(in https://commons.wikimedia.org/)
Simão Rodrigues, "Adoração dos Pastores", c.1595, óleo sobre madeira, Museu de Arte Sacra de Elvas
Fundado em 1978 pela Professora Teresita Gutierrez Marques, então como Coro de Câmara do Conservatório Nacional de Lisboa, o Coro de Câmara de Lisboa, pela actividade que foi desenvolvendo, quer em concertos quer em gravações, afirmou-se um dos agrupamentos mais importantes de Portugal na interpretação de obras corais a cappella. E o repertório natalício – em português e noutras línguas (latim, castelhano, italiano, francês, inglês, alemão...) – tem recebido especial atenção, disso sendo testemunho as gravações publicadas em CD, dois dos quais integralmente preenchidos com canções do ciclo do Natal. Uma vez que no blogue "A Nossa Rádio" privilegiamos o nosso património poético e musical, é com canções de Natal portuguesas interpretadas pelo Coro de Câmara de Lisboa que celebramos a quadra natalícia de 2025. A língua em que se canta é, obviamente, a portuguesa, excepto no celebérrimo "Adeste Fidelis", que está em latim e não se sabe ao certo por quem foi composto (não terá sido pelo rei D. João IV, segundo advoga o musicólogo Rui Vieira Nery [cf. "Adeste Fideles: quem é o autor?"]), não se podendo, todavia, excluir a hipótese de o autor ser lusitano, provavelmente de finais do século XVII ou de inícios do XVIII. O manuscrito mais antigo conhecido é do inglês John Francis Wade (1711-1786) mas isso não nos garante que a composição seja originalmente sua. O facto de ser cantado na capela da embaixada portuguesa em Londres, muito antes do levantamento da proibição do culto católico em Inglaterra (1829), o que lhe valeu ser apelidado de "Portuguese Hymn" ("Hino Português"), pode ser um indício da origem lusitana. Foi à luz dessa possibilidade que achámos por bem incluir também o "Adeste Fidelis", admiravelmente interpretado pelo Coro de Câmara de Lisboa, na sequência ora apresentada. Boa escuta e Festas Felizes!
Se a Antena 2 tivesse (que já teve) espaços musicais editorialmente bem definidos, tais como "Intérpretes Portugueses" e "Música Coral", e os profissionais encarregados de os manter tivessem o calendário em consideração, é certo que os ouvintes saberiam de antemão que neles poderiam escutar por esta altura, com grande probabilidade, algumas canções natalícias (portuguesas ou não) gravadas pelo Coro de Câmara de Lisboa e, bem assim, por outros que estão (ou estiveram) activos em Portugal. Coisa bem diferente, portanto, dos espaços alargados de música a esmo e variada hoje prevalecentes, nos quais só com uma sorte danada se consegue apanhar música coral a cappella. Fica apontada a deficiência, mais uma vez, para que os novos locatários da direcção de programas não possam alegar que não há ouvintes descontentes com o figurino de 'jukebox' sortida em vigor e que ele satisfaz perfeita e cabalmente os objectivos de serviço público legalmente estipulados.
E a Antena 1, que música de Natal tem transmitido este ano? Nas incursões que fizemos nos últimos dias à respectiva emissão, mesmo não sendo prolongadas (pois importa, acima de tudo, não pôr em risco a sanidade mental), deu para apanhar uma caterva de canções e cançonetas anglo-saxónicas, quase todas possíveis de ouvir na Rádio Comercial, na M80, na RFM, na RR, na TSF e na Rádio Observador. De canções portuguesas, apenas uma lográmos apanhar: "Podia Ser Natal", pelos UHF, em versão ao vivo. É miserabilismo a mais, tendo em conta a riqueza, em quantidade e qualidade, do acervo de gravações disponível, parte do qual pode ser apreciado nos artigos referenciados ao fundo, mormente em "Música portuguesa de Natal". Optando por marginalizar o nosso património musical (no caso, o de temática natalícia), quem ocupa a direcção de programas do canal generalista tem, porventura, real consciência de que está a dar argumentos àqueles que defendem a extinção ou privatização da empresa pública de rádio e televisão precisamente por não marcar a diferença em relação às privadas?
Pela Noite de Natal
Letra e música: Tradicional (Beira Baixa e Alentejo)
Harmonização: Fernando Lopes-Graça (7.ª canção da "Segunda Cantata do Natal sobre Cantos Tradicionais Portugueses da Natividade", Op. 61, LG 15, 1945-50)
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Canções de Natal / Christmas Songs", Numérica, 1997; CD "Canções Populares Portuguesas", Numérica, 1998)
Pela noite de Natal,
Noite de tanta alegria,
Caminhando vai José, | bis
Caminhando vai Maria, |
Ambos os dois p'ra Belém,
Mais de noite que de dia;
E chegaram a Belém, | bis
Já toda a gente dormia. |
Abri a porta, porteiro,
Porteiro da portaria!
Não deu resposta o porteiro, | bis
Porque também já dormia. |
Só encontraram pousada
Dentro duma 'strebaria!
Ali ficaram os dois | bis
Até ao romper do dia. |
Adeste Fideles
Letra e música: Autor anónimo (sécs. XVII-XVIII) [Tradução da letra >> abaixo]
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Natal A Cappella", Numérica, 1998)
Adeste Fideles,
Laeti triumphantes:
Venite, venite
In Bethlehem!
Natum videte
Regem angelorum!
* Coro de Câmara de Lisboa:
Sopranos – Jael Martins, Lucina Silva, Mafalda Nascimento, Matilde de Castro, Susana de Oliveira, Teresa Cordeiro
Contraltos – Ana Ferro, Isabel Torres, Marta Gregório, Sílvia Fontão
Tenores – Aníbal Coutinho, Carlos Quintelas, José Pereira, Pedro Marques, Sérgio Fontão, Vítor Gonçalves
Baixos – António Marques, João Camacho, Jorge Leal, Marcelo Tusto, Pedro Pires
Direcção – Teresita Gutierrez Marques
Produção – Teresita Gutierrez Marques, António Marques, Jorge Leal, Sérgio Fontão
Gravado na Igreja Anglicana de S. Jorge, Lisboa, em 1997
Gravação e editing – Fernando Rocha (Numérica)
Vinde, Fiéis
[tradução apresentada no caderno do CD "Natal A Cappella", do Coro de Câmara de Lisboa, Numérica, 1998]
Vinde, Fiéis,
Alegrai-vos triunfantes:
Vinde, vinde
A Belém!
