10 junho 2014

Camões recitado e cantado (II)


Retrato de Luís de Camões, por Fernão Gomes, em cópia de Luís de Resende. Este é considerado o mais autêntico retrato do poeta, cujo original, que se perdeu, foi pintado ainda em sua vida.


Mais um 10 de Junho prestes a chegar ao fim e a direcção de programas da Antena 1 voltou a esquecer-se de Camões, apesar da particular obrigação que a rádio pública tem na defesa da língua portuguesa e na divulgação dos autores que melhor a cultivaram e engrandeceram. Tal como aconteceu no ano transacto, a rubrica "David Ferreira a contar" foi a minúscula ilha de louvável zelo num imenso mar de deplorável negligência.
Era assim tão difícil arranjar dúzia e meia de poemas (recitados ou cantados) para os ir transmitindo ao longo do dia, por exemplo, logo a seguir aos noticiários? E daria muito trabalho resgatar do arquivo histórico da RDP um dos três autos camonianos que por lá estão a apodrecer?
O blogue "A Nossa Rádio" reitera a celebração do nosso poeta maior e aproveita o ensejo para homenagear outros três grandes vultos da cultura portuguesa que gravaram a sua poesia – Amália Rodrigues, Eunice Muñoz e Ary dos Santos. Em intróito, o "Retrato de Luís de Camões" por Ary.



Retrato de Luís de Camões



Poema de José Carlos Ary dos Santos (in "Foto-Grafias", Lisboa: Livraria Quadrante, 1970; "Obra Poética", Lisboa: Editorial «Avante!», 1994, 7.ª edição, 2004 – p. 278)
Recitado pelo autor* (in LP "Ary 80", Danova, 1980, reed. Movieplay, 1999)




Não do mar   meu Luís   mas dessa mágoa
marchetada de tudo   apartada de quem
não mais trouxer os olhos rasos de água
por esta terra de ninguém.

Não do mar   meu Luís   mas da raiz
da nossa amarga pátria portuguesa
chulando o mal de Bernardim
até à ultima grandeza.

Não do mar   meu Luís   mas da galega 
couve de   pranto aberta   pranto raro
pranto tão canto que a cantar te quero
neste deserto de quem fala claro.


* Gravado no Estúdio da R.P.E.
Técnico de som – José Manuel Fortes



Descalça vai para a fonte



Poema (vilancete em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1668)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)


          MOTE

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
vai fermosa e não segura.

          VOLTAS

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
cabelos d'oiro entrançado,
fita de cor d'encarnado...
tão linda que o mundo espanta!
Chove nela graça tanta,
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.


Notas:
Escarlata – tecido de lã de cor vermelha muito viva
Sainho – casaco curto que se vestia por cima da blusa
Chamalote – tecido de pêlo ou lã geralmente com seda, talvez assemelhando-se ao actual cetim
Vasquinha – saia com muitas pregas em volta da cintura
De cote – de uso quotidiano

* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto



Lianor



Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1668)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in EP "Amália canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; "Amália 50 Anos": CD "Os Poetas", EMI-VC, 1989)




          MOTE

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
vai fermosa e não segura.

          VOLTAS

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
cabelos d'oiro entrançado,
fita de cor d'encarnado...
tão linda que o mundo espanta!
Chove nela graça tanta,
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.


Notas:
Escarlata – tecido de lã de cor vermelha muito viva
Sainho – casaco curto que se vestia por cima da blusa
Chamalote – tecido de pêlo ou lã geralmente com seda, talvez assemelhando-se ao actual cetim
Vasquinha – saia com muitas pregas em volta da cintura
De cote – de uso quotidiano

* Arranjo e direcção de orquestra – Jorge Costa Pinto



Perdigão



Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP "Cantigas Numa Língua Antiga", Columbia/VC, 1977, reed. EMI-VC, 1992, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)




          MOTE ALHEIO

Perdigão perdeu a pena,
não há mal que lhe não venha.

          VOLTAS

Perdigão, que o pensamento
subiu em alto lugar,
perde a pena do voar,
ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
asas com que se sustenha:
não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre
mas achou-se desasado;
e, vendo-se depenado,
de puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
lança no fogo mais lenha:
não há mal que lhe não venha.


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Martinho d'Assunção – viola
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Montagem digital – Fernando Paulo



Busque Amor novas artes, novo engenho



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)


Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.


Notas:
Esquivanças – manobras
Perigosas – efémeras
Contrastes – contrariedades
Lenho – barco



Amor é um fogo que arde sem se ver



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)




Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é um nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?



