29 outubro 2013

Celebrando Vinicius de Moraes



«Homem de bem com a vida, a favor da vida. A quem a vida nada negou e que também não se nega à vida. Criador de um lirismo em prosa e verso, falado e cantado, e sempre de exaltação à vida. A canção em Vinicius nasce de um encontro, não vem de um conflito. Encontro consigo mesmo, com o outro, com a sua cidade. Com o menino livre e feliz que foi, com o tempo da infância, fonte inesgotável quando tudo era indizivelmente bom. Menino de beira-mar, os carinhos de vento no rosto e as frescas mãos de maré nos seus dedos de água.
Encontro com o próximo, com aquele que se dá à vida. O que não se defende, o que não se fecha, o que não se recusa participar do espectáculo fascinante da grande e da pequena ventura de viver.
Encontro com os amigos, parceiros da vida em comum. E encontro com os parceiros, amigos da arte em comum. Encontro com a mulher amada, a amiga infinitamente amiga. E encontro com a mulher do povo, entre moringas e cenouras, emoldurada de vassouras. Com o operário em construção, dono de uma nova dimensão, uma dimensão da poesia. Encontro da sensibilidade pessoal com o sentimento popular, da inspiração e da técnica pessoais com o ritmo e inspiração gerais. Encontro da mulher com o homem, do amor. Das palavras com a música, da poesia com a canção. Poesia de aliança com a vida e canção de aliança com a multidão. Voz pessoal mas compreendendo muitas vozes. Encontro de uma voz com todas as vozes. Poeta do encontro, cantor da vida, Vinicius tomou partido do sentimento contra o ressentimento. Por isso, ele não semeia pedras como aquele que não ama, semeia canções, poesia. Que lhe foi dado perder-se de amor por tudo o que é digno e que vale a pena. 
Vinicius canta o povo. O povo canta Vinicius.
A bênção, Vinicius de Moraes.» (Otto Lara Resende, "Vinicius, Poeta do Encontro", 1966)


Foi a 19 de Outubro de 1913, fez há dias cem anos, que nasceu Vinicius de Moraes (http://www.viniciusdemoraes.com.br/), distinto poeta e um dos maiores vultos da música popular brasileira da segunda metade do séc. XX e de todos os tempos.
E o que fez a direcção de programas da Antena 1 para comemorar a efeméride? Encomendou a Iolanda Ferreira uma série de cinco pequenos apontamentos sobre as mulheres de Vinicius e quatro programas-documentário, com cerca de meia hora casa um, tratando das suas passagens por Portugal (com testemunhos de José Nuno Martins, Pilar Mourão-Ferreira, Nicolau Breyner e outros) que foram transmitidos, respectivamente, na semana do dia do centenário e na subsequente (http://www.rtp.pt/play/p1331/as-mulheres-de-vinicius). É de saudar a iniciativa mas fica a saber a pouco, atendendo à importância do poeta, recitador e cantor. Impunha-se uma acção mais ampla e consistente, com o envolvimento da 'playlist' na celebração do autor d' "O Dia da Criação", de modo a proporcionar a audição, na íntegra, de boa parte do seu cancioneiro (pelo próprio e por outros – que são muitos) bem como dos poemas recitados. O legado de Vinicius de Moraes está recheado de pérolas que são não apenas património do Brasil mas da Lusofonia. Nesta ordem de ideias, a rádio pública de Portugal peca flagrantemente por omissão ao não divulgá-las ao público português.
O blogue "A Nossa Rádio" faz o serviço público de apresentar um bom punhado dessas pérolas. Felizardos os que aqui acederem pois têm a oportunidade de as revisitar ou descobrir.



O DIA DA CRIAÇÃO



Poema: Vinicius de Moraes (in "Poemas, Sonetos e Baladas", São Paulo: Edições Gavetas, 1946; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 220-224)
Recitado pelo Autor* (in LP "Vinicius e Caymmi no Zum Zum com o Quarteto em Cy e o Conjunto Óscar Castro Neves", Elenco, 1967, reed. Universal, 2001, 2004)




                    Macho e fêmea os criou. 
                            BÍBLIA: Génesis, I, 27 

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo 
A vida vem em ondas, como o mar 
Os bondes andam em cima dos trilhos 
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar. 

Hoje é sábado, amanhã é domingo 
Não há nada como o tempo para passar 
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo 
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal. 

Hoje é sábado, amanhã é domingo 
Amanhã não gosta de ver ninguém bem 
Hoje é que é o dia do presente 
O dia é sábado. 

Impossível fugir a essa dura realidade 
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios 
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas 
Todos os maridos estão funcionando regularmente 
Todas as mulheres estão atentas 
Porque hoje é sábado. 


II

Neste momento há um casamento 
Porque hoje é sábado 
Há um divórcio e um violamento 
Porque hoje é sábado 
Há um homem rico que se mata 
Porque hoje é sábado 
Há um incesto e uma regata 
Porque hoje é sábado 
Há um espectáculo de gala 
Porque hoje é sábado 
Há uma mulher que apanha e cala 
Porque hoje é sábado 
Há um renovar-se de esperanças 
Porque hoje é sábado 
Há uma profunda discordância 
Porque hoje é sábado 
Há um sedutor que tomba morto 
Porque hoje é sábado 
Há um grande espírito de porco 
Porque hoje é sábado 
Há uma mulher que vira homem 
Porque hoje é sábado 
Há criancinhas que não comem 
Porque hoje é sábado 
Há um piquenique de políticos 
Porque hoje é sábado 
Há um grande acréscimo de sífilis 
Porque hoje é sábado 
Há um ariano e uma mulata 
Porque hoje é sábado 
Há uma tensão inusitada 
Porque hoje é sábado 
Há adolescências seminuas 
Porque hoje é sábado 
Há um vampiro pelas ruas 
Porque hoje é sábado 
Há um grande aumento no consumo 
Porque hoje é sábado 
Há um noivo louco de ciúmes 
Porque hoje é sábado 
Há um garden-party na cadeia 
Porque hoje é sábado 
Há uma impassível lua cheia 
Porque hoje é sábado 
Há damas de todas as classes 
Porque hoje é sábado 
Umas difíceis, outras fáceis 
Porque hoje é sábado 
Há um beber e um dar sem conta 
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta 
Porque hoje é sábado 
Há um padre passeando à paisana 
Porque hoje é sábado 
Há um frenesi de dar banana 
Porque hoje é sábado 
Há a sensação angustiante 
Porque hoje é sábado 
De uma mulher dentro de um homem 
Porque hoje é sábado 
Há a comemoração fantástica 
Porque hoje é sábado 
Da primeira cirurgia plástica 
Porque hoje é sábado 
E dando os trâmites por findos 
Porque hoje é sábado 
Há a perspectiva do domingo 
Porque hoje é sábado. 


* Arranjo – Óscar Castro Neves
Produção – Aloysio de Oliveira
Assistente de produção – José Delphino Filho
Gravado no Estúdio Rio Som, Rio de Janeiro, em 1965
Engenheiro de som – Norman Sternberg
Técnico de som – Umberto Contardi



O Desespero da Piedade



Poema de Vinicius de Moraes (parte da "Elegia Desesperada", in "Cinco Elegias", Rio de Janeiro: Pongetti, 1943; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 104-109)
Recitado pelo Autor* (in LP "Vinicius em Portugal", Festa, 1969, reed. Universal, 2001, Tratore Music Brasil, 2007)




Meu senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quando enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direcção.

Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina.

Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.

Tende imensa piedade dos músicos dos cafés e casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.

Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.

Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Que em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...

Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas que são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!

Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Que lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.

Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tende mais piedade ainda dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.

Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tende piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!

Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.

Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.

Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.

Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.

Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.

Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.

Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e de sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!


* Produção – João Martins
Gravado na Livraria Quadrante, Lisboa, em 1969



O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO 



Poema de Vinicius de Moraes (in jornal "Para Todos", fundado por Jorge Amado, 1956; "Novos Poemas II", Rio de Janeiro: São José, 1959; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 369-378)
Recitado por Mário Viegas* (in EP "O Operário em Construção e 3 Poemas de Brecht", Orfeu, 1975; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 2 – "O Operário em Construção", Público, 2006)




                E o Diabo, levando-o a um alto monte,
                mostrou-lhe num momento de tempo
                todos os reinos do mundo. E disse-lhe
                o Diabo: 
                — Dar-te-ei todo este poder e a sua
                glória, porque a mim me foi entregue
                e dou-o a quem quero; portanto, se tu
                me adorares, tudo será teu. 
                E Jesus, respondendo, disse-lhe: 
                — Vai-te, Satanás; porque está escrito:
                adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele
                servirás. 
                            LUCAS, cap. V, versículos 5-8

Era ele que erguia casas 
Onde antes só havia chão. 
Como um pássaro sem asas 
Ele subia com as casas 
Que lhe brotavam da mão. 
Mas tudo desconhecia 
De sua grande missão: 
Não sabia, por exemplo, 
Que a casa de um homem é um templo 
Um templo sem religião 
Como tampouco sabia 
Que a casa que ele fazia 
Sendo a sua liberdade 
Era a sua escravidão. 

