09 dezembro 2005

A intervenção crítica dos ouvintes da rádio pública

É de aplaudir algumas melhorias que Rui Pêgo introduziu na grelha da Antena 1, no passado mês de Novembro, mas continua a subsistir a questão da(s) 'playlist'(s) que é neste momento o ponto mais negativo da programação. Não está tanto em causa a 'playlist' em si mesma, enquanto ferramenta tecnológica, mas sim o formato que vem sendo implementado e que consiste em repetições exageradas, no afunilamento em apenas um género (a música pop) e, como consequência, a exclusão imperdoável de um extenso rol de músicos, cantores e grupos de reconhecida qualidade designadamente nas áreas da música de raiz ou inspiração tradicional e do fado. E isto acontece não só com os nomes já falecidos ou retirados mas também com os que estão no activo desde os consagrados aos mais novos e em início de carreira. Alguns (poucos) nomes da nova geração do fado ainda passam por altura dos respectivos lançamentos discográficos, mas já nem isso acontece com os agrupamentos emergentes da música folk e tradicional portuguesa. Porquê? Será aceitável que a rádio que todos financiamos continue a votar ao ostracismo grupos que têm obtido a aclamação da crítica e o aplauso do público como, por exemplo, Frei Fado d'El Rei, Realejo, Danças Ocultas, At-Tambur, Roldana Folk, Mandrágora, Mu, Dazkarieh, Chuchurumel e Galandum Galundaina?
A rádio estatal tem obrigações de serviço público de que não pode abdicar e uma delas é divulgar a música que melhor exprime a identidade portuguesa. Como a 'playlist' não faz jus a este princípio, cabe aos cidadãos e contribuintes exercerem o seu direito de intervenção cívica para exigir à direcção de programas a urgente correcção de situação tão anómala. O ministro Augusto Santos Silva, que tutela a comunicação social, tem declarado que defende a intervenção crítica dos cidadãos relativamente ao serviço público de rádio e de televisão e, como tal, cumpre à direcção da rádio pública ter em conta as opiniões expressas pelos destinatários do serviço porque, afinal de contas, servir os ouvintes é a razão que justifica a existência da rádio que eles pagam.
Os resultados das audiometrias além de pouco transparentes e distorcidos acabam por ser informações meramente quantitativas, pelo que a nossa opinião pode ser uma importante achega para a informação qualitativa de que os responsáveis da rádio pública precisam para a tomada de decisões acertadas.
Junto abaixo cópia de carta que enviei à direcção de programas da Antena 1 em que opinei sobre alguns pontos da programação actual.


Carta à direcção de programas da Antena 1:
<
rui.pego@rdp.pt, antena1.direccao@rdp.pt, antena1@rdp.pt>

