27 março 2014

Teatro radiofónico: criminosamente ausente do serviço público

«O teatro comove, ilumina, incomoda, perturba, exalta, revela, provoca, transgride. É uma conversa partilhada com a sociedade.
O teatro é a primeira das artes que se confronta com o nada, as sombras e o silêncio para que surjam a palavra, o movimento, as luzes e a vida.
O teatro é um facto vivo que se consome a si mesmo enquanto se produz, mas que renasce sempre das cinzas. É uma comunicação mágica em que cada pessoa dá e recebe algo que a transforma.
O teatro reflecte a angústia existencial do homem e desvenda a condição humana. Não são os seus criadores quem fala através do teatro: é a sociedade do seu próprio tempo.
O teatro tem inimigos visíveis: a ausência de educação artística na infância, que impede de descobri-lo e gozá-lo; a pobreza que invade o mundo, afastando os espectadores das salas; e a indiferença e o desprezo dos governos que devem promovê-lo.
No teatro já falaram os deuses e os homens, mas agora é o homem que fala aos outros homens. Por isso, o teatro tem de ser maior e melhor do que a própria vida. O teatro é um acto de fé no valor da palavra sensata num mundo demente. É um acto de fé nos seres humanos que são responsáveis pelo seu destino.
É preciso viver o teatro para entender o que nos está a acontecer, para transmitir a dor que está no ar, mas também para vislumbrar um raio de esperança no caos e no pesadelo do quotidiano.» (Victor Hugo Rascón Banda, dramaturgo mexicano, 1948-2008)

Atentando nas grelhas das várias antenas da RDP, deparamo-nos com esta triste e desoladora realidade: não há teatro radiofónico! 
A lacuna é assaz incompreensível sabendo-se quão vasto e magnífico é o acervo de peças (dramas, comédias, farsas) e de adaptações de obras romanescas (contos, novelas, romances) existente no arquivo histórico, boa parte do qual realizado pelo saudoso Eduardo Street. Que o Dia Mundial do Teatro sirva para os srs. António Luís Marinho, Rui Pêgo e José Arantes porem a mão na consciência (se é que a têm) e tratarem de resgatar às teias de aranha esse precioso património, mormente os grandes clássicos da arte de Talma!
Convém ter presente que tal resgate assume uma pertinência acrescida nestes tempos de crise económica e social, em que muitos cidadãos se vêem impossibilitados de frequentar salas de teatro. Os que vivem em localidades onde estejam peças em cena, bem entendido. Dos outros portugueses (residentes em território nacional ou além-fronteiras), ao que parece, ninguém se lembra. E já nem falo dos cegos e amblíopes de Portugal. Estarão eles, porventura, isentos do pagamento da contribuição do audiovisual?


Máquina do vento: servia para imitar o som do vento e foi um dos artefactos mais usados no teatro radiofónico

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