27 março 2019

Dia Mundial do Teatro: mensagem de João de Freitas Branco (1981)



DIA MUNDIAL DO TEATRO
27 de Março de 1981
Mensagem

Mensagem deste "dia mundial", qualquer ela for, terá que envolver todas as pessoas dramáticas que jamais existiram. Todas as Medeias, Columbinas, Margaridas, Júlias, todos os Orfeus, Arlequins, Telémacos, Woyzecks. E os demais "Cocus", imaginários ou não, de mistura com as Respeitosas adjectivantes de substantivos Pês. E Henriques, Filipes, Ricardos-reis, Césares, Ivans, Carlos-quintos imperadores. E vigários, inquisidores, papas. E até Joana d'Arc. E seis personagens em busca de autor. E o inapagável Tenente Kije, na companhia de dois outros Ninguéns, estes de Portugal, como se Todo-o-Mundo não bastasse.
Mensagem que há-de abranger todas as paixões, desde lutos que tão bem ficam a Electra como a Bernarda "la vieja", até à suprema de quantas flamengas alegrias explodiram em horas de desmoronamento de Albas. Todos os mitos, recalques, complexos, desde logo o de Édipo, mas também o de Bartholo. Todos os tratos com a vida, desde o contínuo estar Volpone cobrando o seu próprio seguro de morte até ao estar perpetuamente à espera de Godot. Todas as guerras que imaginar se possam, muitas mais que as de Montecchi e Capuleti, de Alecrim e Manjerona, de Cabeças Redondas e Cabeças Bicudas. Todas as artes de comunicar pela vista e pelo ouvido, encenando, pintando, esculpindo, arquitectando, iluminando, projectando, cantando, tangendo, mimando, bailando. E falando.
Mensagem que necessariamente saúda os que, filhos de qualquer civilização, mantêm fecunda a linhagem dos Ésquilo, Gil Vicente, Shakespeare, Racine, Claudel, Brecht; dos Monteverdi, Mozart, Schönberg; dos Noverre, Pétipa, Fokine, quer aumentando-a com obras, quer afirmando-se, como Garrick e Talma, como a Todi e a Callas, como a Pavlova e Nijinsky, tanto mais inconfundíveis quanto mais se forem metamorfoseando sob crismas e caracterizações. E todos os que, dos palcos da lusitana revista ao mais além-Taprobana dos retábulos Wayang, dos hiper-sofisticados estúdios radiofónicos e televisivos à mais humilde barraca de feira, de outros modos participam no mágico oscilar entre realidade e ilusão, corrente alterna de tensão sem limites, sequiosa de verdade absoluta genialmente inventada.
Mensagem que oxalá abraçasse todas as mulheres e homens, os jovens e crianças de todas as raças, cores e linguagens, como público efectivo de um espectáculo universal. Público efectivo, porque honestamente estatístico, concretamente verificável. Público não congregado por coacção ou fingimento de cultura, senão que movido pela liberdade de vividamente conhecer para bem amar, e de amar para plenamente viver.
Por hoje, 27 de Março de 1981, contentemo-nos com a certeza de que um dia há-de vir, em que "Everyman" se reconheça, de corpo inteiro e coração ao alto, num espelho de ele mesmo que dará ainda, e sempre, pelo nome de TEATRO.

