público? E já que falei de editoras preponderantes, averigúe-se a que chancelas pertence o grosso da "música" que passa na Antena 1 (e já agora, também na Antena 3) e facilmente se concluirá que mais de 80 % do bolo está nas mãos destas quatro: EMI, Universal, Sony/BMG, Farol. Alguém mais ingénuo poderá pensar que isso é natural porque aquelas editoras são as que representam mais artistas e as que têm os catálogos mais extensos. Admito que isso seja verdade para a música pop/rock anglo-americana, mas não o é de todo para a música portuguesa. De facto, é à Valentim de Carvalho (já separada da EMI) e à Movieplay que pertencem os maiores e melhores acervos de música portuguesa. Mas por estranho que pareça tal realidade não se reflecte na 'playlist' da Antena 1, nos 60 % (serão mesmo?) de música portuguesa que ela está obrigada a passar, por determinação legislativa. Tal dever-se-á ao facto dessas casas não terem o mesmo poder de influência das multinacionais? A resposta não suscita dúvidas. Atente-se na seguinte afirmação: «Precisam de quotas boas para passar a música estrangeira, porque ela faz parte do 'package' que está pago nas avenças de promoção...». O quê? Quer isto dizer que a RDP (ou alguém por ela) recebe dinheiro de editoras para promover determinados artistas? A ser verdade, e não tenho razões para duvidar da fonte que me facultou a informação, isto é gravíssimo e deve ser publicamente denunciado. E gravíssimo porquê? Por três ordens de razões: primeira, a rádio pública não pode jogar em dois tabuleiros: ou se financia com o dinheiro dos contribuintes ou junto do mercado, cujos interesses e objectivos, como é bom de ver, nada têm a ver com o serviço público; segunda, porque ao enredar-se nessa promiscuidade, a rádio estatal está a fazer concorrência desleal às rádios privadas, roubando-lhes uma parte (não desprezível) do seu sustento; terceira, por ferir de morte o princípio da igualdade de oportunidades de acesso dos diversos artistas portugueses ao espaço público hertziano que, como se sabe, é um bem escasso e limitado. Escusado será dizer que às grandes editoras apenas lhes interessa promover os artistas que à partida lhes garantam certos patamares de lucro em face das expectativas dos accionistas (aliás, perfeitamente legítimas, caso contrário não teriam comprado as acções). E é aqui que assume particular importância a existência do serviço público de rádio (e de televisão) justamente para dar voz e visibilidade à música de qualidade que é importante que seja conhecida mas que não vende aos milhões, corrigindo-se ou atenuando-se desse modo as distorções do mercado. Caso contrário, ou seja, se a estação pública se limita a navegar nas ondas do mercado, falha rotundamente a sua missão e aí terá de se questionar o financiamento público. Adquire ainda mais pertinência o que acabo de dizer se atentarmos noutro aspecto importantíssimo: a melhor música portuguesa que vem sendo editada nos últimos anos já não provém das 'majors' mas antes de editoras independentes e de edições de autor. Eu pergunto: na 'playlist' da Antena 1, quantos artistas/discos há de pequenas editoras, as quais, apesar das dificuldades e adversidades, ainda apostam na música portuguesa de qualidade – Vachier & Associados, Ovação, Ocarina, HM Música, Açor/Emiliano Toste, Tradisom, Hepta Trad, etc.? E onde estão as edições de autor, que são cada vez em maior número? Faça-se uma monitorização à 'playlist' e facilmente se comprovará o que acabei de enunciar. Consequência de tudo isto: a música portuguesa mais qualificada e de maior valia é, sem margem para dúvidas, a que está a ser mais seriamente prejudicada com o lastimável estado de coisas a que chegou a Antena 1, circunstância que sai agudizada em virtude de as estações comerciais também não lhe darem grande divulgação, pela contingência de dependerem do mercado publicitário, e das tais avenças com as discográficas. Em todo o caso, é justo que se diga que a 'playlist' da Rádio Renascença, com os seus inevitáveis condicionalismos de natureza comercial, consegue ser, neste momento, bem melhor que a da Antena 1. Isto dá que pensar!
Eu falo enquanto ouvinte, mas é bom não esquecer os muitos artistas portugueses que estão a sofrer na pele o ostracismo a que são votados pela emissora do Estado (para a qual também eles contribuem, convém lembrar). Não é difícil deduzir que a falta de visibilidade mediática acaba por se repercutir numa acentuada diminuição de discos vendidos e, sobretudo, num drástico decréscimo de convites para a realização de concertos. Já lá diz a sabedoria popular: «Quem não aparece, esquece!». Realize-se um inquérito junto dos nomes mais representativos e conceituados do nosso meio musical indagando em que pé estão as suas agendas de concertos, e facilmente se constatará a situação periclitante em que muitos deles se encontram (a alguns já só resta, para sobreviverem, a magra espórtula que, de tempos a tempos, recebem da SPA). E se isso acontece com nomes que créditos firmados mas completamente marginalizados pela rádio e televisão, o que dizer dos intérpretes (cantores, instrumentistas, grupos) em início de carreira, que por honestidade intelectual e coerência artística, não querem pactuar com a mediocridade reinante e se recusam a vogar ao sabor das correntes dominantes em cada momento? O que tem feito a Antena 1, nos últimos anos, em prol de todos esses artistas? Bem, eu falei dos vivos mas não se deverá olvidar os que já não se encontram entre nós. Neste caso, não por questões materiais (obviamente), mas pela importância da preservação da memória cultural que, como se sabe, é, juntamente com a língua, o principal factor da identidade nacional. E, neste aspecto, terá de se dizer que a atitude dos responsáveis pela 'playlist' tem sido absolutamente indigna e criminosa (por ironia do destino, na mesmíssima rádio que tem um 'slogan' que diz "Antena 1: uma rádio com memória!").
Interpelado com estas questões, calculo que Rui Pêgo vá alegar qualquer coisa do género: "A rádio pública tem de acompanhar as tendências do mercado". Ora eu pergunto-lhe: é o mercado que lhe paga os 8500€ (1.700 contos) mensais de vencimento? Não: esse dinheirinho e ainda o que é gasto noutras mordomias não tributadas (automóvel da empresa, cartões de crédito, saldo de telemóvel, viagens de avião e estadias em hotéis, etc.) provém dos bolsos dos ouvintes/contribuintes, mas pelos vistos não é a esses que o actual director de programas está interessado em servir. Apenas e só ao mercado!... Escusado será dizer que quem assim pensa e age está no sítio errado, e em face disso a administração da Rádio e Televisão de Portugal e o poder político deverão tirar as devidas ilações.
Concluindo: em virtude da escassez e/ou exiguidade de espaços musicais de autor na grelha da Antena 1, dedicados aos géneros de música portuguesa fora do domínio da pop, a questão fulcral da 'playlist' pelo peso avassalador que tem no cômputo geral da emissão, reclama a urgente atenção de quem tem por competência a avaliação e fiscalização do serviço público de rádio.
Com os mais respeitosos cumprimentos,


