03 janeiro 2006

A rádio pública e a música portuguesa

Num texto sobre este assunto, Paula Cordeiro (blogue NetFM) aflora alguns pontos que merecem reflexão. Concordo plenamente com as seguintes passagens: «... convém reconhecer que a música que está actualmente a tocar na Antena 1 é de escuta fácil, pouco dirigida a mentes mais eruditas ou a grandes conhecedores de música» e «...ainda que, no que respeita à selecção musical, possa ser acusada de "esquecer" alguma da mais rica produção nacional que escapa às malhas da pop». Mas já me parece excessiva bondade supor que depois de conquistada uma determinada audiência então a Antena 1 já pode voltar a introduzir a música banida e excluída. Tal argumento pode agradar à direcção de programas e à administração da RDP mas não o posso subscrever porque, a meu ver, os conteúdos nunca poderão divergir muito dos que serviram para seduzir os novos ouvintes, sob pena de eles se sentirem enganados e zarparem para outras paragens. Do mesmo modo que alguém entendeu que era necessário baixar o nível para captar audiências, continuará a vingar a ideia de que, para não afugentar os segmentos do auditório mais viciados nos modelos massificados, o nível nunca poderá ultrapassar uma certa fasquia. É fácil concluir que tal fasquia ficará sempre abaixo do que é expectável num serviço público. Do meu ponto de vista, haverá sempre uma perversão do serviço público quando a conquista de audiências é feita à custa da qualidade e em mimetismo com os formatos comerciais. Só pelo facto de um canal público ser generalista isso não significa que tenha de descer ao nível da lama: pelo contrário, devem ser criadas as condições para os que não se sentem bem na lama possam encontrar um refúgio que não seja obrigatoriamente a música clássica. Penso que não é impossível um canal generalista apresentar produtos de qualidade com audiências razoáveis. E isto passa muito pela forma como os produtos são embrulhados e propostos às pessoas. Quem tem experiência de rádio sabe que há técnicas e truques para prender e conquistar ouvintes sem fatalmente se cair na mediocridade mais rasteira. O problema da rádio de hoje deriva, em grande parte, do facto do meio ter sido assaltado por muita gente sem preparação e sem o 'savoir faire' das figuras que fizeram a história da rádio. No caso concreto da RDP, eméritos profissionais de "saber de experiência feito" que ainda tinham muito para dar e aos quais devemos momentos de beleza e magia foram, sem o menor pejo, postos na prateleira para dar lugar aos serviçais das 'playlists'. Que dignidade pode ter um radialista quando fica reduzido à degradante condição de autómato que não pode fazer mais do que clicar ora no 'play' ora no 'pause', e ler os textos que acompanham as músicas que alguém previamente escolheu e – claro está – dar as notícias do trânsito e falar do tempo? Será razoável que o grosso da música que passa numa rádio pública seja a que é ditada por uma 'playlist', que como podemos constatar obedece ao mesmo formato das rádios privadas, as quais devido à contingência de terem de lutar pelo bolo publicitário não podem fugir à mediania reinante? Quantos profissionais da Antena 1 têm o poder e a liberdade de escolher música fora da ditadura da 'playlist'? Os dedos de uma só mão chegam (e sobram) para contar os programas de autor com música portuguesa e mesmo assim nem todos têm obtido o devido apreço e reconhecimento de quem tem passado pela direcção de programas. "Lugar ao Sul", de Rafael Correia e "Viva a Música", de Armando Carvalheda são dois bons exemplos.
Quando João Paulo Meneses, no
Blogouve-se, fala em blocos presumo que se esteja a referir a espaços em que seria um realizador ou um locutor a seleccionar a música conferindo uma identidade própria à emissão. Essa seria a situação ideal, mas atendendo ao estado a que as coisas chegaram não acredito que alguém a ponha em prática. Defendo que na grelha de uma rádio pública, os programas de autor devam ser a regra e não a excepção (em vez de um devia haver muitos "O Amigo da Música"), mas não sou avesso à ideia de existir, no sistema informático da estação, uma biblioteca de música escolhida pela direcção, acervo esse ao qual os radialistas de menor qualificação recorreriam para formarem os seus alinhamentos (na actual situação nem sequer lhes é permitido alterar a sequência das canções). Também não me repugnaria que pudessem existir, para cada género musical, 'playlists' distintas que preencheriam espaços temáticos definidos na grelha: fado, música tradicional, pop portuguesa, música brasileira, música afro-lusófona, música latina, música anglo-americana. E neste caso cada 'playlist' seria elaborada por uma pessoa diferente, profunda conhecedora de cada área musical que assegurasse não só uma selecção criteriosa mas também – e não menos importante – a renovação periódica dos temas a tocar. Assim as coisas seriam mais claras e os ouvintes já sabiam em que espaço poderiam ouvir a música da sua preferência. Não como acontece actualmente em que há uma 'playlist' pseudo-generalista (na verdade é temática