                JOÃO DE FREITAS BRANCO


Este texto, lido pela actriz Josefina Silva, foi difundido pela RDP-Antena 1, a 27 de Março de 1981, no programa "Tempo de Teatro", antecedendo a peça "O Juiz da Beira", de Gil Vicente, com direcção de actores de Carlos Duarte e realização radiofónica de Eduardo Street.
Estamos em 2019. Perscrutamos os vários canais da rádio pública: e que oferta há da arte de Talma? Temos, na Antena 2, o programa "Ecos da Ribalta" [>> RTP-Play], da autoria de João Pereira Bastos, que, apesar de ter como principal objecto o teatro musical e a música de filmes, não deixa de apresentar, uma vez por outra, no âmbito da evocação de actores portugueses que foram grandes no palco, no cinema e na rádio, algumas peças de teatro falado guardadas no arquivo. E que mais? Apenas, e mesmo assim muito esparsamente, também na Antena 2, um arremedo de teatro denominado "Teatro sem Fios" [>> RTP-Play]. E grafamos 'arremedo' porque aquilo, em boa verdade, não se pode considerar verdadeiro teatro radiofónico: por ser desprovido de sonorização, por os textos serem quase sempre dramaturgicamente sensaborões (não raras vezes a roçar a náusea), e por as vozes não terem carisma radiofónico. Vozes com carisma são aquelas que possuem idiossincrasia tímbrica/interpretativa, isto é, têm uma identidade bem vincada, não se confundindo com quaisquer outras, e encarnam com verosimilhança uma determinada personagem. Eis alguns exemplos (por ordem alfabética dos nomes dos actores): Alberto Villar, Alina Vaz, Antonino Solmer, Assis Pacheco, Branco Alves, Canto e Castro, Carlos Paulo, Carmen Dolores, Eunice Muñoz, Henriqueta Maia, Irene Cruz, Jacinto Ramos, João Villaret, Joaquim Rosa, Luís Pinhão, Manuel Lereno, Manuela Cassola, Mário Pereira, Mário Viegas, Paiva Raposo, Paulo Renato, Raul de Carvalho, Ruy de Carvalho, Ruy Furtado, Santos Manuel, Varela Silva. E aqui somos inevitavelmente remetidos para essa autêntica arca de preciosidades que é o arquivo histórico da rádio pública.
Em face de tal riqueza, era expectável que as direcções de programas das três antenas nacionais e também da RDP-Internacional não a descurassem e atentassem nela com olhos de ver (e ouvidos de ouvir). Tal não tem acontecido ou acontecido de forma muito incipiente. Por exemplo: não compreendemos a não existência na Antena 1 de um espaço reservado a bons conteúdos do arquivo (teatro, contos, poesia, entrevistas a figuras da Cultura e da Ciência, programas de divulgação cultural, etc.), do mesmo modo que não entendemos qual o motivo da não inclusão no espaço "Memória", da Antena 2, de peças de teatro que foram produzidas antes de 2005 (ano em que terminou o "Teatro Imaginário"), bem como de programas de poesia e de ciclos temáticos (sobre compositores, escritores, cientistas, acontecimentos históricos, etc.). Nesse resgate, que urge ser feito pois o tempo é implacável na deterioração dos registos, a prioridade, no caso do teatro, deve ser dada ao grande repertório, porque esse é intemporal: desde o dos autores gregos clássicos (Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Aristófanes) até ao teatro do absurdo (Beckett, Ionesco) passando por Shakespeare, Ben Jonson, Lope de Vega, Calderón de la Barca, Corneille, Molière, Racine, Marivaux, Goldoni, Beaumarchais, Schiller, Pushkin, Ibsen, Strindberg, Oscar Wilde, George Bernard Shaw, Tchekov, Pirandello, Federico García Lorca, Bertolt Brecht, Eugene O'Neill, Tennessee Williams, Arthur Miller, Edward Albee, Jean Cocteau, Jean-Paul Sartre, Jean Anouilh, sem esquecer os nossos Gil Vicente, Jorge Ferreira de Vasconcelos, António Ribeiro Chiado, António Ferreira, Luís de Camões, António José da Silva (O Judeu), Almeida Garrett, Raul Brandão, António Patrício, Alfredo Cortez, José Régio, Bernardo Santareno, Luiz Francisco Rebello e Luís de Sttau Monteiro.
O teatro e a sua irmã, a poesia, enquanto artes por excelência da oralidade (é bom ter presente que a "Ilíada" e a "Odisseia", obras primordiais da Civilização Ocidental, começaram por andar de boca a ouvido, antes de alguém se lembrar de passá-las a escrito), têm, além do valor cultural que lhes é intrínseco, a relevante virtude de mostrar a correcta prosódia da língua. Atendendo ao mau português que se vai ouvindo, devido à má influência da televisão e também aos efeitos nefastos que o AO90 já está a ter na pronúncia de algumas palavras, maior a premência de se resgatar o teatro radiofónico e a poesia dita.
Importa não esquecer que para os invisuais, essa é a única forma que lhes permite fruírem aquelas artes in acting (não substituível pela leitura em braille, que no caso de peças de teatro não será um exercício cativante, tal como o não é para os não cegos – o escrevente destas linhas pode testemunhar que a leitura do "Frei Luís de Sousa" nem por sombras teve no seu espírito o mesmo impacto que a memorável adaptação radiofónica que em 1992 ouviu na Antena 2).

