02 julho 2013

Ser Poeta


Desenho da autoria de Edgard Braga, publicado no seu livro de poesia "Desbragada" (São Paulo: Editora Max Lomonad, 1984)

"Ser Poeta": com estas duas palavras, carregadas de significado, começa o poema mais conhecido de Florbela Espanca. Amplamente conhecido muito por graças de João Gil que teve a feliz ideia de o musicar e de propor a sua gravação aos demais elementos do Trovante que assim deram à música portuguesa uma pérola de elevado quilate. É dos poemas que melhor define a condição de poeta, mas outros existem que importa ter em consideração. Aqui se apresenta alguns deles, em jeito de homenagem a todos os poetas, eruditos e populares, sem esquecer os analfabetos ou semi-analfabetos, aos quais Rafael Correia sempre deu voz no referencial "Lugar ao Sul".
Antes, ou depois (para o caso é indiferente), há que ouvir também uma série de edições da rubrica "David Ferreira a contar" e uma edição especial do programa "A Cena do Ódio" consagradas à poesia, que foram, afinal, o móbil deste artigo. Ouvindo poesia, cantada ou recitada, nutrimos a mente e ficamos menos "subalimentados do sonho". Bom proveito!


26.10.2012 – NATÁLIA CORREIA
http://www.rtp.pt/play/p955/e96981/david-ferreira-a-contar

- "Queixa das Almas Jovens Censuradas", por José Mário Branco (in LP "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. EMI-VC, 1996) [>> YouTube]


13.11.2012 – LUÍS VAZ DE CAMÕES
http://www.rtp.pt/play/p955/e98850/david-ferreira-a-contar

- "Endechas a Bárbara Escrava", por José Afonso (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube]
- "Endechas a Bárbara Escrava", Sérgio Godinho (in LP/CD "Aos Amores", EMI-VC, 1989) [>> YouTube]



29.11.2012 – FLORBELA ESPANCA, ALMEIDA GARRETT, ARY DOS SANTOS, CARLOS QUEIROZ
http://www.rtp.pt/play/p955/e100629/david-ferreira-a-contar

- "Amar!", de Florbela Espanca, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Amor Tornado Momento", A Voz do Dono/Valentim de Carvalho, 1969; CD "Biografia do Fado", EMI-VC, 1994; 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004; CD "Teresa Silva Carvalho: Álbum de Recordações", Alma do Fado, 2008) [>> YouTube]
- "Barca Bela", de Almeida Garrett, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Teresa Silva Carvalho (Adágio)", Movieplay, 1973; CD "Teresa Silva Carvalho: O Melhor dos Melhores", vol. 35, Movieplay, 1994; 2CD "Poesia Encantada", vol. 1, EMI-VC, 2002; CD "Teresa Silva Carvalho: Álbum de Recordações", Alma do Fado, 2008) [>> YouTube]
- "Adágio", de Ary dos Santos, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Teresa Silva Carvalho (Adágio)", Movieplay, 1973; CD "Teresa Silva Carvalho", col. Clássicos da Renascença, vol. 63, Movieplay, 2000) [>> YouTube]
- "Canção Grata", de Carlos Queiroz, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Teresa Silva Carvalho (Adágio)", Movieplay, 1973; CD "Teresa Silva Carvalho", col. Clássicos da Renascença, vol. 63, Movieplay, 2000) [>> YouTube]



28.01.2013 – ANTÓNIO GEDEÃO
http://www.rtp.pt/play/p955/e106255/david-ferreira-a-contar

- "Poema do Fecho Éclair", por Carlos Mendes (in LP "Fala do Homem Nascido", Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1998) [>> YouTube]
- "Pedra Filosofal", por Manuel Freire (in single "Pedra Filosofal / Menina dos Olhos Tristes", Zip-Zip, 1970; CD "Pedra Filosofal" (compilação), Strauss, 1993, CNM, 2004; 2CD "Poesia Encantada", vol. 1, EMI-VC, 2002) [>> YouTube]



15.03.2013 – NATÁLIA CORREIA
http://www.rtp.pt/play/p955/e110843/david-ferreira-a-contar

