15 agosto 2026

António Pinho Vargas: "Da Alma: Rápido"


© Miguel Manso, 2011


Nascido em Vila Nova de Gaia (Rua da Barroca, 156), a 15 de Agosto de 1951, António Pinho Vargas, começou a ter lições de piano aos nove anos de idade (1960) e em 1967 já tocava num grupo de pop-rock com colegas seus do Liceu Alexandre Herculano, os Grelha. Influenciado pelo jornalista e musicólogo Jorge Lima Barreto, interessa-se pelo jazz, e, em 1972, vem a integrar com ele (bateria) e Artur Guedes (contrabaixo) o Anar Jazz Trio, e mais tarde, já no ocaso da década de 70 e no dealbar da de 80, a colaborar com projectos de rock progressivo e 'new wave', designadamente Arte & Ofício, Jafu'mega e a Banda Sonora, de Rui Veloso, com o qual grava o álbum "Fora de Moda", em 1982 (a belíssima secção de piano de "A Gente Não Lê" tem a sua assinatura). Antes, em 1975, havia fundado, com o saxofonista José Nogueira, o contrabaixista Artur Guedes e o baterista Pedro Cavaco (depois substituído por José Martins), o Zanarp, grupo de free-jazz que será o embrião do seu futuro quarteto de jazz em nome individual, e, em 1978, o grupo de funky e jazz-rock Abralas (do qual também fazia parte Fernando Girão), sendo um dos primeiros músicos portugueses a usar com regularidade o piano Fender Rhodes.
Em 1976, começou a tocar com Rão Kyao, com quem gravou, nesse ano, "Malpertuis", o primeiro disco de jazz realizado por músicos portugueses. Admirador do quinteto de Miles Davis dos anos 60 (com Herbie Hancock) e do estilo de pianistas como Keith Jarrett, Chick Corea e Paul Bley, formou o seu quarteto com José Nogueira (saxofone), Pedro Barreiros (baixo, contrabaixo) e Mário Barreiros (bateria) e começou a usar o nome artístico de António Pinho Vargas (em vez de António Pinho), iniciando, nos inícios da década de 1980, uma das mais importantes e originais carreiras do jazz em Portugal. Influenciado pelas gravações do quarteto europeu de Keith Jarrett (com Jan Garbarek), evoluiu de forma progressiva para uma sonoridade própria e um repertório de composições originais que o individualizam como um dos primeiros músicos a procurar um cruzamento do jazz com elementos da música tradicional portuguesa, através da exploração e/ou adaptação de melodias e ritmos populares (cantares alentejanos, percussões dos mareantes do rio Douro, etc.). São disso testemunho os álbuns "Outros Lugares" (1983), "Cores e Aromas" (1985), "As Folhas Novas Mudam de Cor" (1987), "Os Jogos do Mundo" (1989), "Selos e Borboletas" (1991) e "A Luz e a Escuridão" (1996). E é parte considerável das composições presentes nestes seis discos que o músico/compositor, a convite do editor David Ferreira, revisita, somente ao piano, em Dezembro de 2007, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Dessas sessões de gravação, resultou o material que preenche os dois CD duplos "Solo" (2008) e "Solo II" (2009), tendo neste último sido incluídas algumas gravações novas realizadas no dia 29 de Abril de 2009. Trata-se de um repositório fundamental e uma espécie de testamento da arte de António Pinho Vargas, na sua faceta de executante solitário (ao piano, o seu instrumento) de composições próprias (a maioria) ou por si adaptadas. A fechar o alinhamento de "Solo II" está "Da Alma: Rápido" (a segunda de duas versões feitas a partir do original "Alma" que abre o lado B do LP "Cores e Aromas") que consideramos uma maravilhosa preciosidade e, por isso, a escolhemos para aqui lhe darmos destaque e assim, ainda que se maneira muito singela, nos associarmos à celebração do 75.º aniversário da nascença de um grande músico e compositor português, ao qual, lamentavelmente, o país ainda não deu o devido e merecido reconhecimento. Isso é verificável na escassa e rara programação de composições eruditas da sua autoria nas temporadas de concertos e/ou em festivais, e também na muito débil divulgação radiofónica, quer das peças de feição clássica/erudita quer da discografia de pendor jazzístico. É oportuno notar que, nos anos 80, a rádio generalista passava músicas de António Pinho Vargas e algumas alcançaram assinalável sucesso, como foi o caso de "A Dança dos Pássaros", "Tom Waits" e "Vilas Morenas". Hoje em dia, as 'playlists' formatadas à medida dos interesses comerciais das 'majors' da indústria fonográfica e a visão tacanha dos directores de programação das rádios nacionais (a estatal Antena 1 incluída) ditam o criminoso ostracismo da música instrumental e, claro está, quem perde são os ouvintes cuja mundividência musical fica cada vez mais estreita e empobrecida, e perdem também os músicos de talento desse subgénero que vêem a sua produção não chegar ao conhecimento de apreciadores potenciais.

Fontes bibliográficas:
- "Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa", Direcção de Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998, p. 43;
- "Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX", Direcção de Salwa Castelo Branco, Lisboa: Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2010, p. 1310.

Ainda no domínio da rádio, cumpre-nos enaltecer Mafalda Serrano, pela conversa que manteve com António Pinho Vargas, precisamente a pretexto do seu 75.º aniversário, e foi transmitida pela Antena 2, em cinco capítulos, durante a semana finda, e que pode ser (re)ouvida a qualquer momento na plataforma RTP-Play. Boa escuta!



Da Alma: Rápido



Música: António Pinho Vargas
Intérprete: António Pinho Vargas* [in 2CD "Solo II": CD 2 (Imperfeições 4), David Ferreira Investidas Editoriais, 2009]




(instrumental)


* António Pinho Vargas – piano (Steinway afinado por Fernando Gomes)

Produção – António Pinho Vargas
Coordenação de edição – Maria João Fortes
Gravado no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, no dia 29 de Abril de 2009
Gravação e montagem – José Manuel Fortes
URL: https://antoniopinhovargas.com/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Pinho_Vargas
https://mic.pt/dispatcher?where=0&what=2&show=0&pessoa_id=198&lang=PT
https://www.meloteca.com/portfolio-item/antonio-pinho-vargas/
https://www.facebook.com/apvmusicocompositor/
https://www.youtube.com/@AntonioPinhoVargas
https://music.youtube.com/channel/UCcBeZWvuKsLxAgWjmreTV7g



Capa do duplo CD "Solo II", de António Pinho Vargas (David Ferreira Investidas Editoriais, 2009)
Fotografia – Isabel Pinto
Design gráfico – João Faria.

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Outro artigo com música da autoria de António Pinho Vargas:
Em memória de António Ramos Rosa (1924-2013)

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