21 junho 2019

Fernando Pardal: "Estio" (Manuel da Fonseca)


© Faísca, 2005 (https://www.flickr.com/photos/faisca/albums)


Em Portugal, não há Verão tão tórrido e tão inclemente para os seres viventes – pessoas, animais e plantas – quanto o do interior alentejano. Dessa severidade extrema, no limiar do insuportável, é bem eloquente o poema de Manuel da Fonseca que tem precisamente por título "Estio". O texto foi primeiramente publicado em 1941, no livro "Planície" (Coimbra, Col. Novo Cancioneiro, N.º 6), e republicado nas sucessivas edições da poesia reunida do ilustre escritor de Santiago do Cacém, sob os títulos de "Poemas Completos" e de "Obra Poética".
Terá sido provavelmente numa destas compilações que o também alentejano (bejense) Paulo Ribeiro o leu e achou por bem musicá-lo a fim de fazer parte do seu álbum de tributo a Manuel da Fonseca, a que deu o título genérico de "O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis" (passagem do poema "O Vagabundo"). A edição aconteceu em 2017 com chancela Açor, uma etiqueta independente criada pelo Prof. Emiliano Toste (https://www.emilianotoste.pt/aeditora/), que embora estando mais vocacionada para a música tradicional portuguesa, mormente a açoriana, não deixa de dar um mui louvável acolhimento a valorosos artistas de outros géneros musicais que são enjeitados pelas chamadas 'majors'.
Paulo Ribeiro pensou não ser ele o único intérprete a dar voz a todos os poemas e resolveu convidar, além de dois grupos corais e etnográficos da margem esquerda do Guadiana ("Os Camponeses de Pias" e o da Casa do Povo de Serpa), vários cantores amigos e com provas dadas – Vitorino, Tim, Manuel João Vieira, Ana Lúcia Magalhães e Fernando Pardal –, entregando ao último a interpretação do poema "Estio". É pois com este belo espécime poético-musical que assinalamos a chegada do Verão de 2019.
Na Antena 1, o CD "O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis" esteve em destaque nos programas "Viva a Música" [>> RTP-Play] e "Vozes da Lusofonia" [>> RTP-Play], e aproveitamos para enaltecer o cuidado que tiveram os seus realizadores, respectivamente, Armando Carvalhêda e Edgar Canelas. Incompreensivelmente, nunca mais foi possível ouvir na emissão de continuidade (que é o extenso reino da 'playlist') o quer que fosse daquele álbum, nem – acrescente-se – de quaisquer outros da discografia de Paulo Ribeiro.
Perguntamos: com que ânimo e vontade poderão os ouvintes/contribuintes continuar a suportar uma estação que marginaliza os artistas mais talentosos do seu país e se empenha na promoção do lixo sonoro, seja o vindo de fora seja o produzido cá dentro?



Estio



Poema: Manuel da Fonseca (in "Planície", Coimbra: Novo Cancioneiro, 1941; "Poemas Completos", Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; "Poemas Completos", pref. Mário Dionísio, 3.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1969 – p. 97; "Poemas Completos", pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 108; "Obra Poética", pref. Mário Dionísio, Lisboa: Editorial Caminho, 1984 – p. 113)
Música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Fernando Pardal* (in CD "O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis", de Paulo Ribeiro, Açor/Emiliano Toste, 2017)


Horizonte
todo de roda
caiado de sol.
Ao meio
do cerro gretado
esguia cabeça de cobra
olha assobios de lume
sobre espigas amarelas...
(...Campaniços degredados
na vastidão das searas
sonham bilhas de água fria!...)


* Fernando Pardal – voz
Jorge Vinhas – violino
Hugo Morais – clarinete
João Vitorino – guitarra
João Custódio – contrabaixo
Jorge Moniz – bateria e órgão
Arranjos e produção musical – Jorge Moniz
Gravado no estúdio Musibéria, Serpa, por Tito Carreno, e no estúdio de Vale de Lobos, Almargem do Bispo (Sintra), por Pedro Vidal
Pós-produção, mistura e masterização – Pedro Vidal
URL: https://www.facebook.com/PauloRibeiro.musico/



Capa da 1.ª edição do livro "Planície", de Manuel da Fonseca (Col. Novo Cancioneiro, N.º 6, Coimbra, 1941)
Ilustração de Manuel Ribeiro de Pavia



Capa do CD "O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis", de Paulo Ribeiro (Açor/Emiliano Toste, 2017)
Design – Ana Faísca
Fotografia de Paulo Ribeiro – Ana Rodrigues
Fotografia de Manuel da Fonseca extraída do catálogo da exposição "Por todas as estradas do mundo" (2011), organizada por Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Câmara Municipal de Santiago do Cacém e Museu do Neo-Realismo (Vila Franca de Xira)

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