29 outubro 2013

Celebrando Vinicius de Moraes



«Homem de bem com a vida, a favor da vida. A quem a vida nada negou e que também não se nega à vida. Criador de um lirismo em prosa e verso, falado e cantado, e sempre de exaltação à vida. A canção em Vinicius nasce de um encontro, não vem de um conflito. Encontro consigo mesmo, com o outro, com a sua cidade. Com o menino livre e feliz que foi, com o tempo da infância, fonte inesgotável quando tudo era indizivelmente bom. Menino de beira-mar, os carinhos de vento no rosto e as frescas mãos de maré nos seus dedos de água.
Encontro com o próximo, com aquele que se dá à vida. O que não se defende, o que não se fecha, o que não se recusa participar do espectáculo fascinante da grande e da pequena ventura de viver.
Encontro com os amigos, parceiros da vida em comum. E encontro com os parceiros, amigos da arte em comum. Encontro com a mulher amada, a amiga infinitamente amiga. E encontro com a mulher do povo, entre moringas e cenouras, emoldurada de vassouras. Com o operário em construção, dono de uma nova dimensão, uma dimensão da poesia. Encontro da sensibilidade pessoal com o sentimento popular, da inspiração e da técnica pessoais com o ritmo e inspiração gerais. Encontro da mulher com o homem, do amor. Das palavras com a música, da poesia com a canção. Poesia de aliança com a vida e canção de aliança com a multidão. Voz pessoal mas compreendendo muitas vozes. Encontro de uma voz com todas as vozes. Poeta do encontro, cantor da vida, Vinicius tomou partido do sentimento contra o ressentimento. Por isso, ele não semeia pedras como aquele que não ama, semeia canções, poesia. Que lhe foi dado perder-se de amor por tudo o que é digno e que vale a pena.
Vinicius canta o povo. O povo canta Vinicius.
A bênção, Vinicius de Moraes.» [Otto Lara Resende, "Vinicius, Poeta do Encontro", 1966]


Foi a 19 de Outubro de 1913, fez há dias cem anos, que nasceu Vinicius de Moraes (http://www.viniciusdemoraes.com.br/), distinto poeta e um dos maiores vultos da música popular brasileira da segunda metade do séc. XX e de todos os tempos.
E o que fez a direcção de programas da Antena 1 para comemorar a efeméride? Encomendou a Iolanda Ferreira uma série de cinco pequenos apontamentos sobre as mulheres de Vinicius e quatro programas-documentário, com cerca de meia hora casa um, tratando das suas passagens por Portugal (com testemunhos de José Nuno Martins, Pilar Mourão-Ferreira, Nicolau Breyner e outros) que foram transmitidos, respectivamente, na semana do dia do centenário e na subsequente (http://www.rtp.pt/play/p1331/as-mulheres-de-vinicius). É de saudar a iniciativa mas fica a saber a pouco, atendendo à importância do poeta, recitador e cantor. Impunha-se uma acção mais ampla e consistente, com o envolvimento da 'playlist' na celebração do autor d' "O Dia da Criação", de modo a proporcionar a audição, na íntegra, de boa parte do seu cancioneiro (pelo próprio e por outros – que são muitos) bem como dos poemas recitados. O legado de Vinicius de Moraes está recheado de pérolas que são não apenas património do Brasil mas da Lusofonia. Nesta ordem de ideias, a rádio pública de Portugal peca flagrantemente por omissão ao não divulgá-las ao público português.
O blogue "A Nossa Rádio" faz o serviço público de apresentar um bom punhado dessas pérolas. Felizardos os que aqui acederem pois têm a oportunidade de as revisitar ou descobrir.



O DIA DA CRIAÇÃO



Poema: Vinicius de Moraes (in "Poemas, Sonetos e Baladas", São Paulo: Edições Gavetas, 1946; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – p. 220-224)
Recitado pelo Autor* (in LP "Vinicius e Caymmi no Zum Zum com o Quarteto em Cy e o Conjunto Óscar Castro Neves", Elenco, 1967, reed. Universal, 2001, 2004)




                    Macho e fêmea os criou. 
                            BÍBLIA: Génesis, I, 27 

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.


II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espectáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.


* Arranjo – Óscar Castro Neves
Produção – Aloysio de Oliveira
Assistente de produção – José Delphino Filho
Gravado no Estúdio Rio Som, Rio de Janeiro, em 1965
Engenheiro de som – Norman Sternberg
Técnico de som – Umberto Contardi



O Desespero da Piedade



Poema de Vinicius de Moraes (parte da "Elegia Desesperada", in "Cinco Elegias", Rio de Janeiro: Pongetti, 1943; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – p. 104-109)
Recitado pelo Autor* (in LP "Vinicius em Portugal", Festa, 1969, reed. Universal, 2001, Tratore Music Brasil, 2007)




Meu senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quando enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direcção.

Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina.

Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.

Tende imensa piedade dos músicos dos cafés e casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.

Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.

Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Que em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...

Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas que são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!

Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Que lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.

Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tende mais piedade ainda dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.

Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tende piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!

Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.

Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.

Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.

Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.

Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.

Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.

Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e de sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!


* Produção – João Martins
Gravado na Livraria Quadrante, Lisboa, em 1969



O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO



Poema de Vinicius de Moraes (in jornal "Para Todos", fundado por Jorge Amado, 1956; "Novos Poemas II", Rio de Janeiro: São José, 1959; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – p. 369-378)
Recitado por Mário Viegas* (in EP "O Operário em Construção e 3 Poemas de Brecht", Orfeu, 1975; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 2 – "O Operário em Construção", Público, 2006)




                E o Diabo, levando-o a um alto monte,
                mostrou-lhe num momento de tempo
                todos os reinos do mundo. E disse-lhe
                o Diabo: 
                — Dar-te-ei todo este poder e a sua
                glória, porque a mim me foi entregue
                e dou-o a quem quero; portanto, se tu
                me adorares, tudo será teu. 
                E Jesus, respondendo, disse-lhe: 
                — Vai-te, Satanás; porque está escrito:
                adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele
                servirás. 
                            LUCAS, cap. V, versículos 5-8

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo,
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De facto, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse facto extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
— Garrafa, prato, facão —
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção,
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
— Exercer a profissão —
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um facto novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
— "Convençam-no" do contrário —
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
— Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que reflectia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objectos
Produtos, manufacturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

— Loucura! — gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
— Mentira! — disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fracturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.


