Cientes da importância de haver canções alusivas à Revolução dos Cravos destinadas aos mais novos, «para que saibam um pouco melhor o que foi, o que ajudou a mudar e as emoções e esperanças que desencadeou e que, entretanto, se fizeram História», no 1.º de Maio de 2006, passados que eram mais de três decénios sobre o marcante acontecimento que devolveu a Liberdade ao povo português, Manuel Freire, Vitorino Salomé e José Jorge Letria deram a lume o livro/CD "Abril, Abrilzinho", em co-edição da agência Praça das Flores e do jornal "Público".
A sétima das onze canções do alinhamento foi expressamente concebida para homenagear José Afonso, o criador maior da História da Música Popular Portuguesa e aquele que, com as impactantes canções de intervenção a que deu voz, mais contribuiu para o despertar das consciências e para a necessária rebelião dos injustiçados e amordaçados, tendo em vista o imprescindível derrube do anacrónico regime ditatorial, censório e policial que nas décadas de 60 e 70 era uma aberração política na Europa Ocidental.
É pois pondo aqui em destaque essa belíssima canção, intitulada "O Zeca", com versos de José Jorge Letria e música e interpretação de Manuel Freire (ambos, tal como Vitorino, companheiros de luta e de estrada do autor d' "Os Vampiros"), que rendemos o nosso singelo tributo à memória de José Afonso, neste dia em que se completaram 35 anos sobre o seu prematuro desaparecimento, procurando também espicaçar nos mais jovens que encontrem esta página a curiosidade de descobrir a sua discografia, a qual começou – finalmente! – a ser disponibilizada nas plataformas digitais. Aqueles que encetarem tal descoberta ficarão a saber, por experiência própria, que a obra legada pelo 'avô Zeca', ao contrário do que alguns adultos menos bem informados poderão supor, não se restringe à chamada canção de intervenção. Abrange, outrossim, diversas outras categorias temáticas: ternas cantigas de embalar, apaixonadas canções de amor, espécimes de requintado lirismo de inspiração renascentista, admiráveis canções de pendor surrealista, tocante repertório tributário do imaginário fantástico, primorosas canções feitas para peças de teatro, etc., sem esquecer as belíssimas recriações de cantigas tradicionais, bem como de fados de Coimbra (os das suas primícias no mister do canto, nos anos 50, e os que gravou no início da década de 80, em homenagem a Edmundo Bettencourt). Tendo em consideração tão ampla e variada produção poética aliada a uma extraordinária e invulgar inventividade melódica e a uma irrepreensível abordagem interpretativa, podemos afirmar, com inteira justeza, que José Afonso foi (é) um cantautor de dimensão universal, equiparável a um Jacques Brel, a um Bob Dylan ou a um Chico Buarque...
Canções do notável álbum "Abril, Abrilzinho" não figuram nas 'playlists' das Antenas 1 e 3, e não temos notícia de que alguma lá tenha entrado num dos 25 de Abril posteriores a 2006, ou num nos dias antecedentes ou sucedentes. E na Rádio ZigZag? Alguma vez se deu aos pequenos ouvintes do canal infantil da rádio pública a oportunidade de escutarem algo do "Abril, Abrilzinho"?
O Zeca
Letra: José Jorge Letria
Música: Manuel Freire
Intérprete: Manuel Freire* (in livro/CD "Abril, Abrilzinho", Praça das Flores e Público, 2006)
[instrumental / coro]
Havia um poeta-cantor
nascido à beira da Ria
que em Coimbra foi estudante
e cavaleiro andante
por amor à poesia.
Sendo cantor andarilho
não se cansou da viagem
e fez a canção de roda
que juntou a malta toda
com a esperança na bagagem.
Ele era o menino de oiro,
campeão da rebeldia
e o canto era o tesoiro
p'ra quem entrava no coro
dessa nova melodia.
Mandou embora os vampiros
que o puseram na prisão;
ouviu gritos e ouviu tiros,
ouviu queixas e suspiros
antes da Revolução.
Se Grândola era morena,
era verde a utopia;
a verdade era um poema
pelo qual valeu a pena
esperar anos por um dia.
O bravo cantor-poeta
deu a cantar o sinal,
boina negra na cabeça
e nos lábios a promessa
de um novo Portugal.
[instrumental / coro]
* [Créditos gerais do disco:]
Tomás Pimentel – fliscorne e trompete
Daniel Salomé – clarinete e saxofone alto
José Miguel Nogueira – guitarra
Rui Alves – percussões
Edgar Caramelo – saxofone tenor
Sérgio Costa – piano, teclados, acordeão, flautas, baixo e guitarra eléctrica
Coro – Andreia Brás, Carla Picanço, Catarina Melgão, Cátia Roque, Inês Peniche, Inês Soares, Joana Frade, Patrícia Escudeiro, Susana Parreira e Vanda Catarino
Direcção do coro – Maria do Amparo
Capa do livro/CD "Abril, Abrilzinho", de Manuel Freire, Vitorino e José Jorge Letria (Praça das Flores e Público, 2006)
Design gráfico – José Maria Nolasco
Ilustrações (cabeças dos artistas) – André Letria
Damos as boas-vindas a 2022 com música instrumental e bem portuguesa, no caso tradicional açoriana, mais concretamente da Ilha do Faial. O belo tema que ora destacamos, "Bons Anos e Anos Bons", faz parte do duplo CD "9 ilhas, 2 Corações", do micaelense Rafael Carvalho, docente e exímio executante de viola da terra, que já divulgámos neste blogue apresentando uns quantos espécimes extraídos de outro dos seus álbuns [cf. Um Natal à viola da terra, por Rafael Carvalho].
Os tempos que decorrem não estão, pelas razões sobejamente conhecidas, para euforias e festas ribombantes, pelo que não se pode considerar insólito saudar a chegada do Ano Novo ouvindo música serena, aproveitando para fazer votos de que o ciclo de 365 dias que hoje de iniciou seja mais benéfico para a Humanidade do que o transacto.
