01 outubro 2021

Luiza Todi por Carmen Dolores segundo Margarida Lisboa



LUIZA TODI, uma das maiores cantoras líricas do seu tempo, nasceu em Setúbal a 9 de Janeiro de 1753 e faleceu em Lisboa a 1 de Outubro de 1833. Filha de Ana Joaquina de Almeida e do mestre de música Manuel José de Aguiar, recebeu no baptismo o nome de Luísa Rosa de Aguiar.
Ainda na sua terra natal, entre 1758 e 1763, Luísa e três dos seus irmãos familiarizam-se com a arte de representação frequentando a residência de uma dama setubalense que organizava espectáculos teatrais em privado. Com dez anos de idade, ingressou no teatro profissional por mão de seu pai. Por contrato firmado a 6 de Julho de 1763, Manuel José de Aguiar e quatro dos seus filhos mais velhos (Cecília Rosa, António José, Isabel Ifigénia e Luísa Rosa) passavam a integrar a companhia do Teatro do Bairro Alto (Teatro do Conde de Soure).
Da prestação de Luísa no teatro declamado, que se cingiria à fase inicial do seu percurso artístico, há registo do seu desempenho como Faustina em "Tartufo" (versão da comédia de Molière realizada por Manuel de Sousa, sob encomenda do Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello), provavelmente em 1768. Casou-se, a 28 de Julho de 1769, com o napolitano Francesco Saverio Todi, primeiro violinista da orquestra do Teatro, que enviuvara dois meses antes. Pouco tempo depois, a cantora sadina, com a sua voz de mezzosoprano, seguiria a via operática. Na temporada de 1770-1771 do Teatro do Bairro Alto, cantou em três drammi giocosi per musica, dois dos quais musicados por Giuseppe Scolari. Na sequência de uma querela que surgiu, durante a execução de "Il bejglierbei di Caramania", entre aquele compositor e Francesco Todi, este e a mulher desligaram-se da Casa da Ópera do Bairro Alto. Contratada pelo Teatro do Corpo da Guarda, a cantora apresentou-se naquela casa de espectáculos do Porto entre 1771 e Janeiro de 1776, com um interregno no período compreendido entre Setembro de 1774 e finais de Janeiro do ano seguinte, em que, de regresso à capital, permaneceu incorporada no elenco do Teatro da Rua dos Condes, composto quase em exclusivo por artistas italianos. Em Lisboa cantou apenas em "Il Calandrano", saindo do Condes a meio dos ensaios de outra ópera cómica, em virtude de desentendimentos com os corpos directivos da Sociedade instituída para a subsistência dos Teatros Públicos da Corte. A última actuação de Luiza Todi em salas públicas do território português ocorreria na cidade do Porto, em 1775. Antes disso, em Junho de 1772, os frequentadores do Teatro do Corpo da Guarda puderam assistir ao seu desempenho em "Demoofonte", uma ópera do género sério a que melhor se ajustavam as suas características vocais e a expressão do seu canto. Para trabalhar e apurar os dotes canoros de Luiza terá contribuído o próprio marido e, acima de tudo, outro napolitano, o compositor David Perez, seu mestre dos tempos do Teatro do Bairro Alto e autor da partitura daquele "Demoofonte" de 1772.
Os Todi saíram de Portugal em 1777 a fim de Luiza atender a convites que lhe chegavam do país vizinho para se exibir em recitais privados, o que viria a suceder com relativa frequência noutros países ao longo do seu percurso artístico. A estreia pública no estrangeiro só viria a ocorrer em Londres, no King’s Theatre (Haymarket), no mês de Novembro do mesmo ano de 1777. Aí actuou, até Junho de 1778, em seis drammi giocosi per musica. Após o exórdio londrino, começou a dedicar-se ao género operático sério vindo posteriormente a pôr termo aos desempenhos na ópera cómica.
Durante vinte e dois anos, a contar de 1777, a Todi construiu uma brilhante carreira internacional, acumulando sucessos de público e aclamações da crítica nas muitas cidades europeias de diferentes áreas linguístico-culturais onde a sua voz se fez ouvir. Em França participou em quatro temporadas dos Concerts Spirituels parisienses (1778-1779; 1779-1780; 1783, 1789) e realizou uma digressão pelo sul do país que se estenderia também a terras suíças (1779). Na área de língua alemã, actuou em cidades austríacas (Viena, entre outras) e germânicas (1781-1782), tendo sido contratada duas vezes por Frederico II para cantar na capital da Prússia, Berlim (1783-1784; 1787-1789). Na Rússia apresentou-se em Sampetersburgo e Moscovo (1784-1787) ao serviço da czarina Catarina II, a quem dedicou a festa teatrale per musica "Pollibia" (1784), com libreto da sua autoria. Após uma curta digressão nos Países-Baixos, durante alguns meses da Primavera de 1790, a Todi chegava a Veneza, no Outono desse ano, mas a sua estreia na Península Itálica tivera lugar na cidade de Turim, cerca de oito anos antes. A temporada veneziana (1790-1791) no Teatro di San Samuele, que registou um tão memorável triunfo a ponto de ficar conhecida como "anno Todi", marcava o início da digressão italiana da cantora, que a levaria a Pádua, Bérgamo (1791) e novamente a Turim (1791-1792).
Antes de concluir o périplo italiano e assim, também, a sua carreira internacional, viajou até à Península Ibérica, a fim de cumprir um contrato para actuar num teatro madrileno por duas temporadas (1792-1793; 1793-1794). Entre estas duas estações teatrais, deslocou-se a Lisboa onde cantou na Real Casa Pia, a 14 de Maio de 1793, num espectáculo integrado nas festas pelo nascimento da infanta Maria Teresa, e participou, ainda em Maio, num sarau no palácio de Anselmo José da Cruz Sobral. No dia 12 de Janeiro de 1799, Luiza Todi terá actuado pela última vez numa sala pública estrangeira, na récita que rematava três temporadas triunfais (de 1796 a 1799) no Teatro di San Carlo. Foi isto em Nápoles, uma das mais importantes praças operáticas da Europa.
Ainda em 1799, os Todi regressaram a Portugal, fixando residência no Porto. Aí, cerca de quatro anos mais tarde, a 28 de Abril de 1803, Luiza perdeu o amado marido, e veio a sofrer, a 29 de Março de 2009, outro enorme revés: a perda nas águas do Douro dos seus mais valiosos pertences (dinheiro e jóias) quando caiu ao rio, onde por pouco não morreu afogada, ao tentar entrar numa barca para fugir da soldadesca francesa que, comandada por Soult, invadia Portugal pela segunda vez. Em finais de 1811, Luiza Todi instalou-se definitivamente em Lisboa. Cerca de dez anos antes da morte, cegou por completo, derradeira manifestação de uma grave doença ocular que se declarara durante a temporada veneziana e já lhe fizera perder a visão de um olho (1813). Vitimada, ao que se supõe, pelas sequelas de um acidente vascular cerebral, faleceu no 2.º andar do n.º 2 da Travessa da Estrela (Rua Luísa Todi, desde 1917), situada bem perto do local onde outrora se erguera a casa de espectáculos onde se apresentara pela primeira vez em público, o Teatro do Bairro Alto. Foi sepultada numa dependência da Igreja da Encarnação, ao Chiado, posteriormente transformada em loja de comércio. [adaptado do texto publicado no site do Instituto Camões].


