Estátua de Luís de Camões, em bronze, sita na praça com o mesmo nome, em Lisboa. Concebida pelo escultor Victor Bastos, foi inaugurada pelo rei D. Luís, a 9 de Outubro de 1867.
Se alguém tomasse a iniciativa de fazer um inquérito de rua em Portugal, pedindo aos transeuntes que dissessem o primeiro verso que lhes viesse à cabeça, os dois mais citados seriam muito provavelmente os camonianos «As armas e os barões assinalados» e «Amor é (um) fogo que arde sem se ver». O soneto cujo incipit é este verso já foi apresentado neste blogue, recitado por João Villaret [cf. Camões recitado e cantado] e por Eunice Munõz [cf. Camões recitado e cantado (II)], mas a estância primeira d' "Os Lusíadas" ainda não. Surgiu hoje a oportunidade de colmatarmos essa lacuna e de celebrarmos as primeiras estrofes da Proposição do monumental poema épico, mediante a apresentação de três registos: o primeiro recitado (por Afonso Dias), o segundo cantado (por António Pinto Basto, com música de José Cid) e o terceiro também cantado (por José Mário Branco, com música dele próprio e uma melodia popular). No último, o saudoso cantautor não se restringe ao cultivo da poesia do genial vate, antes utiliza-a como o mais elevado referencial da literatura de língua portuguesa e o ponto de partida para denunciar a tresloucada 'reforma' ortográfica que em meados dos anos 80 se estava a cozinhar e que estipulava a abolição total dos acentos gráficos. Os mixordeiros e os politiqueiros da língua recuaram nesse ponto, em parte, mas não desistiram de aprovar a bo(u)rrada que é o AO90, cujos efeitos perniciosos são hoje bem notórios em Portugal, não só na escrita como na pronúncia de muitas palavras. «As palavras estão em crise», como bem assertivamente escreveu e cantou José Mário Branco, pelo que a inclusão da sua "Arrocachula" nesta celebração camoniana se afigura inteiramente pertinente.
Apesar do incómodo e do desconforto, andámos hoje com a Antena 1 'debaixo de ouvido'. Em primeiro lugar, registamos com agrado o surgimento – finalmente! – de um apontamento de poesia, chamado "Palavra de Ordem" [>> RTP-Play]: tivemos o ensejo de ouvir, em momentos diferentes, um poema de Eugénio de Andrade, dito por Beatriz Batarda, e outro de Alexandre O'Neill, na voz de Rui Morisson. E também nos foi grato notar a ausência, na 'playlist', do corriqueiro lixo sonoro anglo-saxão (mau grado subsistir ainda muita escória endógena), mas duvidamos que tal situação seja para durar. O que nos deixou assaz desgostosos foi não nos 'sair na rifa' um naco, por pequeno que fosse, da poesia de Camões, na forma cantada ou recitada. Como é possível tal desconsideração àquele que mais alto alevantou a Língua Portuguesa, no dia que o País escolheu para o celebrar, pela rádio do próprio Estado?
Os Lusíadas: Canto I (estrofes 1.ª e 2.ª)
Versos de Luís de Camões (in "Os Lusíadas", Lisboa, 1572; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 1121)
Recitados por Afonso Dias* (in CD "Cantando Espalharey: Vol. I", Edere, 2001)
As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
* Afonso Dias – voz
Pesquisa e produção – Afonso Dias e André Dias
Gravado no Estúdio InforArte, Chinicato, Lagos
Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro
As Armas e os Barões Assinalados
Versos: Luís de Camões (estrofes 1.ª, 2.ª, 3.ª e 6.ª do Canto I d' "Os Lusíadas", Lisboa, 1572; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 1121-1122) [texto integral em "Jornal de Poesia"]
Música: José Cid
Intérprete: António Pinto Basto (in LP/CD "Camões, as Descobertas... e Nós", de José Cid* e Amigos, Mercury/Polygram, 1992)
As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
E em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade,
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
(Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande);
As armas e os barões assinalados Que, da Ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda além da Taprobana...
* António Pinto Basto – voz
Músicos participantes:
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Francisco Martins – viola de 12 cordas solo baixo
Francisco Cardoso – bateria e percussões
José Cid – sintetizadores, cítara indiana e coros
João Veiga – viola acústica
José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa
Arranjos e produção – José Cid
Gravado e misturado em casa de José Cid, Mogofores, Anadia
Engenheiros de som – Vítor Moreira e Jorge Barata
Montagem digital – Jorge Hipólito
Arrocachula
Versos: Luís de Camões (1.ª estrofe d' "Os Lusíadas") e José Mário Branco
Música: José Mário Branco e Popular
Intérprete: José Mário Branco* (in LP "A Noite", de José Mário Branco, UPAV, 1985, reed. Schiu!/Transmédia, 1987, EMI-VC, 1996, Warner Music Portugal, 2017)
As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.