- "Autogénese", pela autora (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003) [em casa de Amália, Dez. 1968 >> YouTube]
- "Queixa das Almas Jovens Censuradas", por José Mário Branco (in LP "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. EMI-VC, 1996) [>> YouTube]
- "A Defesa do Poeta", pela autora (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003) [em casa de Amália, Dez. 1968 >> YouTube]
- "Dom Fulano", de D. Dinis (adapt. Natália Correia), por José Cid (in LP "José Cid", Columbia/VC, 1971; CD "O Melhor de José Cid", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]
- "No Vale de Fuenteovejuna", de Lope de Vega (adapt. Natália Correia), por José Afonso (in LP "Contos Velhos, Rumos Novos", Orfeu, 1969, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube]
- "Amores Eu Tenho", de Pêro Meogo (adapt. Natália Correia), por Natália Correia e Amália Rodrigues (in LP "Cantigas d'Amigos", Columbia/VC, 1971, reed. Valentim de Carvalho/Iplay, 2011) [>> YouTube]
- "Senhores, sou um poeta" ("A Defesa do Poeta"), por Maria Bethânia (in 2CD "Maricotinha ao Vivo": CD 2, Biscoito Fino, 2002) [>> YouTube]



08.04.2013 – JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS
http://www.rtp.pt/play/p955/e113133/david-ferreira-a-contar

- "A Cena do Ódio", por Mário Viegas (in LP "3 Poemas de Amor, Ódio e Alguma Amargura", Orfeu, 1976, reed. Público, 2006) [Parte I >> YouTube; Parte II >> YouTube; Parte III >> YouTube]
- "Manifesto Anti-Dantas", por Mário Viegas (in LP "Pretextos Para Dizer", Orfeu, 1978, reed. Público, 2006) [>> YouTube]
- "Rondel do Alentejo", por Amália Rodrigues (in LP/CD "Obsessão", EMI-VC, 1990; 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004) [>> YouTube]
- "A Cena do Ódio", por Mário Viegas (in LP "3 Poemas de Amor, Ódio e Alguma Amargura", Orfeu, 1976, reed. Público, 2006) [Parte I >> YouTube; Parte II >> YouTube; Parte III >> YouTube]



29.05.2013 – MIGUEL TORGA
http://www.rtp.pt/play/p955/e118713/david-ferreira-a-contar

- "Bucólica", por Rui Veloso (in LP "Fora de Moda", Valentim de Carvalho, 1982, reed. EMI-VC, 1993; 2CD "Poesia Encantada", vol. 1, EMI-VC, 2002) [>> YouTube]
- "Bucólica", por Sophia de Mello Breyner Andresen (registo do arquivo da RDP, 1976)
- "Confiança", pelo autor (in LP "Miguel Torga: 80 Poemas", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)
- "Fantasia", pelo autor (in LP "Miguel Torga: 80 Poemas", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)



30.05.2013 – FLORBELA ESPANCA
http://www.rtp.pt/play/p955/e118821/david-ferreira-a-contar

- "Amar!", de Florbela Espanca, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Amor Tornado Momento", A Voz do Dono/Valentim de Carvalho, 1969; CD "Biografia do Fado", EMI-VC, 1994; 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004; CD "Teresa Silva Carvalho: Álbum de Recordações", Alma do Fado, 2008) [>> YouTube]
- "Perdidamente" ("Ser Poeta"), por Trovante (in LP "Terra Firme", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988, EMI, 2009; 2CD "Saudades do Futuro: o Melhor dos Trovante", EMI-VC, 1991) [>> YouTube]
- "Rústica", por Jafumega (in LP "Recados", Polydor/Polygram, 1983; CD "Jáfu'Mega" (compilação), Polydor/Polygram, 1990)



31.05.2013 – PEDRO HOMEM DE MELLO
http://www.rtp.pt/play/p955/e118917/david-ferreira-a-contar