* Produção – José Niza
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1975
Técnico de som – Manuel Cunha



RECEITA DE MULHER



Poema de Vinicius de Moraes (in "Novos Poemas II", Rio de Janeiro: São José, 1959; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – p. 346-349)
Recitado pelo Autor* (in EP "Vinicius de Moraes: Poesias", Festa, 1959; CD "Lances de Vinicius 1", Universal, 2001)




As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflicta e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que isso tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Que seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca húmida!), móvel, acordada é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo porém é o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinente é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Quando se os abrir ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efémero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.


* Produção – Irineu Garcia



Monólogo de Orfeu



Poema de Vinicius de Moraes (da peça "Orfeu da Conceição", 1956)
Recitado pelo Autor* (in EP "Orfeu da Conceição", Odeon, 1956, reed. Universal, 2001, EMI, 2006)
Música: António Carlos Jobim




Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...
E sabes de uma coisa? Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto — que é que eu sei! Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem — nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! E falas essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada
Sou coisa sem razão jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice...
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direcção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura! Quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres — que ele, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que eu estarei contigo!


* Orquestra Odeon
Arranjos e regência – António Carlos Jobim
Violão – Luiz Bonfá



Maria Vai com as Outras



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius de Moraes* (in LP "Toquinho e Vinicius", Discos RGE, 1971, Random, 1993, reed. Universal, 2001)




[instrumental]

Maria era uma boa moça
P'ra turma lá do Gantois
Era a Maria vai com as outras
Maria de coser, Maria de casar
Porém o que ninguém sabia
É que tinha um particular:
Além de coser, além de rezar
Também era Maria de pecar

Tumba-ê, caboclo, tumba lá e cá
Tumba-ê, guerreiro, tumba lá e cá
Tumba-ê, meu pai, tumba lá e cá
Não me deixe só, tumba lá e cá

Tumba-ê, caboclo, tumba lá e cá
Tumba-ê, guerreiro, tumba lá e cá
Tumba-ê, meu pai, tumba lá e cá
Não me deixe só

Maria que não foi com as outras
Maria que não foi p'ra o mar
No dia dois de Fevereiro
Maria não brincou na festa de Iemanjá
Não foi jogar água-de-cheiro
Nem flores p'ra sua orixá
Aí Iemanjá pegou e levou
O moço de Maria para o mar

Tumba-ê, caboclo, tumba lá e cá
Tumba-ê, guerreiro, tumba lá e cá
Tumba-ê, Iemanjá, tumba lá e cá
Não me deixe só, tumba lá e cá

Tumba-ê, caboclo, tumba lá e cá
Tumba-ê, guerreiro, tumba lá e cá
Tumba-ê, Iemanjá, tumba lá e cá
Não me deixe só, tumba lá e cá

Tumba-ê, caboclo, tumba lá e cá
Tumba-ê, guerreiro, tumba lá e cá
Tumba-ê, Iemanjá, tumba lá e cá
Não me deixe só, tumba lá e cá


* Arranjos - Briamonte
Produção – Toquinho
Coordenação – J. Shapiro
Técnico de gravação – Milton Rodrigues



Garota de Ipanema



Poema: Vinicius de Moraes
Música: António Carlos Jobim
Intérprete: Pery Ribeiro* (in LP "Pery É Todo Bossa", Odeon, 1963, reed. EMI, 1994, Discobertas, 2013)




Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça
É ela a menina que vem e que passa
Num doce balanço a caminho do mar
Moça do corpo dourado do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho?
Ah, porque tudo é tão triste?
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha
Ai, se ela soubesse que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo por causa do amor

[instrumental]

Ah, porque estou tão sozinho?
Ah, porque tudo é tão triste?
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha
Ai, se ela soubesse que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo por causa do amor

Por causa do amor
Por causa do amor


* Direcção musical e orquestração – Lyrio Panicalli
Produção – José Ribamar
Coordenação artística – Milton Miranda
Assistente de estúdio – Paulo Zito
Técnico de som – Ademar R. da Silva
Direcção técnica – Engenheiro Z. J. Merky
Técnico de equalização e corte de matriz – Reny Rizzi Lippi



Deve Ser Amor



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Baden Powell
Intérprete: Odette Lara* (in LP "Vinicius & Odette Lara", Elenco, 1963, reed. Universal, 2001, 2004)




Sim, sinceramente, amor
Eu não sei o que se passa em mim
É assim como uma dor
Mas que dói sem ser ruim
Sim, é ter no coração
Sempre uma canção
É tão embriagador
Deve ser, sim
Deve ser amor

Samba, samba diferente
Tristeza contente
Gosto de chorar, de chorar
Samba, ritmo envolvente
Como o amor da gente
Samba em chá-chá-chá
Chá-chá-chá

[instrumental]

Sim, é ter no coração
Sempre uma canção
É tão embriagador
Deve ser, sim
Deve ser amor

Samba, ritmo envolvente
Como o amor da gente
Samba em chá-chá-chá
Chá-chá-chá
Chá-chá-chá

Samba, samba diferente
Tristeza contente
Gosto de chorar, de chorar, de chorar
Samba, ritmo envolvente
Como o amor da gente
Samba em chá-chá-chá
Chá-chá-chá
Chá-chá-chá


* Arranjos e regência – Moacyr Santos
Produção e direcção – Aloysio de Oliveira
Assistente da direcção artística – José Delphino Filho
Gerente de produção – Peter Keller
Gravado no Estúdio Rio Som, Rio de Janeiro, em 1963
Engenheiro de som – Norman Sternberg
Técnico de gravação – Norman Sternberg



Eu Não Existo sem Você



Poema: Vinicius de Moraes
Música: António Carlos Jobim
Intérprete: Elizete Cardoso* (in LP "Canção do Amor Demais", Festa, 1958, reed. Eldorado, 2002, Biscoito Fino, 2008)




[instrumental]

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
E todo o grande amor só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham p'ra você

Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim e eu não existo sem você
Não há você sem mim e eu não existo sem você


* [Créditos gerais do disco:]
Elizete Cardoso – voz
António Carlos Jobim – piano, coros
João Gilberto – violão, coros
Nicolino Cópia (Copinha) – flauta
Edson Maciel, Gaúcho – trombones
Herbert – trompete
Irani Pinto – violino
Nídia Soledade – violoncelo
Vidal – contrabaixo
Juca Stockler (Juquinha) – bateria
Walter Santos – coros
Arranjos e regência – António Carlos Jobim
Gravado no Estúdio da Odeon, Rio de Janeiro, em Janeiro do 1958