Vinde adorar
O Menino Rei dos Anjos.
Vinde, adoremos...
Vinde, adoremos...
Vinde, adoremos o Senhor!
O berço a avistar,
Pastores humildes
Deixando os rebanhos
Vêm a aproximar-se
E nós, vitoriosos,
A apressar o passo.
Vinde, adoremos...
Vinde, adoremos...
Vinde, adoremos o Senhor!
Três Natais Góticos
Letra e música: Tradicional ("Deus vos salva, Sol brilhante", Cércio, Duas Igrejas, Miranda do Douro, Trás-os-Montes e Alto Douro / "Belo Infante dos meus olhos", Boa Ventura, São Vicente, Madeira / "Vinde, vinde já, ó Deus", Casegas, Covilhã, Beira Baixa)
Recolhas ("Deus vos salva, Sol brilhante" e "Vinde, vinde já, ó Deus""): Rodney Gallop (in "Cantares do Povo Português", Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1937, 1960)
Harmonização: Eurico Carrapatoso ("Três Natais Góticos", 2001)
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Eurico Carrapatoso: A Cappella", Numérica, 2005)
Deus vos salva, Sol brilhante,
Que ao mundo alumiais:
Em louvor da religião,
Sempre louvado sejais!
[vocalizos]
Deus vos salva, Sol brilhante,
Que ao mundo alumiais:
Em louvor da religião,
Sempre louvado sejais!
Belo Infante dos meus olhos, | bis
Da minha alma, luz divina, |
Aparecei hoje ao mundo,
Pois Deus assim o destina.
[vocalizos]
Vinde, vinde já, ó Deus,
Ai, Filho da Virgem Maria!
Em Vosso louvor cantemos
Ao seu filho de alegria.
Os anjos o acompanham,
Ai, acompanham; o nosso cura
Lá traz nas suas mãos | bis
A divina formosura. |
* Coro de Câmara de Lisboa:
Sopranos – Bárbara Faria, Mariana Nina, Raquel Oliveira, Sofia Pedro, Susana Gaspar, Teresa Cordeiro
Contraltos – Isabel Torres, Liliana Silva, Sílvia Fontão, Vanessa Gonçalves
Tenores – Carlos Reis, José Pereira, Pedro Araújo, Pedro Marques, Pedro Sousa, Vítor Gonçalves
Baixos – António Henriques, Luís Bourgard, Miguel Correia, Nuno Rodrigues, Pedro Pires
Direcção – Teresita Gutierrez Marques
Produção – Teresita Gutierrez Marques, Carlos Reis
Gravado na Igreja Anglicana de S. Jorge, Lisboa, em 2005
Gravação, editing e masterização – Fernando Rocha (Numérica)
Natal (Elvas)
Letra e música: Tradicional (Elvas, Alto Alentejo)
Harmonização: Mário de Sampayo Ribeiro
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Canções de Natal / Christmas Songs", Numérica, 1997; CD "Canções Populares Portuguesas", Numérica, 1998, Coro de Câmara de Lisboa, 2017; CD "Natal A Cappella", Numérica, 1998)
Eu hei-de m'ir ao presépio
E assentar-me num cantinho,
A ver como o Deus-Menino
Nasceu lá tão pobrezinho.
— «Ó meu Menino Jesus,
Que tendes? Porque chorais?»
— «Deu-me minha mãe um beijo,
Choro por que me dê mais.»
O Menino chora, chora,
Chora com toda a razão:
Fizeram-Lhe a cama curta,
Tem os pezinhos no chão.
— «Ó meu Menino Jesus,
Que tendes? Porque chorais?»
— «Deu-me minha mãe um beijo,
Choro por que me dê mais.»
O Menino nas Palhas
Letra e música: Tradicional (Beira Baixa)
Recolha: Jaime Lopes Dias (in "Etnografia da Beira", Vol. VII, 1948)
Harmonização: Fernando Lopes-Graça (4.ª canção da "Segunda Cantata do Natal sobre Cantos Tradicionais Portugueses da Natividade", Op. 135, LG 33, 1960-61)
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Canções de Natal / Christmas Songs", Numérica, 1997; CD "Canções Populares Portuguesas", Numérica, 1998)
Ó Jesus Menino,
Mal agasalhado,
Tremendo com frio,
Em palhas deitado.
Bendito e louvado seja
O Menino de Deus
Na sua igreja.
Filhos de homens ricos
Em alvas toalhas;
Só Vós, meu Menino,
Numas pobres palhas.
Bendito e louvado seja
O Menino de Deus
Na sua igreja.
Não é pelos teres
Que Vós tendes tudo:
É só para dardes
Exemplo ao mundo.
Bendito e louvado seja
O Menino de Deus
Na sua igreja.
Bendito seja!
Ó Bento Airoso
Letra e música: Tradicional (Paradela, Miranda do Douro, Trás-os-Montes e Alto Douro)
Recolha: Michel Giacometti (1960, in "Cancioneiro Popular Português", Lisboa: Círculo de Leitores, 1981 – p. 43)
Harmonização: Eurico Carrapatoso (1.ª canção de "Natal Profano", 29 Mai. 1997)
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Canções de Natal / Christmas Songs", Numérica, 1997; CD "Canções Populares Portuguesas", Numérica, 1998, Coro de Câmara de Lisboa, 2017; CD "Natal A Cappella", Numérica, 1998)
Oh bento airoso, mistério divino!
Encontrei a Maria à beira do rio
Lavando os cueiros do bendito Filho.
Maria lavava, S. José estendia;
O Menino chorava com o frio que fazia. [bis]
Calai, meu Menino! Calai, meu amor!
É que as vossas verdades me matam com dor. [bis]
Oh bento airoso, mistério divino!
Encontrei a Maria à beira do rio
Lavando os cueiros do bendito Filho.