De facto, como podia 
Um operário em construção 
Compreender por que um tijolo 
Valia mais do que um pão? 
Tijolos ele empilhava 
Com pá, cimento e esquadria 
Quanto ao pão, ele o comia... 
Mas fosse comer tijolo! 
E assim o operário ia 
Com suor e com cimento 
Erguendo uma casa aqui 
Adiante um apartamento 
Além uma igreja, à frente 
Um quartel e uma prisão: 
Prisão de que sofreria 
Não fosse, eventualmente 
Um operário em construção. 

Mas ele desconhecia 
Esse facto extraordinário: 
Que o operário faz a coisa 
E a coisa faz o operário. 
De forma que, certo dia 
À mesa, ao cortar o pão 
O operário foi tomado 
De uma súbita emoção 
Ao constatar assombrado 
Que tudo naquela mesa 
— Garrafa, prato, facão — 
Era ele quem os fazia 
Ele, um humilde operário, 
Um operário em construção. 
Olhou em torno: gamela 
Banco, enxerga, caldeirão 
Vidro, parede, janela 
Casa, cidade, nação! 
Tudo, tudo o que existia 
Era ele quem o fazia 
Ele, um humilde operário 
Um operário que sabia 
Exercer a profissão. 

Ah, homens de pensamento 
Não sabereis nunca o quanto 
Aquele humilde operário 
Soube naquele momento! 
Naquela casa vazia 
Que ele mesmo levantara 
Um mundo novo nascia 
De que sequer suspeitava. 
O operário emocionado 
Olhou sua própria mão 
Sua rude mão de operário 
De operário em construção 
E olhando bem para ela 
Teve um segundo a impressão 
De que não havia no mundo 
Coisa que fosse mais bela. 

Foi dentro da compreensão 
Desse instante solitário 
Que, tal sua construção, 
Cresceu também o operário. 
Cresceu em alto e profundo 
Em largo e no coração 
E como tudo que cresce 
Ele não cresceu em vão 
Pois além do que sabia 
— Exercer a profissão — 
O operário adquiriu 
Uma nova dimensão: 
A dimensão da poesia. 

E um facto novo se viu 
Que a todos admirava: 
O que o operário dizia 
Outro operário escutava. 
E foi assim que o operário 
Do edifício em construção 
Que sempre dizia sim 
Começou a dizer não
E aprendeu a notar coisas 
A que não dava atenção: 
Notou que sua marmita 
Era o prato do patrão 
Que sua cerveja preta 
Era o uísque do patrão 
Que seu macacão de zuarte 
Era o terno do patrão 
Que o casebre onde morava 
Era a mansão do patrão 
Que seus dois pés andarilhos 
Eram as rodas do patrão 
Que a dureza do seu dia 
Era a noite do patrão 
Que sua imensa fadiga 
Era amiga do patrão. 

E o operário disse: Não! 
E o operário fez-se forte 
Na sua resolução. 

Como era de se esperar 
As bocas da delação 
Começaram a dizer coisas 
Aos ouvidos do patrão. 
Mas o patrão não queria 
Nenhuma preocupação 
— "Convençam-no" do contrário — 
Disse ele sobre o operário 
E ao dizer isso sorria. 

Dia seguinte, o operário 
Ao sair da construção 
Viu-se súbito cercado 
Dos homens da delação 
E sofreu, por destinado 
Sua primeira agressão. 
Teve seu rosto cuspido 
Teve seu braço quebrado 
Mas quando foi perguntado 
O operário disse: Não! 

Em vão sofrera o operário 
Sua primeira agressão 
Muitas outras se seguiram 
Muitas outras seguirão. 
Porém, por imprescindível 
Ao edifício em construção 
Seu trabalho prosseguia 
E todo o seu sofrimento 
Misturava-se ao cimento 
Da construção que crescia. 

Sentindo que a violência 
Não dobraria o operário 
Um dia tentou o patrão 
Dobrá-lo de modo vário. 
De sorte que o foi levando 
Ao alto da construção 
E num momento de tempo 
Mostrou-lhe toda a região 
E apontando-a ao operário 
Fez-lhe esta declaração: 
— Dar-te-ei todo esse poder 
E a sua satisfação 
Porque a mim me foi entregue 
E dou-o a quem bem quiser. 
Dou-te tempo de lazer 
Dou-te tempo de mulher. 
Portanto, tudo o que vês 
Será teu se me adorares 
E, ainda mais, se abandonares 
O que te faz dizer não

Disse, e fitou o operário 
Que olhava e que reflectia 
Mas o que via o operário 
O patrão nunca veria. 
O operário via as casas 
E dentro das estruturas 
Via coisas, objectos 
Produtos, manufacturas. 
Via tudo o que fazia 
O lucro do seu patrão 
E em cada coisa que via 
Misteriosamente havia 
A marca de sua mão. 
E o operário disse: Não! 

— Loucura! — gritou o patrão 
Não vês o que te dou eu? 
— Mentira! — disse o operário 
Não podes dar-me o que é meu. 

E um grande silêncio fez-se 
Dentro do seu coração 
Um silêncio de martírios 
Um silêncio de prisão. 
Um silêncio povoado 
De pedidos de perdão 
Um silêncio apavorado 
Com o medo em solidão. 
Um silêncio de torturas 
E gritos de maldição 
Um silêncio de fracturas 
A se arrastarem no chão. 
E o operário ouviu a voz 
De todos os seus irmãos 
Os seus irmãos que morreram 
Por outros que viverão. 
Uma esperança sincera 
Cresceu no seu coração 
E dentro da tarde mansa 
Agigantou-se a razão 
De um homem pobre e esquecido 
Razão porém que fizera 
Em operário construído 
O operário em construção.


* Produção – José Niza
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1975
Técnico de som – Manuel Cunha



RECEITA DE MULHER



Poema de Vinicius de Moraes (in "Novos Poemas II", Rio de Janeiro: São José, 1959; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 346-349)
Recitado pelo Autor* (in EP "Vinicius de Moraes: Poesias", Festa, 1959; CD "Lances de Vinicius 1", Universal, 2001)




As muito feias que me perdoem 
Mas beleza é fundamental. É preciso 
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso 
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture 
Em tudo isso (ou então 
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa). 
Não há meio-termo possível. É preciso 
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito 
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto 
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora. 
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflicta e desabroche 
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso 
Que isso tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas 
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços 
Alguma coisa além da carne: que se os toque 
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos 
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro 
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Que seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem 
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então 
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca 
Fresca (nunca húmida!), móvel, acordada é também de extrema pertinência. 
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos 
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas 
No enlaçar de uma cintura semovente. 
Gravíssimo porém é o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras 
É como um rio sem pontes. Indispensável 
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida 
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios 
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca 
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas. 
Sobremodo pertinente é estarem a caveira e a coluna vertebral 
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal! 
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas 
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem 
No entanto sensível à carícia em sentido contrário. 
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio 
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!) 
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos 
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão 
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre 
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos 
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face 
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior 
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras 
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes 
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e 
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão 
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta 
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros. 
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos 
Quando se os abrir ela não mais estará presente 
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá 
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber 
O fel da dúvida. Oh, sobretudo 
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo 
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade 
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma 
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre 
O impossível perfume; e destile sempre 
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto 
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina 
Do efémero; e em sua incalculável imperfeição 
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.


* Produção – Irineu Garcia



Monólogo de Orfeu



Poema de Vinicius de Moraes (da peça "Orfeu da Conceição", 1956)
Recitado pelo Autor* (in EP "Orfeu da Conceição", Odeon, 1956, reed. Universal, 2001, EMI, 2006)
Música: António Carlos Jobim




Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...
E sabes de uma coisa? Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto — que é que eu sei! Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem — nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! E falas essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada
Sou coisa sem razão jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice...
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direcção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura! Quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres — que ele, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que eu estarei contigo!


* Orquestra Odeon
Arranjos e regência – António Carlos Jobim
Violão – Luiz Bonfá



Maria Vai com as Outras



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius de Moraes* (in LP "Toquinho e Vinicius", Discos RGE, 1971, Random, 1993, reed. Universal, 2001)




[instrumental]

Maria era uma boa moça 
P'ra turma lá do Gantois 
Era a Maria vai com as outras 
Maria de coser, Maria de casar 
Porém o que ninguém sabia 
É que tinha um particular: 
Além de coser, além de rezar 
Também era Maria de pecar 

Tumba-ê, caboclo, tumba lá e cá 
Tumba-ê, guerreiro, tumba lá e cá 
Tumba-ê, meu pai, tumba lá e cá 
Não me deixe só, tumba lá e cá 

Tumba-ê, caboclo, tumba lá e cá 
Tumba-ê, guerreiro, tumba lá e cá 
Tumba-ê, meu pai, tumba lá e cá 
Não me deixe só

Maria que não foi com as outras 
Maria que não foi p'ra o mar 
No dia dois de Fevereiro 
Maria não brincou na festa de Iemanjá 
Não foi jogar água-de-cheiro 
Nem flores p'ra sua orixá 
Aí Iemanjá pegou e levou 
O moço de Maria para o mar 

Tumba-ê, caboclo, tumba lá e cá 
Tumba-ê, guerreiro, tumba lá e cá 
Tumba-ê, Iemanjá, tumba lá e cá 
Não me deixe só, tumba lá e cá

Tumba-ê, caboclo, tumba lá e cá 
Tumba-ê, guerreiro, tumba lá e cá 
Tumba-ê, Iemanjá, tumba lá e cá 
Não me deixe só, tumba lá e cá