Lamento no Morro



Poema: Vinicius de Moraes
Música: António Carlos Jobim
Intérpretes: Vinicius de Moraes*, Toquinho e Maria Creuza (in LP "Vinicius de Moraes en 'La Fusa' con Maria Creuza y Toquinho", Diorama, 1970, reed. DiscMedi, 1995, RP Music, 2006)




[instrumental]

Não posso esquecer
O teu olhar
Longe dos olhos meus
Ai, o meu viver
É de esperar
P'ra te dizer adeus

Creuzinha amada
Destino, destino meu
É madrugada
Sereno dos meus olhos já correu

Não posso esquecer
O teu olhar
Longe dos olhos meus
Ai, o meu viver
É de esperar
P'ra te dizer adeus

Mulher amada
Destino meu
É madrugada
Sereno dos meus olhos já correu

Não posso esquecer
O teu olhar
Longe dos olhos meus
Ai, o meu viver
É de esperar
P'ra te dizer adeus

P'ra te dizer adeus
P'ra te dizer adeus
P'ra te dizer adeus
P'ra te dizer adeus
P'ra te dizer adeus
P'ra te dizer adeus
P'ra te dizer adeus
P'ra te dizer adeus
P'ra te dizer adeus


* [Créditos gerais do disco:]
Toquinho – guitarra
Mario "Mojarra" Fernandez – contrabaixo
Enrique "Zurdo" Roizner – bateria
Fernando Gelbard e "Chango" Farías Gómez – percussão
Produção – Alfredo I. Radoszynski
Gravado nos Estúdios ION, Buenos Aires, em Julho de 1970
Técnico de gravação – Gerd Gaumgartner
Direcção de gravação – Mike Ribas



POEMA DOS OLHOS DA AMADA



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Paulo Soledade
Intérprete: Vinicius de Moraes* (in LP "Garota de Ipanema (Trilha Sonora do Filme)", Philips, 1967, reed. Universal, 2001, 2008)




[instrumental]

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais nocturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

Ó minha amada
De olhos ateus
Quem dera um dia
Quisesse Deus
Eu visse um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus...

Ó minha amada
Que olhos os teus...


* Dorival Caymmi – violão
Arranjos – Eumir Deodato
Supervisão – António Carlos Jobim
Produção executiva – Maria Alice Soares e Vinicius de Moraes
Engenheiro de som – Humberto Gatica



Pela Luz dos Olhos Teus



Poema e música: Vinicius de Moraes
Intérprete: Vinicius de Moraes* (in LP "Bossa Nova Mesmo", Philips, 1960; CD "Lances de Vinicius 1", Universal, 2001)




[instrumental]

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só p'ra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais, larirurá

Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar

[instrumental]

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais, larirurá

Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar


* Conjunto Óscar Castro Neves
Produção – Aloysio de Oliveira



TERNURA



Poema de Vinicius de Moraes (in "Novos Poemas", Rio de Janeiro: José Olympio, 1938; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – p. 134-135)
Recitado pelo Autor* (in LP "Vinicius em Portugal", Festa, 1969, reed. Universal, 2001, Tratore Music Brasil, 2007)


Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afecto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.


* Produção – João Martins
Gravado na Livraria Quadrante, Lisboa, em 1969



Eu Sei Que Vou te Amar



Poemas: Vinicius de Moraes (em itálico "Soneto de Fidelidade", 1939, in "Poemas, Sonetos e Baladas", São Paulo: Edições Gavetas, 1946; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – p. 136-137)
Música: António Carlos Jobim
Intérpretes: Maria Creuza, Vinicius de Moraes* e Toquinho (in LP "Vinicius de Moraes en 'La Fusa' con Maria Creuza y Toquinho", Phono Musical Argentina, 1970, reed. DiscMedi, 1995, RP Music, 2006)




[instrumental]

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será p'ra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há-de apagar
O que esta ausência tua me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida


* [Créditos gerais do disco:]
Toquinho – guitarra
Mario "Mojarra" Fernandez – contrabaixo
Enrique "Zurdo" Roizner – bateria
Fernando Gelbard e "Chango" Farías Gómez – percussão
Produção – Alfredo I. Radoszynski
Gravado nos Estúdios ION, Buenos Aires, em Julho de 1970
Técnico de gravação – Gerd Gaumgartner
Direcção de gravação – Mike Ribas



CÂNTICO



Poema de Vinicius de Moraes (in "Poemas, Sonetos e Baladas", São Paulo: Edições Gavetas, 1946; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – p. 170-173)
Recitado pelo Autor* (in LP "Vinicius em Portugal", Festa, 1969, reed. Universal, 2001, Tratore Music Brasil, 2007)


Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
De amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a ideia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde — são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trémulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E rescende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.


* Produção – João Martins
Gravado na Livraria Quadrante, Lisboa, em 1969



O MERGULHADOR



Poema de Vinicius de Moraes (in "Novos Poemas II", Rio de Janeiro: São José, 1959; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – p. 363-366)
Recitado pelo Autor* (in 2LP "Antologia Poética", Philips, 1977, reed. Universal, 2000, 2001)




                E il naufragar m'è dolce in questo mare. 
                            LEOPARDI

Como, dentro do mar, libérrimos, os polvos
No líquido luar tacteiam a coisa a vir
Assim, dentro do ar, meus lentos dedos loucos
Passeiam no teu corpo a te buscar-te a ti.

És a princípio doce plasma submarino
Flutuando ao sabor de súbitas correntes
Frias e quentes, substância estranha e íntima
De teor irreal e tacto transparente.

Depois teu seio é a infância, duna mansa
Cheia de alísios, marco espectral do istmo
Onde, a nudez vestida só de lua branca
Eu ia mergulhar minha face já triste.

Nele soterro a mão como a cravei criança
Noutro seio de que me lembro, também pleno...
Mas não sei... o ímpeto deste é doído e espanta
O outro me dava vida, este me mete medo.

Toco uma a uma as doces glândulas em feixes
Com a sensação que tinha ao mergulhar os dedos
Na massa cintilante e convulsa de peixes
Retiradas ao mar nas grandes redes pensas.

E ponho-me a cismar... — mulher, como te expandes!
Que imensa és tu! maior que o mar, maior que a infância!
De coordenadas tais e horizontes tão grandes
Que assim imersa em amor és uma Atlântida!

Vem-me a vontade de matar em ti toda a poesia
Tenho-te em garra; olhas-me apenas; e ouço
No tacto acelerar-se-me o sangue, na arritmia
Que faz meu corpo vil querer teu corpo moço.