Mário Moreau, na sua biografia de Luiza Todi, editada em 2002, lamentava-se, e com inteira razão, que «esta extraordinária figura da nossa arte lírica ainda não teve a consagração merecida, muito embora seja, de todos os cantores portugueses e só a par de Tomás Alcaide, quem menos ficou no esquecimento.»
A distinta realizadora de rádio Margarida Lisboa também nutria por ela uma inexcedível admiração, evocando a sua memória em vários programas que manteve na Antena 2 e não se poupando a esforços no sentido de ser rendida à maior cantora lírica nascida em terras lusas a devida e justa homenagem nacional, que poderia ser levada a cabo no ducentésimo quinquagésimo aniversário do seu nascimento (2003). Infelizmente, os políticos que então estavam no poder foram moucos aos seus apelos. Atitude que, aliás, está em perfeita consonância com a falta de reconhecimento que Luiza Todi recebeu de quem governava Portugal quando viveu, confirmando a desditosa tradição lusitana, de que Camões já se queixava e bem sofreu na pele, em que se vota ao desprezo os mais valorosos e se premeia com comendas e mordomias os medíocres que bajulam os poderes e interesses instalados.
No programa "Quem?", que começou em Janeiro de 2000, foi justamente à ilustríssima cantora que Margarida Lisboa deu honras de abertura com um ciclo de vários episódios (seis, pelo menos). E para desfiar as memórias da cantora, que a realizadora redigira servindo-se dos dados biográficos compilados por Mário Moreau, foi convidada Carmen Dolores.
Quando a emérita actriz nos deixou, em Fevereiro passado, a direcção da Antena 2 bem podia ter resgatado esse admirável ciclo composto por palavras ditas (Carmen Dolores dando voz às 'memórias' da cantora, Elisa Lisboa interpretando a czarina Catarina II da Rússia, André Maia representando Napoleão Bonaparte, Álvaro Faria encarnando Beethoven, etc.), envoltas em primorosa sonorização, intercaladas com palavras cantadas (excertos de óperas que Luiza Todi interpretou). Lamentavelmente, não o fez. O realizador João Pereira Bastos, ao invés, teve a mui louvável iniciativa de preencher duas edições do seu programa "Ecos da Ribalta", emitidas em Maio, com a versão condensada e remontada desse ciclo, que Margarida Lisboa, em 2004, havia editado em CD com o título "Luísa Todi: A Cantora da Nação" e oferecera à insigne actriz.
Aqui deixamos os links dessas duas edições do programa de João Pereira Bastos, em evocação de Luiza Todi, neste Dia Mundial da Música em que se completam 188 anos sobre a sua morte, e em reiterada homenagem a outras duas distintas mulheres portuguesas: Carmen Dolores e Margarida Lisboa. Boa audição!


ECOS DA RIBALTA | 19 Mai. 2021 [>>  RTP-Play]
Carmen Dolores em "Luísa Todi: A Cantora da Nação I"

ECOS DA RIBALTA | 26 Mai. 2021 [>>  RTP-Play]
Carmen Dolores em "Luísa Todi: A Cantora da Nação II"



Sobrecapa do livro "Cantores de Ópera Portugueses: Volume I", de Mário Moreau (Livraria Bertrand, 1971)



Capa do livro "Luísa Todi: 1753-1833", de Mário Moreau (Hugin Editores, 2002)
Edição comemorativa do 250.º aniversário do nascimento de Luísa Todi.
Retrato de Luiza Todi (1785, óleo sobre tela, 61.7 cm x 78.8 cm) por Marie-Louise-Élisabeth Vigée Le Brun, actualmente em exposição no Museu Nacional da Música, Lisboa.

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Outros artigos com registos na voz de Carmen Dolores (poesia ou teatro radiofónico):
Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes
Sebastião da Gama: "Poesia", por Carmen Dolores
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
"Ecos da Ribalta": homenagem a Carmen Dolores
Mário Dionísio: "Solidariedade", por Carmen Dolores

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Outros artigos comemorativos do Dia Mundial da Música:
Fernando Tordo: "Bendita Música"
Pedro Barroso: "Música de Mar"
Sérgio Godinho: "Mão na Música"
José Barros e Navegante: "Músicos, Cravos e Rosas"

22 setembro 2021

José Medeiros: "Outono Adiado"


Gustave Courbet, "La mer d'automne" ("Mar de Outono"), 1867, óleo sobre tela, 54 × 73 cm, Ohara Museum of Art, Kurashiki, Japão
[Para ver o quadro em ecrã inteiro clicar aqui]


Quando se compara a vida de uma pessoa ao ciclo das estações do ano, com início no equinócio da Primavera, quanto mais tarde surgir o Outono dessa vida tanto melhor: para a própria, em primeiro lugar, e para aquelas que ela ama e que a amam (que fundeiam o seu fado no cais desse Outono adiado, como diz José Medeiros dirigindo-se à sua mulher, Conceição Medeiros).
No que respeita ao ciclo das estações determinadas pelo movimento de translação da Terra em torno do Sol, é o equinócio do Outono que marca o início da estação que sucede ao Verão. Neste 2021, no hemisfério norte aconteceu às 20h:21 (hora de Portugal Continental, 19h:21 UTC). Estando por debelar a pandemia vírica que há quase dois anos vem assolando a Humanidade, o Outono que ora começa não poderá ser vivido em pleno por muitas pessoas, principalmente pelas que têm sistemas imunitários mais frágeis. Para essas e, em certa medida, também para a generalidade da população, este Outono será constrangido, restando a esperança de que o próximo seja perfeitamente normal. Dá-se, por assim dizer, um adiamento pelo período de um ano do Outono plena e livremente desfrutável. Para já, a audição da belíssima canção "Outono Adiado", de e por José Medeiros, impregnada de nostalgia como é próprio do tempo outonal, constitui um excelente lenitivo para impaciência de esperar.