Tumba-ê, caboclo, tumba lá e cá 
Tumba-ê, guerreiro, tumba lá e cá 
Tumba-ê, Iemanjá, tumba lá e cá 
Não me deixe só, tumba lá e cá


* Arranjos - Briamonte
Produção – Toquinho
Coordenação – J. Shapiro
Técnico de gravação – Milton Rodrigues



Garota de Ipanema



Poema: Vinicius de Moraes
Música: António Carlos Jobim
Intérprete: Pery Ribeiro* (in LP "Pery É Todo Bossa", Odeon, 1963, reed. EMI, 1994, Discobertas, 2013)




Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça 
É ela a menina que vem e que passa 
Num doce balanço a caminho do mar 
Moça do corpo dourado do sol de Ipanema 
O seu balançado é mais que um poema 
É a coisa mais linda que eu já vi passar 

Ah, porque estou tão sozinho? 
Ah, porque tudo é tão triste? 
Ah, a beleza que existe 
A beleza que não é só minha 
Que também passa sozinha 
Ai, se ela soubesse que quando ela passa 
O mundo inteirinho se enche de graça 
E fica mais lindo por causa do amor

[instrumental]

Ah, porque estou tão sozinho? 
Ah, porque tudo é tão triste? 
Ah, a beleza que existe 
A beleza que não é só minha 
Que também passa sozinha 
Ai, se ela soubesse que quando ela passa 
O mundo inteirinho se enche de graça 
E fica mais lindo por causa do amor

Por causa do amor
Por causa do amor


* Direcção musical e orquestração – Lyrio Panicalli
Produção – José Ribamar
Coordenação artística – Milton Miranda
Assistente de estúdio – Paulo Zito
Técnico de som – Ademar R. da Silva
Direcção técnica – Engenheiro Z. J. Merky
Técnico de equalização e corte de matriz – Reny Rizzi Lippi



Deve Ser Amor



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Baden Powell
Intérprete: Odette Lara* (in LP "Vinicius & Odette Lara", Elenco, 1963, reed. Universal, 2001, 2004)




Sim, sinceramente, amor 
Eu não sei o que se passa em mim 
É assim como uma dor 
Mas que dói sem ser ruim 
Sim, é ter no coração 
Sempre uma canção 
É tão embriagador 
Deve ser, sim 
Deve ser amor 

Samba, samba diferente 
Tristeza contente 
Gosto de chorar, de chorar
Samba, ritmo envolvente 
Como o amor da gente 
Samba em chá-chá-chá 
Chá-chá-chá 

[instrumental]

Sim, é ter no coração 
Sempre uma canção 
É tão embriagador 
Deve ser, sim 
Deve ser amor 

Samba, ritmo envolvente 
Como o amor da gente 
Samba em chá-chá-chá 
Chá-chá-chá 
Chá-chá-chá 

Samba, samba diferente 
Tristeza contente 
Gosto de chorar, de chorar, de chorar
Samba, ritmo envolvente 
Como o amor da gente 
Samba em chá-chá-chá 
Chá-chá-chá 
Chá-chá-chá 


* Arranjos e regência – Moacyr Santos 
Produção e direcção – Aloysio de Oliveira
Assistente da direcção artística – José Delphino Filho
Gerente de produção – Peter Keller
Gravado no Estúdio Rio Som, Rio de Janeiro, em 1963
Engenheiro de som – Norman Sternberg
Técnico de gravação – Norman Sternberg



Eu Não Existo sem Você 



Poema: Vinicius de Moraes
Música: António Carlos Jobim
Intérprete: Elizete Cardoso* (in LP "Canção do Amor Demais", Festa, 1958, reed. Eldorado, 2002, Biscoito Fino, 2008)




[instrumental]

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
E todo o grande amor só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham p'ra você

Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim e eu não existo sem você
Não há você sem mim e eu não existo sem você


* [Créditos gerais do disco:]
Elizete Cardoso – voz
António Carlos Jobim – piano, coros
João Gilberto – violão, coros
Nicolino Cópia (Copinha) – flauta
Edson Maciel, Gaúcho – trombones
Herbert – trompete
Irani Pinto – violino
Nídia Soledade – violoncelo
Vidal – contrabaixo
Juca Stockler (Juquinha) – bateria
Walter Santos – coros
Arranjos e regência – António Carlos Jobim 
Gravado no Estúdio da Odeon, Rio de Janeiro, em Janeiro do 1958



Lamento no Morro



Poema: Vinicius de Moraes
Música: António Carlos Jobim
Intérpretes: Vinicius de Moraes*, Toquinho e Maria Creuza (in LP "Vinicius de Moraes en 'La Fusa' con Maria Creuza y Toquinho", Diorama, 1970, reed. DiscMedi, 1995, RP Music, 2006)




[instrumental]

Não posso esquecer 
O teu olhar 
Longe dos olhos meus 
Ai, o meu viver 
É de esperar 
P'ra te dizer adeus 

Creuzinha amada 
Destino, destino meu 
É madrugada 
Sereno dos meus olhos já correu

Não posso esquecer 
O teu olhar 
Longe dos olhos meus 
Ai, o meu viver 
É de esperar 
P'ra te dizer adeus 

Mulher amada 
Destino meu 
É madrugada 
Sereno dos meus olhos já correu

Não posso esquecer 
O teu olhar 
Longe dos olhos meus 
Ai, o meu viver 
É de esperar 
P'ra te dizer adeus 

P'ra te dizer adeus 
P'ra te dizer adeus 
P'ra te dizer adeus 
P'ra te dizer adeus 
P'ra te dizer adeus 
P'ra te dizer adeus 
P'ra te dizer adeus 
P'ra te dizer adeus 
P'ra te dizer adeus 


* [Créditos gerais do disco:]
Toquinho – guitarra
Mario "Mojarra" Fernandez – contrabaixo
Enrique "Zurdo" Roizner – bateria
Fernando Gelbard e "Chango" Farías Gómez – percussão
Produção – Alfredo I. Radoszynski
Gravado nos Estúdios ION, Buenos Aires, em Julho de 1970
Técnico de gravação – Gerd Gaumgartner
Direcção de gravação – Mike Ribas



POEMA DOS OLHOS DA AMADA



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Paulo Soledade
Intérprete: Vinicius de Moraes* (in LP "Garota de Ipanema (Trilha Sonora do Filme)", Philips, 1967, reed. Universal, 2001, 2008)




[instrumental]

Ó minha amada 
Que olhos os teus 
São cais nocturnos 
Cheios de adeus 
São docas mansas 
Trilhando luzes 
Que brilham longe 
Longe nos breus... 

Ó minha amada 
Que olhos os teus 
Quanto mistério 
Nos olhos teus 
Quantos saveiros 
Quantos navios 
Quantos naufrágios 
Nos olhos teus... 

Ó minha amada 
De olhos ateus 
Quem dera um dia 
Quisesse Deus
Eu visse um dia
O olhar mendigo 
Da poesia 
Nos olhos teus...

Ó minha amada 
Que olhos os teus...


* Dorival Caymmi – violão
Arranjos – Eumir Deodato
Supervisão – António Carlos Jobim 
Produção executiva – Maria Alice Soares e Vinicius de Moraes
Engenheiro de som – Humberto Gatica



Pela Luz dos Olhos Teus



Poema e música: Vinicius de Moraes
Intérprete: Vinicius de Moraes* (in LP "Bossa Nova Mesmo", Philips, 1960; CD "Lances de Vinicius 1", Universal, 2001)




[instrumental]

Quando a luz dos olhos meus 
E a luz dos olhos teus 
Resolvem se encontrar 
Ai, que bom que isso é, meu Deus 
Que frio que me dá 
O encontro desse olhar 

Mas se a luz dos olhos teus 
Resiste aos olhos meus 
Só p'ra me provocar 
Meu amor, juro por Deus 
Me sinto incendiar 

Meu amor, juro por Deus 
Que a luz dos olhos meus 
Já não pode esperar 
Quero a luz dos olhos meus 
Na luz dos olhos teus 
Sem mais, larirurá 

Pela luz dos olhos teus 
Eu acho, meu amor 
E só se pode achar 
Que a luz dos olhos meus 
Precisa se casar

[instrumental]

Meu amor, juro por Deus 
Que a luz dos olhos meus 
Já não pode esperar 
Quero a luz dos olhos meus 
Na luz dos olhos teus 
Sem mais, larirurá 

Pela luz dos olhos teus 
Eu acho, meu amor 
E só se pode achar 
Que a luz dos olhos meus 
Precisa se casar


* Conjunto Óscar Castro Neves
Produção – Aloysio de Oliveira



TERNURA



Poema de Vinicius de Moraes (in "Novos Poemas", Rio de Janeiro: José Olympio, 1938; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 134-135)
Recitado pelo Autor* (in LP "Vinicius em Portugal", Festa, 1969, reed. Universal, 2001, Tratore Music Brasil, 2007)


Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afecto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.


