18 setembro 2013

Celebrando António dos Santos



António dos Santos, de seu nome completo António dos Santos Caio Castanheira, nasceu em Lisboa (no Hospital de São José, freguesia do Socorro), a 14 de Março de 1919.
Aos 15 anos de idade, começa a cantar fado em recintos amadores, vindo a profissionalizar-se cerca de quatro anos mais tarde, em Março de 1938, no Café Mondego. Em 1943, casa-se com Julieta Rebelo Martins com quem terá cinco filhos. Para fazer face aos crescentes encargos familiares, ingressa na marinha mercante (Mala Real Inglesa e Blue Star Line), viajando muito e por longas temporadas (chegou, por exemplo, a permanecer dois anos nos Estados Unidos da América). Mas nunca deixou de cantar, mantendo ao longo de duas décadas uma nítida preferência pelo fado jocoso. E é precisamente nesse registo que grava o seu primeiro disco, o EP "Um Congresso de Gatos" (Alvorada, 1959) que inclui, além do tema-título, "A Moda Traz Cada Coisa", "Boa Resolução" e "Um Macho Inteligente". Alguns anos antes, abrira no Beco do Azinhal, em Alfama, o restaurante/casa de fados "Solar" do António dos Santos, que ficará popularmente conhecido como o "Cantinho do António". Nesse espaço de convívio e de confraternização fadista, actuava para clientes e amigos, acompanhando-se a si próprio à viola. Assim se sedimenta e afirma um novo estilo de interpretação, nostálgico e dolente, que ficará conhecido como a balada de Lisboa.
Incentivado pelo técnico de som Hugo Ribeiro, grava em 1964, para a Valentim de Carvalho, o seu primeiro EP de baladas, sob o título genérico de "Alfama-Lisboa", contendo "Minha Alma de Amor Sedenta" (que se tornará um dos seus temas mais emblemáticos), "Recordando", "Uma Chuva de Tristeza" e "As Tuas Mãos". Segue-se, no ano subsequente, o EP "Nostalgia de Alfama" que, além do tema homónimo, inclui "Disseste-me Adeus", "Fado Triste" e "Ilusão Perdida". Em 1968, sai o EP "Fado É Canto Peregrino", composto por, além do tema-título, "Gaivotas em Terra", "Partir É Morrer um Pouco" (que fica como o seu grande cartão de visita) e "Ficas a Saber". Os doze temas desta trilogia de EPs (que serão reunidos na compilação "Minha Alma de Amor Sedenta", 1972) constituem o supra-sumo da produção de António dos Santos e garantem-lhe um lugar de relevo, e singularíssimo, na História da Música Portuguesa. Todas as composições são do próprio António dos Santos, que também assina três letras, sendo as outras nove da autoria de António Veloso Reis Camelo (duas), Mendes de Carvalho, Figueiredo Barros, Carlos Miguel de Araújo, Augusto Mascarenhas Barreto (três) e Maria Alexandrina. António Pessoa assegura sempre o acompanhamento à viola, contando com a ajuda, no terceiro EP, da viola baixo de Liberto Conde. 
António dos Santos recebeu então o epíteto de "Baladeiro de Alfama", que se tornou ainda mais popular após a actuação, em 1969, no programa televisivo "Zip-Zip". O artista ainda gravaria mais dois discos – o EP "Penso Que Já Não Existes" (1971) e o LP "É Assim a Minha Alfama" (1977) – mas retomando a linguagem tradicional do fado e sem o mesmo brilho que o celebrizou na balada.
Faleceu a 18 de Setembro de 1993, aos 74 anos de idade, na cidade natal, não deixando seguidores do seu estilo inconfundível, apesar de alguns fadistas, como Carlos do Carmo, Beatriz da Conceição, Maria Leopoldina Guia, Mísia e Hélder Moutinho, terem gravado temas seus.