A entrada de um novo ano é também a ocasião em que se costuma exprimir desejos: além do acima expresso, gostaríamos que a música tradicional portuguesa (cuidadosamente recriada e sem cedências ao mau gosto) passe a merecer mais atenção da parte de quem manda na programação da Antena 1. A situação de marginalização deste género musical pelo canal generalista da rádio do Estado não é recente: remonta a 2003 quando, por iniciativa do recém-nomeado director-geral António Luís Marinho, foi implantada a 'playlist' que passou a acolher somente os produtos (ou subprodutos) do chamado 'mainstream' (leia-se música pop e afim de cariz supostamente mais comercial). A música de raiz ou feição autenticamente portuguesa foi banida e, uns anos mais tarde, em Setembro de 2006, o director sucedâneo, Rui Pêgo, face à constestação de muitos ouvintes despeitados (neles se contando o escrevente destas linhas), acedeu em criar uma rubrica chamada "Cantos da Casa" [>> RTP-Play], a cargo do Sr. Armando Carvalhêda, que era emitida pouco antes do sinal horário das 15h:00, mini-gueto aquele que na 'rentrée' de 2015 foi transferido para a madrugada (às 05h:55). Na sequência de uma onda de reclamações, foi criado aos domingos, após o noticiário das 07h:00, o programa alargado "Cantos da Casa (Fim-de-Semana)" [>> RTP-Play], também da responsabilidade do Sr. Armando Carvalhêda. Os horários esconsos reflectem bem o desdém que Rui Pêgo devotava à música tradicional portuguesa (desdém esse também evidente na abolição, em meados de 2009, do premiado e muitíssimo amado "Lugar ao Sul" levada a cabo em conluio com o já referido António Luís Marinho, que na altura ocupava o lugar de vogal do conselho de administração com o pelouro dos conteúdos). O emérito profissional da nossa rádio de seu nome Armando Carvalhêda saiu de serviço em finais de 2020, por ter atingido 70 anos de idade e ser obrigado a aposentar-se, sem que lhe fosse dada a oportunidade de continuar a colaborar com a estação pública, nos mesmos moldes dos também aposentados e bem mais velhos José Duarte e Jorge Costa Pinto, o que teve como consequência a supressão dos espaços que vinha mantendo e nos quais dava guarida a um extenso rol de artistas não presentes na 'playlist' da Antena 1, entre os quais o talentoso músico Rafael Carvalho.
Que 2022 seja, pois, o ano em que a boa música tradicional portuguesa (e também a irmã galega – porque não?) passe a ter a necessária e conveniente divulgação na Antena 1!
Bons Anos e Anos Bons
Música: Tradicional (Ilha do Faial, Açores)
Arranjo: Rafael Carvalho, com base na partitura publicada na pág. 277 do livro "Bailhos, Rodas e Cantorias" de Júlio Andrade.
Intérprete: Rafael Carvalho* (in 2CD "9 ilhas, 2 Corações": CD 1, Rafael Carvalho, 2018)
Capa do livro "Bailhos, Rodas e Cantorias: Subsídios para o registo do folclore das ilhas do Faial, Pico, Flores e Corvo", de Júlio Andrade (Lisboa: Comissão de Recolha e Divulgação do Folclore do Distrito da Horta, s.d.)
Desenho – Rogério Silva
Fernando Lopes-Graça foi, indubitavelmente, o compositor erudito português que mais se interessou pelo nosso cancioneiro tradicional e disso são bom testemunho as largas dezenas de canções regionais que harmonizou e, nalguns casos, musicou de raiz, nelas se incluindo as respeitantes ao ciclo natalício (Natal, Janeiras, Reis). A este repertório foi integralmente consagrado o duplo CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II", com as interpretações de Lisboa Cantat (Coro Sinfónico e Coro de Câmara), sob a direcção de Jorge Carvalho Alves, e do Coro Infantil da Universidade de Lisboa, dirigido por Erica Mandillo, edição essa que saiu em 2012 com o selo da Numérica. Ao revisitarmos, há dias, este notável trabalho, pensámos que o 115.º aniversário do nascimento de Fernando Lopes-Graça, que se deu a 17 de Dezembro, seria um óptimo pretexto para celebrarmos, no blogue "A Nossa Rádio", o Natal de 2021 com uns quantos espécimes presentes na referida edição discográfica. Escolhemos oito e demos-lhes a sequência que nos pareceu mais lógica. Esperamos que sejam do agrado dos visitantes desta página, e tanto mais satisfeitos ficaremos se para alguns deles a audição destas admiráveis peças corais constituir uma grata descoberta.
A Antena 2, na passada terça-feira, após as 19h:00, transmitiu em directo o concerto "Natal Português" que o Ensemble São Tomás de Aquino, dirigido por João Andrade Nunes, levou a efeito no Auditório do Museu Nacional de Arte Antiga, e cujo programa incluiu canções harmonizadas por Fernando Lopes-Graça e por outros compositores e regentes corais (Jorge Croner de Vasconcellos, Eurico Carrapatoso, Mário de Sampayo Ribeiro, Christopher Bochmamn, Manuel Simões, João Andrade Nunes e José Firmino) [cf. 'post' no Facebook do MNAA]. Registamos com agrado, obviamente, a transmissão daquele concerto. Porém, não podemos deixar de lamentar a não existência na actual grelha de espaços reservados a música portuguesa editada em disco (abrangendo todas as épocas e estilos) e a gravações, existentes no arquivo histórico, de concertos e recitais realizados em Portugal, bem como de programas de autor. Se existissem, os ouvintes saberiam que neles poderiam ouvir, na presente quadra, repertório natalício, quer extraído de discos, quer resgatado do arquivo histórico. Enquanto João Pereira Bastos foi director de programas da Antena 2 esses espaços existiam e, mesmo depois da sua saída, que aconteceu em 2005, e da subsequente e tresloucada desestruturação da grelha, o programa "Memória" manteve-se no ar até finais de 2019 [>> RTP-Play]. E durante alguns anos (de 2013 a 2019) houve também um espaço de uma hora semanal, intitulado "Ponto PT" [>> RTP-Play], justamente dedicado à divulgação de obras de autores portugueses publicadas em CD. Por que motivo foram suprimidos? A lacuna é gritante e intolerável no serviço público de rádio, pelo que urge que seja colmatada tão brevemente quanto possível!
E a Antena 1, como tem celebrado musicalmente o Natal? Embora não fosse extravagância alguma ter na sua 'playlist' harmonizações de canções populares e/ou eruditas feitas para coros, podia e devia deitar mão ao substancial acervo de recriações gravadas por categorizados grupos e intérpretes individuais que laboram ou laboraram no campo da música tradicional portuguesa. Demo-nos ao cuidado, nos últimos dias, de fazer algumas incursões à Antena 1 para averiguar qual o repertório natalício que estava a ser oferecido aos ouvintes e nem uma canção portuguesa lográmos ouvir. Apenas as costumeiras cançonetas pop anglo-saxónicas que por alturas do Natal os canais privados, como a RFM e a M80, passam. Perguntamos: poder-se-á aceitar e tolerar que o canal generalista da rádio pública, atendendo às particulares obrigações que tem no domínio da divulgação de música portuguesa (não erudita mas de qualidade, importa frisar) ignore o património musical/fonográfico do seu país e se limite a imitar, preguiçosamente, o que fazem as rádios comerciais? Tal atitude, além de culturalmente criminosa, tem o efeito colateral de dar argumentos àqueles que contestam (e com razão, há que reconhecê-lo) serem obrigados a suportar uma rádio que lhes dá a mesma música que podem ouvir nas que vivem da publicidade.
