20 julho 2026

Pedro Barroso: "Lua"


(in https://www.magnific.com/)


                                    Ó lua que vais tão alta,
                                    Vai dizer à minha amada
                                    Que eu lhe passei à porta
                                    Ao romper da madrugada.


                                              POPULAR (Beira Baixa)


"Ó lua que vais tão alta": com este verso se iniciam várias quadras concebidas por poetas anónimos do povo, de que a acima transcrita é um excelente exemplo. Também o cantautor Pedro Barroso, sentindo-se tocado pela beleza altiva e serena da Lua, quando em certa noite da década de 1980 se encontrava no terraço da sua casa em Riachos, escreveu um belo poema para canção usando o mesmo incipit e o tom vocativo/rogativo da quadra popular que aqui apresentamos à guisa de epígrafe, mas imprimindo-lhe um cunho de índole reflexiva/filosófica (atente-se no trecho «ensina-me um saber profundo / tu que sabes a verdade / tu que conheces e viste / as noites todas do mundo») que a catapulta para um patamar estético bem elevado. Essa qualidade aliada à inspirada melodia e ao cativante arranjo de recorte lírico-nostálgico, e à magistral interpretação de Pedro Barroso fazem da sua "Lua" uma das mais brilhantes pérolas alguma vez criadas em língua portuguesa tendo o astro que orbita a Terra como objecto poético-musical. E dado que o álbum em que primeiramente saiu, "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher" (1986), que é um dos pontos mais altos da discografia do saudoso poeta/compositor/intérprete, perfaz quatro decénios no ano corrente, afigurou-se-nos oportuno e inteiramente justo dar-lhe destaque neste Dia Internacional da Lua. Boa escuta, de preferência contemplando a rogada!

Pedro Barroso pertence, por mérito e direito próprios, à galeria dos mais categorizados cantautores portugueses, e essa condição bastaria para que um punhado de espécimes do seu repertório figurasse na 'playlist' da Antena 1. Mas, por mais absurdo que possa parecer, nem uma só canção ou peça instrumental com a sua assinatura autoral e/ou interpretativa lá consta, situação que revela uma intolerável discricionariedade e uma inadmissível falta de sentido de serviço público por quem escolhe e por quem aprova, expressa ou tacitamente (no caso, o director de programação, Nuno Reis), os conteúdos da referida lista. Tal atitude, além de constituir uma inqualificável vilania à memória do distinto artista, representa uma inaceitável falta de respeito pelos ouvintes: quer os mais veteranos e conhecedores da obra de Pedro Barroso que teriam todo o gosto em ouvi-lo de vez em quando na rádio que pagam, quer os mais novos que assim vêem ser-lhes soezmente sonegada a oportunidade de tomarem contacto, via éter, com o legado de uma das maiores figuras da música popular portuguesa.



Lua



Letra e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso* (in LP "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher", Orfeu/Movieplay, 1986, reed. Movieplay, 2004; CD "Pedro Barroso", Col. O Melhor dos Melhores, vol. 81, Movieplay, 1998; 2CD "Pedro Barroso: Antologia 1982-1990": CD 1, Movieplay, 2005)




[instrumental]

Ó Lua que vais tão alta
tão altiva e tão serena
tão alva da cor do linho
diz-me, Lua, que és tão bela
por entre silvas e rosas
diz-me qual é o caminho

Quero o caminho do tempo
quero ter tempo p'ra o caminho
quero olhar-te devagar
diz-me, Lua, que és antiga
quais os segredos da vida
e por onde procurar

E se valer a pena conta
e se valer a pena canta...

[instrumental]

Quero o vento, quero os montes
quero tudo o que me mostras
no teu doce iluminar
fica metade de mim
em cada luar d'Agosto
numa praia à beira-mar

Quero de ti essa razão
essa tua força calma
de quem sabe aconselhar
conta-me tudo o que sabes
tudo o que tu vês e calas
e transformas em luar

E se valer a pena conta
e se valer a pena canta...

[instrumental]

Quero a sabedoria
de quem faz da noite dia
e se esconde p'ra pensar
mas não nos ofusca tanto
que os olhos fiquem em chamas
e não possam repousar

Faz no meu peito a vontade
e a quem vires que aproveita
ensina-me um saber profundo
tu que sabes a verdade
tu que conheces e viste
as noites todas do mundo

tu que sabes a verdade
tu que conheces e viste
as noites todas do mundo

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Abel Moura – acordeão
António Chainho – guitarra portuguesa
Catarina Latino – flautas barrocas
Guilherme Inês – caixa de ritmos e pandeiretas
João Nuno Represas – tablas, cana, clavas e maracas
José Carlos Gonçalves – violoncelos
Pedro Barroso – viola beiroa, tímpanos, vibrafone, viola e reco
Pedro Fragoso – bandolins, piano, viola campaniça e órgão
Rui Luís Pereira "Dudas" – viola e viola de 12 cordas
Sérgio Mestre – flauta transversal
Zé da Ponte – baixo eléctrico
Coro de Santo Amaro de Oeiras – coros; dir. Pedro Barroso

Arranjos, direcção musical e produção executiva – Pedro Barroso
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Janeiro e Fevereiro de 1986
Engenheiros de som – João Vaz de Carvalho e Jorge Barata
Misturas – João Vaz de Carvalho e Pedro Barroso
Masterização (edição em CD) – José António Regada
Biografia e discografia em A Nossa Rádio
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_Barroso
https://www.meloteca.com/portfolio-item/pedro-barroso/
https://pedro-sc-barroso.blogspot.pt/p/discografia.html
https://music.youtube.com/channel/UCObgev8wnn6NWUgsSQGTPYQ
https://www.youtube.com/@DoTempoDosSonhos/videos?query=pedro+barroso
https://www.youtube.com/@AlbanoCardosoLaranjeira/videos?query=pedro+barroso



Capa do LP "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher", de Pedro Barroso (Orfeu/Riso e Ritmo Discos, 1986)
Concepção – Pedro Barroso (Adereços – Antiquários Vasco e A. Robalo)
Fotografia – António João



Capa da compilação em CD "Pedro Barroso" (Col. O Melhor dos Melhores, vol. 81, Movieplay, 1998)



Capa da compilação em duplo CD "Pedro Barroso: Antologia 1982-1990" (Movieplay, 2005)
Fotografia – Jorge Jacinto
Design gráfico – Roda Dentada.

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A infância e a música portuguesa
Em memória de Vasco Graça Moura (1942-2014)
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