
© Carlos Luís M. C. da Cruz, 22 Ago. 2010 (in https://commons.wikimedia.org/)
Escultura de Luís de Camões, em betão, sita no jardim de Leiria baptizado com o seu nome. Concebida pelo escultor leiriense Fernando Marques (1934-2017), foi inaugurada no dia 10 de Junho de 1980, no âmbito das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, coincidente com o IV Centenário da morte do Poeta, que tiveram lugar na cidade do Lis.
Podemos imaginar a desolação de Camões, que tanto enalteceu o fresco arvoredo (por exemplo, em «...vós, arvoredos, / que já nos meus olhos vistes / mais alegria que medos...»), ao assistir ao derrube, pelo violentíssimo vendaval Kristin, no passado dia 28 de Janeiro, de quase todas as árvores de respeitável porte que davam sombra e oxigénio naquele histórico vergel de Leiria, terra que viu nascer outros dois eminentes bardos confessos admiradores do nosso Vate-Maior: Francisco Rodrigues Lobo e Afonso Lopes Vieira.
Prosseguindo a divulgação e celebração da integral dos Madrigais Camonianos, de Luiz de Freitas Branco, pelo Coro Gulbenkian sob a direcção de maestro Fernando Eldoro, debruçamo-nos hoje sobre o ciclo (de dez peças) para coro masculino a cappella, que o grande compositor português concebeu no período 1943-1949 e dedicou ao seu amigo Hermínio do Nascimento (1890-1972) – também ele compositor, musicólogo, pedagogo e crítico musical, cujo trabalho no domínio da música vocal, principalmente enquanto regente de coros, o autor de "Vathek" muito apreciava.
Relativamente a registos ditos/recitados, para audição intercalada com os madrigais, escolhemos oito, todos extraídos do CD "Amor É Fogo" (Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001): sete na voz do poeta, escritor e docente José Manuel Mendes, e um dito pelo saudoso locutor e realizador de rádio (da estação pública) Vítor Nobre. No total, entre redondilhas e sonetos, são 16 poemas, considerando que dois deles se apresentam na forma recitada e na cantada. Um conjunto formado, na sua maioria, por espécimes menos conhecidos e divulgados da Lírica, o que constitui um atractivo adicional para os menos versados nela e que desejem alargar os seus horizontes no domínio da vasta produção que o genial vate legou a Portugal e ao mundo lusófono. Boa celebração camoniana!
E de que modo a rádio pública portuguesa celebrou Luís de Camões neste 10 de Junho? Mau grado o incómodo, andámos a 'picar' as emissões das Antenas 1, 2 e 3, e nada lográmos apanhar da obra camoniana, se exceptuarmos os quatro derradeiros versos da estrofe 106.ª e última do Canto I e "Os Lusíadas" – «Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme, e se indigne o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno?» – citados pelo Presidente da República, António José Seguro, em Angra do Heroísmo, quando proferiu o seu discurso no âmbito das cerimónias oficiais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Nem sequer houve o singelo cuidado de adequar a programação musical dos mencionados canais de maneira que incidisse inteiramente em autores e intérpretes portugueses. Quer dizer: as direcções de programas das Antenas 1, 2 e 3, cujo inquilino hierarquicamente mais alto é o mesmo e se chama Nuno Reis, estiveram a marimbar-se – é o termo – para o maior vulto da Língua Portuguesa neste dia que o País escolheu para evocá-lo e enaltecê-lo! Perguntamos: é com estas atitudes desleixadas e negligentes que quem manda na rádio do Estado Português faz por merecer o mui generoso salário (cerca de 8 mil euros mensais, mais as mordomias da praxe) que o conselho de administração da Rádio e Televisão de Portugal presidido por Nicolau Santos resolveu atribuir-lhe e que provém, como se sabe, da contribuição do audiovisual que é cobrada aos consumidores de electricidade? Pois é: esses pagantes (cidadãos e empresas), mormente os que se sentem mais defraudados com o deficiente serviço prestado, têm assim toda a legitimidade para afirmar (em tom lastimoso, mas não resignado): «mal empregados os 3,02 euros que a cada mês nos são extorquidos para alimentar inúteis e parasitas!».
