21 dezembro 2012

"Viva a Música": lugar à música portuguesa (II)



«Desde 1996, a Antena 1 tem no ar o programa "Viva Música", único espaço regular no panorama audiovisual nacional que apresenta semanalmente, durante uma hora, música cantada na nossa língua, ao vivo e em directo». Assim se apresenta, na respectiva página do arquivo online, este já histórico e paradigmático programa da rádio pública. Em rigor, já não se trata do único programa radiofónico português de música ao vivo, pois há que ter em conta o "Estrela da Tarde", da Rádio Amália, reservado ao fado. Não deixa, contudo, de ser o único em rádios de cobertura nacional. E único também pelo amplo leque de géneros e estilos musicais que abarca, dos mais arreigados à matriz portuguesa aos mais vanguardistas, sem descurar a produção instrumental que tão marginalizada tem sido por tudo quanto é rádio hertziana (exceptuando a Antena 2 para a clássica, o jazz e a étnica).
São escassos os programas de rádio que atingem os dezasseis anos de idade, e se o "Viva a Música" ainda existe foi porque o amor e a paixão de um homem pela música (de expressão) portuguesa e pelos seus criadores e intérpretes foram suficientemente fortes para resistir às vicissitudes e contornar os obstáculos que foi encontrando pelo caminho. Esse homem chama-se Armando Carvalhêda e não será exagero dizer que é hoje credor de um imenso capital de gratidão, quer dos artistas aos quais tem dado acolhimento e divulgação, quer do público amante de boa música portuguesa e lusófona. Diversos músicos e cantores têm feito questão de reconhecer publicamente, no próprio programa, esse persistente e empenhado labor de Armando Carvalhêda, e também muitos ouvintes têm tido o ensejo de o fazer, quer em correio dirigido ao eminente realizador ou à Provedoria do Ouvinte, quer em textos colocados na blogosfera (como foi o caso de um publicado pelo autor destas linhas em Fevereiro de 2006).
O "Viva Música" é, sem sombra de dúvida, um programa modelar e uma grande referência na cena mediática nacional, muito (ou tudo) graças ao saber, experiência e carisma comunicacional do seu autor e realizador. Merecia, por isso, maior projecção e visibilidade junto do grande público e, concomitantemente, maior capacidade de integrar os artistas mais descentrados, por assim dizer, da região metropolitana de Lisboa. Para o efeito, duas medidas importaria tomar:
 
1. Transmissão televisiva
Estando a Antena 1 e a RTP integradas na mesma empresa, a Rádio e Televisão de Portugal, não se percebe qual a razão do "Viva a Música" não ser filmado na íntegra e transmitido pela RTP-1, em horário nobre, ademais não havendo na televisão pública um programa exclusivo de música ao vivo. Actualmente, o único espaço da RTP onde é possível ouvir (alguma) música portuguesa tocada ao vivo é o "Herman 2012", mas que por ser um programa essencialmente de conversa e de humor, e não durar mais do que uma hora, não pode contemplar muito mais do que uma ou duas canções em cada emissão. Mesmo assim, muitos artistas da nossa praça agradecem o convite do afamado humorista para lá marcarem presença, o que diz bem da falta clamorosa que se faz sentir no serviço público de televisão de um programa regular no qual os diversos artistas de reconhecida qualidade (nomes consagrados e novos valores) pudessem apresentar o trabalho que vão produzindo. A esse respeito se pronunciaram dois dos recentes convidados de Herman José, Rui Veloso e Teresa Salgueiro, a que eu, na qualidade de contribuinte e apreciador de boa música, junto a minha voz. Quem dirige a RTP-1 até pode alegar que existem na grelha vários programas com actuações de artistas, como é o caso da "Praça da Alegria", do "Portugal no Coração" e do "Portugal sem Fronteiras", mas tal argumento peca por falta de razoabilidade. Na verdade, não são espaços de entretenimento fácil e pobre, como aqueles, em que a música (invariavelmente em "playback" e geralmente pouco qualificada) surge a título meramente decorativo entremeando conversas geralmente de uma insuportável banalidade (para não dizer indigência mental), que podem ser tomados pelos verdadeiros artistas como uma opção válida e digna para mostrarem o seu trabalho. Tal basta aos "pimbas", que até podem preferir o "playback" (que serve para esconder as respectivas limitações), mas não aos artistas dignos desse nome, que pelo respeito que o público lhes merece, se recusam a alinhar em tal intrujice. Artista que se preze não abdica de tocar ao vivo, nem enjeitará – presumo eu – a possibilidade de alargar o seu auditório (para os rádio-ouvintes e os telespectadores), desde que a sua música não saia amesquinhada e seja devidamente valorizada. É o que faz Armando Carvalhêda no seu "Viva a Música", que tendo sido originalmente concebido para a rádio, possui todos os predicados para ser igualmente objecto de transmissão televisiva. O que teria a vantagem acrescida, em tempo de contenção de custos, de ficar mais económico do que criar um programa televisivo de raiz, pois a produção já está feita. E ainda com a mais-valia de ser conduzido por um profissional carismático que conhece profundamente o nosso meio musical – muito diferente, portanto, de uma qualquer vedeta fútil da pantalha que se limita a ler, mais ou menos mecanicamente, os textos do teleponto escritos por outrem, como é usual acontecer na cobertura televisiva de determinados eventos com música ao vivo.
 
