11 outubro 2013

4uatro ao Sul distinguido com o Prémio José Afonso



«No início era o Verbo... Ou a melodia? E a palavra nasce do cante, ou é o cante que ganha asas e faz
nascer as palavras? As Vozes que dão corpo a estes textos cantados são reveladoras do sentir, transportam poemas dando-lhes suporte emocional e expressivo. Como se tudo se tivesse de fazer de novo, reinventando num ciclo interminável o desejo de mudança, a procura do amor, a certeza dos afectos, a memória dos lugares e dos Deuses. Para que esta liturgia se cumpra há que cuidar dos estilos, encontrar a colocação vocal adequada a cada canção, trabalhar muito até se chegar a uma "escrita no tempo" celebrada de cada vez que se canta. E ouvir, experimentar e recriar o que noutros lugares cristalizou em modos de cantar. Porque só quando sabemos ouvir os outros somos capazes de nos entender a nós mesmos.» (Domingos Morais, IELT - Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas / Univ. Nova de Lisboa, em Março de 2011)


Demudado em Tudo, de 4uatro ao Sul
(CD, 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)

1. Entrai, Pastores, Entrai (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
2. O Tempo do Entrudo (Tradicional; adapt. José Barros)
3. Cantam as Filhas da Rosa (Tradicional; adapt. José Barros)
4. Vai Remando (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
5. Descante aos Noivos (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
6. Manazinha (Tradicional; adapt. José Barros)
7. La Me Brunetta (Tradicional – Córsega)
8. O Círculo que Leva a Lua (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
9. O Menino Está na Neve (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
10. O Altinho (Tradicional; adapt. José Barros)
11. Versu di Tirriola (Tradicional – Córsega)
12. Fui Dispor a Salsa Verde (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
13. Mariana Campaniça (Tradicional; adapt. José Barros)
14. Esta Noite de Janeiras (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
15. Mariana (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
16. Ilha dos Vidros (Tradicional; adapt. Pedro Mestre)
17. Kyrie (Tradicional – Córsega)

Temas tradicionais do Alentejo e da Córsega (faixas 7, 11 e 17).

4uatro ao Sul:
José Barros – voz e viola campaniça
José Manuel David – voz, tarota (faixa 2) e percussões (faixa 2)
Pedro Mestre – voz e viola campaniça
Rui Vaz – voz
Grupo convidado:
Rancho dos Cantadores de Vila Nova de São Bento, Serpa – coro (faixa 2)

Produção executiva – José Barros
Gravado em Ourique, Vila Nova de São Bento (Serpa) e Estúdio da Ribeira (Sintra)
Mistura e masterização – João Magalhães