* Produção – João Martins
Gravado na Livraria Quadrante, Lisboa, em 1969



Eu Sei Que Vou te Amar 



Poemas: Vinicius de Moraes (em itálico "Soneto de Fidelidade", 1939, in "Poemas, Sonetos e Baladas", São Paulo: Edições Gavetas, 1946; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 136-137)
Música: António Carlos Jobim
Intérpretes: Maria Creuza, Vinicius de Moraes* e Toquinho (in LP "Vinicius de Moraes en 'La Fusa' con Maria Creuza y Toquinho", Phono Musical Argentina, 1970, reed. DiscMedi, 1995, RP Music, 2006)




[instrumental]

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será p'ra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há-de apagar
O que esta ausência tua me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
  
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida


* [Créditos gerais do disco:]
Toquinho – guitarra
Mario "Mojarra" Fernandez – contrabaixo
Enrique "Zurdo" Roizner – bateria
Fernando Gelbard e "Chango" Farías Gómez – percussão
Produção – Alfredo I. Radoszynski
Gravado nos Estúdios ION, Buenos Aires, em Julho de 1970
Técnico de gravação – Gerd Gaumgartner
Direcção de gravação – Mike Ribas



CÂNTICO



Poema de Vinicius de Moraes (in "Poemas, Sonetos e Baladas", São Paulo: Edições Gavetas, 1946; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 170-173)
Recitado pelo Autor* (in LP "Vinicius em Portugal", Festa, 1969, reed. Universal, 2001, Tratore Music Brasil, 2007)


Não, tu não és um sonho, és a existência 
Tens carne, tens fadiga e tens pudor 
No calmo peito teu. Tu és a estrela 
Sem nome, és a morada, és a cantiga 
De amor, és luz, és lírio, namorada! 
Tu és todo o esplendor, o último claustro 
Da elegia sem fim, anjo! mendiga 
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca 
Minha, fosses a ideia, o sentimento 
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora 
Ausente, amiga, eu não te perderia! 
Amada! onde te deixas, onde vagas 
Entre as vagas flores? e por que dormes 
Entre os vagos rumores do mar? Tu 
Primeira, última, trágica, esquecida 
De mim! És linda, és alta! és sorridente 
És como o verde do trigal maduro 
Teus olhos têm a cor do firmamento 
Céu castanho da tarde — são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia 
Do amor! prende o poema em forma e cor 
No espaço; para o astro do poente 
És o levante, és o Sol! eu sou o gira 
O gira, o girassol. És a soberba 
Também, a jovem rosa purpurina 
És rápida também, como a andorinha! 
Doçura! lisa e murmurante... a água 
Que corre no chão morno da montanha 
És tu; tens muitas emoções; o pássaro 
Do trópico inventou teu meigo nome 
Duas vezes, de súbito encantado! 
Dona do meu amor! sede constante 
Do meu corpo de homem! melodia 
Da minha poesia extraordinária! 
Por que me arrastas? Por que me fascinas? 
Por que me ensinas a morrer? teu sonho 
Me leva o verso à sombra e à claridade. 
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço 
De ti, sou teu cantor humilde e terno 
Teu silêncio, teu trémulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias 
Melancólicas, ah, tão melancólicas... 
Amiga, entra de súbito, pergunta 
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri 
Esse riso que é tosse de ternura 
Carrega-me em teu seio, louca! sinto 
A infância em teu amor! cresçamos juntos 
Como se fora agora, e sempre; demos 
Nomes graves às coisas impossíveis 
Recriemos a mágica do sonho 
Lânguida! ah, que o destino nada pode 
Contra esse teu langor; és o penúltimo 
Lirismo! encosta a tua face fresca 
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo 
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma 
É o último suspiro da poesia 
O mar é nosso, a rosa tem seu nome 
E rescende mais pura ao seu chamado. 
Julieta! Carlota! Beatriz! 
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto 
Que se não brinco, choro, e desse pranto 
Desse pranto sem dor, que é o único amigo 
Das horas más em que não estás comigo.


* Produção – João Martins
Gravado na Livraria Quadrante, Lisboa, em 1969



O MERGULHADOR



Poema de Vinicius de Moraes (in "Novos Poemas II", Rio de Janeiro: São José, 1959; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 363-366)
Recitado pelo Autor* (in 2LP "Antologia Poética", Philips, 1977, reed. Universal, 2000, 2001)




                E il naufragar m'è dolce in questo mare. 
                            LEOPARDI

Como, dentro do mar, libérrimos, os polvos 
No líquido luar tacteiam a coisa a vir 
Assim, dentro do ar, meus lentos dedos loucos 
Passeiam no teu corpo a te buscar-te a ti. 

És a princípio doce plasma submarino 
Flutuando ao sabor de súbitas correntes 
Frias e quentes, substância estranha e íntima 
De teor irreal e tacto transparente. 

Depois teu seio é a infância, duna mansa 
Cheia de alísios, marco espectral do istmo 
Onde, a nudez vestida só de lua branca 
Eu ia mergulhar minha face já triste. 

Nele soterro a mão como a cravei criança 
Noutro seio de que me lembro, também pleno... 
Mas não sei... o ímpeto deste é doído e espanta 
O outro me dava vida, este me mete medo. 

Toco uma a uma as doces glândulas em feixes 
Com a sensação que tinha ao mergulhar os dedos 
Na massa cintilante e convulsa de peixes 
Retiradas ao mar nas grandes redes pensas. 

E ponho-me a cismar... — mulher, como te expandes! 
Que imensa és tu! maior que o mar, maior que a infância! 
De coordenadas tais e horizontes tão grandes 
Que assim imersa em amor és uma Atlântida! 

Vem-me a vontade de matar em ti toda a poesia 
Tenho-te em garra; olhas-me apenas; e ouço 
No tacto acelerar-se-me o sangue, na arritmia 
Que faz meu corpo vil querer teu corpo moço. 

E te amo, e te amo, e te amo, e te amo 
Como o bicho feroz ama, a morder, a fêmea 
Como o mar ao penhasco onde se atira insano 
E onde a bramir se aplaca e a que retorna sempre. 

Tenho-te e dou-me a ti válido e indissolúvel 
Buscando a cada vez, entre tudo o que enerva 
O imo do teu ser, o vórtice absoluto 
Onde possa colher a grande flor da treva. 

Amo-te os longos pés, ainda infantis e lentos 
Na tua criação; amo-te as hastes tenras 
Que sobem em suaves espirais adolescentes 
E infinitas, de toque exacto e frémito. 

Amo-te os braços juvenis que abraçam 
Confiantes meu criminoso desvario 
E as desveladas mãos, as mãos multiplicantes 
Que em cardume acompanham o meu nadar sombrio. 

Amo-te o colo pleno, onda de pluma e âmbar 
Onda lenta e sozinha onde se exaure o mar 
E onde é bom mergulhar até romper-me o sangue 
E me afogar de amor e chorar e chorar. 

Amo-te os grandes olhos sobre-humanos 
Nos quais, mergulhador, sondo a escura voragem 
Na ânsia de descobrir, nos mais fundos arcanos 
Sob o oceano, oceanos; e além, a minha imagem. 

Por isso — isso e ainda mais que a poesia não ousa 
Quando depois de muito mar, de muito amor 
Emergindo de ti, ah, que silêncio pousa 
Ah, que tristeza cai sobre o mergulhador!

               Rio de Janeiro, 1951


* Roberto Menescal – violão
Jorginho – flauta



SONETO DO AMOR TOTAL



Poema de Vinicius de Moraes (in "Novos Poemas II", Rio de Janeiro: São José, 1959; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 354-355)
Recitado pelo Autor (in 2LP "Antologia Poética", Philips, 1977, reed. Universal, 2000, 2001)




Amo-te tanto, meu amor... não cante 
O humano coração com mais verdade... 
Amo-te como amigo e como amante 
Numa sempre diversa realidade. 

Amo-te afim, de um calmo amor prestante, 
E te amo além, presente na saudade. 
Amo-te, enfim, com grande liberdade 
Dentro da eternidade e a cada instante. 

Amo-te como um bicho, simplesmente, 
De um amor sem mistério e sem virtude 
Com um desejo maciço e permanente. 

E de te amar assim, muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente 
Hei-de morrer de amar mais do que pude.

               Rio de Janeiro, 1951



Valsa sem Nome



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Baden Powell
Intérprete: Elizete Cardoso* (in LP "Elizete Interpreta Vinicius", Copacabana, 1963, reed. EMI, 2007)




Nada poderia contar-te um dia 
O que é sofrer por teu amor 
Mesmo a poesia não saberia 
Contar-te nunca o meu amor

Eu te amo tanto 
Que o meu pranto
Corre e corre apenas de lembrar 
O teu encanto, o teu silêncio
E essa magia de te amar 

Oh, meu amado, a vida é nada 
E o tempo é só uma ilusão 
Mas eu amo o tempo pois tu existes 
E eu tenho um templo no coração 
Mas as palavras não têm som nem cor 
Para dizer do grande desespero 
De te amar em prantos 
E te amando em prantos 
Cantar novos cantos 
Proclamando o amor

[instrumental]

Oh, meu amado, a vida é nada 
E o tempo é só uma ilusão 
Mas eu amo o tempo pois tu existes 
E eu tenho um templo no coração 
Mas as palavras não têm som nem cor 
Para dizer do grande desespero 
De te amar em prantos 
E te amando em prantos 
Cantar novos cantos 
Proclamando o amor


* Instrumentação e regência – Moacyr Santos



Apelo



Poemas: Vinicius de Moraes (em itálico "Soneto de Separação", 1938, in "Poemas, Sonetos e Baladas", São Paulo: Edições Gavetas, 1946; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 208-209)
Música: Baden Powell
Intérpretes: Vinicius de Moraes*, Maria Bethânia e Toquinho (in LP "Vinicius + Bethânia + Toquinho... en 'La Fusa' (Mar del Plata)", Trova, 1971, reed. Alfa Records, 1991, DiscMedi, 1995, RP Music, 2006)




[instrumental]

Ah, meu amor não vás embora
Vê a vida como chora
Vê que triste esta canção
Não, eu te peço não te ausentes
Pois a dor que agora sentes
Só se esquece no perdão

Ah, minha amada, me perdoa
Pois embora ainda te doa
A tristeza que causei
Eu te suplico, não destruas
Tantas coisas que são tuas
Por um mal que já paguei

Ah, meu amado, se soubesses
A tristeza que há nas preces
Que a chorar te faço eu
Se tu soubesses no momento
Todo o arrependimento
Como tudo entristeceu

Se tu soubesses como é triste
Eu saber que tu partiste
Sem sequer dizer adeus
Ah, meu amor, tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus

Ah, meu amor, tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus

De repente do riso fez-se o pranto 
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 

De repente da calma fez-se o vento 

Que dos olhos desfez a última chama 
E da paixão fez-se o pressentimento 
E do momento imóvel fez-se o drama. 

