24 dezembro 2018

Miguel Torga: "Natividade"


Madeiro de Natal de 2008 na aldeia de Monsanto, concelho de Idanha-a-Nova, Beira Baixa.
© João Carlos Fonseca


«Todo o tempo é de poesia», assim escreveu António Gedeão, e o tempo da consoada não é excepção. Do poeta-físico apresentámos, em 2016, o poema "Dia de Natal" [link ao fundo], pelo que este ano pensámos em recorrer a Miguel Torga, que nos deixou muitos poemas – escritos e ditos - de temática natalícia. É pois do álbum "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas", gravado em 1986, que extraímos o poema "Natividade", que fora escrito a 24 de Dezembro de 1958, faz hoje exactamente 60 anos. Esperamos que seja do vosso agrado.
A Antena 1, no âmbito da 'playlist', vem transmitindo canções de Natal, todas (ou quase todas) anglo-americanas, mas nada de poesia dita/recitada. Além de ser totalmente inaceitável o ostracismo a que estão a votar o repertório musical autóctone, não podemos admitir que a poesia seja posta de parte, atendendo às particulares obrigações que a rádio pública tem no domínio da língua portuguesa.



Natividade



Poema de Miguel Torga (in "Diário VIII", Coimbra: Edição do autor, 1959; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, 2.ª edição, 2002 – p. 611)
Recitado pelo autor* (in LP "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas", EMI-VC, 1986, reed. EMI-VC, 2000)


Arde no coração da noite
A ritual fogueira que anuncia
O eterno milagre
Do nascimento.
Batida pelo vento,
Que da cinza das brasas faz semente,
É um sol sem firmamento,
Directamente
Aceso
E preso
À terra
Por mãos humanas.
De raízes profanas,
Lume de vida a bafejar a vida,
O seu calor aquece
A única certeza que merece
Ser aquecida...


Vila Cova, 24 de Dezembro de 1958


* Miguel Torga – voz
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Produzido e gravado por Pedro Vasconcelos



Capa do LP "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas" (EMI-VC, 1986).
Concepção – Fátima Rolo
Ao centro, retrato do poeta desenhado por Henrique Medina, em 1977.
[para ver em ponto grande, noutra janela, clicar aqui]

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