23 julho 2026

Trovante: "Um Caso Mais" (Luís Represas)


(in https://www.cm-pvarzim.pt/)


Ter a Natureza dotado alguém de uma voz bonita e atraente, na modalidade cantada, não significa forçosamente que essa pessoa se afirme um bom cantor ou intérprete canoro, se se preferir. É imprescindível que a voz seja impecavelmente afinada e o seu dono tenha sentido interpretativo apurado do repertório que aborda. Luís Represas reunia todas essas qualidades e mostrou-as de sobremaneira ao longo do seu percurso artístico, tendo sido – a nosso ouvir – no período do grupo Trovante (cerca de uma quinzena de anos, até 1992) que a sua arte interpretativa e as potencialidades expressivas da sua voz atingiram o auge. Neste pressuposto, a nossa escolha de uma canção para homenageá-lo nesta hora triste de despedida teria de recair numa gravada no seio do seu Trovante. A tarefa não se afigurava fácil porque são muitas e boas. Mesmo usando o critério de evitar as mais conhecidas (como "Balada das Sete Saias", "Prima da Chula", "Saudade", "Xácara das Bruxas Dançando", "Namoro II", "125 Azul", "Perdidamente" ou "Timor"), ficava ao nosso dispor um rol avantajado de canções e poemas cantados de primeira água. Após sucessivas audições comparativas e hesitações, pareceu-nos bastante pertinente deitar mão a um critério adicional: essa canção ser da autoria (a letra, pelo menos) do malogrado artista. E assim acabámos por escolher "Um Caso Mais", uma bela canção de assunto amoroso em tempo estival, com letra e música de Luís Represas e arranjo de João Gil, que saiu primeiramente no álbum "Terra Firme" (EMI-VC, 1987) e, depois, incluída nas compilações "Saudades do Futuro: O Melhor dos Trovante" (EMI-VC, 1991) e "O Melhor dos Trovante" (EMI Music Portugal, 2010). Esperamos que seja do agrado dos visitantes desta página e se para alguns representar uma descoberta, redobradamente gratificados nos sentimos por termos feito serviço público cultural e assim honrado, ainda que de maneira muito singela, a memória do superlativo intérprete que foi Luís Represas.

A propósito de serviço público – o de rádio (evidentemente) –, uma pergunta se nos impõe formular: quando, ontem de manhã, foi difundida a notícia da morte de Luís Represas (vítima de carcinoma pulmonar), existia porventura na 'playlist' da Antena 1 alguma canção por ele interpretada? Temos seriíssimas dúvidas, a avaliar pela quantidade industrial de subprodutos sonoros que pululam na lista em questão, a par da míngua de boa música portuguesa...
Durante a tarde de ontem, o canal generalista da rádio do Estado foi transmitindo, após os corriqueiros e enfadonhos boletins do trânsito que se seguem aos noticiários, um tema cantado por Luís Represas – ora do Trovante ora em nome próprio – e era o mínimo a ser feito. Pois que, doravante, o saudoso artista jamais deixe de estar representado na 'playlist' da Antena 1, bem como nas de outros canais da estação pública, dando-se prioridade ao repertório menos divulgado, cumprindo-se assim uma das mais nobres missões serviço público de rádio!



Um Caso Mais



Letra e música: Luís Represas
Arranjo: João Gil
Intérprete: Trovante* (in LP "Terra Firme", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1989, EMI Music Portugal, 2013, Parlophone/Warner Music Portugal, 2020; 2CD "Saudades do Futuro: O Melhor dos Trovante": CD 2, EMI-VC, 1991; CD "O Melhor dos Trovante", EMI Music Portugal, 2010, 2.ª edição, Parlophone/Warner Music Portugal, 2016)




[instrumental]

Enquanto foi só um bom momento deu,
Enquanto foi só um pensamento meu
Deus, deu só num caso forte a mais.

Enquanto achávamos graça ao que se escondeu
E as horas eram mais longas do que a verdade,
Fez p'ra ser só outro caso mais.

Enquanto for só ternura de Verão
Eu vou,
Enquanto a excitação
Der para um carinho
Eu dou.
Traz uma leveza,
Ah, mas com certeza
Eu dou
Um outro melhor bom dia.

[instrumental]

Já trocámos nortadas por vento sul,
Enquanto demos risadas foi-se o azul,
Nem sei qual deles foi azul demais.

Mas não ficará só a sensação de côr,
Nem sei o que o coração irá dizer de cor
Se o Inverno for, depois, duro demais.

Enquanto for só ternura de Verão
Eu vou,
Enquanto a excitação
Der para um carinho
Eu dou.
Traz uma leveza,
Ah, mas com certeza
Eu dou
Um outro melhor bom dia.