Exmo. Senhor Rui Pêgo,

Assim como me sinto no dever cívico de intervir quando são tomadas decisões que considero erradas e desajustadas na programação da rádio pública, também sou o primeiro a aplaudir a direcção sempre que são concretizadas iniciativas que façam jus a um verdadeiro serviço público de rádio. É o caso de "Alma Lusa", rubrica através da qual Edgar Canelas nos guia numa viagem pela memória do fado. Aplaudo pois o Sr. Rui Pêgo por tão louvável iniciativa e dou também os parabéns ao realizador Edgar Canelas, um profissional que me habituei a estimar pelo amor e carinho que dedica à boa música portuguesa.
Congratulo-me também por alguns bons programas de autor terem passado a ser repetidos noutros horários. Destaco "Escrita em Dia" e "Viva a Música" nas tardes de sábado e "Vozes da Lusofonia" nas manhãs de domingo. É uma medida que considero muito acertada e pertinente porque os horários em que esses programas vão originalmente para o ar não são praticáveis por uma boa parte dos ouvintes em virtude da sua vida laboral, tendo assim a oportunidade de os ouvir ao fim-de-semana. Aliás, esta é uma questão que eu já havia apresentado em cartas que dirigi à direcção da Antena 1. Numa carta que em Setembro passado remeti ao Sr. Rui Pêgo apontei o exemplo do "Viva a Música", mas já havia referenciado outros programas (incluindo os atrás referidos) num e-mail que em Março passado enderecei ao seu antecessor, Tiago Alves. A propósito, não pude deixar de reparar no facto do programa "Memória de Um Lugar ao Sul" que vai para o ar a partir da meia-noite de segunda-feira não fazer parte do lote dos programas que agora começaram a ser repetidos. Peço ao Sr. Pêgo que se digne passá-lo também noutro quadrante horário por forma a que os ouvintes menos noctívagos tenham possibilidade de o ouvir. Os admiradores do trabalho de Rafael Correia ficariam gratíssimos à direcção da Antena 1 por esse gesto de boa vontade.
Voltando ao apontamento "Alma Lusa", aproveito o ensejo para lhe sugerir que essa rubrica (ou outra a criar) contemple também a música portuguesa de raiz tradicional que além dos nomes mais antigos poderá incluir os grupos emergentes que fazem furor nos festivais e encontros de música folk e tradicional, mas que continuam a ser marginalizados pela rádio. Armando Carvalheda tem a preocupação meritória de convidar alguns deles para os concertos do programa "Viva a Música", mas depois nunca mais se ouvem na 'playlist'. Volto a insistir na questão da 'playlist' porque é o ponto mais negativo na actual programação musical da Antena 1, opinião que não é só minha pois é partilhada por muita gente. Se o Sr. Rui Pêgo se quiser dar ao trabalho de fazer um inquérito aos ouvintes da Antena 1 sobre os artistas que desejariam ouvir, aposto que seriam referidos muitos dos que foram banidos da 'playlist' e até outros que nunca chegaram a entrar (vide anexo). A 'playlist' deve ser tão ecléctica quanto possível de modo a ser uma amostragem abrangente do que de melhor se produz em Portugal nas diversas áreas musicais e – não menos importante – para ir ao encontro dos diferentes gostos do auditório. Por isso, não se compreende que o fado e a música popular portuguesa tenham uma presença tão residual, ainda por cima sendo duas áreas de grande agrado e com muitos entusiastas. Fica-se com a ideia que a música portuguesa que não seja do género pop é propositadamente ostracizada por quem decide os conteúdos da 'playlist'. Em nome de quem e de quê? O que se tem vindo a passar é tanto mais absurdo porque são justamente as músicas que radicam no nossa herança cultural – fado e música de raiz tradicional – as que mais facilmente nos permitem vingar no mercado internacional. O cantor pop David Fonseca já reconheceu isto mesmo (no programa "Vozes da Lusofonia"), mas ainda subsiste em muita boa gente o equívoco de que fazer música pop, de preferência cantada em inglês, ajuda a abrir as portas no mercado global. A fulgurante carreira internacional de Amália, e depois dos Madredeus e de nomes do fado como Mísia e Mariza são as provas irrefutáveis de que não é com a música 'mainstream' que os portugueses se conseguem afirmar no mundo.
Além do afunilamento na pop, a 'playlist' da Antena 1 peca pela repetição desmesurada dos mesmos temas, o que acaba por ser cansativo para o ouvinte provocando inclusive reacções de rejeição. Uma determinada música até pode ter qualidade e dar prazer ouvir, mas se a frequência com que ela passa ultrapassar um certo limite é natural que o ouvinte se sinta saturado e já não a suporte. O que é bom se for de mais também farta. Não seria mais razoável que as músicas mais repetidas passassem menos vezes, de modo a dar lugar a outras músicas que raramente se ouvem ou que nunca passam? Na música como na alimentação, a variedade e a moderação são duas regras que só fazem bem a quem as cumpre. Assim sendo, apelo ao Sr. Rui Pêgo para que tenha o bom senso de prestar atenção a esta problemática. A bem do serviço público de rádio!
Com os melhores cumprimentos,

Álvaro José Ferreira


Index da Música Portuguesa
(RDP-Antena 1)


A lista que se segue, embora não sendo exaustiva, serve para exemplificar a situação da música portuguesa nos alinhamentos de continuidade ('playlist') da rádio pública, a estação que os cidadãos e empresas de Portugal financiam com a contribuição audiovisual (antiga taxa de radiodifusão) cobrada na factura mensal de electricidade (Lei n.º 30/2003).