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Artigos relacionados:
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21 março 2019

António Botto: "Homem que vens de humanas desventuras"


Leonardo da Vinci, "Homem Vitruviano", c.1490, desenho a tinta sobre papel, Gallerie dell'Accademia, Veneza


No passado 16 de Março completaram-se 60 anos sobre a morte de António Botto, poeta admirado, entre outros, por Guerra Junqueiro, Manuel Teixeira Gomes, João Gaspar Simões, José Régio, Luigi Pirandello e Fernando Pessoa (autor do encomiástico estudo "António Botto e o Ideal Estético em Portugal").
Naquele mesmo dia, e assinalado a efeméride, o realizador Germano Campos, no seu programa "Café Plaza" [>> RTP-Play], teve a mui louvável iniciativa de resgatar do arquivo da rádio pública um excerto do programa "Páginas de Poesia", de 1968, presenteando os seus ouvintes com quatro poemas bottianos ditos por Raul Feio – "Meus Olhos Que por Alguém", "O Brinco da Tua Orelha", "Meu Amor na Despedida" e "Não me Peças Mais Canções", todos do ciclo "Tristes Cantigas de Amor" – e também com a versão cantada do quarto poema por Carlos Mendes.
No Dia Mundial da Poesia, o blogue "A Nossa Rádio" associa-se à evocação de António Botto apresentando outro belíssimo poema, no caso um soneto, em duas abordagens, uma recitada e outra cantada: a primeira na voz de João Villaret e a segunda na de Carlos do Carmo. Trata-se de um texto impregnado de humanidade, no qual o poeta se irmana aos seres humanos que demandam o sonho de tornar o mundo melhor e esbarram na incompreensão, e também àqueles que estão reduzidos à condição títeres nas mãos de poderes e interesses instalados, sejam de ordem política, económica ou religiosa.
No que respeita à divulgação de poesia na nossa rádio, aproveitamos o ensejo para voltar a enaltecer o bom trabalho que Luís Caetano vem desempenhando na Antena 2, enquanto responsável pelas rubricas "A Vida Breve" [>> RTP-Play] e "O Som Que os Versos Fazem ao Abrir" [>> RTP-Play], preenchidas, respectivamente, com poesia dita pelos autores e com poesia comentada pela professora, poetisa e tradutora Ana Luísa Amaral. Apesar da segunda rubrica abarcar autores de todos os tempos (logo, também os que viveram antes da invenção da gravação sonora) é notório que se revela insuficiente para dar cabal divulgação ao muito material que existe gravado por dizedores credenciados, quer o editado em disco, quer – e sobretudo – o guardado no arquivo histórico da RDP. Sem prejuízo de outras acções, o espaço "Memória" poderia muito bem ser aproveitado para a transmissão, além dos habituais concertos, de programas integrais de poesia, como o supracitado "Páginas de Poesia" e aquele que deu pelo título de "Poesia, Música e Sonho" que fez as delícias de muitos ouvintes e se tornou uma referência obrigatória na História da Rádio Portuguesa.
É evidente que a Antena 1 não pode nem deve ficar alheada desse tão necessário resgate do que de melhor existe no arquivo. Nesse âmbito, duas medidas podem ser tomadas: uma é a criação de um espaço alargado ao fim-de-semana, de uma ou duas horas, consagrado aos conteúdos de cariz menos erudito; a outra é a criação de uma rubrica diária de poesia, na qual, preferencialmente, seja divulgada a produção de um determinado autor ao longo de uma semana – porque a poesia é para todos e os ouvintes da Antena 1 também são gente (não são filhos de um deus menor).