Quem se der ao cuidado (e ao desprazer) de acompanhar a emissão da Antena 1, fora dos escassos programas de autor que divulgam música, facilmente se dá conta da fraca qualidade da oferta musical, da presença excessiva de produção estrangeira não lusófona, quase toda medíocre, e da ausência de um extenso rol de artistas portugueses de mérito reconhecido. O categorizado poeta, compositor e intérprete José Medeiros é uma dessas vítimas do criminoso silenciamento. Assim acontece por vontade de quem trata da 'playlist', decerto com o beneplácito das cúpulas da empresa Rádio e Televisão de Portugal, para as quais as obrigações do serviço público de rádio no capítulo da música (de língua) portuguesa, legalmente estabelecidas, não são mais do que letra-morta. Mas não pode ser! Urge que se ponha côbro a tal indecência! Num Estado cujos governantes não se cansam de apregoar que é de direito democrático não se pode tolerar que haja entidades suportadas pelos contribuintes a agir em flagrante infracção das leis e dos demais diplomas regulamentares promulgados pelos órgãos de soberania.



Outono Adiado



Letra e música: José Medeiros (Para a São)
Intérprete: José Medeiros* (in Livro/2CD "Fados, Fantasmas e Folias": CD 2, Algarpalcos, 2010)


[instrumental]

Na minha voz há um navio
Sulcando o mar do desencanto;
Na minha voz, um desvario,
Uma incerteza, um quebranto.

Já lancei uma garrafa ao mar,
Sei quanto é preciso navegar;
Meu anseio é fundear meu fado
No cais desse teu Outono adiado.

Na tua voz há um veleiro
Engravidando as marés:
Fonte de luz, doce luzeiro
Amanhecendo no convés.

Rumos de formosas caravelas
Sulcando a poeira das estrelas...
Ancorei as rimas do meu fado
No cais desse teu Outono adiado.

Se eu tatuar a rosa-dos-ventos
Nas levadias desse mar encapelado,
Se eu for lavrador de encantamentos
Teu varadouro há-de ser meu chão sagrado.

[instrumental]

Já lancei uma garrafa ao mar,
Sei quanto é preciso navegar;
Meu anseio é fundear meu fado
No cais desse teu Outono adiado.

Na tua voz há um veleiro
Engravidando as marés:
Fonte de luz, doce luzeiro
Amanhecendo no convés.

Rumos de formosas caravelas
Sulcando a poeira das estrelas...
Ancorei as rimas do meu fado
No cais desse teu Outono adiado.


* José Medeiros – piano e voz
Manuel Rocha – violinos
Gil Alves – flauta
Jorge Silva – sintetizador

Arranjo – José Medeiros, com a colaboração de todos os músicos
Produção – Eduardo Manuel, João Domingos (Algarpalcos), Raul Resendes e Jorge Lavouras
Gravado em Ponta Delgada (Ilha de São Miguel) por Raul Resendes, em Lisboa por Paulo Feijão, e em Coimbra por Luís Pedro Madeira
Misturas – Raul Resendes
Masterização – António Pinheiro da Silva
URL: http://www.zecamedeiros.com/
https://www.facebook.com/Zeca.Medeiros
https://www.youtube.com/channel/UC_PhP5SeNuItFD8ZpokTpLA/videos
http://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/search?query=rosa+dos+ventos



Capa do Livro/2CD "Fados, Fantasmas e Folias", de José Medeiros (Algarpalcos, 2010)
Desenho gráfico – Bruno Correia
Desenho – José Medeiros

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Outros artigos com repertório alusivo do Outono:
Celebrando Maria Teresa de Noronha
Max: "Outono na Cidade"
Jorge Cravo: "Outono à Beira-Rio"
Diabo a Sete: "Outono Embargado"

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Outro artigo com repertório de José Medeiros:
José Medeiros: "O Cantador"

21 junho 2021

Trio Fado: "À Espera do Verão"


"Lisboa à Espera", sardinha criada por João José Largueiras Martins | Concurso Sardinhas Festas de Lisboa 2014


Os festejos dos santos populares acontecem em Junho, e não noutro mês qualquer, porque são adaptações feitas pela Igreja de ancestrais cultos pagãos ao Sol que se realizavam, como está implícito, por alturas do solstício de Verão. Por causa da presente pandemia de COVID-19, ademais verificando-se a disseminação de uma nova estirpe mutante altamente contagiosa, denominada delta, a Câmara Municipal de Lisboa deliberou – e bem –, a exemplo do que fez no ano transacto, não promover as tradicionais festas da cidade e interditar os arraiais e as marchas populares. Procedimento idêntico ou medidas impeditivas da aglomeração de pessoas foram ou devem ser adoptados pelas edilidades do Porto, de Braga e das demais localidades do país onde era costume haver festas e arraiais sob a égide de Santo António, de S. João Baptista, de S. Pedro ou, já em Julho, Agosto ou Setembro, de outros santos. Neste domínio da diversão (e não só) podemos afirmar que o Verão de 2021 será atípico e macambúzio, quase como se fosse Inverno, não restando aos mais dados a folguedos e petiscadas conviviais de sardinhas e bifanas regadas a tinto outra opção (consciente e responsável) que a de esperar pelo Verão de 2022, fazendo figas para que não haja necessidade de prolongar a espera para além daquele. Em termos musicais, o tema "À Espera do Verão", do Trio Fado, não podia vir mais a propósito para ser destacado neste dia em que começou (no hemisfério norte, evidentemente) um Estio que não poderá ser plenamente vivido, mas que tem o condão de fomentar no espírito da maioria das pessoas a legítima esperança de que o próximo se venha a revelar jubiloso.