Banidos/excluídos da 'playlist' da Antena 1
Adriano Correia de Oliveira
José Mário Branco
Afonso Dias
José Medeiros
Aldina Duarte
José Peixoto
Alfredo Marceneiro
Júlio Pereira
Almanaque
Laurent Filipe
Amália Rodrigues
Lua Extravagante
Amélia Muge
Lucília do Carmo
Anabela
Luís Cília
Anamar
Luiz Goes
Ana Moura
Lula Pena
Ana Sofia Varela
Maio Moço
António Chainho
Mandrágora
António Emiliano
Manuel Freire
António Pinho Vargas
Marenostrum
António Pinto Basto
Margarida Bessa
António Zambujo
Maria Ana Bobone
Argentina Santos
Maria Viana
At-Tambur
Mariza
Banda do Casaco
Melodias do Vento
Bela Aurora
Mendes Harmónica Trio
Bernardo Sassetti
Mísia
Brigada Victor Jara
Moçoilas
Canto da Terra
Mu
Canto Nono
Naná Sousa Dias
Carla Pires
Navegante
Carlos Alberto Moniz
Negros de Luz
Carlos Barretto
Nem Truz Nem Muz
Carlos do Carmo
Nuno da Câmara Pereira
Carlos Martins
Nuno Guerreiro
Carlos Mendes
Ódagaita
Carlos Paredes
Orchestra Nova Harmonia
Carlos Zíngaro
Paco Bandeira
Célia Barroca
Paula Oliveira e Bernardo Moreira
Chuchurumel
Paulo Bragança
Ciganos D'Ouro
Paulo de Carvalho
Corvos
Pedra d'Hera
Danças Ocultas
Pedro Barroso
Dar de Vaia
Pedro Caldeira Cabral
Dazkarieh
Pedro Jóia
D'Corda
Pedro Moutinho
Duo Ouro Negro
Pilar Homem de Mello
Eduardo Ramos
Quadrilha
Fernando Farinha
Quarteto 1111
Fernando Girão
Quinteto Amália
Fernando Machado Soares
Quinteto Jazz de Lisboa
Fernando Maurício
Quinteto Lusitânia
Fernando Tordo
Raízes
Filarmónica Fraude
Rão Kyao
Frei Fado d'El Rei
Real Companhia
Francisco Naia
Realejo
Gaiteiros de Lisboa
Rodrigo
Galandum Galundaina
Roldana Folk
Isabel Silvestre
Ronda dos Quatro Caminhos
Janita Salomé
Rosa dos Ventos
Joana Amendoeira
Samuel
João Braga
Segue-me à Capela
João Chora
Teresa Silva Carvalho
João Lóio
Terrakota
Joel Xavier
Tetvocal
Jorge Rivotti
Vai de Roda
José Afonso
Vá-de-Viró
José Carvalho
Vicente da Câmara
TODA A MÚSICA DE COIMBRA


Passagens esporádicas e quase sempre o mesmo tema
Ala dos Namorados
Maria João e Mário Laginha
António Variações
Marta Dias
Belle Chase Hotel
Marta Plantier
Camaleão Azul
Naifa, A
Camané
Né Ladeiras
Cristina Branco
Quinta do Bill
Eugénia Melo e Castro
Rio Grande
Fausto Bordalo Dias
Rodrigo Leão
Filipa Pais
Sara Tavares
Jáfumega
Sérgio Godinho
João Afonso
Sétima Legião
Katia Guerreiro
Sheiks
Luís Portugal
Trovante
Madredeus
UHF
Mafalda Arnauth
Vitorino
Mafalda Veiga
Vozes da Rádio

Última actualização: 09-12-2005

2 comentários:

josé disse...

Deixo aqui ficar um comentário que coloquei algures, sobre um programa de rádio já antigo: o Página 1 da RR.

O alinhamento que indico baseia-se em notas que tirei na altura.