Fotos – Rui Moreno (grupo) e Ivone Ralha
Grafismo – Ivone Ralha


Comungando de uma grande paixão pelo cante alentejano e da vontade de recriar, sem preconceitos ou pruridos inibidores, o cancioneiro da planície transtagana, quatro reputados músicos da área tradicional – José Barros (Navegante), José Manuel David (Gaiteiros de Lisboa), Pedro Mestre (Grupo Coral e Etnográfico "Os Cardadores"; Grupo de Violas Campaniças) e Rui Vaz (Gaiteiros de Lisboa) – resolveram encontrar-se para cantar, a quatro vozes, modas e cantigas, assim nascendo o grupo Cante Sul, depois rebaptizado de 4uatro ao Sul. De tão grata experiência surgiu muito naturalmente o desejo de gravar um disco, que veio a lume na Primavera de 2011 com o nome de "Demudado em Tudo" (título retirado de um verso da moda "O Tempo do Entrudo"). Constituem o alinhamento dezassete espécimes: catorze do Alentejo, uns mais ligados à tradição coral a cappella, outros ao modo de cantar solista com acompanhamento de uma ou duas violas campaniças; e três da ilha da Córsega (vide o alinhamento acima), que servem para mostrar o parentesco que liga as duas tradições vocais mediterrânicas. Não sem razão o etnógrafo corso Michel Giacometti, que calcorreou Portugal de lés-a-lés e a quem o país tanto deve, se apaixonou pela polifonia do Alentejo e muito especialmente pela praticada em Peroguarda, a tal ponto que escolheu aquela aldeia do concelho de Ferreira do Alentejo para a sua última morada (e a sua vontade foi cumprida).
Pois "Demudado em Tudo" teve recentemente a ventura de ser o eleito para receber o Prémio José Afonso referente à colheita discográfica de 2011. Assim decidiu o júri formado por Olga Prats (pianista), Sérgio Azevedo (compositor), António Moreira (vereador da Cultura da Câmara Municipal da Amadora) e Vanda Santos (chefe da Divisão de Intervenção Cultural da mesma autarquia), ao considerar o álbum «uma revelação extraordinária, uma oportunidade rara de nos confrontarmos com a enorme riqueza do cante alentejano, membro de pleno direito da antiquíssima tradição das polifonias vocais da região mediterrânica, berço de civilizações.» E o comunicado acrescenta: «A abordagem séria e sem compromissos, o rigor da recolha e da interpretação, e a pura – quase comovente – beleza sonora deste disco mereceram, na opinião unânime do júri, a atribuição do prémio.»
É de aplaudir a decisão e por três boas razões: primeira, porque não se repete o desvario registado em duas das três anteriores edições do Prémio José Afonso em que foram distinguidos discos estranhos à música de matriz portuguesa e sem qualquer afinidade com o legado estético do patrono cuja memória é suposto honrar-se; segunda, porque dá reconhecimento ao bom trabalho que, entre nós, se vem fazendo no domínio da recriação e reinvenção da música tradicional; e terceira, porque convida o público a descobrir ou a ouvir com outros ouvidos o canto alentejano, que será sempre Património da Humanidade, com ou sem classificação da UNESCO. Escusado será dizer que a adesão do público dependerá – e muito – da divulgação radiofónica. Aqui impõe-se uma pergunta: o que tem feito a estatal Antena 1 em prol do cante? Praticamente nada, se exceptuarmos a acção de Rafael Correia e de Armando Carvalhêda, respectivamente com o programa "Lugar ao Sul" e a rubrica "Cantos da Casa". Acção essa que, todavia, não obtém o desejável impacto, não por culpa dos dois eméritos realizadores, claro está, mas de quem manda na estação. Vejamos: o "Lugar ao Sul" foi criminosamente escondido num buraco negro (6:00 da madrugada de sábado) e os "Cantos da Casa" de tão exíguos que são (cerca de cinco minutos por dia, de segunda a sexta-feira), e tendo de abarcar toda a música tradicional portuguesa, não têm margem de manobra para muito mais. Importa, portanto, que a Antena 1, ao abrigo da missão de serviço público a que está obrigada e que é afinal a razão da sua existência, dê cabal e conveniente divulgação ao cante. E isso poderá ser feito não só criando um espaço reservado para o género (a exemplo do que existe para o fado) como dando-lhe visibilidade na 'playlist' que é, pela esmagadora preponderância que tem na grelha, a grande montra musical da estação. No caso concreto do CD "Demudado em Tudo", será aceitável que nem um – um sequer – dos dezassete temas figure na 'playlist'? O blogue "A Nossa Rádio" apresenta seis propostas, qualquer uma boa para seduzir os ouvidos menos habituados às tocantes sonoridades dos cantares alentejanos (a cappella ou com acompanhamento de violas campaniças).



O Tempo do Entrudo



Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Adaptação: José Barros
Intérprete: 4uatro ao Sul* com o Rancho dos Cantadores de Vila Nova de São Bento (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)


O tempo do Entrudo
É um tempo louco:
Faz sair as velhas
Fora dos "atoucos".

Não sei se é por ser
As voltas do Entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo,
Demudado em nada;
Não sei se é por serem
Voltas de Entruda(da).

Anda cá, Maria,
Vem ver o teu Zé!
Traz um chapéu novo,
Trai-la-li-ló-lé.

Não sei se é por ser
As voltas do Entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo,
Demudado em nada;
Não sei se é por serem
Voltas de Entruda(da).