porque se confina praticamente à pop anglo-americana e portuguesa) elaborada por um funcionário todo-poderoso que se pauta pela mais completa prepotência e discricionaridade e cuja conduta denota obscuras cumplicidades com determinados artistas, 'managers' e editoras. Um exemplo concreto: será razoável que nomes como The Corrs, Texas e James Blunt, entre outros, passem todos os dias (e mais do que uma vez) enquanto que tantos e bons nomes da música anglo-americana (passados e actuais) nunca se ouçam. Com que propósito é que os ouvintes mais fiéis (sobretudo os que gostam de rádio mas não suportam a publicidade) são massacrados sempre com os mesmos temas, repetidos ad nauseam? Presume-se que para serem condicionados a comprar os respectivos discos. Mas será admissível que uma rádio que é suportada pelos contribuintes portugueses esteja a fazer fretes às 'majors' discográficas? Será legítimo um serviço público votar ao ostracismo as editoras independentes que apresentam música alternativa? Não será uma das obrigações do serviço público atender aos interesses dos públicos mais exigentes? Os ouvintes que aspiram a algo mais que o 'mainstream' não ficarão sem outra opção que a Antena 2? A música à qual não é reconhecida dignidade para figurar na rádio clássica, mas que não deixa de ter valor cultural, não ficará sem expressão radiofónica, no panorama das estações de cobertura nacional?
Mas se, na Antena 1, a situação é calamitosa na área da música anglo-americana, o estado das coisas é ainda mais grave no caso da música portuguesa, entenda-se feita por portugueses e cantada em português ou instrumental (música cantada em inglês, ainda que feita por portugueses, não pode ser considerada música portuguesa). A Antena 1 até pode cumprir a quota legalmente estipulada para a difusão de música portuguesa, mas isso é feito de uma forma distorcida e enviesada, ou seja, com mais e mais do mesmo. Enquanto que muitos nomes importantes são deliberadamente sonegados, há meia-dúzia (todos da área da pop) que passam em doses industriais. Não me compete falar em nome dos artistas banidos/excluídos, mas direi simplesmente que me parece estar a ser-lhes negado o direito de serem ouvidos na rádio de todos nós e em igualdade de circunstâncias com os que são massivamente promovidos. Afinal de contas, tais artistas também pagam impostos sendo que uma parte desse dinheiro acaba por ir parar ao orçamento da empresa pública de rádio. Quantos artistas de talento haverá que não têm a oportunidade de divulgar o seu trabalho? Não haverá gente a desesperar com falta de audição e consequente invisibilidade e ausência de contratos motivados por isso? Neste particular, recomendo a leitura do
Manifesto sobre o estado da Música Portuguesa, redigido por Pedro Barroso e subscrito por dezenas de artistas, em 2002, altura em que a Antena 1 ainda marcava a diferença pela atenção que dava à nossa música mais representativa. Se agora a rádio pública portuguesa se recusa a divulgar a música que melhor exprime a nossa identidade quem é que o vai fazer? A resposta é óbvia: ninguém, a não ser algumas rádios locais, sobretudo as que resistiram à voragem da música 'pimba'. Então e os ouvintes que têm o azar de viver em zonas não cobertas por essas estações (ou que vivendo, não querem ouvir publicidade) não têm o direito de ouvir, na rádio, música portuguesa para além da pop? Será razoável que uma rádio pública não atenda aos muitos ouvintes apreciadores de fado e de música de raiz tradicional? Para que pagam eles uma taxa obrigatória na factura da electricidade? Alguém mais desatento poderá pensar que nomes como Amália, José Afonso e Carlos Paredes, por exemplo, deixaram de passar na Antena 1 porque pertencem ao passado. Posso testemunhar que a verdadeira razão não é essa pois há grupos já extintos e cantores já falecidos que continuam a passar, ao passo que outros mais recentes e no activo nunca (ou raramente) se ouvem. Por exemplo, assiste-se à situação bizarra dos Heróis do Mar, grupo extinto quando Pedro Ayres Magalhães decidiu – e em boa hora – fundar os Madredeus, terem uma presença muito mais frequente e assídua do que estes últimos. E ninguém me vai convencer que os Heróis do Mar deram um contributo mais válido para a música portuguesa que os Madredeus, justamente os maiores embaixadores da nossa música além-fronteiras, depois da grande Amália. Acontece o mesmo com os Sétima Legião face a Rodrigo Leão, em que este tem uma presença ínfima em comparação com o grupo de que fez parte. E digo isto perfeitamente à vontade pois até gosto dos Sétima Legião, mas é inegável que a produção de Rodrigo Leão a solo se encontra num patamar superior.
Por último, não posso deixar de perguntar: será normal que a imortal Amália, a maior cantora portuguesa de sempre e uma das maiores do mundo, não se possa ouvir na rádio oficial do país que a viu nascer? Acontecerá o mesmo com os maiores cantores estrangeiros nos respectivos países? Por exemplo, Frank Sinatra não passará na National Public Radio? E Jacques Brel também foi banido das rádios públicas francófonas?