Dos muitos emigrantes portugueses e lusodescendentes que, além-fronteiras, se dedicam à música (instrumental e/ou cantada em português) poucos produzem obra com qualidade bastante que a torne digna de ser apreciada pelos co-patrícios deste rectângulo lusitano minimamente exigentes e dotados de bom gosto. Entre esses escassos mas honrosos casos contam-se os que formam o Trio Fado, grupo radicado em Berlim que até à data publicou três álbuns, o segundo dos quais em 2009, de título "PortoLisboa", que contém o espécime ora apresentado.
Não sabemos se a RDP-Internacional tem divulgado (ou alguma vez divulgou) repertório do Trio Fado, mas queremos acreditar que sim. Na 'playlist' da Antena 1 é certo que nunca entrou qualquer tema do Trio Fado e temos também sérias dúvidas de que no único e esconso reduto da grelha consagrado ao fado, chamado "Alma Lusa", algo do grupo já marcou presença. E aqui não podemos deixar de apontar o dedo acusatório ao primeiro canal da rádio estatal pelo continuado alheamento ante a boa produção musical da diáspora portuguesa. Tal atitude, além de tremendamente injusta para esses artistas, representa um inqualificável acto de sonegação cultural aos ouvintes de cá, os quais, em razão da contribuição que são obrigados a desembolsar mensal ou bimestralmente, mereciam mais consideração da parte da (sua) Antena 1.



À Espera do Verão



Letra: Maria Carvalho
Música: Frederico Valério ("Não Sei Porque te Foste Embora")
Intérprete: Trio Fado* (in CD "PortoLisboa", Trio Fado, 2009)




[instrumental]

Caminho acompanhando o tempo,
Um tempo que me sabe a curto...

O Inverno aceita o descanso,
Incerto dá lugar ao sol
Que, ainda tão meigo, ao de leve
Toca nas vozes que despertam:
Sem dó esquecem o Inverno,
Viram costas e entoam
Cantos de louvor ao Sol.

Cidade nova me acolhe,
Fresca e embrulhada em cheiro
De tanta lembrança antiga...
Quieta e entregue ao vento,
Agora transformado em brisa,
Ouço o murmúrio de água numa fonte
Que brinca como um riacho de um monte.

[instrumental]

A porta, que conteve a ânsia
De vida de tanta criança,
Range ao abrir, depois de longa chuva,
Com o grito alegre de gente miúda.

[instrumental]

Aberto, o céu dá passagem
A cheiro de sardinha e vinho,
De cigarro e de café...
É o Sr. Verão que nos visita:
Vem em sopro de calor,
Mas diz que ainda não fica.


* Trio Fado:
Maria Carvalho – voz
António de Brito – viola
Daniel Pircher – guitarra portuguesa
Benjamin Walbrodt – violoncelo

Produzido por Trio Fado
Masterizado por Niklas Schmincke, no Studio P4, Berlim
URL: http://www.triofado.de/
https://www.facebook.com/TrioFado/
https://www.youtube.com/channel/UCKvSiLZsq_Zo5Mylo00Bf7Q



Capa do CD "PortoLisboa", do Trio Fado (2009)
Design gráfico – www.meisterstein.de e www.lichtgruen.de
Fotografia – www.meisterstein.de

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Outros artigos com canções alusivas ao Verão:
Janita Salomé: "Reino de Verão"
Grupo Banza: "Verão"
Fernando Pardal: "Estio" (Manuel da Fonseca)
Trovante: "Noite de Verão" (Manuel da Fonseca)

10 junho 2021

Camões recitado e cantado (VII)


© Maria Madrinha, 23 Jun. 2007 (https://www.flickr.com/photos/ametista/594153507/)
Estátua de Luís de Camões, em bronze, adjacente ao Jardim do Horto dedicado ao Poeta, na vila ribatejana de Constância. Concebida pelo escultor Lagoa Henriques, foi inaugurada a 6 de Junho de 1981, pelo então presidente da República António Ramalho Eanes.


«Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas "Lusíadas", como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: "Alma minha gentil, que te partiste...» (excerto do manuscrito da "Década VIII", atribuído a Diogo do Couto, c.1542-1616)

"Alma minha gentil, que te partiste": um dos mais conhecidos espécimes da Lírica camoniana e também um dos poemas mais belos e pungentes que alguém, em qualquer lugar, alguma vez escreveu a pessoa bem-amada que já não se conta no número dos vivos. Dirigido a uma rapariga oriental, provavelmente chinesa, chamada Dinamene (assim surge designada noutro soneto), que perecera num naufrágio ocorrido, presume-se, ao largo da foz do rio Mekong, o soneto tem como sujeito um homem, o poeta Camões, porque sabemos que foi ele o autor. No entanto, o sexo ou género do sujeito (o mesmo acontecendo com o do objecto) não está inequivocamente expresso nos versos, pelo que podem ser apropriados, com toda a legitimidade, por uma mulher para evocar um saudoso ente querido, trate-se ele de homem, mulher ou transgénero.
Já aqui apresentámos este admirável soneto por duas vozes masculinas – João Villaret [cf. Camões recitado e cantado] e Luís Cília [cf. Camões recitado e cantado (V)] – e por uma feminina – Amália Rodrigues [cf. Camões recitado e cantado (II)]. Nesta revisitação que lhe fazemos, em exclusivo, todas as vozes (três) são femininas – Carmen Dolores, Simone de Oliveira e Elsa Saque – e em abordagens muito distintas entre si: a primeira, recitada; a segunda, cantada em linguagem de fado (sobre melodia de Alfredo Marceneiro); e a terceira, cantada em registo lírico (com música de Fernando Lopes-Graça). Dedicamos esta singela celebração camoniana a todas as pessoas que já passaram pela desoladora experiência de ver partir uma "alma gentil".

A Antena 1, neste 10 de Junho, voltou a olhar para a obra do nosso Poeta maior como um cão quando passa por vinha vindimada. Quer dizer: ignorou-a, pura e simplesmente. Perguntamos: daria assim tanto trabalho pegar em quinze poemas de Camões, uns recitados e outros cantados, e difundi-los ao longo do dia, ao ritmo de um por hora? E era também muito complicado reprogramar a 'playlist', de modo a que oferta musical fosse somente cantada em português? Lamentavelmente, a inércia e o desleixo sobrepuseram-se, uma vez mais, ao dever de prestar serviço público. Vergonhoso!