Homem que vens de humanas desventuras



Poema de António Botto (in "Os Sonetos de António Botto", Lisboa: Edição do autor, 1938; "As Canções de António Botto", 6.ª edição, Lisboa: Edição do autor, 1941 – p. 287; 15.ª edição, com um estudo crítico de Fernando Pessoa, Lisboa: Edições Ática, 1975 – p. 305; "Poesia", org. Eduardo Pitta, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018 – p. 245)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá-Carneiro", Parlophone/VC, 1964; LP "Procissão", EMI/Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Homem que vens de humanas desventuras,
Que te prendes à vida e te enamoras,
Que tudo sabes e que tudo ignoras,
Vencido herói de todas as loucuras;

Que te debruças pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras —
E na ambição das coisas mais impuras
És grande simplesmente quando choras;

Que prometes cumprir e que te esqueces,
Que te dás à virtude e ao pecado,
Que te exaltas e cantas e aborreces,

Arquitecto do sonho e da ilusão,
Ridículo fantoche articulado
— Eu sou teu camarada e teu irmão.



Soneto XIV



Poema: António Botto (com o primeiro verso modificado) [texto original >> acima]
Música: Fernando Guerra
Arranjo e orquestração: Jorge Costa Pinto
Intérprete: Carlos do Carmo* (in LP "Carlos do Carmo", Tecla, 1972; LP "Canoas do Tejo", Edisom, 1984, reed. Movieplay, 1992, 1998, Universal Music, Série '50 Anos', 2013)




Homem que vês humanas desventuras,
Que te prendes à vida e te enamoras,
Que tudo sabes e que tudo ignoras,
Vencido herói de todas as loucuras;

Que te debruças pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras —
E na ambição das coisas mais impuras
És grande simplesmente quando choras;

Que prometes cumprir e que te esqueces,
Que te dás à virtude e ao pecado,
Que te exaltas e cantas e aborreces,

Arquitecto do sonho e da ilusão,
Ridículo fantoche articulado
— Eu sou teu camarada e teu irmão. [bis]

[vocalizos / instrumental]


* Carlos do Carmo – voz
Orquestra dirigida por Jorge Costa Pinto:
Violinos – João Silveira, João Nogueira, Mário Simões, João Oliver, António Dias, Calazans Duarte, Adolfo Chaves, Sá da Bandeira, Ricardo Ventura, Vitorino Gomes, Costa Gomes
Violas de arco – Rogério Gomes, Ana Bela Chaves, Luís Roberto
Violoncelos – Clélia Vital, Conceição Gomes, Lurdes dos Santos
Flautas – Hélder Ribeiro, José Duarte
Oboé / corne inglês – António Serafim, Bernardino Quito
Harpa – Fausto Dias
Trompa – Adácio Pestana
Trombones – António Jubilot, Gilberto Mota, Edmundo Manaças
Piano / órgão – Pedro Osório
Guitarra – Fernando Correia Martins
Guitarra baixo – Thilo Krasmann
Bateria – Vítor Mamede
Guitarra portuguesa – António Chainho
Viola – José Maria Nóbrega

Assistente de produção – Rocha oliveira
Técnicos de som – Hugo Ribeiro e Fernando Cortez
Misturas – José Dgo. Valeiras



Capa do EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá-Carneiro" (Parlophone/VC, 1964).



Capa do LP "Carlos do Carmo" (Tecla, 1972).
Concepção – Victor Reis.

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Outros artigos neste blogue com poesia dita/recitada:
Mário Viegas: 10 anos de saudade
Miguel Torga: "Natal"
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes
Arte e poesia
Poesia na rádio (II)
Jorge de Sena: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", por Mário Viegas
Sebastião da Gama: "Poesia", por Carmen Dolores
João Villaret: centenário do nascimento
Camões recitado e cantado
Ser Poeta
Pedro Barroso: "Palavras Mal Ditas" ou "Palavras Malditas"?
Em memória de Guilherme de Melo (1931-2013)
Celebrando Natália Correia
Em memória de António Ramos Rosa (1924-2013)
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Fernando Pessoa por João Villaret
Miguel Torga: "Ode à Poesia", por João Villaret
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Camões recitado e cantado (II)
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Al-Mu'tamid: "Evocação de Silves"
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)
Celebrando Eugénio de Andrade
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Dois Excertos de Odes", por Mário Viegas
Cesário Verde: "De Tarde"
Cesário Verde por Mário Viegas
António Gedeão: "Dia de Natal", por Afonso Dias
Camilo Pessanha: "Singra o navio", por Mário Viegas
Miguel Torga: "Flor da Liberdade"
Camões recitado e cantado (III)
Ana Moura: "Creio" (Natália Correia)
Sebastião da Gama: "Louvor da Poesia", por José Nobre
"Ecos da Ribalta": homenagem a Carmen Dolores
Natália Correia: "Rascunho de uma Epístola", por Ilda Feteira
Frei Fado d'El Rei: "Ramo Verde" (Jorge de Sena)
Camões recitado e cantado (IV)
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Aniversário", por Luís Lima Barreto
Miguel Torga: "Natividade"