[bis]
[instrumental]
O problema é que agora já conheçu
Todas as regrâs
Do novo jogu
E verdade verdadinhâ
Já não é fácil
Ser-se musicu
São as mesmíssimas palavrâs
Só os assentus
É que mudarão
O agudo é exdruxulu
E o exdruxulu
Agora é gravê
Ai, as palavras estão em crise
E não é só pelo que elas querem dizer [bis]
Ai, as palavras têm raízes
Que começam no som que eles estão a perder [bis]
La larai laraio
La larai laraio
La larai laraio
[instrumental]
Arrocachula, arrocachula
Arrocachula na espinal-medula
[10x]
[instrumental]
O problema é que agora já conheçu
Todas as regrâs
Do novo jogu
E verdade verdadinhâ
Já não é fácil
Ser-se musicu
São as mesmíssimas palavrâs
Só os assentus
É que mudarão
O agudo é exdruxulu
E o exdruxulu
Agora é gravê
Não faz sentido que as palavras
Percam música na música que aparecer [bis]
Ai, o sentido que é perdido
É o ouvido que as palavras estão a perder [bis]
La larai laraio
La larai laraio
La larai laraio
[instrumental / coro]
* Viola eléctrica – Rui Veloso
Viola "raspada" e voz – José Mário Branco
Roland JX-8P – António Emiliano
Bateria – Henry Sousa
Baixo – Paulo Jorge
Trompete – Tomás Pimentel
Saxofone tenor – Rui Cardoso
Trombone – José Oliveira
Clarinete – Artur Moreira
Pífaro – José Pedro Calado
Violino "rabecado" – Luís Cunha
Viola acústica, viola braguesa e cavaquinhos – Júlio Pereira
Bombos e caixas – Rui Júnior e José Mário Branco
Ferrinhos – Rui Júnior
Coro – Formiga, Isabel Campelo, Madalena Leal, Graça e Necas Moreira, Rui Vaz e Gustavo Sequeira
Coro do refrão – Rui Veloso e José Mário Branco
Arranjo de metais – Tomás Pimentel e José Mário Branco
Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Produção artística – Manuela de Freitas, José Manuel Fortes, Trindade Santos e José Mário Branco
Produção executiva – Carlos Batista
Gravado no Angel Studio II, Lisboa, de 8 a 22 de Abril de 1985
Captação de som – José Manuel Fortes
Misturas – José Manuel Fortes e José Mário Branco
Transferência e remasterização para CD (edição de 1996) – José Manuel Fortes
Frontispício da 1.ª edição d' "Os Lusíadas", de Luís de Camões (Impressos em Lisboa: em casa de Antonio Gõçaluez Impressor, 1572)
Capa do CD "Cantando Espalharey: Vol. I", de Afonso Dias (Edere, 2001)
Concepção – Tiago Silva
Capa do CD "Camões, as Descobertas... e Nós", de José Cid e Amigos (Mercury/Polygram, 1992)
Ilustração – Miguel Levy
Design – Álvaro Reis
Capa do LP "A Noite", de José Mário Branco (UPAV, 1985)
Fotografia – Luiz Carvalho
Concepção – Artur Henriques
Natural e nutritivo, o leite materno é o alimento mais completo e indicado para o bebé nos primeiros seis meses de vida. Rico em água, proteínas, lípidos, glícidos, vitaminas, sais minerais e anticorpos, o leite materno está perfeitamente adaptado ao recém-nascido, fornecendo-lhe tudo o que necessita para um desenvolvimento equilibrado e saudável. Além da importantíssima componente nutritiva e imunológica, estão cientificamente provados relevantes benefícios da amamentação para o bebé, a saber: normal desenvolvimento da estrutura bucal e da função respiratória; prevenção de alergias, da intolerância ao glúten e da obesidade; diminuição do risco de morte súbita no primeiro ano de vida e prevenção de doenças várias inclusive do foro mental. E para a lactante também são múltiplos os benefícios e nada despiciendos: redução da hemorragia pós-parto, evitando a anemia; recuperação mais fácil do peso anterior à gravidez; diminuição do risco de problemas cardiovasculares e da diabetes tipo 2; redução da incidência do cancro da mama, do útero e dos ovários; prevenção da osteoporose. Tudo isto sem esquecer o fortalecimento do vínculo afectivo entre mãe e filho e o consequente aumento da auto-estima de ambos.
Vem este preâmbulo a propósito da "Cantiga do Leite", concebida por José Mário Branco, inicialmente para a peça de teatro "O Guardião do Rio", levada à cena em 1980 pela companhia Teatro do Mundo no Teatro Aberto, onde foi cantada pela actriz Fernanda Neves, e depois recuperada para a suite "A Noite" [>> YouTube] que preenche todo o lado B do LP homónimo gravado e editado em 1985, tendo o cantautor convidado a sua irmã, Gina Branco, para a interpretar, o que fez soberbamente. É, pois, pondo em destaque esta pérola que assinalamos o Dia da Criança que hoje se comemora em Portugal e na maioria dos países do mundo. Dedicamo-la a todas as crianças que, pelas razões mais diversas, não têm a sorte e o privilégio (que devia ser um direito) de serem amamentadas pela mãe.
Não podia a Antena 1 ter transmitido na presente data esta ternurenta "Cantiga do Leite", bem como outras excelentes canções para crianças ou alusivas à infância que se gravaram entre nós, com arranjos tão bons que até os adultos (sem a sensibilidade embotada) gostam de ouvi-las? Podia e devia, mas não aconteceu. A oferta musical resumiu-se ao mesmíssimo cardápio de intragáveis enxúndias dos outros dias. É triste assistir a tanta inércia e a tamanho desleixo na rádio do Estado!
Cantiga do Leite
Letra e música: José Mário Branco
Intérprete: Gina Branco (in LP "A Noite", de José Mário Branco*, UPAV, 1985, reed. Schiu!/Transmédia, 1987, EMI-VC, 1996, Warner Music Portugal, 2017)
[instrumental]
Mama, meu menino!
O leite é como um rio
Que nunca pára de correr;
O leite branco
É o remédio santo
Com que tu vais crescer.
Entre as duas margens,
Quentes e fecundas,
Mama, meu menino, sem parar!
Rio sem fundo,
Âncora do mundo,
Que corre devagar.
Mama o leite, meu passarinho!
Mata a sede sem temor!
Este rio é o teu caminho,
O cordão do meu amor.
[instrumental]
Mama, meu menino,
Mais um poucochinho,
Que eu paro o tempo só p'ra ti!
Seiva da vida
Com que fui enchida
Quando te concebi.
Um pequeno esforço:
Mete-te ao caminho!
Duas colinas mais além,
Asas de estrume
P'ra te dar o lume,
Oh meu supremo bem!
Mama o leite, meu passarinho!
Mata a sede sem temor!
Este rio é o teu caminho,
O cordão do meu amor.
* [Créditos da faixa "A Noite":]
Voz de "Cantiga do Leite" – Gina Branco
Violoncelo solo – Irene Lima
Clarinete – Artur Moreira
Oboé – António Serafim
Flauta – Ricardo Ramalho
Piano acústico e Roland HP-450 – António Emiliano
Trompete – Tomás Pimentel
Trombone – José Oliveira
Trompas – Adácio Pestana e Diamantino Rodrigues
Acordeão – Fernando Ribeiro
Timbales – Carlos Salomé
Bombos – José Mário Branco
Violinos – Luís Cunha, António José Miranda, Curral Arteta, Leonor Moreira, António Veiga Lopes, Cecília Branco, Vasco Broco e Aníbal Lima
Violas – Alexandra Mendes, Isabel Pimentel, Jorge Lé e Teresa Beatriz
Violoncelos – Clélia Vital, Richard e Alberto Campos
Contrabaixo – Alejandro Erlich Oliva
Coro – Coro da Universidade Técnica de Lisboa, dirigido por Luís Pedro Faro e Isabel Biu
Soprano solista – Isabel Biu
Roland HP-450 e JX-8P em "Alvorada" – José Mário Branco
Desde muito cedo apaixonado pelas questões ligadas à defesa e preservação do nosso riquíssimo património musical tradicional, Vítor Reino encontrou no Grupo de Recolha e Divulgação de Música Popular [fundado em 1974, a partir do coro da Juventude Musical Portuguesa], depois rebaptizado de Almanaque, agrupamento pioneiro e multifacetado, as condições essenciais que lhe permitiram iniciar uma fecunda actividade em que procurou aliar o trabalho científico de natureza etnomusicológica à criação e divulgação de uma nova música de raiz tradicional susceptível de contribuir para manter viva e actuante a inesgotável fonte do folclore musical português.