Pois me faz dano olhar-vos
Poema (vilancete em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 786)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
MOTE
Pois me faz dano olhar-vos,
não quero, por não perder-vos,
que ninguém me veja ver-vos.
VOLTAS
De ver-vos a não vos ver
há dous extremos mortais;
e são eles em si tais
que um por um me faz morrer;
mas antes quero escolher
que possa viver sem ver-vos,
minh'alma, por não perder-vos.
Deste tamanho perigo
que remédio posso ter,
se vivo só com vos ver?
Se vos não vejo, perigo.
Quero acabar comigo
que ninguém me veja ver-vos,
Senhora, por não perder-vos.
Se me desta terra for
Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Estêvão Lopes, Lisboa, 1598; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 804)
Música: Luiz de Freitas Branco (1.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
CANTIGA ALHEIA
Se me desta terra for,
eu vos levarei, amor.
VOLTAS
Se me for e vos deixar
(ponho, por caso, que possa),
est'alma minha, que é vossa,
convosco me há-de ficar.
Assi que, só por levar
a minh'alma, se me for,
vos levarei, meu amor.
Que mal pode maltratar-me
que convosco seja mal?
Ou que bem pode ser tal
que sem vós possa alegrar-me?
O mal não pode enojar-me;
o bem me será maior
se vos levar, meu amor.
Pastora da Serra
Poema (vilancete em redondilha menor) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Domingos Fernandes, Lisboa, 1616; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 820-822)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
CANTIGA ALHEIA
Pastora da serra,
da Serra da Estrela,
perco-me por ela.
VOLTAS
Nos seus olhos belos
tanto Amor se atreve,
que abrasa entre a neve
quantos ousam vê-los.
Não solta os cabelos
Aurora mais bela:
perco-me por ela.
Não teve esta serra,
no meio da altura,
mais que a fermosura
que nela se encerra.
Bem céu fica a terra
que tem tal estrela:
perco-me por ela.
Sendo entre pastores
causa de mil males,
não se ouvem nos vales
senão seus louvores.
Eu só por amores
não sei falar nela:
sei morrer por ela.
[as estrofes seguintes foram omitidas]
D'alguns que, sentindo,
seu mal vão mostrando,
se ri, não cuidando
que inda paga, rindo.
Eu, triste, encobrindo
só meus males dela,
perco-me por ela.
Se flores deseja,
(por ventura delas)
das que colhe, belas,
mil morrem de enveja.
Não há quem não veja
todo o milhor nela:
perco-me por ela.
Se n'água corrente
seus olhos inclina,
faz a luz cristalina
parar a corrente.
Tal se vê, que sente
por ver-se água nela:
perco-me por ela.
Verdes são as hortas
Poema (cantiga em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", org. Estêvão Lopes, Lisboa, 1598; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 808)
Música: Luiz de Freitas Branco (2.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
MOTE ALHEIO
Verdes são as hortas,
com rosas e flores;
moças que as regam
matam-me de amores.
VOLTAS
Entre estes penedos
que daqui parecem,
verdes ervas crescem,
altos arvoredos.
Vai destes rochedos
água com que as flores
d'outras são regadas
que matam de amores.
Co a água que cai
daquela espessura,
outra se mistura
que dos olhos sai:
toda junta vai
regar brancas flores,
onde há outros olhos
que matam de amores.
Celestes jardins:
as flores, estrelas;
horteloas delas
são uns serafins.
Rosas e jasmins
de diversas cores;
anjos que as regam
matam-me de amores.
Vós, Senhora, tudo tendes
Poema (vilancete em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 778)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
MOTE ALHEIO
Vós, Senhora, tudo tendes,
senão que tendes os olhos verdes.
