07 junho 2013

A vitória do azeite



O AZEITE

Roubaste ao sol a luz que te escorrega
pelo dorso
quando cais em fio
aproximando-te dolente de uma música de sal.


Caminhas paralelamente
às mais vastas extensões azuis.


Vestes a sardinha
com teus líquidos fatos
de fazenda grossa e lenta.
Beijas o tomate.
Casas o teu corpo dócil mas altivo
com a renda de brancura de uma fatia de pão.


Em ti o Livro existe
ó verde irmão.
E a bandeira existe.
E os deuses mais antigos.
E o barro da palavra dignidade.


És o amigo mais puro
dos puros azeitoneiros.
Sangue do seu sangue.
Mágoa dos seus olhos numa fronteira
queimada.


Entras na boca dos pobres
com a tua doçura vegetal
e a tua transparência
tão densa
como um sexo de mulher.


És o meu consolo
ó líquido cristal.
Em ti
há um mar tranquilo
a espreguiçar-se todas as manhãs,
e todas as mães cantam
e os deuses vêm consagrar
a casa daqueles que te oferecem
a luz de um olhar sem mancha
ao nascer de cada dia.


(José Fanha, in http://zefanha.blogspot.com/2006/08/o-azeite.html)


«Nem todas as notícias pressagiam marés de desgraça ou confirmam os temidos ventos adversos sobre o Sul da Europa. É natural que num ano particularmente difícil para os europeus periféricos face ao centro geográfico e económico que é Berlim, podíamos e devíamos estar a ser brindados, ao menos, com as bênçãos do clima. Nem isso! Com uma desgraça nunca vem só, temos que suportar chuvas, ventos e frios fora de época e já começamos a fazer contas ao que estas nuvens negras nos vão trazer de despesa, desde a agricultura ao turismo. Torna-se compreensível neste quadro cinzento-escuro que nos agarremos a tudo o que possa representar uma novidade positiva ou, no limite, uma confirmação simpática. É o caso de uma notícia trazida até nós pelo "Jornal de Notícias" e que nos dá conta de uma conclusão animadora de um estudo, realizado pela Universidade de Navarra, tendo como ponto de foco a alimentação. A sentença dos cientistas é então esta: a dieta mediterrânica, alegadamente praticada em Portugal também, não se limita a ser boa para o coração – é igualmente benéfica para o cérebro ou se quisermos pormenorizar, e passo a citar, "o azeite e os frutos secos melhoram significativamente a capacidade cognitiva dos adultos". Ora vamos lá dissecar a história. O Departamento de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade de Navarra teve como base de trabalho 522 adultos com idades compreendidas entre os 55 e os 80 anos, com uma particularidade: nenhuma destas pessoas apresentava problemas cardíacos mas todas tinham aquilo que é considerado um perfil de risco derivado de diabetes [do tipo 2], de hipertensão ou de consequências do tabagismo. Parte deste grupo adoptou a dieta mediterrânica e passados seis anos e meio foram realizados testes que visavam apurar eventuais problemas de deterioração cognitiva. Ora segundo o jornal espanhol "El Mundo", que refere declarações do cientista responsável por este estudo, Miguel Ángel Martínez, a incidência de problemas cerebrais era substancialmente mais baixa naqueles que tinham perfilhado a referida dieta. O médico justifica este desfecho com o seguinte: o azeite consegue eliminar do cérebro a proteína beta-amilóide, tida como a responsável pela doença de Alzheimer; além disso, o mesmo azeite reduz inflamações e o risco de diabetes. O estudo, publicado pelo "Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry", defende que ainda assim são necessários mais estudos para apurar melhor as propriedades antioxidantes da dieta mediterrânica.
Está confirmado então que os cereais, as frutas, as hortaliças, o peixe (mais do que a carne), alguns lacticínios, e as gorduras ligadas ao azeite e às nozes nos deixarão mais próximos de evitar a degradação do nosso próprio cérebro. A pequena ou média contradição vem, claro está, do facto de termos que matar a cabeça para descobrir como, nas actuais circunstâncias, podermos pagar a dieta mediterrânica que nos pode salvar a cabeça. Com tudo isto continua a falhar-me a origem e o alcance da expressão "estar com os azeites". Afinal, é uma coisa boa! E digo mesmo mais: a partir daqui, de hoje, agora e sempre – azeiteiro e com muito orgulho.» (João Gobern, na crónica "A vitória do azeite", da rubrica "Pano para Mangas", 22-Mai-2013).