- "Fria Claridade" ("Naufrágio"), por Amália Rodrigues (in single 78 rpm "Ave-Maria Fadista / Fria Claridade", Melodia, 1952; CD "Amália Rodrigues", col. O Melhor dos Melhores, vol. 2, Movieplay, 1994; CD "Amália Rodrigues" (compilação), Movieplay, 1997) [>> YouTube]
- "Quando os Outros te Batem, Beijo-te Eu", por Amália Rodrigues (in single 78 rpm "Lá Porque Tens Cinco Pedras/Quando os Outros te Batem, Beijo-te Eu", Melodia, 1951; col. O Melhor dos Melhores, vol. 2, Movieplay, 1994; CD "Amália Rodrigues" (compilação), Movieplay, 1997) [>> Vimeo]
- "Povo Que Lavas no Rio" ("Povo"), por Amália Rodrigues (in LP "Amália Rodrigues (Busto)",  Columbia/VC, 1962, reed. EMI-VC, 1989, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube]
- "O Rapaz da Camisola Verde", por Frei Hermano da Câmara (in EP "Túnica Negra", A Voz do Dono/Valentim de Carvalho, 1970; CD "O Melhor de Frei Hermano da Câmara", EMI-VC, 1989; 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004; CD "O Melhor de Frei Hermano da Câmara", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]
- "Havemos de Ir a Viana", por Amália Rodrigues (in EP "Formiga Bossa Nossa", Columbia/VC, 1969; LP "Com Que Voz", Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1987; "Com Que Voz" (nova edição): CD1, Valentim de Carvalho/Iplay, 2010) [>> YouTube]



03.06.2013 – EUGÉNIO DE ANDRADE
http://www.rtp.pt/play/p955/e119152/david-ferreira-a-contar

- "Adeus (Palavras Gastas)", por Simone de Oliveira (in LP "Simone", Alvorada, 1979; CD "Simone de Oliveira", col. O Melhor dos Melhores, vol. 26, Movieplay, 1994) [>> YouTube]
- "Elegia das Águas Negras para Che Guevara", por Mário Viegas (in LP "3 Poemas de Amor, Ódio e Alguma Amargura", Orfeu, 1976, reed. Público, 2006) [>> YouTube]
- "Lisboa", por Trovante (in LP "Baile no Bosque", Valentim de Carvalho, 1981, reed. EMI-VC, 1988, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube]



04.06.2013 – FERNANDO PESSOA
http://www.rtp.pt/play/p955/e119347/david-ferreira-a-contar

- "No Comboio Descendente", por José Afonso (in LP "Eu Vou Ser Como a Toupeira", Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube]
- "Autopsicografia", por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008; 3CD "Fernando Pessoa por João Villaret e Mário Viegas": CD1, CNM, 2010) [>> YouTube]
- "O Menino de Sua Mãe", por Mafalda Veiga (in LP "Pássaros do Sul", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1993, 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004) [>> YouTube]
- "Ai Margarida", por Camané (in 2CD "O Melhor de Camané: 1995-2013", EMI, 2013) [>> YouTube]
- "Cavaleiro Monge" ("Do Vale à Montanha"), por Mariza (in CD "Fado Curvo", Word Connection/EMI-VC, 2003; 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004) [>> YouTube]



05.06.2013 – JOSÉ RÉGIO
http://www.rtp.pt/play/p955/e119490/david-ferreira-a-contar

- "Cântico Negro", pelo autor (in LP "José Régio por José Régio", Orfeu, 1958, reed. Movieplay, 1994) [>> YouTube]
- "Cântico Negro", por João Villaret (in LP "João Villaret no São Luís", Parlophone, 1959; reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]
- "Cântico Negro", por Paulo Gracindo [>> YouTube]
- "Cântico Negro", por Maria Bethânia (in LP "Nossos Momentos", Philips, 1982, reed. Universal, 2006) [>> YouTube]
- "Fado Português", por Amália Rodrigues (in LP "Fado Português", Columbia/VC, 1965, reed. EMI-VC, 1992, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube]
- "Fado Português", por Amália Rodrigues (1968) (in LP "Amália-Vinicius", Decca/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1988, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]



06.06.2013 – JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS
http://www.rtp.pt/play/p955/e119588/david-ferreira-a-contar

- "O Objecto", pelo autor (in LP "Amália-Vinicius", Decca/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1988, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]
- "Desfolhada Portuguesa", por Simone de Oliveira (in EP "Desfolhada Portuguesa", Decca/VC, 1969; CD "O Melhor de Simone", EMI-VC, 1992; 2CD "Simone de Oliveira: Perfil: 50 Anos", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]
- "Tourada", por Fernando Tordo (in single "Tourada / Carta De Longe", Tecla, 1973; CD "Carlos Mendes e Fernando Tordo", col. O Melhor dos Melhores, vol. 67, Movieplay, 1997) [>> YouTube]
- "Alfama", por Amália Rodrigues (in LP "Cantigas Numa Língua Antiga", Columbia/VC, 1977, reed. EMI-VC, 1992, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube]
- "O Cacilheiro", por Carlos do Carmo (in LP "Um Homem na Cidade", Trova, 1977, reed. UPAV, 1991, Philips/Polygram, 1995) [>> YouTube]
- "Namorados da Cidade", por Carlos do Carmo (in LP "Um Homem na Cidade", Trova, 1977, reed. UPAV, 1991, Philips/Polygram, 1995)
- "Fado da Pouca Sorte", por Carlos do Carmo (in LP "Um Homem na Cidade", Trova, 1977, reed. UPAV, 1991, Philips/Polygram, 1995)