Alma minha gentil, que te partiste



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Recitado por Carmen Dolores* (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003)


Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na Terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.


* Carmen Dolores – voz
Produção – Dito e Feito
Gravado nos Estúdios Goya, Lisboa, em Dezembro de 2002
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Carmen_Dolores
https://www.infopedia.pt/$carmen-dolores
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/search?query=carmen+dolores



Alma Minha Gentil, que te Partiste



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Música: Alfredo Duarte "Marceneiro" (Fado CUF)
Intérprete: Simone de Oliveira* (in LP "Mulher, Guitarra", Philips/Poygram, 1984, reed. Universal, 2003)




Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,      | bis
e viva eu cá na Terra sempre triste. |

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente  | bis
que já nos olhos meus tão puro viste.    |

E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.


* Simone de Oliveira – voz
Martinho da Assunção – viola
Vital da Assunção – viola
Arménio de Melo – guitarra portuguesa
Fernando Correia Martins – viola baixo

Arranjos e direcção musical – Martinho da Assunção
Produção – Carlos do Carmo
Gravado no Angel Studio 1, Lisboa, em Outubro de 1983, por Rui Novais
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Simone_de_Oliveira
https://giradiscos.me/2019/09/28/a-discografia-de-simone-de-oliveira/
https://www.youtube.com/channel/UC8_4OqfgRzWxv-dbOZTqWlg



Alma minha gentil, que te partiste



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Música: Fernando Lopes-Graça (2.ª peça de "Três Sonetos de Camões", Op. 27, 1939)
Intérpretes: Elsa Saque* & Nuno Vieira de Almeida (in 2CD "Fernando Lopes-Graça e os Poetas": CD 1, Tradisom, 2006)




Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na Terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.


* Elsa Saque – voz (soprano)
Nuno Vieira de Almeida – piano

Assistente musical – Fernando Serafim
Supervisão artística – Nuno Vieira de Almeida
Técnico de piano – Manuel Patrão
Coordenação executiva – José Moças / Tradisom
Gravado no Salão do Conservatório Nacional de Lisboa, nos dias 2 a 6 de Junho de 2006
Técnico de gravação – José Fortes
Edição e masterização – José Fortes
URL: https://www.facebook.com/Elsa-Saque-Soprano-553289944782411/
https://www.meloteca.com/portfolio-item/elsa-saque/
https://www.youtube.com/channel/UCIWY-MNsP3G6In7yu4rgCdg
https://www.youtube.com/channel/UCuafekhGZb5t_8H6n-a1U8A



Capa do CD "Poemas da Minha Vida", de Carmen Dolores (Dito e Feito, 2003)
Design gráfico – João Nuno Represas



Capa do LP "Mulher, Guitarra", de Simone de Oliveira (Philips/Poygram, 1984)
Fotografia – Chico Graça



Capa do duplo CD "Fernando Lopes-Graça e os Poetas", de Elsa Saque & Nuno Vieira de Almeida (Tradisom, 2006)
Design e concepção gráfica – Henrique Silva ('Bibito')
Fotografias – Inácio Ludgero

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Camões recitado e cantado
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Camões recitado e cantado (III)
Camões recitado e cantado (IV)
Camões recitado e cantado (V)
Camões recitado e cantado (VI)

01 junho 2021

Taleguinho: "Pele de Piolho"



Entre os setenta e cinco "Contos Populares Portugueses" que Francisco Adolfo Coelho coligiu e publicou, em 1879, consta um que dá pelo título de "A Pele do Piolho". Luís Pedro Madeira, do projecto conimbricense Taleguinho, achou por bem adaptá-lo tomando a liberdade de acrescentar-lhe vários pontos (fazendo jus ao ditado «quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto») na gravação feita para o álbum "Costurar Cantigas e Histórias", editado em 2020. Trata-se de uma belíssima versão que desenvolve e aprimora o texto sucinto publicado por F. Adolfo Coelho, sendo que tem o atractivo adicional de incluir um trecho cantado (acompanhado por instrumentos musicais), no caso a cantiga tradicional de cunho satírico "Olha o Velho, Olha o Velho", cuja melodia é das mais belas da tradição oral portuguesa. É pois com a "Pele de Piolho", primorosamente tratada pelo Taleguinho, que celebramos este Dia Mundial da Criança, esperando que seja do apreço dos miúdos e graúdos que fiquem com curiosidade de ouvi-la.

Não somos ouvintes da Rádio ZigZag (já tentámos mas desistimos porque a selecção musical deixou-nos muito a desejar), todavia queremos acreditar que as histórias tradicionais tenham cabimento na respectiva programação, seja extraídas de edições discográficas, seja contadas para o efeito por quem sabe fazê-lo bem. Será que os infantis ouvintes da Rádio ZigZag já tiveram a oportunidade de se encantar com esta "Pele de Piolho", do Taleguinho? Se sim, louvamos quem se ocupa da pesquisa de histórias publicadas em disco com o propósito de divulgação naquela rádio 'online'. Se não, fica a sugestão.
Na hertziana Antena 3 (e, porque não?, também na Antena 1) era bom que existisse um espaço diário reservado a uma história para crianças, em horário certo (que poderia muito bem ser por volta das 21h:00). Não havendo uma rádio hertziana dedicada ao público infantil, importa que as que existem façam alguma coisa para criar hábitos de escuta radiofónica nos mais pequenos, sem necessidade de terem de estar obrigatoriamente 'online'. O futuro começa a construir-se hoje mesmo. Que futuro terá a rádio se quem actualmente a dirige não tiver a clarividência de fazer o que lhe compete para atrair aqueles que amanhã poderão garantir a sua sobrevivência?