Em parceria com José Alberto Sardinha, Vítor Reino foi responsável pelos arranjos e direcção musical de dois discos que marcaram profundamente o movimento de progressivo interesse pela tradição musical portuguesa que atingiu o seu apogeu nos inícios da década de 80: Descantes e Cantaréus (1979) e Desfiando Cantigas (1984).
Ao mesmo tempo que continuava a colaborar com José Alberto Sardinha, nos inúmeros trabalhos de campo promovidos por este investigador que rapidamente se afirmou como nome cimeiro da moderna etnomusicologia portuguesa, Vítor Reino criou em 1983 o grupo Ronda dos Quatro Caminhos, sendo responsável pela selecção musical, estudo e textos explicativos, arranjos, produção e direcção artística dos álbuns Ronda dos Quatro Caminhos (1984) e Cantigas do Sete-Estrelo (1985), que incluem diversos temas e trechos musicais de sua autoria.
Com a preciosa participação de Ana Rita Reino, Sérgio Contreiras e João Simões Lima, que com ele haviam já integrado os dois agrupamentos atrás referidos, a que se juntou Mário Gameiro e, posteriormente, Rui Sardinha e Rui Sá Sequeira, Vítor Reino fundou em 1985 o grupo Maio Moço, cuja direcção continuou a assegurar. Projecto inovador por excelência, o Maio Moço impôs-se a árdua mas aliciante tarefa de lutar pela recuperação e revitalização da vasta e valiosa tradição musical portuguesa, criando uma nova música de raiz tradicional em que as ricas e fascinantes sonoridades tão características dos nossos velhos instrumentos populares se 'casam' com os modernos recursos da tecnologia actual, patente nos seis álbuns editados: Inda Canto, Inda Danço (1987), Cantigas de Marear (1989), Histórias de Portugal: De Dom Afonso Henriques a Dom Sebastião (1991), Amores Perfeitos (1994), Estrada de Santiago (1996) e CantoMaior (2002).
A convite do grupo de música tradicional Notas & Voltas, formado por funcionários do Banco de Portugal, Vítor Reino foi também o responsável pelas adaptações e arranjos, produção e direcção musical, execução de vários instrumentos, concepção, estudo e textos explicativos do álbum Decantado (2004), editado pela Tradisom. [ligeiramente adaptado do texto publicado no blogue "Rebaldeira"]
Vítor Reino deixou-nos este fim-de-semana, vítima de doença incurável (paralisia supra-nuclear progressiva). Neste blogue, em Dezembro de 2013, tivemos o ensejo de celebrar a sua obra, ainda que parcialmente, no artigo "Celebrando a Ronda dos Quatro Caminhos", pelo que decidimos trazer, para este breve e singelo tributo à sua memória, o belíssimo "Romance da Pastorinha", oriundo da aldeia de Monsanto, magnificamente cantado por ele próprio e pela companheira (na música e na vida) Ana Rita Reino. É a faixa que abre o lado B do LP conceptual Cantigas de Marear, primeiramente publicado em 1989, com chancela Discossete, que seria distinguido com o "Grande Prémio do Disco" da Rádio Renascença e, pouco depois (em 1991), reeditado no estrangeiro (em 26 países dos cinco continentes), com o título Portugal Novo sob o selo Playa Sound.
A Antena 1, por vontade e capricho de Rui Pêgo e dos seus acólitos, há largos anos que vem marginalizando a música tradicional, negando-lhe lugar na 'playlist' e confinando-a a guetos em horários de sono da generalidade dos ouvintes: a rubrica "Cantos da Casa" [>> RTP-Play], o programa homónimo [>> RTP-Play] e, em parte, o programa "Alma Lusa" [>> RTP-Play]. E apesar de Vítor Reino ter tantos pergaminhos no domínio da nossa música mais genuína (aquela que melhor nos identifica como país) e, nessa medida, ser credor do reconhecimento das entidades oficiais de Portugal, a opção dos altos (ir)responsáveis da rádio pública foi nada fazer. Vergonhoso!
Romance da Pastorinha
Letra: Tradicional (Monsanto, Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Música: Tradicional (Beira Baixa) e Vítor Reino
Recolha: Vítor Reino
Intérprete: Maio Moço* (in LP "Cantigas de Marear", Discossete, 1989, reed. CD "Portugal Novo", Playa Sound, 1991; CD "Histórias de Portugal: De Dom Afonso Henriques a Dom Sebastião / Cantigas de Marear", Discossete, 1991, reed. Espacial, 2013)
— Linda pastorinha
De além da ribeira,
Tira-te do sol, | bis
Do sol que te queima! |
— O sol não me queima
Que eu estou calejada:
Do vento, da chuva, | bis
Do rigor da calma. |
— No cimo da serra
Ouvi berrar gado...
— São três ovelhinhas | bis
Que me têm faltado. |
— Dá-me a cestinha,
Também o cajado;
Que eu irei buscá-las | bis
Com todo o cuidado! |
— Não quero criados
Com meias de seda,
Que se rompem todas | bis
Por essas estevas. |
— Sapatos e meias,
Tudo romperei:
Pela pastorinha | bis
A vida darei! |
— Não quero criados
Com meias de linho,
Que se rompem todas | bis
Pelo rosmaninho. |
— O teu gado, ó Rosa,
Trago-o eu aqui.
Vem tu, pastorinha, | bis
Para ao pé de mim! |
[instrumental]
Nota: «Este belo e gracioso romance, em cujo fundo Almeida Garrett pretende ver uma verdadeira pastorela do género provençal, apresenta grande quantidade de variantes, podendo afirmar-se, com o mesmo autor, que "todo o reino a sabe e canta".
Não tendo embora uma relação directa com o tema do presente trabalho, o seu carácter tão tocantemente medieval-renascentista, que nos faz remontar de imediato a todo o mistério e magia da época das Descobertas, não deixa de se enquadrar à maravilha no ambiente histórico-musical que aqui procuramos recriar, justificando amplamente a respectiva inclusão. Decerto os próprios mareantes das nossas caravelas o cantariam no decurso das suas longas viagens, para lembrar as delícias da terra que deixavam para trás, ou como forma de entreter as lentas horas de calmaria que tinham pela frente...