VOLTAS
Dotou em vós Natureza
o sumo da perfeição
que, o que em vós é senão,
é em outras gentileza;
o verde não se despreza,
que, agora que vós o tendes,
são belos os olhos verdes.
Ouro e azul é a melhor
cor, por que a gente se perde;
mas a graça desse verde
tira a graça a toda a cor.
Fica agora sendo a flor
a cor que nos olhos tendes,
porque são vossos... e verdes!
Aquela cativa
Poema (endechas em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 770-771)
Música: Luiz de Freitas Branco (3.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
Endechas a ũa cativa
com quem andava d'amores na Índia,
chamada Bárbara.
Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais formosa.
Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.
Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os loiros são belos.
Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.
Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.
Transforma-se o amador na cousa amada
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 5)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim co a alma minha se conforma,
está no pensamento como ideia;
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.
Notas:
amador – apaixonado;
imaginar – recordar a imagem da "cousa amada";
liada – ligada, unida;
semideia – semideusa, mulher divinizada;
se conforma – se confunde, se funde, se identifica.
Há uma questão
Poema (cantiga em redondilha maior): Luís de Camões (dos inéditos de Manuel de Faria e Sousa, in "Rimas", org. João António de Lemos Pereira de Lacerda, 2.º visconde de Juromenha, Lisboa, 1861; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 820)
Música: Luiz de Freitas Branco (4.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
A uma mulher que se chamou
Graça de Moraes.
Há uma questão de Amor,
na qual ninguém se assegura,
qual seja de mais valor:
se a Graça, se a Fermosura.
Julgo o poder julgar nela
se afeição não me embaraça,
que muito mais vale a Graça
que a Fermosura sem ela.
Se me dessem a escolher
(mas não tenho tal ventura,)
a Graça quisera eu ter,
tenha outra a Fermosura.
Ninguém pode aqui pôr grosa
que não fique com desgraça,
pode haver Graça fermosa,
não Fermosura sem Graça.
O fogo que na branda cera ardia
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 20)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
O fogo que na branda cera ardia,
vendo o rosto gentil, que eu n'alma vejo,
se acendeu de outro fogo do desejo,
por alcançar a luz que vence o dia.
Como de dous ardores se encendia,
da grande impaciência fez despejo
e, remetendo com furor sobejo,
vos foi beijar na parte onde se via.
Ditosa aquela flama, que se atreve
a apagar seus ardores e tormentos
na vista de que o mundo tremer deve!
Namoram-se, Senhora, os Elementos
de vós, e queima o fogo aquela neve
que queima corações e pensamentos.
O Fogo
Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 20)
Música: Luiz de Freitas Branco (5.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
O fogo que na branda cera ardia,
vendo o rosto gentil, que eu n'alma vejo,
se acendeu de outro fogo do desejo,
por alcançar a luz que vence o dia.
Como de dois ardores se acendia,
da grande impaciência fez despejo
e, remetendo com furor sobejo,
vos foi beijar na parte onde se via.
Ditosa aquela flama, que se atreve
a apagar seus ardores e tormentos
na vista a que o Sol temores deve!
Namoram-se, Senhora, os Elementos
de vós, e queima o fogo aquela neve
que queima corações e pensamentos.
Descalça vai pela neve
Poema (vilancete em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 766-767)
Recitado por Vítor Nobre* (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
MOTE
Descalça vai pela neve:
assim faz quem Amor serve.
VOLTAS
Os privilégios que os reis
não podem dar, pode Amor,
que faz qualquer amador
livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis,
ferro, frio, fogo e neve,
tudo sofre quem o serve.
Moça fermosa despreza
todo o frio e toda a dor.
Olhai quanto pode Amor
mais que a própria Natureza:
medo nem delicadeza
lhe impede que passe a neve.
Assim faz quem Amor serve.
Por mais trabalhos que leve,
a tudo se of'receria;
passa pela neve fria
mais alva que a própria neve;
com todo o frio se atreve.