Discografia:
- Um Congresso de Gatos (EP, Alvorada, 1959)
- Alfama-Lisboa (EP, Columbia/VC, 1964)
- Nostalgia de Alfama (EP, Columbia/VC, 1965)
- Fado É Canto Peregrino (EP, Columbia/VC, 1968)
- Penso Que Já Não Existes (EP, Philips/Phonogram, 1971)
- Minha Alma de Amor Sedenta (LP, Columbia/VC, 1972; CD, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [reúne os 12 temas dos 3 EPs editados pela Valentim de Carvalho, selo Columbia]
- É Assim a Minha Alfama (LP, Roda/Vadeca, 1977)
- António dos Santos: Saudade (LP, EMI-VC, 1986) [mesmo conteúdo do LP "Minha Alma de Amor Sedenta", 1972]
- O Melhor de António dos Santos (CD, EMI-VC, 1992) [mesmo conteúdo do LP "Minha Alma de Amor Sedenta", 1972]


António dos Santos, apesar do seu superlativo legado, é nome votado ao ostracismo pelo editor da 'playlist' da Antena 1. E se isso acontece com o beneplácito de Rui Pêgo, seria de admirar que este tomasse a iniciativa de lhe render a devida homenagem no dia em que se assinalam os 20 anos do seu desaparecimento. Mesmo tendo a rádio pública a obrigação de divulgar e acarinhar o nosso património musical mais valioso e perene e de, ironicamente, até difundir um 'slogan' que diz "Antena 1: uma rádio com memória".
O blogue "A Nossa Rádio" não podia deixar de celebrar o emérito artista e apresenta uma série das suas mais sublimes criações. A pensar nos seus admiradores e, sobretudo, naqueles a quem a rádio tem negado a oportunidade de o descobrir.



Não Tarda a Neve



Poema: António Nobre (excerto ligeiramente adaptado de "Adeus!") [texto integral >> abaixo]
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Penso Que Já Não Existes", Philips/Phonogram, 1971)


Adeus! Ó Mar, quero que me respondas,
Águas tão altas! dizei, dizei:
Quais mais salgadas? as vossas ondas
Quais mais salgadas? as vossas ondas
Ou as que eu choro, e chorarei?

Adeus! Ó Lua, Lua dos Meses,
Lua dos Meses, ora por nós!...
Ó Mar antigo dos Portugueses,
Ó Mar antigo dos Portugueses,
Ó Mar antigo dos meus Avós!

Adeus! Eu parto, mas volto, breve,
À tua casa que eu deixei lá!
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!

Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!


* Francisco Carvalhinho – guitarra portuguesa
Pais da Silva e Martinho d'Assunção – violas
José Maria Nóbrega – viola baixo
Produção – Phonogram
Gravado no Estúdio Nacional Filmes, Lisboa



ADEUS!
(POR UMA TEMPESTADE NA COSTA DE INGLATERRA)

(António Nobre, in "Só", ciclo "Lua-Quarto Minguante", 2.ª ed. revista e aumentada, Lisboa: Guillard, Aillaud e C.ª, 1898; "Poesia Completa", Lisboa: Círculo de Leitores, 1988 – págs. 185-188)


Adeus! Eu parto, mas volto, breve,
À tua casa que deixei lá!
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!

Adeus! Na ausência meses são anos,
Dias são meses, que aí são ais:
Ah tu tens sonhos, eu tenho enganos.
Eu sou sozinho, tu tens teus Pais.

Adeus! Nas velas o Vento toca
«Aves» e «Paters» de imensa dor.
Enquanto rezas, fia na roca
Enquanto rezas, fia na roca
O linho branco do nosso amor.

Adeus! Paquete, que vai fugido
Com um Poeta lá dentro a orar!
Ai que destino tão parecido.
Andar aos ventos, ó Mar! ó Mar!

Adeus! Mar, quero que me respondas,
Águas tão altas! dizei, dizei:
Quais mais salgadas? as vossas ondas
Quais mais salgadas? as vossas ondas
Ou as que eu choro, que eu chorarei?