José Embala o Menino
Letra e música: Tradicional (Beira Baixa)
Harmonização: Eurico Carrapatoso (2.ª canção de "Natal Profano", 29 Mai. 1997)
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Canções de Natal / Christmas Songs", Numérica, 1997; CD "Canções Populares Portuguesas", Numérica, 1998, Coro de Câmara de Lisboa, 2017; CD "Natal A Cappella", Numérica, 1998)
José embala o Menino, [bis]
Que a Senhora logo vem. [bis]
[vocalizos]
O meu Menino tem sono,
Tem sono, quer-se dormir;
Durma-se aqui, meu Menino,
Até a Senhora vir.
[vocalizos]
Vai-te embora, passarinho!
Deixa a baga do loureiro!
Deixa dormir o Menino
Que está no sono primeiro!
[vocalizos]
Ó Meu Menino
Letra e música: Tradicional (Pias, Serpa, Baixo Alentejo)
Harmonização: Eurico Carrapatoso (3.ª e última canção de "Natal Profano", 29 Mai. 1997)
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Canções de Natal / Christmas Songs", Numérica, 1997; CD "Canções Populares Portuguesas", Numérica, 1998, Coro de Câmara de Lisboa, 2017; CD "Natal A Cappella", Numérica, 1998)
Ó meu Menino,
Meu doce Jesus,
Ó meu Redentor,
Salvai-me, Senhor!
Ponde em nós os Vossos olhos,
Misericórdia, Amor!
[bis]
Oh meu Menino
Sorrindo na dor!
Quem tudo sustém
Do mundo, Senhor!
Ponde em nós os Vossos olhos,
Misericórdia, Amor!
[bis]
Oh meu Menino,
Que pobre que estais,
Na gruta despido,
Por entre animais!
Ponde em nós os Vossos olhos,
Misericórdia, Amor!
[bis]
Ó meu Menino,
Meu doce Jesus!
[vocalizos]
* Coro de Câmara de Lisboa:
Sopranos – Jael Martins, Lucina Silva, Mafalda Nascimento, Matilde de Castro, Susana de Oliveira, Teresa Cordeiro
Contraltos – Ana Ferro, Isabel Torres, Marta Gregório, Sílvia Fontão
Tenores – Aníbal Coutinho, Carlos Quintelas, José Pereira, Pedro Marques, Sérgio Fontão, Vítor Gonçalves
Baixos – António Marques, João Camacho, Jorge Leal, Marcelo Tusto, Pedro Pires
Direcção – Teresita Gutierrez Marques
Capa do CD "Canções Populares Portuguesas", do Coro de Câmara de Lisboa (Numérica, 1998)
Capa da reedição do álbum anterior comemorativa do 40.º aniversário do Coro de Câmara de Lisboa (2018)
Capa do CD "Natal A Cappella", do Coro de Câmara de Lisboa (Numérica, 1998)
Reprodução da pintura, de Josefa d'Óbidos, "Virgem com o Menino", c.1640-60, óleo sobre cobre, 15,7 x 12,2 cm, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
Capa do CD "Eurico Carrapatoso: A Cappella", do Coro de Câmara de Lisboa (Numérica, 2005)
Fotografia e design – Vítor Ferreira
Teresita Gutierrez Marques, maestrina (filipina)
Fotografia – Carlos Santos
Aquela ditadura antiga, a que veio abaixo ao som da terra da fraternidade, poderá ter mergulhado para o fundo do subconsciente colectivo por forma a deixar de estar à vista, mas na realidade nunca chegou a desaparecer completamente. E, entretanto, na sua face visível, foi substituída por outra ditadura diferente, que nós ainda entendemos mal, e que não se faz anunciar por hino absolutamente nenhum.
CLARA PINTO CORREIA
(in "Trinta Anos de Democracia: E Depois, Pronto",
Lisboa: Relógio d'Água Editores, 2004 – p. 12)
«Escritora, bióloga e professora universitária, Clara Pinto Correia destacou-se em diferentes frentes. Foi tradutora, jornalista no extinto semanário O Jornal, cronista do Diário de Notícias e da Visão, e até se estreou como actriz, com António da Cunha Telles, em Kiss Me (2004). Foi também responsável científica do Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 1983 a 1986, tendo trabalhado frequentemente em rádio e televisão. Deixou mais de cinco dezenas de títulos publicados, entre os quais se destaca o romance Adeus, Princesa [1985], publicado quando tinha apenas 25 anos e que viria a ser adaptado ao pequeno e grande ecrã [pelo realizador Jorge Paixão da Costa].
Na ficção, escreveu também Ponto Pé de Flor [1990] e Mais que Perfeito [1997]. Na literatura infantil, assinou Quem Tem Medo Compra um Cão [1991], A Minha Alma Está Parva [1992] e A Ilha dos Pássaros Doidos [1994]. Escreveu ainda, no campo da divulgação científica, O Essencial sobre os "Bebés-Proveta" [1986], Histórias Naturais [1988], Clonai e Multiplicai-vos: Verdades e Mentiras [1997] e O Ovário de Eva [1998].
Nascida em 1960, licenciou-se em Biologia pela Universidade de Lisboa e doutorou-se, em 1992, em Biologia Celular pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. Prosseguiu uma carreira universitária e de investigação no domínio da Embriologia no Instituto Gulbenkian de Ciência e também nos Estados Unidos, onde trabalhou até 1994 em clonagem de mamíferos na Universidade de Massachusetts. De 1994 até 1996 esteve na Universidade de Harvard, no Departamento de História das Ciências.
[...]»
Capa do livro "O Essencial sobre os 'Bebés-Proveta'", de Clara Pinto Correia (Col. Essencial, Vol. 12, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986)
Capa do livro "Histórias Naturais", de Clara Pinto Correia (Col. Várias Seduções, Lisboa: Edições 'O Jornal', 1988)
Ilustração – Pedro Salgado
Sobrecapa do livro "Portugal Animal", de Clara Pinto Correia (texto) e António José Cidadão (fotografia) (Lisboa: Círculo de Leitores / Publicações Dom Quixote, Abr. 1991)
Projecto gráfico – José Teófilo Duarte
Capa do livro "Clonai e Multiplicai-vos: Verdades & Mentiras ", de Clara Pinto Correia (Lisboa: Texto Editora, Abr. 1997)
Capa do livro "O Ovário de Eva: ovo e esperma e preformação", de Clara Pinto Correia; pref. Stephen Jay Gould; trad. Miguel D'Abreu (Col. Ciência, Lisboa: Relógio d'Água Editores, Mar. 1998)
Reprodução parcial invertida do quadro, de Piero di Cosimo, "Vénus, Marte e Cupido", c.1505, óleo sobre painel de madeira, 72 cm x 182 cm, Staatliche Museen zu Berlin / Gemäldegalerie, Berlim [imagem integral >> aqui]
Capa do livro "Clones Humanos: A nossa autobiografia colectiva", de Clara Pinto Correia; trad. Margarida Vale de Gato (Col. Ciência, Lisboa: Relógio d'Água Editores, Abr. 1999)
Reprodução parcial da obra, de William Blake, "Newton", c.1795, gravura em cobre com caneta, tinta e aguarela, 46 x 60 cm, Tate Gallery, Londres [imagem integral >> aqui]
Capa do livro "O Mistério dos Mistérios: uma história breve das teorias de reprodução animal", de Clara Pinto Correia (Col. Ciência, Lisboa: Relógio d'Água Editores, Abr. 1999)
Capa do livro "Dodologia: um voo planado sobre a modernidade", de Clara Pinto Correia; pref. Jorge Calado (Col. Ciência, Lisboa: Relógio d'Água Editores, Abr. 2001)
Capa do livro "Assim na Terra Como no Céu: Ciência, Religião e estruturação do pensamento ocidental", de Clara Pinto Correia e José Pedro Sousa Dias (Col. Ciência, Lisboa: Relógio d'Água Editores, Abr. 2003)
Capa do livro "O Testículo Esquerdo: Alguns aspectos da demonização do feminino", de Clara Pinto Correia (Col. Mosaicos da Ciência, Lisboa: Relógio d'Água Editores, Nov. 2004)
Capa do livro "A Maravilhosa Aventura da Vida: uma lição de biologia do desenvolvimento em que se percebe tudo", de Clara Pinto Correia (Col. Aventura da Ciência, Vol. 2, Barcarena: Editorial Presença, Mai. 2009)
Capa do livro "Canções das Crianças Mortas", de Clara Pinto Correia (poemas) e José Afonso Furtado (fotografias) (Lisboa: Relógio d'Água Editores, Abr. 1989)
Capa do livro "Canções Que Já Não Existem", de Clara Pinto Correia (poemas) e José Pedro Sousa Dias (fotografias) (Col. Trabalhos do Olhar, Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, Jun. 2005)
Capa do livro "Trinta Anos de Democracia: E Depois, Pronto", de Clara Pinto Correia (Col. Argumentos, Lisboa: Relógio d'Água Editores, Abr. 2004)
Reprodução de pormenor da parte superior do painel esquerdo do tríptico, de Jheronimus Bosch, "As Tentações de Santo Antão", 1505-1506, óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa [imagem integral >> aqui]
Luís Caetano, nos vários espaços que vem mantendo na Antena 2 – "A Força das Coisas", "A Ronda da Noite", "A Vida Breve" e "Última Edição" – teve o ensejo de honrar ampla e mui dignamente a memória de Clara Pinto Correia, recuperando entrevistas que a autora lhe concedeu, por ocasião do lançamento de livros seus, mais o registo da palestra que ela proferiu no dia 22 de Fevereiro passado n' As Correntes d'Escritas, e ainda leituras que a escritora fez a 28 de Abril de 1995, na Biblioteca do Congresso dos E.U.A.. Uma nota de grande louvor para Luís Caetano pelo elevado profissionalismo e assinável zelo que uma vez mais demonstrou no seu trabalho ao serviço dos ouvintes e em prol da Cultura! Juntamos, abaixo, os links de acesso directo à plataforma RTP-Play para cada uma dessas edições e ainda os relativos a outros programas da rádio e da televisão públicas disponíveis em RTP-Arquivos nos quais Clara Pinto Correia foi a convidada de honra.
Quanto à Antena 1, não sabemos se acaso foi feito algo em homenagem a Clara Pinto Correia, quanto mais não fosse a reposição da edição da conversa com João Gobern a uma "Mesa para Dois", posta (no ar) à hora de jantar do dia 19 de Novembro de 2024. Nada lográmos apanhar, mas como as nossas incursões à emissão foram esparsas, não podemos afiançar que se verificou a mesma negligência e inércia aquando do desaparecimento de outras figuras notáveis da Cultura Portuguesa. Dando o benefício da dúvida em contrário, importa concretizar uma iniciativa de cariz menos fugaz. Tratando-se do canal da rádio estatal que tem particulares obrigações no que concerne à divulgação da melhor música portuguesa (não erudita) e havendo canções gravadas com letras de Clara Pinto Correia, por Anabela e por Rui Veloso (pelo menos), é da mais elementar justiça à memória da malograda autora que algumas entrem na 'playlist' e lá permaneçam durante uns tempos. Aqui deixamos três delas, com as quais rematamos esta singela homenagem a Clara Pinto Correia. Da primeira, intitulada "Avenidas", os versos do refrão («O rio vai voltar a encher / De novo vai entrar pela aldeia / Mas eu não estarei cá para ver / O regresso certo da cheia») não podiam ser mais actuais nestes dias de chuva copiosa que são já de saudade da brilhante cientista e historiadora de ciência, prolífica escritora e cidadã lúcida que muito amava o seu país e se inquietava com o caminho de progressiva degradação cívica, cultural e moral que ele levava e que só por milagre não conduziria à problemática situação presente...
A RONDA DA NOITE | 9 Dez. 2025 [>> RTP-Play] Clara Pinto Correia lendo o seu poema "Absoluto" e outros textos, e falando de si na Biblioteca do Congresso dos E.U.A. a 28 de Abril de 1995 [áudio integral >> Library of Congress] + Entrevista concedida por Clara Pinto Correia a Luís Caetano, em 2005, a propósito do livro "Trinta Anos de Democracia: E Depois, Pronto" (Relógio d'Água Editores, 2004).
A VIDA BREVE | 10 Dez. 2025 [>> RTP-Play] Clara Pinto Correia lendo, na Biblioteca do Congresso dos E.U.A. a 28 de Abril de 1995, o seu poema "Absoluto", publicado no livro "Canções das Crianças Mortas" (Relógio d'Água Editores, 1989).
ÚLTIMA EDIÇÃO | 10 Dez. 2025 [>> RTP-Play] Clara Pinto Correia entrevistada por Luís Caetano, em 2009, por ocasião do lançamento do livro "A Maravilhosa Aventura da Vida: uma lição de biologia do desenvolvimento em que se percebe tudo" (Editorial Presença, 2009).
ÚLTIMA EDIÇÃO | 11 Dez. 2025 [>> RTP-Play] Clara Pinto Correia entrevistada por Luís Caetano, em 2006, por ocasião do lançamento do romance "A Primeira Luz da Madrugada" (Oficina do Livro, 2006).
A FORÇA DAS COISAS | 13 Dez. 2025 [>> RTP-Play] Clara Pinto Correia lendo o seu poema "Absoluto" e outros textos na Biblioteca do Congresso dos E.U.A. a 28 de Abril de 1995 (excerto) [áudio integral >> Library of Congress] + Clara Pinto Correia palestrando n' As Correntes d'Escritas, a 22 de Fevereiro de 2025, tendo como mote o quadro "Guerra" ("War", 2003), de Paula Rego [>> imagem] + Clara Pinto Correia falando das suas predilecções culturais no programa "A Ilha de Orpheu", de João Paes (Fev. 1994) (excerto) [áudio integral >> abaixo] + Entrevista concedida por Clara Pinto Correia a Luís Caetano, em 2005, a propósito do livro "Trinta Anos de Democracia: E Depois, Pronto" (Relógio d'Água Editores, 2004) + Clara Pinto Correia entrevistada por Luís Caetano, em 2006, por ocasião do lançamento do romance "A Primeira Luz da Madrugada" (Oficina do Livro, 2006).
UMA BOA IDEIA I | 14 Nov. 1986 [>> RTP-Arquivos]
Programa apresentado por Isabel Bahia, em entrevista com Clara Pinto Correia, escritora e bióloga, sobre a sua carreira profissional e sugestões de ocupação dos tempos livres.
JÁ ESTÁ | 29 Out. 1987 [Parte III >> RTP-Arquivos]
Programa apresentado por Joaquim Letria com entrevista em estúdio à convidada Clara Pinto Correia, professora universitária, bióloga, escritora e historiadora de ciência; participação musical de Paulo de Carvalho e a rubrica "Fotomaton" com o actor Guilherme Leite.
INTERIORES | 9 Out. 1992 [Parte I >> RTP-Arquivos / Parte II >> RTP-Arquivos]
Maria João Avilez entrevista Clara Pinto Correia, professora universitária, bióloga e escritora, sobre temas da sua vida profissional e particular, realizada na sua casa no bairro da Graça, precedida por pequena biografia ilustrada com imagens do seu quotidiano.
CARLOS CRUZ - QUARTA FEIRA | 20 Jan. 1993 [Parte I >> RTP-Arquivos / Parte II >> RTP-Arquivos / Parte III >> RTP-Arquivos]
Carlos Cruz entrevista Clara Pinto Correia, jornalista, escritora e bióloga, sobre a sua vida pessoal, com destaque para a pluralidade de campos de trabalho e interesse, e a explicação do número de ouro ou divina proporção, já utilizada na construção das pirâmides egípcias e templos gregos, e também presente na Natureza.
A ILHA DE ORPHEU | 25 Fev. 1994 [>> RTP-Arquivos] Clara Pinto Correia, em conversa com João Paes (compositor e director de programas da RDP-Rádio Cultura), falando de algumas das suas predilecções artísticas e literárias.
FALATÓRIO | 17 Mar. 1997 [Parte I >> RTP-Arquivos / Parte II >> RTP-Arquivos / Parte III >> RTP-Arquivos]
Pedro Rolo Duarte entrevista Clara Pinto Correia, sobre o seu percurso de vida pessoal e profissional enquanto escritora e bióloga, sendo destacado o tema da clonagem.
O AMIGO PÚBLICO I | 2 Abr. 1999 [Parte III >> RTP-Arquivos]
Programa recreativo apresentado por Júlio Isidro que entrevista Clara Pinto Correia.
A FERRO E FOGO | 27 Jun. 1999 [Parte I >> RTP-Arquivos / Parte II >> RTP-Arquivos]
Programa apresentado por Rita Ferro Rodrigues, em entrevista com Clara Pinto Correia, professora universitária, bióloga, escritora, investigadora e vice reitora da Universidade Lusófona, sobre momentos da vida pessoal, carreira profissional e as suas ideias sobre várias temáticas, e com a participação da convidada musical, Isabel Silvestre.
LER PARA CRER | 29 Jun. 1999 [Parte I >> RTP-Arquivos / Parte II >> RTP-Arquivos]
Programa apresentado por Francisco José Viegas, que conversa com Clara Pinto Correia, professora universitária, ensaísta, bióloga e escritora, a propósito da publicação do seu último romance "O Mistério dos Mistérios", e sobre a sua carreira académica e literária.
MESA PARA DOIS | 19 Nov. 2024 [>> RTP-Play] Clara Pinto Correia, em conversa com João Gobern, falando das suas preferências gastronómicas e musicais, e ainda acerca do seu último romance, "Antares" (Editora Exclamação, Jun. 2024).
Avenidas
Letra: Clara Pinto Correia
Música: Rui Veloso
Arranjo: Rui Veloso e Fernando Nunes (Naná)
Intérprete: Anabela* (in CD "Primeiras Águas", Movieplay, 1996)
[instrumental]
Os que foram embora esta tarde
Já não esperam pela ceifa do trigo
Quando a minha vez chegar
Não vou levar nada comigo
Este ano depois da vindima
Nos dias das primeiras chuvas
Os velhos vão ficar sozinhos
A ouvir fermentar as uvas
O rio vai voltar a encher
De novo vai entrar pela aldeia
Mas eu não estarei cá p'ra ver
O regresso certo da cheia
[instrumental / vocalizos]
Na cidade o rio é o mesmo
Mas tem faróis e petroleiros
E os guindastes despejam os molhos
Nos caixotes dos cargueiros
O rio encheu as redes dos velhos
Mas eu não aprendi a pescar
E na cidade há avenidas
Que vão directas ao mar
O rio vai voltar a encher
De novo vai entrar pela aldeia
Mas eu não estarei cá p'ra ver
O regresso certo da cheia
[instrumental]
O rio vai voltar a encher
De novo vai entrar pela aldeia
Mas eu não estarei cá p'ra ver
O regresso certo da cheia
[3x]
Provérbios
Letra: Clara Pinto Correia
Música: José Salgueiro
Arranjo: José Salgueiro
Intérprete: Anabela* (in CD "Primeiras Águas", Movieplay, 1996)
[instrumental / vocalizos]
Nunca limpei armas em tempo de guerra
E só hei-de pagar uma dívida à terra
Os dias de tudo são véspera de nada
E meti-me ao caminho de muito amar a estrada
Quantos mais são os mouros melhor é a guerra
Não chegamos ao céu sem os ossos na terra
Quem se deitar à sorte aprende uma arte
Deus dá-nos as nozes, não é ele quem as parte
Porque se Deus é bom, não é mau o Diabo
Quem nunca se aventurou
nunca perdeu nem ganhou
Eu parti muito cedo sem olhar para trás
Filho meu a casa não voltarás
Quero-me livre de fome e de guerra,
livre de peste e de bispo na terra
Porque se Deus é bom, não é mau o Diabo
Quem nunca se aventurou
nunca perdeu nem ganhou
Aprendi que quem foje depressa se agarra
E se o outro mundo é de quem o ganha,
este é de quem o apanha
[instrumental / vocalizos]
Cada um enterra o seu pai como pode
Quem já perdeu tudo já ninguém lhe acode
Hão-de ser sempre mais as vozes que as gentes
Mas Deus só dá nozes a quem não tem dentes
Porque se Deus é bom, não é mau o Diabo
Quem nunca se aventurou
nunca perdeu nem ganhou
[bis]
Porque se Deus é bom...
Porque se Deus é bom...
Porque se Deus é bom...
Letra: Clara Pinto Correia
Música: Rui Veloso
Intérprete: Rui Veloso* (in CD "Avenidas", EMI-VC, 1998, EMI Music Portugal, 2010, 2012, Warner Music Portugal, 2013)
[instrumental / vocalizos]
O meu avô atravessou todas as ondas
Cruzou as monções e arpoou as baleias
Cantava de noite uma canção mágica
Que chama às redes os bandos de moreias
Contou-me histórias de grutas azuis
Onde as medusas estão de guarda às maresias
E de mulheres como estátuas de sal
Para sempre à sua espera em praias vazias
[instrumental / vocalizos]
O meu avô amou a baleia branca
Por ela se foi perder nos dentes do mar
Mas deixou um mapa no meu travesseiro
P'ra quando também eu já não quiser voltar
Só eu conheço o rumo do norte
Que atravessa os olhos verdes das sereias
Até às baías de cristais de gelo
Onde em segredo se vão amar as baleias
[instrumental / vocalizos]
* Rui Veloso – voz
John Themis – guitarras acústicas
The London Session Orchestra – cordas / Concertino – Gavin Wright
O escrevente destas linhas começa por confessar que os seus hábitos de escuta musical têm andado bastante arredados da discografia de Anita Guerreiro. Isso, porém, não o impede de reconhecer que a artista foi uma intérprete de relevo no que respeita à canção concebida para o teatro de revista. Bastará referir que foi ela a primeira a dar voz a um dos mais belos e conhecidos hinos à cidade das sete colinas – "Cheira a Lisboa" –, com letra de César de Oliveira e música de Carlos Dias. Tal aconteceu em 1969 na revista "Peço a Palavra", no Teatro Variedades, tendo sido editados, no ano seguinte, dois discos – um EP e um LP – com "Cheira a Lisboa" a abrir os alinhamentos [>> YouTube]. E o sucesso da canção foi tão retumbante que a própria Amália não resistiu também ela a gravar, em 1972, a sua versão com acompanhamento de guitarras [>> YouTube Music], ajudando a popularizar "Cheira a Lisboa" ainda mais, a tal ponto que algumas pessoas menos bem informadas julgassem tratar-se de uma criação amaliana, até porque Anita Guerreiro se ausentara entretanto em terras do Tio Sam, acompanhando o seu marido, o ilusionista Pepe Cardinali. Regressada à sua Lisboa, em 1983, mais uma vez no Teatro Variedades, na revista "Há... mas são verdes", Anita Guerreiro junta ao seu repertório mais dois grandes êxitos, a marcha "Calçadinha à Portuguesa" e o fado-canção "Hermínia de Lisboa" [>> YouTube], ambos com versos de César de Oliveira (novamente) e música de João Nobre. Quarenta e dois anos volvidos, a morte da artista, ontem ocorrida, dá-nos o pretexto para lhe rendermos uma singela homenagem destacando aquela sua bela e jovial "Calçadinha à Portuguesa", hoje muito menos conhecida do que o seu grande cartão-de-visita, "Cheira a Lisboa". Boa escuta!
Não sabemos se a direcção de programas da Antena 1 tenciona levar a cabo alguma iniciativa em memória de Anita Guerreiro. Duvidamos bastante que proceda em tal conformidade, mas se porventura a rádio pública nesta ocasião não reincidir a pecar por omissão, recomendamos vivamente que seja dada aos ouvintes a oportunidade de admirarem (em revisitação ou em descoberta) esta cativante...
Calçadinha à Portuguesa
Letra: César de Oliveira (para a revista "Há... mas são verdes", 1983, Teatro Variedades)
Música: João Nobre
Arranjo: Manuel Viegas
Intérprete: Anita Guerreiro* (in single "Calçadinha à Portuguesa/Hermínia de Lisboa", FF/Riso e Ritmo Discos, 1983; CD "Anita Guerreiro", Col. O Melhor dos Melhores, vol. 3, Movieplay, 1994; CD "Anita Guerreiro", Col. Clássicos da Renascença, vol. 55, Movieplay, 2000; 2CD "Anita Guerreiro: 50 Anos de Teatro de Revista, 1955-2005: Antologia": CD 2, Movieplay, 2005)
Eu sei de cor as pedras da calçada
Calçada calçada
Calçada à pedra fina
Tal qual a rosa negra desfolhada
No branco lisboeta duma esquina
Lisboa sobe e desce pelas escadas
Velhinhas pisadas
Tratadas com amor
Que umas mãos calejadas
Com pedras delicadas
Bordaram a ponto-pedra-flor
Menina bonita que vem lá da Graça
Ponha aqui, ponha aqui o seu pezinho
Senhora vizinha, venha ver quem passa
Ponha aqui, ponha aqui o seu pezinho
Tanto chão bordado p'ra a gente pisar
Do feitio das ondas p'ra lembrar o mar
Sotaque alfacinha que enfeita o caminho
Ponha aqui, ponha aqui o seu pezinho
A preto e branco tapete da cidade
Cidade beldade
De graça muita sua
A sacudir, vaidosa, a raridade
Das pedras seculares da sua rua
Fresca varina que sai duma aguarela
Trinar da chinela
Que traz pregões do rio
Mas que cabeça aquela
Leva uma caravela
Canastra com jeito de navio
Menina bonita que vem lá da Graça
Ponha aqui, ponha aqui o seu pezinho
Senhora vizinha, venha ver quem passa
Ponha aqui, ponha aqui o seu pezinho
Tanto chão bordado p'ra a gente pisar
Do feitio das ondas p'ra lembrar o mar
Sotaque alfacinha que enfeita o caminho
Ponha aqui, ponha aqui o seu pezinho
[bis]
* Anita Guerreiro – voz
Orquestra dirigida por Manuel Viegas
Coro do Teatro Variedades (Amadeu, Carla, José Luís, Mané e Sérgio)
Capa do single "Calçadinha à Portuguesa/Hermínia de Lisboa", de Anita Guerreiro (FF/Riso e Ritmo Discos, 1983)
Fotografia – Fernando de Sousa
Capa da compilação em CD "Anita Guerreiro" (Col. O Melhor dos Melhores, vol. 3, Movieplay, 1994)
Capa da compilação em CD "Anita Guerreiro" (Col. Clássicos da Renascença, vol. 55, Movieplay, 2000)
Capa da compilação em duplo CD "Anita Guerreiro: 50 Anos de Teatro de Revista, 1955-2005: Antologia" (Movieplay, 2005)
Fotografia – Dimas Carvalho
Design gráfico – Roda Dentada
(in https://www.facebook.com/fcgulbenkian)
Eça de Queiroz e as suas personagens representadas como bonifrates. Em primeiro plano, Eça, qual titereiro, manipula Amélia e o padre Amaro.
'Cartoon' da autoria de João Abel Manta, pertencente ao acervo do Museu de Lisboa (ex-Museu da Cidade).
«[...]
Que resta pois? Resta, como esperança, o sabermos que as nações têm a vida dura, e que o nosso Portugal tem a vida duríssima. E se os que estão no poder porfiarem sempre em cometer a menor soma humanamente possível de erros e realizar a maior soma humanamente possível de acertos, muitos perigos podem ser conjurados e a hora má adiada. O interesse de quem tem o poder (como dizia ultimamente, nestas mesmas páginas, tratando do Brasil, o Sr. Frederico de S [Eduardo Prado]) está todo e unicamente em acertar. Senão já por dever de consciência e de patriotismo, ao menos por egoísmo, por vantagem própria e individual, por ambição mesmo do poder, o esforço constante de um governo deve ser acertar. Entre nós têm-se visto governos que parecem absurdamente apostados em errar, errar de propósito, errar sempre, errar em tudo, errar por frio sistema. Há períodos em que um erro mais ou um erro menos realmente pouco conta. No momento histórico a que chegamos, porém, cada erro, por mais pequeno, é um novo golpe de camartelo friamente atirado ao edifício das instituições; mas ao mesmo tempo tal é a inquietação que todos temos do futuro e do desconhecido, que cada acerto, cada bom acerto, é uma estaca mais, sólida e duradoura, para esteiar as instituições. Toda a dúvida está em saber se ainda há, ou se já não há, em Portugal, um governo capaz de sinceramente se compenetrar desta grande, desta irrecusável verdade.
Um espectador.»
EÇA DE QUEIROZ [parágrafo final do artigo "Novos Factores da Política Portuguesa", in "Revista de Portugal" N.º 10, Director: Eça de Queiroz, Porto: Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Abr. 1890; "Revista de Portugal" (edição compilada/encadernada), Volume II (Jan. a Jun. 1890), Director: Eça de Queiroz, Porto: Editores Lugan & Genelioux, 1890 – p. 540-541; "Textos de Imprensa VI (da 'Revista de Portugal')", Edição crítica das Obras de Eça de Queiroz, Coordenador: Carlos Reis, Edição de Maria Emília Santana, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995 – p. 94-95; "Novos Factores da Política Portuguesa", Lisboa: Editorial Nova Ática, 2007] [texto integral em https://www.arqnet.pt/]
Capa do frontispício do Volume II da edição compilada/encadernada da "Revista de Portugal", Director: Eça de Queiroz (Porto: Editores Lugan & Genelioux, 1890)
Capa do volume "Textos de Imprensa VI (da 'Revista de Portugal')", Edição crítica das Obras de Eça de Queiroz, Coordenador: Carlos Reis, Edição de Maria Emília Santana (Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Ago. 1995)
Concepção – Rêgo + Associados, a partir de um excerto de 'gouache' sobre papel de Eduardo Nery ("Modulação Luminosa", 1966, 27 x 60 cm, Colecção do artista)
Concepção tipográfica – Vasco Medeiros Rosa
Capa de uma edição autónoma do artigo "Novos Factores da Política Portuguesa", de Eça de Queiroz (Lisboa: Editorial Nova Ática, Abr. 2007)
Reprodução parcial da caricatura de Eça de Queiroz criada por Rafael Bordalo Pinheiro (Julho de 1880) para o "Álbum das Glórias", primeiramente publicado em folhas volantes com o semanário "O António Maria" e, mais tarde, reunido em volume.
Quem lesse, nos dias de hoje, o texto queirosiano acima transcrito, desconhecendo o seu autor, poderia muito bem supor que tivesse sido escrito na actualidade. Sinal de que não desapareceram e teimam em perdurar as pechas e os vícios do Portugal do tempo de Eça de Queiroz (segunda metade do século XIX), que ele de maneira tão lúcida e arguta apontou nos artigos publicados na imprensa e retratou, a letras de ouro, na sua genial obra romanesca. «O país do Eça de Queiroz / ainda é... o país de todos nós!...», como muito clarividentemente grafou Ary dos Santos num belo poema em que evoca algumas das mais conhecidas e arquetípicas personagens criadas pelo imortal escritor. É, pois, tomando como pretexto as duas efemérides queirosianas que no presente ano se assinalaram/assinalam – os 125 anos da morte (a 16 de Agosto) e o 180.º aniversário do nascimento (a 25 de Novembro) – que damos destaque a esse poema, cujo título é justamente "O País (do Eça de Queiroz)", na primorosa interpretação de Simone de Oliveira, com música de Nuno Nazareth Fernandes. Fazemo-lo neste dia em que se comemora a Restauração da Independência de Portugal, porque é uma boa ocasião para reflectirmos sobre o país que temos e sobre as razões de não proporcionar à maioria dos Portugueses que trabalham ou trabalharam aquém-fronteiras a qualidade de vida que eles legitimamente desejam e merecem – e assim, mentalmente robustecidos por esse exercício, podermos cogitar as acções mais acertadas a encetar para (tentar) alcançar tal desiderato. Boa escuta!
E o que tem feito, no ano em curso, a rádio pública em memória do escritor que mais magistralmente retratou o Portugal contemporâneo? Demo-nos conta de uma breve evocação, com a participação do Prof. Carlos Reis, da Universidade de Coimbra, na segunda hora da edição do programa "Destacável" (Antena 1) do passado dia 22 de Novembro, precisamente a pretexto o 180.º aniversário do nascimento do escritor [>> RTP-Play]. O apresentador do programa, Aurélio Gomes, deixou a promessa de convidar o referido académico para uma conversa mais alargada, como se impõe, acerca de Eça de Queiroz. Ficamos na expectativa.
Na Antena 2, o canal da rádio pública que hodiernamente mais sintonizamos (embora muito menos do que nos tempos que antecederam a saída de João Pereira Bastos da direcção de programas), é que ainda não lográmos apanhar qualquer iniciativa visando evocar Eça de Queiroz e celebrar o seu preciosíssimo legado literário. Tratando-se da antena do serviço público de radiodifusão mais vocacionada para a Cultura afigura-se especialmente grave tal omissão. Será que Nuno Reis e o seu coadjuvante, Nuno Galopim de Carvalho, vão deixar findar este ano queirosiano sem mexerem uma palha no que concerne a homenagear, com a necessária dignidade, o autor d' "A Relíquia"? Se persistirem nessa imperdoável inércia, estão, embora muito provavelmente sem disso terem consciência, a contribuir para a vergonha de manter actual a afirmação «o país é uma choldra» que Eça pôs na boca de várias das suas personagens (por exemplo, na de João da Ega, em "Os Maias")...
O País (do Eça de Queiroz)
Poema: José Carlos Ary dos Santos (in "As Palavras das Cantigas", Lisboa: Edições Avante!, 1989 – p. 143-144, 6.ª edição, Lisboa: Edições Avante!, 2018)
Música: Nuno Nazareth Fernandes
Intérprete: Simone de Oliveira* (in 2CD "Simone me Confesso": CD 2 – Originais, Estúdio Noites Longas, 1997)
A relíquia que eu trago no meu peito
herdada de uma tia Patrocínio
É o país-paris onde me deito
sem culpa mas também sem raciocínio.
O conselheiro Acácio bem me disse
nos tempos em que eu era pequenina:
— «O Padre Amaro é mau. Ah, mas que chatice!
Não pode um padre amar uma menina?...»
E o meu primo Basílio brasileiro
que foi o pai das minhas sensações!...
E o Mandarim morrendo a tempo inteiro
num país de rabichos e aldrabões?...
[bis]
Carlos da Maia meu primeiro amor
primeiro livro meu primeiro beijo.
Os Maias da cidade não dão flor
e as Maias é no campo que eu as vejo.
Ramires d'uma casa ilustre e vasta
pindéricos raminhos da nobreza
a terra portuguesa ainda não basta
para as courelas todas da avareza!
E o conde de Abranhos parlamento?
E a Vera Gouvarinho a baronesa?
Mudam-se os tempos mas não muda o vento
é sempre rococó à portuguesa!
[bis]
Há cem anos que eu canto esta canção
sem cabeça porém com coração.
Porque o País do Eça de Queiroz
ainda é... o País de todos nós!...
* [Créditos gerais do disco:]
Simone de Oliveira – voz
Miguel Braga – teclados
Luís Fernando – guitarras
José Marino de Freitas – baixo
André Sousa Machado – bateria
Dalu – percussões
Coros – Adelaide Ferreira, Lara Li, Glória, Dalu, Miguel Braga
Capa da 1.ª edição do livro "As Palavras das Cantigas", de José Carlos Ary dos Santos; Organização, coordenação e notas: Ruben de Carvalho (Lisboa: Edições Avante!, 1989)
Concepção – Luís Silva
Capa da 6.ª edição do livro "As Palavras das Cantigas", de José Carlos Ary dos Santos; Organização, coordenação e notas: Ruben de Carvalho (Lisboa: Edições Avante!, Jul. 2018)
Capa do duplo CD "Simone me Confesso", de Simone de Oliveira (Estúdio Noites Longas, 1997)
Fotografia – Glória Nabais
Design gráfico – Pedro Gonçalves, Pedro Góis