2. Descentralização das actuações
É bastante extenso o rol de artistas que já actuaram no "Viva a Música", e com um nível médio de qualidade elevado, o que só abona a favor do Sr. Armando Carvalhêda. Há, no entanto, ainda muitos artistas de mérito que nunca pisaram o chamado palco da rádio (vide lista ao fundo). Quero acreditar que uma boa parte já terá sido convidada e que a não comparência se deveu, nalguns casos, a incompatibilização de agendas e, noutros (certamente a maioria), a questões logísticas e/ou financeiras ligadas às deslocações (de pessoas e de material). Refiro-me evidentemente a artistas, mormente grupos, radicados nos extremos (norte ou sul) de Portugal continental ou nos arquipélagos dos Açores e da Madeira. Em face desta realidade, e dado que a geografia não pode ser uma condicionante de acesso dos artistas à estação pública que tem forçosamente de ter abrangência nacional, eu proponho a realização de edições do "Viva a Música" descentralizadas, isto é, nas diversas capitais de distrito de Portugal Continental e Insular (talvez com excepção de Setúbal e de Santarém dada a relativa proximidade à capital). Suponho que actualmente não haja uma capital de distrito que não tenha uma sala (teatro, cineteatro ou auditório) com condições tão boas ou melhores do que as oferecidas pelo decrépito e acanhado Teatro Dom Luiz Filipe, mais conhecido por Teatro da Luz. Assim sendo, afigura-se pertinente a descentralização do "Viva a Música" por forma a dar visibilidade/audibilidade nacional a uma multiplicidade de bons artistas (individuais ou grupos) que existem por esse país fora, mas que são praticamente ignorados pelo público português fora das respectivas regiões. Por exemplo, quantos artistas dos Açores e da Madeira são conhecidos no continente? Não andarei longe da verdade se disser que não serão mais que os dedos de uma mão. O que é flagrantemente pouco, atendendo à muita e boa produção musical daquelas regiões de Portugal.
 

Artistas que ainda não actuaram no "Viva a Música"
:

(incluem-se os cantores/músicos que podendo já ter pisado o palco da rádio, nunca o fizeram em nome próprio)
 
Açores:
 
- Alexandra Boga (https://myspace.com/alexandraboga)
- Bandarra (https://myspace.com/sitiobandarra)
- Belaurora (http://www.belaurora.com/)
- Bruno Walter Ferreira (http://www.reverbnation.com/brunowalterferreira)
- Carlos Medeiros (http://carlosmedeiros.bandcamp.com/)
- Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense (https://myspace.com/gbcrt)
- Grupo de Cantares do Nordeste (https://myspace.com/grupodecantaresdonordeste)
- Luís Alberto Bettencourt (https://myspace.com/labett)
- Manuel Ermelindo "Canarinho" (https://myspace.com/manuelcanarinho)
- Miguel Pimentel http://www.emilianotoste.pt/editora/ver.php?id=146)
- Musica Nostra (http://musicanostra.no.sapo.pt/repert.htm)
- Pedro Lucas / O Experimentar Na M'Incomoda (http://oexperimentar.bandcamp.com/)
- Raquel Dutra (http://www.reverbnation.com/raqueldutra)
- Ronda da Madrugada (http://www.reverbnation.com/rondadamadrugada)
- Sons Íntimos (http://www.facebook.com/sonsintimos)
- Susana Coelho (http://www.susanacoelho.com/muacutesica.html)
 
 
Madeira:

- Alencante (http://www.youtube.com/user/Alencante)
- Alma de Coimbra (http://www.almadecoimbra.com/)
- Almaplana (https://myspace.com/almaplana)
- António Crespo (http://campeaoprovincias.com/pt/index.php?option=com_content&view=article&id=10552:album-de-antonio-crespo-couto-e-apresentado-hoje-em-coimbra)
- António Eustáquio & Quarteto Ibero-Americano (http://cantosevariacoes.blogspot.com/2011/03/concerto-de-guitolao-antonio-eustaquio.html)
- António Pinho Vargas (http://www.antoniopinhovargas.com/)
- Arrefole (http://palcoprincipal.sapo.pt/arrefoleoficial)
- Artesãos da Música (https://myspace.com/grupoartesaosdamusica)
- Assembly Point (https://myspace.com/assemblytrio)
- Azeituna (https://myspace.com/azeituna25paus)
- B Fachada (http://bfachada.bandcamp.com/)
- Caminhos da Romaria ( https://myspace.com/caminhosdaromaria)
- Cantares da Terra (https://myspace.com/cantaresdaterra)
- Cantigas do Baú (https://myspace.com/cantigasdobau)
- Canto d'Alma (http://palcoprincipal.sapo.pt/canto_dalma)
- Canto Livre (http://palcoprincipal.sapo.pt/canto_livre)
- Cantorias (http://grupo-cantorias.blogspot.com/)
- Capa Grilos (https://myspace.com/capagrilos)
- Carlos Macedo (https://myspace.com/carlosmacedofado)
- Comvinha Tradicional (http://palcoprincipal.sapo.pt/comvinha_tradicional)
- Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra (http://www.uc.pt/antorf/)
- Cristina Navarro (https://myspace.com/cristina.navarro.fado)
- Dança dos Homens (https://myspace.com/dancadoshomens)
- Deolinda Bernardo (https://myspace.com/deolindabernardo)
- Eduardo Ramos (https://myspace.com/eduardoramosmocarabe)
- Entr'o Cante (http://palcoprincipal.sapo.pt/entro_cante)
- Estudantina Universitária de Coimbra (https://myspace.com/estudantinacoimbra)
- Fado ao Centro (http://www.fadoaocentro.com/)
- Fado Violado (http://www.facebook.com/pages/Fado-Violado/102319689811130)
- Fadvocal (http://www.advocal.pt/)
- Fausto Bordalo Dias (http://marius709.com.sapo.pt/index.html)
- Filipe Lucas (https://myspace.com/filipelucas14cordas)
- Ginga (https://myspace.com/gingafolk)
- Grupo de Cantares Tradicionais Mulheres do Minho (http://mulheresdominho.com/)
- Grupo Vocal Canto Décimo (http://cantodecimo.blogspot.com/)
- Guitarras de Coimbra - Grupo de Fados e Guitarradas (http://www.accmm.pt/grupofados.html)
- Haja Saúde (https://myspace.com/bandahajasaude)
- Helena Sarmento (https://myspace.com/ahelenasarmento)
- Joana Machado (https://myspace.com/joanamachado)
- João Filipe Silva / Contarolando (https://myspace.com/contarolando)
- João Paulo Esteves da Silva (https://myspace.com/joaopauloestevesdasilva)
- João Vasco / Alémfado (http://vimeo.com/user2467188/videos)
- Joel Xavier (https://myspace.com/joelxaviersite)
- Jorge Cravo (http://numerica-pt.blogspot.com/2011/04/quarteto-de-antonio-jose-moreira.html)
- José Campos e Sousa (http://www.josecamposesousa.com.pt/?page_id=5)
- José Peixoto (https://myspace.com/josepeixoto)
- Karrossel (https://myspace.com/karrossel)
- Lenga Lenga - Gaiteiros de Sendim (https://myspace.com/lengalengagaiteirodesendim)
- La Çaramontaina (https://myspace.com/laaramontaina)
- Lara Li & Miguel Braga (http://www.facebook.com/events/159463690748273/)
- Lula Pena (https://myspace.com/lulapena)
- Macacos das Ruas de Évora (http://metoscano.blogspot.com/2007/09/macacos-das-ruas-de-vora_20.html)
- Manuel d'Oliveira (https://myspace.com/manueldoliveira)
- Marco Figueiredo (http://www.gproducoes.com/index.php/artistas/mfigueiredo)
- Marenostrum (https://myspace.com/marenostrumportugal)
- Mickael Salgado (http://musica.sapo.pt/album/4647526)
- Miguel Calhaz (http://palcoprincipal.sapo.pt/miguel_calhaz)
- MU (https://myspace.com/muuuuuu)
- NMB - No Mazurka Band (https://myspace.com/nomazurkaband)
- Nem Truz Nem Muz (http://palcoprincipal.sapo.pt/nem_truz_nem_muz_musica_portuguesa_tradicional_)
- Norberto Lobo (http://norbertolobo.bandcamp.com/)
- Notas & Voltas (http://notasevoltas.no.sapo.pt/discografia.htm)
- O Baú (https://myspace.com/obaumusicaportuguesa)
- Óai d'Ir (https://myspace.com/oai_dir)
- Origem (https://myspace.com/origem)
- Orquestra Típica de Águeda (http://www.otagueda.pt.vu/)
- Os Quais (http://osquais.bandcamp.com/)
- Os Tocadores (https://myspace.com/ostocadores)
- Outorga (http://palcoprincipal.sapo.pt/outorga)
- Paulo Soares (http://www.paulosoares.com/)
- Pinhal d'El-Rei (https://myspace.com/570148406)
- Quatro Ventos (https://myspace.com/grupoquatroventos)
- Quiné (https://myspace.com/quineteles)
- Quintarolas (https://myspace.com/quintarolas)
- Raquel Peters (https://myspace.com/musica_raquel_peters)
- Revisitar, Descobrir Guerra Junqueiro (http://www.artes.ucp.pt/guerrajunqueiro/)
- Ricardo Gordo (http://palcoprincipal.sapo.pt/ricardogordo)
- Roda Pé (http://palcoprincipal.sapo.pt/grupo_de_musica_portuguesa_roda_pe)
- Roncos do Diabo (https://myspace.com/roncosdodiabo)
- Samuel (http://soundcloud.com/samuel-quedas)
- Sanfonices (http://www.facebook.com/pages/Centro-de-M%C3%BAsica-Tradicional-Sons-da-Terra/270043473031098)
- Seara Jovem (http://www.ovacao.pt/compra/seara-jovem-a-descoberta-51284)
- Segue-me à Capela (https://myspace.com/seguemecapela)
- Sons do Vagar (http://www.doimaginario.org/crbst_1.html)
- Strella do Dia (https://myspace.com/strelladodia)
- Toada Coimbrã (http://toadacoimbra.blogspot.com/)
- Tó Trips (https://myspace.com/totripsguitar)
- Tramadix (http://www.facebook.com/tramadix)
- Trasga (http://grupo-trasga.blogspot.com/)
- Trilhos - Novos Caminhos da Guitarra (https://myspace.com/trilhosdaguitarra)
- Trovas à Tôa (http://palcoprincipal.sapo.pt/trovas_a_toa)
- Trovas ao Vento (http://palcoprincipal.sapo.pt/trovasaovento)
- Tuna Popular Lousense (http://torredemoncorvoinblog.blogspot.com/2009/07/tuna-popular-lousense.html)
- Urze de Lume (https://myspace.com/urzedelume)
- Ventos da Líria (https://myspace.com/ventosdaliria)
- Vozes do Imaginário (http://www.doimaginario.org/crbst_2.html)
- Xícara (https://myspace.com/xicaramusic)
- Zé Manel Martins (https://myspace.com/zemanelmartins)