A versão tão admirável de singeleza e sentimento — que colhemos pessoalmente na aldeia de Monsanto (Idanha-a-Nova) — inspirou-nos um arranjo musical de sabor ao mesmo tempo bucólico e palaciano, que termina com uma dança festiva por nós composta, em que alguns amigos têm pretendido identificar, para lá do tom marcadamente renascentista, ecos distantes da velha música celta (cuja influência, aliás, não será tão longínqua e desprezível, como se pode pensar, em certos aspectos do nosso folclore).» (Vítor Reino)
* [Créditos gerais do disco:]
Maio Moço:
Ana Rita Reino – bandolim, banjo, cavaquinho, e voz
Mário Gameiro – viola acústica, viola eléctrica, viola braguesa e voz
Sérgio Contreiras – bombo, castanholas, pandeireta, guizos, pinhas e voz Vítor Reino – harmónio, concertina, acordeão, gaita-de-foles, ponteira, flautas, sintetizadores e voz
Colaborador regular:
Rui Sardinha – baixo, cavaquinho e voz
Músicos convidados:
Henry (Sousa) – bateria
João Nuno Represas – percussões
Jorge Lé – violinos
Participação especial:
Mulheres do grupo Etnograma, do Centro Cultural e Desportivo Rádio Marconi
Lewis Wickes Hine, "Power House Mechanic", 1921, fotografia, 34,3 x 24,1 cm, Brooklyn Museum, Nova Iorque
O trabalho operário, além de ser geralmente mal remunerado, é quase sempre duro e violento para o corpo e para a mente, não sendo raros os acidentes de que resulta a invalidez ou a morte. Um drama que, felizmente, tem vindo a perder expressão com a gradual substituição de mão-de-obra humana por maquinaria e robótica.
Muitos poetas versaram sobre o árduo trabalho operário e campesino, entre eles se contando Maria Teresa Horta, cujo poema "Instrumentos de Trabalho", primeiramente publicado em 1967, no livro "Cronista Não É Recado", o grupo Dialecto gravou no seu álbum "Aromas", de 2011.
É pois apresentando aquele poema feito canção, com música de Lindolfo Paiva, que assinalamos este Dia do Trabalhador e homenageamos os milhões de operários, do passado e do presente, que contribuíram e contribuem para o regular funcionamento das sociedades modernas, mas que são comummente desconsiderados e até olhados com desdém pelas classes privilegiadas.
Na estatal Antena 1, o grupo Dialecto já teve divulgação nos espaços da responsabilidade do realizador Armando Carvalhêda – "Viva a Música" [>> RTP-Play] e "Cantos da Casa" [rubrica >> RTP-Play / programa >> RTP-Play] –, mas nunca lhe foi dada entrada na 'playlist'. Porquê?
Instrumentos de Trabalho
Poema: Maria Teresa Horta (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Lindolfo Paiva
Intérprete: Dialecto* (in CD "Aromas", Dialecto/Cloudnoise, 2011)
Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham
[instrumental]
Instrumentos de trabalho
ou mortes de mão primeiro
Cresce o tempo no trabalho
de um martelo de ferreiro
Primeiro os mortos são peso
(ferro no sangue não fere)
Instrumentos de trabalho
de um calor que não requer
Desespero não é palavra
nem será nunca instrumento
A mão recobra o metal
de material nos dedos
Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumentos de acidente
na justiça de um salário
Semidesliza o arado
que o camponês não acusa
Ou comemora a semente
com as mãos sem armadura
[bis]
[instrumental]
Movimento de calor
nos músculos que se recusam
Sol a sol de instrumentos
ou mortes de qualquer cura
Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham
Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumento de acidente
na justiça de um salário
Semidesliza o arado
que o camponês não acusa
Ou comemora a semente
com as mãos sem armadura
[bis]
[instrumental]
* [Créditos gerais do disco:]
Dialecto:
Álvaro M. B. Amaro – guitarra, acordeão e voz
Lindolfo Paiva – guitarra, bandolim, ukelele e voz
Eduardo Matos – bateria e percussão
Jorge Pimentel – baixo, guitarra e guitarra portuguesa
Carlos Varela – saxofone soprano e voz
Paulo Duarte – piano
Participação especial de:
Zé Negreiros – gaita-de-foles e flauta
Artur Graxinha – guitarra
Paulo Toledo – saxofone alto
Produção – Dialecto
Gravado e misturado por Paulo Cavaco, no Musicart Studio, Barreiro, de Janeiro a Outubro de 2011
Masterizado por António Pinheiro da Silva, no Estúdio Pé-de-Meia, Oeiras, em Novembro de 2011
URL: https://sites.google.com/site/dialectomp/home https://www.youtube.com/user/ematos88/videos
INSTRUMENTOS DE TRABALHO
(Maria Teresa Horta, in "Cronista Não É Recado", Col. Poesia e Verdade, Lisboa: Guimarães Editores, 1967; "Poesia Reunida", pref. Maria João Reynaud, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009 – p. 262-63)
Instrumentos de trabalho
ou mortes
de mão primeiro
Cresce o tempo no
trabalho
de um martelo de ferreiro
Primeiro
os mortos são peso
(ferro no sangue não fere)
Instrumentos de trabalho
de um calor
que não requer
Desespero não é palavra
nem será nunca
instrumento
A mão recobra
o metal
de material nos dedos
Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumento de acidente
na justiça de um salário
Semidesliza o arado
que o camponês
não acusa
Ou comemora
a semente
com as mãos sem armadura
Movimento de calor
nos músculos
que se recusam
Sol a sol
de instrumentos
ou mortes de qualquer cura
Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham
Capa do livro "Cronista Não É Recado", de Maria Teresa Horta (Col. Poesia e Verdade, Guimarães Editores, 1967)
Capa do livro "Poesia Reunida", de Maria Teresa Horta (Publicações Dom Quixote, 2009)
Capa do CD "Aromas", do grupo Dialecto (Cloudnoise, 2011)
Grafismo – Luís Amaro
Lançado em Janeiro de 1965, integrando a colecção "Cancioneiro Vértice", da revista "Vértice", o livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre, não tardou a ser apreendido pela PIDE, passando a figurar no índex dos livros proibidos pela ditadura salazarista. No entanto, quando a polícia política chegou às livrarias já poucos exemplares encontrou. A maioria dos exemplares dessa primeira edição já fora distribuída de mão em mão ou enviada pelo correio aos adquirentes. Antevendo-se a proibição, o livro já tinha seguido o seu caminho de resistência, passando a circular clandestinamente em cópias improvisadas (copiografadas, dactilografadas e até manuscritas).
José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília tiveram o privilégio de serem os primeiros a cantar poesia de "Praça da Canção" ainda antes do livro ser uma realidade, por deferência do autor, mas foi de uma dessas cópias clandestinas que outros compositores se serviram para musicar a poesia alegriana, fazendo dela canção. Um deles foi Manuel Freire, conforme o próprio confessou a Maria Leonor Nunes para um artigo do "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias" evocativo do cinquentenário da primeira edição [cf. http://www.manuelalegre.com/], no caso concreto das baladas "Pedro, o Soldado", "Trova do Emigrante" e "Trova", incluídas nos discos EP "Dedicatória" e "Trovas, Trovas, Trovas", editados em 1968.
