10 junho 2013

Camões recitado e cantado



Causa-me muita impressão que o Dia de Camões sirva para tudo menos para a divulgação e o cultivo da obra (poesia e teatro) do maior vulto literário de língua portuguesa. Até há uns anos, era habitual a RTP-1 transmitir o filme "Camões", de Leitão de Barros. Não era muito, mas já era alguma coisa. Agora, nem isso... Nada que vá além das cerimónias oficiais com as paradas militares, os discursos de circunstância e a aposição de medalhas ao peito de um rol (mais ou menos extenso) de notáveis.
A Antena 1, nos últimos anos, tem afinado pelo mesmo diapasão de indigência, fazendo tábua-rasa de uma das obrigações culturais do serviço público que é dar a ouvir (porque é de rádio que falamos) a obra dos nossos valores literários, sem esquecer, como é óbvio, o expoente mais elevado de todos –
Luís Vaz de Camões. Não fosse a rubrica "David Ferreira a Contar" em que esteve em foco a polémica gerada pela edição, em 1965, do EP "Amália canta Luís de Camões", com a passagem de excertos dos três espécimes poético-musicais nele incluídos ("Lianor", "Erros Meus" e "Dura Memória") e de "Endechas a Bárbara Escrava", por José Afonso, e o nosso poeta maior teria sido completamente negligenciado no principal canal da rádio do Estado, durante o dia em que é suposto ser condignamente celebrado. Era assim tão complicado resgatar do arquivo histórico a adaptação de uma das três peças teatrais de Luís de Camões – "Auto dos Anfitriões", "Auto de Filodemo" ou "Auto de El-Rei Seleuco"? E seria pedir muito que se transmitisse, ao longo do dia, diversos dos seus poemas, ora recitados ora cantados? Uma coisa simples e despretensiosa, mas que seria de muito bom tom e não deixaria de ter benefício cultural no auditório. O mais difícil seria mesmo escolher entre o muito e bom que foi gravado, seja na forma recitada seja na forma musicada/cantada.
O blogue "A Nossa Rádio" faz o serviço público de apresentar sete belos espécimes, antecedidos do soneto "A Camões", da autoria do brasileiro Manuel Bandeira, na voz de
João Villaret, tal como os demais poemas recitados, homenageando o imortal recitador no ano em que se comemora o centenário do seu nascimento. Dão voz aos poemas cantados: Amália Rodrigues, José Afonso, Amélia Muge e Cristina Branco.



A Camões



Poema (soneto) de Manuel Bandeira (in "A Cinza das Horas", Rio de Janeiro: Edição do autor, 1917)
Recitado por João Villaret* (in LP "João Villaret Falando com Igrejas Caeiro", Guilda da Música/Sassetti, 1973, reed. Strauss, 1997)



Quando n'alma pesar de tua raça
Um signo de apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
No teu poema de heroísmo e de beleza.


Génio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O grande amor da pátria portuguesa.


E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que entre perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente


Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.



* Gravado ao vivo no Teatro de São Luiz, Lisboa, em 1960
Remasterizado por Jorge d'Avillez, no Strauss Studio, Lisboa




Lianor



Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1668)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in EP "Amália canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; "Amália 50 Anos": CD "Os Poetas", EMI-VC, 1989)





          MOTE

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
vai fermosa e não segura.


          VOLTAS

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.


Descobre a touca a garganta,
cabelos d'oiro entrançado,
fita de cor d'encarnado...
tão linda que o mundo espanta!
Chove nela graça tanta,
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.



Notas:
Escarlata – tecido de lã de cor vermelha muito viva
Sainho – casaco curto que se vestia por cima da blusa
Chamalote – tecido de pêlo ou lã geralmente com seda, talvez assemelhando-se ao actual cetim
Vasquinha – saia com muitas pregas em volta da cintura
De cote – de uso quotidiano


* Arranjo e direcção de orquestra – Jorge Costa Pinto



Amor é um fogo que arde sem se ver



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz Poesias de Amor", Parlophone, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)



Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.


É um não querer mais que bem querer;
é solitário andar por entre a gente;
é um não contentar-se de contente;
é cuidar que se ganha em se perder.