Álvaro José Ferreira

16 comentários:

lajense disse...

Concordo em absoluto com o exposto e a argumentação. Infelizmente essa matriz musical da Antena 1 é fotocopiada pela Antena 1 Açores e não sei se outras regionais.
São os radialistas a venderem veladamente os êxitos das grandes editores em repetições excessivas que acabam por transformar cançonetas medíocre em produtos musicais de grande rendibiliade.
Mas não há quem ponha côbro a isto?

Palmeiros disse...

Subscrevo o texto e pergunto-me:

Porquê que o CD Modas i Anzonas de Galandum Galundaina (considerado pela crítica um dos melhores discos do ano de 2005) não passa regularmente na Antena 1?
Paulo Meirinhos
Galandum Galundaina

Mr_mac disse...

Concordo completamente com a sua opinião!!

Só acrescentava um grupo que considero como um fenómeno neste momento: Deolinda!! Penso que seria de bom tom ouvir mais vezes nas rádios portuguesas em geral, que embora já tenho ouvido algumas vezes, penso que o álbum deste agrupamento musical não se constitui só de uma composição apenas, mas sim de algumas faixas interessantes e que pegam nas nossas raízes... o fado! Este agrupamento foi referenciado por o tão conhecido Nuno Markl, ao falar de uma das composições dos Deolinda como um Hino Nacional, já que representa muito bem o espírito actual dos portugueses... Faixa 6 - Movimento Perpétuo Associativo!!

Um abraço!!

Tiago Soares disse...

Obrigado pelos argumentos Álvaro.
Achava por bem, reunirmos o máximo de músicos possivel e levarmos a nossa indignação (juntamente com os nossos instrumentos) à porta da sede da RTP. Faziamo-nos ouvir pela presença fisica e musical.
Fica a sugestão.
Tiago Soares,
Pé na Terra.

Eduardo disse...

Muito bem observado.

Antena 1 uma rádio como outra qualquer. Sem serviço ao público, a não ser as notícias de futebol todas as meias horas da tarde.
Ainda bem que a TVI não produz audionovelas...

AE disse...