Vede em que fogo ferve
o triste que o Amor serve.
* Vítor Nobre – voz
Gravado nos Estúdios da RDP, Lisboa, em Fevereiro de 2001
Produção digital – José Silva
URL: https://ualmedia.pt/vitor-nobre-1944-2021-uma-voz-da-radio/
Descalça vai pela neve
Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 766-767)
Música: Luiz de Freitas Branco (6.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
MOTE
Descalça vai pela neve:
assim faz quem Amor serve.
VOLTAS
Os privilégios que os reis
não podem dar, pode Amor,
que faz qualquer amador
livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis,
ferro, frio, fogo e neve,
tudo sofre quem o serve.
Moça fermosa despreza
todo o frio e toda a dor.
Olhai quanto pode Amor
mais que a própria Natureza:
medo nem delicadeza
lhe impede que passe a neve.
Assim faz quem Amor serve.
Por mais trabalhos que leve,
a tudo se of'receria;
passa pela neve fria
mais alva que a própria neve;
com todo o frio se atreve.
Vede em que fogo ferve
o triste que o Amor serve.
Menina, não sei dizer
Poema (cantiga em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 787)
Música: Luiz de Freitas Branco (7.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
A ũa dama mal empregada
MOTE
Menina, não sei dizer,
vendo-vos tão acabada,
quão triste estou por vos ver
formosa e mal empregada.
VOLTAS
Quem tão mal vos empregou
pouco de mi se doía,
pois não viu o quanto me ia
em tirar-me o que tirou.
Obriga o primor que tem
lindeza tão extremada
que digam quantos a vêem:
«Formosa e mal empregada!»
Tomastes da fermosura
quanto dela desejastes,
e com ela me guardastes
para tão triste ventura.
Matáveis sendo solteira,
matais agora em casada;
matais de toda a maneira,
formosa e mal empregada!
Num bosque que das Ninfas se habitava
Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 10)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
Num bosque que das Ninfas se habitava,
Sílvia, ninfa linda, andava um dia;
subida nũa árvore sombria,
as amarelas flores apanhava.
Cupido, que ali sempre costumava
a vir passar a sesta à sombra fria,
num ramo o arco e setas, que trazia,
antes que adormecesse, pendurava.
A Ninfa, como idóneo tempo vira
para tamanha empresa, não dilata;
mas com as armas foge ao Moço esquivo.
As setas traz nos olhos, com que tira.
Ó pastores! fugi, que a todos mata,
senão a mim, que de matar-me vivo.
De que me serve
Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 788)
Música: Luiz de Freitas Branco (8.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
MOTE
De que me serve fugir
de morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?
VOLTAS
Tenho-me persuadido,
com razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nascido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo,
que eu mesmo sou meu perigo.
E se de mi me livrasse,
nenhum gosto me seria;
que, senão eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
Força é logo que assi passe:
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo.
Campos bem-aventurados
Poema (cantiga em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 743-744)
Música: Luiz de Freitas Branco (9.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
MOTE ALHEIO
Campos bem-aventurados,
tornai-vos agora tristes,
que os dias em que me vistes
alegre já são passados.
GLOSA
Campos cheios de prazer,
vós que estais reverdecendo,
já me alegreis com vos ver;
agora venho a temer
que entristeçais em me vendo.
E pois a vista alegrais
dos olhos desesperados,
não quero que me vejais,
pera que sempre sejais
campos bem-aventurados.
[as duas estrofes seguintes foram omitidas]
Porém se, por acidente,
vos pesar de meu tormento,
sabereis que Amor consente
que tudo me descontente,
senão descontentamento.
Por isso vós, arvoredos,
que já nos meus olhos vistes
mais alegria que medos,
se mos quereis fazer ledos,
tornai-vos agora tristes.
Já me vistes ledo ser;
mas despois que o falso Amor
tão triste me fez viver,
ledos folgo de vos ver,
porque me dobreis a dor.