 
Nota: Procurei ser zeloso e diligente na constituição desta lista. Ainda assim, é bem possível que se verifique a ausência de alguns artistas de mérito, no activo, que nunca actuaram no "Viva a Música". A esses solicito a amabilidade de me darem notícia, a fim de que eu tenha o ensejo de colmatar as lacunas.
Contacto: ajferreira74@gmail.com

12 dezembro 2012

"Ainda Sou do Tempo" / "Tradição XXI"

"Ainda Sou do Tempo"

Programa em quatro edições, produzido no âmbito da Academia RTP para a Antena 1, que procura trazer para o presente tradições que caíram em desuso e das quais poucos se recordam. A repórter Cátia Fernandes parte à descoberta de regiões marcadas por costumes antigos, ouvindo as pessoas que ainda os guardam na memória.
 
Operadoras de som: Helena Nunes e Filipa Gomes
Guionista: Cátia Fernandes
Edição de som: Helena Nunes
Pós-edição de som: Filipa Gomes
Produção: Flavie Paula
Repórter: Cátia Fernandes
Operadoras de câmara: Flavie Paula, Filipa Gomes e Helena Nunes

Emissão na Antena 1: 02, 09, 16 e 23 de Dezembro de 2012, às 07h10.

Edições já disponíveis:
02 Dez: Arte da Filigrana
09 Dez: Vinho dos Mortos
 

Filigrana em prata (Norte de Portugal)  


Filigrana em ouro (Norte de Portugal)

 
"Tradição XXI"
 
Programa em quatro capítulos, produzido no âmbito da Academia RTP para a Antena 1, que pretende mostrar a reinvenção actual da música tradicional portuguesa. Dos vestígios do mundo rural até aos novos projectos urbanos, de Norte a Sul do país, a voz da tradição, sem preconceitos ou purismos e aberta ao grande público.

Autoria e realização: João Torgal e Manuel Feijão
 
Emissão na Antena 1: 02, 09, 16 e 23 de Dezembro de 2012, às 07h27.
Arquivo online: http://www.rtp.pt/play/p1007/tradicao-xxi
Edições já disponíveis:
02 Dez: Alentejo
09 Dez: Beira Baixa


Viola campaniça: a maior das violas portuguesas, típica do Baixo Alentejo (concelhos de Castro Verde, Ourique e Odemira)
 

Bonecos de Santo Aleixo: Adão e Eva (Centro Dramático de Évora)

 
Saúda-se o aparecimento destes programas consagrados à cultura e música tradicional portuguesa. O que não pode deixar de se lamentar é o horário absolutamente indecente em que foram colocados: entre as 07:10 e as 08:00 de domingo quando a generalidade dos ouvintes estão a dormir (só os caçadores é que devem já estar acordados – nem sequer os padeiros e os camionistas, como acontece durante a semana!). Será que Rui Pêgo não tinha à sua disposição um horário menos esconso na grelha da Antena 1? Com certeza que tinha: depois do noticiário das 19:00 de sábado, por exemplo. Que haja pois o bom senso de os repor num horário audível pela generalidade do auditório, em especial pelo que não tem internet. Como é bom de ver, constitui um perfeito absurdo que os melhores exemplos de serviço público fiquem fora do alcance dos ouvintes/contribuintes. Além de um incompreensível desperdício de recursos, acaba por estar em causa o reconhecimento do trabalho de quem, com amor e diligência, se empenhou na realização dos programas na expectativa de que pudessem ser ouvidos (com proveito cultural) pelo maior número possível de pessoas.