De repente, não mais que de repente 

Fez-se de triste o que se fez amante 
E de sozinho o que se fez contente. 

Fez-se do amigo próximo o distante 

Fez-se da vida uma aventura errante 
De repente, não mais que de repente.

Ah, meu amor, tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus

Ah, meu amor, tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus


* Vinicius de Moraes – voz
Maria Bethânia - voz
Toquinho – voz, guitarra
Alfredo Remus – contrabaixo
Mike Ribas – piano
"Chango" Farías Gómez – percussão
Enrique "Zurdo" Roizner – bateria
Direcção musical – Mike Ribas
Produção – Alfredo I. Radoszynski
Gravado nos Estúdios Ion, Buenos Aires, em Janeiro de 1971
Técnicos de gravação – Carlos Piriz, Mike Ribas (piano)
Assistente – Gerd Gaumgartner



A Rosa Desfolhada



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius de Moraes* (in LP "Toquinho e Vinicius", Discos RGE, 1971, Random, 1993, reed. Universal, 2001)




[instrumental]

Tento compor o nosso amor
Dentro da tua ausência.
Toda a loucura, todo o martírio
De uma paixão imensa.

Teu toca-discos, nosso retrato,
Um tempo descuidado...
Tudo pisado, tudo partido,
Tudo no chão jogado.

E em cada canto
Teu desencanto, tua melancolia.
Teu triste vulto desesperado
Ante o que eu te dizia.

E logo o espanto e logo o insulto,
O amor dilacerado.
E logo o pranto ante a agonia
Do facto consumado.

Silenciosa ficou a rosa
No chão despetalada.
Que eu, com meus dedos, tentei a medo
Reconstituir do nada.

O teu perfume, teus doces pêlos,
A tua pele amada.
Tudo desfeito, tudo perdido,
A rosa desfolhada.


* Arranjos - Briamonte
Produção – Toquinho
Coordenação – J. Shapiro
Técnico de gravação – Milton Rodrigues



Bom Dia, Tristeza



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Adoniran Barbosa
Intérprete: Maysa* (in LP "Convite para Ouvir Maysa n.º 2", Discos RGE, 1958; 4CD "Simplesmente Maysa": CD2, Som Livre, 2000)




Bom dia, tristeza
Que tarde, tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você

Se chegue, tristeza
Se sente comigo
Aqui, nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar


* Arranjos e regência – Enrico Simonetti



A Felicidade



Poema: Vinicius de Moraes
Música: António Carlos Jobim
Intérpretes: Maria Creuza, Vinicius de Moraes* e Toquinho (in LP "Vinicius de Moraes en 'La Fusa' con Maria Creuza y Toquinho", Diorama, 1970, reed. DiscMedi, 1995, RP Music, 2006)




Tristeza não tem fim
Felicidade sim
Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do Carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
P'ra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou de jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim
Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade é uma coisa louca
Mas tão delicada também
Tem flores e amores de todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo isso ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato sempre dela muito bem

Tristeza não tem fim
Felicidade sim
Tristeza não tem fim
Felicidade sim

Tristeza não tem fim


* [Créditos gerais do disco:]
Toquinho – guitarra
Mario "Mojarra" Fernandez – contrabaixo
Enrique "Zurdo" Roizner – bateria
Fernando Gelbard e "Chango" Farías Gómez – percussão
Produção – Alfredo I. Radoszynski
Gravado nos Estúdios ION, Buenos Aires, em Julho de 1970
Técnico de gravação – Gerd Gaumgartner
Direcção de gravação – Mike Ribas



As Razões do Coração



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérprete: Vinicius de Moraes* (in LP "Vinicius/Toquinho", Philips, 1975, reed. Universal, 2001, 2012)




[instrumental]

É uma saudade tão doída de você
Que eu não sei mais nada, não.
E é isso aí sempre que o amor não pode ser,
Sempre que a distância pode mais que o coração.

Olhos que se olham mas que não se podem ter,
Mãos que estão unidas mas não estão.
Olhe, meu amor, tudo que eu quero é não sofrer
Mais uma separação.

Fomos enganados pelo tempo,
Teu amor chegou tarde demais.
E o amor é sempre um sentimento
Que a separação não deixa em paz.

Pode ser assim, mas quem sou eu p'ra resolver
As razões do coração.
Olhe, meu amor, tudo que eu quero é nunca ser
Mais uma recordação.

[instrumental]

Pode ser assim, mas quem sou eu p'ra resolver
As razões do coração.
Olhe, meu amor, tudo que eu quero é nunca ser
Mais uma recordação.


* Produção – Fernando Faro 



Onde Anda Você?



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Hermano Silva
Intérpretes: Vinicius de Moraes* (in LP "Vinicius/Toquinho", Philips, 1975, reed. Universal, 2001, 2012)




[instrumental]

E por falar em saudade 
Onde anda você 
Onde andam os seus olhos 
Que a gente não vê?
Onde anda esse corpo 
Que me deixou morto 
De tanto prazer?

E por falar em beleza 
Onde anda a canção 
Que se ouvia na noite 
Dos bares de então
Onde a gente ficava 
Onde a gente se amava 
Em total solidão? 

Hoje eu saio na noite vazia 
Numa boemia sem razão de ser 
Na rotina dos bares 
Que apesar dos pesares 
Me trazem você 

E por falar em paixão 
Em razão de viver 
Você bem que podia me aparecer 
Nesses mesmos lugares 
Na noite, nos bares... 
Onde anda você?

[instrumental]

Hoje eu saio na noite vazia 
Numa boemia sem razão de ser 
Na rotina dos bares 
Que apesar dos pesares 
Me trazem você 

E por falar em paixão 
Em razão de viver 
Você bem que podia me aparecer 
Nesses mesmos lugares 
Na noite, nos bares...
Onde anda você?


* Produção – Fernando Faro 



Modinha n.º 1



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérprete: Toquinho* (in LP "Vinicius canta 'Nossa Filha Gabriela'", Polydor, 1972, reed. Universal, 2001, 2013)


[instrumental]

Mulher, ouve o meu desespero,
É só teu meu inteiro amor.
Oh, vem, tem um gesto e perdoa
A demência do teu cantor.

Ai, como pode um pobre poeta escravo
Padecer o travo de um doesto injusto,
Só um dissabor.
Ai, como pode tanto amor vivido
Merecer o olvido, suportar o agravo
Do teu desamor.

Mulher, abre a tua janela,
Aqui vela o teu trovador
Que em pranto soluça
Os seus últimos cantos
Ao nosso amor.

Vem e debruça tua imagem linda
Sobre o triste poeta que soluça ainda
De não ver-te mais.
E abre o teu quarto aos passos meus, amantes,
Para como dantes, nossos delirantes
Beijos abismais.