E se este gosto sobejo
de minha dor me sentistes,
julgai quanto mais desejo
as horas que vos não vejo
que os dias em que me vistes.
O tempo, que é desigual,
de secos, verdes vos tem;
porque em vosso natural
se muda o mal para o bem,
mas o meu para mor mal.
Se perguntais, verdes prados,
pelos tempos diferentes
que de Amor me foram dados,
tristes aqui são presentes,
alegres já são passados.
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Domingos Fernandes, Lisboa, 1616; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 62)
Recitado por José Manuel Mendes* (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
este meu duro génio de vinganças!
Notas:
Fortuna – destino, sorte;
passaram – sucederam, decorreram;
discurso – decurso.
* José Manuel Mendes – voz
Gravado nos Estúdios da RDP, Lisboa, em Fevereiro de 2001
Produção digital – José Silva
URL: http://www.blcs.pt/jmm/default.aspx
Males
Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 14)
Música: Luiz de Freitas Branco (10.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
Males, que contra mim vos conjurastes,
quanto há-de durar tão duro intento?
Se dura porque dure meu tormento,
baste-vos quanto já me atormentastes.
Mas se assi porfiais porque cuidastes
derribar o meu alto pensamento,
mais pode a causa dele, em que o sustento,
que vós, que dela mesma o ser tomastes.
E, pois vossa tenção com minha morte
é de acabar o mal destes amores,
dai já fim a tormento tão comprido.
Assi de ambos contente seja a sorte:
em vós, por acabar-me, vencedores;
em mim, porque acabei, de vós vencido.
* Coro Gulbenkian (naipes masculinos):
Tenores – Filipe Faria, João Branco, João Custódio, João Moreira, Rui Miranda, Sérgio Peixoto
Baixos – Artur Carneiro, João Valeriano, José Bruto da Costa, Manuel Rebelo, Rui Baeta, Salvador Mascarenhas
Direcção – Fernando Eldoro
Produção musical – Alexandre Delgado
Produção – PortugalSom - Ministério da Cultura / Direcção-Geral das Artes
Gravado na Igreja do Cemitério dos Ingleses, Lisboa, em Junho de 2006
URL: https://gulbenkian.pt/musica/coro-e-orquestra/coro-gulbenkian/
https://www.meloteca.com/portfolio-item/coro-gulbenkian/
https://www.facebook.com/gulbenkianmusica/
https://music.youtube.com/channel/UCE3UnGOGRWjEj93WPvMzadw

Frontispício da 1.ª edição das "Rimas", de Luís de Camões, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita (Lisboa, 1595)

Capa do CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", do Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (PortugalSom/Numérica, 2008)
Concepção gráfica – Jorge Colombo

Capa do CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", de Carmen Dolores, João Grosso, José Manuel Mondes, Maria Barroso e Vítor Nobre (Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001).
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Outros artigos com poesia e/ou teatro de Luís de Camões:
Camões recitado e cantado
Camões recitado e cantado (II)
Em memória de Manoel de Oliveira (1908-2015)
Camões recitado e cantado (III)
Camões recitado e cantado (IV)
Camões recitado e cantado (V)
Camões recitado e cantado (VI)
Camões recitado e cantado (VII)
Camões recitado e cantado (VIII)
Camões recitado e cantado (IX)
Luís de Camões: "Os Lusíadas" (dois excertos), por Carlos Wallenstein
Luís Cília: "Se me Levam Águas" (Luís de Camões)
Teatro camoniano em versão radiofónica
Camões por Carmen Dolores
José Mário Branco: "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades"
Camões recitado e cantado (X)
Camões evocado por Sophia
Luís de Camões: "Endechas a Bárbara Escrava"
Luís de Camões: "Perdigão perdeu a pena"
Camões musicado por Fernando Lopes-Graça (obras corais 'a cappella')
Celebrando Jorge Croner de Vasconcellos
Camões recitado e cantado (XI)