05 dezembro 2012

"Câmara Clara": um bom programa vilmente condenado à morte



«Caros amigos, o Câmara Clara e o Diário Câmara Clara terminam no fim de 2012. Esta decisão foi comunicada a Jorge Wemans, em Junho deste ano, quando era ainda director da RTP2.
Foi, para mim, um enorme privilégio trabalhar sobre as obras das muitas centenas de criadores, artistas e investigadores de que o Câmara Clara se ocupou ao longo dos últimos seis anos e meio. Um enorme privilégio trabalhar com os excelentes profissionais que integram a equipa do Câmara Clara, externa à RTP. Um enorme privilégio trabalhar com os profissionais da RTP que exemplarmente cumpriram a sua parte na produção e na realização do programa.
Orgulho-me do serviço que prestámos. Um serviço que é uma das faces, em meu entender inegociável, do serviço público de televisão.
É com naturalidade que aceitamos a ideia de que haja quem pode cumprir melhor a missão que nos estava atribuída. O futuro o dirá. A questão que se coloca agora não é, portanto, a do fim do Câmara Clara nas suas versões semanal e diária. A questão, premente, é a de saber que meios, que espaço e que visibilidade reserva o serviço público de televisão à cobertura de uma das áreas nevrálgicas do desenvolvimento do país: a inovação nas artes e nas ideias e a conservação do nosso extenso e precioso património cultural – da literatura à arquitectura.
A si, que nos acompanhou durante todos estes anos, agradecemos a atenção e a confiança. Foi sempre a pensar em si que cultivámos, com exigência e rigor, a clareza na comunicação daquilo que, acreditamos, deve ser acessível a todos. Até sempre» (Paula Moura Pinheiro, em comunicado à imprensa: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=604413)
 
"Um programa excelente, que é uma pena que acabe", disse ao PÚBLICO António Mega Ferreira, escritor e gestor cultural. "A Paula fazia aquilo bem e tinha bastante qualidade. Já era um programa com seis anos, era uma coisa, como se diz em francês, 'honorable'. O mínimo que espero é que apareça uma alternativa, que cubra o mesmo espectro, bastante amplo, de debate de ideias mais 'mainstream' até à revelação de novas tendências e novos criadores. O Câmara Clara não era um programa confinado." Mega Ferreira duvida, no entanto, que num momento em que está anunciada a privatização da RTP, este tipo de programas venha a ser contemplado nas grelhas de um operador privado. (in "Público", 30.11.2012)
  
Sou espectador assíduo do programa "Câmara Clara", desde que começou em Maio de 2006, tendo então lhe dedicado um pequeno texto, e não quero deixar de apresentar a Paula Moura Pinheiro e à sua qualificada equipa, designadamente aos jornalistas Luís Caetano e Inês Fonseca Santos, os meus reconhecidos agradecimentos por muitos e bons momentos de fruição cultural que me proporcionaram. Sinto-me, por isso, tremendamente defraudado com a decisão (alheia à autora) de acabar com o programa. Qual a razão? Elevados custos de produção, como alguns por aí andam a propalar? Eu pergunto: o "Preço Certo", o "Estado de Graça", o "Anti-Crise", o "Cinco para a Meia-Noite" e as touradas são mais baratos? Tenho seriíssimas dúvidas de que o sejam, mas se, por hipótese, tiverem um custo inferior, em termos meramente contabilísticos, representam sempre um prejuízo maior para os contribuintes. E porquê? Porque são LIXO. Tudo o que se gaste em lixo, um cêntimo que seja, é desperdício. O "Câmara Clara" está nos antípodas do lixo – é um programa de superior qualidade e em perfeita consonância com o conceito de serviço público. Nessa medida, o valor pecuniário envolvido na sua produção/realização (que está longe de ser uma extravagância, quando comparado com o de "produtos" televisivos de muito mais baixo quilate) jamais se poderá considerar, se quisermos ser honestos, um inútil dispêndio de recursos. As verbas aplicadas na cultura e na valorização intelectual dos cidadãos não são despesa – são investimento! Despesa são os rios de dinheiro gastos em coisas que nada dignificam a estação pública e que, em vez de promoverem a elevação cultural/espiritual dos telespectadores, os rebaixam ao nível da sarjeta. Aí, nessas trampas é que se podia (e devia) cortar. Isto para já não falar nos salários obscenamente desproporcionados que determinadas pessoas recebem da RTP. Não, nisso ninguém quer mexer! Por conseguinte, tenho de inferir que a machadada desferida ao "Câmara Clara" não radica propriamente em incontornáveis questões financeiras, antes se insere numa estratégia premeditada de entorpecimento mental das massas. «A gente obriga-vos a pagar a contribuição do audiovisual, mas depois quem escolhe o "serviço público" que vão ter somos nós. Um serviço que será sempre na medida dos nossos interesses de condicionamento cultural, como é óbvio» (não dito, mas pensado). O "Câmara Clara" acabou por ter o mesmo trágico destino do memorável "Acontece!", de Carlos Pinto Coelho, nove anos antes, também eliminado por motivos alegadamente económicos. Repete-se a história – só mudaram as personagens.
Portugal, portugalinho, que triste fado o teu!

19 novembro 2012

Em defesa do programa "Questões de Moral"



«E para terminar, e a talhe de foice ou não, registe-se que foi Pio XII que fundou o Instituto para as Obras Religiosas, a tal designação que vem a ser a do Banco do Vaticano, de que tão abundantemente falei nestes últimos programas. Últimos, disse bem, últimos programas originais de "Questões de Moral". E se eu soubesse que eram estes os últimos não me despediria assim com estes assuntos, mas enfim...
Ana Almeida Dias e Cristina do Carmo, obrigado por tudo. Adeus, minhas amigas, até ao meu improvável regresso!»
 