O texto reflecte, sem dúvidas, o pensamento e a voz silenciada de muitos e valorosos corações produtores que teimam em fazer coisas boas, boa música... e nada contra a outra... o que acontece é que parece haver de facto uma parte da capacidade produtiva deste país que está a ser jogada fora... depois queixamo-nos da crise... O PIB do sector da cultura, na Europa, tem mais importância absoluta, que a parte relativa ao sector da indústria automóvel... todos os países europeus parecem ver isto e proceder de acordo... todos? não... nós por cá ainda não percebemos este facto simples... a produção, a riqueza económica não se vê só em batatas... (nada contra elas, claro...) vê-se na produção de bens e a cultura é um dos mais importantes bens produzidos nas sociedades europeias modernas! Se não sabem disso deveriam voltar à escola... as tais multinacionais sabem-no muito bem! Enfim, em jeito de sugestão e concordando com tudo, parece-me que se deveria ir mais longe, de uma forma mais abrangente, com um movimento de base, que não só de algumas estrelas, com um caderno de encargos preciso... os muitos e bons criadores que temos aguardam por um milagre... cá fico à espera, para o que for preciso!

Zpoluras disse...

é verdade!
nem mesmo o Vivá Música do Carvalheda foge à regra; são sempre os mesmos a ir lá. Aos Miosótis, por exemplo argumentou que não podiam ir por terem um som muito forte...

www.myspace.com/miosotismusic

Abraços e contem conosco

manueltava disse...

Tudo o que foi dito aqui é verdade e o passar dos anos não melhora esta situação. Basta transpor a fronteira e entrar na vizinha Espanha com o rádio ligado para rapidamente nos apercebermos de uma cultura que está bem presente em todos os media deste país: a cultura do próprio país!!! (Espanha,conceito geralmente associada à Andaluzia ou Estremadura, ou das região autónomas Galiza, País Basco, Catalunha, etc.)
Durante anos toquei durante as férias em Santiago de Compostela onde não raramente ouvia na rua estranhos sons vindos de algumas casas que eu identificava como...ZECA AFONSO, MADREDEUS, JÚLIO PEREIRA e outros que tais que hoje praticamente desapareceram das rádios portuguesas. Se calhar muitos já se esqueceram da enorme homenagem feita a Zeca Afonso na Galiza quando este faleceu e cá...umas notícias, algumas reportagens e pouco mais, uma VERGONHA!!Não sei se isto advém do facto de se associar alguns compositores a uma determinada cor política, eu que sou ferozmente "apolítico" afirmo: Que enorme mediocridade esquecer um valor imortal como Zeca Afonso que é autor das mais belas composições populares portuguesas e que influenciou toda uma geração de músicos. O Zeca transcende a política e brilha alto no firmamento eterno de todas as músicas com raiz, corpo e alma.
Se uma rádio esquece um vulto imortal desta categoria de pouco vale caro Álvaro José Ferreira dar muitos mais exemplos apesar de agradecer o empenho e precisão do seu texto.
Já agora acrescentaria, visto que sou igualmente músico da área erudita, o total desinteresse demonstrado pela antena 1 e, por incrível que pareça, pela antena 2, por todos os concertos de grupos ou solistas portugueses ou por festivais e eventos nacionais ligados a esta área que não ocorram debaixo dos narizes deles em Lisboa (nomeadamente no nefasto CCB que teria dado para fazer 40 centros culturais por todo o país e poupava-se Lisboa à visão daquele asqueroso edifício tapando ou complicando a leitura dessa jóia nacional que é o Mosteiro dos Jerónimos) . Esta situação é inaceitável e revela uma macrocefalia que atinge extremos de um autismo provinciano e bacoco, sim provinciano porque muitos Lisboetas nem sabem onde fica Bragança, Castelo Branco ou Santa Maria da Feira, nem precisam visto que tudo lhes vai parar à porta, ou melhor, tudo que lhes passa à porta chega aos seu ouvidos devidamente divulgado, bem mastigado e repetido incontáveis vezes.
Esqueçam aqueles que me queiram colar a algum tipo de regionalismo igualmente bacoco, Portugal é pequeno demais para isso, é preciso fomentar a cultura nacional como um todo e para todos. Portugal tem 10 milhões de habitantes e só um quarto (2,5 milhões) vive na zona da grande Lisboa e o resto dos três quartos?
Esta também é uma missão da rádio pública, unir o país e informar o melhor possível acerca de todos os eventos culturais significativos ou mesmo marginais quando estes revelem manifesto interesse cultural. A rádio pública deve entrevistar, divulgar e passar a música de grupos e solistas nacionais. A rádio é do estado, paga por nós de forma obrigatória e é por isso que não depende em exclusivo de receitas privadas, é escandaloso que não tenha assim uma missão pedagógica e se aninhe perante interesses económicos. A maior parte das pessoas comem aquilo que lhes dão, muitas nunca ouviram uma guitarra clássica ou uma harpa ou um cravo, e muitas se tiverem essa oportunidade ficarão certamente maravilhadas independentemente da sua origem sócio-cultural. É por isso que a música é poderosa porque é transversal e tudo percorre e atravessa, Álvaro José Ferreira estou consigo de alma e coração e tudo farei para divulgar este blog e a sua mensagem.