É um estar-se preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.


Mas como causar pode o seu favor
nos mortais corações conformidade,
sendo a si tão contrário o mesmo Amor?




Endechas a Bárbara Escrava



Poema (endechas em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968; reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012)





          Endechas a ũa cativa
          com quem andava d'amores na Índia,
          chamada Bárbara.


Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais formosa.


Nem no campo flores,
nem no céu estrelas,
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.


Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.


Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.


Presença serena
que a tormenta amansa;
nela enfim descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.



* Rui Pato – viola
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1968
Técnico de som – Moreno Pinto
Remasterização (edição de 2012) – António Pinheiro da Silva




Sete anos de pastor Jacob servia



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz Poesias de Amor", Parlophone, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)



Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
que a ela só por prémio pretendia.


Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.


Vendo o triste pastor que com enganos
assim lhe era negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;


começou a servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.



Nota:
Jacob – patriarca bíblico, filho de Isaac e de Rebeca, irmão gémeo de Esaú.
Serviu seu tio Labão durante sete anos com a condição de, findo esse período, casar-se com a mais bela das suas filhas, Raquel. No dia das bodas, Labão trocou Raquel pela sua filha mais velha, Lia. Como, segundo o rito hebraico de então, a noiva era oferecida ao noivo completamente envolvida num véu, Jacob só deu pelo logro no dia seguinte. O tio justificou-se dizendo que não era costume casarem-se as filhas mais novas primeiro e contratou com Jacob mais sete anos, após o que lhe deu Raquel em casamento.
De Lia, de Raquel e das suas duas escravas, Zilfa e Bila, Jacob teve doze filhos que fundaram as doze tribos de Israel.




Aos Olhos de Helena



Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Múgica", UPAV, 1992)



          MOTE

Se Helena apartar
do campo seus olhos,
nascerão abrolhos.


          VOLTAS

A verdura amena,
gados, que pasceis
sabei que a deveis
aos olhos de Helena.
Os ventos serena,
faz flores de abrolhos
o ar de seus olhos.


Faz serras floridas,
faz claras as fontes:
se isto faz nos montes,
que fará nas vidas?
Trá-las suspendidas,
como ervas em molhos,
na luz de seus olhos.


Os corações prende
Com graça inumana,
de cada pestana
uma alma lhe pende.
Amor se lhe rende
e, posto em geolhos,
pasma nos seus olhos.



Notas:
Abrolhos – plantas herbáceas, de fruto espinhoso, que crescem nos terrenos incultos da região mediterrânica
Pasceis – pastais
Inumana – sobre-humana, divina
Amor – Eros/Cupido (deus do amor)
Geolhos – joelhos


* Alberto Campos – violoncelo
Maria João Correia – acordeão
Paulo Curado – flauta
Carlos Bica – contrabaixo
António José Martins – sintetizadores
Produção, arranjos e direcção musical – António José Martins
Gravado e misturado nos Estúdios Angel I e II, Lisboa, em Outubro de 1991
Gravação – Fernando Rascão e Jorge Barata
Mistura – Jorge Barata e António José Martins




Alma minha gentil, que te partiste



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz Poesias de Amor", Parlophone, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)



Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não esqueças nunca aquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,


roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo dos meus olhos te levou.



Nota:
No manuscrito da "Década VIII", atribuído a Diogo do Couto, lê-se: «Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas "Lusíadas", como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: "Alma minha gentil, que te partiste...»




Ninfas



Poema: Luís de Camões (estrofes 82 e 83 do Canto IX d' "Os Lusíadas", Lisboa, 1572)
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Sensus", Emarcy/Universal Classics France, 2003)





Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.


Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.



Nota:
Julgá-lo – imaginá-lo


* Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Produção musical e arranjos – Custódio Castelo
Co-produção – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Classics France
Gravado e masterizado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, entre Setembro e Dezembro de 2002




"Vasco da Gama na Ilha dos Amores"
Desenho de Alexandre-Joseph Desenne; gravura de Richomme
(in "Os Lusíadas", ed. Morgado de Mateus, Paris, 1817).

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