25 abril 2018

Natália Correia: "Rascunho de uma Epístola", por Ilda Feteira


Monumento "A Pomba da Liberdade" (2013), da autoria de Francisco Charneca, situado na localidade de Oriola, concelho de Portel.
Fotografia tirada por Maria Margarida Monteiro (blogue "Kantos da Terra").


Continuando a evocar Natália Correia, tomando como pretexto os 25 anos da morte, trazemos um poema que vem muito a propósito no dia em que se comemora a Revolução dos Cravos: "Rascunho de uma Epístola", recitado por Ilda Feteira, com música de e por Jorge Palma. Trata-se do poema matriz dos sonetos da "Epístola aos Iamitas" (1976) e nele está patente o desalento que a poetisa então sentia por a emergente noite já pisar os trevos da Liberdade. Foi primeiramente publicado em 1993, na edição da poesia reunida (pela própria autora) intitulada "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias".
Nesses inícios da década de 1990, em pleno consulado cavaquista, a rádio pública estava, apesar de tudo, melhor do que antes do 25 de Abril de 1974, mormente no capítulo da música. A oferta tinha qualidade e era diversificada. Em 2018, pode dizer-se, sem exagero, que a Antena 1 transmite – e massivamente – muito pior música do que a que era difundida pela Emissora Nacional. Situação que – acrescente-se – é deveras absurda e vergonhosa num regime (alegadamente) não amordaçado e tendo o nosso património fonográfico aumentado incomensuravelmente em quantidade, qualidade e variedade. Alguém que ande mais distraído que se dê ao cuidado de sintonizar o canal, a qualquer altura do dia ou da noite em que está a rodar a 'playlist', e não necessitará de mais do que uma hora para se dar conta da triste e desoladora realidade.
Vem a talhe de foice lembrar que o retrocesso não se restringe ao campo da música (o que por si só já seria motivo bastante para preocupar quem supervisiona e tutela o serviço público de radiodifusão): afecta também a poesia e o teatro. Ambas estas artes da palavra (que nenhum meio serve melhor do que a rádio, convém não esquecer) tinham lugar efectivo na Emissora Nacional e continuaram a ter na RDP-1 durante muitos anos. Na actual Antena 1 – 44 anos volvidos sobre a reconquista da Liberdade – são objecto da mais completa e obscena censura por parte da direcção de programas!



RASCUNHO DE UMA EPÍSTOLA



Poema de Natália Correia (in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 75-76; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 406-407)
Recitado por Ilda Feteira* (in CD "Vinte e Cinco Razões de Esperança", Ilda Feteira & Jorge Palma, 2004)
Música: Jorge Palma


Entre sobas solertes e solenes
Aqui estou de poeta e de passagem.
Das 25 pombas deste Abril
As melhores levo em versos na bagagem.

E aqui as solto transidas e alertadas
Pelo hálito do medo que já volta
E cada uma delas é uma concha
Carregando uma pérola de revolta.

Aqui eu as desprendo contra a noite
Que já da liberdade os trevos pisa
E cada uma delas é um rio
Desfiando uma prata insubmissa.

Se o país que na esperança exercitámos
For num desvão de Abril apunhalado
Onde a vida reclama a plenitude
É que o poeta é febre é raiva é dardo.

É canto arterial é um centauro
Com uma flecha de música no flanco,
É toda a luz na boca e a liberdade
É o mais certeiro tiro do seu canto.

Enquanto lira for de luz cantada
O poeta sem repouso no combate,
A luta não termina quando perde
A cor nos cravos que a escuridão abate.


* Ilda Feteira – voz
Jorge Palma – piano
Selecção dos textos – Ilda Feteira
Gravação – Jorge Palma



Capa do CD "Vinte e Cinco Razões de Esperança", de Ilda Feteira & Jorge Palma (2004).
Concepção por António Antunes.
Neste álbum são celebrados autores tão diferentes como Alexandre O'Neill, Alice Vieira, António Gedeão, António Ramos Rosa, Ary dos Santos, Carlos de Oliveira, Daniel Filipe, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, José Afonso, José Gomes Ferreira, Manuel Alegre, Manuel da Fonseca, Maria Velho da Costa, Miguel Torga, Natália Correia e Sophia de Mello Breyner Andresen, entre outros.

Nota: Não sabemos se ainda existem exemplares disponíveis deste álbum, que não teve distribuição comercial. O melhor será escrever para: geral@jorgepalma.pt.

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