E te amo, e te amo, e te amo, e te amo
Como o bicho feroz ama, a morder, a fêmea
Como o mar ao penhasco onde se atira insano
E onde a bramir se aplaca e a que retorna sempre.

Tenho-te e dou-me a ti válido e indissolúvel
Buscando a cada vez, entre tudo o que enerva
O imo do teu ser, o vórtice absoluto
Onde possa colher a grande flor da treva.

Amo-te os longos pés, ainda infantis e lentos
Na tua criação; amo-te as hastes tenras
Que sobem em suaves espirais adolescentes
E infinitas, de toque exacto e frémito.

Amo-te os braços juvenis que abraçam
Confiantes meu criminoso desvario
E as desveladas mãos, as mãos multiplicantes
Que em cardume acompanham o meu nadar sombrio.

Amo-te o colo pleno, onda de pluma e âmbar
Onda lenta e sozinha onde se exaure o mar
E onde é bom mergulhar até romper-me o sangue
E me afogar de amor e chorar e chorar.

Amo-te os grandes olhos sobre-humanos
Nos quais, mergulhador, sondo a escura voragem
Na ânsia de descobrir, nos mais fundos arcanos
Sob o oceano, oceanos; e além, a minha imagem.

Por isso — isso e ainda mais que a poesia não ousa
Quando depois de muito mar, de muito amor
Emergindo de ti, ah, que silêncio pousa
Ah, que tristeza cai sobre o mergulhador!

               Rio de Janeiro, 1951


* Roberto Menescal – violão
Jorginho – flauta



SONETO DO AMOR TOTAL



Poema de Vinicius de Moraes (in "Novos Poemas II", Rio de Janeiro: São José, 1959; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – p. 354-355)
Recitado pelo Autor (in 2LP "Antologia Poética", Philips, 1977, reed. Universal, 2000, 2001)




Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.

               Rio de Janeiro, 1951



Valsa sem Nome



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Baden Powell
Intérprete: Elizete Cardoso* (in LP "Elizete Interpreta Vinicius", Copacabana, 1963, reed. EMI, 2007)




Nada poderia contar-te um dia
O que é sofrer por teu amor
Mesmo a poesia não saberia
Contar-te nunca o meu amor

Eu te amo tanto
Que o meu pranto
Corre e corre apenas de lembrar
O teu encanto, o teu silêncio
E essa magia de te amar

Oh, meu amado, a vida é nada
E o tempo é só uma ilusão
Mas eu amo o tempo pois tu existes
E eu tenho um templo no coração
Mas as palavras não têm som nem cor
Para dizer do grande desespero
De te amar em prantos
E te amando em prantos
Cantar novos cantos
Proclamando o amor

[instrumental]

Oh, meu amado, a vida é nada
E o tempo é só uma ilusão
Mas eu amo o tempo pois tu existes
E eu tenho um templo no coração
Mas as palavras não têm som nem cor
Para dizer do grande desespero
De te amar em prantos
E te amando em prantos
Cantar novos cantos
Proclamando o amor


* Instrumentação e regência – Moacyr Santos



Apelo



Poemas: Vinicius de Moraes (em itálico "Soneto de Separação", 1938, in "Poemas, Sonetos e Baladas", São Paulo: Edições Gavetas, 1946; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – p. 208-209)
Música: Baden Powell
Intérpretes: Vinicius de Moraes*, Maria Bethânia e Toquinho (in LP "Vinicius + Bethânia + Toquinho... en 'La Fusa' (Mar del Plata)", Trova, 1971, reed. Alfa Records, 1991, DiscMedi, 1995, RP Music, 2006)




[instrumental]

Ah, meu amor não vás embora
Vê a vida como chora
Vê que triste esta canção
Não, eu te peço não te ausentes
Pois a dor que agora sentes
Só se esquece no perdão

Ah, minha amada, me perdoa
Pois embora ainda te doa
A tristeza que causei
Eu te suplico, não destruas
Tantas coisas que são tuas
Por um mal que já paguei

Ah, meu amado, se soubesses
A tristeza que há nas preces
Que a chorar te faço eu
Se tu soubesses no momento
Todo o arrependimento
Como tudo entristeceu

Se tu soubesses como é triste
Eu saber que tu partiste
Sem sequer dizer adeus
Ah, meu amor, tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus

Ah, meu amor, tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Ah, meu amor, tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus

Ah, meu amor, tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus


* Vinicius de Moraes – voz
Maria Bethânia - voz
Toquinho – voz, guitarra
Alfredo Remus – contrabaixo
Mike Ribas – piano
"Chango" Farías Gómez – percussão
Enrique "Zurdo" Roizner – bateria
Direcção musical – Mike Ribas
Produção – Alfredo I. Radoszynski
Gravado nos Estúdios Ion, Buenos Aires, em Janeiro de 1971
Técnicos de gravação – Carlos Piriz, Mike Ribas (piano)
Assistente – Gerd Gaumgartner



A Rosa Desfolhada



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius de Moraes* (in LP "Toquinho e Vinicius", Discos RGE, 1971, Random, 1993, reed. Universal, 2001)




[instrumental]

Tento compor o nosso amor
Dentro da tua ausência.
Toda a loucura, todo o martírio
De uma paixão imensa.

Teu toca-discos, nosso retrato,
Um tempo descuidado...
Tudo pisado, tudo partido,
Tudo no chão jogado.

E em cada canto
Teu desencanto, tua melancolia.
Teu triste vulto desesperado
Ante o que eu te dizia.

E logo o espanto e logo o insulto,
O amor dilacerado.
E logo o pranto ante a agonia
Do facto consumado.

Silenciosa ficou a rosa
No chão despetalada.
Que eu, com meus dedos, tentei a medo
Reconstituir do nada.

O teu perfume, teus doces pêlos,
A tua pele amada.
Tudo desfeito, tudo perdido,
A rosa desfolhada.