Pele de Piolho



História adaptada por Luís Pedro Madeira a partir da versão de Coimbra coligida por Francisco Adolfo Coelho e publicada no livro "Contos Populares Portugueses" (Lisboa: Paulo Plantier, 1879)
Contada por Luís Pedro Madeira / Taleguinho* (in CD "Costurar Cantigas e Histórias", Taleguinho, 2020)
Cantiga "Olha o Velho, Olha o Velho" interpretada por Catarina Moura / Taleguinho*




Era uma vez um rei que tinha muita comichão na cabeça. Muita mesmo! Estava tão aflito que resolveu chamar pela filha:
— Ó minha rica filha, ó minha princesa, vem aqui ver o que é que o teu pai tem na cabeça, que não há meio de me parar de coçar!
A menina veio logo e começou a catar o pai no regaço. De repente parou e disse:
— Ó senhor meu pai, olhe que tem aqui um piolho! E olhe que é dos grandes! Quer que lho mate?
— Não, não, não! Deixa estar o bicho. Piolho em cabeça de rei é piolho real. E sempre me faz companhia naquelas longas sessões na sala do trono.
Assim foi. A menina deixou ficar o piolho, mas o bicho foi crescendo, crescendo, crescendo, até que era já mais ou menos impossível que ninguém reparasse. E um dia a menina foi ter o pai e disse:
— Senhor meu pai, vós sois rei e vós lá sabeis, mas esse piolho já está um bocadinho grande demais. As pessoas já começam a reparar. De vez em quando, quando Sua Majestade está a dar audiência, por cima coroa já se vê uma patita dele. E sabe como é: as pessoas reparam e começa a falar-se...
— Bem sei, minha filha, bem sei, o bicho cresceu mais do que eu esperava e já está muito grande. Infelizmente, vou ter que o mandar matar. Mas em recordação deste bicho que me fez aqui tanta companhia, com a pele dele hei-de mandar fazer um pandeiro.
Assim foi. O rei mandou fazer um pandeiro com a pele do piolho e mandou guardá-lo lá na torre mais alta, lá num armário onde havia de ficar por muitos anos. A menina foi crescendo e tornou-se mulher. Um dia foi ter com o pai e disse:
— Ó senhor meu pai, eu gostava de ter um noivo, gostava de me casar.
— Bem sei, minha filha, chegou a hora de te casar. E temos que te arranjar um noivo, mas não pode ser um palerma qualquer que venha para aí, que isto agora anda aí uma gandulagem que sabe Deus! Não pode ser um qualquer: tem que ser um rapaz avisado, um rapaz com juízo, um rapaz como deve ser. Vou mandar chamar todos os rapazes do Reino para que escolhamos o melhor.
Assim foi. O rei mandou então os seus arautos ao cimo das muralhas do castelo a anunciar aos quatro ventos:
— O rei manda dizer que quer casar a sua filha. Os rapazes todos do Reino devem vir ao palácio responder a uma pergunta do rei. Aquele que acertar casará com a menina.
Ora, como a princesa era muito bonita e ainda por cima tinha alguma coisa de seu, acorreram rapazes de todo o lado para vir responder à pergunta do rei e ter a mão da princesa em casamento. No dia combinado estava uma fila enorme de rapazes à porta do palácio, e o rei pediu então ao seu velho criado que fosse lá à torre mais alta; lá dentro dum armário havia de encontrar um pandeiro que lá estava guardado há muitos anos. O criado foi buscar o pandeiro e o rei, mostrando-o a todos aqueles rapazes, disse:
— Ó rapazes, aquele que de vocês adivinhar de que é feito este pandeiro casará com a princesa!
Os rapazes puseram-nos todos a olhar com muita atenção... e veio o primeiro e botou-se a adivinhar:
— Eu acho que este pandeiro é feito de pele de cabra.
— Não, não! — disse o rei. E passou ao próximo.
— Oh, não, não, eu acho que este pandeiro é feito de pele de porco.
— Também não.
— Não, não, este pandeiro é feito de... de pele de cabrito.
— Também está errado.
E vinham e vinham... e iam tentando, tentando... e vinha um e dizia:
— Eu acho que é de pele de vitela.
— Eu acho que é de pele de cão.
— Eu acho que é de pele de gato.
— Eu acho que isto é pele de burro.
— Eu acho que isto é pele de... de... de... eu acho que isto é pele de galinha, se calhar, sei lá!...
— Eu acho que isto... parece-me a mim que é assim um bocado tipo pele de... de... de...
E iam todos, todos errando. Ora dá-se o caso que naquela fila enorme de rapazes estava um rapaz com quem a princesa engraçava. Mas as princesas nem sempre acertam muito: às vezes engraçam com rapazes que são assim... palermas. Este, além de palerma, era muito mouco, ouvia muito mal. Mas a princesa foi-se pôr atrás do velho criado, falando-lhe lá para o meio da fila o mais baixinho que conseguia:
— Ei! Estás a ouvir? Olha!
E ele lá do meio da fila dizia:
— Hum?
— Olha, o pandeiro é feito de pele de piolho.
— Hum? É... é uma espécie de repolho?
— Não, não! O pandeiro é feito de pele de piolho.
— Hum... Uma galinha com molho?
— Não! — dizia a menina, apontando para a cabeça — Não! É feito de pele de piolho.
— Ah! Acho que já ouvi.
Mas quando chegou a vez dele, o rapaz, apontando o pandeiro, disse:
— Eu acho que este pandeiro é... é feito de pele do sobrolho.
Errado. E foram errando os outros rapazes todos, até que aconteceu uma coisa que causou grande consternação geral e uma surpresa de que ninguém estava à espera. O velho criado vira-se para o rei e diz assim:
— Saiba Vossa Majestade que eu também sou um rapaz solteiro e, como rapaz solteiro, também gostava de me botar a adivinhar de que que é feito este pandeirinho.
O rei achou aquilo muito estranho, mas disse:
— Bom, de facto não vejo nada que te impeça de tentar também.
— Ora, eu acho... eu acho que este pandeirinho é feito de pele de piolho.
E todos exclamaram:
— Oh!
E o espanto era enorme; e se nós ficávamos espantados, mais espantada ficou a princesa. Espantada e danada. E dizia:
— Ah! Ah! Ah! Sacana do velho! Isto não pode ser! Isto não pode ser, porque ele ouviu-me! Ele ouviu-me a falar com o meu amigo, ele ouviu a resposta... Então, mas isto não pode ser! Eu vou agora casar com aquele velho?! Ah! Mas isso é que não vou, ai não vou, não senhora! Era agora o que me faltava! Ele ainda por cima fez batota. Não senhor!
E então chamou o velho à parte, dizendo-lhe que lhe queria cantar uma canção. E cantou-lhe assim:

— Olha o velho! Olha o velho!  | bis
Olha o velho atrevido:             |
Dizer-me na minha cara    | bis
Que queria casar comigo!  |

Se quiser casar comigo,  | bis
Há-de ser na condição    |
De eu dormir em cama fofa  | bis
E tu, velho, nesse chão.       |