Em 1969, aproveitando o abrandamento repressivo trazido pela chamada Primavera Marcelista, a Editora Ulisseia atreveu-se a publicar uma nova edição, tendo alguns poemas sido bastante modificados pelo autor, presumimos que não tanto por medo da Censura mas mais por insatisfação com os textos originais. Terá sido muito provavelmente um exemplar desta segunda edição que Alain Oulman leu e o motivou a musicar algumas estrofes de três poemas, que Amália veio a gravar com os títulos "Trova do Vento que Passa", "Abril" e "Meu Amor É Marinheiro" [o quarto poema de Manuel Alegre presente na discografia amaliana, também com música de Alain Oulman, intitula-se "As Facas" e foi extraído do volume "Coisa Amar (Coisas do Mar)", de 1976].
De "Abril", adaptado do poema "A Rapariga do País de Abril" [vide abaixo os textos tal como figuram nas duas primeiras edições], cujo original Manuel Alegre escreveu nos Açores ou em Angola, onde cumpria o serviço militar, existem duas gravações amalianas publicadas em disco: uma realizada em 1973, que teve a primeira aparição pública em 1997 no CD "Silêncio", e outra, executada três ou quatro anos mais tarde, que saiu no LP "Cantigas numa Língua Antiga" (1977). Escolhemos a publicada em 1997 para celebrar o Dia da Liberdade, neste ano do centenário do nascimento de Amália.
O país de Abril que o poeta procurava na pátria amada, tristemente amordaçada e oprimida, só emergiu cerca de uma década mais tarde, desconhecendo-se se tal iria acontecer precisamente no mês de Abril (era provável que fosse na Primavera, mas poderia ser em Março, Maio ou Junho) mas um acaso da História teve o bendito condão de conferir ao poema um cunho profético. Presentemente, volvidos 46 anos sobre a Revolução dos Cravos, a emblemática flor encontra-se vergada sob o efeito de ventos hostis, originados por uma nefanda pandemia vírica, e mesmo que a ciência descubra uma vacina ou um medicamento antiviral, a crise económica e social será inevitável e severa. A resistência do cravo será posta à prova, competindo a todos quantos não abdicam da Liberdade e prezam os valores de Abril zelar para que a haste não quebre e, melhor ainda, volte a adquirir o aprumo que já teve!
Neste país que o poder político quer fazer crer que ainda é de Abril e, nessa conformidade, supostamente democrático e pluralista, há uma rádio, por sinal sob a alçada estatal – a Antena 1 –, que se não tem coibido de praticar a mais ignóbil censura. Atente-se na 'playlist' que vem sendo reiteradamente usada para silenciar uma vasta galeria de categorizados artistas portugueses, entre os quais se contam, além dos supracitados José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília e Manuel Freire, a maior embaixatriz da cultura portuguesa além-fronteiras, Amália Rodrigues, a qual nem no ano do seu centenário é possível ouvir fora daquele gueto esconso depois da meia-noite de domingo chamado "Alma Lusa".
Abril
Poema: Manuel Alegre (excerto adaptado do poema "A Rapariga do País de Abril") [texto original >> abaixo]
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (1973, in CD "Segredo", EMI-VC, 1997)
Habito o sol dentro de ti,
descubro a terra, aprendo o mar;
por tuas mãos, naus antigas, chego ao longe
que era sempre tão longe, aqui tão perto.
Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruto. Meu navio.
Este navio onde embarquei
para encontrar, dentro de ti, o país de Abril.
E eu procurava-te nas pontes da tristeza,
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava quem eras.
Meu amor, por ti cantei. E tu me deste
um chão tão puro: algarves de ternura.
Por ti cantei à beira-terra, à beira-povo
e achei achando-te o País de Abril. [bis]
* Amália Rodrigues – voz
José Fontes Rocha – 1.ª guitarra portuguesa
Carlos Gonçalves – 2.ª guitarra portuguesa
Pedro Leal – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em 1973
Engenheiro de som – Hugo Ribeiro
Coordenação do projecto (para a edição do CD "Segredo") – Manuel Falcão e Jorge Mourinha
Produção – Rui Valentim de Carvalho
Assistente de produção – Inês Penalva
Misturas e restauro digital – Hugo Ribeiro, João Martins e Raul Ribeiro, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Setembro de 1997
Masterização – Julius Newel, no estúdio Mission Control, Lisboa, em Outubro de 1997
A RAPARIGA DO PAÍS DE ABRIL [1]
(Manuel Alegre, in "Praça da Canção", Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965 – p. 64-65)
Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.
E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.
Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.
Começa a pátria onde começas. Verde campo
verde mar. Capital da ternura.
Tu és a lâmpada no meio desta festa
com fogueiras e povo dentro dos poemas.
Era a estranha paisagem da pobreza
o cheiro secular das coisas que apodrecem
era a canção cantada pelos bêbados
que vomitam seu fardo de viver.
E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando uma flecha azul atravessava as noites
e eu perguntava atónito quem eras.
Quando vieste tudo ficou certo.
Encheram-se de trevo os campos das palavras
encheram-se de gente as mãos de cada verso
com sete estrelas sete luas nós cantámos.
E tu disseste: ergue-te e vai.
Não ouves este vento este soluço?
Ergue-te e canta uma canção para o meu povo.
Com sete barcos sete espadas nós partimos.
Raparigas sentaram-se ao redor do poema.
E então cantei de amor por ti cantei
na língua que por vezes é tão triste
a nossa língua que por vezes é assim: tão pura.
Mulher por ti cantei. E tu me deste
um puro continente algarves de ternura.
Por ti cantei entre meu povo e meu poema
e achei achando-te o País de Abril.
A RAPARIGA DO PAÍS DE ABRIL [II]
(Manuel Alegre, in "Praça da Canção", 2.ª edição, Lisboa: Editora Ulisseia, 1969 – p. 88-89)
Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.
E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.
Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.
E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.
Por ti eu me perdi eu me encontrei
por ti que eras ausente e tão presente
por ti cheguei ao longe aqui tão perto.
E achei achando-te o País de Abril.
Capa da 1.ª edição do livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre (Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965)
Organização da edição – Ivo Cortesão
Capa da 2.ª edição do livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre (Col. Poesia e Ensaio, Lisboa: Editora Ulisseia, 1969)
Concepção – Espiga Pinto
Capa do CD "Segredo", de Amália Rodrigues (EMI-VC, 1997)
Fotografia – Charles Ichaï
Design – Fátima Rolo Duarte
INSTITUTO INTERNACIONAL DO TEATRO
DIA MUNDIAL DO TEATRO – 27 DE MARÇO DE 1993
MENSAGEM INTERNACIONAL DE EDWARD ALBEE
Será que o mundo se torna um lugar cada vez mais estranho à medida que o tempo passa? Penso que sim, e sei que é assim que ele se me afigura. Tenho é de descobrir se isso é obra de um absoluto, ou mero fruto da minha visão deformadora: vislumbres de sageza a par de sinais de declínio. E direi mesmo que quando começar a fazer-se luz sobre as respostas, eu já não saberei por que me preocupo.
Todavia, é uma pergunta que continua a remoer.