* Arranjos - Briamonte
Produção – Toquinho
Coordenação – J. Shapiro
Técnico de gravação – Milton Rodrigues



Bom Dia, Tristeza



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Adoniran Barbosa
Intérprete: Maysa* (in LP "Convite para Ouvir Maysa n.º 2", Discos RGE, 1958; 4CD "Simplesmente Maysa": CD 2, Som Livre, 2000)




Bom dia, tristeza
Que tarde, tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você

Se chegue, tristeza
Se sente comigo
Aqui, nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar


* Arranjos e regência – Enrico Simonetti



A Felicidade



Poema: Vinicius de Moraes
Música: António Carlos Jobim
Intérpretes: Maria Creuza, Vinicius de Moraes* e Toquinho (in LP "Vinicius de Moraes en 'La Fusa' con Maria Creuza y Toquinho", Diorama, 1970, reed. DiscMedi, 1995, RP Music, 2006)




Tristeza não tem fim
Felicidade sim
Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do Carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
P'ra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou de jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim
Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade é uma coisa louca
Mas tão delicada também
Tem flores e amores de todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo isso ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato sempre dela muito bem

Tristeza não tem fim
Felicidade sim
Tristeza não tem fim
Felicidade sim

Tristeza não tem fim


* [Créditos gerais do disco:]
Toquinho – guitarra
Mario "Mojarra" Fernandez – contrabaixo
Enrique "Zurdo" Roizner – bateria
Fernando Gelbard e "Chango" Farías Gómez – percussão
Produção – Alfredo I. Radoszynski
Gravado nos Estúdios ION, Buenos Aires, em Julho de 1970
Técnico de gravação – Gerd Gaumgartner
Direcção de gravação – Mike Ribas



As Razões do Coração



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérprete: Vinicius de Moraes* (in LP "Vinicius/Toquinho", Philips, 1975, reed. Universal, 2001, 2012)




[instrumental]

É uma saudade tão doída de você
Que eu não sei mais nada, não.
E é isso aí sempre que o amor não pode ser,
Sempre que a distância pode mais que o coração.

Olhos que se olham mas que não se podem ter,
Mãos que estão unidas mas não estão.
Olhe, meu amor, tudo que eu quero é não sofrer
Mais uma separação.

Fomos enganados pelo tempo,
Teu amor chegou tarde demais.
E o amor é sempre um sentimento
Que a separação não deixa em paz.

Pode ser assim, mas quem sou eu p'ra resolver
As razões do coração.
Olhe, meu amor, tudo que eu quero é nunca ser
Mais uma recordação.

[instrumental]

Pode ser assim, mas quem sou eu p'ra resolver
As razões do coração.
Olhe, meu amor, tudo que eu quero é nunca ser
Mais uma recordação.


* Produção – Fernando Faro



Onde Anda Você?



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Hermano Silva
Intérpretes: Vinicius de Moraes* (in LP "Vinicius/Toquinho", Philips, 1975, reed. Universal, 2001, 2012)




[instrumental]

E por falar em saudade
Onde anda você
Onde andam os seus olhos
Que a gente não vê?
Onde anda esse corpo
Que me deixou morto
De tanto prazer?

E por falar em beleza
Onde anda a canção
Que se ouvia na noite
Dos bares de então
Onde a gente ficava
Onde a gente se amava
Em total solidão?

Hoje eu saio na noite vazia
Numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares
Que apesar dos pesares
Me trazem você

E por falar em paixão
Em razão de viver
Você bem que podia me aparecer
Nesses mesmos lugares
Na noite, nos bares...
Onde anda você?

[instrumental]

Hoje eu saio na noite vazia
Numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares
Que apesar dos pesares
Me trazem você

E por falar em paixão
Em razão de viver
Você bem que podia me aparecer
Nesses mesmos lugares
Na noite, nos bares...
Onde anda você?


* Produção – Fernando Faro



Modinha n.º 1



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérprete: Toquinho* (in LP "Vinicius canta 'Nossa Filha Gabriela'", Polydor, 1972, reed. Universal, 2001, 2013)


[instrumental]

Mulher, ouve o meu desespero,
É só teu meu inteiro amor.
Oh, vem, tem um gesto e perdoa
A demência do teu cantor.

Ai, como pode um pobre poeta escravo
Padecer o travo de um doesto injusto,
Só um dissabor.
Ai, como pode tanto amor vivido
Merecer o olvido, suportar o agravo
Do teu desamor.

Mulher, abre a tua janela,
Aqui vela o teu trovador
Que em pranto soluça
Os seus últimos cantos
Ao nosso amor.

Vem e debruça tua imagem linda
Sobre o triste poeta que soluça ainda
De não ver-te mais.
E abre o teu quarto aos passos meus, amantes,
Para como dantes, nossos delirantes
Beijos abismais.


* Produção – Cayon J. Gadia



Ausência



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Marília Medalha
Intérprete: Marília Medalha* (in LP "A Canção e a Voz de Marília Medalha na Poesia de Vinicius de Moraes", Discos RGE, 1972, reed. Universal, 2001)




[instrumental]

Deixa secar no meu rosto
Esse pranto de amor que a presença desatou
Deixa passar o desgosto
Esse gosto da ausência que me restou
Eu tinha feito da saudade
A minha amiga mais constante
E ela a cada instante
Me pedia p'ra esperar

E foi tudo o que eu fiz, te esperei tanto
Tão sozinha no meu canto
Tendo apenas o meu canto p'ra cantar
Por isso deixa que o meu pensamento
Ainda lembre um momento
A saudade que eu vivi
A tua imagem fiel que hoje volta ao meu lado
E que eu sinto que perdi


* Produção – Vinicius de Moraes



Mais um Adeus



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérpretes: Toquinho e Marília Medalha* (in LP "Vinicius, Toquinho e Marília Medalha: Como Dizia o Poeta...", Discos RGE, 1971, reed. DiscMedi, 1998, Universal, 2001, Som Livre, 2005)




Mais um adeus
Uma separação
Outra vez, solidão
Outra vez, sofrimento
Mais um adeus
Que não pode esperar

O amor é uma agonia
Vem de noite, vai de dia
É uma alegria
E de repente
Uma vontade de chorar

Olha, benzinho, cuidado
Com o seu resfriado
Não pegue sereno
Não tome gelado
O gin é um veneno
Cuidado, benzinho
Não beba demais
Se guarde para mim
A ausência é um sofrimento
E se tiver um momento
Me escreva um carinho
E mande o dinheiro
P'ra o apartamento
Porque o vencimento
Não é como eu:
Não pode esperar

O amor é uma agonia
Vem de noite, vai de dia
É uma alegria
E de repente
Uma vontade de chorar

Olha, benzinho, cuidado
Com o seu resfriado
Não pegue sereno
Não tome gelado
O gin é um veneno
Cuidado, benzinho
Não beba demais
Se guarde para mim
A ausência é um sofrimento
E se tiver um momento
Me escreva um carinho
E mande o dinheiro
P'ra o apartamento
Porque o vencimento
Não é como eu:
Não pode esperar