20 março 2019

Grupo Coral "Os Ceifeiros de Cuba": "No Tempo da Primavera"


© António Carvalho (blogue "Lugares, Gentes e Curiosidades")


Damos as boas-vindas à Primavera de 2019 pondo em destaque um espécime do cancioneiro alentejano alusivo à estação do renascimento e das flores: a moda "No Tempo da Primavera" na magnífica e floreada interpretação do Grupo Coral "Os Ceifeiros de Cuba", um dos grupos históricos do cante (foi fundado em 1933).
A talhe de foice, impõe-se formular a seguinte pergunta: em que situação está o cante na Antena 1? Não é difícil verificar que sofre de continuada marginalização, como se de música maldita de tratasse. Vejamos: na 'playlist' está completamente ausente e os únicos espaços onde de vez em quando aparece – rubrica "Cantos da Casa" [>> RTP-Play] e programas "Cantos da Casa" [>> RTP-Play], "O Povo Que Volta a Cantar" [>> RTP-Play] e "Alma Lusa (Fim-de-Semana)" [>> RTP-Play] – são somente emitidos a horas de sono da generalidade do auditório.
Urge, portanto, que tão injusto e inaceitável estado de coisas seja alterado, de modo a que a esmagadora maioria dos ouvintes não continue alheada de uma das mais identitárias expressões musicais do país, ademais gozando ela, desde há quase cinco anos, da prerrogativa de Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Escusado será dizer que a transmissão daqueles programas em horários compatíveis com a disponibilidade/possibilidade de escuta do grosso do auditório, não obsta a que se crie uma rubrica diária (ou de segunda a sexta-feira) exclusivamente reservada ao cante, à qual se poderia, muito apropriadamente, dar o nome de "O Canto do Cante".
Fica apresentada a ideia. Se não tiver acolhimento, será mais um sinal evidente de que existe uma arreigada má-vontade da parte da direcção de programas para com o cante e toda a música portuguesa de raiz tradicional. Perante isso, cabe às entidades superiores tirarem as devidas ilações e agirem em conformidade com o cabal cumprimento das obrigações do serviço público de radiodifusão legalmente estabelecidas.



No Tempo da Primavera



Letra e música: Popular (Baixo Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral "Os Ceifeiros de Cuba"* (in CD "Musical Traditions of Portugal", col. Traditional Music of the World, vol. 9, Smithsonian Folkways/International Institute for Traditional Music, 1994)




No tempo da Primavera
Há lindas flores no prado.
Canta, ó lindo passarinho,
Ao nascer do Sol doirado!

Ao nascer do Sol doirado,
Ó meu amor, quem me dera,
Pisando os mimosos prados
No tempo da Primavera.


* Pontos – Ermelindo Galinha e Inácio Domingos Rendeiro Baptista
Altos – Francisco Cabaça e Manuel Martins
Grupo Coral "Os Ceifeiros de Cuba"
URL: https://www.facebook.com/ceifeiros.cuba/
http://www.joraga.net/gruposcorais/pags00/038CubaCeifeiros.htm



Capa do CD "Musical Traditions of Portugal" (col. Traditional Music of the World, vol. 9, Smithsonian Folkways/International Institute for Traditional Music, 1994)

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Outros artigos com canções alusivas à Primavera:
Cantos d'Aurora: "Primavera"
Roda Pé: "Primavera Alentejana"