E como está, nos dias de hoje, a olivicultura em Portugal? A impressão que tenho é de que se trata de um sector em declínio. Será mesmo? Se sim, seria bom que quem tem poder de decisão na matéria lesse notícias tão boas como esta e agisse em conformidade!
Em jeito de ilustração musical ao presente assunto, aqui se deixam alguns espécimes musicais relacionados com o fruto do qual se extrai o azeite – a oliva ou azeitona – e, bem assim, com a árvore que a produz, a oliveira. Tratando-se de repertório boicotado na actual Antena 1 (perdão, na coutada de Rui Pêgo e António Luís Marinho, sustentada pelo povo) mais uma razão para o blogue "A Nossa Rádio" proporcionar a sua audição/descoberta.




Fases de produção do azeite (diagrama)
[clique na imagem para ver melhor]




Oliveira da Serra



Letra e música: Popular
Harmonização: Eurico Carrapatoso
Intérprete: Coro Lisboa Cantat* (in CD "Compositores Portugueses XX-XXI: Volume 1", Numérica, 2007)



Ó oliveira da serra,
O vento leva a flor; (ó ai, ó linda)
Só a mim ninguém me leva (ó ai, ó linda)
Para ao pé do meu amor.
[2x]



* Direcção – Jorge Carvalho Alves



Cantiga da Azeitona



Letra: Popular
Música: João Cavadinhas
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD "Recantos", Polygram, 1996)



[instrumental]

Vou p'rá apanha da azeitona
Namorar nos olivais;
Por andar preso por ti
Cada vez padeço mais.


E os amores da azeitona
São como os da cotovia:
Em se apanhando a azeitona
Adeus amores de um só dia.


Já lá vem o sol raiando
Por cima das oliveiras;
Já se vão ouvindo as vozes
Das moças apanhadeiras.


A azeitona já está preta,
Já passou por tantas cores:
Já foi verde e foi vermelha,
Agora é rainha de amores.


[instrumental]

A oliveira tem pé de oiro
E tem raminhos de prata;
Menina, dê os seus olhos
A quem por eles se mata!


A vara vareja o ramo,
A azeitona cai no chão;
Se tu me pedires um beijo
Nunca te direi que não.


[instrumental]

A rama da oliveira
Quando cai no lume estala:
Assim é o meu coração
Quando contigo não fala.


Canta quem já tem amores,
Fica triste quem não tem;
Foi na apanha da azeitona
Que eu encontrei o meu bem.


[instrumental]


* Ronda dos Quatro Caminhos:
António Prata – violas, violino, bandolim, coros
Carlos Barata – acordeão, adufe, 2.ª voz
Daniel Completo – baixo acústico, coros
João Cavadinhas – viola amarantina, voz solo
Vítor Costa – bateria, percussões
Músicos convidados:
A.C. – violino
Filipe Martins – contrabaixo, baixo acústico
José Barros – viola braguesa
Pedro Fragoso – piano, coros
António Lopes e Alexandre Jerebtzov – coros
Arranjos – António Prata, João Cavadinhas e Carlos Barata
Produção e direcção musical – António Prata
Produção executiva – Alain Vachier
Gravado no Regiestúdio, Amadora, e misturado no Estúdio Sincronia, Madrid, em Janeiro e Fevereiro de 1996




Azeitona Preta



Música: Tradicional (Beira Baixa)
Arranjo: Júlio Pereira
Intérprete: Júlio Pereira* (in LP "Cádoi", Transmédia, 1984, reed. CNM, 1994)





(instrumental / vocalizos)


* Produção e direcção musical – Júlio Pereira
Gravado e misturado no Angel Studio II, Lisboa, em Outubro de 1984
Técnico de som – José Manuel Fortes




Azeitona Galeguinha



Letra e música: Tradicional (Beira Baixa)
Arranjo: Carlos Gama
Intérprete: Orquestra Típica de Alcains





A azeitona galeguinha
(Ai) Não a comem os pardais:
Comem uma, comem duas,
(Ai) Comem três, não querem mais.


