27 maio 2013

Aquilino Ribeiro: cinquentenário da morte



Faz hoje exactamente cinquenta anos que a morte subtraiu ao número dos vivos um dos maiores vultos da Literatura Portuguesa do século XX e de sempre, Aquilino Ribeiro [>> biografia e bibliografia no site do Instituto Camões].
Luís Caetano, na edição de sábado passado (25 de Maio) do seu programa "A Força das Coisas", tomou a louvável iniciativa de evocar o grande escritor, lendo um belo e suculento naco da prosa aquiliniana extraído do romance "Andam Faunos Pelos Bosques", bem como dando conta da reedição que a Bertrand Editora vem fazendo de diversos dos seus títulos e – sobretudo – transmitindo a interessantíssima entrevista que o ilustre autor concedeu a Francisco Igrejas Caeiro, em 1957, para o programa "Perfil dum Artista". Quem a não ouviu ou deseje reouvi-la poderá fazê-lo a todo o momento acedendo a:
http://www.rtp.pt/play/p321/e118401/a-forca-das-coisas


Gostei imenso de ouvir esta homenagem ao autor d' "A Casa Grande de Romarigães" e aplaudo Luís Caetano por tê-la levado a cabo. Fica é a saber-me a pouco no âmbito geral do serviço público de rádio que tinha a obrigação de assinalar com outra ênfase e visibilidade (ou audibilidade, melhor dizendo) a efeméride, atendendo à importância do escritor. Se João Pereira Bastos fosse ainda director da Antena 2 não tenho dúvidas de que teria feito um ciclo de programas em torno da vida e da obra de Aquilino Ribeiro. Mas eu nem vou ao ponto de pedir à actual direcção, conhecendo a sua insensibilidade a tudo o que seja matéria cultural não musical, que tomasse idêntico procedimento. O que não posso aceitar, de forma alguma, é que Rui Pêgo e/ou João Almeida nem sequer se tivessem dado ao "incómodo" de resgatar do arquivo histórico a adaptação radiofónica do romance "Terras do Demo", de que ainda tenho reminiscências na memória de a ter ouvido algures nos anos 80, emitida pela Antena 1. A idade que tenho não me permite ter memória de escuta de rádio anterior a finais dos anos 70, mas quero acreditar que outras obras aquilinianas terão merecido a atenção de Eduardo Street, de Odete de Saint-Maurice ou de outros realizadores de programas dramáticos que trabalharam na rádio pública, pelo que se em vez de "Terras do Demo" fosse escolhida outra obra não haveria da minha parte a mais pequena objecção. Nada de nada é que não! Digo mais: a Antena 2 (ou a Antena 1 – para o caso é-me indiferente) devia ter na sua grelha um espaço permanente expressamente consagrado à reposição dessas adaptações de obras literárias de grandes autores portugueses (e não só). As efemérides do nascimento ou da morte de um determinado escritor seriam apenas pretextos para dar a ouvir obras suas. Tais adaptações radiofónicas eram geralmente muito bem feitas, na componente técnica da realização, e altamente valorizadas pela participação de actores de primeiríssima categoria com as suas vozes extremamente bem colocadas e moduladas. Como muito bem lembrou a jornalista Helena Matos, convidada a falar das suas memórias radiofónicas ao programa "A Vida dos Sons", tais vozes eram em si mesmas autênticas personalidades sonoras, proporcionando a quem as ouvia a formação de um imaginário rico e único. Era a marca distintiva dos timbres e era o uso irrepreensível da língua portuguesa – na prosódia, na sintaxe e na vertente lexical. Só neste aspecto, bom e relevante serviço público prestaria a rádio estatal nos dias de hoje com a transmissão desses registos! Ouvir falar bem ajuda a bem falar.
Bem, eu parto do princípio de que as adaptações radiofónicas de obras romanescas, a exemplo das de peças teatrais, não foram destruídas... É que se o foram há que meter na prisão (não é caso para menos) os responsáveis por tão inominável crime contra o nosso património fonográfico!




Capa do romance "Terras do Demo" (Bertrand Editora, edição de 2012)




Capa do romance "Andam Faunos Pelos Bosques" (Bertrand Editora, edição de 2011)

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