Adeus! (Que é isto? treme o Paquete!)
Fiel me seja teu Coração:
Não que eu fechei-o num aloquete
E a chave é de oiro, trago-a na mão!

Adeus! O Vento soluça e geme,
O Mar é negro, mas «lá» é azul...
Francês tão moço, que vais ao leme,
Francês tão moço, que vais ao leme,
Ah se pudesses voltar ao Sul!

Adeus! (Piloto, que nuvens essas,
Façamos juntos o «plo sinal!»)
Menina e Moça, nunca me esqueça
Que eu tenho os olhos em Portugal!

Adeus. Um brigue de pano roto
Vede que passa, faz-nos sinais:
Tenha piedade, Sr. Piloto,
Tenha piedade, Sr. Piloto,
Seja pela alma dos nossos Pais...

Adeus! «St. Jacques», vai depressinha...
Meu Anjo, a esta hora, tu que farás?
O Mar faz medo (Salve, Rainha...)
E tu, meu Anjo, tão longe estás!

Adeus! Tão longe, tão longe a terra!
Longe de tudo, longe de ti!
A trinta milhas, fica a Inglaterra,
A trinta milhas, fica a Inglaterra,
A uma (ou menos) a Morte, ali...

Adeus! Na hora de me deixares,
Já pressentias o meu porvir:
«Meu Deus!» disseste, mostrando os ares...
Mas era urgente partir! partir!

Adeus! Já faltam os mantimentos,
Falta-nos água, falta-nos luz!
Morrer, à lua, sem sacramentos,
Morrer, à lua, sem sacramentos,
Morrer tão novo, Jesus! Jesus!

Adeus! E os dias nascem e morrem;
Tanta água e falta para beber!
E já puseram (rumores correm)
Sola de molho para comer.

Adeus! — Bons dias, meu Comandante,
A nossa sorte... morrer, talvez...
E o rude velho segue pra diante:
E o rude velho segue pra diante:
— Morrer, meu Amo, só uma vez!

Adeus! — Gajeiro! — boa criança!
Que vais em cima no mastaréu,
Vê lá se avistas terras de França...
- Ah nada avisto, só água e céu!

Adeus! Ó Lua, Lua dos Meses,
Lua dos Mares, ora por nós!...
Ó Mar antigo dos Portugueses,
Ó Mar antigo dos Portugueses,
Ó Mar antigo dos meus Avós!

Adeus! Ai triste de quem embarca
Sem ver a sorte que o espera ao fim!
Façamos vela prà Dinamarca,
Que Hamlet espera no Cais por mim.

Adeus! À Vida sinto-me preso,
(Morrer não custa) pelas paixões...
Vamos ao fundo, meu Anjo, ao peso
Vamos ao fundo, meu Anjo, ao peso
Das minhas trinta desilusões!

Adeus! Que estranha Visão é aquela
Que vem andando por sobre o mar?
Todos exclamam de mãos para ela:
«Nossa Senhora! que vens a andar!»

Adeus! A Virgem com um afago,
Pôs manso o Oceano, que assim o quis:
O Mar agora parece um lago,
O Mar agora parece um lago,
O rio Lima do meu País!

Adeus! Menina, que estás rezando,
Desceu a Virgem e já te ouviu:
Agora, quero ver-te cantando,
A Santa Virgem já me acudiu.

Adeus! Os Ventos são meigas brisas
E brilha a Lua como um farol!
Ponde nas vergas vossas camisas,
Ponde nas vergas vossas camisas,
Ó Marinheiros, que a Lua é o Sol!

Adeus! «St. Jacques» lá entra a barra,
Nossa Senhora vai indo a pé:
Com seu cabelo fez uma amarra,
Lá vai puxando, que boa ela é!

Adeus! Eu parto, mas volto, breve,
À tua casa que deixei lá!
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!

Paris, 1893.



