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(in https://www.elo7.com.br/)
«Em termos de análise comparativa, "Múgica" é um dos melhores álbuns, ao nível da composição, dos arranjos e da voz, de música popular portuguesa da última década. "Múgica" começa por impressionar pela voz. Amélia Muge é a cantora das mil vozes, das mil maneiras de recriar um poema – a "provocação", como lhe chama, que desencadeia o acto criativo – e de arrancar toda a força que as palavras potenciam. Entre o fado e a música tradicional, a canção sarcástica, de "intervenção" ("Senhorecos", "Mariazinhas"), reminiscente da época em que os seus heróis (José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho) lutavam contra a estagnação e o conformismo, e melopeia infantil, entre o negrume e a luz, Amélia Muge lança sempre o trunfo certo, no modo como ela própria se joga na diversidade de máscaras e de registos vocais. Ora abusivos e viscerais, ora declamatórios e introspectivos. Num momento, grito, noutro, oração. "Múgica" acorda a intemporalidade da tradição, expressa logo na imagem do diabo músico da capa [de Rosa Ramalho], com a modernidade das formas e do conceito – que recuperam o primado do conteúdo sobre a imagem. Um disco com razão de ser. [...] Numa perspectiva diferente, é de louvar o modo como o produtor, António José Martins "vestiu" cada canção, optando por tonalidades que embora redutíveis à "world music" sabem evitar a armadilha do lugar-comum ao mesmo tempo que assumem contornos bem portugueses.»
Assim reza parte da recensão crítica de Fernando Magalhães, nas páginas do jornal "Público", de 21 de Junho de 1992, ao primeiro álbum de Amélia Muge, produzido no Outono de 1991 e editado em Fevereiro do ano seguinte, pela cooperativa UPAV (União Portuguesa de Artistas de Variedades, CRL). Na posição sétima do alinhamento de "Múgica" figura "Dia em Dia", espécie de breviário pessoal (laico) para os sete dias da semana, de domingo a sábado, e uma admirável reflexão poética impregnada de lúcida ironia sobre o rolar imparável do tempo e a dificuldade (impossibilidade mesmo, não raras vezes) de se tirar o melhor partido desse processo inexorável. A distinta autora, compositora e intérprete dedica o poema-canção a José Afonso, de quem começou por ser aluna na disciplina de Geografia do 3.º ano do curso dos liceus, no ano lectivo de 1964/65, no então Liceu António Enes, na cidade de Lourenço Marques (actual Maputo), e de quem, pouco depois, à medida que os álbuns do autor de "Cantares do Andarilho" iam sendo publicados, ano a ano, por Arnaldo Trindade, sob o selo Orfeu, veio a receber decisiva e marcante influência estético-artística. Hoje, data em que se completaram 38 anos sobre o desaparecimento de José Afonso, achámos por bem resgatar este belo e interpelante espécime poético-musical que lhe é dedicado, acreditando que será uma grata revelação para uma caterva dos leitores/visitantes do blogue "A Nossa Rádio". Boa escuta!
A talhe de foice, não podemos deixar de apontar o dedo acusador a Nuno Galopim de Carvalho pelo ignóbil ostracismo a que vem votando Amélia Muge ao negar-lhe a devida e merecida presença na 'playlist' da Antena 1. A situação não é nova, mas por ser de uma tremenda e atroz injustiça – falamos nada mais nada menos que da maior cantautora portuguesa –, tem de ser publicamente denunciada, para que não haja a desculpa de que se trata de mera desatenção ou falha fortuita.
Dia em Dia
Poema e música: Amélia Muge (ao Zeca Afonso)
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Múgica", UPAV, 1992)
Eu tenho o domingo
p'ra fechar os olhos
crer na felicidade
crer na felicidade
por dentro de um sonho
Eu tenho a segunda
p'ra saber chegar
sem surpresa aos dias
sem surpresa aos dias
que me hão-de matar
Tenho a terça-feira
p'ra comer as horas
umas depois doutras
umas depois doutras
entre um sim e um não
[instrumental / vocalizos]
E na quarta-feira
eu já estou além
olho para trás
olho para trás
entre hoje e ontem
E na quinta-feira
não há mais questões
há só que encontrar
há só que encontrar
boas conclusões
Sexta faço, invento
o fim de uma frase
que de toda a semana
que de toda a semana
justifica o meu tempo
Sábado já sei
não estou só com
meus vagares
pois há sempre dois
nas histórias lunares
Sábado já sei
não estou só com
meus vagares
pois há sempre dois
nas histórias lunares
[instrumental / vocalizos]
* Amélia Muge – voz
António José Martins – sintetizadores, percussões
Produção, arranjos e direcção musical – António José Martins
Gravado e misturado nos Estúdios Angel I e II, Lisboa, em Outubro de 1991
Gravação – Fernando Rascão e Jorge Barata
Mistura – Jorge Barata e António José Martins
Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2007
URL: https://www.facebook.com/ameliamuge
https://www.facebook.com/Am%C3%A9lia-Muge-Michales-Loukovikas-315928531775833/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Am%C3%A9lia_Muge
https://www.uguru.net/artista/amelia-muge/
https://www.youtube.com/channel/UC9pldcsocJWRX6mIP5w2viw
https://www.youtube.com/@macajm51
https://www.youtube.com/@UGURUMusica/videos?query=amelia+muge
https://music.youtube.com/channel/UCEWggHi4NJVs7BYz1VmaOfg
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Capa do CD "Múgica", de Amélia Muge (UPAV, 1992)
Fotografias e concepção da capa – António Lucena
Boneco de louça tradicional (diabo músico) de Rosa Ramalho
Coração de filigrana tradicional do Minho.
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Outros artigos com poemas/canções de homenagem ou dedicados a José Afonso:
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Filipa Pais: "Zeca"
José Mário Branco: "Zeca (Carta a José Afonso)"
Dulce Pontes: "O Primeiro Canto" (dedicado a José Afonso)
José Medeiros: "O Cantador"
Janita Salomé: "Quando a Luz Fechou os Olhos"
Amélia Muge: "Os Novos Anjos" (ao Zeca Afonso)
Manuel Freire: "O Zeca"
Vitorino: "Postal para D. João III"
Janita Salomé: "Zeca"
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Outros artigos com repertório de Amélia Muge:
A infância e a música portuguesa
Camões recitado e cantado
Celebrando Natália Correia
Em memória de António Ramos Rosa (1924-2013)
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Em memória de Fernando Alvim (1934-2015)
Amélia Muge: "Os Novos Anjos" (ao Zeca Afonso)
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