Que havemos de fazer, por exemplo, para contrariar a inércia, para sair do imobilismo que recomenda dois passos em frente como resposta a dois passos atrás? Sempre que um totalitarismo cai, sob o seu próprio peso morto, há uma democracia nascente que prova ser ilusória. A todos os actos generosos parecem contrapor-se outros tantos de crueldade e ganância. Sabemos – ou saberemos algum dia – qual é a verdadeira natureza do homem: se de senhor feliz da sua liberdade, se de escravo conformado e até mesmo solícito?
Inventámos a arte – desenvolvemo-la, se quiserem – para nos explicarmos a nós próprios, para dar à nossa consciência ordem, clareza e talvez também um sentido. Descobrimos, afinal, que a arte, para merecer esse nome, tem de ter útil e não só decorativa; tem de, na sua inoperância (a arte não muda nada?), mudar tudo.
Podemos abolir por decreto todos os governos do planeta – bem, podemos tentar; podemos libertar-nos de todo o controlo de pensamento imposto de fora – bem, podemos tentar; e, contudo, ainda ficaríamos com a censura mais implacável de todas: a auto-censura das pessoas que não querem (ou receiam) dar os passos decisivos e aterradores para uma completa auto-consciência.
A arte pode ajudar-nos nessa caminhada, e, se não permitirmos que ela nos anime e impulsione, jamais nos libertaremos das cadeias que nos amarram e cegam.
Já estive em sociedades totalitárias em que pessoas foram presas e morreram por quererem aceder à arte, e vivo numa sociedade em que a auto-censura é tão implacável como outra qualquer imposta de fora. O paradoxo é mais horrendo do que poderíamos admitir.
O teatro, pela sua imediatez e porque acontece no presente (em oposição ao filme que sempre aconteceu já – o que faz com que os seus excessos pareçam inofensivos), o teatro está numa posição privilegiada para fazer com que tudo aconteça, para nos tornar insatisfeitos com a segurança e com a previsibilidade, com tudo aquilo que não modifica a nossa visão das coisas.
Lembremo-nos disto no Dia Mundial de Teatro. Lembremo-nos que os limites do teatro são apenas os que nós lhe impomos... os limites que impomos a nós próprios.
EDWARD ALBEE (trad. Maria Helena Serôdio, da
Associação Portuguesa de Críticos de Teatro)
Passaram 27 anos e esta mensagem do insigne dramaturgo norte-americano não perdeu uma pitadinha de actualidade. O mundo vem-se tornando, de facto, um lugar cada vez mais estranho e desconcertado, devido a múltiplos factores, sendo que os antropogénicos se revelam preponderantes. Bastará apontar as alterações climáticas, em resultado da utilização massiva e continuada de combustíveis fósseis, e as repercussões maléficas que já se fazem sentir na vida de muita gente, principalmente em países do chamado Terceiro Mundo.
De entre todas as artes, o teatro é aquela que, de modo mais imediato e incisivo, nos pode acordar do marasmo e, como escreve o autor de "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?", modificar a nossa visão (estabelecida e comodista) das coisas. E se o teatro é imprescindível – ao homem livre e mentalmente não entorpecido por ideias feitas – em tempos considerados normais (se é que tempos normais alguma vez houve na História da Humanidade), mais aguda e pertinente se revela a sua importância quando surgem momentos de crise e de disrupção, como o presente em que as salas de teatro (e de outros espectáculos) tiveram de fechar, como medida profiláctica contra a disseminação da pandemia do COVID-19, e milhões de pessoas estão confinados aos seus domicílios. Numa situação destas, o que fazer para que os (potenciais) espectadores não cessem de fruir a arte de Talma, até como preventivo à insanidade mental? Algumas companhias perceberam logo que a internet era a via a seguir e já estão a usar esse meio para possibilitarem ao público teatrófilo o acesso ao seu trabalho, seja peças gravadas seja produções em directo.
E o que estão a fazer os meios de comunicação social tradicionais: a rádio e a televisão? Quase nada. Na rádio do Estado, e uma vez que aquela coisa manhosa e entediante a que deram o nome de "Teatro sem Fios" não pode considerar-se, em rigor, teatro radiofónico, e tendo sido eliminado o espaço "Memória" (medida deveras descabida e absurda), o programa "Ecos da Ribalta" [>> RTP-Play], de João Pereira Bastos, tem sido o único e honroso reduto a dar guarida ao teatro do imaginário, mediante o resgate de registos do arquivo histórico. Mas dado que o âmbito do programa, como o seu nome deixa entender, não é somente o teatro mas a generalidade das artes de palco, a transmissão de peças declamadas não pode ter a frequência desejada e necessária. Portanto, urge que, num horário fixo que poderá ser diário (porque não?) ou semanal, a Antena 2 passe a fazer a reposição das centenas e centenas de peças de teatro radiofónico existentes no arquivo histórico (mormente as mais antigas, já que os ouvintes menos veteranos nunca as ouviram).
Escusado será dizer que os outros canais da estação pública, mormente a Antena 1, não devem ficar alheados da oferta de teatro aos seus ouvintes, atendendo às obrigações culturais que também têm. É tudo uma questão de se saber escolher o repertório mais recomendado ao perfil dos respectivos auditórios.
Negrilho (Ulmus minor): árvore caducifólia de grande porte, da família das Ulmáceas, pode atingir mais de 20 metros de altura e apresenta tronco grosso com casca áspera, copa ampla com folhagem densa e ramos finos, folhas simples e ovadas de margens serradas, flores esverdeadas ou avermelhadas e sâmaras quase sésseis, sendo também conhecida por lamegueiro, mosqueiro, olmo, ulmeiro, etc.. [in Infopédia]
Mais informação em: http://www.florestar.net/negrilho/negrilho.html
Neste tempo de pandemia do terrífico coronavírus COVID-19 e de reclusão domiciliária em que se encontram milhões de pessoas, por determinação das mais altas autoridades político-sanitárias, um dos estratagemas mais válidos para mitigar a ansiedade e a angústia é a leitura e/ou audição de poesia, quer recitada quer cantada.
Neste Dia Mundial da Poesia que é também o Dia Mundial da Árvore apresentamos o poema "A um Negrilho", de Miguel Torga, dito pelo autor. O texto foi escrito na aldeia natal, S. Martinho de Anta, no concelho de Sabrosa, a 26 de Abril de 1954, e primeiramente publicado em 1956, no volume VII do seu "Diário". O registo fonográfico aconteceu em meados de 1987, para fazer parte do duplo LP "Miguel Torga: 80 Poemas", editado no mesmo ano, assinalando o 80.º aniversário do nascimento do poeta. A reedição do álbum em disco compacto deu-se em 1995, o ano da morte. Há já um quarto de século que o autor de "Orfeu Rebelde" não se encontra fisicamente entre nós, mas perdura na memória daqueles que com ele conviveram e em todos quantos se alimentam da sua obra: a poética e também a narrativa, mormente os contos que formam os livros "Bichos" e "Contos da Montanha", cuja leitura recomendamos vivamente.