É Assim a Minha Alfama



Letra: Alexandre Fontes
Música: Jorge Fontes
Intérprete: António dos Santos* (in LP "É Assim a Minha Alfama", Roda/Vadeca, 1977)


"Quantos becos tem Alfama?",
Insististe em perguntar;
Mas Alfama não engana
E quer que a vás visitar.

Anda ver estas vielas
Que nos falam do passado,
Tão antigas e tão belas
Onde mora o velho fado.

Andam mil pregões no ar
Logo que o dia começa,
As varinas par a par
De canastrinha à cabeça.

Pelos santos populares
Tudo baila nas vielas;
E os namoricos aos pares
Dançam à luz das estrelas.

É assim a minha Alfama:
Gente de valor profundo,
Bairro tão cheio de fama
Espalhada pelo mundo.


* Conjunto de Jorge Fontes
Produção – Carlos Cunha
Técnico de som – Fernando Santos



Nostalgia de Alfama



Letra: António Veloso Reis Camelo
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Nostalgia de Alfama", Columbia/VC, 1965; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Eu não sei que tem Alfama
P'ra que dela me prendesse;
Não na sente quem a infama
Com famas que não merece.

Nos seus becos e vielas,
Onde o sol põe tanta graça,
Há flores e há donzelas;
Não há apenas desgraça.

Tanto as casas se entrelaçam 
P'ra caberem dentro dela
Que os namorados se abraçam 
De janela p'ra janela.

Quando acesas permanecem 
E já tudo adormeceu,
Há janelas que parecem 
Dependuradas do céu.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Recordando



Letra: António Veloso Reis Camelo
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Alfama-Lisboa", Columbia/VC, 1964; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)




Existe ainda em Alfama
Uma casa pequenina
Onde habitava uma dama
Que tratavam de menina.

Nesse tempo tal casinha
Era toda cor-de-rosa
E, a condizer, a velhinha
De sua graça era Rosa.

Hoje a casa é amarela
Como tantas em Alfama;
Outra dama vive nela
Mas não sei como se chama.

Para mim, seja quem for,
Essa casa tão airosa,
Mesmo mudada de cor,
É a da menina Rosa.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Fado Triste



Letra e música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Nostalgia de Alfama", Columbia/VC, 1965; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Do sonho fiz o meu fado,
Fado triste, amargurado;
E desde então vou vivendo
Ao meu fado acorrentado.

Fado triste, minha oração
Que todos os dias rezo
Com a maior devoção;
Tu és o meu padre-nosso,
As minhas ave-marias
Que rezando vou ganhando
O pão de todos os dias.

Das minhas lágrimas sem fim
Fiz um rosário p'ra mim;
E uma a uma desfiando
Às minhas penas dou fim.

Tu és o meu padre-nosso,
As minhas ave-marias
Que rezando vou ganhando
O pão de todos os dias.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Fado É Canto Peregrino



Letra: Augusto Mascarenhas Barreto
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Fado É Canto Peregrino", Columbia/VC, 1968; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Fado é canto peregrino,
Fado de ontem é saudade,
Fado de hoje é ansiedade,
O de amanhã é destino.

Nasce quando nasce a lua,
Morre ao alvor matutino,
Vagueia de rua em rua:
Fado é canto peregrino.

Se recorda uma aventura
Da risonha mocidade
É lembrança que perdura:
Fado de ontem é saudade.

Canto da alma perdida
Pelos cantos da cidade
É mágoa da própria vida:
Fado de hoje é ansiedade.

Tem sempre um quê de pecado,
Algo também de divino;
Amor que passou é fado,
O de amanhã é destino.


* António Pessoa – viola
Liberto Conde – viola baixo
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Gaivotas em Terra



Letra: Augusto Mascarenhas Barreto
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Fado É Canto Peregrino", Columbia/VC, 1968; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)




Gaivotas em terra, de asas fechadas,
Marujos sem rumo, num banco dum bar;
Barcaças dormentes, no cais ancoradas,
Meninas morenas que pensam casar...