"A Rádio Renascença, pertença do Patriarcado de Lisboa, nessa época ( finais de 1974) tinha um programa de música popular que começava às 19h e 30m e acabava às 21h.
Religiosamente, ouvia então o programa e coligia notas sobre a programação- que inda guardo.
Tome nota, sff, das notas relativas à emissão de 2 de Janeiro de 1975:

19h e 30m
Indicativo do programa: Page One dos Pop Five Music Incorporated ( que incluía Miguel da Graça Moura que se diz autor desse instrumental meio funky...)
1.Grupo desconhecido em Portugal-IF.
2.Os Man e o álbum Slow Motion.
Publicidade. Sparks e Never turn your back on mother earth, do 4º album do grupo, Propaganda.
3. Atlantis e Son of a bitch son- do álbum Oh Baby.
Publicidade. Instrumental.
4.Claudina e Alberto Gambino e a canção cubana- Duerme, duerme, megrito. De Cuba também, Pablo Milanez- pobre do cantor que não arrisca ( sic).
Instrumental. Publicidade.
20 h:
1. Johnny Nash. Carole King- change im my change on earth( na realidade é "change in mind", mas a audição em inglês, com 18 anos, ainda não era perfeita...) do álbum wrap around joy. Publicidade. Santana e o álbum Borboletta. Os Snaffle ( na realidade, Snafu...)e No more, do álbum...(deve ser o LP Situation Normal, mas não apontei). Publicidade.
Um cantor espanhol e Cagitas.
Sérgio Godinho- Etelvina.
José Afonso- O que faz falta. Publicidade.
Jimmy Cliff e Don´t let it die.
Jack Bruce e Keep it Down.
Jonathan Edwuards- TOday i started loving you again.
Publicidade.
Jim Capaldi e o álbum Whale meat again.
The End ( sic).

Foi assim a emissão desse dia 2.1.1975, apresentada por Luís Filipe Martins ( que hoje se chama Luís Paixão Martins e julgo que tem uma agência de publicidade a LPM). NO mês de Agosto de 1974, a emissão foi apresentada por...Artur Albarran! Esse mesmo...


Em 9.1.1975, sabe quem esteve no programa, em reportagem alargada sobre a Faculdade de Direito de Lisboa que começou pouco depois das 10 h e durou até ás 20 h e 45m?
Três estdudantes que se chamavam: PEdro Palhinha;Alberto Augusto e...um tal José Barroso! Sabe quem é este último, não sabe?
Pois entre parêntesis coloquei a seguinte espressão que ouvi então do tal apresentador LPM- "( não reformista"). Ahahahaha!
No programa começou por se revelar um documento ( carta a Marcelo Caetano, então na Madeira) na pedir o regresso às funções de professor daquela Fac. de Direito, Marcelo Caetano.
Isto escrevi então...e confio plenamente nas minhas notas.E escrevi que logo a seguir o locutro colocou a tocar um instrumental e depois Sérgio Godinho e ...à queima roupa!"

Entre os apresentadores deste programa lembro Adelino GOmes, João Manuel Nunes e Luís FIlipe ( Paixão) Martins. Para além, claro, de Artur Albarran.

Tenho mais datas apontadas.

Corrector Ortográfico disse...

1) De acordo com as regras de concordância verbal, onde está escrito ”É de aplaudir algumas melhorias que Rui Pego (,,,)” deveria estar:”São de aplaudir algumas melhorias que Rui Pego (…)”

2) Seria conveniente uma grafia constante para o estrangeirismo/neologismo "playlist" que surge indiscriminadamente como: playlist e play list.

3) “Os resultados das audiometrias (???) além de pouco transparentes e distorcidos acabam por ser informações (???)” – não entendi…

4) “(…) é tanto mais absurdo porque são justamente (…)” – grande confusão…

5) “(…) os horários (…) não são praticáveis por uma boa parte dos ouvintes (???) em virtude da sua vida laboral, tendo assim a oportunidade (quem???) de os ouvir ao fim-de-semana.” – desisto!

6) “áudio-visual”
Audiovisual (s. m.) - conjunto dos meios, dos sistemas e dos veículos de comunicação e de ensino audiovisual. (Dicionário Priberam em http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx.