MULHER DA ERVA Elfiede Engelmayer dá a explicação deste texto: trata-se de uma velha mulher do Alentejo que ganhava a vida com a venda de erva. José Afonso conheceu-a quando ela já tinha mais de setenta anos. Todos os dias, andava pelas ruas e estradas com uma cesta de erva cuja venda era o seu sustento e com que se alimentava o gado. Esta "profissão" desapareceu com a modernização da agricultura. A canção relata o encontro entre o cantor e a mulher. Na segunda estrofe, ele vê-a a subir a estrada, vindo na sua direcção. Na terceira, eles trocam algumas palavras e depois ela prossegue o seu caminho sem ouvir o comentário do cantor. Na primeira estrofe, a "vela condenada pela onda" simboliza que ela não tem, e nunca teve, futuro.
Oona Soenario (in "A Canção de Intervenção Portuguesa: Contribuição para um estudo e tradução de textos", Universidade de Antuérpia, 1994-1995) [cf. http://www.aja.pt/verso-dos-versos/]
Uma velha camponesa alentejana acartando erva, provavelmente à cabeça, qual besta de carga, para venda e assim prover ao seu mísero sustento não podia deixar de suscitar a compaixão do humanista que era José Afonso. E aquela vida sem futuro, de árdua sobrevivência, sensibilizou-o de tal maneira que se sentiu impelido a conceber a canção "Mulher da Erva", cuja melodia é uma das mais belas (e foram muitas) que saíram do génio criativo do autor de "Cantigas do Maio", álbum no qual foi publicada.
Sendo verdade que já não existem vendedoras ambulantes de erva, ainda é possível ver, em aldeias e lugarejos da Beira Interior e de Trás-os-Montes, mulheres carregando, à cabeça ou às costas, feixes de pasto para as suas cabras e ovelhas. A essas e a todas as outras mulheres que, no campo ou na cidade, executam trabalhos não qualificados, muitas vezes degradantes, pelos quais auferem um rendimento tão magro que não lhes permite mais que a simples sobrevivência, dia após dia, rendemos a nossa solidária homenagem pondo em destaque, neste Dia Internacional da Mulher, a extraordinária canção "Mulher da Erva". Não a original, que é razoavelmente conhecida [>> YouTube], mas uma soberba versão incompreensivelmente esquecida: a cantada por Teresa Silva Carvalho, com introdução de Vitorino, que faz parte do álbum "Ó Rama, Ó Que Linda Rama", editado em 1977. Tendo ganhado notoriedade como excelente intérprete de fado, Teresa Silva Carvalho, que foi também compositora de mérito (bastará referir os clássicos "Amar", sobre um soneto de Florbela Espanca, e "Barca Bela", sobre um poema de Almeida Garrett), atingiu o apogeu da sua arte canora precisamente no álbum "Ó Rama, Ó Que Linda Rama", que continua a ser um dos mais cativantes e aprazíveis de se ouvir de toda a História da Música Popular Portuguesa. Também graças – é justo reconhecê-lo – à magistral produção de Vitorino Salomé que convidou músicos de primeiríssima água, dos quais nos permitimos realçar Júlio Pereira, Pedro Caldeira Cabral e Catarina Latino, a qual, com a flauta barroca e a cornamusa, confere ao repertório um toque de raro encanto.
Se Portugal fosse um país normal e as rádios de cobertura nacional tivessem nas respectivas direcções de programas pessoas cultas e dotadas de sensibilidade para apreciar e estimar o nosso património musical/discográfico mais autêntico e esteticamente válido, faixas do álbum "Ó Rama, Ó Que Linda Rama" teriam presença garantida nas 'playlists'. A realidade, porém, é bem diferente e nem sequer lhe escapa a rádio que tem a obrigação legal de divulgar a melhor música portuguesa, a Antena 1, que há largos se compraz a promover a imundície sonora (chamar-lhe música seria excessiva bondade). Já na Antena 2, onde se esperaria menos escutar Teresa Silva Carvalho, foi possível ouvi-la, na edição de sábado passado do programa "Café Plaza" [>> RTP-Play], a cantar a sua "Mulher da Erva" (a primeira, pois a artista voltaria a gravar a canção para o álbum "Canções Gratas", de 1994). Aconteceu no âmbito de uma oportuna sequência de canções e poemas recitados dedicados à mulher que o realizador Germano Campos teve o louvável cuidado de fazer, em jeito de celebração antecipada do Dia Internacional da Mulher, lembrando aos ouvintes – e bem – que todos os dias do ano deviam ser dias da mulher, de tal sorte – acrescentamos nós – que não fosse necessário haver uma data especial para alertar as consciências de que metade da Humanidade ainda é objecto de discriminação pela outra metade.
Ainda na Antena 2, mas num universo musical bem distinto – a nova música antiga europeia –, há que enaltecer a iniciativa de João Chambers em devotar a edição de ontem do seu programa "Musica Aeterna" [>> RTP-Play] à condição da Mulher na Idade Média, a sua situação social perante a Igreja e o pensamento teológico vigente, em textos intercalados com canto gregoriano feminino composto pela abadessa alemã Hildegard von Bingen, cognominada 'A Sibila do Reno'.
Nesta data precisa, seria de bom-tom que a mesma Antena 2 preenchesse os espaços de continuidade (fora dos programas de autor) só com repertório composto e/ou interpretado por mulheres. Demo-nos conta de que foram transmitidas interpretações por mulheres (por Maria João Pires, de manhã; pelas cantoras Emőke Baráth e Jodie Devos, e pela flautista Sharon Bezaly, no turno da tarde) mas as peças tocadas por homens foram em muito maior número. E de mulheres compositoras apenas nos constaram Barbara Strozzi (trazida pela mão de Mafalda Serrano), Irene Poldowski, Fanny Mendelssohn e Cécile Chaminade (todas dadas a ouvir por João Pedro). Estas passagens avulsas denotam que não houve empenho da parte da direcção da Antena 2 na celebração do Dia Internacional da Mulher. E era extremamente fácil preencher um dia inteiro (muitos dias inteiros, aliás) exclusivamente com obras ou excertos de obras compostas ou interpretadas por mulheres, tão vasta, rica e diversificada é a discografia nesse capítulo. Ficar de braços cruzados sempre dá menos trabalho do que fazer o que se devia, não é verdade?
E o que fizeram os outros dois canais nacionais da rádio pública? A Antena 3, cumprindo o que vinha sendo anunciado há dias, tem passado somente canções interpretadas por mulheres. A Antena 1, pelo que nos tem sido dado perceber pelas fugazes incursões que lá temos feito (permanecer lá seria uma tortura), também vem transmitindo apenas intérpretes femininas. À parte a mediana ou mesmo baixa qualidade dos espécimes escolhidos, em ambos os canais têm sido passadas muitas canções estrangeiras (anglo-saxónicas, bem entendido). Não havia necessidade! Em Portugal há repertório bastante e de alta qualidade cantado por artistas femininas e estas, tendo em conta a situação bastante difícil (verdadeiramente crítica, nalguns casos) a que chegaram por causa da pandemia, mereciam que o serviço público de rádio fizesse jus à missão para a qual foi criado e as acarinhasse convenientemente dando-lhes o máximo apoio possível.
Mulher da Erva
Letra e música: José Afonso
Intérprete: Teresa Silva Carvalho* / introdução por Vitorino (in LP "Ó Rama, Ó Que Linda Rama", Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1994)
Velha da terra morena
Pensa que é já lua cheia;
Vela que a onda condena
Feita em pedaços na areia.
[instrumental]
Saia rota subindo a estrada,
Inda a noite rompendo vem,
A mulher pega na braçada
De erva fresca, supremo bem.
Canta a rola numa ramada,
Pela estrada vai a mulher:
"Meu senhor, nesta caminhada
Nem m'alembra do amanhecer!"
Há quem viva sem dar por nada,
Há quem morra sem tal saber...
Velha ardida, velha queimada,
Vende a fruta se queres comer.
À noitinha, a mulher alcança
Quem lhe compra do seu manjar,
Para dar à cabrinha mansa,
Erva fresca da cor do mar.
[instrumental]
Na calçada uma mancha negra
Cobriu tudo e ali ficou:
Anda, velha da saia preta,
Flor que ao vento no chão tombou!
No Inverno terás fartura
Da erva fora supremo bem...
Canta, rola, tua amargura!
Manhã moça nunca mais vem...
Homem desprovido de máscaras e mostrando uma desarmante fraternidade («trazia um par de peúgas de cores diferentes. Penteava-se com os dedos. O ar era displicente, o sorriso cúmplice e doce. Tais ingredientes, por serem nesse tempo contra a corrente, fascinaram-me.», recorda Guilherme Pereira, um dos seus alunos), José Afonso logo suscitou a empatia e a subsequente cumplicidade rebelde dos seus alunos no Liceu António Enes, estabelecimento de ensino onde, a exemplo dos demais em plena vigência da ditadura salazarista, imperava a formalidade e o autoritarismo professoral. «Apresentou-se timidamente e omitiu a actividade no mundo das cantigas. Era um professor excepcional. Incitava-nos à investigação e a questionar tudo, desde os manuais a ele mesmo. Retive para sempre uma frase: "Não estou aqui para impingir, mas para insistir e resistir, convosco de preferência."», acrescenta o mesmo Guilherme Pereira [cf. José Afonso em Lourenço Marques].
A Amélia Muge, então a viver com os pais na cidade de Lourenço Marques, também calhou em sorte, nesse ano lectivo de 1964/65, na disciplina de Geografia do 3.º ano liceal, o singular professor José Afonso, não sendo difícil de calcular que tal experiência se revelou marcante. E a admiração pelo mestre e a influência colhida da sua obra aumentariam à medida que foram sendo publicados os seus álbuns. Num deles, "Cantigas do Maio" (1971), saiu o tema "Senhor Arcanjo" [>> YouTube], cuja letra de cunho surrealista virá a inspirar a cantautora na concepção do espécime "Os Novos Anjos", que faz parte do álbum "Todos os Dias" (1994). A canção é mesmo expressamente dedicada a José Afonso. Tais circunstâncias, associadas à tocante actualidade da letra nestes tempos de peste e de teletrabalho, mormente nos versos "Os anjos querem trocar / Asas por computadores", fazem dela a melhor escolha para aqui a destacarmos neste preciso dia em que se completaram 34 anos sobre a morte daquele que foi (e continua a ser) o maior vulto da música popular portuguesa.
Em 1992, quando Amélia Muge lançou o seu primeiro álbum, de título genérico "Múgica", logo se revelou um caso muito sério na música popular portuguesa: a par do aplauso do público, o disco recebeu entusiástica aclamação dos críticos mais reputados, como Fernando Magalhães e João Lisboa. Este, nas páginas do semanário "Expresso", de 13 de Junho de 1992, advogava mesmo que «É à dimensão de registos como "Cantigas do Maio" (de José Afonso), "Margem de Certa Maneira" (de José Mário Branco), ou "Sobreviventes" (de Sérgio Godinho) que "Múgica" exige ser comparado.» Os álbuns que Amélia Muge publicou posteriormente – "Todos os Dias" (1994), "Maio Maduro Maio" (em parceria com José Mário Branco e João Afonso, 1995), "Taco a Taco" (1998), "A Monte" (2002), "Não Sou Daqui" (2006), "Uma Autora, 202 Canções" (2009), "Periplus: Deambulações Luso-Gregas" (em parceria com Michales Loukovikas, 2012), "Amélia com Versos de Amália" (2014) e "Archipelagos: Passagens" (em parceria com Michales Loukovikas, 2017) –, bem como as dezenas de letras e composições que foi sendo convidada a escrever/compor para variados intérpretes e grupos (Oóquesomtem, Mísia, Camerata Meiga, Mafalda Arnauth, Moçoilas, Gaiteiros de Lisboa, Ana Moura, Tucanas, Navegante, Cristina Branco, Pedro Moutinho, Joana Amendoeira, Ana Laíns, Fernando Alvim, Adriana Queiroz, Segue-me à Capela, Melech Mechaya, Caixa de Pandora, Ela Vaz, Fernando Ferreira, Carla Pires, André M. Santos, etc.) comprovam à saciedade (a quem tenha ouvidos de ouvir) que Amélia Muge é a mais categorizada artista portuguesa na tripla faceta de autora, compositora e intérprete. Detentora de tão elevado estatuto, era expectável e da mais elementar justiça que alguns temas da sua discografia, que não sendo extensa é de altíssima qualidade, figurassem na 'playlist' da Antena 1. Mas, por mais inacreditável que pareça, nem um sequer lá marca presença. Aliás, a vergonhosa situação não é recente: 2012 foi o último em que a 'playlist' debitou, de vez em quando, um trecho cantado por Amélia Muge, no caso a belíssima canção "Caminhos de Seda" [>> YouTube], extraída do duplo CD "Periplus: Deambulações Luso-Gregas". Depois, o silenciamento!
Perguntamos a quem de direito: é normal e tolerável que a maior cantautora que temos em Portugal seja votada ao ostracismo pela rádio pública do seu país?
Os Novos Anjos (ao Zeca Afonso)
Letra e música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Todos os Dias", Columbia/Sony Música, 1994)
[instrumental]
Reina grande confusão
No céu pelos corredores;
Os anjos querem trocar
Asas por computadores;
Chegam todos aos magotes,
Há já quem fale em reforma;
Estão cansados de voar,
Só querem agenciar.
[instrumental]
O Senhor Arcanjo,
No meio do mar,
Fez das asas barco
Para navegar; [bis]
Fez dos braços remos,
Vai correndo mundo;
Bóia, coração,
Que o barco vai ao fundo!
O barco vai ao fundo!
Vêm uns deitá-lo abaixo,
Outros louvar-lhe o passado;
Estivesse morto ou lá perto
Teria um preço mais certo!
Canta o gaio já cansado,
O dia chegou ao fim:
Uns vão p'ra casa dormir,
Outros vão assim, assim!
[instrumental]
O Senhor Arcanjo,
No meio do mar,
Fez das asas barco
Para navegar; [bis]
Fez dos braços remos,
Vai correndo mundo;
Bóia, coração,
Que o barco vai ao fundo!
O barco vai ao fundo!
[instrumental]
E o Senhor Arcanjo,
No meio do mar,
Fez das asas barco
Para navegar; [bis]
Fez dos braços remos,
Vai correndo mundo;
Bóia, coração,
Que o barco vai ao fundo!
O barco vai ao fundo!
* Amélia Muge – voz
António José Martins – sintetizadores, simuladores
José Machado – violino
Luís Sá Pessoa – violoncelo
Rui Júnior – bombo, adufe
Carlos do Carmo num concerto realizado na Figueira da Foz, a 9 de Junho de 1982
Neste dia em que Portugal se despede de Carlos do Carmo, o blogue "A Nossa Rádio" associa-se à homenagem nacional destacando (em jeito de preâmbulo a um artigo mais completo a publicar em sua memória) um dos mais belos espécimes do seu repertório e, incompreensivelmente, um dos menos divulgados e conhecidos. Intitula-se, muito apropriadamente, "A Voz Que Eu Tenho", e foi escrito pelo poeta Vasco de Lima Couto (1924-1980), sendo a melodia – um fado tradicional conhecido como Fado Esmeraldinha – da autoria do fadista Júlio Proença (1901-1970). A primeira edição aconteceu em finais de 1969, no primeiro álbum de Carlos do Carmo, com chancela Tecla, etiqueta do maestro Jorge Costa Pinto, que foi também o responsável pelos arranjos e a direcção de orquestra de metade do alinhamento do LP (lado A). O fado "A Voz Que Eu Tenho" corresponde à penúltima faixa (n.º 5) do lado B, e nele Carlos do Carmo fez-se acompanhar por Francisco Carvalhinho (1.ª guitarra portuguesa), António Chainho (2.ª guitarra portuguesa), José Maria Nóbrega (viola) e Raul Silva (viola baixo).
Uma pérola de altíssimo quilate!
A Antena 1 vem passando, ao longo do dia, a seguir aos noticiários, um tema interpretado por Carlos do Carmo, o que é de saudar. Não podemos, contudo, esquecer a parca e rarefeita presença que o artista tem tido na 'playlist' desde que esta foi adoptada no canal generalista da rádio pública, em 2003. Uma situação vergonhosa que revolta muita boa gente, mas que não será alterada enquanto a actual direcção de programas se mantiver em funções e tiver o beneplácito de quem está acima.
O legado fonográfico de Carlos do Carmo, atendendo à sua superlativa e rara qualidade, não pode (não deve) ser menosprezado pela rádio a quem compete, por imperativo legal, acarinhar e divulgar os intérpretes mais categorizados da música portuguesa. Fazer o contrário, remetendo-os ao silêncio ou não os divulgando cabalmente, é, por um lado, gozar com a cara de quem a sustenta financeiramente (os pagantes da contribuição do audiovisual), e, por outro, um crime inominável contra a nossa Língua e Cultura.
A Voz Que Eu Tenho
Poema: Vasco de Lima Couto
Música: Júlio Proença (Fado Esmeraldinha)
Intérprete: Carlos do Carmo* (in LP "Carlos do Carmo", Tecla, 1969, reed. Edisom, 1984, Movieplay, 2003, Série "Carlos do Carmo 50 Anos", Vol. 01, Universal Music, 2013)
[instrumental]
A voz que eu tenho, como pensamento,
Veio de longe, devagar e triste;
Veio rasando os areais do vento | bis
Onde a palavra amor ainda existe. |
Respirou com o povo as madrugadas,
Soube do mar e foi beber o mar;
E gritou no silêncio das estradas | bis
A solidão que eu tenho p'ra vos dar. |
Cresce-me a voz nesta prisão do encanto,
Com a amizade que me faz viver;
E sem saber se me entendeis, eu canto | bis
A presença do amor e a dor de o ter. |
* Carlos do Carmo – voz
Francisco Carvalhinho – 1.ª guitarra portuguesa
António Chainho – 2.ª guitarra portuguesa
José Maria Nóbrega – viola
Raul Silva – viola baixo
Capa do LP "Carlos do Carmo" (Tecla, 1969)
Fotografia – Augusto Cabrita
Capa da mais recente reedição em CD do álbum "Carlos do Carmo", Vol. 01 da Série "Carlos do Carmo: 50 Anos" (Universal Music, 2013)
Design – adaptação por Bloodymary, Braun & Caeser da capa do EP "An Evening at Faia (A Rua do Desencanto)" (Philips 430.822 PE, 1969)
Fatídico ano velho falecido, esperançoso ano nascido...
Damos vivas ao recém-nado 2021 com o cantar (que é também um apelo à fraternidade) "Bons Anos", concebido e interpretado por açorianos: Maria Angelina de Arruda Medeiros Ponte (letra), autor anónimo da freguesia micaelense da Maia (melodia), Miguel Pimentel (arranjo e violas da terra), Emanuel Medeiros (violão), Maria José Victória e António Pragana (vozes). A cantiga abre o alinhamento do álbum de Mestre Miguel Pimentel "A Roda do Ano", o qual, como o título sugere, é constituído por repertório, tradicional e criado de raiz, referente às sucessivas etapas do ciclo anual.
O espécime que aqui e agora pomos em destaque é, decerto, conhecido de uns quantos amantes de música tradicional açoriana, mas nunca terá chegado aos ouvidos da generalidade dos cidadãos portugueses, mormente dos continentais. Música dos Açores é coisa que não entra nas 'playlists' das rádios nacionais, inclusive na da pública Antena 1, pese embora as especiais obrigações, estipuladas na lei, que o canal estatal tem no capítulo da divulgação do património musical/fonográfico português.
Para o blogue "A Nossa Rádio" é motivo de imenso orgulho estar a acender uma luz na escuridão!
Bons Anos
Letra: Maria Angelina de Arruda Medeiros Ponte
Música: Tradicional (Maia, Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Açores)
Arranjo: Miguel Pimentel
Intérpretes: Miguel Pimentel* com Maria José Victória (in CD "A Roda do Ano", Miguel Pimentel, 2002, reed. Açor/Emiliano Toste, 2019)
[instrumental]
O ano novo vem vindo | bis
Sorridente e a cantar; |
O velho que vai saindo | bis
Vai triste por acabar. |
Eu já vejo a luz acesa; | bis
Sei que não estás dormindo. |
A mulher vai pondo a mesa; | bis
Tua porta vai abrindo. |
Está um frio que corta, | bis
Aqui não posso ficar. |
Se tu não abres a porta, | bis
Noutro lugar vou cantar. |
[instrumental]
* Miguel Pimentel – violas de arame (violas da terra) [construídas pelo próprio]
Emanuel Medeiros – violão
Maria José Victória – voz
António Pragana – 2.ª voz
Gravação efectuada no ano de 2002
Capa da 1.ª edição do CD "A Roda do Ano", de Miguel Pimentel (2002)
Concepção gráfica – Miguel Pimentel
Arranjo gráfico – Carlos Sousa
Fotografia – José Fernando
Ariel Ninas, Catarina Moura e César Prata lançam-se na construção de um espectáculo a partir das canções populares que na Galiza e Portugal humanizam a divindade, através do nascimento de uma criança, o menino Jesus, cuidada por pastores e camponeses, adorada por Reis do Oriente e perseguida pelos poderosos para quem a mensagem de libertação redentora dos malefícios do Mundo era e continua a ser ameaçadora.
De 25 de Dezembro a 5 de Janeiro contam-se os 12 dias que marcam o início das celebrações do regresso do Sol (no hemisfério Norte), garante de novas sementeiras e fartas colheitas, anunciadas pelas árvores de folhagem caduca em que novos rebentos são a prova do início de um novo ciclo.
Eram as Festas Saturnais celebradas no Império Romano e de que se encontram ainda traços nos presépios e autos pastoris, no cepo do Natal e em tantas outras manifestações populares, neste Ciclo do Natal aos Reis.
[...]
Os versos cantados são reveladores de uma religiosidade popular próxima do sentir comum do povo. São tangedores de viola, de pandeiro e tamboril que reclamam as harpas e liras de oiro dos anjos do céu. E a preocupação de vestir o Menino, com sapatinhos novos, meiinhas, calções, camisa, colete, casaco, lencinho, chapéu. E Maria à beira do rio, lavando os cueiros do bendito Filho, que São José estendia. O Menino é beijado no pé, para rimar com São José, e na mão, para rimar com São João (Baptista). E o berço é de madeira (manjedoura) e palhas, "Em palhas deitado, em palhas aquecido". O Menino tem "boquinha de marmelada" para rimar com "... a minha mãe não tem nada", e "boquinha de requeijão" rima com "... a minha mãe não tem pão.".
O Deus Menino tudo merece. Da contemplação deslumbrada por um postigo entreaberto, merecedor de uma cadeirinha de oiro, mas também de papa doce, sopinhas da panela e a mama da mãe (Maria), ausente no moinho enquanto o pai (José) ficou na cama.
As canções da Galiza remetem quase todas para o Ano Novo e Reis. A chegada a Belém e a busca de um abrigo para o parto situa o momento do nascimento nas Festinhas de Nadale, quando "... á medianoite en punto/ a Virgen parido habia./ Tanta era a súa pobreza/ que un pano ela non tiña.". Mas as Festas de Ano Novo e Reis têm muita dança, brincadeira e malícia, que "as forzas piden reparo,/ mollo ás gorxas e non d'auga!/ Chourizo e longaniza,/ uña de porco, fuciño,/ ou de xamón dúas tortillas/ con dous xarriños de viño.". E das damas, nada escapa no dito brejeiro que antecede o aguinaldo (ofertas em género) num crescendo que vai do cabelo, passando pelos peitos, barriga e "... iso que ti tapas con un delantal,/ ten dúas columnas, palacio real.".
Todas estas canções foram revestidas por arranjos instrumentais que de certo modo as transfiguram sem as descaracterizar. A sanfona é uma feliz opção que nos remete para as representações dos presépios populares esculpidos ou pintados. Todos os instrumentos utilizados criam uma moldura sonora em que melodia e textos são valorizados.
E que nada têm a ver com a lamechice do Natal dos 'Jingle Bells' nos centros comerciais e das seitas religiosas que não perdem uma oportunidade para nos culpabilizar e transformar em pecadores contribuintes.
[...]
Domingos Morais (IELT - Instituto de Estudos de Literatura e Tradição, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa)
"Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", como refere o Prof. Domingos Morais, começou por ser, em 2017, um concerto itinerante focado na tradição musical da Galiza e de Portugal. Ciente de que seria importante ficar para a posteridade um registo fonográfico, a editora galega aCentral Folque lançou, em finais de 2019, o CD homónimo com gravações de estúdio da maioria dos cantares tradicionais que constituíram o espectáculo e ainda a peça instrumental "Ou da Casa!", de Angel Custodio Santabaya, e uma canção inédita, "Chove", com música de César Prata sobre quadras de Fernando Pessoa.
No primeiro dia de 2020, apresentámos neste blogue o tema "Entrada de Aninovo" [cf. Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata: "Entrada de Aninovo"], tendo-se então arreigado no nosso íntimo o desejo de revisitar este belíssimo álbum em vésperas do Natal seguinte. Esse momento chegou e, em jeito de prenda aos estimados leitores/visitantes, aqui ficam mais sete espécimes da nossa particular afeição: seis tradicionais e a referida canção sobre poesia pessoana.
Não seria bom que a Antena 1 também presenteasse os seus ouvintes com algumas cantigas do disco ora em destaque e, bem assim, com outras magníficas recriações do cancioneiro natalício que se gravaram entre nós, em lugar da tralha que atafulha a 'playlist'?
Eu Hei-de Ir ao Presépio
Letra e música: Tradicional (Portugal)
Arranjo: César Prata
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)
[instrumental]
Eu hei-de ir ao presépio
assentar-me num cantinho,
a ver como o Deus-Menino
nasceu lá tão pobrezinho.
Abra lá o seu postigo,
deixe estar um pouco aberto!
Quero ver o Deus-Menino
armadinho no presépio.
Eu hei-de dar ao Menino,
ao Menino hei-de dar
uma cadeirinha de oiro
para o Menino assentar.
Ó meu Menino Jesus,
ó meu rico fidalguinho,
hei-de dar-te papa doce,
hei-de ter-te mimosinho!
Ó meu Menino Jesus,
quem vos pudera valer
com sopinhas da panela
sem a vossa mãe saber!
Ó meu Menino Jesus,
quem vos há-de dar a mama?
Vossa mãe foi ao moinho,
vosso pai ficou na cama.
[instrumental]
Ó meu Menino Jesus,
ó meu rico fidalguinho,
hei-de dar-te papa doce,
hei-de ter-te mimosinho!
Ó meu Menino Jesus,
quem vos pudera valer
com sopinhas da panela
sem a vossa mãe saber!
Ó meu Menino Jesus,
quem vos há-de dar a mama?
Vossa mãe foi ao moinho,
vosso pai ficou na cama.
Ó Meu Menino Jesus
Letra e música: Tradicional (Beiras, Portugal)
Arranjo: Catarina Moura, César Prata e Anel Ninas
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)
[instrumental]
Ó meu Menino Jesus,
quem vos tirou do altar?
Foi o ministro de Cristo
para nos dar a beijar.
Ó meu Menino Jesus,
boquinha de marmelada,
dá-me da tua merenda
que a minha mãe não tem nada.
Ó meu Menino Jesus,
boquinha de requeijão,
dá-me da tua merenda
que a minha mãe não tem pão.
[instrumental]
Ó meu Menino Jesus,
ó meu Menino tão belo,
só vós vieste nascer
no rigor do caramelo.
Entrai, pastores, entrai
por esses portais adentro!
Vinde ver o Deus-Menino
no sagrado nascimento!
[instrumental]
Vestir o Menino
Letra e música: Tradicional (Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal)
Arranjo: Catarina Moura, César Prata e Anel Ninas
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)
[instrumental]
Menino Jesus,
tenho que vos dar
sapatinhos novos
para vos calçar.
Sapatos já tendes,
faltam-vos meiinhas:
eu vo-las darei,
de salvé-rainhas.
Meiinhas já tendes,
faltam-vos calções:
eu vo-los darei,
de mil orações.
Calções já os tendes,
falta-vos camisa:
eu vo-la darei,
de cambraia lisa.
[instrumental]
Camisa já tendes,
falta-vos colete:
eu vo-lo darei,
de pano de crepe.
Colete já tendes,
falta-vos casaco:
eu vo-lo darei,
de pano bem guapo.
Casaco já tendes,
falta-vos lencinho:
eu vo-lo darei,
de pano de linho.
Lencinho já tendes,
falta-vos chapéu:
eu vo-lo darei,
levai-me p'ró Céu.
Festas de Nadal
Letra e música: Tradicional (Carballo, Corunha, Galiza)
Arranjo: Catarina Moura, César Prata e Anel Ninas
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)
[instrumental]
As festiñas de Nadal
son festiñas de alegría.
Camiñando vai Xosé
e maila Virgen María.
Camiñaron a Belén
e a Belén chegou a guía.
Cuando a Belén chegaron
a medianoite sería.
– «Abre as portas, ó porteiro,
a Xosé e mais María!»
– «Como che as hei de abrir
se unha chave eu non tiña?»
– «Non as quero de ouro,
tampouco de prata fina.»
– «O que queria saber
é cuando a Virgen paría.»
– «Se pare esta noite
nen palabra que diría.»
E á medianoite en punto
a Virgen parido habia.
Tanta era a súa pobreza
que un pano ela non tiña.
Baixou un anxo do Ceo
que lindos panos traía:
Uns eran de holanda
e outros de holanda fina.
– «Se queres vir para o Ceo
rica cama te daria.»
– «É para o neno Jesús
que nos brazos o traía.»
Nota: «Panxola de Noiteboa».
Alta Vai a Lua Alta
Letra e música: Tradicional (Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal)
Arranjo: Catarina Moura, César Prata e Anel Ninas
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)
[instrumental]
Alta vai a Lua alta
como o Sol do meio-dia.
Mais alta ia a Senhora | bis
quando para Belém ia. |
São José ia atrás dela,
alcançá-la não podia.
Foi alcançá-la a Belém | bis
onde ela estava parida. |
Tão grande era a sua pobreza
que nem um panal tenia.
Botou as mãos à cabeça, | bis
a um véu que ela trazia. |
Partiu-o em três bocados,
em três bocados o partia:
um era para de manhã,
outro para o meio-dia,
outro para a meia-noite
quando Jesus adormia.
Desceram os anjos do Céu
Cantando: avé, Maria!
Avé, Maria de graça, de graça avé, Maria! [bis]
Nota: «Cantada nas segadas, ao fim da tarde.»
Toca, Sino, Toca!
Letra e música: Tradicional (Portugal)
Arranjo: César Prata
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)
[instrumental]
Esta noite é noite santa.
Não é noite de dormir
que um lindo botão de rosa
à meia-noite há-de abrir.
Harpas de oiro, liras d'oiro,
anjos do Céu afinai.
Paz na Terra e nas Alturas,
Glória e louvor cantai.
[instrumental]
Esta noite é noite santa.
Outra mais santa não há
que um lindo botão de rosa
desabrochou em Judá.
Tangedores de viola,
de pandeiro e tamboril,
tomai vós a minha lira
e dai-me o vosso arrabil!
Poema: Fernando Pessoa (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: César Prata
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)
[instrumental]
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
[instrumental]
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo inda outra quadra
Fico gelada dos pés.
[instrumental]
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Chove. É dia de Natal.
(Fernando Pessoa, in "Poesias de Fernando Pessoa", Col. Poesia, Série 'Obras Completas de Fernando Pessoa', Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, Lisboa: Edições Ática, 1993 – p. 127)
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
25-12-1930
* [Créditos gerais do disco:]
Catarina Moura – voz
Ariel Ninas – sanfona, sinos, harmónica, chocalhos, adufe e voz
César Prata – guitarras, dulcimer, adufe, harmónio, mbira, 'beat root' e voz
Capa do CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", de Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata (aCentral Folque, 2019)
Desenho e arte final – Mauro Sanin Leira
Alinhamento:
1. Eu Hei-de Ir ao Presépio (PT)
2. Entrada de Aninovo (GZ)
3. Janeiras (Alentejo, PT)
4. Cantar de ls Reis (Planalto Mirandês, Trás-os-Montes e Alto Douro, PT)
5. Ó Meu Menino Jesus (Beiras, PT)
6. Aguinaldo (Tomonde, Cerdedo, Pontevedra, GZ)
7. Vestir o Menino (Trás-os-Montes e Alto Douro, PT)
8. Reices das Mozas (Brates, Boimorto, Corunha, GZ)
9. Chove (Fernando Pessoa / César Prata, PT)
10. Festas de Nadal (Carballo, Corunha, GZ)
11. Beijai o Menino (Trás-os-Montes e Alto Douro, PT)
12. Bento Airoso (Trás-os-Montes e Alto Douro, PT)
13. Reices Vellos (Brates, Boimorto, Corunha, GZ)
14. Toca, Sino, Toca! (PT)
15. Alta Vai a Lua Alta (Trás-os-Montes e Alto Douro, PT)
16. Ou da Casa! (Angel Custodio Santabaya, GZ)
SANTARENO, Bernardo (pseudónimo de António Martinho do Rosário) (19/11/1920, Santarém – 30/8/1980, Carnaxide, Oeiras). Licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra, especializou-se em psiquiatria, cujos conhecimentos aplicou no sentido da orientação profissional. Tendo iniciado a sua carreira literária com três livros de versos (A Morte na Raiz, 1954; Romances do Mar, 1955; Os Olhos da Víbora, 1957), a publicação, neste último ano, de um volume de teatro, em que juntou três peças (A Promessa, O Bailarino e A Excomungada), constituiu a revelação impetuosa de um dos maiores dramaturgos da nossa língua. Sobretudo a primeira destas peças, ainda nesse ano levada à cena pelo Teatro Experimental do Porto, numa encenação de António Pedro, mas retirada ao fim de alguns dias sob pressão dos círculos mais reaccionários da Igreja, anunciava já as características essenciais do que viria a ser a sua obra futura, divisível por dois ciclos perfeitamente separáveis mas complementares. No primeiro, que vai até 1962, a estrutura adoptada é a da dramaturgia realista pós-ibseniana, temperada por um lirismo e uma simbologia de estirpe iorquiana; o segundo, iniciado em 1966, recorre à fórmula narrativa do teatro épico brechtiano, correspondendo a uma evolução estética e ideológica que, no entanto, obedece a uma grande coerência intrínseca. Se nas peças que constituem o «ciclo aristotélico» do teatro de Santareno (além das três já mencionadas, O Lugre e O Crime de Aldeia Velha, 1959; António Marinheiro, O Duelo e O Pecado de João Agonia, 1961; Anunciação, 1962) avulta a vertente existencial das suas personagens e do conflito em que se debatem, é a componente social, acompanhada de um marcado propósito interventivo, que predomina nas que integram o «ciclo narrativo» (O Judeu, 1966; O Inferno, 1967; A Traição do Padre Martinho, 1969; Português, Escritor, 45 Anos de Idade, 1974; O Punho, inédita até 1987, e as quatro peças num acto integradas no volume Os Marginais e a Revolução, 1979). Todavia, excepto do ponto de vista estrutural, não existe ruptura daquelas para estas. O problema da frustração carnal, onde radica o cerne da acção dramatizada em A Promessa, domina todas as peças seguintes, embora derivando nas primeiras de causas intrínsecas às personagens, ou por elas interiorizadas (o voto de abstinência de Maria do Mar e José n' A Promessa, o histerismo de Joana n' O Crime de Aldeia Velha, o homossexualismo de João Agonia, o incesto em António Marinheiro) e enquadrando-se nas últimas num circunstancialismo histórico e social em que essa frustração se projecta num plano superior ao indivíduo, vindo a pôr em causa o seu lugar na colectividade a que pertence e conflituando o seu relacionamento com ela. Religiosidade e superstição, misticismo e erotismo são os pólos entrecruzados de um excruciante jogo dialéctico entre o bem e o mal, que se relativiza e torna cada vez mais concreto à medida que a obra progride e evolui no sentido de uma crescente consciencialização social. O que, a princípio, se desenhava como transgressão de um código moral (quebra de promessa ou voto religioso, amores incestuosos ou contranatura) desvenda-se-nos, à luz dos dramas narrativos posteriores, como também violação da ordem social vigente, e esta como expressão dos interesses da classe detentora do poder, contra cuja iniquidade é pois lícita a insurreição. Daí a rejeição anárquica dos «amantes malditos» de O Inferno, a «traição» do Padre Martinho e a sua final opção política, bem como a do «português, escritor», que prefere o silêncio à cumplicidade com essa ordem iníqua, violentamente denunciada na peça homónima, em que pode ler-se o testamento espiritual de quem, com o autor destes dramas exemplares, «amassando com as [suas] mãos a mentira, a fealdade, a traição, o despudor» aspirou a «ensinar o povo a conhecer o rosto autêntico da beleza, da verdade, da coragem e da virtude», como ele fez dizer a António José da Silva, o Judeu, perseguido e queimado pelo Santo Ofício, através do qual Santareno transpõe para o século XVIII a sua própria condição de escritor silenciado pelo fascismo.
LUIZ FRANCISCO REBELLO
(in "Dicionário de Literatura Portuguesa",
Org. e dir. Álvaro Manuel Machado,
Lisboa: Editorial Presença, 1996 – p. 435-436)
BIBLIOGRAFIA:
Poesia:
- A Morte na Raiz, Coimbra: Edição do autor, 1954
- Romances do Mar, Santarém: Edição do autor, 1955
- Os Olhos da Víbora, Lisboa: Casa do Ardina, 1957
Narrativas:
- Nos Mares do Fim do Mundo (Doze meses com os pescadores bacalhoeiros portugueses, por bancos da Terra Nova e da Gronelândia), Lisboa: Edições Ática, 1959
Teatro:
- Teatro, Lisboa: Edição do autor, 1957
- A Promessa
- O Bailarino
- A Excomungada
- O Lugre, Lisboa: Edições Ática, 1959
- O Crime da Aldeia Velha, Lisboa: Edições Ática, 1959
- António Marinheiro (O Édipo de Alfama), Porto: Divulgação, 1960
- Os Anjos e o Sangue, Lisboa: Edições Ática, 1961
- O Duelo, Lisboa: Edições Ática, 1961
- O Pecado de João Agonia | Irmã Natividade (nova versão de A Excomungada), pref. Manuel Dinis Jacinto, Porto: Divulgação, 1961
- O Prisioneiro, in jornal "Correio do Ribatejo", 1961
- Anunciação, Lisboa: Edições Ática, 1962
- O Judeu, Lisboa: Edições Ática, 1966
- O Inferno, Lisboa: Edições Ática, 1968
- A Traição do Padre Martinho, Lisboa: Edições Ática, 1969
- Português, Escritor, 45 anos de Idade, Lisboa: Edições Ática, 1974
- Três Quadros de Revista, 1975, in "Obras Completas", Vol. IV, Org., posfácio e notas de Luiz Francisco Rebello, Lisboa: Editorial Caminho, 1987
- Os Vendedores de Esperança
- A Guerra Santa
- O Milagre das Lágrimas
- Os Marginais e a Revolução, 1979, in "Obras Completas", Vol. IV, Org., posfácio e notas de Luiz Francisco Rebello, Lisboa: Editorial Caminho, 1987
- Restos
- A Confissão
- Monsanto (antes intitulada O Senhor Silva e,
depois, Na Berma da Estrada)
- Vida Breve em Três Fotografias
- O Punho, 1980, in "Obras Completas", Vol. IV, Org., posfácio e notas de Luiz Francisco Rebello, Lisboa: Editorial Caminho, 1987
Traduções: - La Contessa, de Maurice Druon, 1963 - Vigilância Especial, de Jean Genet, 1965 - O Viajante, de Georges Schehadé, 1966
Faz hoje um século que nasceu o mais proeminente dramaturgo português da segunda metade do século XX e, como lembra Luiz Francisco Rebello, um dos maiores da língua portuguesa: Bernardo Santareno.
Pouco depois das 18h:00, a Antena 2 transmitiu "Nos Mares do Fim do Mundo", uma adaptação por Jorge Silva Melo de passagens da obra homónima original. Louva-se o cuidado que a direcção da rádio cultural da estação pública teve em não deixar passar em claro a efeméride, mas lamenta-se a falta de sonorização naquela versão, a exemplo, aliás, de (quase) tudo o que até agora apareceu no espaço "Teatro sem Fios", ao arrepio da melhor tradição do teatro radiofónico. O que poderia ser um produto digno e cativante de se 'consumir' foi um pastel algo insípido que poucos desejarão voltar a 'ingerir'. No pólo diametralmente oposto a estas canhestras produções para a rádio, e sem sair do universo santareniano, estão duas adaptações dos inícios dos anos 90 de que guardamos mui grata memória: "António Marinheiro (O Édipo de Alfama)" e "O Pecado de João Agonia". Sabíamos que outras peças de Santareno tiveram versão radiofónica nos tempos áureos do teatro radiofónico e agora, consultando a plataforma RTP-Arquivos, lográmos referenciar seis: "Irmã Natividade" (Tempo de Teatro, 1978), "O Lugre" (Tempo de Teatro, 1979), "A Promessa" (Tempo de Teatro, 1979), "O Duelo" (Tempo de Teatro, 1985), "Anunciação" (Tempo de Teatro, 1986) e "O Crime da Aldeia Velha" (Noite de Teatro, 1995).
A cifra de oito talvez não corresponda à totalidade das produções radiofónicas feitas a partir de textos do dramaturgo até ao ano (2005) em que Eduardo Street se aposentou, mas é curioso verificar que sejam todas posteriores à Revolução dos Cravos. Razão óbvia: sendo Bernardo Santareno um autor malquisto pela ditadura era impensável que um dos principais órgãos de propaganda do regime, a Emissora Nacional, fosse divulgar as suas peças.
A esmagadora maioria dos ouvintes hodiernos, mormente os jovens, nunca escutou as citadas versões radiofónicas, e também muito poucos tomaram contacto com elas em palco, ou mesmo terão visto as adaptações cinematográficas d' "O Crime da Aldeia Velha" e d' "A Promessa", realizadas, respectivamente, por Manuel Guimarães e António de Macedo. Ora, e sendo verdade que qualquer pretexto é bom para se resgatar o património radiofónico de teatro, o centenário de Bernardo Santareno (que tem hoje o epicentro mas que vai estender-se por mais algum tempo) afigura-se, obviamente, o melhor de todos para a Antena 2, em cumprimento das suas obrigações culturais, proporcionar aos seu auditório a (re)descoberta da magistral obra que o insigne dramaturgo nos legou. A reposição de uma peça por semana é perfeitamente acomodável na grelha em vigor e o horário até poderá ser o mesmo de hoje. Nada a objectar.
Fica expresso o pedido, na esperança de que o director de programas em funções tenha a hombridade de tomá-lo em boa conta, dignificando assim o serviço público de rádio.
Capa da 1.ª edição do livro de narrativas "Nos Mares do Fim do Mundo", de Bernardo Santareno (Edições Ática, 1959).
Uma edição fac-similada foi publicada em 2019, por iniciativa conjunta da editora "A Bela e o Monstro" e do jornal "Público".
«Nos Mares do Fim do Mundo foi, em grande parte, escrito a bordo do arrastão "David Melgueiro", na primeira campanha de 1957, a primeira também em que eu servi na frota bacalhoeira portuguesa, como médico. Mas depois desta, tomei parte numa segunda, em 1958, agora a bordo do "Senhora do Mar" e do navio-hospital "Gil Eannes", em que assisti sobretudo aos barcos de pesca à linha. Assim pude de facto conhecer, por vezes intimamente, todos os aspectos da vida dos pescadores bacalhoeiros portugueses, em mares da Terra Nova e da Gronelândia, e completar este livro.» (Bernardo Santareno)
Capa da reedição (parcial) de 1997 (Col. 98 Mares, Expo' 98).
Capa da reedição de 1999 (Edições Ática).
Edição com capa idêntica saiu em 2006 sob a chancela da Editorial Nova Ática.
Capa da reedição de 2016 (E-Primatur).
Esta edição inclui dois textos inéditos ("Responsabilidade" e "Rebelião"), e ainda fotografias novas e a ficha de inscrição do médico no Grémio dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau.
Nota: Ainda a respeito da obra "Nos Mares do Fim do Mundo", recomenda-se vivamente a leitura do muito interessante artigo de Maria João Falcão no blogue "Falcão de Jade".
«A saudade é um luto, / Uma dor, uma aflição; / Ai, é um cortinado roxo, / Saudade, que me cobre o coração.» Esta quadra surge em diversas variantes daquela que é, muito provavelmente, a mais popular de todas as cantigas dolentes açorianas que exprimem a dor pela ausência ou perda de pessoa querida, comummente denominadas de "Saudade". Bem menos conhecida é uma outra "Saudade", da pequena ilha do Corvo, mas igualmente impregnada de profunda plangência; essa característica e o teor dos versos da autoria de Camilo Castelo Branco tornam-na perfeitamente adequada para assinalar este Dia de Finados, o primeiro (e, esperamos, o último) sob a vigência da pandemia de COVID-19, que tantas vítimas já causou, directas ou colaterais.
Conhecemos quatro recriações, publicadas em CD, da aludida "Saudade" corvina: a primeira, de 1999, pelo Grupo de Cantares Belaurora; a segunda, de 2010, por Helena Oliveira; a terceira, de 2015, pela Brigada Victor Jara; e a quarta, de 2018, por Rafael Carvalho, que tem a particularidade de ser um instrumental executado em viola da terra. Escolhemos a primeira, que consideramos ser a mais tocante e impressiva, quer pela irrepreensível interpretação vocal de Carla Medeiros, quer pelo muito bem gizado arranjo que serve primorosamente a índole melancólica da melodia.
Não somos ouvintes da Antena 1-Açores mas queremos acreditar que o Grupo de Cantares Belaurora, assim como outros grupos e artistas em nome individual radicados no arquipélago que se dedicam à recriação do cancioneiro açoriano, seja objecto de cabal divulgação. Na Antena 1 do continente, a música tradicional portuguesa (das múltiplas regiões) só tem lugar nos espaços "Cantos da Casa" [rubrica >> RTP-Play / programa >> RTP-Play] e, uma vez por outra, perdida no meio do fado, no programa "Alma Lusa" [>> RTP-Play]. E ainda por cima com a pecha de os horários de emissão se situarem no período em que a generalidade dos ouvintes está a dormir, ou seja, sempre depois do noticiário da meia-noite e antes do sinal horário das 08h:00 da manhã. Na 'playlist', música tradicional é coisa que não entra, talvez porque fosse destoar da imensa escória da área pop com que a atafulharam. Perguntamos: com que ânimo e disposição é que os pagantes da contribuição do audiovisual vão continuar a desembolsar a espórtula anual de 34,20 euros (+ I.V.A.) para sustentar uma rádio que lhes oculta a música mais identitária do seu país?
Saudade
Poema: Camilo Castelo Branco (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Tradicional (Vila Nova do Corvo, Açores)
Informante: Ti Pedro Pimentel Cepo
Recolha: Carlos Sousa (1995)
Intérprete: Belaurora* / voz solo de Carla Medeiros (in CD "Lágrimas de Saudade", Açor/Emiliano Toste, 1999; 2CD "Quinze Anos de Cantigas": CD 2, faixa 20, Açor/Emiliano Toste, 2000) [>> Facebook Vídeos]
[instrumental]
Oh! oh! oh!
Oh! Em má hora, oh!, em má hora, anjo querido,
Me pediste uma flor...
Das que eu tenho, das que eu tenho aqui,
São quatro, oh!, são quatro,
Nem uma fala em amor.
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! A primeira, oh!, a primeira é uma saudade
Que me deram quando amei;
Custa caro, custa caro,
É um tesouro, é um tesouro
Que com lágrimas comprei.
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! A segunda, oh!, a segunda é um martírio
Cujo espinho atravessou
O coração, o coração
Que a regava, que a regava...
De pranto ela murchou.
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! A terceira, oh!, a terceira é um cravo,
É um goivo, não to dou!
Fui colhê-lo, fui colhê-lo
Ao cemitério, ao cemitério...
Entre campas vegetou.
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! A quarta, oh!, a quarta é uma rosa,
É uma rosa, mas olha:
Se eu morrer, se eu morrer
E tu souberes, e tu souberes,
Na minha campa a desfolha!
Nota: «Esta "Saudade" aprendi-a com o Ti Pedro Cepo, aquando do Primeiro Festival do Ramo Grande, na Ilha Terceira (1995).
A letra foi-me enviada, directamente do Corvo, por Tibério Silva, com o desejo expresso de um dia a poder ouvir cantada pelo Belaurora.» (Carlos Sousa / Belaurora)
* Belaurora:
Ana Medeiros – coros, violão, cavaquinho, viola baixo e percussão
Carla Medeiros – voz solo, coros e percussão
Carlos Sousa – voz solo, coros, violão, bandolim e violino
Carmen Medeiros – coros e percussão
Carolina Costa – coros e percussão
Eduardo Medeiros – coros e acordeão
Francisco Nascimento – coros e violão
Isabel Meireles – coros e percussão
Laureno Sousa – coros e percussão
Margarida Sousa – coros e percussão
Pedro Medeiros – coros, flauta e clarinete
Quitéria Sousa – coros e percussão
Rui Lucas – coros e violão
Tiago Sousa – coros e percussão
Tomás Sousa – voz solo, coros e violão
(Camilo Castelo Branco, in "Miscelânea Poética", Jornal de Poesias Inéditas, Publicadas de Janeiro a Junho de 1851, 1.ª Colecção, Porto: na Loja de F. G. da Fonseca, Livreiro e Editor, 1851 – p. 114)
Em má hora, anjo perdido,
Me pediste alguma flor!...
Das que tenho, que são quatro,
Nenhuma fala d'amor.
A primeira é a saudade,
Cujo espinho atravessou
O coração, que a regara
Com pranto, que ela secou.
A segunda é um martírio,
Que me deram, quando amei...
Foi-me caro — é um tesouro
Que por lágrimas comprei.