Preciso é que voem, que batam as asas;
Preciso é que deixem as altas janelas;
Preciso é que saiam as portas das casas;
Preciso é que soltem amarras e velas...

Marujos sozinhos, pensando outro mundo...
Meninas em casa, fiando desejo...
Preciso é que cruzem seu olhar profundo;
Preciso é que colem as bocas num beijo!

Mãos de marinheiro não temem procelas,
Se houver outras mãos, p'ra além vendaval;
Rezando por ele e tecendo outras velas
Mais brancas, mais belas, do seu enxoval!


* António Pessoa – viola
Liberto Conde – viola baixo
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Minha Alma de Amor Sedenta



Letra e música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Alfama-Lisboa", Columbia/VC, 1964; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)




Minha alma de amor sedenta,
Barco sem rumo e sem Deus,
Anda à mercê da tormenta
Desse mar dos olhos teus.

Essa dádiva total,
Que me pedes hora a hora,
É o que minha alma te dá
Quando de amor por ti chora.

Se um dia te perder
Jurarei virado aos céus;
E os perdões que Deus me der,
Meu amor, são todos teus.

É uma causa perdida
O ser proibido amar:
Quem perde um amor na vida
Jamais devia cantar.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



As Tuas Mãos



Letra: Figueiredo Barros
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Alfama-Lisboa", Columbia/VC, 1964; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Ai, senhora, as tuas mãos
São torres de catedral
Em que se acolhe meu corpo
Cansado de tanto mal.

As tuas mãos são o oásis
Onde encontro o lenitivo
Para o cansaço da vida
Que vou tendo sem motivo.

As tuas mãos são a manta
Que me cobre a nudez
Desta miséria que sinto
E que eu vejo e tu não vês.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Ficas a Saber



Letra: Maria Alexandrina
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Fado É Canto Peregrino", Columbia/VC, 1968; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)




Tinha um coração e dei-to,
E agora que não é meu
Sinto até no meu peito
Outro maior do que o teu.

Foi só depois de eu dizer
Que te amava loucamente
Que tu quiseste saber
Quanto é que um louco sente.

Todo o amor repartido
Ensina à gente a maneira
De ter num beijo sentido
O sabor da vida inteira.

Porque num beijo trocado
Com amor louco e profundo
Fica um tratado assinado
Mais forte que as leis do mundo.


* António Pessoa – viola
Liberto Conde – viola baixo
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Disseste-me Adeus



Letra: Carlos Miguel de Araújo
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Nostalgia de Alfama", Columbia/VC, 1965; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Disseste-me adeus um dia,
Fiz tudo para o esquecer;
Na tua a minha mão fria
Sentiu-se triste morrer.

Na vida não vale a pena
Sentir saudades de alguém;
Tudo morre e tudo esquece,
Morre a saudade também.

Morre a saudade também
No coração onde mora;
Saudades quem as não tem
Quando uma guitarra chora.

Quando uma guitarra chora
Fala pela boca da gente;
Saudades quem as não tem,
Saudades quem as não sente.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Uma Chuva de Tristeza



Letra: Mendes de Carvalho
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Alfama-Lisboa", Columbia/VC, 1964; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Uma chuva de tristeza
Caiu no meu coração;
E o mar ficou-me deserto
Morrendo numa canção.

Bebo p'ra não me lembrar,
Para de ti me esquecer;
Mas tu és a minha fonte
E eu só nela sei beber!

Porque me deixaste, amor,
Se outra mulher não existe?
Tu ficaste em mim gravada
E a saudade persiste!

Vem depressa! Volta, amor!
Eu vou morrendo em saudade;
Não posso ficar sem ti,
Tu és a minha verdade!


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Novamente Primavera



Letra: Alexandre Fontes
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in LP "É Assim a Minha Alfama", Roda/Vadeca, 1977)


Meu amor, a primavera
Acabou e tenho pena;
Nosso sonho foi quimera
Na paisagem amena.