Foi com estas palavras, proferidas na edição consagrada ao tópico "Pio XII – O pós-guerra" transmitida a 29 de Outubro passado, que Joel Costa se despediu das suas assistentes de realização e dos ouvintes, entre os quais tenho a honra e o proveito de me contar. Devo confessar que foi com um misto de surpresa e de consternação que ouvi aquelas palavras finais. Disse para os meus botões: «será que a direcção da Antena 2 aproveitou a maré de cortes orçamentais para se desenvencilhar de Joel Costa?» A haver cortes, e fosse a Antena 2 dirigida por pessoas íntegras e dotadas de sentido de serviço público, o "Questões de Moral" seria sempre o último programa a sofrer o golpe do cutelo, justamente por ser o melhor da grelha e por não haver mais ninguém que consiga fazer um congénere que seja tão cativante. Muita coisa se poderia cortar na rádio do Estado sem que daí adviesse prejuízo para a qualidade geral ao serviço prestado. Em alguns casos, até com benefício, diga-se a propósito. O desaparecimento do "Questões de Moral", pelo contrário, constitui uma perda pesadíssima e irreparável.
Tratei de averiguar se aquela minha conjectura se confirmava... E foi então que vim a saber que o Sr. Joel Costa se havia entretanto reformado pela Segurança Social, circunstância que por si só não obstaria à continuação da sua colaboração com a rádio pública, como se tem verificado com outros profissionais que atingiram a idade da aposentação. Entretanto, uma mosca que se costuma passear pelos corredores da RDP veio zumbir-me ao ouvido o motivo preponderante que terá levado os mandantes da Antena 2 (João Almeida, Rui Pêgo e António Luís Marinho) a prescindirem dos serviços de Joel Costa. Alguém que tempos antes se propusera realizar um programa para a Antena 2, mas que vira esse intento adiado por não haver margem de manobra no orçamento que a administração definira para o canal, logo se teria apressado a atazanar os locatários da direcção de programas: «Agora que o Joel Costa se reformou deixa de haver justificação para eu esperar mais...». Perante tal argumento, aqueles que riscam e derriscam no canal (supostamente) cultural da RDP, nem terão pensado duas vezes: «É melhor deixar cair o Joel Costa, a pretexto da lei das incompatibilidades, e darmos oportunidade a este comparsa de também comer do bolo proveniente da contribuição do audiovisual...».
Os muitos e indefectíveis ouvintes do "Questões de Moral", ao contrário dos sujeitos que se encontram aos comandos da Antena 2, não são desprovidos da capacidade e da sensibilidade de reconhecerem ao programa o valor e o indiscutível interesse cultural que efectivamente tem. Na verdade, trata-se de um programa singular, de altíssimo carisma e de todo insubstituível. Um programa sempre em busca da "nudez forte da verdade escondida sob o manto pouco diáfano da fantasia", feito de maneira desempoeirada e descomplexada, sem recurso ao jargão doutoral/académico próprio de muitos "bem-pensantes" da nossa praça, o que lhe granjeou a admiração incondicional de uma legião de ouvintes. E alguns há que ligavam expressamente para a Antena 2 por causa dele. Este é um capital precioso e sem preço que rádio alguma que se preze pode desbaratar. "Questões de Moral" é um activo dourado (usando a gíria empresarial) do serviço público de radiodifusão e, nessa conformidade, não pode acabar, pelo menos enquanto o Sr. Joel Costa tiver forças e saúde para o realizar, pois são muitos os assuntos ainda por tratar. Cabe pois à direcção de programas e à administração da Rádio e Televisão de Portugal darem-lhe essa oportunidade, a exemplo da que foi dada – e bem – a António Cartaxo e a José Duarte, ambos uns bons anos mais velhos do que Joel Costa. Se necessário for, que seja apresentado um requerimento ao Governo, ao abrigo do previsto nos números 2 e 3 do artigo 78.º do Decreto-Lei n.º 498/72, de 9 de Dezembro, na redacção que lhe dada pelo Decreto-Lei n.º 179/2005, de 2 de Novembro. Entre as centenas de trabalhadores da Administração Pública e de empresas de capitais maioritariamente públicos a cujos requerimentos o Governo já deu deferimento incluem-se, com toda a certeza, pessoas não tão insubstituíveis nos respectivos serviços quanto Joel Costa é na Antena 2. Recomenda a sensatez e a boa defesa do interesse público que quem superiormente decide torne possível a continuação do "Questões de Moral". Assim o solicitam os milhares de ouvintes/contribuintes que há muito fizeram dele um programa de culto.
 
A título subsidiário a este apelo, não resisto a transcrever parte do texto que Francisco Mateus em boa hora publicou no blogue "Rádio Crítica":
 
Caído em cheio na era do progresso tecnológico, da política-espectáculo, da informação, do economicismo, do consumismo, da compulsiva formatação dos espíritos e da degradação da ideia ancestral de cultura, o cidadão comum continua a interrogar-se quanto à circunstância histórica e moral que lhe cabe viver.
 