07.06.2013 – ALEXANDRE O'NEILL
http://www.rtp.pt/play/p955/e119689/david-ferreira-a-contar

- "Gaivota", por Amália Rodrigues (in LP "Com Que Voz", Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1987; "Com Que Voz" (nova edição): CD1, Valentim de Carvalho/Iplay, 2010) [>> YouTube]
- "Formiga Bossa Nossa", por Amália Rodrigues (in EP "Formiga Bossa Nossa", Columbia/VC, 1969; LP "Com Que Voz", Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1987; "Com Que Voz" (nova edição): CD1, Valentim de Carvalho/Iplay, 2010) [>> YouTube]
- "O Macaco (Valsa Lisboeta)", pelo autor (in EP "Os Bichos Também São Gente!", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969)
- "O'Neill (alguns poemas com endereço)", por Sérgio Godinho (in LP "Pré-Histórias", Guilda da Música/Sassetti, 1973, reed. Philips/Polygram, 1990, Universal, 2001) [>> YouTube]
- "Cão", pelo autor (in EP "Os Bichos Também São Gente!", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969)



10.06.2013 – LUÍS VAZ DE CAMÕES
http://www.rtp.pt/play/p955/e119984/david-ferreira-a-contar

- "Lianor", por Amália Rodrigues (in EP "Amália Canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; "Amália 50 Anos": CD "Os Poetas", EMI-VC, 1989) [>> YouTube]
- "Erros Meus", por Amália Rodrigues (in EP "Amália Canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; LP "Fado Português", Columbia/VC, 1965, reed. EMI-VC, 1992, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube]
- "Dura Memória", por Amália Rodrigues (in EP "Amália Canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; 2LP "O Melhor de Amália: Volume II - Tudo Isto é Fado", EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 2000) [>> YouTube]
- "Endechas a Bárbara Escrava", por José Afonso (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube]



02.06.2013 – PROGRAMA "A CENA DO ÓDIO" N.º 111 - A FEIRA DOS POETAS
http://www.rtp.pt/play/p651/e119053/a-cena-do-odio

- "Sonnet 43", de William Shakespeare, por Rufus Wainwright (in CD "All Days Are Nights: Songs For Lulu", Decca Records, 2010) [>> YouTube]
- "Endechas a Bárbara Escrava", de Luís de Camões, por José Afonso (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube]
- "Les Passantes", de Antoine Pol, por Georges Brassens (in LP "Fernande", Philips, 1972; 5CD "Georges Brassens: Les 100 Plus Belles Chansons", Universal Music France, 2008) [>> YouTube]
- "Casa", de David Mourão-Ferreira, pelo autor (in CD "Um Monumento de Palavras", EMI-VC, 1995)
- "Casa", de David Mourão-Ferreira, por Camané (in CD "Do Amor e dos Dias", EMI, 2010) [>> YouTube]
- "Menos Tu Vientre", de Miguel Hernandez, por Joan Manuel Serrat (in LP "Miguel Hernandez", Zafiro/Novola, 1972, reed. Ariola/BMG España, 2000) [>> YouTube]
- "Les Pensionnaires", de Paul Verlaine, por Leo Ferré (in 2 LP "Verlaine et Rimbaud chantés par Leo Ferré", Barclay, 1964, reed. Barclay, 2004) [>> YouTube]
- "Serenata em Dó Maior", de Miguel Torga, pelo autor (in LP "Miguel Torga: 80 Poemas", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)
- "Bucólica", de Miguel Torga, por Rui Veloso (in LP "Fora de Moda", Valentim de Carvalho, 1982, reed. EMI-VC, 1993; 2CD "Poesia Encantada", vol. 1, EMI-VC, 2002) [>> YouTube]
- "Soneto à Maneira de Camões", de Sophia de Mello Breyner Andresen, pela autora (in EP "Sophia de Mello Breyner Andresen Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1959)
- "Perdidamente" ("Ser Poeta"), de Florbela Espanca, por Trovante (in LP "Terra Firme", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988, EMI, 2009; 2CD "Saudades do Futuro: o Melhor dos Trovante", EMI-VC, 1991) [>> YouTube]
- "Amar!", de Florbela Espanca, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Amor Tornado Momento", A Voz do Dono/Valentim de Carvalho, 1969; CD "Biografia do Fado", EMI-VC, 1994; 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004; CD "Teresa Silva Carvalho: Álbum de Recordações", Alma do Fado, 2008) [>> YouTube]
- "Florbela Espanca-me", de Manuel João Vieira, por Ena Pá 2000 (in CD "Opus Gay", Discossete, 1997, reed. Espacial, 2012) [>> YouTube]
- "O'Neill (alguns poemas com endereço)", de Alexandre O'Neill, por Sérgio Godinho (in LP "Pré-Histórias", Guilda da Música/Sassetti, 1973, reed. Philips/Polygram, 1990, Universal, 2001) [>> YouTube]
- "Pastelaria", de Mário Cesariny de Vasconcelos, pelo autor (in LP "Mário Cesariny: Poesia (1943-1968)", Graça Lobo - Mário Cesariny, col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1975)