Um bem haja!!


--
Manuel Tavares

www.myspace.com/voxchordae
www.myspace.com/concentusduo
www.myspace.com/cantusanonimus
www.myspace.com/trovasdamigo
http://www.youtube.com/user/CONCENTUSDUO
http://www.youtube.com/user/voxchordae

JO disse...

Cem por cento de acordo. Direi mesmo mais, duzentos por cento de acordo!
Quanto à música portuguesa que passa na Antena 1 - já não falo das outras que pura e simplesmente não passam, ou se são as locais passam música pimba - a qualidade musical dela é bastante execrável.
E o pior é que eles sabem. Mas neste momento são as editoras que mandam nas rádios, pagando a estas para passarem o que elas querem, criando assim supostos hits (sucessos) com o propósito de enganar o consumidor - o consumidor carneiro, claro - levando-o a adquirir esses bens musicais.
São sempre os Xutos, os GNR, o ranhoso do Abrunhosa que nem voz tem, os Gift, os Clã, os Mesa, o David Fonseca, o Sardet, e aquelas novas bandas de gajos e gajas que entram nas novelas e cujo unico requisito para gravar um album não é ter boa voz e saber de música mas sim ter boa aparência, e andar com as pernas e seios à mostra (chamam música portuguesa a isto? Só por serem pessoas de nacionalidade portuguesa que tocam? Vá lá que às vezes ainda apanho o Pedro Pais).
Sinceramente dúvido que este manifesto anti-entulho sonoro vá dar azo a alguma coisa, já que é o dinheiro que move esses senhores, não é de facto a cultura portuguesa na qual se estão manifestamente a borrifar, mas que haja alguem que se insurja contra este estado de degradação cultural e aviltamente da inteligência dos ouvintes, já é algo de positivo.
Abaixo o actual director de programas da Antena 1.

JO disse...

E só mais uma coisinha, basta entrar em Espanha - Galiza e Asturias principalmente, falo destas que são as regiões que conheço melhor - para vermos o tratamento que elas dão à sua própia cultura, à cutura do seu povo, das suas gentes.

Elaneobrigo disse...

Granda Critica...

Isso é que é falar... vergonha nacional.

É a radio, é a Televisão é tudo um pouco neste país...

Enquanto formos um país centralizado continuaremos a sofrer de miopia cultural e a sermos manipulados sempre pelos mesmos!

Defendo a musica tradicional Portuguesa porque é aquela que me identifico enquanto cidadão Português... e quando tenho oportunidade faço passar a mensagem da nossa musica Tradicional!

Porque infelismente é deste "passa a palavra" que os nossos artistas portugueses tem sobrevivido!

Apesar da Internet, a verdade é que ainda existe pouca consciencia e sensibilização nesta matéria!

O nosso serviço público deviria ser o primeiro a avançar e dar o exemplo.... mas são uma "cambada" de incapazes, ultrapassados e incompetentes!

Ainda não perceberam que o nosso poder de afirmação no mundo globalizado é precisamente a nossa cultura!?

Viva as radio locais.

Atinem!

A. Silveira disse...

Esta critica é simplesmente soberba e fiquei satisfeito por ainda existirem pessoas que se importam com as playlists das rádios em Portugal. De facto o que por nós é pago deveria merecer outro tratamento seja na rádio ou televisão, mas deste país não espero nada de bom a não ser a nossa orgulhosa viagem para o abismo. Sou um cobardolas pois deixei de ouvir rádio à muitos anos quando as playlists se implantaram em Portugal. A minha playlist quem a faz sou eu e não autorizo que mais ninguém decida o que eu ouço.

José Ignacio disse...

Eu preferia que não houvesse uma play list na rádio pública por não existirem "espaços de continuidade". Nem a RNE (www.rtve.es/radio) nem a COPE (www.cope.es) nem a Onda Cero (www.ondacero.es) nem a SER (www.cadenaser.com), nem Punto Radio nem BBC Radio 4, nem BBC Radio 5 Live, nem France Inter, nem France Info... têm essa coisa absurda dos "espaços de continuidade".