[instrumental]

Enquanto for só ternura de Verão
Eu vou,
Enquanto a excitação
Der para um carinho
Eu dou.
Traz uma leveza,
Ah, mas com certeza
Eu dou
Um outro melhor bom dia.

Traz uma leveza,
Ah, mas com certeza
Eu dou
Um outro melhor bom dia.


* Trovante:
Artur Costa – saxofone
Fernando Júdice – baixo
João Gil – guitarras e coros
José Martins – sintetizador
José Salgueiro – bateria, percussão e coros
Luís Represas – voz
Manuel Faria – piano e sintetizador

Produção – Manuel Faria e Artur Costa
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Agosto, Setembro e Outubro de 1987
Engenheiro de som – Paulo Neves
Misturas – Paulo Neves, Manuel Faria e Artur Costa
Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2007
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Trovante
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Represas
https://www.publico.pt/2026/07/22/culturaipsilon/noticia/morreu-luis-represas-voz-trovante-cantor-feiticeira-timor-2182588
https://www.youtube.com/channel/UCbaWTKc3QdgF37Q933YIi4A
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=trovante
https://music.youtube.com/@luisrepresasoficial9875



Capa do LP "Terra Firme", de Trovante (EMI-VC, 1987)
Concepção – Fátima Rolo Duarte
Fotografia – António Homem Cardoso



Capa da compilação em duplo CD "Saudades do Futuro: O Melhor dos Trovante" (EMI-VC, 1991)
Concepção e arranjo gráfico – Fátima Rolo Duarte, sobre fotografia de António Homem Cardoso



Capa da compilação em CD "O Melhor dos Trovante" (EMI Music Portugal, 2010).

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Outros artigos com repertório cantado por Luís Represas:
A infância e a música portuguesa
Ser Poeta
Celebrando Eugénio de Andrade
Trovante: "Noite de Verão" (Manuel da Fonseca)
Carlos Garcia com Luís Represas: "Noite Perdida" (António Feijó)

20 julho 2026

Pedro Barroso: "Lua"


(in https://www.magnific.com/)


                                    Ó lua que vais tão alta,
                                    Vai dizer à minha amada
                                    Que eu lhe passei à porta
                                    Ao romper da madrugada.


                                              POPULAR (Beira Baixa)


"Ó lua que vais tão alta": com este verso se iniciam várias quadras concebidas por poetas anónimos do povo, de que a acima transcrita é um excelente exemplo. Também o cantautor Pedro Barroso, sentindo-se tocado pela beleza altiva e serena da Lua, quando em certa noite da década de 1980 se encontrava no terraço da sua casa em Riachos, escreveu um belo poema para canção usando o mesmo incipit e o tom vocativo/rogativo da quadra popular que aqui apresentamos à guisa de epígrafe, mas imprimindo-lhe um cunho de índole reflexiva/filosófica (atente-se no trecho «ensina-me um saber profundo / tu que sabes a verdade / tu que conheces e viste / as noites todas do mundo») que a catapulta para um patamar estético bem elevado. Essa qualidade aliada à inspirada melodia e ao cativante arranjo de recorte lírico-nostálgico, e à magistral interpretação de Pedro Barroso fazem da sua "Lua" uma das mais brilhantes pérolas alguma vez criadas em língua portuguesa tendo o astro que orbita a Terra como objecto poético-musical. E dado que o álbum em que primeiramente saiu, "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher" (1986), que é um dos pontos mais altos da discografia do saudoso poeta/compositor/intérprete, perfaz quatro decénios no ano corrente, afigurou-se-nos oportuno e inteiramente justo dar-lhe destaque neste Dia Internacional da Lua. Boa escuta, de preferência contemplando a rogada!

Pedro Barroso pertence, por mérito e direito próprios, à galeria dos mais categorizados cantautores portugueses, e essa condição bastaria para que um punhado de espécimes do seu repertório figurasse na 'playlist' da Antena 1. Mas, por mais absurdo que possa parecer, nem uma só canção ou peça instrumental com a sua assinatura autoral e/ou interpretativa lá consta, situação que revela uma intolerável discricionariedade e uma inadmissível falta de sentido de serviço público por quem escolhe e por quem aprova, expressa ou tacitamente (no caso, o director de programação, Nuno Reis), os conteúdos da referida lista. Tal atitude, além de constituir uma inqualificável vilania à memória do distinto artista, representa uma inaceitável falta de respeito pelos ouvintes: quer os mais veteranos e conhecedores da obra de Pedro Barroso que teriam todo o gosto em ouvi-lo de vez em quando na rádio que pagam, quer os mais novos que assim vêem ser-lhes soezmente sonegada a oportunidade de tomarem contacto, via éter, com o legado de uma das maiores figuras da música popular portuguesa.