* Produção – Cayon J. Gadia 



Ausência



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Marília Medalha
Intérprete: Marília Medalha* (in LP "A Canção e a Voz de Marília Medalha na Poesia de Vinicius de Moraes", Discos RGE, 1972, reed. Universal, 2001)




[instrumental]

Deixa secar no meu rosto
Esse pranto de amor que a presença desatou
Deixa passar o desgosto
Esse gosto da ausência que me restou
Eu tinha feito da saudade
A minha amiga mais constante
E ela a cada instante
Me pedia p'ra esperar

E foi tudo o que eu fiz, te esperei tanto
Tão sozinha no meu canto
Tendo apenas o meu canto p'ra cantar
Por isso deixa que o meu pensamento
Ainda lembre um momento
A saudade que eu vivi
A tua imagem fiel que hoje volta ao meu lado
E que eu sinto que perdi


* Produção – Vinicius de Moraes



Mais um Adeus



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérpretes: Toquinho e Marília Medalha* (in LP "Vinicius, Toquinho e Marília Medalha: Como Dizia o Poeta...", Discos RGE, 1971, reed. DiscMedi, 1998, Universal, 2001, Som Livre, 2005)




Mais um adeus 
Uma separação 
Outra vez, solidão 
Outra vez, sofrimento 
Mais um adeus 
Que não pode esperar 

O amor é uma agonia 
Vem de noite, vai de dia 
É uma alegria 
E de repente 
Uma vontade de chorar 

Olha, benzinho, cuidado 
Com o seu resfriado 
Não pegue sereno 
Não tome gelado 
O gin é um veneno 
Cuidado, benzinho 
Não beba demais 
Se guarde para mim 
A ausência é um sofrimento 
E se tiver um momento 
Me escreva um carinho 
E mande o dinheiro 
P'ra o apartamento 
Porque o vencimento 
Não é como eu: 
Não pode esperar 

O amor é uma agonia 
Vem de noite, vai de dia 
É uma alegria 
E de repente 
Uma vontade de chorar

Olha, benzinho, cuidado 
Com o seu resfriado 
Não pegue sereno 
Não tome gelado 
O gin é um veneno 
Cuidado, benzinho 
Não beba demais 
Se guarde para mim 
A ausência é um sofrimento 
E se tiver um momento 
Me escreva um carinho 
E mande o dinheiro 
P'ra o apartamento 
Porque o vencimento 
Não é como eu: 
Não pode esperar 

O amor é uma agonia 
Vem de noite, vai de dia 
É uma alegria 
E de repente 
Uma vontade de chorar

O amor é uma agonia 
Vem de noite, vai de dia 
É uma alegria 
E de repente 
Uma vontade de chorar


* Arranjos - Briamonte
Produção – Toquinho
Coordenação – J. Shapiro
Gravado nos Estúdios Reunidos, São Paulo
Técnico de gravação – Milton Rodrigues



Saudades do Brasil em Portugal



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Homem Cristo
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP "Amália/Vinicius", Decca/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1988, EMI-VC, 2001, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




O sal das minhas lágrimas de amor
Criou o mar 
Que existe entre nós dois
Para nos unir e separar

Pudesse eu te dizer
A dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração 
Nesta paixão que não tem fim

Ausência tão cruel, saudade tão fatal
Saudades do Brasil em Portugal

Meu bem, sempre que ouvires um lamento
Crescer desolador na voz do vento
Sou eu em solidão pensando em ti
Chorando todo o tempo que perdi 
Chorando todo o tempo que perdi 


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Pedro Leal – viola
Gravado em casa de Amália Rodrigues, à Rua de São Bento, Lisboa, a 19 de Dezembro de 1968, e nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Gravação e mistura – Hugo Ribeiro



Chega de Saudade



Poema: Vinicius de Moraes
Música: António Carlos Jobim
Intérprete: Elizete Cardoso* (in LP "Canção do Amor Demais", Festa, 1958, reed. Eldorado, 2002, Biscoito Fino, 2008)




[instrumental]

Vai, minha tristeza 
E diz a ele que sem ele não pode ser 
Diz-lhe numa prece 
Que ele regresse 
Porque eu não posso mais sofrer 

Chega de saudade 
A realidade é que sem ele 
Não há paz, não há beleza 
É só tristeza e a melancolia 
Que não sai de mim 
Não sai de mim 
Não sai 

Mas se ele voltar 
Se ele voltar 
Que coisa linda 
Que coisa louca 
Pois há menos peixinhos a nadar no mar 
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca 
Dentro dos meus braços os abraços 
Hão-de ser milhões de abraços 
Apertado assim, colado assim, calado assim, 
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim 
P'ra acabar com esse negócio 
De jamais viver sem mim

[instrumental]

Mas se ele voltar 
Se ele voltar 
Que coisa linda 
Que coisa louca 
Pois há menos peixinhos a nadar no mar 
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca 
Dentro dos meus braços os abraços 
Hão-de ser milhões de abraços 
Apertado assim, colado assim, calado assim, 
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim 
Que é p'ra acabar com esse negócio 
De querer viver sem mim
Vamos deixar desse negócio 
De viver longe de mim...


* [Créditos gerais do disco:]
Elizete Cardoso – voz
António Carlos Jobim – piano, coros
João Gilberto – violão, coros
Nicolino Cópia (Copinha) – flauta
Edson Maciel, Gaúcho – trombones
Herbert – trompete
Irani Pinto – violino
Nídia Soledade – violoncelo
Vidal – contrabaixo
Juca Stockler (Juquinha) – bateria
Walter Santos – coros
Arranjos e regência – António Carlos Jobim 
Gravado no Estúdio da Odeon, Rio de Janeiro, em Janeiro do 1958



Desalento



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Chico Buarque (Francisco Buarque de Hollanda)
Intérprete: Chico Buarque* (in LP "Construção", Philips, 1971, reed. Philips/Polygram, 1988, Universal, 2000)




[instrumental]

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim

Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim

Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que eu estou louco
P'ra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É p'ra ela voltar

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos

[coro / instrumental]


* Chico Buarque – voz e violão
MPB-4 [Miltinho (Milton Lima dos Santos Filho), Magro (Antônio José Waghabi Filho), Aquiles (Aquiles Rique Reis) e Ruy Faria (Ruy Alexandre Faria)] – coros
Arranjos – Magro e Rogério Duprat
Produção e direcção (estúdio) – Roberto Menescal
Gravado no Estúdio da Phonogram, Rio de Janeiro
Técnicos de gravação – Toninho e Mazola



Samba em Prelúdio



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Baden Powell
Intérprete: Vinicius de Moraes e Odette Lara* (in LP "Vinicius & Odette Lara", Elenco, 1963, reed. Universal, 2001, 2004)




[instrumental]

Eu sem você 
Não tenho porquê 
Porque sem você 
Não sei nem chorar 
Sou chama sem luz 
Jardim sem luar 
Luar sem amor 
Amor sem se dar 

Eu sem você 
Sou só desamor 
Um barco sem mar 
Um campo sem flor 
Tristeza que vai 
Tristeza que vem 
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém 

Ah, que saudade 
Que vontade de ver renascer nossa vida 
Volta, querido
Os meus braços precisam dos teus 
Teus abraços precisam dos meus 
Estou tão sozinha 
Tenho os olhos cansados de olhar para o além 
Vem ver a vida 
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém

[instrumental]

Eu sem você 
Não tenho porquê 
Porque sem você 
Não sei nem chorar 
Sou chama sem luz 
Jardim sem luar 
Luar sem amor 
Amor sem se dar 

Eu sem você 
Sou só desamor 
Um barco sem mar 
Um campo sem flor 
Tristeza que vai 
Tristeza que vem 
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém 

Ah, que saudade 
Que vontade de ver renascer nossa vida 
Volta, querido
Os meus braços precisam dos teus 
Teus abraços precisam dos meus 
Estou tão sozinha 
Tenho os olhos cansados de olhar para o além 
Vem ver a vida 
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém


* Arranjos e regência – Moacyr Santos 
Produção e direcção – Aloysio de Oliveira
Assistente da direcção artística – José Delphino Filho
Gerente de produção – Peter Keller
Gravado no Estúdio Rio Som, Rio de Janeiro, em 1963
Engenheiro de som – Norman Sternberg
Técnico de gravação – Norman Sternberg



Valsinha



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Chico Buarque (Francisco Buarque de Hollanda)
Intérprete: Chico Buarque* (in LP "Construção", Philips, 1971, reed. Philips/Polygram, 1988, Universal, 2000)




Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto
Era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto
P'ra seu grande espanto
Convidou-a p'ra rodar

Então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado
De tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça
E começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança
Toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda a cidade
Se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos
Como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz


* Chico Buarque – voz e violão
Arranjos – Magro e Rogério Duprat
Produção e direcção (estúdio) – Roberto Menescal
Gravado no Estúdio da Phonogram, Rio de Janeiro
Técnicos de gravação – Toninho e Mazola



Só por Amor



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Baden Powell
Intérprete: Odette Lara* (in LP "Vinicius & Odette Lara", Elenco, 1963, reed. Universal, 2001, 2004)




Só por amor 
Só por paixão 
Só por você 
Você que nunca disse não 
Só por saber 
Que o coração 
Sabe demais 
Que a razão não tem razão 

Por você que foi só meu
Sem jamais pensar porquê 
Por você que apenas tinha 
Razões e mais razões para não ser 

Só por amor 
Só por amada 
Só por amar 
Meu amor, muito obrigada

[instrumental]

Só por saber 
Que o coração 
Sabe demais 
Que a razão não tem razão 

Por você que foi só meu
Sem jamais pensar porquê 
Por você que apenas tinha 
Razões e mais razões para não ser 

Só por amor 
Só por amada 
Só por amar 
Meu amor, muito obrigada
Meu amor, muito obrigada
Meu amor, muito obrigada
Meu amor, muito obrigada


* Arranjos e regência – Moacyr Santos 
Produção e direcção – Aloysio de Oliveira
Assistente da direcção artística – José Delphino Filho
Gerente de produção – Peter Keller
Gravado no Estúdio Rio Som, Rio de Janeiro, em 1963
Engenheiro de som – Norman Sternberg
Técnico de gravação – Norman Sternberg



Sei Lá... A Vida Tem Sempre Razão



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius de Moraes* (in LP "Toquinho e Vinicius", Discos RGE, 1971, Random, 1993, reed. Universal, 2001)




Tem dias que eu fico 
Pensando na vida 
E sinceramente 
Não vejo saída 
Como é, por exemplo 
Que dá p'ra entender 
A gente mal nasce 
Começa a morrer 
Depois da chegada 
Vem sempre a partida 
Porque não há nada 
Sem separação 