- "Verdad, Mentira", de Luis de Góngora, por Paco Ibañez (in LP "La Poesia Española de Ahora y de Siempre", Moshé-Naïm, 1968; CD "Paco Ibáñez 2", EMEN/PDI, 2000) [>> YouTube]
- "Dom Fulano", de D. Dinis (adapt. Natália Correia), por José Cid (in LP "José Cid", Columbia/VC, 1971; CD "O Melhor de José Cid", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]
- "No Comboio Descendente", de Fernando Pessoa, por Couple Coffee (in CD "Co'as Tamanquinhas do Zeca", Transformadores, 2007) [>> YouTube]
- "Ai Margarida", de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, por Camané (in 2CD "O Melhor de Camané: 1995-2013", EMI, 2013) [>> YouTube]
- "Baudelaire" ("Le serpent qui danse"), de Charles Baudelaire, por Serge Gainsbourg (in LP "Serge Gainsbourg ‎N.° 4", Philips, 1962, reed. Club Dial, 1994, Mercury France/Universal, 2001) [>> YouTube]
- "La Malabaraise" ("À Une Malabaraise"), de Charles Baudelaire, por Leo Ferré (in 2LP "Léo Ferré chante Baudelaire", Barclay, 1967, reed. Barclay, 1990, Barclay/Universal, 2004) [>> YouTube]
- "Les Feuilles Mortes", de Jacques Prévert, por Mireille Mathieu (in LP "Les Grandes Chansons Françaises", Ariola, 1985; 3CD "Amoureusement Vôtre": CD 1, EMI Music, 2002) [>> YouTube]




Poeta



Poema de Antero de Quental
Recitado por Afonso Dias* (in CD "Cantando Espalharey", vol. I, Edere, 2001)



Quereis saber que é ser-se poeta?
Pois bem. Aqui vos deixo em breves traços:
É vaguear em sonhos p'los espaços,
Sem que o nosso ideal encontre a meta!

Querer ter a magia dum profeta,
Ter forças p'ra vencer nossos fracassos,
À ilusão e à vida dar os braços
Quando o Cupido atira a sua seta.

É descer aos mistérios das ravinas,
Desvendar horizontes nas colinas
E em tudo achar motivos de beleza!

Ser simples como as ervas pelo chão
E agradecer a Deus este condão,
Que é sentir dentro em nós a Natureza!



* Pesquisa e produção – Afonso Dias e André Dias
Gravado no Estúdio InforArte, Chinicato - Lagos
Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro




Perdidamente



Poema: Florbela Espanca (soneto "Ser Poeta", in "Charneca em Flor", Coimbra: Livraria Gonçalves, 1931; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000 – pág. 319)
Música: João Gil
Arranjo: Artur Costa
Intérprete: Trovante* (in LP "Terra Firme", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988, EMI, 2009; 2CD "Saudades do Futuro: o Melhor dos Trovante", EMI-VC, 1991)





Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!


É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!


É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!


E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!