O amor é uma agonia
Vem de noite, vai de dia
É uma alegria
E de repente
Uma vontade de chorar

O amor é uma agonia
Vem de noite, vai de dia
É uma alegria
E de repente
Uma vontade de chorar


* Arranjos - Briamonte
Produção – Toquinho
Coordenação – J. Shapiro
Gravado nos Estúdios Reunidos, São Paulo
Técnico de gravação – Milton Rodrigues



Saudades do Brasil em Portugal



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Homem Cristo
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP "Amália/Vinicius", Decca/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1988, EMI-VC, 2001, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




O sal das minhas lágrimas de amor
Criou o mar
Que existe entre nós dois
Para nos unir e separar

Pudesse eu te dizer
A dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração
Nesta paixão que não tem fim

Ausência tão cruel, saudade tão fatal
Saudades do Brasil em Portugal

Meu bem, sempre que ouvires um lamento
Crescer desolador na voz do vento
Sou eu em solidão pensando em ti
Chorando todo o tempo que perdi
Chorando todo o tempo que perdi


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Pedro Leal – viola
Gravado em casa de Amália Rodrigues, à Rua de São Bento, Lisboa, a 19 de Dezembro de 1968, e nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Gravação e mistura – Hugo Ribeiro



Chega de Saudade



Poema: Vinicius de Moraes
Música: António Carlos Jobim
Intérprete: Elizete Cardoso* (in LP "Canção do Amor Demais", Festa, 1958, reed. Eldorado, 2002, Biscoito Fino, 2008)




[instrumental]

Vai, minha tristeza
E diz a ele que sem ele não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ele regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade
A realidade é que sem ele
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai

Mas se ele voltar
Se ele voltar
Que coisa linda
Que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços
Hão-de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
P'ra acabar com esse negócio
De jamais viver sem mim

[instrumental]

Mas se ele voltar
Se ele voltar
Que coisa linda
Que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços
Hão-de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é p'ra acabar com esse negócio
De querer viver sem mim
Vamos deixar desse negócio
De viver longe de mim...


* [Créditos gerais do disco:]
Elizete Cardoso – voz
António Carlos Jobim – piano, coros
João Gilberto – violão, coros
Nicolino Cópia (Copinha) – flauta
Edson Maciel, Gaúcho – trombones
Herbert – trompete
Irani Pinto – violino
Nídia Soledade – violoncelo
Vidal – contrabaixo
Juca Stockler (Juquinha) – bateria
Walter Santos – coros
Arranjos e regência – António Carlos Jobim
Gravado no Estúdio da Odeon, Rio de Janeiro, em Janeiro do 1958



Desalento



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Chico Buarque (Francisco Buarque de Hollanda)
Intérprete: Chico Buarque* (in LP "Construção", Philips, 1971, reed. Philips/Polygram, 1988, Universal, 2000)




[instrumental]

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim

Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim

Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que eu estou louco
P'ra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É p'ra ela voltar

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos

[coro / instrumental]


* Chico Buarque – voz e violão
MPB-4 [Miltinho (Milton Lima dos Santos Filho), Magro (Antônio José Waghabi Filho), Aquiles (Aquiles Rique Reis) e Ruy Faria (Ruy Alexandre Faria)] – coros
Arranjos – Magro e Rogério Duprat
Produção e direcção (estúdio) – Roberto Menescal
Gravado no Estúdio da Phonogram, Rio de Janeiro
Técnicos de gravação – Toninho e Mazola



Samba em Prelúdio



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Baden Powell
Intérprete: Vinicius de Moraes e Odette Lara* (in LP "Vinicius & Odette Lara", Elenco, 1963, reed. Universal, 2001, 2004)




[instrumental]

Eu sem você
Não tenho porquê
Porque sem você
Não sei nem chorar
Sou chama sem luz
Jardim sem luar
Luar sem amor
Amor sem se dar

Eu sem você
Sou só desamor
Um barco sem mar
Um campo sem flor
Tristeza que vai
Tristeza que vem
Sem você, meu amor,
Eu não sou ninguém

Ah, que saudade
Que vontade
De ver renascer nossa vida
Volta, querido
Os meus braços precisam dos teus
Teus abraços precisam dos meus
Estou tão sozinha
Tenho os olhos cansados
De olhar para o além
Vem ver a vida
Sem você, meu amor,
Eu não sou ninguém

[instrumental]

Eu sem você
Não tenho porquê
Porque sem você
Não sei nem chorar
Sou chama sem luz
Jardim sem luar
Luar sem amor
Amor sem se dar

Eu sem você
Sou só desamor
Um barco sem mar
Um campo sem flor
Tristeza que vai
Tristeza que vem
Sem você, meu amor,
Eu não sou ninguém

Ah, que saudade
Que vontade
De ver renascer nossa vida
Volta, querido
Os meus braços precisam dos teus
Teus abraços precisam dos meus
Estou tão sozinha
Tenho os olhos cansados
De olhar para o além
Vem ver a vida
Sem você, meu amor,
Eu não sou ninguém


* Arranjos e regência – Moacyr Santos
Produção e direcção – Aloysio de Oliveira
Assistente da direcção artística – José Delphino Filho
Gerente de produção – Peter Keller
Gravado no Estúdio Rio Som, Rio de Janeiro, em 1963
Engenheiro de som – Norman Sternberg
Técnico de gravação – Norman Sternberg



Valsinha



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Chico Buarque (Francisco Buarque de Hollanda)
Intérprete: Chico Buarque* (in LP "Construção", Philips, 1971, reed. Philips/Polygram, 1988, Universal, 2000)




Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto
Era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto
P'ra seu grande espanto
Convidou-a p'ra rodar

Então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado
De tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça
E começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança
Toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda a cidade
Se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos
Como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz


* Chico Buarque – voz e violão
Arranjos – Magro e Rogério Duprat
Produção e direcção (estúdio) – Roberto Menescal
Gravado no Estúdio da Phonogram, Rio de Janeiro
Técnicos de gravação – Toninho e Mazola



Só por Amor



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Baden Powell
Intérprete: Odette Lara* (in LP "Vinicius & Odette Lara", Elenco, 1963, reed. Universal, 2001, 2004)




Só por amor
Só por paixão
Só por você
Você que nunca disse não
Só por saber
Que o coração
Sabe demais
Que a razão não tem razão

Por você que foi só meu
Sem jamais pensar porquê
Por você que apenas tinha
Razões e mais razões para não ser

Só por amor
Só por amada
Só por amar
Meu amor, muito obrigada

[instrumental]