Sei lá, sei lá 
A vida é uma grande ilusão 
Eu sei lá, sei lá 
Só sei que ela está com a razão 

Sei lá, sei lá 
A vida é uma grande ilusão 
Sei lá, sei lá 
Só sei que ela está com a razão 

A gente nem sabe 
Que males se apronta 
Fazendo de conta 
Fingindo esquecer 
Que nada renasce 
Antes que se acabe 
E o sol que desponta 
Tem que anoitecer 
De nada adianta 
Ficar-se de fora 
A hora do sim 
É um descuido do não 

Sei lá, sei lá 
Só sei que é preciso paixão 
Eu sei lá, sei lá 
A vida tem sempre razão

Sei lá, sei lá 
Só sei que é preciso paixão 
Sei lá, sei lá 
A vida tem sempre razão

[instrumental]

De nada adianta 
Ficar-se de fora 
A hora do sim 
É um descuido do não 

Sei lá, sei lá 
Só sei que é preciso paixão 
Eu sei lá, sei lá 
A vida tem sempre razão

Sei lá, sei lá 
Só sei que é preciso paixão 
Eu sei lá, sei lá 
A vida tem sempre razão


* Arranjos - Briamonte
Produção – Toquinho
Coordenação – J. Shapiro
Técnico de gravação – Milton Rodrigues



Carta ao Tom 74



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérpretes: Vinicius de Moraes*, Toquinho e Quarteto em Cy (in LP "Vinicius & Toquinho", Philips, 1974, reed. Universal, 2001)




[instrumental]

Rua Nascimento Silva, 107 
Você ensinando p'ra Elizete 
As canções de "Canção do Amor Demais"
Lembra que tempo feliz 
Ah, que saudade 
Ipanema era só felicidade 
Era como se o amor doesse em paz 

Nossa famosa garota nem sabia 
A que ponto a cidade turvaria 
Esse Rio de amor que se perdeu 
Mesmo a tristeza da gente era mais bela 
E além disso se via da janela 
Um cantinho de céu e o Redentor 

É, meu amigo, só resta uma certeza 
É preciso acabar com essa tristeza 
E preciso inventar de novo o amor

Rua Nascimento Silva, 107 
Você ensinando p'ra Elizete 
As canções de "Canção do Amor Demais"
Lembra que tempo feliz 
Ah, que saudade 
Ipanema era só felicidade 
Era como se o amor doesse em paz 

Nossa famosa garota nem sabia 
A que ponto a cidade turvaria 
Esse Rio de amor que se perdeu 
Mesmo a tristeza da gente era mais bela 
E além disso se via da janela 
Um cantinho de céu e o Redentor 

É, meu amigo, só resta uma certeza 
É preciso acabar com essa tristeza 
E preciso inventar de novo o amor


* Arranjos - Edu Lobo, Francis Hime e Zé Roberto
Produção – Paulinho Tapajós
Técnico de gravação – Orlando Costa-Luigi



Samba da Bênção



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Baden Powell
Intérprete: Vinicius de Moraes* (in LP "Vinicius & Odette Lara", Elenco, 1963, reed. Universal, 2001, 2004)




É melhor ser alegre que ser triste 
Alegria é a melhor coisa que existe 
É assim como a luz no coração 
Mas p'ra fazer um samba com beleza 
É preciso um bocado de tristeza 
É preciso um bocado de tristeza 
Senão não se faz um samba, não 

Senão é como amar uma mulher só linda 
E daí? Uma mulher tem que ter 
Qualquer coisa além de beleza 
Qualquer coisa de triste 
Qualquer coisa que chora 
Qualquer coisa que sente saudade 
Um molejo de amor machucado 
Uma beleza que vem da tristeza 
De se saber mulher 
Feita apenas para amar 
Para sofrer pelo seu amor 
E para ser só perdão 

Fazer samba não é contar piada 
Quem faz samba assim não é de nada 
O bom samba é uma forma de oração 
Porque o samba é a tristeza que balança 
E a tristeza tem sempre uma esperança 
A tristeza tem sempre uma esperança 
De um dia não ser mais triste, não 

Feito essa gente que anda por aí 
Brincando com a vida 
Cuidado, companheiro! 
A vida é p'ra valer 
E não se engane, não, tem uma só 
Duas mesmo que é bom 
Ninguém vai me dizer que tem 
Sem provar muito bem provado 
Com certidão passada em cartório do céu 
E assinado em baixo: Deus 
E com firma reconhecida! 
A vida não é de brincadeira, amigo 
A vida é a arte do encontro 
Embora haja tanto desencontro pela vida 
Há sempre uma mulher à sua espera 
Com os olhos cheios de carinho 
E as mãos cheias de perdão 
Ponha um pouco de amor na sua vida 
Como no seu samba

Ponha um pouco de amor numa cadência 
E vai ver que ninguém no mundo vence 
A beleza que tem num samba, não 
Porque o samba nasceu lá na Bahia 
E se hoje ele é branco na poesia 
Se hoje ele é branco na poesia 
Ele é negro demais no coração 

Eu, por exemplo, o capitão-do-mato 
Vinicius de Moraes 
Poeta e diplomata 
O branco mais preto do Brasil 
Na linha directa de Xangô, saravá! 
A bênção, Senhora 
A maior ialorixá da Bahia 
Terra de Caymmi e João Gilberto 
A bênção, Pixinguinha 
Tu que choraste na flauta 
Todas as minhas mágoas de amor 
A bênção, Sinhô, a bênção, Cartola
A bênção, Ismael Silva 
Sua bênção, Heitor dos Prazeres 
A bênção, Nelson Cavaquinho 
A bênção, Geraldo Pereira 
A bênção, meu bom Cyro Monteiro 
Você, sobrinho de Nonô 
A bênção, Noel, sua bênção, Ary 
A bênção, todos os grandes 
Sambistas do meu Brasil 
Branco, preto, mulato 
Lindo como a pele macia de Oxum 
A bênção, maestro Antônio Carlos Jobim 
Parceiro e amigo querido 
Que já viajaste tantas canções comigo 
E ainda há tantas a viajar 
A bênção, Carlinhos Lyra 
Parceirinho cem por cento 
Você que une a acção ao sentimento 
E ao pensamento 
A bênção, a bênção, Baden Powell 
Amigo novo, parceiro novo 
Que fizeste esse samba comigo 
A bênção, amigo 
A bênção, maestro Moacyr Santos 
Não és um só, és tantos
Tantos como o meu Brasil de todos os santos 
Inclusive o meu São Sebastião 
Saravá! A bênção, que eu vou partir 
Eu vou ter que dizer adeus 

Ponha um pouco de amor numa cadência 
E vai ver que ninguém no mundo vence 
A beleza que tem num samba, não 
Porque o samba nasceu lá na Bahia 
E se hoje ele é branco na poesia 
Se hoje ele é branco na poesia 
Ele é negro demais no coração

Porque o samba nasceu lá na Bahia 
E se hoje ele é branco na poesia 
Se hoje ele é branco na poesia 
Ele é negro demais no coração
Ele é negro demais no coração
Ele é negro demais no coração


* Arranjos e regência – Moacyr Santos 
Produção e direcção – Aloysio de Oliveira
Assistente da direcção artística – José Delphino Filho
Gerente de produção – Peter Keller
Gravado no Estúdio Rio Som, Rio de Janeiro, em 1963
Engenheiro de som – Norman Sternberg
Técnico de gravação – Norman Sternberg



Testamento



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius de Moraes* (in LP "Toquinho e Vinicius", Discos RGE, 1971, Random, 1993, reed. Universal, 2001)




[instrumental]

Você que só ganha p'ra juntar 
O que é que há, diz pra mim, o que é que há? 
Você vai ver um dia 
Em que fria você vai entrar 

Por cima uma laje 
Em baixo a escuridão 
É fogo, irmão! É fogo, irmão! 

Por cima uma laje 
Em baixo a escuridão 
É fogo, irmão! É fogo, irmão! 

Pois é, amigo, como se dizia antigamente, o buraco é mais em baixo... E você com todo o seu baú, vai ficar por lá na mais total solidão, pensando à beça que não levou nada do que juntou: só seu terno de cerimónia. Que fossa, hein, meu chapa, que fossa... 

Você que não pára p'ra pensar 
Que o tempo é curto e não pára de passar 
Você vai ver um dia, que remorso!
Como é bom parar 

Ver um sol se pôr 
Ou ver um sol raiar 
E desligar, e desligar 

Ver um sol se pôr 
Ou ver um sol raiar 
E desligar, e desligar 

Mas você, que esperança... Bolsa, títulos, capital de giro, public relations (e tome gravata!), protocolos, comendas, caviar, champanhe (e tome gravata!), o amor sem paixão, o corpo sem alma, o pensamento sem espírito (e tome gravata!) e lá um belo dia, o enfarte; ou, pior ainda, o psiquiatra...

Você que só faz usufruir 
E tem mulher p'ra usar ou p'ra exibir 
Você vai ver um dia 
Em que toca você foi bulir! 

A mulher foi feita 
P'ra o amor e p'ra o perdão 
Cai nessa não, cai nessa não! 

A mulher foi feita 
P'ra o amor e p'ra o perdão 
Cai nessa não, cai nessa não! 

