07 março 2015

"Quando os Lobos Uivam"

Em peças de teatro e obras de ficção (que não sejam fábulas ou histórias para crianças), os nomes de animais nos títulos surgem, quase sempre, em sentido figurado ou metafórico, isto é, remetendo para pessoas ou para as qualidades e atitudes dos humanos que são consideradas animalescas. Alguns exemplos: "As Vespas", do grego Aristófanes; "O Leopardo", do italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa; "O Lobo das Estepes", do alemão Hermann Hesse; "As Moscas", do francês Jean-Paul Sartre; "A Cotovia", do também francês Jean Anouilh; e "Quando os Lobos Uivam", do português Aquilino Ribeiro. Neste último caso, os lobos são as autoridades do regime salazarista que teimaram em levar por diante a florestação de pinhal nos baldios da Serra de Leomil (também chamada Serra da Nave, e que o autor designou na narrativa por Serra dos Milhafres), mesmo contra a vontade das populações locais.
Helena Matos, na edição da rubrica "O Mundo ao Ouvido" (Antena 1), em que incluiu uma gravação de uivos de lobos, e teceu algumas considerações sobre aqueles animais, menciona o romance "Quando os Lobos Uivam". A simples citação do título é gratuita, já que as personagens da obra aquiliniana são indivíduos da espécie homo sapiens e não os temidos canídeos selvagens. No entanto, podemos admitir a referência como benévola, e por duas ordens de razões: primeira – porque todos os pretextos são bons para sugerir a leitura da suculenta prosa de Aquilino Ribeiro (um escritor actualmente bastante esquecido, mas que é um dos maiores vultos da Literatura Portuguesa do século XX e de sempre); segunda – porque na região da Beira Alta onde se desenrola a acção do romance havia alcateias, pelo menos até ao momento em que foi escrito e originalmente publicado (1958). Terá sido essa a circunstância que inspirou o título ao escritor e que também deu o mote ao jornalista João Paulo Guerra para incluir uivos de lobos no início da reportagem que, em 1995 no âmbito da série "Viagens com Livros" (TSF), realizou na zona dos baldios que foram alvo da prepotência estatal, e cujo registo áudio aproveitamos para resgatar, com a devida vénia ao autor. Uma boa memória da rádio e um notável exemplo de serviço público cultural!
Os lobos, esses foram sendo dizimados, a ponto de desaparecerem das Terras do Demo (como o próprio Aquilino as designou), e se hoje ainda existem em algumas regiões mais setentrionais do território nacional (designadamente no Parque Natural de Montesinho) muito o devemos ao Grupo Lobo, presidido pelo Prof. Francisco Fonseca, que não se tem poupado a esforços em prol do lobo ibérico. A propósito, porque não aproveitou Helena Matos a soberana oportunidade que teve para fazer alusão àquela honorável entidade e ao meritório trabalho que tem desenvolvido no nosso país? Uma omissão absolutamente imperdoável, ademais tratando-se de uma jornalista e suposta investigadora!
O apontamento também deixou muito a desejar na opção que foi feita para a ilustração musical. Em vez de trazer o massificado Michael Jackson e o seu "Thriller", que toda a gente conhece, Helena Matos podia ter subido a fasquia e dado a ouvir a sinfonia de uivos que surge na parte final do tema "Lobos, Raposas e Coiotes", de Maria João e Mário Laginha, ou, ainda melhor, o tema "A Lua e os Lobos", de Rão Kyao, em que o músico imita na flauta precisamente os uivos dos lobos. Isso, sim, era prestar bom serviço público. Da rádio que os contribuintes financiam espera-se algo mais do que banalidades e futilidades que nada acrescentam ao universo de quem ouve.
Como os leitores do blogue "A Nossa Radio" merecem o melhor, aqui se faculta a audição integral das duas peças musicais atrás referidas.



Quando os Lobos Uivam



Reportagem de João Paulo Guerra* (in CD "Viagens com Livros", Vol. 4 – "Quando os Lobos Uivam / Léah e Outras Histórias", Strauss, 1996)


(reportagem de rádio)


* Guião e reportagem – João Paulo Guerra
Sonorização – Alexandrina Guerreiro
Transmissão na TSF-Rádio Jornal, de Abril a Setembro de 1995
Masterização digital – Francisco Leal, no Strauss Studio, Lisboa, em Janeiro de 1996



Lobos, Raposas e Coiotes



Música: Mário Laginha
Intérpretes: Maria João e Mário Laginha* com a NDR Radio Philharmonic Orchestra Hannover, dir. Arild Remmereit (in CD "Lobos, Raposas e Coiotes", Verve/Universal, 1999)




(instrumental com vocalizos)


* Maria João – voz
Mário Laginha – piano
Orquestração e arranjos – Mário Laginha
NDR Radio Philharmonic Orchestra Hannover, dirigida por Arild Remmereit
Produção – Reinhard Karwatky & Wolf-Dieter Karwatky
Co-produção – Norddeutscher Rundfunk, Hannover
Supervisão de gravação – Reinhard Karwatky
Gravado por Manfred Kietzke e Wolf-Dieter Karwatky, nos NDR Studios, Hannover (Alemanha), em 1997
Mistura, masterização e edição digital – Karwatky Bros. (Karcos) e Universal Recording Service (Emil Berliner Haus), Hannover



A Lua e os Lobos



Música: Rão Kyao
Intérprete: Rão Kyao* (in CD "Porto Alto", Farol Música, 2004)


(instrumental)


* [Créditos gerais do disco:]
Rão Kyao – flautas de bambu
Renato Júnior – acordeão
António Pinto – guitarras acústicas
Ruca Rebordão – tambor africano, caxixi
André Sousa Machado – bateria
Produção musical – Luís Pedro Fonseca
Produção executiva – António Cunha (Uguru) & Luís Pedro Fonseca
Gravado por Pedro Rego e Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa, em Dezembro de 2003 e Janeiro de 2004
Misturado e masterizado por Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa



Capa do CD "Viagens com Livros", Vol. 4 – "Quando os Lobos Uivam / Léah e Outras Histórias" (Strauss, 1996)
Design gráfico – Rogério Taveira
Fotografia – Edite Lourenço



Capa do CD "Lobos, Raposas e Coiotes" (Verve/Universal, 1999)



Capa do CD "Porto Alto" (Farol Música, 2004)



Capa do romance "Quando os Lobos Uivam" (Bertrand Editora, edição de 2011)

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