No que concerne à poesia na rádio pública, temos na Antena 2 as rubricas "A Vida Breve" [>> RTP-Play] e "O Som Que os Versos Fazem ao Abrir" [>> RTP-Play], ambas realizadas por Luís Caetano (e aproveitamos para enaltecer, uma vez mais, este profissional da nossa rádio), mas nada existe nas Antenas 1 e 3. Porquê? No caso do primeiro canal da rádio do Estado, a ausência de um apontamento de poesia recitada é particularmente censurável, atendendo à boa tradição que o canal teve nesse capítulo desde os seus primórdios e que se manteve até 2003, quando terminou a memorável rubrica "À Esquina do Mundo", de António Cardoso Pinto, consagrada à poesia compilada na monumental antologia "Rosa do Mundo: 2001 Poemas para o Futuro" (Assírio & Alvim, 2001). A lacuna de poesia dita na Antena 1 torna-se ainda mais gritante em face da indigência poética da esmagadora maioria das cançonetas que escolheram para preencher a 'playlist', deixando de fora tanta e boa poesia cantada que até hoje se gravou na língua de Camões.
A um Negrilho
Poema de Miguel Torga (in "Diário VII", Coimbra: Edição do autor, 1956; "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, 2000, 2.ª edição, 2002 – p. 519)
Recitado pelo autor* (in 2LP "Miguel Torga: 80 Poemas": LP 2, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)
Na terra onde eu nasci há um só poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.
Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!
S. Martinho de Anta, 26 de Abril de 1954
* Miguel Torga – voz
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, nos dias 30 de Junho, 1 e 31 de Julho de 1987
Engenheiro de som – Pedro Vasconcelos
Montagem – Miguel Gonçalves
Montagem digital (edição em CD) – Fernando Paulo Boavida, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
URL: http://cvc.instituto-camoes.pt/figuras/mtorga.html http://purl.pt/13860/1/miguel-torga.htm
Capa do duplo LP "Miguel Torga: 80 Poemas" (EMI-VC, 1987)
Fotografia – Manuel Cardoso
Concepção – Fátima Rolo Duarte
Claude Monet, "Printemps" ("Primavera"), 1886, óleo sobre tela, 65 x 81 cm, The Fitzwilliam Museum, Cambridge, Inglaterra
Para assinalar a chegada da Primavera de 2020 que um maldito vírus pneumónico, oriundo das partes do Oriente, veio tornar funesta, e estando a decorrer as comemorações do centenário do nascimento de Amália Rodrigues, não podia vir mais a propósito o fado "Primavera", uma das mais admiráveis criações amalianas. Das quatro gravações que a diva fez deste fado – três em estúdio (1951, 1965, 1966) e uma ao vivo (1955) –, escolhemos a de 1965, que permaneceu inédita até ao Outono de 1997, altura em que saiu no CD "Segredo", voltando a ser publicada, em 2011, na compilação "Amália canta David". Os versos desencantados de David Mourão-Ferreira, a música pungente de Pedro Rodrigues e a superlativa interpretação de Amália, apoiada no lendário Conjunto de Guitarras de Raul Nery, fazem deste espécime uma pérola do mais alto quilate do repertório do fado e da música portuguesa em geral.
Sendo certo que uma intérprete da dimensão de Amália nunca devia deixar de receber o mais desvelado tratamento da parte da rádio pública do seu país, era expectável e justíssimo que neste ano de celebração fosse redobrada a atenção dada ao seu legado fonográfico, ademais tendo vindo a lume novas edições contendo gravações inéditas. Atentamos na 'playlist' da Antena 1 e a voz de Amália não aparece. Como explicar tamanha monstruosidade?
Primavera
Poema: David Mourão-Ferreira
Música: Pedro Rodrigues
Intérprete: Amália Rodrigues* (1965, in CD "Segredo", EMI-VC, 1997; CD "Amália canta David", Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011)
Todo o amor que nos prendera,
como se fora de cera,
se quebrava e desfazia.
Ai funesta Primavera, | bis
quem me dera, quem nos dera |
ter morrido nesse dia! |
E condenaram-me a tanto:
viver comigo o meu pranto,
viver, viver... e sem ti!
Vivendo sem, no entanto, | bis
eu me esquecer desse encanto |
que nesse dia perdi... |
Pão duro da solidão
é somente o que nos dão,
o que nos dão a comer...
Que importa que o coração | bis
diga que sim ou que não, |
se continua a viver? |
Todo o amor que nos prendera
se quebrara e desfizera,
em pavor se convertia.
Ninguém fale em Primavera! | bis
Quem me dera, quem nos dera |
ter morrido nesse dia! |
* Amália Rodrigues – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery:
Raul Nery – 1.ª guitarra portuguesa
José Fontes Rocha – 2.ª guitarra portuguesa
Júlio Gomes – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em 1965
Engenheiro de som – Hugo Ribeiro
Coordenação do projecto (para a edição do CD "Segredo") – Manuel Falcão e Jorge Mourinha
Produção – Rui Valentim de Carvalho
Assistente de produção – Inês Penalva
Misturas e restauro digital – Hugo Ribeiro, João Martins e Raul Ribeiro, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Setembro de 1997
Masterização – Julius Newel, no estúdio Mission Control, Lisboa, em Outubro de 1997
Capa do CD "Segredo", de Amália Rodrigues (EMI-VC, 1997)
Fotografia – Charles Ichaï
Design – Fátima Rolo Duarte
Capa do CD "Amália canta David" (Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011)
Design gráfico – Roda Dentada
Pós-produção de imagem – Mackintóxico
«Um dia, parto, assim, sem despedida / Entre memórias e cantos partilhados», escreveu Pedro Barroso no poema "Epitáfio", primeiramente publicado, na forma dita, no livro/CD "Palavras Mal Ditas", de 2013, e novamente publicado, já musicado e cantado, no álbum "Palavras ao Vento", lançado a 14 de Abril de 2014. O poeta, compositor e intérprete partiu na noite da pretérita segunda-feira, mas teve tempo de se ir despedindo do seu público, ante o gradual avanço da doença oncológica que o atingira. O último concerto, assinalando os 50 anos de música e palavras, aconteceu a 21 de Dezembro de 2019, no Teatro Virgínia, de Torres Novas, parte do qual a Antena 1 transmitiu ontem, após o bloco de anúncios que se seguiu ao noticiário das 22:00. O canal generalista da estação pública esteve bem, mas a completa ausência de repertório de Pedro Barroso na actual 'playlist' é de todo incompreensível e falha de razoabilidade, atendendo às inalienáveis e particulares obrigações da rádio estatal no campo da música portuguesa, mormente naquela que tem a assinatura dos mais categorizados cantautores. Uma situação que se afigura ainda mais absurda se atendermos ao facto de alguns dos últimos álbuns do artista, como foi o caso deste "Palavras ao Vento", terem recebido o rótulo "Disco Antena 1".