Joel Costa, agent provocateur. Ele corta a direito e não tem papas na língua. Questões tão diferentes e tão igualmente importantes da Humanidade foram e são tratadas por ele com o acre da crueza de quem nada teme. Religião, trabalho, direitos, patronato, sociedade, exploração, personagens (Cristo), polémicas várias (Código Da Vinci). O lançador das farpas no fio da navalha que “sofre” de lucidez aguda e que tem força no movimento da denúncia, argúcia no discurso e coragem para chamar «os bois pelos nomes». É assim “Questões de Moral”. É assim Joel Costa, um provocador no que isso tem de melhor. Ou se gosta muito ou se detesta bastante. Se a justiça é cega, então não é justa. “Questões de Moral” não pretende ser moralista ou Joel Costa um qualquer arauto da pureza que ninguém tem. Apenas desmascarar ou desmistificar algumas das inúmeras ilusões negativas que nos poluem a cada momento. Arredam-se cortinas. Faz-se um pouco de luz onde predomina a escuridão. E já não é tarefa pouca.
Quem gosta, sente-se compreendido e aprecia devidamente. Quem não gosta, coma menos! Neste programa não há meias tintas.
Como sou adepto da verdade, sou declaradamente fã deste homem. E você?


Adenda (em 22-Nov-2012):
 
A versão que os inquilinos da direcção da Antena 2 puseram entretanto a correr de que foi Joel Costa a pedir para deixar de fazer o programa é redondamente falsa. Fonte fidedigna assegurou-me que, não podendo acumular a pensão de reforma da Segurança Social com a remuneração pela realização do "Questões de Moral", o Sr. Joel Costa disponibilizou-se, tal como a lei prevê, a abdicar desta última já que o valor da pensão é superior, e eles recusaram.
Se o Sr. Aníbal Cavaco Silva pôde ficar com as pensões da Caixa Geral de Aposentações e do Banco de Portugal (que totalizam quase 12 mil euros mensais), em detrimento do vencimento de Presidente da República (ainda assim continuando a usufruir das demais regalias inerentes ao cargo) por que motivo é negado ao cidadão Joel Costa o exercício do mesmo direito?

12 novembro 2012

"Vozes da Lusofonia" em inglês?! (II)



O que significa o vocábulo "lusofonia"? Tratando-se de uma palavra composta, nada mais simples que analisarmos os dois elementos lexicais que a formam: "luso" (português) e "fonia" (som). Portanto, "lusofonia" é a expressão fonética dos que falam (e escrevem – quando alfabetizados), como primeira língua, o português ou o mirandês (que são as duas línguas oficiais de Portugal), independentemente do território onde tenham nascido. Por conseguinte, o espaço da lusofonia abarca, além de Portugal (a matriz), os países/territórios do mundo onde residam pessoas cuja língua materna é o português ou o mirandês. Numa concepção mais ampla de lusofonia, podemos também considerar os idiomas dialectais derivados (ou com marcada influência) do português, como é o caso do crioulo de Cabo Verde, do papiá kristáng de Malaca e do patuá de Macau. No âmbito da lusofonia não cabem, evidentemente, línguas de raiz não portuguesa, ainda que latinas e ainda menos as germânicas, como a inglesa.
Nesta ordem de ideias, constitui uma tremenda aberração editorial contemplar num programa chamado "Vozes da Lusofonia" artistas que usam a língua inglesa, ainda que de nacionalidade portuguesa. O autor do programa, Edgar Canelas, parece não ligar qualquer importância à semântica das palavras e teima em divulgar nesse seu espaço discos cantados em inglês, como aconteceu ontem (dia 11 de Novembro) com o álbum "Change", do grupo Pitt Broken (liderado pelo bracarense Diogo Lima). Não sei se o faz por simples gosto pessoal, se por eventuais laços de amizade que mantém com tais artistas, se em cumprimento de ordens da direcção de programas ou se por qualquer outra razão que nada tem a ver com a música em si mesma. Isso pouco me importa. O que não posso aceitar é que, enquanto ouvinte de um programa onde espero ouvir repertório lusófono, me seja impingida produção não lusófona. Digo isto perfeitamente à vontade pois até entendo que a rádio pública não deve excluir os bons artistas nacionais (o que não é, flagrantemente, o caso dos Pitt Broken) que optaram por cantar em inglês ou noutro qualquer idioma, desde que isso seja feito em espaços específicos ou mesmo na 'playlist', mas sempre fora da quota de música portuguesa (porque "música portuguesa" não quer dizer o mesmo que "música produzida em Portugal"). Não ostracizando os nacionais que preferem não cantar na língua materna, a rádio do Estado tem a obrigação (legalmente instituída) de dar primazia à canção de matriz portuguesa que pressupõe, como não podia deixar de ser, o uso de uma das línguas autóctones.
Sei de antemão que o Sr. Edgar Canelas não vai tomar em consideração a minha reclamação, mas mesmo assim não quero deixar de dizer de minha justiça, ademais estando ciente de que muitos outros ouvintes subscrevem estas palavras.
 

23 outubro 2012

Teresa Salgueiro marginalizada pelas rádios nacionais



«Olá a todos!
Venho fazer-vos um pedido.
Tenho sido confrontada com uma grande dificuldade, para não dizer verdadeira barreira, por parte das principais rádios nacionais, no que concerne à passagem da música do meu último disco "O Mistério".
Ou seja, em muitos casos, existe uma recusa categórica em passar a música, baseada em justificações como, e passo a citar:

- "Esta música não é para o target da rádio";
- "Não é música para o nosso airplay";
- "Temos que dar às pessoas aquilo que elas querem ouvir".