* Trovante:
Artur Costa – saxofone
Fernando Júdice – baixo
João Gil – guitarras e coros
José Martins – sintetizador
José Salgueiro – bateria, percussão e coros
Luís Represas – voz
Manuel Faria – piano e sintetizador
Produção – Manuel Faria e Artur Costa
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Agosto, Setembro e Outubro de 1987
Engenheiro de som – Paulo Neves
Misturas – Paulo Neves, Manuel Faria e Artur Costa




A Defesa do Poeta



Poema de Natália Correia (in "A Mosca Iluminada", Lisboa: Quadrante, 1972; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – págs. 330-31)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Antologia da Mulher Poeta Portuguesa", Orfeu, 1981, reed. Movieplay, 2011)



Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.


Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.


Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.


Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.


Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.


Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.


Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.


Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?


Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.


Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.


Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.



Nota da autora: «Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado, que sensatamente me advertiu de que essa minha insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.» (in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 330)

* Selecção de textos – António Barahona da Fonseca
Masterização – José António Regada, nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Fevereiro de 2010




Poema do Lavrador de Palavras aos Políticos



Poema e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso* (in CD "Criticamente", Lusogram, 1999)





[instrumental]

Não me perguntem coisas daquelas que eu não creia
não me perguntem coisas daquelas que eu não sei
remeto para os senhores todas as decisões do mundo
tais como governar, fazer decretos-lei


no meio da tempestade, no meio das sapiências
se poeta nasci, poeta morrerei
nem homem de gravata nem homem de ciências
apenas de mim próprio, e pouco, serei rei


das decisões do mundo lerei o que entender
que dentro de mim mesmo às vezes nasce um rio
e é esse desafio que nunca hei-de esquecer
e é essa a diferença que faz este feitio


mas digam, por favor, de onde nasce o Sol
que eu basta-me o calor – para lá me voltarei
e saibam, já agora, que se eu lavrar a terra
me bastará que chova que o resto eu o farei
e digam, por favor, se o dia amanhecer
e bastará o azul que em ave me tornei


[instrumental]

mantenham com cuidado as árvores e estradas
p'ra a gente poder ver, p'ra a gente circular
que eu basta-me saúde e o sonho tão distante
e a boca perturbante que tu me sabes dar


e a festa de viver e o gozo e a paisagem
nesta curva do Tejo, soprando a brisa leve
e na tranquilidade assim desta viagem
parasse o tempo aqui, eterno, fresco e breve


que eu voo por toda a parte mas noutro horizonte
e vivo as coisas simples e rio-me da ambição
e ao fim de tanto ver, escolherei um monte
de onde assistirei, sorrindo, ao vosso enfarte


da ânsia de possuir, da ânsia de mostrar,
da ânsia da importância, da ânsia de mandar


mas digam, por favor, de onde nasce o Sol
que eu basta-me o calor – para lá me voltarei
e saibam, já agora, que se eu lavrar a terra
me bastará que chova que o resto eu o farei
e digam, por favor, se o dia amanheceu
e bastará o azul que em ave me tornei


[instrumental]

mas digam, por favor, de onde nasce o Sol
que eu basta-me o calor – para lá me voltarei
e saibam, já agora, que se eu lavrar a terra
me bastará que chova que o resto eu o farei
e digam, por favor, se o dia amanheceu
e bastará o azul que em ave me tornei



* [Créditos gerais do disco:]
Pedro Barroso – voz, piano, viola, adufe, harmónica, teclados
Nuno Fernandes – tuba
Luís Sá Pessoa – violoncelo e arranjos para corda
Carlos Dâmaso – guitarra portuguesa, flautas, bandolim
Nuno Barroso – piano, teclados
Jorge Nascimento – piano, acordeão, teclados
Arranjos – Pedro Barroso e todos os músicos
Produção, coordenação e direcção musical – Pedro Barroso
Gravado nos Estúdios Quinta da Voz, Casal da Raposa - Riachos
Técnicos de som – Carlos Dâmaso e António Silva




Cântico Negro



Poema de José Régio (in "Poemas de Deus e do Diabo", Coimbra, 1925; "Antologia Poética", org. Eugénio Lisboa, Lisboa: Círculo de Leitores, 1993 – págs. 18-19)
Recitado por João Villaret (in LP "João Villaret no São Luís", Parlophone, 1959; reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)





«Vem por aqui» — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.


Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...


Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: «vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
— Sei que não vou por aí!



Nota: Embora com alguns ligeiros desvios ao texto de José Régio, este registo de João Villaret é um primoroso testemunho da inigualável arte de recitar do grande actor e, nessa medida, seria injusto preteri-lo a favor de outra leitura sem a mesma intensidade expressiva ainda que mais fiel às palavras exactas do autor.