Pela Noite de Natal
Letra e música: Tradicional (Beira Baixa e Alentejo)
Harmonização: Fernando Lopes-Graça (Canção n.º 7 da "Primeira Cantata do Natal: Sobre Cantos Tradicionais Portugueses de Natividade", Op. 61, LG 15, 1945-50)
Intérprete: Coro Sinfónico Lisboa Cantat*, dir. Jorge Carvalho Alves (in 2CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II": CD 1, Numérica, 2012)
Pela noite de Natal,
Noite de tanta alegria,
Caminhando vai José, | bis
Caminhando vai Maria, |
Ambos os dois p'ra Belém,
Mais de noite que de dia;
E chegaram a Belém, | bis
Já toda a gente dormia. |
Abri a porta, porteiro,
Porteiro da portaria!
Não deu resposta o porteiro, | bis
Porque também já dormia. |
Só encontraram pousada
Dentro duma 'strebaria!
Ali ficaram os dois | bis
Até ao romper do dia. |
* Coro Sinfónico Lisboa Cantat
Direcção – Jorge Carvalho Alves
Produção musical – Manon Marques
Produção – Associação Musical Lisboa Cantat
Gravado por Luís Delgado no Auditório da Faculdade de Medicina Veterinária, Lisboa, a 12 de Setembro de 2008, e no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, em 2011
Edição e mistura – Luís Delgado, no estúdio Sonic State
Nasceu, Já Nasceu!
Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Harmonização: Fernando Lopes-Graça (Canção n.º 3 da "Segunda Cantata do Natal", Op. 135, LG 33, 1960-61)
Intérprete: Coro de Câmara Lisboa Cantat*, dir. Jorge Carvalho Alves (in 2CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II": CD 2, Numérica, 2012)
Nasceu! Nasceu!
Nasceu, já nasceu
Meu bem, meu Menino,
Amor pequenino!
Nasceu, já nasceu!
Nos braços de amor,
Já Ele está nascido,
Jesus, como belo,
Jesus, como lindo!
Nasceu! Nasceu!
Nasceu, já nasceu,
Meu bem, meu Menino,
Amor pequenino!
Nasceu, já nasceu!
Nos braços da aurora
Já Ele está nascido,
Jesus tão formoso,
Jesus tão querido!
Nasceu, nasceu, nasceu!
Já nasceu!...
* Coro de Câmara Lisboa Cantat
Direcção – Jorge Carvalho Alves
Produção musical – Manuel Rebelo
Produção – Associação Musical Lisboa Cantat
Gravado por Luís Delgado no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, em 2011, e no Auditório do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em 2012
Edição e mistura – Luís Delgado, no estúdio Sonic State
Esta Noite, à Meia-Noite
Letra e música: Tradicional portuguesa
Harmonização: Fernando Lopes-Graça (Canção n.º 12 da "Primeira Cantata do Natal: Sobre Cantos Tradicionais Portugueses de Natividade", Op. 61, LG 15, 1945-50)
Intérprete: Coro Sinfónico Lisboa Cantat*, dir. Jorge Carvalho Alves (in 2CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II": CD 1, Numérica, 2012)
Oh! Oh! Oh!
Esta noite, à meia-noite,
Ouvi cantar ao divino:
Eram os anjos do Céu
A embalar o Menino.
Oh! Oh! Oh!...
O Menino 'stá na neve,
O frio O faz tremer;
Oh meu Menino Jesus,
Quem Vos pudera valer!
Oh! Oh! Oh!...
* Coro Sinfónico Lisboa Cantat
Direcção – Jorge Carvalho Alves
Produção musical – Manon Marques
Produção – Associação Musical Lisboa Cantat
Gravado por Luís Delgado no Auditório da Faculdade de Medicina Veterinária, Lisboa, a 12 de Setembro de 2008, e no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, em 2011
Edição e mistura – Luís Delgado, no estúdio Sonic State
Chacota do Menino
Letra: Tradicional portuguesa
Música: Fernando Lopes-Graça (Canção n.º 8 do "Presente de Natal para as Crianças", Op. 208, LG 45, 1978)
Intérprete: Coro Infantil da Universidade de Lisboa*, dir. Erica Mandillo (in 2CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II": CD 2, Numérica, 2012)
Todos os pastores,
Vamos a Belém
A ver o Menino
Que a Senhora tem! [bis]
Trá lá lá lá...
Todos os pastores,
Queiram vir comigo
A ver o Menino
Jesus nascido. [bis]
Todos os pastores,
Vamos a bailar!
'Stá noite fria
Para acalentar... [bis]
* Coro Infantil da Universidade de Lisboa
Direcção – Erica Mandillo
Produção musical – Erica Mandillo
Produção – Associação Musical Lisboa Cantat
Gravado por Luís Delgado na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em 2011
Edição e mistura – Luís Delgado, no estúdio Sonic State
Da Serra Veio um Pastor
Letra e música: Tradicional (Ilha da Madeira)
Harmonização: Fernando Lopes-Graça (Canção n.º 5 da "Segunda Cantata do Natal", Op. 135, LG 33, 1960-61)
Intérprete: Coro de Câmara Lisboa Cantat*, dir. Jorge Carvalho Alves (in 2CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II": CD 2, Numérica, 2012)
Trá lá lá...
Da serra veio um pastor,
À minha porta bateu;
Trouxe uma carta que diz
Que o Deus... que o Deus-Menino nasceu.
Trá lá lá...
A pastora também trouxe
Sua roca de fiar,
Para não perder o tempo
Quando... quando ao Menino cantar.
Trá lá lá...
Ó Menino, que nascestes
Nas palhas frias do chão,
Dos pastorinhos do campo
Tende... tende muita compaixão.
Trá lá lá, Ah!
* Coro de Câmara Lisboa Cantat
Direcção – Jorge Carvalho Alves
Produção musical – Manuel Rebelo
Produção – Associação Musical Lisboa Cantat
Gravado por Luís Delgado no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, em 2011, e no Auditório do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em 2012
Edição e mistura – Luís Delgado, no estúdio Sonic State
Ó Meu Menino Jesus
Letra e música: Tradicional (Beira Alta e Beira Litoral)
Harmonização: Fernando Lopes-Graça (Canção n.º 2 da "Primeira Cantata do Natal: Sobre Cantos Tradicionais Portugueses de Natividade", Op. 61, LG 15, 1945-50)
Intérprete: Coro Sinfónico Lisboa Cantat*, dir. Jorge Carvalho Alves (in 2CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II": CD 1, Numérica, 2012)
Ó meu Menino Jesus,
Da lapa do coração,
Dai-me Vós alguma coisa,
Que 'stá pobre o meu surrão!
Ó meu Menino Jesus,
Eu Vos venho entregar
Esta linda pomba branca,
Para o Menino brincar!
Cheguei aqui a Belém,
E venho muito cansado,
Of'recer este cabrito
Ao meu Menino adorado.
* Coro Sinfónico Lisboa Cantat
Direcção – Jorge Carvalho Alves
Produção musical – Manon Marques
Produção – Associação Musical Lisboa Cantat
Gravado por Luís Delgado no Auditório da Faculdade de Medicina Veterinária, Lisboa, a 12 de Setembro de 2008, e no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, em 2011
Edição e mistura – Luís Delgado, no estúdio Sonic State
O Choro do Menino
Letra: Tradicional portuguesa
Música: Fernando Lopes-Graça (Canção n.º 3 do "Presente de Natal para as Crianças", Op. 208, LG 45, 1978)
Intérprete: Coro Infantil da Universidade de Lisboa*, dir. Erica Mandillo (in 2CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II": CD 2, Numérica, 2012)
O Menino chora, chora,
Porque não tem sapatinhos;
Haja quem dê os tacões, [bis]
Que eu lhe darei os saltinhos. [bis]
Ó meu Menino Jesus,
Descalcinho pelo chão,
Metei os vossos pezinhos [bis]
Dentro do meu coração! [bis]
* Coro Infantil da Universidade de Lisboa
Direcção – Erica Mandillo
Produção musical – Erica Mandillo
Produção – Associação Musical Lisboa Cantat
Gravado por Luís Delgado na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em 2011
Edição e mistura – Luís Delgado, no estúdio Sonic State
Caminham as Três Marias
Letra: Tradicional portuguesa
Música: Fernando Lopes-Graça (Canção n.º 5 do "Presente de Natal para as Crianças", Op. 208, LG 45, 1978)
Intérprete: Coro Infantil da Universidade de Lisboa*, dir. Erica Mandillo (in 2CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II": CD 2, Numérica, 2012)
Caminham as três Marias
De noite pelo luar,
Dirigidas a Belém,
P'ró Deus-Menino adorar. [bis]
Oh Jesus Menino,
Boquinha tão doce!
Olhou para mim,
Olhou para mim,
Dormiu-se...
Dormiu-se e ficou-se.
Nasceu em pobre mansarda,
Onde boi e mula havia,
Sem mantas nem cobertores,
Em uma noite tão fria. [bis]
Oh Jesus Menino,
Boquinha tão doce!
Olhou para mim,
Olhou para mim,
Dormiu-se...
Dormiu-se e ficou-se.
* Coro Infantil da Universidade de Lisboa
Direcção – Erica Mandillo
Produção musical – Erica Mandillo
Produção – Associação Musical Lisboa Cantat
Gravado por Luís Delgado na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em 2011
Edição e mistura – Luís Delgado, no estúdio Sonic State
Capa do duplo CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II", de Lisboa Cantat (Coro Sinfónico | Coro de Câmara), dir. Jorge Carvalho Alves; Coro convidado: Coro Infantil da Universidade de Lisboa, dir. Erica Mandillo (Numérica, 2012)
Concepção – Ana Ribeiro de Carvalho
Design gráfico, selecção e tratamento da fotografia de Fernando Lopes-Graça – Mrmito e Numérica
LUIZA TODI, uma das maiores cantoras líricas do seu tempo, nasceu em Setúbal, a 9 de Janeiro de 1753, e faleceu em Lisboa, a 1 de Outubro de 1833. Filha de Ana Joaquina de Almeida e do mestre de música Manuel José de Aguiar, recebeu no baptismo o nome de Luísa Rosa de Aguiar.
Ainda na sua terra natal, entre 1758 e 1763, Luísa e três dos seus irmãos familiarizam-se com a arte de representação frequentando a residência de uma dama setubalense que organizava espectáculos teatrais em privado. Com dez anos de idade, ingressou no teatro profissional por mão de seu pai. Por contrato firmado a 6 de Julho de 1763, Manuel José de Aguiar e quatro dos seus filhos mais velhos (Cecília Rosa, António José, Isabel Ifigénia e Luísa Rosa) passavam a integrar a companhia do Teatro do Bairro Alto (Teatro do Conde de Soure).
Da prestação de Luísa no teatro declamado, que se cingiria à fase inicial do seu percurso artístico, há registo do seu desempenho como Faustina em "Tartufo" (versão da comédia de Molière realizada por Manuel de Sousa, sob encomenda do Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello), provavelmente em 1768. Casou-se, a 28 de Julho de 1769, com o napolitano Francesco Saverio Todi, primeiro violinista da orquestra do Teatro, que enviuvara dois meses antes. Pouco tempo depois, a cantora sadina, com a sua voz de mezzosoprano, seguiria a via operática. Na temporada de 1770-1771 do Teatro do Bairro Alto, cantou em três drammi giocosi per musica, dois dos quais musicados por Giuseppe Scolari. Na sequência de uma querela que surgiu, durante a execução de "Il bejglierbei di Caramania", entre aquele compositor e Francesco Todi, este e a mulher desligaram-se da Casa da Ópera do Bairro Alto. Contratada pelo Teatro do Corpo da Guarda, a cantora apresentou-se naquela casa de espectáculos do Porto entre 1771 e Janeiro de 1776, com um interregno no período compreendido entre Setembro de 1774 e finais de Janeiro do ano seguinte, em que, de regresso à capital, permaneceu incorporada no elenco do Teatro da Rua dos Condes, composto quase em exclusivo por artistas italianos. Em Lisboa cantou apenas em "Il Calandrano", saindo do Condes a meio dos ensaios de outra ópera cómica, em virtude de desentendimentos com os corpos directivos da Sociedade instituída para a subsistência dos Teatros Públicos da Corte. A última actuação de Luiza Todi em salas públicas do território português ocorreria na cidade do Porto, em 1775. Antes disso, em Junho de 1772, os frequentadores do Teatro do Corpo da Guarda puderam assistir ao seu desempenho em "Demoofonte", uma ópera do género sério a que melhor se ajustavam as suas características vocais e a expressão do seu canto. Para trabalhar e apurar os dotes canoros de Luiza terá contribuído o próprio marido e, acima de tudo, outro napolitano, o compositor David Perez, seu mestre dos tempos do Teatro do Bairro Alto e autor da partitura daquele "Demoofonte" de 1772.
Os Todi saíram de Portugal em 1777 a fim de Luiza atender a convites que lhe chegavam do país vizinho para se exibir em recitais privados, o que viria a suceder com relativa frequência noutros países ao longo do seu percurso artístico. A estreia pública no estrangeiro só viria a ocorrer em Londres, no King’s Theatre (Haymarket), no mês de Novembro do mesmo ano de 1777. Aí actuou, até Junho de 1778, em seis drammi giocosi per musica. Após o exórdio londrino, começou a dedicar-se ao género operático sério vindo posteriormente a pôr termo aos desempenhos na ópera cómica.
Durante vinte e dois anos, a contar de 1777, a Todi construiu uma brilhante carreira internacional, acumulando sucessos de público e aclamações da crítica nas muitas cidades europeias de diferentes áreas linguístico-culturais onde a sua voz se fez ouvir. Em França participou em quatro temporadas dos Concerts Spirituels parisienses (1778-1779; 1779-1780; 1783, 1789) e realizou uma digressão pelo sul do país que se estenderia também a terras suíças (1779). Na área de língua alemã, actuou em cidades austríacas (Viena, entre outras) e germânicas (1781-1782), tendo sido contratada duas vezes por Frederico II para cantar na capital da Prússia, Berlim (1783-1784; 1787-1789). Na Rússia apresentou-se em Sampetersburgo e Moscovo (1784-1787) ao serviço da czarina Catarina II, a quem dedicou a festa teatrale per musica "Pollibia" (1784), com libreto da sua autoria. Após uma curta digressão nos Países-Baixos, durante alguns meses da Primavera de 1790, a Todi chegava a Veneza, no Outono desse ano, mas a sua estreia na Península Itálica tivera lugar na cidade de Turim, cerca de oito anos antes. A temporada veneziana (1790-1791) no Teatro di San Samuele, que registou um tão memorável triunfo a ponto de ficar conhecida como "anno Todi", marcava o início da digressão italiana da cantora, que a levaria a Pádua, Bérgamo (1791) e novamente a Turim (1791-1792).
Antes de concluir o périplo italiano e assim, também, a sua carreira internacional, viajou até à Península Ibérica, a fim de cumprir um contrato para actuar num teatro madrileno por duas temporadas (1792-1793; 1793-1794). Entre estas duas estações teatrais, deslocou-se a Lisboa onde cantou na Real Casa Pia, a 14 de Maio de 1793, num espectáculo integrado nas festas pelo nascimento da infanta Maria Teresa, e participou, ainda em Maio, num sarau no palácio de Anselmo José da Cruz Sobral. No dia 12 de Janeiro de 1799, Luiza Todi terá actuado pela última vez numa sala pública estrangeira, na récita que rematava três temporadas triunfais (de 1796 a 1799) no Teatro di San Carlo. Foi isto em Nápoles, uma das mais importantes praças operáticas da Europa.
Ainda em 1799, os Todi regressaram a Portugal, fixando residência no Porto. Aí, cerca de quatro anos mais tarde, a 28 de Abril de 1803, Luiza perdeu o amado marido, e veio a sofrer, a 29 de Março de 2009, outro enorme revés: a perda nas águas do Douro dos seus mais valiosos pertences (dinheiro e jóias) quando caiu ao rio, onde por pouco não morreu afogada, ao tentar entrar numa barca para fugir da soldadesca francesa que, comandada por Soult, invadia Portugal pela segunda vez. Em finais de 1811, Luiza Todi instalou-se definitivamente em Lisboa. Cerca de dez anos antes da morte, cegou por completo, derradeira manifestação de uma grave doença ocular que se declarara durante a temporada veneziana e já lhe fizera perder a visão de um olho (1813). Vitimada, ao que se supõe, pelas sequelas de um acidente vascular cerebral, faleceu no 2.º andar do n.º 2 da Travessa da Estrela (Rua Luísa Todi, desde 1917), situada bem perto do local onde outrora se erguera a casa de espectáculos onde se apresentara pela primeira vez em público, o Teatro do Bairro Alto. Foi sepultada numa dependência da Igreja da Encarnação, ao Chiado, posteriormente transformada em loja de comércio. [adaptado do texto publicado no site do Instituto Camões].
Mário Moreau, na sua biografia de Luiza Todi, editada em 2002, lamentava-se, e com inteira razão, que «esta extraordinária figura da nossa arte lírica ainda não teve a consagração merecida, muito embora seja, de todos os cantores portugueses e só a par de Tomás Alcaide, quem menos ficou no esquecimento.»
A distinta realizadora de rádio Margarida Lisboa também nutria por ela uma inexcedível admiração, evocando a sua memória em vários programas que manteve na Antena 2 e não se poupando a esforços no sentido de ser rendida à maior cantora lírica nascida em terras lusas a devida e justa homenagem nacional, que poderia ser levada a cabo no ducentésimo quinquagésimo aniversário do seu nascimento (2003). Infelizmente, os políticos que então estavam no poder foram moucos aos seus apelos. Atitude que, aliás, está em perfeita consonância com a falta de reconhecimento que Luiza Todi recebeu de quem governava Portugal quando viveu, confirmando a desditosa tradição lusitana, de que Camões já se queixava e bem sofreu na pele, em que se vota ao desprezo os mais valorosos e se premeia com comendas e mordomias os medíocres que bajulam os poderes e interesses instalados.
No programa "Quem?", que começou em Janeiro de 2000, foi justamente à ilustríssima cantora que Margarida Lisboa deu honras de abertura com um ciclo de vários episódios (seis, pelo menos). E para desfiar as memórias da cantora, que a realizadora redigira servindo-se dos dados biográficos compilados por Mário Moreau, foi convidada Carmen Dolores.
Quando a emérita actriz nos deixou, em Fevereiro passado, a direcção da Antena 2 bem podia ter resgatado esse admirável ciclo composto por palavras ditas (Carmen Dolores dando voz às 'memórias' da cantora, Elisa Lisboa interpretando a czarina Catarina II da Rússia, André Maia representando Napoleão Bonaparte, Álvaro Faria encarnando Beethoven, etc.), envoltas em primorosa sonorização, intercaladas com palavras cantadas (excertos de óperas que Luiza Todi interpretou). Lamentavelmente, não o fez. O realizador João Pereira Bastos, ao invés, teve a mui louvável iniciativa de preencher duas edições do seu programa "Ecos da Ribalta", emitidas em Maio, com a versão condensada e remontada desse ciclo, que Margarida Lisboa, em 2004, havia editado em CD com o título "Luísa Todi: A Cantora da Nação" e oferecera à insigne actriz.
Aqui deixamos os links dessas duas edições do programa de João Pereira Bastos, em evocação de Luiza Todi, neste Dia Mundial da Música em que se completam 188 anos sobre a sua morte, e em reiterada homenagem a outras duas distintas mulheres portuguesas: Carmen Dolores e Margarida Lisboa. Boa audição!
ECOS DA RIBALTA | 19 Mai. 2021 [>> RTP-Play] Carmen Dolores em "Luísa Todi: A Cantora da Nação I"
ECOS DA RIBALTA | 26 Mai. 2021 [>> RTP-Play] Carmen Dolores em "Luísa Todi: A Cantora da Nação II"
Sobrecapa do livro "Cantores de Ópera Portugueses: Volume I", de Mário Moreau (Livraria Bertrand, 1971)
Capa do livro "Luísa Todi: 1753-1833", de Mário Moreau (Hugin Editores, 2002)
Edição comemorativa do 250.º aniversário do nascimento de Luísa Todi. Retrato de Luiza Todi (1785, óleo sobre tela, 61,7 cm x 78,8 cm) por Marie-Louise-Élisabeth Vigée Le Brun, actualmente em exposição no Museu Nacional da Música, Lisboa.
Gustave Courbet, "La mer d'automne" ("Mar de Outono"), 1867, óleo sobre tela, 54 × 73 cm, Ohara Museum of Art, Kurashiki, Japão
[Para ver o quadro em ecrã inteiro, clicar aqui]
Quando se compara a vida de uma pessoa ao ciclo das estações do ano, com início no equinócio da Primavera, quanto mais tarde surgir o Outono dessa vida tanto melhor: para a própria, em primeiro lugar, e para aquelas que ela ama e que a amam (que fundeiam o seu fado no cais desse Outono adiado, como diz José Medeiros dirigindo-se à sua mulher, Conceição Medeiros).
No que respeita ao ciclo das estações determinadas pelo movimento de translação da Terra em torno do Sol, é o equinócio do Outono que marca o início da estação que sucede ao Verão. Neste 2021, no hemisfério norte aconteceu às 20h:21 (hora de Portugal Continental, 19h:21 UTC). Estando por debelar a pandemia vírica que há quase dois anos vem assolando a Humanidade, o Outono que ora começa não poderá ser vivido em pleno por muitas pessoas, principalmente pelas que têm sistemas imunitários mais frágeis. Para essas e, em certa medida, também para a generalidade da população, este Outono será constrangido, restando a esperança de que o próximo seja perfeitamente normal. Dá-se, por assim dizer, um adiamento pelo período de um ano do Outono plena e livremente desfrutável. Para já, a audição da belíssima canção "Outono Adiado", de e por José Medeiros, impregnada de nostalgia como é próprio do tempo outonal, constitui um excelente lenitivo para impaciência de esperar.
Quem se der ao cuidado (e ao desprazer) de acompanhar a emissão da Antena 1, fora dos escassos programas de autor que divulgam música, facilmente se dá conta da fraca qualidade da oferta musical, da presença excessiva de produção estrangeira não lusófona, quase toda medíocre, e da ausência de um extenso rol de artistas portugueses de mérito reconhecido. O categorizado poeta, compositor e intérprete José Medeiros é uma dessas vítimas do criminoso silenciamento. Assim acontece por vontade de quem trata da 'playlist', decerto com o beneplácito das cúpulas da empresa Rádio e Televisão de Portugal, para as quais as obrigações do serviço público de rádio no capítulo da música (de língua) portuguesa, legalmente estabelecidas, não são mais do que letra-morta. Mas não pode ser! Urge que se ponha côbro a tal indecência! Num Estado cujos governantes não se cansam de apregoar que é de direito democrático não se pode tolerar que haja entidades suportadas pelos contribuintes a agir em flagrante infracção das leis e dos demais diplomas regulamentares promulgados pelos órgãos de soberania.
Outono Adiado
Letra e música: José Medeiros (Para a São)
Intérprete: José Medeiros* (in Livro/2CD "Fados, Fantasmas e Folias": CD 2, Algarpalcos, 2010)
[instrumental]
Na minha voz há um navio
Sulcando o mar do desencanto;
Na minha voz, um desvario,
Uma incerteza, um quebranto.
Já lancei uma garrafa ao mar,
Sei quanto é preciso navegar;
Meu anseio é fundear meu fado
No cais desse teu Outono adiado.
Na tua voz há um veleiro
Engravidando as marés:
Fonte de luz, doce luzeiro
Amanhecendo no convés.
Rumos de formosas caravelas
Sulcando a poeira das estrelas...
Ancorei as rimas do meu fado
No cais desse teu Outono adiado.
Se eu tatuar a rosa-dos-ventos
Nas levadias desse mar encapelado,
Se eu for lavrador de encantamentos
Teu varadouro há-de ser meu chão sagrado.
[instrumental]
Já lancei uma garrafa ao mar,
Sei quanto é preciso navegar;
Meu anseio é fundear meu fado
No cais desse teu Outono adiado.
Na tua voz há um veleiro
Engravidando as marés:
Fonte de luz, doce luzeiro
Amanhecendo no convés.
Rumos de formosas caravelas
Sulcando a poeira das estrelas...
Ancorei as rimas do meu fado
No cais desse teu Outono adiado.
