10 junho 2021

Camões recitado e cantado (VII)


© Maria Madrinha, 23 Jun. 2007 (https://www.flickr.com/photos/ametista/594153507/)
Estátua de Luís de Camões, em bronze, adjacente ao Jardim do Horto dedicado ao Poeta, na vila ribatejana de Constância. Concebida pelo escultor Lagoa Henriques, foi inaugurada a 6 de Junho de 1981, pelo então presidente da República António Ramalho Eanes.


«Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas "Lusíadas", como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: "Alma minha gentil, que te partiste...» (excerto do manuscrito da "Década VIII", atribuído a Diogo do Couto, c.1542-1616)

"Alma minha gentil, que te partiste": um dos mais conhecidos espécimes da Lírica camoniana e também um dos poemas mais belos e pungentes que alguém, em qualquer lugar, alguma vez escreveu a pessoa bem-amada que já não se conta no número dos vivos. Dirigido a uma rapariga oriental, provavelmente chinesa, chamada Dinamene (assim surge designada noutro soneto), que perecera num naufrágio ocorrido, presume-se, ao largo da foz do rio Mekong, o soneto tem como sujeito um homem, o poeta Camões, porque sabemos que foi ele o autor. No entanto, o sexo ou género do sujeito (o mesmo acontecendo com o do objecto) não está inequivocamente expresso nos versos, pelo que podem ser apropriados, com toda a legitimidade, por uma mulher para evocar um saudoso ente querido, trate-se ele de homem, mulher ou transgénero.
Já aqui apresentámos este admirável soneto por duas vozes masculinas – João Villaret [cf. Camões recitado e cantado] e Luís Cília [cf. Camões recitado e cantado (V)] – e por uma feminina – Amália Rodrigues [cf. Camões recitado e cantado (II)]. Nesta revisitação que lhe fazemos, em exclusivo, todas as vozes (três) são femininas – Carmen Dolores, Simone de Oliveira e Elsa Saque – e em abordagens muito distintas entre si: a primeira, recitada; a segunda, cantada em linguagem de fado; e a terceira, cantada em registo lírico. Dedicamos esta singela celebração camoniana a todas as pessoas que já passaram pela desoladora experiência de ver partir uma "alma gentil".

A Antena 1, neste 10 de Junho, voltou a olhar para a obra do nosso Poeta maior como um cão quando passa por vinha vindimada. Quer dizer: ignorou-a, pura e simplesmente. Perguntamos: daria assim tanto trabalho pegar em quinze poemas de Camões, uns recitados e outros cantados, e difundi-los ao longo do dia, ao ritmo de um por hora? E era também muito complicado reprogramar a 'playlist', de modo a que oferta musical fosse somente cantada em português? Lamentavelmente, a inércia e o desleixo sobrepuseram-se, uma vez mais, ao dever de prestar serviço público. Vergonhoso!



Alma minha gentil, que te partiste



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Recitado por Carmen Dolores* (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003)


Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na Terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.


* Carmen Dolores – voz
Produção – Dito e Feito
Gravado nos Estúdios Goya, Lisboa, em Dezembro de 2002
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Carmen_Dolores
https://www.infopedia.pt/$carmen-dolores
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/search?query=carmen+dolores



Alma Minha Gentil, que te Partiste



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Música: Alfredo Duarte "Marceneiro" (Fado CUF)
Intérprete: Simone de Oliveira* (in LP "Mulher, Guitarra", Philips/Poygram, 1984, reed. Universal, 2003)




Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,      | bis
e viva eu cá na Terra sempre triste. |

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente  | bis
que já nos olhos meus tão puro viste.    |

E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.


* Simone de Oliveira – voz
Martinho da Assunção – viola
Vital da Assunção – viola
Arménio de Melo – guitarra portuguesa
Fernando Correia Martins – viola baixo

Arranjos e direcção musical – Martinho da Assunção
Produção – Carlos do Carmo
Gravado no Angel Studio 1, Lisboa, em Outubro de 1983, por Rui Novais
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Simone_de_Oliveira
https://giradiscos.me/2019/09/28/a-discografia-de-simone-de-oliveira/
https://www.youtube.com/channel/UC8_4OqfgRzWxv-dbOZTqWlg



Alma minha gentil, que te partiste



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Música: Fernando Lopes-Graça (2.ª peça de "Três Sonetos de Camões", Op. 27, 1939)
Intérpretes: Elsa Saque* & Nuno Vieira de Almeida (in 2CD "Fernando Lopes-Graça e os Poetas": CD 1, Tradisom, 2006)




Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na Terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.


* Elsa Saque – voz (soprano)
Nuno Vieira de Almeida – piano

Assistente musical – Fernando Serafim
Supervisão artística – Nuno Vieira de Almeida
Técnico de piano – Manuel Patrão
Coordenação executiva – José Moças / Tradisom
Gravado no Salão do Conservatório Nacional de Lisboa, nos dias 2 a 6 de Junho de 2006
Técnico de gravação – José Fortes
Edição e masterização – José Fortes
URL: https://www.facebook.com/Elsa-Saque-Soprano-553289944782411/
https://www.meloteca.com/portfolio-item/elsa-saque/
https://www.youtube.com/channel/UCIWY-MNsP3G6In7yu4rgCdg
https://www.youtube.com/channel/UCuafekhGZb5t_8H6n-a1U8A



Capa do CD "Poemas da Minha Vida", de Carmen Dolores (Dito e Feito, 2003)
Design gráfico – João Nuno Represas



Capa do LP "Mulher, Guitarra", de Simone de Oliveira (Philips/Poygram, 1984)
Fotografia – Chico Graça



Capa do duplo CD "Fernando Lopes-Graça e os Poetas", de Elsa Saque & Nuno Vieira de Almeida (Tradisom, 2006)
Design e concepção gráfica – Henrique Silva ('Bibito')
Fotografias – Inácio Ludgero

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Outros artigos com poesia de Luís de Camões:
Camões recitado e cantado
Camões recitado e cantado (II)
Em memória de Manoel de Oliveira (1908-2015)
Camões recitado e cantado (III)
Camões recitado e cantado (IV)
Camões recitado e cantado (V)
Camões recitado e cantado (VI)

01 junho 2021

Taleguinho: "Pele de Piolho"



Entre os setenta e cinco "Contos Populares Portugueses" que Francisco Adolfo Coelho coligiu e publicou, em 1879, consta um que dá pelo título de "A Pele do Piolho". Luís Pedro Madeira, do projecto conimbricense Taleguinho, achou por bem adaptá-lo tomando a liberdade de acrescentar-lhe vários pontos (fazendo jus ao ditado «quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto») na gravação feita para o álbum "Costurar Cantigas e Histórias", editado em 2020. Trata-se de uma belíssima versão que desenvolve e aprimora o texto sucinto publicado por F. Adolfo Coelho, sendo que tem o atractivo adicional de incluir um trecho cantado (acompanhado por instrumentos musicais), no caso a cantiga tradicional de cunho satírico "Olha o Velho, Olha o Velho", cuja melodia é das mais belas da tradição oral portuguesa. É pois com a "Pele de Piolho", primorosamente tratada pelo Taleguinho, que celebramos este Dia Mundial da Criança, esperando que seja do apreço dos miúdos e graúdos que fiquem com curiosidade de ouvi-la.

Não somos ouvintes da Rádio ZigZag (já tentámos mas desistimos porque a selecção musical deixou-nos muito a desejar), todavia queremos acreditar que as histórias tradicionais tenham cabimento na respectiva programação, seja extraídas de edições discográficas, seja contadas para o efeito por quem sabe fazê-lo bem. Será que os infantis ouvintes da Rádio ZigZag já tiveram a oportunidade de se encantar com esta "Pele de Piolho", do Taleguinho? Se sim, louvamos quem se ocupa da pesquisa de histórias publicadas em disco com o propósito de divulgação naquela rádio 'online'. Se não, fica a sugestão.
Na hertziana Antena 3 (e, porque não?, também na Antena 1) era bom que existisse um espaço diário reservado a uma história para crianças, em horário certo (que poderia muito bem ser por volta das 21h:00). Não havendo uma rádio hertziana dedicada ao público infantil, importa que as que existem façam alguma coisa para criar hábitos de escuta radiofónica nos mais pequenos, sem necessidade de terem de estar obrigatoriamente 'online'. O futuro começa a construir-se hoje mesmo. Que futuro terá a rádio se quem actualmente a dirige não tiver a clarividência de fazer o que lhe compete para atrair aqueles que amanhã poderão garantir a sua sobrevivência?



Pele de Piolho



História adaptada por Luís Pedro Madeira a partir da versão de Coimbra coligida por Francisco Adolfo Coelho e publicada no livro "Contos Populares Portugueses" (Lisboa: Paulo Plantier, 1879)
Contada por Luís Pedro Madeira / Taleguinho* (in CD "Costurar Cantigas e Histórias", Taleguinho, 2020)
Cantiga "Olha o Velho, Olha o Velho" interpretada por Catarina Moura / Taleguinho*