1 comentário:

PC disse...

Caro Álvaro José Ferreira,
Agradeço a referência ao meu texto e, em relação à questão da música portuguesa, muito mais haveria a dizer que estes textos por nós escritos e colocados nos blogs. Se por um lado concordo plenamente consigo no que respeita ao cariz pop/comercial da música na Antena 1, também concordo quando refere que dificilmente os temas e bandas menos pop voltarão a ser introduzidos na playlist. Contudo, em teoria, deveria fazer-se isso. Devagar e muito habilmente, para conseguir que os ouvintes se fossem habituando às novas sonoridades e abandonando de sua própria iniciativa, as «velhas», que correspondem às músicas mais pop e completamente desgastadas que tocam na estação. O próprio Álvaro refere algo semelhante ao que afirmo, quando diz que «isto passa muito pela forma como os produtos são embrulhados e propostos às pessoas». Fazer rádio é também saber embrulhar aquilo que à partida será mais difícil do público aceitar. Passa muito pelo eterno dilema de dar ao público aquilo que ele quer, ou ensiná-lo a querer determinadas coisas e não outras, factor que levanta outra discussão em torno dos conteúdos da comunicação social. Há fórmulas fáceis para conquistar ouvintes, com resultados a curto prazo e outras, sem resultados visíveis em pouco tempo mas que, a termo, resultam em produtos de melhor qualidade e num público mais esclarecido.
Confesso não ter a menor paciência para escutar a música da Antena 1 e confesso igualmente concordar consigo na questão Heróis do Mar/Madredeus e Sétima Legião/Rodrigo Leão, mais ainda porque não se pode considerar elitista ou pouco conhecida a música (especialmente dos Madredeus) destes artistas. Penso que o problema passa muito pela questão música portuguesa - público português, habituado a consumir música, formatos e cultura anglo saxónica, recusando os padrões de cultura portugueses que durante muito tempo foram relegados para segundo plano, menorizados e mesmo, ostracisados em prol de uma cultura aparentemente superior, mas que é apenas cultura do instantâneo, do imediato, do facilitismo. É o eterno dilema entre a «velha» cultura europeia e a cultura norte americana que se impôs em todo o mundo. Vejam-se as referências ao «novo mundo», em todo o mundo, face às referências à Europa que não se encontram em lado nenhum (ou encontram-se, muito pouco...). As marcas com maior notoriedade não são europeias, muito embora pese para a Europa o padrão da qualidade e do eruditismo (cinema, por exemplo, ou algumas marcas da indústria automóvel), razão pela qual é talvez mais fácil assimilar essa outra cultura que não é a nossa. Para isto, também a rádio contribuiu. Não sei como começou este problema, sei apenas que ele existe e que a tendência se deve inverter. Concordo quando afirma que «haverá sempre uma perversão do serviço público quando a conquista de audiências é feita à custa da qualidade e em mimetismo com os formatos comerciais» e que o serviço público não pode ir atrás de audiências, sob pena de não cumprir aquilo para que foi destinado. O problema não acontece apenas entre nós, mas parece-me bastante visível que em Portugal o Serviço Público não é cumprido na sua total amplitude. Acredito igualmente que se podem fazer programas interessantes do ponto de vista do entretenimento, com qualidade e versando temas que encaixam neste conceito de Serviço Público. Confesso também que nunca percebi qual é, exactamente, o problema da nossa rádio e televisão pública, pois nunca cumpriram aquilo a que foram destinadas.