Dada a variedade da música que é possível ouvir nas diferentes estações, parecem-me bastante subjectivas estas observações. Por outro lado, como se pode esperar que o público queira ouvir aquilo que não conhece?
Segundo entendo, a passagem de um tema na rádio pode constituir uma grande ajuda para que este se torne num sucesso.
Assim, deixo-vos aqui os contactos directos de cada uma das principais rádios nacionais na esperança de que possam dispensar 5 minutos do vosso tempo e pedir que passem os vossos temas favoritos.
É claro que estes pedidos se estendem a outras músicas de outros artistas dos quais possam sentir a falta.
Estou certa de que são muitos!
Este tremendo domínio da cultura anglo-saxónica só termina se lutarmos por isso.
 
Muito obrigada, um abraço, Teresa
 
Antena 1
adosinda.nunes@rtp.pt

Antena 3
jorge.botas@rtp.pt

Rádio Comercial
programas@radiocomercial.clix.pt

RFM
mail@rfm.pt
 
Renascença
mail@rr.pt
 
TSF
tsf@tsf.pt» (Teresa Salgueiro, in http://www.facebook.com/teresa.salgueiro)
 

Este apelo da cantora Teresa Salgueiro aos seus fãs, via Facebook, é bem sintomático do péssimo serviço que as principais rádios portuguesas (de cobertura nacional) estão a prestar à música portuguesa. De facto, e como muito bem presume Teresa Salgueiro, são muitos (mesmo muitos) os artistas de mérito aos quais é negada a merecida visibilidade no éter nacional. O problema não é de agora: começou quando, por razões economicistas, os autores de programas musicais (pessoas cultas e de apurado bom gosto) foram afastados e substituídos por listas de canções debitadas por um computador, as chamadas 'playlists' (cf. "O autor, a música e a rádio"). Perguntar-se-á: não podiam as "playlists" incluir repertório (antigo e novo) do mesmo nível de qualidade que os tais realizadores passavam? Podiam! Efectivamente, até podiam, se não estivessem nas mãos de indivíduos com a sensibilidade embotada para a boa música portuguesa (e não só), formatados que foram pelo que viram na MTV ou no programa "Top +" da RTP-1, e se eles (ou quem lhes confiou tais funções) não fossem permeáveis à pressão/aliciamento dos agentes de 'management' mais influentes nem fossem subservientes aos interesses comerciais dos tubarões da indústria discográfica (as multinacionais e a Farol, sobretudo). Alguma boa gente julgou que com a imposição de quotas obrigatórias (art.º 2 da Lei n.º 7/2006, de 3 de Março, que introduziu os artigos 44.º-A a 44.º-G na Lei n.º 4/2001, de 23 de Fevereiro) tão lastimável e deprimente estado de coisas se alteraria. Eu não alimentei essa ilusão, conforme expus num texto que então publiquei ("Sobre as quotas de música portuguesa na rádio"), e o tempo veio dar-me razão. Tal como foi formulada, aquela lei seria facilmente contornada e subvertida. E, se calhar, a subversão não deixaria de existir mesmo com uma lei mais perfeita, pois é virtualmente impossível garantir a necessária e almejada abrangência de artistas e diversidade de repertório (de qualidade, entenda-se) numa rádio generalista quando toda a selecção musical está concentrada nas mãos de apenas uma ou duas pessoas (o director de programação e/ou o editor de 'playlist'). Portanto, e vistas bem as coisas, a resolução do problema tem a ver menos com leis e mais com a formação e sensibilidade cultural/musical das pessoas que nas rádios, fazendo uso do seu livre-arbítrio, decidem e escolhem. Esse é o cerne da questão. Enquanto as principais rádios estiverem nas mãos de quem estão, é escusado esperar uma assinalável melhoria da situação vigente. Eles vão continuar a passar as suas musiquinhas predilectas e também as que as editoras mais poderosas, ao abrigo das avenças de promoção, escolhem para eles passarem (as mesmas que, como é bom de ver, são massivamente divulgadas na MTV e canais congéneres e se pretende à viva força tornar apetecíveis e desejadas – as tais que depois "as pessoas querem ouvir" e assim se fecha o ciclo). Como Teresa Salgueiro não faz música que se enquadre nos estreitos cânones (in)estéticos desses directores e fazedores de 'playlists' (que, quais pequenos ditadores, muito se comprazem em impingir aos 'targets'), nem tem atrás de si uma poderosa editora, fica de fora. Tal como ficariam os Madredeus, quase de certeza, se surgissem agora.
Seria expectável que tudo fosse bem diferente na rádio do Estado, atendendo ao financiamento público e à obrigação a que está legalmente vinculada de divulgar a melhor música portuguesa, e que Teresa Salgueiro fosse dada a ouvir com alguma regularidade. Mas não! É verdade que o álbum "O Mistério" até foi Disco Antena 1, em finais de Abril, mas depois dessa semana em que passaram alguns temas desapareceu. Porquê? Estava a estorvar às enxúndias cacofónicas (vindas de fora ou produzidas cá dentro) que pululam na 'playlist'? É realmente vergonhoso que Teresa Salgueiro e tantos outros artistas portugueses de primeira categoria sejam tão desconsiderados e marginalizados pela estação oficial do seu próprio país!
 
Nota: Alguns temas de "O Mistério" podem ser ouvidos nestas páginas:
http://www.teresasalgueiro.pt/
http://www.youtube.com/user/teresasalgueiro
http://soundcloud.com/teresa-salgueiro

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