[instrumental]

A azeitona galeguinha
(Ai) Quando vai para o lagar
É como a moça bonita
(Ai) Que todos lhe vão falar.


[instrumental]



Na Apanha da Azeitona



Música: Rão Kyao
Intérprete: Rão Kyao* (in CD "Porto Alto", Farol Música, 2004)



(instrumental)


* Rão Kyao – flautas de bambu
António Pinto – viola braguesa
Ruca Rebordão – escova no sofá, shaker
André Sousa Machado – bateria
Produção musical – Luís Pedro Fonseca
Produção executiva – António Cunha (Uguru) & Luís Pedro Fonseca
Gravado por Pedro Rego e Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa, em Dezembro de 2003 e Janeiro de 2004
Misturado e masterizado por Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa




Dás Oliveira Frutos



Poema: António Saias
Música: Fernando Lopes-Graça (1978)
Intérprete: Coro Lisboa Cantat* (in CD "Compositores Portugueses XX-XXI: Volume 1", Numérica, 2007)



Dás, oliveira,
frutos redondos;
colhê-los dói
nas mãos, nos ombros.


Dás, oliveira,
frutos pequenos;
sabê-los d'outros
– a quem os colhe –
não lhe dói menos.


Dás, oliveira,
frutos amargos
das feridas fundas
que vais fazendo
nos dedos magros.



* Direcção – Jorge Carvalho Alves



Balada da Oliveira



Música: Pedro Caldeira Cabral
Intérprete: Pedro Caldeira Cabral* (in CD "Memórias da Guitarra Portuguesa", Tradisom, 2003)





(instrumental)


* Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Fernando Alvim – viola
Duncan Fox – contrabaixo
Produção – José Moças
Gravado na Igreja da Cartuxa, Caxias, em 1999
Engenheiro de som – José Manuel Fortes




Canção da Azeitona



Letra e música: Tradicional (Quadrazais - Sabugal, Beira Alta)
Recolha: César Prata e Julieta Silva
Intérprete: Chuchurumel* com Maria Augusta Moleira (in CD "No Castelo de Chuchurumel", Chuchurumel/Luzlinar, 2005)



Azeitona miudinha,
Já morreu quem te apanhava;
Agora deixa-te andar
Por esse chão espalhada.


A oliveira tem pé de ouro,
Não tem galhadas de prata;
Menina, dê os seus olhos
A quem por eles se mata!


A azeitona cordovil
Traz o caroço escondido;
Não me percas a amizade,
Eu não te perco o sentido!


Debaixo da oliveira
Aí é que é o falar;
Traz a rama escondida,
Não entra lá o luar.


[instrumental]


* Maria Augusta Moleira – voz
César Prata – viola e voz
Julieta Silva – piano e voz
Gravado no Primogénitos Studios, Soito - Sabugal, entre Fevereiro de 2004 e Abril de 2005
Produção, arranjos e edição – Chuchurumel
Gravação e masterização – Artur Emídio
Misturas – Artur Emídio e Chuchurumel




Debaixo da Oliveira



Letra e música: Popular (Beira Litoral)
Intérprete: Toques do Caramulo* com Bernard Massuir (in CD "Toques do Caramulo É ao Vivo!", Associação d'Orfeu, 2007)



[vocalizos / instrumental]

Meu benzinho, eu vou-me embora,
Dá carinhos a quem te adora!
Meu benzinho, eu já cá estou,
Dá carinhos a quem te amou!