Tanta folha pelo chão
Pisada a todo o momento;
E a nossa velha afeição
Transformou-se num tormento.

Primavera, primavera
Com andorinhas voando...
Quem me dera, quem me dera
Ver o meu amor voltando!

Na minha vida vazia
Meu coração vive à espera
Que o nosso amor seja um dia
Novamente primavera!


* Conjunto de Jorge Fontes
Produção – Carlos Cunha
Técnico de som – Fernando Santos



De Mãos Amarradas



Letra: Alexandre Fontes
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in LP "É Assim a Minha Alfama", Roda/Vadeca, 1977)


Eu passo o tempo a pensar
Por que é que à noite o luar
Traz minha voz magoada;
Folha levada pelo vento,
Caída no esquecimento,
Pela rua abandonada.

Trago mágoas no meu peito
E no meu sonho desfeito
Vejo-te sempre distante;
Sonho de amor indeciso,
Criança sem ter sorriso,
Beijo falso duma amante.

Madrugada sem ter sono
Lembrando o teu abandono
Não consigo adormecer;
Andam no céu trovoadas
E eu de mãos amarradas
Inda espero por te ver.

Andam no céu trovoadas
E eu de mãos amarradas
Inda espero por te ver.


* Conjunto de Jorge Fontes
Produção – Carlos Cunha
Técnico de som – Fernando Santos



Ilusão Perdida



Letra e música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Nostalgia de Alfama", Columbia/VC, 1965; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)


Amei uma vez na vida,
Mas não pude ser amado
Por uma formosa cigana;
Era de raça diferente,
Diferente a sua cor
E tinha uma lei tirana.

Disse-me um dia, a chorar,
Essa linda ciganita:
"Perdoa-me, meu amor!
Jamais poderei ser tua
Porque só posso casar
Com alguém da minha cor!"

A soluçar, concordei,
Enchi-lhe a boca de beijos,
Foi a nossa despedida;
E com a raiva nos olhos
Vi partir a caravana
Que levava a minha vida.

Não mais a tornei a ver,
Não sei se vive, se é morta,
Se anda pelo mundo fora;
Se lá longe, muito longe,
Me tenta agora esquecer
Como eu a recordo agora.

Nunca mais amei no mundo
A ninguém um só momento;
Já pouco me importa a vida:
Sou monge, um vagabundo
Encerrado no convento
Da minha ilusão perdida.


* António Pessoa – viola
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Partir é Morrer Um Pouco



Letra: Augusto Mascarenhas Barreto
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos* (in EP "Fado É Canto Peregrino", Columbia/VC, 1968; LP "Minha Alma de Amor Sedenta", Columbia/VC, 1972, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)




Adeus, parceiros das farras,
Dos copos e das noitadas;
Adeus, sombras da cidade;
Adeus, langor das guitarras,
Canto de esperanças frustradas,
Alvorada de saudade.

Meu coração, como louco,
Quer desgarrar-me do peito,
Transforma em soluço a voz;
Partir é morrer um pouco:
A alma de certo jeito
A expirar dentro de nós.

Voam mágoas em pedaços 
Como aves que se não cansam,
Ilusões esparsas no ar;
Partir é estender os braços
Aos sonhos que não se alcançam 
Cujo destino é ficar.

Deixo a minh'alma no cais;
De longe, canso sinais 
Feitos de pranto a correr;
Quem morre não sofre mais,
Mas quem parte é dor demais:
É bem pior que morrer. 

Quem morre não sofre mais,
Mas quem parte – é dor demais:
É bem pior que morrer. 


* António Pessoa – viola
Liberto Conde – viola baixo
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Capa do EP "Alfama-Lisboa" (Columbia/VC, 1964)



Capa da compilação "Minha Alma de Amor Sedenta" (Columbia/VC, 1972)



Contracapa do LP "É Assim a Minha Alfama" (Roda/Vadeca, 1977)

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