A Alma dos Poetas



Poema: Florbela Espanca (poema "Poetas", caderno "Trocando Olhares", in "Obras Completas de Florbela Espanca", vol. I, recolha, leitura e notas por Rui Guedes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987 – pág. 88; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000 – pág. 94)
Música: Adão Carvalho
Intérprete: Chamaste-m'ó?* (in CD "A Inocência da Noite", Açor/Emiliano Toste, 2002)



[instrumental]

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no mar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala ao peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras
Que nunca entendeu ninguém
Tenho alma p'ra sentir
A dos poetas também!



08-01-1916

* Chamaste-m'ó?:
Adão Carvalho – coros
Blandino Sérgio – voz, coros, viola braguesa, bandolim, guitarra
Carlos Adolfo – percussões, teclados, piano
Isabel Martinho – voz, coros
Octávio Fonseca – voz, coros, guitarra
Ricardo Rocha – concertina, melódica, guitarra
Sérgio Ferreira – coros, guitarra, viola braguesa
Produção – Chamaste-m'ó? e Emiliano Toste
Gravação, mistura e masterização – Emiliano Toste, no Estúdio Toste, São Mamede de Infesta




Eu nunca guardei rebanhos



Poema de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro (poema I de "O Guardador de Rebanhos", in "Athena", n.º 4, Lisboa: Jan. 1925; "Poemas de Alberto Caeiro", Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1946)
Recitado por Mário Viegas* (in 2LP "O Guardador de Rebanhos", Guilda da Música/Sassetti, 1983; CD "O Guardador de Rebanhos I", Público, 2006; 3CD "Fernando Pessoa por João Villaret e Mário Viegas": CD2, CNM, 2010)



Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr-do-sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Com um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo do outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.



* Produção – Sassetti
Gravado nos Estúdios T.S.F. durante os meses de Setembro e Outubro de 1983
Captação – Carlos Lima




Autopsicografia



Poema: Fernando Pessoa (in "Presença", n.º 36, Coimbra: Nov. 1932; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942)
Música: Filipe Pinto
Intérprete: Mísia* (in 2CD "Ruas": CD "Lisboarium", AZ/Universal Music France, 2009)





O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.



* Ângelo Freire – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola de fado
Daniel Pinto – baixo acústico
Luís Pacheco Cunha – violino
Direcção artística – Mísia
Produção executiva – Flavio D'Ancona
Gravação e mistura – Charles De Schutter (Acousti Studio, Paris / Studio Rec'n Roll, Bruxelas)
Masterização – Mike Marsh (The Exchange Mastering)



Poetas de Lisboa



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 18; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 196)
Música: Casimiro Ramos (Fado Margaridas)
Intérprete: Carlos do Carmo* (in 2CD "Ao Vivo no CCB: Os Sucessos de 35 Anos de Carreira": CD 2, EMI-VC, 1999)




É bom lembrar mais vozes pois Lisboa
cidade com poético fadário
cabe toda num verso do Cesário
e alguma em ironias do Pessoa

Para cada gaivota há um do O'Neill
para cada paixão um do David
e há Pedro Homem de Mello que divide
entre Alfama e Cabanas seu perfil

E há também o Ary e muitos mais,
entre eles o Camões e o Tolentino,
ou tomando por fado o seu destino
ou dando de seu riso alguns sinais

Muito do que escreveram e se canta
na música de fado que já tinha
o próprio som do verso vem asinha
assim do coração para a garganta

Que bom seria tê-los a uma mesa
de café comparando as emoções
e a descobrirem novas relações
entre o seu fado e a língua portuguesa


* Carlos do Carmo – voz
Ricardo Rocha – 1.ª guitarra portuguesa (canal esquerdo)
Paulo Parreira – 2.ª guitarra portuguesa (canal direito)
José Maria Nóbrega – 1.ª viola (canal esquerdo)
Carlos Manuel Proença – 2.ª viola (canal direito)
José Elmiro Nunes – baixo acústico
Concepção musical – Carlos do Carmo
Produção – Alfredo Almeida
Gravado ao vivo no Centro Cultural de Belém, Lisboa, nos dias 10 e 11 de Dezembro de 1998
Misturado na unidade móvel BANZAI, por Alfredo Almeida e Miguel Escada
Editado e masterizado por Alfredo Almeida e Rui Dias, no Estúdio Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Ao Poeta Perguntei



Poema e música: Alberto Janes
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP "Oiça Lá ó Senhor Vinho", Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1992; CD "Maria Lisboa" (compilação), EMI-VC, 2004)





Ao poeta perguntei:
Como é que os versos assim aparecem?
Disse-me só: Eu cá não sei...
São coisas que me acontecem!