Só por saber
Que o coração
Sabe demais
Que a razão não tem razão

Por você que foi só meu
Sem jamais pensar porquê
Por você que apenas tinha
Razões e mais razões para não ser

Só por amor
Só por amada
Só por amar
Meu amor, muito obrigada
Meu amor, muito obrigada
Meu amor, muito obrigada
Meu amor, muito obrigada


* Arranjos e regência – Moacyr Santos
Produção e direcção – Aloysio de Oliveira
Assistente da direcção artística – José Delphino Filho
Gerente de produção – Peter Keller
Gravado no Estúdio Rio Som, Rio de Janeiro, em 1963
Engenheiro de som – Norman Sternberg
Técnico de gravação – Norman Sternberg



Sei Lá... A Vida Tem Sempre Razão



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius de Moraes* (in LP "Toquinho e Vinicius", Discos RGE, 1971, Random, 1993, reed. Universal, 2001)




Tem dias que eu fico
Pensando na vida
E sinceramente
Não vejo saída
Como é, por exemplo
Que dá p'ra entender
A gente mal nasce
Começa a morrer
Depois da chegada
Vem sempre a partida
Porque não há nada
Sem separação

Sei lá, sei lá
A vida é uma grande ilusão
Eu sei lá, sei lá
Só sei que ela está com a razão

Sei lá, sei lá
A vida é uma grande ilusão
Sei lá, sei lá
Só sei que ela está com a razão

A gente nem sabe
Que males se apronta
Fazendo de conta
Fingindo esquecer
Que nada renasce
Antes que se acabe
E o sol que desponta
Tem que anoitecer
De nada adianta
Ficar-se de fora
A hora do sim
É um descuido do não

Sei lá, sei lá
Só sei que é preciso paixão
Eu sei lá, sei lá
A vida tem sempre razão

Sei lá, sei lá
Só sei que é preciso paixão
Sei lá, sei lá
A vida tem sempre razão

[instrumental]

De nada adianta
Ficar-se de fora
A hora do sim
É um descuido do não

Sei lá, sei lá
Só sei que é preciso paixão
Eu sei lá, sei lá
A vida tem sempre razão

Sei lá, sei lá
Só sei que é preciso paixão
Eu sei lá, sei lá
A vida tem sempre razão


* Arranjos - Briamonte
Produção – Toquinho
Coordenação – J. Shapiro
Técnico de gravação – Milton Rodrigues



Carta ao Tom 74



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérpretes: Vinicius de Moraes*, Toquinho e Quarteto em Cy (in LP "Vinicius & Toquinho", Philips, 1974, reed. Universal, 2001)




[instrumental]

Rua Nascimento Silva, 107
Você ensinando p'ra Elizete
As canções de "Canção do Amor Demais"
Lembra que tempo feliz
Ah, que saudade
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz

Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor

É, meu amigo, só resta uma certeza
É preciso acabar com essa tristeza
E preciso inventar de novo o amor

Rua Nascimento Silva, 107
Você ensinando p'ra Elizete
As canções de "Canção do Amor Demais"
Lembra que tempo feliz
Ah, que saudade
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz

Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor

É, meu amigo, só resta uma certeza
É preciso acabar com essa tristeza
E preciso inventar de novo o amor


* Arranjos - Edu Lobo, Francis Hime e Zé Roberto
Produção – Paulinho Tapajós
Técnico de gravação – Orlando Costa-Luigi



Samba da Bênção



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Baden Powell
Intérprete: Vinicius de Moraes* (in LP "Vinicius & Odette Lara", Elenco, 1963, reed. Universal, 2001, 2004)




É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas p'ra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E para ser só perdão

Fazer samba não é contar piada
Quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste, não

Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é p'ra valer
E não se engane, não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado em baixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é de brincadeira, amigo
A vida é a arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem num samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Eu, por exemplo, o capitão-do-mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha directa de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a bênção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do meu Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antônio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas a viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceirinho cem por cento
Você que une a acção ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste esse samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacyr Santos
Não és um só, és tantos
Tantos como o meu Brasil de todos os santos
Inclusive o meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem num samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
Ele é negro demais no coração
Ele é negro demais no coração


* Arranjos e regência – Moacyr Santos
Produção e direcção – Aloysio de Oliveira
Assistente da direcção artística – José Delphino Filho
Gerente de produção – Peter Keller
Gravado no Estúdio Rio Som, Rio de Janeiro, em 1963
Engenheiro de som – Norman Sternberg
Técnico de gravação – Norman Sternberg



Testamento



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius de Moraes* (in LP "Toquinho e Vinicius", Discos RGE, 1971, Random, 1993, reed. Universal, 2001)




[instrumental]

Você que só ganha p'ra juntar
O que é que há, diz pra mim, o que é que há?
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar

Por cima uma laje
Em baixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

Por cima uma laje
Em baixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

Pois é, amigo, como se dizia antigamente, o buraco é mais em baixo... E você com todo o seu baú, vai ficar por lá na mais total solidão, pensando à beça que não levou nada do que juntou: só seu terno de cerimónia. Que fossa, hein, meu chapa, que fossa...

Você que não pára p'ra pensar
Que o tempo é curto e não pára de passar
Você vai ver um dia, que remorso!
Como é bom parar

Ver um sol se pôr
Ou ver um sol raiar
E desligar, e desligar

Ver um sol se pôr
Ou ver um sol raiar
E desligar, e desligar

Mas você, que esperança... Bolsa, títulos, capital de giro, public relations (e tome gravata!), protocolos, comendas, caviar, champanhe (e tome gravata!), o amor sem paixão, o corpo sem alma, o pensamento sem espírito (e tome gravata!) e lá um belo dia, o enfarte; ou, pior ainda, o psiquiatra...

Você que só faz usufruir
E tem mulher p'ra usar ou p'ra exibir
Você vai ver um dia
Em que toca você foi bulir!

A mulher foi feita
P'ra o amor e p'ra o perdão
Cai nessa não, cai nessa não!

A mulher foi feita
P'ra o amor e p'ra o perdão
Cai nessa não, cai nessa não!

Você, por exemplo, está aí com a boneca do seu lado, linda e chiquérrima, crente que é o amo e senhor do material. E é aí que o distinto está muitíssimo enganado. O mais das vezes ela anda longe, perdida num mundo lírico e confuso, cheio de canções, aventura e magia. E você nem sequer toca a sua alma. É, as mulheres são muito estranhas, muito estranhas...

Você que não gosta de gostar
P'ra não sofrer, não sorrir e não chorar
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar!