O meu lindo amor
Merece, merecia
Chapadas na cara
Três vezes ao dia.

Não sei se é por ser
As voltas do Entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo,
Demudado em nada;
Não sei se é por serem
Voltas de Entruda(da).

[instrumental]

Amor, se não era
De vontade tua,
Porque é que me davas   | bis
Conversa na rua?            |

Não sei se é por ser
As voltas do Entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo,
Demudado em nada;
Não sei se é por serem   | bis
Voltas de Entruda(da).   |

[instrumental]

Algum dia eu era,
Agora já não,
Da tua roseira     | bis
O melhor botão.  |

Não sei se é por ser
As voltas do Entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo,
Demudado em nada;
Não sei se é por serem   | bis
Voltas de Entruda(da).   |

[instrumental]

Anda cá p'rá'qui,
Não chores jamais,
Que eu ainda aqui estou   | bis
Para ouvir teus ais.          |

Não sei se é por ser
As voltas do Entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo,
Demudado em nada;
Não sei se é por serem   | bis
Voltas de Entruda(da).   |


* José Barros – voz
José Manuel David – voz, tarota e percussões
Pedro Mestre – voz
Rui Vaz – voz
Grupo convidado:
Rancho dos Cantadores de Vila Nova de São Bento, Serpa – coro



Vai Remando



Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Adaptação: 4uatro ao Sul
Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)


Ó água, que vais correndo
Mansamente e vagarosa,
Passa lá ao meu jardim,
Rega-me lá uma rosa!

Vai remando, vai remando,
Lindo amor o seu barquinho;
Se fores ao rio abaixo
Eu cá ficarei sozinho.

Eu cá ficarei sozinho,
Ficarei por ti chorando;
Vai amor no seu barquinho,
Vai remando, vai remando.

Mocidade, mocidade,
Mocidade tudo tem;
Em chegando a certa idade
Até perde o cantar bem.

Vai remando, vai remando,
Lindo amor o seu barquinho;
Se fores ao rio abaixo
Eu cá ficarei sozinho.

Eu cá ficarei sozinho,
Ficarei por ti chorando;
Vai amor no seu barquinho,
Vai remando, vai remando.


* José Barros – voz
José Manuel David – voz
Pedro Mestre – voz
Rui Vaz – voz



Manazinha



Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Adaptação: José Barros
Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)


[instrumental]

Muito gosto eu de ouvir
Uma bonita conversa.
Ó minha manazinha,
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha,
Quem to diz sou eu.

Inda que eu vagar não tenha,
Logo se me acaba a pressa.
Ó minha manazinha,
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha,
Quem to diz sou eu.

O tempo da mocidade
Nunca devia acabar.
Ó minha manazinha,
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha,
Quem to diz sou eu.

É um tempo tão bonito,
Todos o querem deixar.
Ó minha manazinha,
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha,
Quem to diz sou eu.

Ai, eu agora quando eu tinha
Dezasseis anos de idade.
Ó minha manazinha,
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha,
Quem to diz sou eu.

Ai, toda vida chorarei
Nossa bela mocidade.
Ó minha manazinha
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha
Quem to diz sou eu.

[instrumental]

Ó minha manazinha,
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha,
Quem to diz sou eu.


* José Barros – voz e viola campaniça
José Manuel David – voz
Pedro Mestre – voz e viola campaniça
Rui Vaz – voz



O Altinho



Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Adaptação: José Barros
Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)


[instrumental]

Quero ir para o altinho,
Que eu daqui não vejo bem;
Quero ir ver do meu amor
Se ele adora mais alguém.

Se ele adora mais alguém,
Se ele me ama a mim sozinho;
Que eu daqui não vejo bem,
Quero ir para o altinho.

A alegria duma mãe
É ter a filha solteira;
Casa a filha, vai-se embora,
Vai-se a rosa da roseira.

Quero ir para o altinho,
Que eu daqui não vejo bem;
Quero ir ver do meu amor
Se ele adora mais alguém.

