23 fevereiro 2020

Janita Salomé: "Quando a Luz Fechou os Olhos"


© Joaquim Lobo


Da floresta de criadores poético-musicais alguns logram elevar-se acima do manto copal e atingem uma tal dimensão que se afirmam como referências de admiração e de respeito, tanto da sua geração como das posteriores. José Afonso pertence a essa categoria de colossos que, pelo exemplo de vida e pela mensagem que a sua arte tão eloquentemente transmite, se tornaram faróis indicadores e iluminadores do caminho a seguir por todos quantos demandam a «cidade do homem / não do lobo, mas irmão». A Luz fechou os olhos perfaz hoje 33 anos mas a sua cintilação não se apagou e continua a iluminar quer aqueles que a presenciaram quando foi tocha acesa na noite escura quer – e mais importante – os que tendo nascido depois já só puderam contar com o legado musical/fonográfico. Provam-no as muitas revisitações que se vêm fazendo ao repertório do autor de "Cantares do Andarilho", seja em actuações ao vivo seja em gravações de estúdio [Cf. Letra e/ou música: José Afonso]. Como diz Janita Salomé, na canção que hoje aqui destacamos em tributo à memória do trovador maior da música popular portuguesa, «basta um sopro mágico, liberto, / para que a luz acorde a cantar».
Uma pergunta, a talhe de foice: como se explica que José Afonso, Janita Salomé e tantos outros nomes grados da nossa música estejam hoje excluídos da 'playlist' da Antena 1 e só, de tempos a tempos, surja uma ou outra das suas canções em programas de autor geralmente transmitidos a horas de sono? Fica à reflexão de quem tem por competência escrutinar e avaliar o serviço prestado pela rádio pública no domínio (importantíssimo) da música.



Quando a Luz Fechou os Olhos



Letra e música: Janita Salomé (Aos amores que nos ficam / Ao Zeca)
Arranjo: José Peixoto e José Mário Branco
Intérprete: Janita Salomé* (in LP "Olho de Fogo", Schiu!/Transmédia, 1987)




[instrumental]

Quando a luz fechou os olhos,
Amansou a terra um ar morno
De cinza, doce, de cores desmaiadas
Pelos perfumes vindos no bafo da noite.

Do ramo mais fino do silêncio
Soou o rouxinol num canto dorido
De seda e ondas, que soltava em cada nota
Um fio delicado de fumo como fogo-fátuo.

[instrumental]

Teceu um véu e ali se guardou
De volta às entranhas da vida.

[instrumental]

Basta um sopro mágico, liberto,
Para que a luz acorde a cantar.


* Janita Salomé – voz e taarijas
José Martins – sintetizador
Fernando Júdice – viola baixo
Paulo Curado – flauta e saxofone soprano
Tomás Pimentel – flügelhorn (fliscorne)
Produção e direcção musical – José Mário Branco
Gravado e misturado no Angel Studio II, Lisboa, de 29 de Outubro a 11 de Novembro de 1987
Captação de som – José Manuel Fortes, Rui Novais e Jorge Barata, assistidos por Luís Flores
Misturas – Jorge Barata, José Mário Branco e José Peixoto
URL: http://www.facebook.com/janitasalome
http://nossaradio.blogspot.com/2007/05/galeria-da-msica-portuguesa-janita.html



Capa do LP "Olho de Fogo" (Schiu!/Transmédia, 1987)
Concepção – Carlos Ramalho
Fotografia – Roberto Santadreu

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Outros artigos neste blogue com poemas/canções de homenagem a José Afonso:
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Filipa Pais: "Zeca"
José Mário Branco: "Zeca (Carta a José Afonso)"
Dulce Pontes: "O Primeiro Canto" (dedicado a José Afonso)
José Medeiros: "O Cantador"