01 maio 2019

Sérgio Godinho: "Que Força É Essa?"



Gravado em finais de Abril de 1971, no Strawberry Studio, de Michel Magne, em Château d'Hérouville (arredores de Paris), o LP "Os Sobreviventes", o primeiro de Sérgio Godinho, só seria publicado no ano seguinte, em Setembro. Assim aconteceu por estratégia comercial da editora, a Sassetti, para não fazer concorrência ao LP "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", de José Mário Branco, que foi a grande aposta da casa para o último trimestre de 1971, o mesmo em que a Orfeu, de Arnaldo Trindade, também editou os álbuns "Cantigas do Maio", de José Afonso, e "Gente de Aqui e de Agora", de Adriano Correia de Oliveira.
Do que o álbum de Sérgio Godinho não se livrou foi das garras da Censura, ao ser interditado três dias após o lançamento, sendo sucessivamente autorizado e novamente proibido. Adversidade que não impedirá que a Casa da Imprensa o venha a distinguir com o Prémio de Melhor Disco Português do Ano.
A abrir o alinhamento foi colocada, suspeitamos que não por acaso, "Que Força É Essa?", uma canção ao mesmo tempo de consciencialização e de repto dirigidos ao operariado. É de crer que Sérgio Godinho se tenha inspirado na situação concreta de exploração dos emigrantes portugueses em França, a trabalhar na construção civil, mas os principais destinatários da mensagem eram os que viviam cá dentro, sob a vigência da ditadura, ainda mais mal pagos, com piores condições de trabalho e menos direitos laborais. A Revolução dos Cravos, eclodida dois anos mais tarde, permitiu que os operários passassem a ser mais justamente remunerados e vissem estabelecidos na lei direitos que antes lhes eram negados.
Poder-se-ia supor que, decorrido quase meio século, a canção tivesse ficado datada, logo sem sentido no Portugal de hoje. Pura ilusão! A situação dos trabalhadores manuais e menos qualificados, mormente os imigrantes, retrocedeu consideravelmente. Um retrocesso que teve o condão de também atingir estratos sócio-culturais que outrora estavam a salvo. De facto, a globalização e a gradual proletarização da classe média fizeram engrossar o exército dos «humilhados e ofendidos» com uma inusitada chusma de trabalhadores com estudos superiores, na maioria jovens, que nem mesmo munidos de um canudo escapam à desvergonha de serem pagos com o salário mínimo. E, ainda por cima, em inúmeros casos, laborando mais de oito horas por dia e sem vínculo estável, o que se repercute muito negativamente na natalidade, comprometendo-se assim o futuro do país. As gerações mais novas têm inteira razão em se queixarem da impiedosa exploração a que estão a ser sujeitas e, nessa medida, uma canção em que se refere «Vi-te a trabalhar o dia inteiro, / muita força p'ra pouco dinheiro! / Que força é essa, amigo, / que te põe de bem com outros / e de mal contigo?» diz-lhes muito respeito. Apresentando-a aqui, no Dia do Trabalhador, manifestamos-lhes a nossa solidariedade.
A maioria dos trabalhadores, residentes em Portugal (continental e insular), não aufere outro rendimento que não seja o do trabalho. É com esse dinheiro, geralmente escasso, que tem de fazer face a todas as despesas, incluindo as impostas por lei como é o caso da contribuição do audiovisual, a qual se cifra presentemente em 34,20 euros por ano. Ora atendendo a que não se trata de um valor desprezível, seria de toda a justeza que a rádio pública, em particular a Antena 1, reconhecesse esse esforço com a transmissão ao longo deste dia, que aos trabalhadores é dedicado, de um lote de canções de trabalho ou com ele relacionadas. Nos acervos de recolhas fonográficas da tradição oral, as canções de trabalho são mais do que muitas, existindo também em abundância, publicadas em disco, magníficas recriações feitas por artistas e grupos categorizados. Pois demo-nos ao cuidado, apesar do sacrifício, de manter a emissão da Antena 1 debaixo de escrutínio nas últimas horas, mas nada lográmos ouvir de canções de trabalho. Apenas as banais cançonetas do costume, quase todas dificilmente suportáveis de escutar por inteiro (nessas, o truque foi retirar o som durante 3 minutos).
Conclusão simples e triste: a inércia e a preguiça voltaram a sobrepor-se ao dever de bem servir os ouvintes!



Que Força É Essa?



Letra e música: Sérgio Godinho* (in LP "Os Sobreviventes", Guilda da Música/Sassetti, 1972, reed. Philips/Polygram, 1990, Universal, 2001, 2019)




[instrumental]

Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
construir as cidades p'ra os outros,
carregar pedras, desperdiçar
muita força p'ra pouco dinheiro!
Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
muita força p'ra pouco dinheiro!...

       Que força é essa?
       Que força é essa
       que trazes nos braços,
       que só te serve para obedecer,
       que só te manda obedecer?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo,
       que te põe de bem com outros
       e de mal contigo?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo?

[instrumental]

Não me digas que não me compr'endes!
Quando os dias se tornam azedos,
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes!
Não me digas que não me compr'endes!...

       Que força é essa?
       Que força é essa
       que trazes nos braços,
       que só te serve para obedecer,
       que só te manda obedecer?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo,
       que te põe de bem com outros
       e de mal contigo?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo?

[instrumental]

Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
construir as cidades p'ra os outros,
carregar pedras, desperdiçar
muita força p'ra pouco dinheiro!
Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
muita força p'ra pouco dinheiro!...

       Que força é essa?
       Que força é essa
       que trazes nos braços,
       que só te serve para obedecer,
       que só te manda obedecer?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo,
       que te põe de bem com outros
       e de mal contigo?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo?
       Que força é essa, amigo?


* Sérgio Godinho – voz, guitarra acústica, piano, gaita 'bagu' (kazoo)
Christian Padovan – baixo eléctrico
Uli Plech – flauta
Gérard Crapoutchik – guitarra eléctrica
Cras – bateria
Isabel Alves Costa – coros
José Mário Branco – guitarra acústica, órgão, xilofone, coros
Sheila Charlesworth – coros
Produção e arranjos – José Mário Branco, com a contribuição de todos os músicos
Gravado no Strawberry Studio, Château d'Hérouville (arredores de Paris), em finais de Abril de 1971
Engenheiro de som – Gilles Sallé



Capa do LP "Os Sobreviventes", de Sérgio Godinho (Guilda da Música/Sassetti, 1972)
Fotografia – Michel Morange
Concepção – Armando Alves