Sei que nos versos que fiz
Vivem motivos dos mais diversos...
E também sei que sendo feliz
Não saberia fazer os versos!

Ó meu amigo,
Não penses que a poesia
É só a caligrafia
Num perfeito alinhamento;
As rimas são assim como um coração
Em que cada pulsação
Nos recorda sofrimento;
E nos meus versos pode não haver medida
Mas o que há sempre

São coisas da própria vida!

Fiz versos como faz dia,
A luz do Sol sempre ao nascer;
Eu fiz os versos porque os fazia
Sem me lembrar de os fazer.

Como a expressão e os jeitos
Que p'ra cantar se vão dando à voz
Todos os versos andam já feitos
De brincadeira dentro de nós.

Ó meu amigo,
Não penses que a poesia
É só a caligrafia
Num perfeito alinhamento;
As rimas são assim como um coração
Em que cada pulsação
Nos recorda sofrimento;
E nos meus versos pode não haver medida
Mas o que há sempre

São coisas da própria vida!

E assim, amigo,
Já viste que a poesia
Não é só a caligrafia,
São coisas do sentimento.


* José Fontes Rocha e Carlos Gonçalves – guitarras portuguesas
Pedro Leal – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro




O Poeta



Versos: António Aleixo (quadras avulsas extraídas de "Este Livro Que Vos Deixo")
Música: Paulo Cunha
Intérprete: Vá-de-Viró* (in CD "Outras Músicas", Música XXI, 2000)





[instrumental]

Peço às altas competências
perdão, porque mal sei ler,
p'ra aquelas deficiências
que os meus versos possam ter.


Julgam-me mui sabedor;
e é tão grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer!


Quem me vê dirá: não presta,
nem mesmo quando lhe fale,
porque ninguém traz na testa
o selo de quanto vale.


Meu aspecto te enganou;
o que a gente é não se vê;
pergunta a outrem quem sou,
pois o que sou nem eu sei.


Sou humilde, sou modesto;
mas, entre gente ilustrada,
talvez me digam que eu presto,
porque não presto p'ra nada.


Não sou esperto nem bruto,
nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado.


Não sei se sei: sou dos tais
a quem pouco saber cabe;
mas sei que é saber de mais
a gente saber que sabe!


O tal Aleixo, o poeta,
que dizem ser de Loulé,
é uma figura incompleta
sem o Magalhães ao pé.


Os meus versos o que são?
Devem ser, se não os confundo,
pedaços do coração
que deixo cá, neste mundo.


[instrumental]


* Vá-de-Viró: 
Alexandra Rodrigues – violino e voz meio-soprano
Anton Khmelinskii – cavaquinho, guitarra e guitarra de 12 cordas
Cláudia Matias – voz meio-soprano
Eduardo Franco – voz tenor
Gonçalo Pescada – acordeão, concertina e voz barítono
Igor Martins – guitarra contrabaixo e voz tenor
João Pedro Cunha – violino
Maria do Rosário Arenga – voz soprano
Patrícia Martins – flautas de bisel soprano e contralto, tin-whistle e voz soprano
Paulo Cunha – gaita-de-foles galega, percussão (adufe, bendir, bombo, caixa de rufos, clavas, palmas, pinhas, reco-reco, sarronca, triângulo), ponteira e voz barítono
Paulo Girão – flauta transversal, flautim e voz barítono
Rui Mourinho – bandolim, guitarra, guitarra de cordas de aço e voz tenor
Sandra Apolinário – harmónica cromática e voz meio-soprano
Vanda Matias – voz soprano
Direcção musical – Paulo Cunha
Produção – Paulo Cunha
Co-produção – Adriano St. Aubyn
Gravado no Estúdio Unplugged, Faro, em Julho e Agosto de 2000
Engenheiro de som – Adriano St. Aubyn
Mistura e masterização digital – Adriano St. Aubyn e Paulo Cunha






Desenhos e poemas de Vasco de Lima Couto (1923-1980)

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