Aqui apresentamos o epitáfio poético-musical de Pedro Barroso, à laia de prólogo a uma homenagem mais ampla que tencionamos render-lhe brevemente.
Epitáfio
Poema e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso* (in CD "Palavras ao Vento", Ovação, 2014)
Que do céu tombassem violinos
Decidindo por nós, gente maior,
Na forma, no projecto e na ideia,
No fazer sempre mais, sempre melhor!
Que o povo alcançasse em sentimento
Sempre a classe mais alta do poema
E a vida fosse mais que este momento
Entre farrapos de nada e alfazema!
Que a vida fosse alma e fosse vinho,
Fosse vento nas searas ondulantes
E orgasmos de prazer e rosmaninho
E luxo e sonho e fúria a cada instante!
E oceanos de espuma nos levassem
Cavalgando o desespero de partir!
E tudo fosse simples e elevado
Como um prado orvalhado no sentir!
[instrumental]
De tudo, tanto que eu acreditei
Tantos anos de espera convertida,
Sobra um sabor de que nada aconteceu
Pelas regras que devia haver na vida.
Por isso, um dia, parto, assim, sem despedida
Entre memórias e cantos partilhados.
E este excesso fabuloso sem ter fim
Vai comigo, fiquem, disso, descansados.
Sobrará de mim, talvez, fraca memória,
Esta luxúria da vida, alguns recados,
Este modo amordaçado de sorrir
E uma montanha de amores nunca alcançados.
Espantosamente, como é qu'inda deixo sonhos?
Mais que o dobro dos feitos consumados!
Só não deixo meias-tintas nem favores,
Nem regras, nem peias, nem pudores.
Deixo excessos, truculências e humores.
Mas virtudes?! Nem pensar! Tudo pecados!
[instrumental]
Espantosamente, como é qu'inda deixo sonhos?
Mais que o dobro dos feitos consumados!
Só não deixo meias-tintas nem favores,
Nem regras, nem peias, nem pudores.
Deixo excessos, truculências e humores.
Mas virtudes?! Nem pensar! Tudo pecados!
* [Créditos gerais do disco:]
Pedro Barroso – voz, viola, piano, metalofone e adufe
Susana Castro Santos – violoncelo
Manuel Rocha – violino
David Coelho – piano
Luís Petisca – guitarra portuguesa
Abel Moura – acordeão
Miguel Carreira – viola e acordeão
Ensemble Ribatejo – trompas
Paula Rego, "Amor", 1995, pastel sobre papel montado em alumínio, 120 x 160 cm, Casa das Histórias Paula Rego, Cascais (Inv. P44 DEP)
Mulheres que além das lides domésticas exerciam actividades manuais remuneradas para proverem ao seu sustento e ao da família sempre existiram. Refira-se, a título de exemplo, as trabalhadoras rurais (nos trabalhos de sementeiras, mondas, ceifas, colheitas, vindimas, apanha da azeitona), as tecedeiras, as costureiras, as lavadeiras, as varinas, as carvoeiras. O fenómeno do operariado fabril feminino, porém, e exceptuando as duas conflagrações bélicas mundiais, pois os maridos estavam a combater e as fábricas não podiam parar, só se incrementou após a Segunda Grande Guerra. Aconteceu sobretudo no chamado primeiro mundo – Europa, América do Norte e Japão –, e Portugal não foi excepção, porque havia que aproveitar os dinheiros do Plano Marshall, apesar de Salazar ser avesso à industrialização do país. Assim, e principalmente nos subúrbios de Lisboa, Porto e Setúbal, surgiu um novo tipo de mulher trabalhadora: a que labora nas fábricas ou em trabalhos indiferenciados do sector terciário, mas que continua a arcar com todo o serviço doméstico e as obrigações próprias de uma esposa e mãe. Dessa lufa-lufa quotidiana, rotineira, mecânica e desgastante, que não deixa tempo para o ócio indispensável ao equilíbrio emocional e à fruição cultural, trata o poema "Calçada de Carriche" saído do punho de António Gedeão, pseudónimo literário do professor de Ciências Físico-Químicas Rómulo de Carvalho, e publicado primeiramente em 1958, no livro "Teatro do Mundo", e republicado nas posteriores edições da poesia reunida que dão pelos títulos de "Poesias Completas" (Portugália Editora), "Poesia Completa" (Edições João Sá da Costa) e "Obra Completa" (Relógio d'Água), bem como no volume "Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor" (Edições João Sá da Costa, 1997). Foi de uma edição das "Poesias Completas", com chancela da Portugália Editora, que José Niza retirou aquele e os demais dez poemas que achou por bem musicar para serem cantados por Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha, com orquestração de José Calvário, e constituírem o álbum "Fala do Homem Nascido", editado em 1972.
É pois com o poema musicado "Calçada de Carriche", magnificamente interpretado por Carlos Mendes, que neste Dia Internacional da Mulher homenageamos essas mulheres sobrecarregadas de trabalho, quase escravas, que são autênticas heroínas anónimas, pois, quais robustas cariátides, suportam na cabeça a arquitrave económica familiar e, por extensão, a nacional.
E o que fez a rádio pública neste dia dedicado à mulher? Nada nos constou, analisando a programação nas páginas 'online' das Antenas 1 e 3 e andando a fazer 'zapping' entre aqueles dois canais (mau grado o incómodo e fugindo logo para Antena 2 ou para a nossa fonoteca). E não se está a pedir algo dispendioso nem que requeira muito trabalho: bastaria que a oferta musical ao longo do dia fosse ora interpretada por artistas femininas ora de homenagem à mulher, independentemente do sexo do intérprete. Nada fazer é puro desleixo e só serve para dar argumentos àqueles que contestam o financiamento público de canais de rádio que se comportam como os privados (e até pior, nalguns aspectos).
Calçada de Carriche
Poema: António Gedeão (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: José Niza
Arranjo: José Calvário
Intérprete: Carlos Mendes* (in LP "Fala do Homem Nascido", Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1998)
[instrumental]
Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa...
* Carlos Mendes – voz
Orquestra dirigida por José Calvário
(António Gedeão, in "Teatro do Mundo", Coimbra: Edição do autor, 1958; "Poesias Completas", Lisboa: Portugália Editora, 1964, 5.ª edição, 1975 – p. 115-120; "Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor", Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997 – p. 34-37)
Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Capa do LP "Fala do Homem Nascido", com poemas de António Gedeão musicados por José Niza e cantados por Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha, com orquestração de José Calvário (Orfeu, 1972).
Arranjo gráfico – Beatriz Morais Alçada