Transforma-se o amador na cousa amada



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)


Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim co a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia:
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.



Sete anos de pastor Jacob servia



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)


Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.


Nota:
Jacob – patriarca bíblico, filho de Isaac e de Rebeca, irmão gémeo de Esaú.
Serviu seu tio Labão durante sete anos com a condição de, findo esse período, casar-se com a mais bela das suas filhas, Raquel. No dia das bodas, Labão trocou Raquel pela filha mais velha, Lia. Como, segundo o rito hebraico de então, a noiva era oferecida ao noivo completamente envolvida num véu, Jacob só deu pelo logro no dia seguinte. O tio justificou-se dizendo que não era costume casarem-se as filhas mais novas primeiro e contratou com Jacob mais sete anos, após o que lhe deu Raquel em casamento.
De Lia, de Raquel e das suas duas escravas, Zilfa e Bila, Jacob teve doze filhos que fundaram as doze tribos de Israel.

* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto



Sete anos de pastor



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP/CD "Obsessão", EMI-VC, 1990, reed. Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia a ele, servia a ela,
que a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.


* Carlos Gonçalves e José Fontes Rocha – guitarras portuguesas
Jorge Fernando – viola
Joel Pina – viola baixo
Produção – João Belchior Viegas
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Montagem digital – Miguel Gonçalves
Corte – Fernando Cortez



Aquela triste e leda madrugada



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)


Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se duma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas
se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio
e dar descanso às almas condenadas.


Notas:
Triste e leda madrugada: "triste" por se tratar da despedida dos dois amantes; "leda" (alegre) porque de todas as madrugadas nasce um novo dia.
Ela viu as palavras = Ela ouviu as palavras. Desde a época medieval o verbo "ver" significava também "ouvir".
Marchetada – vivamente colorida, matizada de tonalidades luminosas
Vontade – coração

* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto



Alma minha



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP/CD "Obsessão", EMI-VC, 1990, reed. Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças aquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.


Nota:
No manuscrito da "Década VIII", atribuído a Diogo do Couto, lê-se: «Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas "Lusíadas", como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: "Alma minha gentil, que te partiste...»

* Carlos Gonçalves e José Fontes Rocha – guitarras portuguesas
Jorge Fernando – viola
Joel Pina – viola baixo
Produção – João Belchior Viegas
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Montagem digital – Miguel Gonçalves
Corte – Fernando Cortez



O Céu, a terra, o vento sossegado



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1616)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)


O Céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas, que se estendem pela areia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...

O pescador Aónio, que, deitado
onde co vento a água se meneia,
chorando, o nome amado em vão nomeia,
que não pode ser mais que nomeado:

«Ondas – dezia – antes que Amor me mate,
tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo
me fizestes à morte estar sujeita.»

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;
move-se brandamente o arvoredo;
leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.


Notas:
Aónio (antropónimo masculino formado a partir de Aónia, anagrama de Joana): este falso nome designa o próprio poeta
Enfreia – modera
Se meneia – se move

* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto



Dura Memória



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1861)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP "Amália 1963", Columbia/Pathé Marconi (França), 1963; EP "Amália canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; 2LP "O Melhor de Amália: Volume II - Tudo Isto é Fado", EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 2000; Livro/4CD "O Melhor de Amália": CD 3, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)




Memória de meu bem cortado em flores
por ordem de meus tristes e maus fados,
deixai-me descansar co meus cuidados,
nesta inquietação dos meus amores.

Basta-me o mal presente e os temores
dos sucessos, que espero, infortunados,
sem que venham, de novo, bens passados
afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi numa hora quanto em termos
tão vagarosos e largos alcancei;
deixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre se acabe a vida nestes ermos,
que neles com meu mal acabarei
mil vidas, não uma só, dura memória!


* José Nunes – guitarra portuguesa
Castro Mota – viola
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Erros meus, má fortuna, amor ardente



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1616)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)


Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas, que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso dos meus anos;
dei causa a que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
este meu duro génio de vinganças!


Notas:
Fortuna – destino, sorte
Discurso – decurso

* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto



Erros Meus



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1616)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in EP "Amália canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; LP "Fado Português", Columbia/VC, 1965, reed. EMI-VC, 1992, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; "Amália 50 Anos": CD "Os Poetas", EMI-VC, 1989)




Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das coisas, que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa a que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
este meu duro génio de vinganças!