* Toques do Caramulo:
Luís Fernandes – voz, acordeão, viola braguesa
Aníbal Almeida – rabeca
Gonçalo Rodrigues – bandolim
Miguel Cardoso – contrabaixo
Lara Figueiredo – flauta
Ricardo Coutinho – bateria tradicional
Convidado especial:
Bernard Massuir – voz
Gravado ao vivo no Espaço d'Orfeu, Águeda, na noite de 21 de Outubro de 2006
Direcção técnica – Rui Oliveira
Assistência técnica de gravação – Paulo Brites, Ricardo Relvas, Bitocas e Jorge Sousa
Misturas – Rui Oliveira & Luís Fernandes, no Gravad'Or, Águeda, de Novembro de 2006 a Março de 2007
Masterização – João Neves & Rui Oliveira, no Espaço Sons, Aveiro, em Março de 2007




Amores da Azeitona



Letra e música: Tradicional (Beira Baixa)
Intérprete: Musicalbi* (in CD "Mastiço", I Som, 2007)



A folha da oliveira
Ai, deitada no lume estala;
Assim é meu coração
Ai, quando para ti não fala!


A folha da oliveira
Ai, tem dois bicos como a renda;
Estes rapazes de agora
Ai, já não há quem os entenda!


A oliveira pequena
Ai, que azeitona pode dar?
A filha de um homem pobre
Ai, que amores pode tomar?


[instrumental]

A folha da oliveira
Ai, deitada no lume estala;
Assim é meu coração
Ai, quando para ti não fala!


A folha da oliveira
Ai, tem dois bicos como a renda;
Estes rapazes de agora
Ai, já não há quem os entenda!


A oliveira pequena
Ai, que azeitona pode dar?
A filha de um homem pobre
Ai, que amores pode tomar?


Se a oliveira falasse
Ai, ela diria o que viu:
Debaixo da sua sombra
Ai, dois amores encobriu.


Os amores da azeitona
Ai, são como os do milho miúdo:
À acabada da azeitona
Ai, lá vai amor, lá vai tudo!


A folha da oliveira
Ai, deitada no lume estala!



* Musicalbi:
Carlos Salvado – voz, bandolim, guitarra, cavaquinho, bouzouki e flautas
Filipa Melo – voz
Horácio Pio – baixo, acordeão e coros
Maria Côrte – violino, harpa celta e gaita-de-foles
António Pedro – piano, percussões e coros
António Lourinho – bateria
Participações especiais:
Catarina Ventura – acordeão e coros
Emília Melo (mãe de Filipa Melo) – voz
Gravado no Estúdio I Som, Alcains
Misturas e masterização – Nuno Gelpi




Ó Rama, Ó Que Linda Rama



Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Teresa Silva Carvalho* (in LP "Ó Rama, Ó Que Linda Rama", Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1994)





[instrumental]

Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama da oliveira,
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui na roda inteira!


Que anda aqui na roda inteira,
Aqui e em qualquer lugar!
Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama do olival!


Eu gosto muito de ouvir
Cantar a quem aprendeu;
Se houvesse quem me ensinara
Quem aprendia era eu.


[instrumental]

Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama da oliveira,
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui na roda inteira!


Que anda aqui na roda inteira,
Aqui e em qualquer lugar!
Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama do olival!


Não me inveja de quem tem
Carros, parelhas e montes;
Só me inveja de quem bebe
A água em todas as fontes.


[instrumental]

Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama da oliveira,
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui na roda inteira!


Que anda aqui na roda inteira,
Aqui e em qualquer lugar!
Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama do olival!


[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Júlio Pereira – violas acústica e clássica, bandolim e percussões
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa e rabeca
Catarina Latino – flauta barroca e cornamusa
Zé Luiz Iglésias – viola clássica
Pintinhas – percussões
Hélder Reis – acordeão
Voz masculina – Vitorino
Grupo Coral de Cantadores do Redondo
Produção e direcção musical – Vitorino
Técnicos de som – Manuel Cunha e Moreno Pinto




À Oliveira da Serra



Música: Popular
Adaptação: Rão Kyao
Intérprete: Rão Kyao* & Lu Yanan (in CD "Porto Interior", Fundação Jorge Álvares, 2008)



(instrumental)


* Rão Kyao – flauta de bambu
Lu Yanan – pi'pa
Produtor musical – Rão Kyao
Produtor executivo – António Avelar de Pinho
Gravação e mistura – Luís Delgado, no Estúdio Sonic State, Miraflores








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