* José Medeiros – piano e voz
Manuel Rocha – violinos
Gil Alves – flauta
Jorge Silva – sintetizador
"Lisboa à Espera", sardinha criada por João José Largueiras Martins | Concurso Sardinhas Festas de Lisboa 2014
Os festejos dos santos populares acontecem em Junho, e não noutro mês qualquer, porque são adaptações feitas pela Igreja de ancestrais cultos pagãos ao Sol que se realizavam, como está implícito, por alturas do solstício de Verão. Por causa da presente pandemia de COVID-19, ademais verificando-se a disseminação de uma nova estirpe mutante altamente contagiosa, denominada delta, a Câmara Municipal de Lisboa deliberou – e bem –, a exemplo do que fez no ano transacto, não promover as tradicionais festas da cidade e interditar os arraiais e as marchas populares. Procedimento idêntico ou medidas impeditivas da aglomeração de pessoas foram ou devem ser adoptados pelas edilidades do Porto, de Braga e das demais localidades do país onde era costume haver festas e arraiais sob a égide de Santo António, de S. João Baptista, de S. Pedro ou, já em Julho, Agosto ou Setembro, de outros santos. Neste domínio da diversão (e não só) podemos afirmar que o Verão de 2021 será atípico e macambúzio, quase como se fosse Inverno, não restando aos mais dados a folguedos e petiscadas conviviais de sardinhas e bifanas regadas a tinto outra opção (consciente e responsável) que a de esperar pelo Verão de 2022, fazendo figas para que não haja necessidade de prolongar a espera para além daquele. Em termos musicais, o tema "À Espera do Verão", do Trio Fado, não podia vir mais a propósito para ser destacado neste dia em que começou (no hemisfério norte, evidentemente) um Estio que não poderá ser plenamente vivido, mas que tem o condão de fomentar no espírito da maioria das pessoas a legítima esperança de que o próximo se venha a revelar jubiloso.
Dos muitos emigrantes portugueses e lusodescendentes que, além-fronteiras, se dedicam à música (instrumental e/ou cantada em português) poucos produzem obra com qualidade bastante que a torne digna de ser apreciada pelos co-patrícios deste rectângulo lusitano minimamente exigentes e dotados de bom gosto. Entre esses escassos mas honrosos casos contam-se os que formam o Trio Fado, grupo radicado em Berlim que até à data publicou três álbuns, o segundo dos quais em 2009, de título "PortoLisboa", que contém o espécime ora apresentado.
Não sabemos se a RDP-Internacional tem divulgado (ou alguma vez divulgou) repertório do Trio Fado, mas queremos acreditar que sim. Na 'playlist' da Antena 1 é certo que nunca entrou qualquer tema do Trio Fado e temos também sérias dúvidas de que no único e esconso reduto da grelha consagrado ao fado, chamado "Alma Lusa", algo do grupo já marcou presença. E aqui não podemos deixar de apontar o dedo acusatório ao primeiro canal da rádio estatal pelo continuado alheamento ante a boa produção musical da diáspora portuguesa. Tal atitude, além de tremendamente injusta para esses artistas, representa um inqualificável acto de sonegação cultural aos ouvintes de cá, os quais, em razão da contribuição que são obrigados a desembolsar mensal ou bimestralmente, mereciam mais consideração da parte da (sua) Antena 1.
À Espera do Verão
Letra: Maria Carvalho
Música: Frederico Valério ("Não Sei Porque te Foste Embora")
Intérprete: Trio Fado* (in CD "PortoLisboa", Trio Fado, 2009)
[instrumental]
Caminho acompanhando o tempo,
Um tempo que me sabe a curto...
O Inverno aceita o descanso,
Incerto dá lugar ao sol
Que, ainda tão meigo, ao de leve
Toca nas vozes que despertam:
Sem dó esquecem o Inverno,
Viram costas e entoam
Cantos de louvor ao Sol.
Cidade nova me acolhe,
Fresca e embrulhada em cheiro
De tanta lembrança antiga...
Quieta e entregue ao vento,
Agora transformado em brisa,
Ouço o murmúrio de água numa fonte
Que brinca como um riacho de um monte.
[instrumental]
A porta, que conteve a ânsia
De vida de tanta criança,
Range ao abrir, depois de longa chuva,
Com o grito alegre de gente miúda.
[instrumental]
Aberto, o céu dá passagem
A cheiro de sardinha e vinho,
De cigarro e de café...
É o Sr. Verão que nos visita:
Vem em sopro de calor,
Mas diz que ainda não fica.
* Trio Fado:
Maria Carvalho – voz
António de Brito – viola
Daniel Pircher – guitarra portuguesa
Benjamin Walbrodt – violoncelo
Os soldados portugueses que, quando se deu o derrube do Estado Novo, a 25 de Abril de 1974, estavam mobilizados nas colónias africanas, então eufemisticamente denominadas províncias ultramarinas, a passar "tormentas com fartura d'incertezas" (à parte o sofrimento psíquico que as guerras sempre provocam nos que nelas intervêm directamente, os danos físicos e a morte podiam ocorrer a qualquer momento), embora tendo deixado de haver razões para continuarem a combater os chamados 'turras', pois uma das linhas programáticas do triunfante Movimento das Forças Armadas (MFA) era precisamente acabar com a guerra colonial, não lograram regressar de imediato às suas terras na Metrópole, como então se designava este rectângulo ocidental da Península Ibérica. Por razões de logística e outras, muitos viram-se na contingência de lá permanecer durante vários meses. E entre eles não eram poucos os que haviam cá deixado namorada ou noiva cujas cartas, como é fácil de entender, eram sempre muito esperadas e desejadas. É a essas notícias do Portugal já liberto da mordaça, em que os cravos se haviam tornado o símbolo da liberdade, que Vitorino Salomé alude na letra da sua belíssima "Marcha Ingénua", cujo esfuziante arranjo magnificamente gizado pelo maestro Sílvio Pleno evoca as bandas filarmónicas que animavam (e ainda hoje animam, se bem que em menor grau) as festas populares e as romarias em cidades, vilas e aldeias de Portugal (os foguetes a estalejar na secção final da marcha servem justamente para frisar o ambiente festivo que rodeia a actuação das bandas filarmónicas). Em véspera dos festejos de Santo António, em Lisboa e noutras localidades portugueses, seria difícil escolher um espécime do repertório de Vitorino mais apropriado do que a jovial "Marcha Ingénua" para com ela também celebrarmos o 80.º aniversário do cantautor e darmos nota da nossa penhorada gratidão por tantas e belas canções com que presenteou os apreciadores de boa música popular portuguesa (a recriada do cancioneiro tradicional e a concebida de raiz). Muito obrigado, Vitorino! E os nossos sinceros parabéns, com votos de longa vida!
Apesar de ser um dos mais distintos e reconhecidos autores, compositores e intérpretes do meio musical português, Vitorino não recebe actualmente das rádios portuguesas (privadas e pública) a devida atenção e divulgação. Estando a sua discografia recheada de pérolas, impõe-se que algumas delas sejam incluídas, ao menos, na 'playlist' da Antena 1, atendendo às suas particulares obrigações no capítulo da música portuguesa. Será um acto da mais elementar justiça ao meritório artista e uma boa maneira de elevar a qualidade da oferta musical do canal, a contento dos ouvintes/contribuintes já saturados de tanto lixo sonoro (exógeno e endógeno).
Marcha Ingénua
Letra e música: Vitorino Salomé
Intérprete: Vitorino* (in LP "Flor de la Mar", EMI-VC, 1983, reed. EMI-VC, 1992, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008; CD "As Mais Bonitas", EMI-VC, 1993, Capitol/EMI Music Portugal, 2012, Parlophone/Warner Music Portugal, 2018; 3CD "Tudo": CD 2 – "Lisboa", EMI Music Portugal, 2005)
[instrumental]
Embarcados p'rás tormentas
Com fartura d'incertezas:
Adeus, cais da felicidade!
Lá vão barcas portuguesas...
Oh! Enganadoras luas,
Trópico de Capricórnio,
Madrastas de bode preto,
Enteadas do demónio!
Oh! Império de má memória,
Dos cães de fila da moda!
Voa, vai, negra andorinha!
Pede à minha namorada
Dê notícias de Lisboa,
Das praças livres, dos cravos,
Das saudades que lhe tenho
De vê-la subir a rua...
A cantar a tal cantiga:
Primavera não esquecida!
Voa, vai, negra andorinha!
Pede à minha namorada
Dê notícias de Lisboa,
Das praças livres, dos cravos,
Das saudades que lhe tenho
De vê-la subir a rua...
A cantar a tal cantiga:
Primavera não esquecida!
[instrumental]
Das saudades que lhe tenho
De vê-la subir a rua...
A cantar a tal cantiga:
Primavera não esquecida!
[foguetes a estalejar / instrumental]
* Arranjo para banda e direcção – Sílvio Pleno
Trompas – António P. da Costa, Francisco C. Frazão
Trompetes – António R. Gomes, António F. Casquinha
Trombone – João N. Costa
Tuba – Domingos Gaspar
Bombardino – Manuel de Faria
Flauta e flautim – António Laureano Martins
Saxofone soprano – José Salomé Vieira
Bateria – José A. Pires
Caixas – José R. Vitorino, António S. de Oliveira
Clarinete – Sílvio Pleno
Acordeões – Baíco, João Lucas
Violas Ovation – Carlos Salomé, Vitorino
Baixo acústico – Pedro Wallenstein
Tuna – Baíco, João Lucas, Pedro Melo, Manuel Vieira e Carlos Salomé
Vozes – Vitorino, Baíco, Carlos Salomé, João Lucas, Manuel Vieira e Mimi
«Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas "Lusíadas", como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: "Alma minha gentil, que te partiste...» [excerto do manuscrito da "Década VIII", atribuído a Diogo do Couto, c.1542-1616].
"Alma minha gentil, que te partiste": um dos mais conhecidos espécimes da Lírica camoniana e também um dos poemas mais belos e pungentes que alguém, em qualquer lugar, alguma vez escreveu a pessoa bem-amada que já não se conta no número dos vivos. Dirigido a uma rapariga oriental, provavelmente chinesa, chamada Dinamene (assim surge designada noutro soneto), que perecera num naufrágio ocorrido, presume-se, ao largo da foz do rio Mekong, o soneto tem como sujeito um homem, o poeta Camões, porque sabemos que foi ele o autor. No entanto, o sexo ou género do sujeito (o mesmo acontecendo com o do objecto) não está inequivocamente expresso nos versos, pelo que podem ser apropriados, com toda a legitimidade, por uma mulher para evocar um saudoso ente querido, trate-se ele de homem, mulher ou transgénero.
Já aqui apresentámos este admirável soneto por duas vozes masculinas – João Villaret [cf. Camões recitado e cantado] e Luís Cília [cf. Camões recitado e cantado (V)] – e por uma feminina – Amália Rodrigues [cf. Camões recitado e cantado (II)]. Nesta revisitação que lhe fazemos, em exclusivo, todas as vozes (três) são femininas – Carmen Dolores, Simone de Oliveira e Elsa Saque – e em abordagens muito distintas entre si: a primeira, recitada; a segunda, cantada em linguagem de fado (sobre melodia de Alfredo Marceneiro); e a terceira, cantada em registo lírico (com música de Fernando Lopes-Graça). Dedicamos esta singela celebração camoniana a todas as pessoas que já passaram pela desoladora experiência de ver partir uma "alma gentil".
A Antena 1, neste 10 de Junho, voltou a olhar para a obra do nosso Poeta maior como um cão quando passa por vinha vindimada. Quer dizer: ignorou-a, pura e simplesmente. Perguntamos: daria assim tanto trabalho pegar em quinze poemas de Camões, uns recitados e outros cantados, e difundi-los ao longo do dia, ao ritmo de um por hora? E era também muito complicado reprogramar a 'playlist', de modo a que oferta musical fosse somente cantada em português? Lamentavelmente, a inércia e o desleixo sobrepuseram-se, uma vez mais, ao dever de prestar serviço público. Vergonhoso!
Alma minha gentil, que te partiste
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Recitado por Carmen Dolores* (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003)
Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na Terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,
roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.
Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Música: Alfredo Duarte "Marceneiro" (Fado CUF)
Intérprete: Simone de Oliveira* (in LP "Mulher, Guitarra", Philips/Poygram, 1984, reed. Universal, 2003)
Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente, | bis
e viva eu cá na Terra sempre triste. |
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente | bis
que já nos olhos meus tão puro viste. |
E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,
roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.
* Simone de Oliveira – voz
Martinho da Assunção – viola
Vital da Assunção – viola
Arménio de Melo – guitarra portuguesa
Fernando Correia Martins – viola baixo
Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Música: Fernando Lopes-Graça (2.ª peça de "Três Sonetos de Camões", Op. 27, LG 168, 1939)
Intérpretes: Elsa Saque* & Nuno Vieira de Almeida (in 2CD "Fernando Lopes-Graça e os Poetas": CD 1, Tradisom, 2006)
Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na Terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,
roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.
* Elsa Saque – voz (soprano)
Nuno Vieira de Almeida – piano
Capa do CD "Poemas da Minha Vida", de Carmen Dolores (Dito e Feito, 2003)
Design gráfico – João Nuno Represas
Capa do LP "Mulher, Guitarra", de Simone de Oliveira (Philips/Poygram, 1984)
Fotografia – Chico Graça
Capa do duplo CD "Fernando Lopes-Graça e os Poetas", de Elsa Saque & Nuno Vieira de Almeida (Tradisom, 2006)
Design e concepção gráfica – Henrique Silva ('Bibito')
Fotografias – Inácio Ludgero