* Domingos Camarinha – guitarra portuguesa
Castro Mota – viola
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Eu cantei já, e agora vou chorando



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1616)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)


Eu cantei já, e agora vou chorando
o tempo que cantei tão confiado;
parece que no canto já passado
se estavam minhas lágrimas criando.

Cantei; mas se me alguém pergunta: "Quando?"
Não sei; que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado
que o passado, por ledo, estou julgando.

Fizeram-me cantar, manhosamente,
contentamentos não, mas confianças;
cantava, mas já era ao som dos ferros.

De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças
onde a Fortuna injusta é mais que os erros?


* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto



Com Que Voz



Poema (soneto): Luís de Camões [?] (excerto) [>> texto integral abaixo]
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP "Com Que Voz", Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1987; LP "O Melhor de Amália: Estranha Forma de Vida", EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 1995; "Amália 50 Anos": CD "Os Poetas", EMI-VC, 1989; Livro/4CD "O Melhor de Amália": CD 2, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; "Com Que Voz" (nova edição): CD1, Valentim de Carvalho/Iplay, 2010)




Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar não se estima neste estado,
onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?


* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Pedro Leal – viola
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterização – Joel Conde, com Frederico Santiago, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Com que voz chorarei meu triste fado

(Luís de Camões ?)


Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar não se estima neste estado,
onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que o sofre e sente!

De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dela aventuro.



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.


Notas:
Qualidades – aspectos
Soía – costumava



Cá nesta Babilónia, donde mana



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1616)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)


Cá nesta Babilónia, donde mana
matéria a quanto mal o mundo cria;
cá, onde o puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

cá, onde o mal se afina e o bem se dana,
e pode mais que a honra a tirania;
cá, onde a errada e cega Monarquia
cuida que um nome vão a Deus engana;

cá, neste labirinto, onde a nobreza,
com esforço e saber pedindo vão
às portas da cobiça e da vileza;

cá, neste escuro caos de confusão,
cumprindo o curso estou da Natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!


Notas:
Mana – sai, brota
Matéria – riquezas
O puro Amor – o verdadeiro amor espiritual
Mãe – Vénus, símbolo da luxúria
Sião – Jerusalém celeste (Céu, Paraíso)



Esparsa ao desconcerto do mundo



Poema (esparsa em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)


Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau; mas fui castigado:
assim que só para mim
anda o mundo concertado.



O dia em que nasci morra e pereça



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1861)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)


O dia em que nasci, morra e pereça,
não o queira jamais o tempo dar,
não torne mais ao mundo e, se tornar,
eclipse nesse passo o Sol padeça.

A luz lhe falte, o Sol se lhe escureça,
mostre o mundo sinais de se acabar,
nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
a mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
as lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
que este dia deitou ao mundo a vida
mais desgraçada que jamais se viu!



Os Lusíadas - Episódio de Inês de Castro



...de Luís de Camões (Canto III, estrofes 120 a 135)
Recitado por Ary dos Santos* & Eunice Muñoz (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)


Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sisudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,

Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra uma fraca dama delicada?

Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e da saudade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,

Para o céu cristalino alevantando,
Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E depois, nos meninos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfindade como mãe temia,
Para o avô cruel assim dizia:

«Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas têm o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento
Como co a mãe de Nino já mostraram,
E cos irmãos que Roma edificaram:

Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar uma donzela,
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.

E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida, com clemência,
A quem para perdê-la não fez erro.
Mas, se to assim merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.

Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, co amor intrínseco e vontade
Naquele por quem morro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.»

Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?

Qual contra a linda moça Policena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos, com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha),
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:

Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que depois a fez Rainha,
As espadas banhando e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia!
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes.

Assim como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.

As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores.


* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto



Vieira Portuense, "Súplica de Inês de Castro a D. Afonso IV", c.1802, óleo sobre tela, 196x150cm, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



Eugénie Servières, "Súplica de Inês de Castro a D. Afonso IV", 1822, óleo sobre tela, Palácio de Versalhes, Versalhes (França)



Karl Briullov, "Morte de Inês de Castro, esposa morganática do Infante D. Pedro", 1834, óleo sobre tela, Museu do Estado Russo, Sampetersburgo (Rússia)



Columbano Bordalo Pinheiro, "Morte de Inês de Castro", 1901-1904, óleo sobre tela, 246x196cm, Museu Militar, Lisboa



Alexandre-Joseph Desenne (desenho) e Henri Laurent (gravura), "Morte de Inês de Castro", 1816, ilustração de "Os Lusíadas", ed. Morgado de Mateus, Paris, 1817.

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