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Outros artigos com modas por grupos corais alentejanos:
O canto alentejano é património da Humanidade
Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde": "Grândola, Vila Morena"

08 março 2019

João Lóio: "Cicatriz de Ser Mulher"




Neste Dia Internacional da Mulher, e estando no topo da agenda mediática, em razão da vergonhosa escalada de uxoricídios em Portugal, a violência exercida por muitos indivíduos do sexo masculino sobre as cônjuges ou ex-cônjuges –, apresentamos uma canção que aborda precisamente esse flagelo: "Cicatriz de Ser Mulher", de João Lóio.
O presente espécime, desconhecido do grande público porque João Jóio tem sido alvo de um atroz e criminoso silenciamento na rádio portuguesa, está longe de ser um caso isolado em termos de repertório autóctone alusivo à mulher maltratada ou encarada como simples serviçal. Listamos alguns exemplos (por ordem cronológica de gravação/edição): "Rosa Enjeitada", de Maria Teresa de Noronha; "Boneca de Trapo", de Luiz Goes; "Vai, Maria, Vai", de José Afonso; "Casa Comigo, Marta", de José Mário Branco; "Maria, Vida Fria", de Paulo de Carvalho; "Calçada de Carriche", de Carlos Mendes; "Esquina de Rua", de Rodrigo; "Balada para uma Mulher" e "Amélia dos Olhos Doces", de Carlos Mendes; "Balada da Rita", de Sérgio Godinho; "Mariana das Sete Saias", de Fausto Bordalo Dias; "Ai, Maria", de Amália Rodrigues; "Mulher-Mágoa", de Maria Armanda; "O Lado Errado da Noite", de Jorge Palma; "Prelúdio (Mãe Negra)", de Paulo de Carvalho; "Branca de Neve 1993", de Três Tristes Tigres"; "Criada para Todo o Serviço", de João Lóio; e "Bela Adormecida", de Jorge Fernando.
Havendo repertório tão bom, era de toda a pertinência que a Antena 1 o passasse, se não na totalidade ao menos em parte, ao longo da semana. Mas não! Nada!
Resta saber se tal omissão se deve a eventual marialvismo de quem tem responsabilidades na 'playlist' – Rui Pêgo e Ricardo Soares – ou se resulta de mera incúria.



Cicatriz de Ser Mulher



Letra e música: João Lóio
Intérprete: João Lóio* (in CD "Canções de Amor e Guerra", João Lóio, 2002)


Olha, não chores, maninha,
que eu não sei se vai passar...
essa tristeza tão funda
não sei se passa a chorar!

Olha, que pena, maninha,
essa flor de malmequer,
essa tristeza tão funda,
cicatriz de ser mulher!

Lembras? Que lindo o teu homem
e que meigo o seu olhar
e como ardia o teu corpo
ao seu mais leve tocar?

Foi de repente, maninha,
como tudo se mudou:
o amante foi senhor,
o senhor tudo esmagou!

Sei que é tão frágil a flor
que brotou do coração
e dói ver um corpo bandido
desfolhá-la pelo chão!

Olha, que os homens, maninha,
andam tontos pelo mundo:
pisam com fúria tamanha
o seu berço mais profundo!

E já não falo da guerra
com soldados frente a frente:
deixam a saia sangrando,
deixam pegadas no ventre!

Dizem "quem cala consente!",
mas custa tanto falar:
o medo dentro da gente
ficou mudo de gritar!

Olha, não chores, maninha,
que eu apago, se puder,
essa tristeza tão funda,
cicatriz de ser mulher!


* [Créditos gerais do disco]:
Carlos Rocha – guitarras acústica e eléctrica
João Lóio – voz e guitarra acústica
Firmino Neiva – baixo eléctrico
Arnaldo Fonseca – acordeão
Mário Teixeira – caixa de rufo
Regina Castro e Guilhermino Monteiro – coros
Arranjos e direcção musical – Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Gravado por Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, em Abril de 2002
Mistura – Fernando Rangel, Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Masterização – Fernando Rangel
URL: https://www.joaoloio.com/



Capa do CD "Canções de Amor e Guerra", de João Lóio.
Fotografia por Renato Roque.