Você, por exemplo, está aí com a boneca do seu lado, linda e chiquérrima, crente que é o amo e senhor do material. E é aí que o distinto está muitíssimo enganado. O mais das vezes ela anda longe, perdida num mundo lírico e confuso, cheio de canções, aventura e magia. E você nem sequer toca a sua alma. É, as mulheres são muito estranhas, muito estranhas... 

Você que não gosta de gostar 
P'ra não sofrer, não sorrir e não chorar 
Você vai ver um dia 
Em que fria você vai entrar! 

Por cima uma laje 
Em baixo a escuridão 
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

Por cima uma laje 
Em baixo a escuridão 
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

É fogo, irmão! É fogo, irmão!
É fogo, irmão! É fogo, irmão!
É fogo, irmão! É fogo, irmão!


* Arranjos – Briamonte
Produção – Toquinho
Coordenação – J. Shapiro
Técnico de gravação – Milton Rodrigues



Amigos Meus



Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérprete: Toquinho e Vinicius de Moraes* (in LP "Um Pouco de Ilusão", Ariola, 1980, reed. Universal, 2001)




[instrumental]

Amigos meus, está chegando a hora 
Em que a tristeza aproveita p'ra entrar 
E todos nós vamos ter que ir embora 
P'ra a vida lá fora continuar 

Amigos meus, está chegando a hora 
Em que a tristeza aproveita p'ra entrar 
E todos nós vamos ter que ir embora 
P'ra a vida lá fora continuar 

Tem sempre aquele 
Que toma mais uma num bar 
Tem sempre um outro 
Que vai direitinho p'ra o lar 
Mas tem também 
Uma sala que está vazia 
Sem luz, sem amor, sombria 
Prontinha p'ra o show voltar 
E em novo dia 
A gente ver novamente 
A sala se encher de gente 
P'ra a gente recomeçar

E em novo dia 
A gente ver novamente 
A sala se encher de gente 
P'ra a gente recomeçar

Amigos meus, está chegando a hora 
Em que a tristeza aproveita p'ra entrar 
E todos nós vamos ter que ir embora 
P'ra a vida lá fora continuar 

Amigos meus, está chegando a hora 
Em que a tristeza aproveita p'ra entrar 
E todos nós vamos ter que ir embora 
P'ra a vida lá fora continuar 

Tem sempre aquele 
Que toma mais uma num bar 
Tem sempre um outro 
Que vai direitinho p'ra o lar 
Mas tem também 
Uma sala que está vazia 
Sem luz, sem amor, sombria 
Prontinha p'ra o show voltar 
E em novo dia 
A gente ver novamente 
A sala se encher de gente 
P'ra a gente recomeçar

E em novo dia 
A gente ver novamente 
A sala se encher de gente 
P'ra a gente recomeçar

Amigos meus, está chegando a hora 
Em que a tristeza aproveita p'ra entrar 
E todos nós vamos ter que ir embora 
P'ra a vida lá fora continuar 

Amigos meus, está chegando a hora 
Em que a tristeza aproveita p'ra entrar 
E todos nós vamos ter que ir embora 
P'ra a vida lá fora continuar 

P'ra a vida lá fora continuar 
P'ra a vida lá fora continuar 
P'ra a vida lá fora continuar 
P'ra a vida lá fora continuar 
P'ra a vida lá fora continuar 


* Produção – Mazola, Cayon J. Gadia e Toquinho



A HORA ÍNTIMA



Poema de Vinicius de Moraes (in "Novos Poemas II", Rio de Janeiro: São José, 1959; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 333-336)
Recitado pelo Autor* (in EP "Vinicius de Moraes: Poesias", Festa, 1959; CD "Lances de Vinicius 1", Universal, 2001)




Quem pagará o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores? 
Quem, dentre amigos, tão amigo 
Para estar no caixão comigo? 
Quem, em meio ao funeral 
Dirá de mim: — Nunca fez mal... 
Quem, bêbado, chorará em voz alta 
De não me ter trazido nada? 
Quem virá despetalar pétalas 
No meu túmulo de poeta? 
Quem jogará timidamente 
Na terra um grão de semente? 
Quem elevará o olhar covarde 
Até à estrela-da-tarde? 
Quem me dirá palavras mágicas 
Capazes de empalidecer o mármore? 
Quem, oculta em véus escuros 
Se crucificará nos muros? 
Quem, macerada de desgosto 
Sorrirá: — Rei morto, rei posto... 
Quantas, debruçadas sobre o báratro 
Sentirão as dores do parto? 
Qual a que, branca de receio, 
Tocará o botão do seio? 
Quem, louca, se jogará de bruços 
A soluçar tantos soluços 
Que há-de despertar receios? 
Quantos, os maxilares contraídos 
O sangue a pulsar nas cicatrizes 
Dirão: — Foi um doido amigo... 
Quem, criança, olhando a terra 
Ao ver movimentar-se um verme 
Observará um ar de critério? 
Quem, em circunstância oficial 
Há-de propor meu pedestal? 
Quais os que, vindos da montanha 
Terão circunspecção tamanha 
Que eu hei-de rir branco de cal? 
Qual a que, o rosto sulcado de vento 
Lançará um punhado de sal 
Na minha cova de cimento? 
Quem cantará canções de amigo 
No dia do meu funeral? 
Qual a que não estará presente 
Por motivo circunstancial? 
Quem cravará no seio duro 
Uma lâmina enferrujada? 
Quem, em seu verbo inconsútil 
Há-de orar: — Deus o tenha em sua guarda. 
Qual o amigo que a sós consigo 
Pensará: — Não há-de ser nada... 
Quem será a estranha figura 
A um tronco de árvore encostada 
Com um olhar frio e um ar de dúvida? 
Quem se abraçará comigo 
Que terá de ser arrancada? 

Quem vai pagar o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores?


* Produção – Irineu Garcia



EPITÁFIO



Poema: Vinicius de Moraes (in "Poemas, Sonetos e Baladas", São Paulo: Edições Gavetas, 1946; "Antologia Poética", Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – pág. 181)
Recitado pelo Autor (in 2LP "Antologia Poética", Philips, 1977, reed. Universal, 2000, 2001)




Aqui jaz o Sol 
Que criou a aurora 
E deu luz ao dia 
E apascentou a tarde 

O mágico pastor 
De mãos luminosas 
Que fecundou as rosas 
E as despetalou. 

Aqui jaz o Sol 
O andrógino meigo 
E violento, que 

Possuiu a forma 
De todas as mulheres 
E morreu no mar.

               Oxford, 1939



Capa do LP "Canção do Amor Demais", de Elizete Cardoso (Festa, 1958).
Poesia de Vinicius de Moraes.
Música de António Carlos Jobim.
É considerado o disco fundador da bossa nova.



Capa do LP "Pery é Todo Bossa", de Pery Ribeiro (Odeon, 1963).
Inclui a primeira versão editada em disco da canção "Garota de Ipanema". Posteriormente gravada por inúmeros artistas (brasileiros e estrangeiros, entre os quais Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Diana Krall e Amy Winehouse) tornou-se a segunda canção mais tocada no mundo (a primeira é "Yesterday", dos Beatles).











Heloísa Pinto (n. 1945), hoje conhecida por Helô Pinheiro: a verdadeira "garota de Ipanema" que, em 1962, então com 17 anos de idade, inspirou Vinicius de Moraes e António Carlos Jobim.
Três anos mais tarde, Vinicius revelou à revista "Manchete" a identidade da musa inspiradora:

«Seu nome é Heloísa Eneida Menezes Paes Pinto, mas todos a chamam de Helô. Há três anos, ela passava, ali no cruzamento de Montenegro e Prudente de Morais, em demanda da praia, e nós a achávamos demais. Do nosso posto de observação, no [bar] Veloso, enxugando a nossa cervejinha, Tom e eu emudecíamos à sua vinda maravilhosa. O ar ficava mais volátil como para facilitar-lhe o divino balanço do andar. E lá ia ela toda linda, a garota de Ipanema, desenvolvendo no percurso a geometria espacial do seu balanceio quase samba, e cuja fórmula teria escapado aos Egípcios, teria escapado ao próprio Einstein; seria preciso um Antônio Carlos Jobim para pedir ao piano, em grande e religiosa intimidade, a revelação do seu segredo. Para ela fizemos, com todo o respeito e mudo encantamento, o samba que a colocou nas manchetes do mundo inteiro e fez de nossa querida Ipanema uma palavra mágica para os ouvintes estrangeiros. Ela foi e é para nós o paradigma do broto carioca: a moça dourada, misto de flor e sereia, cheia de luz e de graça mas cuja visão é também triste, pois carrega consigo, a caminho do mar, o sentimento do que passa, da beleza que não é só nossa – é um dom da vida em seu lindo e melancólico fluir e refluir constante.»

Heloísa Pinto casou-se em 1967 com o engenheiro Fernando Pinheiro convidando António Carlos Jobim para padrinho de casamento.



Capa do LP "Garota de Ipanema" (Philips, 1967).
Banda sonora do filme homónimo, realizado por Leon Hirszman, com Márcia Rodrigues no papel da protagonista (imagem infra).



Márcia Rodrigues contracenando com Chico Buarque no filme "Garota de Ipanema" (C.P.S. Produções Cinematográficas / Saga Filmes, 1967).
Argumento de Eduardo Coutinho, Leon Hirszman, Glauber Rocha e Vinicius de Moraes.

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