13 junho 2018

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Aniversário", por Luís Lima Barreto


Fernando Pessoa em 1928, aos 40 anos de idade.


O blogue "A Nossa Rádio" associa-se às comemorações do 130.º aniversário do nascimento de Fernando Pessoa apresentando o poema "Aniversário", do heterónimo Álvaro de Campos, admiravelmente dito pelo actor Luís Lima Barreto, que faz parte do CD n.º 1 da edição "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX" (2004) [capa do fundo]. O texto está datado de 15 de Outubro de 1929 e foi primeiramente publicado na revista coimbrã "Presença" em meados de 1930. Está, pois, temporalmente muito próximo do retrato do poeta supra.
Quem esteve ligado à Antena 2 entre as 08:00 e as 10:00, teve a oportunidade de se nutrir de uma mão-cheia de poemas pessoanos, ora recitados ora cantados, nas vozes de Luís Lima Barreto, Maria Germana Tânger, Camané, Tom Jobim, Sara Serpa e outros intérpretes. Uma nota de louvor para o autor da iniciativa, Paulo Alves Guerra!
E a Antena 1? Fez alguma coisa em celebração do maior poeta português do século XX? Durante os períodos em estive hoje sintonizado (a intragável 'playlist' impediu-me de ficar em escuta contínua e obrigou-me ao exílio noutras paragens), nada de Fernando Pessoa – poesia ou prosa – chegou aos meus ouvidos. E, tendo em conta a conhecida aversão da actual direcção de programas a tudo o que seja poesia, não é de crer que quando estive fora da sintonia do canal algum poema do ilustre aniversariante tenha sido transmitido ou venha a sê-lo no tempo que falta para o dia terminar. Vergonhoso!



ANIVERSÁRIO



Poema de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos (15-10-1929, in "Presença", n.º 27, Coimbra: Jun.-Jul. 1930; "Obras Completas de Fernando Pessoa: II – Poesias de Álvaro de Campos", Lisboa: Edições Ática, 1944, 1993 – p. 284-286)
Recitado por Luís Lima Barreto* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD 1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


15-10-1929


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Capa do livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons (Assírio & Alvim, 2004).

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