A terceira é dos sepulcros,
— É um goivo — não t'o dou,
Fui colhê-lo ao cemitério...
Entre mortos vegetou!
A quarta... sim... dou-te a quarta,
É uma rosa... mas olha...
— Se eu morrer, e tu sentires,
Na minha campa a desfolha...
Porto, 5 de Abril de 1851.
Frontispício da "Miscelânea Poética", Jornal de Poesias Inéditas, Publicadas de Janeiro a Junho de 1851, 1.ª Colecção (Porto: na Loja de F. G. da Fonseca, Livreiro e Editor, 1851)
Capa do CD "Lágrimas de Saudade", do grupo Belaurora (Açor/Emiliano Toste, 1999) Desenho – Gilberto Bernardo
Henri Matisse, "La Musique" ("A Música"), 1910, óleo sobre tela, 260 x 389 cm, Museu do Hermitage, Sampetersburgo, Rússia
Fundado em 1992, por iniciativa de José Barros que saíra do grupo Romanças, o grupo Navegante tem, até à data, nove títulos publicados (oito CDs e um DVD), a saber: "Navegante" (1994), "Cantigas Partindo-se" (1997), "Não Há Heróis" (1999), "Rimances" (2001), "...Vivos. E ao Vivo" (2003), "Meu Bem, Meu Mal" (2008), "Cantigas Tradicionais Portuguesas de Natal e Janeiras" (2009), "Cantares do Povo Português" (2012, DVD) e "À'Baladiça" (2018).
A recriação do cancioneiro tradicional foi o móbil inicial, tendo a partir de certa altura surgido a necessidade de também criar repertório novo, assente, como se impunha, nos paradigmas estéticos da matriz musical popular. Assim aconteceu em "Meu Bem, Meu Mal" e, de modo ainda mais radical, em "À'Baladiça", integralmente constituído por temas originais. A abrir o alinhamento do álbum mais recente está a canção "Músicos, Cravos e Rosas", escrita e composta por José Barros, a qual, atendendo ao título e – sobretudo – à temática abordada na letra, não podia vir mais a propósito para funcionar como mote à celebração deste Dia Mundial da Música.
Serve para exprimirmos o nosso penhorado agradecimento a José Barros e aos músicos que com ele têm colaborado, pelo significativo contributo que deram (e, esperamos, continuem a dar) para o enriquecimento do nosso património musical/fonográfico. E serve também, neste tempo de pandemia, para manifestarmos o nosso apreço e solidariedade a todos os músicos de mérito – homens (cravos) e mulheres (rosas) – que estão a passar por dificuldades muito sérias, nalguns casos a roçar a indigência, em consequência do cancelamento dos concertos agendados, no âmbito das medidas restritivas impostas pelas autoridades político-sanitárias com o propósito de conter a disseminação do altamente contagioso e temível SARS-CoV-2.
Para ajudar à desgraça, a Antena 1, que tem a obrigação legal (e ética, em razão da taxa cobrada aos cidadãos e às empresas de Portugal) de estar na linha da frente no que concerne à divulgação da música popular portuguesa de qualidade, insiste em preencher a sua 'playlist' (a qual ocupa mais de 95 % do tempo musical do canal incluindo os horários de maior audiência – é bom ter presente este dado) com quantidades industriais de lixo sonoro, boa parte do qual exógeno. Assim dita a vontade e o capricho de Rui Pêgo e dos seus acólitos, inconscientes (ou talvez não) do prejuízo e do dano que estão a causar aos melhores músicos e autores portugueses. Perguntamos: por que motivo quem está acima e tem a competência e o poder de extirpar o cancro se abstém de agir?
Músicos, Cravos e Rosas
Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros
Intérprete: José Barros e Navegante* (in CD "À'Baladiça", Tradisom, 2018)
[instrumental]
É pela música
que encantas os sentidos,
apurados pelos sonhos
mais antigos
de entender a emoção
e a alegria,
provocado o coração
em agonia.
Vais levado pelo vento,
pelos sons do pensamento.
Cravos
são livres, são bravos.
Rosas
são belas, são prosas.
[bis]
[instrumental]
É pelo som do mar
no canto das sereias
que te vão contar
compassos e colcheias,
mas tu és o tempo forte
e o agasalho.
Tempo fraco não é sorte,
é trabalho.
Vais levado pelo vento,
pelos sons do pensamento.
Cravos
são livres, são bravos.
Rosas
são belas, são prosas.
[bis]
[instrumental]
Quem te compra
cria garras de encantar.
Vendes a alma?
Essa não se pode comprar.
Na viagem pelos sons
desta braguesa
oiço histórias
de uma canção portuguesa.
É uma luta contra o vento,
não se vende o pensamento.
Cravos
são livres, são bravos.
Rosas
são belas, são prosas.
[3x]
Cravos e rosas.
* Navegante:
José Barros – voz, viola braguesa, cavaquinho
Miguel Tapadas – piano
Pedro Batalha – baixo
Abel Batista – bateria
Músicos convidados:
José Manuel David – small pipe
Miguel Veras – guitarra
Rui Júnior – percussão
Vincent Van Gogh, "Jardin Public à Arles" ("Jardim Público em Arles"), Outubro de 1888, óleo sobre tela, 72 x 92 cm, Colecção particular
Quando, em Portugal Continental, eram 14h:31' (13h:31' UTC), o Sol, no seu movimento anual aparente (na verdade, a Terra é que se move), cruzou o equador celeste em direcção ao hemisfério sul. Foi o equinócio do Outono, no hemisfério norte. Em 2020, a estação da nostalgia fica ensombrada pelo recrudescimento de uma horrífica pandemia vírica, e em tal circunstância afigurou-se-nos inteiramente pertinente, para assinalar a sua chegada, escolhermos a peça instrumental "Outono Embargado", composta por Pedro Damasceno e magnificamente executada pelo seu grupo Diabo a Sete.
Com três álbuns publicados – "Parainfernália" (2007), "tarAra" (2011) e "Figura de Gente" (2016), ao qual pertence o espécime em destaque –, Diabo a Sete é um dos mais lídimos representantes da nova folk portuguesa, não se restringindo à recriação do cancioneiro tradicional (o que seria decerto mais cómodo), outrossim empenhando-se na criação de repertório novo, dando assim um assinalável contributo para o enriquecimento do nosso património musical/fonográfico.
Como se explica, então, que lhe seja negada a merecida presença nas 'playlists' das Antenas 1 e 3? Uma tremenda injustiça que é, aliás, extensiva a dezenas de excelentes projectos (colectivos ou individuais) que em Portugal laboram nas áreas musicais de cariz mais identitário.
Quanto tempo mais é que os pagantes da contribuição do audiovisual, conscientes da importância de existir um serviço público de rádio digno desse nome, terão de esperar até que tão anómala e aberrante situação seja corrigida?
Outono Embargado
Música: Pedro Damasceno
Arranjo: Diabo a Sete e Julieta Silva
Intérprete: Diabo a Sete* (in CD "Figura de Gente", Sons Vadios, 2016)
(instrumental)
* Diabo a Sete:
Celso Bento – flauta de bisel, gaita-de-foles
Eduardo Murta – baixo eléctrico
Luísa Correia – guitarra acústica
Miguel Cardina – bateria, percussões
Pedro Damasceno – machinho
Sara Vidal – harpa