A Antena 1 devia era ter programas diversificados a pensar em todos os públicos.
Conseguem imaginar que a BBC Radio 4, a seguir a "The Archers", por exemplo, passasse duas horas de recheio musical avulso???

Rui disse...

Simplesmento digo:

Suscrevo integralmente!!

Rui Martins

António Caldeira disse...

Lendo com atenção todos os comentários consegui mais uma vez confirmar a visão que Portugal e os portugueses têm dos seus músicos:
Não trabalham, sabem pouco de música, são maus à sua maneira e todos são ódiozinhos de estimação.
Na verdade isto é válido tanto
para as editoras e rádios como para a própria "classe musical".
"Classe musical" posta entre parêntesis, pois não existe realmente, padecendo também do mal que atrás referi.
Tendo em conta este facto e juntando-o à promiscuidade entre editoras e comunicação social, preocupadas muito mais em fazer lucros e maribando-se para a nossa cultura e os nossos músicos, qual será a solução? Qual o caminho a seguir?
Julgo que não será com petições(embora reconheça que seja um bom inicio), que este eterno problema se irá resolver: só combatendo o "inimigo" no seu próprio terreno: As pequenas editoras têm de se juntar, corporativisando, assim como é necessária a criação de um sindicato dos músicos forte.
Estas duas entidades criarão grupos de influência, pressionando toda e qualquer comunicação social, combatento o actual 'status quo' e tentado aprovar junto do estado várias leis que protejam a nossa música e os nossos músicos:
Uma lei muito simples para evitar o monopólio: uma qualquer canção só poderá passar uma vez por dia na rádio e o máximo 4 vezes por semana; intrumentos musicais não são instrumentos de luxo e portanto não devem ser taxados como tal; distinção fiscal para músicos e técnicos do espectáculo; música estrangeira substancialmente mais cara que a portuguesa, boicote total aos programas de tv em "playback" e/ou boicote a programas que não paguem; exigência de mais programas na rádio e tv públicas dedicadas a género musicais menos mainstream, cobrança dos direitos em separado para música, cinema e televisão; exigência do ensino de música durante toda a vida escolar, participação monetária do estado na deslocação de músicos ao estrangeiro(somos um pais periférico); supervisão contínua por parte do estado a rádios e televisões e o consequente aumento das multas.
Se leram isto até ao fim podem pensar que estou a fazer política; pois provavelmente estou mas é a única solução; ou vamos estar eternamente a queixarmo-nos? Alguém nos irá ouvir? Deixo-vos novamente com isto: É preciso combater o inimigo no seu próprio terreno. A caravana entretanto vai passando...




A promiscuidade entre rádios e editoras e no caso da Antena 1( bem patente no projecto "amália hoje") é inadmissível.

Jorge disse...

Excelente crítica, é um bálsamo observar que há muita gente com ouvidos para ver o que pelas rádios e televisões corre. Enquanto músico, sinto-me triste pela forma como esses meios que deviam ser uma plataforma privilegiada da nossa cultura acabam por formatar a visão das pessoas que ouvem o que se lhes dá. Sinto-me um pouco distante, enquanto ouvinte, porque me é sobremaneira difícil ficar a ouvir programas medíocres na rádio ou televisão, prefiro ser eu a fazer a minha playlist - afinal há tanta coisa boa para se ouvir quando se decide procurar. Mas é importante perceber que o que passa nas rádios e dá nas televisões todos os dias é o reflexo do nível que, enquanto consumidores, estamos preparados para exigir. Um público mais exigente não pactua com o lixo que se lhe tenta impôr.
Daí a necessidade de que as rádios e televisões sejam pedagógicas nas escolhas que fazem. Ficaríamos todos a ganhar.
Devo dizer que, por outro lado, me sinto feliz por viver num país que não estrangula na fonte a entrada de música que vem do estrangeiro, como acontece em alguns lugares que sobreprotegem de tal forma a sua própria cultura que ficam desligados do resto do mundo. Parece-me que isto é manifestamente algo que não estamos a fazer mal. O que está errado é que, a julgar pela manifestação que existe do que é nacional, repetido a toda a hora nas TVIs da vida, um estrangeiro que cá chegasse ficaria imediatamente a pensar que estava num país de parolos. Não podemos continuar a identificar-nos com essa imagem que damos de nós próprios.
Há vida e cultura neste país. Há artistas que precisam de ser acarinhados para poderem continuar a presentear-nos com as suas criações e a alimentar as nossas necessidades da alma. De preferência sem precisarem de trabalhar na caixa do supermercado.


Jorge Anacleto