Lua



Letra e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso* (in LP "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher", Orfeu/Movieplay, 1986, reed. Movieplay, 2004; CD "Pedro Barroso", Col. O Melhor dos Melhores, vol. 81, Movieplay, 1998; 2CD "Pedro Barroso: Antologia 1982-1990": CD 1, Movieplay, 2005)




[instrumental]

Ó Lua que vais tão alta
tão altiva e tão serena
tão alva da cor do linho
diz-me, Lua, que és tão bela
por entre silvas e rosas
diz-me qual é o caminho

Quero o caminho do tempo
quero ter tempo p'ra o caminho
quero olhar-te devagar
diz-me, Lua, que és antiga
quais os segredos da vida
e por onde procurar

E se valer a pena conta
e se valer a pena canta...

[instrumental]

Quero o vento, quero os montes
quero tudo o que me mostras
no teu doce iluminar
fica metade de mim
em cada luar d'Agosto
numa praia à beira-mar

Quero de ti essa razão
essa tua força calma
de quem sabe aconselhar
conta-me tudo o que sabes
tudo o que tu vês e calas
e transformas em luar

E se valer a pena conta
e se valer a pena canta...

[instrumental]

Quero a sabedoria
de quem faz da noite dia
e se esconde p'ra pensar
mas não nos ofusca tanto
que os olhos fiquem em chamas
e não possam repousar

Faz no meu peito a vontade
e a quem vires que aproveita
ensina-me um saber profundo
tu que sabes a verdade
tu que conheces e viste
as noites todas do mundo

tu que sabes a verdade
tu que conheces e viste
as noites todas do mundo

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Abel Moura – acordeão
António Chainho – guitarra portuguesa
Catarina Latino – flautas barrocas
Guilherme Inês – caixa de ritmos e pandeiretas
João Nuno Represas – tablas, cana, clavas e maracas
José Carlos Gonçalves – violoncelos
Pedro Barroso – viola beiroa, tímpanos, vibrafone, viola e reco
Pedro Fragoso – bandolins, piano, viola campaniça e órgão
Rui Luís Pereira "Dudas" – viola e viola de 12 cordas
Sérgio Mestre – flauta transversal
Zé da Ponte – baixo eléctrico
Coro de Santo Amaro de Oeiras – coros; dir. Pedro Barroso

Arranjos, direcção musical e produção executiva – Pedro Barroso
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Janeiro e Fevereiro de 1986
Engenheiros de som – João Vaz de Carvalho e Jorge Barata
Misturas – João Vaz de Carvalho e Pedro Barroso
Masterização (edição em CD) – José António Regada
Biografia e discografia em A Nossa Rádio
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_Barroso
https://www.meloteca.com/portfolio-item/pedro-barroso/
https://pedro-sc-barroso.blogspot.pt/p/discografia.html
https://music.youtube.com/channel/UCObgev8wnn6NWUgsSQGTPYQ
https://www.youtube.com/@DoTempoDosSonhos/videos?query=pedro+barroso
https://www.youtube.com/@AlbanoCardosoLaranjeira/videos?query=pedro+barroso



Capa do LP "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher", de Pedro Barroso (Orfeu/Movieplay, 1986)
Concepção – Pedro Barroso (Adereços – Antiquários Vasco e A. Robalo)
Fotografia – António João



Capa da compilação em CD "Pedro Barroso" (Col. O Melhor dos Melhores, vol. 81, Movieplay, 1998)



Capa da compilação em duplo CD "Pedro Barroso: Antologia 1982-1990" (Movieplay, 2005)
Fotografia – Jorge Jacinto
Design gráfico – Roda Dentada.

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Outros artigos com repertório alusivo à Lua:
A infância e a música portuguesa
Em memória de Vasco Graça Moura (1942-2014)
"Quando os Lobos Uivam"
Amélia Muge: "A Lua" (Amália Rodrigues)

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Outros artigos com repertório de Pedro Barroso:
Galeria da Música Portuguesa: Pedro Barroso
Ser Poeta
Pedro Barroso: "Palavras Mal Ditas" ou "Palavras Malditas"?
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Cesário Verde: "De Tarde"
Pedro Barroso: "Música de Mar"
Pedro Barroso: "Epitáfio"
Pedro Barroso: "Barca em Chão de Lama"
Pedro Barroso: "Nasce Afrodite, amor, nasce o teu corpo" (José Saramago)