23 outubro 2012

Teresa Salgueiro marginalizada pelas rádios nacionais



«Olá a todos!
Venho fazer-vos um pedido.
Tenho sido confrontada com uma grande dificuldade, para não dizer verdadeira barreira, por parte das principais rádios nacionais, no que concerne à passagem da música do meu último disco "O Mistério".
Ou seja, em muitos casos, existe uma recusa categórica em passar a música, baseada em justificações como, e passo a citar:

- "Esta música não é para o target da rádio";
- "Não é música para o nosso airplay";
- "Temos que dar às pessoas aquilo que elas querem ouvir".

Dada a variedade da música que é possível ouvir nas diferentes estações, parecem-me bastante subjectivas estas observações. Por outro lado, como se pode esperar que o público queira ouvir aquilo que não conhece?
Segundo entendo, a passagem de um tema na rádio pode constituir uma grande ajuda para que este se torne num sucesso.
Assim, deixo-vos aqui os contactos directos de cada uma das principais rádios nacionais na esperança de que possam dispensar 5 minutos do vosso tempo e pedir que passem os vossos temas favoritos.
É claro que estes pedidos se estendem a outras músicas de outros artistas dos quais possam sentir a falta.
Estou certa de que são muitos!
Este tremendo domínio da cultura anglo-saxónica só termina se lutarmos por isso.
 
Muito obrigada, um abraço, Teresa
 
Antena 1
adosinda.nunes@rtp.pt

Antena 3
jorge.botas@rtp.pt

Rádio Comercial
programas@radiocomercial.clix.pt

RFM
mail@rfm.pt
 
Renascença
mail@rr.pt
 
TSF
tsf@tsf.pt» (Teresa Salgueiro, in http://www.facebook.com/teresa.salgueiro)
 

Este apelo da cantora Teresa Salgueiro aos seus fãs, via Facebook, é bem sintomático do péssimo serviço que as principais rádios portuguesas (de cobertura nacional) estão a prestar à música portuguesa. De facto, e como muito bem presume Teresa Salgueiro, são muitos (mesmo muitos) os artistas de mérito aos quais é negada a merecida visibilidade no éter nacional. O problema não é de agora: começou quando, por razões economicistas, os autores de programas musicais (pessoas cultas e de apurado bom gosto) foram afastados e substituídos por listas de canções debitadas por um computador, as chamadas 'playlists' (cf. "O autor, a música e a rádio"). Perguntar-se-á: não podiam as "playlists" incluir repertório (antigo e novo) do mesmo nível de qualidade que os tais realizadores passavam? Podiam! Efectivamente, até podiam, se não estivessem nas mãos de indivíduos com a sensibilidade embotada para a boa música portuguesa (e não só), formatados que foram pelo que viram na MTV ou no programa "Top +" da RTP-1, e se eles (ou quem lhes confiou tais funções) não fossem permeáveis à pressão/aliciamento dos agentes de 'management' mais influentes nem fossem subservientes aos interesses comerciais dos tubarões da indústria discográfica (as multinacionais e a Farol, sobretudo). Alguma boa gente julgou que com a imposição de quotas obrigatórias (art.º 2 da Lei n.º 7/2006, de 3 de Março, que introduziu os artigos 44.º-A a 44.º-G na Lei n.º 4/2001, de 23 de Fevereiro) tão lastimável e deprimente estado de coisas se alteraria. Eu não alimentei essa ilusão, conforme expus num texto que então publiquei ("Sobre as quotas de música portuguesa na rádio"), e o tempo veio dar-me razão. Tal como foi formulada, aquela lei seria facilmente contornada e subvertida. E, se calhar, a subversão não deixaria de existir mesmo com uma lei mais perfeita, pois é virtualmente impossível garantir a necessária e almejada abrangência de artistas e diversidade de repertório (de qualidade, entenda-se) numa rádio generalista quando toda a selecção musical está concentrada nas mãos de apenas uma ou duas pessoas (o director de programação e/ou o editor de 'playlist'). Portanto, e vistas bem as coisas, a resolução do problema tem a ver menos com leis e mais com a formação e sensibilidade cultural/musical das pessoas que nas rádios, fazendo uso do seu livre-arbítrio, decidem e escolhem. Esse é o cerne da questão. Enquanto as principais rádios estiverem nas mãos de quem estão, é escusado esperar uma assinalável melhoria da situação vigente. Eles vão continuar a passar as suas musiquinhas predilectas e também as que as editoras mais poderosas, ao abrigo das avenças de promoção, escolhem para eles passarem (as mesmas que, como é bom de ver, são massivamente divulgadas na MTV e canais congéneres e se pretende à viva força tornar apetecíveis e desejadas – as tais que depois "as pessoas querem ouvir" e assim se fecha o ciclo). Como Teresa Salgueiro não faz música que se enquadre nos estreitos cânones (in)estéticos desses directores e fazedores de 'playlists' (que, quais pequenos ditadores, muito se comprazem em impingir aos 'targets'), nem tem atrás de si uma poderosa editora, fica de fora. Tal como ficariam os Madredeus, quase de certeza, se surgissem agora.
Seria expectável que tudo fosse bem diferente na rádio do Estado, atendendo ao financiamento público e à obrigação a que está legalmente vinculada de divulgar a melhor música portuguesa, e que Teresa Salgueiro fosse dada a ouvir com alguma regularidade. Mas não! É verdade que o álbum "O Mistério" até foi Disco Antena 1, em finais de Abril, mas depois dessa semana em que passaram alguns temas desapareceu. Porquê? Estava a estorvar às enxúndias cacofónicas (vindas de fora ou produzidas cá dentro) que pululam na 'playlist'? É realmente vergonhoso que Teresa Salgueiro e tantos outros artistas portugueses de primeira categoria sejam tão desconsiderados e marginalizados pela estação oficial do seu próprio país!
 
Nota: Alguns temas de "O Mistério" podem ser ouvidos nestas páginas:
http://www.teresasalgueiro.pt/
http://www.youtube.com/user/teresasalgueiro
http://soundcloud.com/teresa-salgueiro

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