Por cima uma laje
Em baixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

Por cima uma laje
Em baixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

É fogo, irmão! É fogo, irmão!
É fogo, irmão! É fogo, irmão!
É fogo, irmão! É fogo, irmão!


* Arranjos – Briamonte
Produção – Toquinho
Coordenação – J. Shapiro
Técnico de gravação – Milton Rodrigues



Amigos Meus



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérprete: Toquinho e Vinicius de Moraes* (in LP "Um Pouco de Ilusão", Ariola, 1980, reed. Universal, 2001)




[instrumental]

Amigos meus, está chegando a hora
Em que a tristeza aproveita p'ra entrar
E todos nós vamos ter que ir embora
P'ra a vida lá fora continuar

Amigos meus, está chegando a hora
Em que a tristeza aproveita p'ra entrar
E todos nós vamos ter que ir embora
P'ra a vida lá fora continuar

Tem sempre aquele
Que toma mais uma num bar
Tem sempre um outro
Que vai direitinho p'ra o lar
Mas tem também
Uma sala que está vazia
Sem luz, sem amor, sombria
Prontinha p'ra o show voltar
E em novo dia
A gente ver novamente
A sala se encher de gente
P'ra a gente recomeçar

E em novo dia
A gente ver novamente
A sala se encher de gente
P'ra a gente recomeçar

Amigos meus, está chegando a hora
Em que a tristeza aproveita p'ra entrar
E todos nós vamos ter que ir embora
P'ra a vida lá fora continuar

Amigos meus, está chegando a hora
Em que a tristeza aproveita p'ra entrar
E todos nós vamos ter que ir embora
P'ra a vida lá fora continuar

Tem sempre aquele
Que toma mais uma num bar
Tem sempre um outro
Que vai direitinho p'ra o lar
Mas tem também
Uma sala que está vazia
Sem luz, sem amor, sombria
Prontinha p'ra o show voltar
E em novo dia
A gente ver novamente
A sala se encher de gente
P'ra a gente recomeçar

E em novo dia
A gente ver novamente
A sala se encher de gente
P'ra a gente recomeçar

Amigos meus, está chegando a hora
Em que a tristeza aproveita p'ra entrar
E todos nós vamos ter que ir embora
P'ra a vida lá fora continuar

Amigos meus, está chegando a hora
Em que a tristeza aproveita p'ra entrar
E todos nós vamos ter que ir embora
P'ra a vida lá fora continuar

P'ra a vida lá fora continuar
P'ra a vida lá fora continuar
P'ra a vida lá fora continuar
P'ra a vida lá fora continuar
P'ra a vida lá fora continuar


* Produção – Mazola, Cayon J. Gadia e Toquinho



A HORA ÍNTIMA



Poema de Vinicius de Moraes (in "Novos Poemas II", Rio de Janeiro: São José, 1959; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – p. 333-336)
Recitado pelo Autor* (in EP "Vinicius de Moraes: Poesias", Festa, 1959; CD "Lances de Vinicius 1", Universal, 2001)




Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal...
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até à estrela-da-tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio,
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há-de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há-de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei-de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há-de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há-de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?


* Produção – Irineu Garcia



EPITÁFIO



Poema: Vinicius de Moraes (in "Poemas, Sonetos e Baladas", São Paulo: Edições Gavetas, 1946; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – p. 181)
Recitado pelo Autor (in 2LP "Antologia Poética", Philips, 1977, reed. Universal, 2000, 2001)




Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu luz ao dia
E apascentou a tarde

O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.

Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que

Possuiu a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.

               Oxford, 1939



Capa do LP "Canção do Amor Demais", de Elizete Cardoso (Festa, 1958).
Poesia de Vinicius de Moraes.
Música de António Carlos Jobim.
É considerado o disco fundador da bossa nova.



Capa do LP "Pery é Todo Bossa", de Pery Ribeiro (Odeon, 1963).
Inclui a primeira versão editada em disco da canção "Garota de Ipanema". Posteriormente gravada por inúmeros artistas (brasileiros e estrangeiros, entre os quais Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Diana Krall e Amy Winehouse) tornou-se a segunda canção mais tocada no mundo (a primeira é "Yesterday", dos Beatles).











Heloísa Pinto (n. 1945), hoje conhecida por Helô Pinheiro: a verdadeira "garota de Ipanema" que, em 1962, então com 17 anos de idade, inspirou Vinicius de Moraes e António Carlos Jobim.
Três anos mais tarde, Vinicius revelou à revista "Manchete" a identidade da musa inspiradora:

«Seu nome é Heloísa Eneida Menezes Paes Pinto, mas todos a chamam de Helô. Há três anos, ela passava, ali no cruzamento de Montenegro e Prudente de Morais, em demanda da praia, e nós a achávamos demais. Do nosso posto de observação, no [bar] Veloso, enxugando a nossa cervejinha, Tom e eu emudecíamos à sua vinda maravilhosa. O ar ficava mais volátil como para facilitar-lhe o divino balanço do andar. E lá ia ela toda linda, a garota de Ipanema, desenvolvendo no percurso a geometria espacial do seu balanceio quase samba, e cuja fórmula teria escapado aos Egípcios, teria escapado ao próprio Einstein; seria preciso um Antônio Carlos Jobim para pedir ao piano, em grande e religiosa intimidade, a revelação do seu segredo. Para ela fizemos, com todo o respeito e mudo encantamento, o samba que a colocou nas manchetes do mundo inteiro e fez de nossa querida Ipanema uma palavra mágica para os ouvintes estrangeiros. Ela foi e é para nós o paradigma do broto carioca: a moça dourada, misto de flor e sereia, cheia de luz e de graça mas cuja visão é também triste, pois carrega consigo, a caminho do mar, o sentimento do que passa, da beleza que não é só nossa – é um dom da vida em seu lindo e melancólico fluir e refluir constante.»

Heloísa Pinto casou-se em 1967 com o engenheiro Fernando Pinheiro convidando António Carlos Jobim para padrinho de casamento.



Capa do LP "Garota de Ipanema" (Philips, 1967).
Banda sonora do filme homónimo, realizado por Leon Hirszman, com Márcia Rodrigues no papel da protagonista (imagem infra).



Márcia Rodrigues contracenando com Chico Buarque no filme "Garota de Ipanema" (C.P.S. Produções Cinematográficas / Saga Filmes, 1967).
Argumento de Eduardo Coutinho, Leon Hirszman, Glauber Rocha e Vinicius de Moraes.

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