E tu, velho, se falares,            | bis
Hás-de levar com um bordão; |
Eu hei-de comer pão alvo  | bis
E tu, velho, de rolão.        |
 
«A rapariga… diz que se eu casar com ela que tenho que dormir no chão, logo eu que sofro tanto das minhas cruzes! E que tenho que comer sempre pão duro, eu que quase já não tenho dentes! E que se falar que me dá com um pau! Que serviço que eu havia de aqui arranjar, hã! O melhor, se calhar, é eu ir com delicadeza falar ao rei e tentar resolver isto da melhor forma.»
— Sua Majestade não me leve a mal, a sua filha é assim uma rapariga muito jeitosa, muito educadinha e muito meiguinha, mas eu estive a pensar que já tenho uma certa idade... Não caminho para novo e agora com esta idade lembrar-me de casar... se calhar, até foi um bocado de asneira e por isso vinha falar com Sua Majestade que se me pudesse desobrigar desta coisa do casório... quer dizer: se calhar, a rapariga encontrava assim um moço mais assim lá para a idade dela, não é verdade?
Ora isto era o que o rei queria, porque, de facto, não queria casar a filha com aquele velho; e então o rei lá o desobrigou e a filha, um tempo depois, lá encontrou um príncipe com quem foi feliz para quase sempre.
Vitória, vitória, acabou-se a história.


* Taleguinho:
Catarina Moura – voz
Luís Pedro Madeira – voz falada, viola braguesa, bandola, bandolim, banjo, cavaquinho, percussão
Participação de:
Manuel Rocha – violino

Arranjos – Luís Pedro Madeira
Produção – Taleguinho
Gravado, misturado e masterizado no Estúdio Láudano (Coimbra), em 2019 e 2020
Gravação, mistura e masterização – Luís Pedro Madeira
Assistência de gravação e mistura – Paulo Yoshida de Carvalho
URL: https://www.facebook.com/taleguinho
https://taleguinho.bandcamp.com/



Capa do CD "Costurar Cantigas e Histórias" (Taleguinho, 2020)
Ilustração e design gráfico – Cátia Vidinhas

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01 maio 2021

Fausto Bordalo Dias: "Uma Cantiga de Desemprego"



As pandemias de grande morbilidade, além das mortandades que causam e dos problemas de saúde (físicos e/ou psíquicos) que provocam num número muito significativo dos sobreviventes, têm sempre como efeito uma recessão económica. A face mais visível e dramática dessa disrupção, nas sociedades modernas, é o desemprego e a intrínseca depauperação das condições de vida de quem ficou sem trabalho, assim como dos demais elementos do respectivo agregado familiar. Devido à pandemia vírica, que há mais de um ano vem assolando a Humanidade, muitas pessoas já foram despedidas ou não viram os seus contratos de trabalho ser renovados, e ainda bastantes mais vão cair na situação de desemprego nos tempos que aí vêm, apesar da vacinação estar a decorrer a bom ritmo nalguns países (nos mais ricos). A crise social vai agravar-se e será severa. Quanto a isso não vale a pena ter ilusões...
Não serão poucos aqueles que, sem trabalho e com pouco dinheiro, vão assistir à sucessão dos dias e dos meses sem que vislumbrem uma luz ao fundo do túnel. A esses trabalhadores desempregados (especialmente os que não recebem subsídio de desemprego ou o recebem em parco montante) manifestamos a nossa solidariedade, neste Dia do Trabalhador, pondo em destaque "Uma Cantiga de Desemprego", escrita, composta e interpretada por Fausto Bordalo Dias. O cantautor gravou-a duas vezes: a primeira para o LP "Madrugada dos Trapeiros", de 1977, e a segunda para o duplo CD "Atrás dos Tempos Vêm Tempos", publicado em 1996. Escolhemos a original, cujo arranjo nos parece mais belo e cativante, em boa parte graças à flauta de Rão Kyao.

Fausto Bodalo Dias é, incontestavelmente, um dos mais categorizados criadores da Música Portuguesa, mas não tem recebido da rádio portuguesa (privada e estatal) o reconhecimento condizente com esse estatuto. Na pública Antena 1, a tal que tem a obrigação de divulgar a nossa melhor música popular, só muito esporadicamente é dado a ouvir e invariavelmente com um dos espécimes mais conhecidos – "Se Tu Fores Ver o Mar (Rosalinda)", "Navegar, Navegar", "O Coça-Barriga" ou "Foi por Ela" –, o que representa uma tremenda injustiça para um artista da sua dimensão e com dezassete álbuns publicados (catorze em nome individual, cinco dos quais duplos, e três colectivos, um deles duplo), deixando nos ouvintes menos avisados a ideia de que o seu repertório se resume a meia dúzia de canções.



Uma Cantiga de Desemprego



Letra e música: Fausto Bordalo Dias
Intérprete: Fausto Bordalo Dias* (in LP "Madrugada dos Trapeiros", Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1999; CD "Fausto", col. O Melhor dos Melhores, vol. 39, Movieplay, 1994)




[instrumental]

Fumo um cigarro deitado,
No mês de Janeiro;
Fecho a cortina da vida,
Espreguiço em Fevereiro.

E procuro trabalho
Nesta esperança de Março;
Já me farta tanto Abril
E aquilo que não faço!

Espreito por um funil
A promessa de Maio:
Porque esperar prometido,
Nessa eu já não caio!

Queimo os dias de Junho
No sol quente de Julho;
Esfrego as mãos de contente
Num sorriso d'entulho.

Para teu grande desgosto,
Janto contigo em silêncio;
E lentamente esquecido,
Digo-te adeus em Agosto.

Meu Setembro perdido
Numa esquina que eu roço;
E penso em Outubro
O menos que posso.

[instrumental / vocalizos]

Mas quando sinto a verdade
Daquilo que cansa,
Nunca houve vontade
Do tempo de andança.

E sinto força em Novembro,
Juro luta em Dezembro.
E sinto força em Novembro,
Juro luta em Dezembro.