Se ele adora mais alguém,
Se ele me ama a mim sozinho;
Que eu daqui não vejo bem,
Quero ir para o altinho.

[instrumental]

Quero ir para o altinho,
Que eu daqui não vejo bem;
Quero ir ver do meu amor
Se ele adora mais alguém.

Se ele adora mais alguém,
Se ele me ama a mim sozinho;
Que eu daqui não vejo bem,
Quero ir para o altinho.


* José Barros – voz e viola campaniça
José Manuel David – voz
Pedro Mestre – voz e viola campaniça
Rui Vaz – voz



Mariana Campaniça



Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Adaptação: José Barros
Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)


[instrumental]

A Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem;
Do Monte da Légua às Pias,
À missa não vai ninguém.

À missa não vai ninguém,
À missa já ninguém vai;
A Mariana Campaniça,
Coitadinha, não tem pai.

Coitadinha, não tem pai,
Coitadinha, mãe não tem;
A Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem.

É tão longe do céu à terra    | bis
Como é da morte à vida;     |
Do meu coração ao teu    | bis
É uma estrada seguida.   |

A Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem;
Do Monte da Légua às Pias,
À missa não vai ninguém.

À missa não vai ninguém,
À missa já ninguém vai;
A Mariana Campaniça,
Coitadinha, não tem pai.

Coitadinha, não tem pai,
Coitadinha, mãe não tem;
A Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem.

[instrumental]

A Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem;
Do Monte da Légua às Pias,
À missa não vai ninguém.

À missa não vai ninguém,
À missa já ninguém vai;
A Mariana Campaniça,
Coitadinha, não tem pai.

Coitadinha, não tem pai,
Coitadinha, mãe não tem;
A Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem.


* José Barros – voz e viola campaniça
José Manuel David – voz
Pedro Mestre – voz e viola campaniça
Rui Vaz – voz



Ilha dos Vidros



Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Adaptação: Pedro Mestre
Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)


[instrumental]

Venho da ilha dos vidros,
Da praia dos diamantes;
Ando no mundo perdido
Pelos teus olhos brilhantes.

Pelos teus olhos brilhantes,
Pelo teu rosto de prata;
Ter amores não me custa,
Deixá-los é que me mata.

Os olhos do meu amor         | bis
São duas continhas pretas;  |
São criados ao relento      | bis
No jardim das violetas.     |

Venho da ilha dos vidros,
Da praia dos diamantes;
Ando no mundo perdido
Pelos teus olhos brilhantes.

Pelos teus olhos brilhantes,
Pelo teu rosto de prata;
Ter amores não me custa,
Deixá-los é que me mata.

A paixão me há-de matar,       | bis
É o mais certo que eu tenho;   |
Não me há-de deixar gozar        | bis
O amor que eu faço empenho.   |

Venho da ilha dos vidros,
Da praia dos diamantes;
Ando no mundo perdido
Pelos teus olhos brilhantes.

Pelos teus olhos brilhantes,
Pelo teu rosto de prata;
Ter amores não me custa,
Deixá-los é que me mata.

[instrumental]

Venho da ilha dos vidros,
Da praia dos diamantes;
Ando no mundo perdido
Pelos teus olhos brilhantes.

Pelos teus olhos brilhantes,
Pelo teu rosto de prata;
Ter amores não me custa,
Deixá-los é que me mata.


* José Barros – voz e viola campaniça
José Manuel David – voz
Pedro Mestre – voz e viola campaniça
Rui Vaz – voz
Produção executiva – José Barros
Gravado em Ourique, Vila Nova de São Bento (Serpa) e Estúdio da Ribeira (Sintra)
Mistura e masterização – João Magalhães
URL: http://www.violacampanicaproducoesculturais.blogspot.com/
http://www.facebook.com/violacampanicaproducoesculturais
http://www.youtube.com/user/QuatroAoSul/videos
http://www.youtube.com/user/PedroMestreCampanica/search?query=sul



Da esquerda para a direita:
José Barros, Rui Vaz, José Manuel David e Pedro Mestre

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