[instrumental]


* Fausto Bordalo Dias – voz e guitarras acústicas
Rão Kyao – flauta
Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa, durante o Inverno de 1976/77
Técnico de som – Moreno Pinto
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Fausto_Bordalo_Dias
http://www.macua.org/biografias/fausto.html
https://www.viriatoteles.net/livros/contas-a-vida/41-fausto-bordalo-dias.html
https://www.youtube.com/channel/UCh5tYA07B0Uur5Mo1gbPmYQ/videos?query=fausto
https://www.youtube.com/channel/UCH_869XTh5lFDKiCKvmuV_w



Capa do LP "Madrugada dos Trapeiros", de Fausto Bordalo Dias (Orfeu, 1977)
Arranjo gráfico – José Brandão

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Artigos relacionados:
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Dialecto: "Instrumentos de Trabalho" (Maria Teresa Horta)

25 abril 2021

Manuel Alegre: "País de Abril", por Mário Viegas



Quando o poema "País de Abril" foi publicado, em Janeiro de 1965, no livro "Praça da Canção", a Pátria estava vestida de viúva (embora para um estrangeiro, vendo-a de fora, lhe pudesse parecer bordada – de farrapos, capa de trapos remendada a verdes folhas). Nove anos mais tarde, no dia 25 de Abril de 1974, a Primavera deixou de ser triste desabrochando em esfuziante alegria, pela tão almejada Liberdade que a Pátria finalmente conquistara, ao cabo de quase meio século de opressão, e ante a radiosa expectativa de que doravante a Pátria liberta e democrática deixasse de ter filhos maltrapilhos e famintos. Passaram 47 anos e a Pátria tende a assemelhar-se ao que era antes da Revolução dos Cravos: cada vez mais alquebrada, cabisbaixa (como que oferecendo-se à resignada genuflexão), sem mão nos filhos desonestos (corruptos, agiotas, burlões, intrujões, charlatães, etc.) e negligente no amparo aos mais desfavorecidos. Como vão estes olhar para uma Pátria que os enjeita, ao mesmo tempo que é pródiga com outros filhos, cuja vampiragem os levou à indigência? Obviamente com um sentimento de revolta e prontos a aderirem a qualquer messias que lhes prometa uma vida (mais) digna, ainda que tais promessas venham a revelar-se um logro (um náufrago, na esperança de não se afogar, toma como bóia de salvação não os objectos flutuantes que já sabe vão deixá-lo ir ao fundo mas aqueles que aparentemente não são submersíveis). Terá o regime político vigente capacidade de se regenerar e assim evitar o seu gradual definhamento e, por fim, a morte?
A poesia tem o mérito de nos ajudar à reflexão e quando dita por quem sabe acentuar o sentido das palavras, tal exercício fica grandemente facilitado. Os versos de Manuel Alegre magistralmente recitados por Mário Viegas (a quem aproveitamos para homenagear neste mês em que se completaram 25 anos sobre o seu desaparecimento) poderão assim ecoar na mente de mais gente, que tão necessária é para ajudar a tornar a Pátria menos injusta e menos iníqua para muitos dos seus filhos.

Na rádio pública, mormente na Antena 1, há largos anos que a injustiça e a iniquidade se implantaram na área da divulgação musical e poética. Sem que isso seja publicamente assumido, claro está, porém bem patente nos procedimentos. Basta atentar na 'playlist' e não será difícil perceber quanto é vasto o rol de artistas de reconhecida qualidade alvo de impiedoso silenciamento. No fundo, tal conduta censória é idêntica à que vigorava na Emissora Nacional, tendo apenas mudado o contexto: outrora, a censura acontecia porque não havia Liberdade; agora, é ao abrigo da Liberdade que se pratica a censura. Dá que pensar!



PAÍS DE ABRIL



Poema de Manuel Alegre (in "Praça da Canção", Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965 – p. 43, 2.ª edição, Lisboa: Editora Ulisseia, 1969)
Recitado por Mário Viegas* (in LP "País de Abril: Poemas de Manuel Alegre ditos por Mário Viegas", Orfeu, 1974; 2CD "Operário em Construção / País de Abril": CD "País de Abril: Poemas de Manuel Alegre ditos por Mário Viegas", Art’Orfeu Media, 2011; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 3 – "País de Abril", Público, 2006)
Música de José Luís Tinoco e José Niza




São tristes as cidades sob a chuva
e as canções que se atiram contra as grades
— minha pátria vestida de viúva
entre as grades e a chuva das cidades.

É triste o cão que ladra no canil
quando é março ou abril ou lhe prendem as pernas
é triste a primavera no País de Abril
— minha pátria perfil de mágoas e tabernas.

É triste: uns vestem-se de abril outros de trapos.
Tu ó estrangeiro é só por fora que nos olhas
— minha pátria bordada de farrapos
capa de trapos remendada a verdes folhas.

Abril tão triste no País de Abril. Por fora
é tudo verde. (Abril com máscaras de festa).
Por dentro — minha pátria a rir como quem chora.
(A festa da tristeza é tudo o que lhe resta).

Abril tão triste no País de Abril. Aqui
a noite aqui a dor meninos velhos
— minha pátria a chorar como quem ri
em surdina em silêncio. E de joelhos.


* Mário Viegas – voz
José Luís Tinoco – piano, harpa, viola acústica
José Niza – viola acústica, quissange, percussões
Direcção e produção – José Niza
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em Maio de 1974
Técnicos de som – Heliodoro Pires e Manuel Cunha
Mistura – José Niza



Capa da 1.ª edição do livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre (Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965)
Organização da edição – Ivo Cortesão



Capa da 2.ª edição do livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre (Col. Poesia e Ensaio, Lisboa: Editora Ulisseia, 1969)
Concepção – Espiga Pinto



Capa do LP "País de Abril: Poemas de Manuel Alegre ditos por Mário Viegas" (Orfeu, 1974)
Concepção e arranjo gráfico – José Luís Tinoco

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Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde": "Grândola, Vila Morena"
Miguel Torga: "Flor da Liberdade"
Natália Correia: "Rascunho de uma Epístola", por Ilda Feteira
Carlos do Carmo: "O Madrugar de um Sonho"
Amália Rodrigues: "Abril" (Manuel Alegre)

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Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Dois Excertos de Odes", por Mário Viegas
Cesário Verde: "De Tarde"
Cesário Verde por Mário Viegas
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"Viva a Música": lugar à música portuguesa
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Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes
Em memória de Adriano
Celebrando Carlos Paredes
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«Do João Braga para a Amália»
Amália Rodrigues: "Abril" (Manuel Alegre)