Era uma vez um rei que tinha muita comichão na cabeça. Muita mesmo! Estava tão aflito que resolveu chamar pela filha:
— Ó minha rica filha, ó minha princesa, vem aqui ver o que é que o teu pai tem na cabeça, que não há meio de me parar de coçar!
A menina veio logo e começou a catar o pai no regaço. De repente parou e disse:
— Ó senhor meu pai, olhe que tem aqui um piolho! E olhe que é dos grandes! Quer que lho mate?
— Não, não, não! Deixa estar o bicho. Piolho em cabeça de rei é piolho real. E sempre me faz companhia naquelas longas sessões na sala do trono.
Assim foi. A menina deixou ficar o piolho, mas o bicho foi crescendo, crescendo, crescendo, até que era já mais ou menos impossível que ninguém reparasse. E um dia a menina foi ter o pai e disse:
— Senhor meu pai, vós sois rei e vós lá sabeis, mas esse piolho já está um bocadinho grande demais. As pessoas já começam a reparar. De vez em quando, quando Sua Majestade está a dar audiência, por cima coroa já se vê uma patita dele. E sabe como é: as pessoas reparam e começa a falar-se...
— Bem sei, minha filha, bem sei, o bicho cresceu mais do que eu esperava e já está muito grande. Infelizmente, vou ter que o mandar matar. Mas em recordação deste bicho que me fez aqui tanta companhia, com a pele dele hei-de mandar fazer um pandeiro.
Assim foi. O rei mandou fazer um pandeiro com a pele do piolho e mandou guardá-lo lá na torre mais alta, lá num armário onde havia de ficar por muitos anos. A menina foi crescendo e tornou-se mulher. Um dia foi ter com o pai e disse:
— Ó senhor meu pai, eu gostava de ter um noivo, gostava de me casar.
— Bem sei, minha filha, chegou a hora de te casar. E temos que te arranjar um noivo, mas não pode ser um palerma qualquer que venha para aí, que isto agora anda aí uma gandulagem que sabe Deus! Não pode ser um qualquer: tem que ser um rapaz avisado, um rapaz com juízo, um rapaz como deve ser. Vou mandar chamar todos os rapazes do Reino para que escolhamos o melhor.
Assim foi. O rei mandou então os seus arautos ao cimo das muralhas do castelo a anunciar aos quatro ventos:
— O rei manda dizer que quer casar a sua filha. Os rapazes todos do Reino devem vir ao palácio responder a uma pergunta do rei. Aquele que acertar casará com a menina.
Ora, como a princesa era muito bonita e ainda por cima tinha alguma coisa de seu, acorreram rapazes de todo o lado para vir responder à pergunta do rei e ter a mão da princesa em casamento. No dia combinado estava uma fila enorme de rapazes à porta do palácio, e o rei pediu então ao seu velho criado que fosse lá à torre mais alta; lá dentro dum armário havia de encontrar um pandeiro que lá estava guardado há muitos anos. O criado foi buscar o pandeiro e o rei, mostrando-o a todos aqueles rapazes, disse:
— Ó rapazes, aquele que de vocês adivinhar de que é feito este pandeiro casará com a princesa!
Os rapazes puseram-nos todos a olhar com muita atenção... e veio o primeiro e botou-se a adivinhar:
— Eu acho que este pandeiro é feito de pele de cabra.
— Não, não! — disse o rei. E passou ao próximo.
— Oh, não, não, eu acho que este pandeiro é feito de pele de porco.
— Também não.
— Não, não, este pandeiro é feito de... de pele de cabrito.
— Também está errado.
E vinham e vinham... e iam tentando, tentando... e vinha um e dizia:
— Eu acho que é de pele de vitela.
— Eu acho que é de pele de cão.
— Eu acho que é de pele de gato.
— Eu acho que isto é pele de burro.
— Eu acho que isto é pele de... de... de... eu acho que isto é pele de galinha, se calhar, sei lá!...
— Eu acho que isto... parece-me a mim que é assim um bocado tipo pele de... de... de...
E iam todos, todos errando. Ora dá-se o caso que naquela fila enorme de rapazes estava um rapaz com quem a princesa engraçava. Mas as princesas nem sempre acertam muito: às vezes engraçam com rapazes que são assim... palermas. Este, além de palerma, era muito mouco, ouvia muito mal. Mas a princesa foi-se pôr atrás do velho criado, falando-lhe lá para o meio da fila o mais baixinho que conseguia:
— Ei! Estás a ouvir? Olha!
E ele lá do meio da fila dizia:
— Hum?
— Olha, o pandeiro é feito de pele de piolho.
— Hum? É... é uma espécie de repolho?
— Não, não! O pandeiro é feito de pele de piolho.
— Hum... Uma galinha com molho?
— Não! — dizia a menina, apontando para a cabeça — Não! É feito de pele de piolho.
— Ah! Acho que já ouvi.
Mas quando chegou a vez dele, o rapaz, apontando o pandeiro, disse:
— Eu acho que este pandeiro é... é feito de pele do sobrolho.
Errado. E foram errando os outros rapazes todos, até que aconteceu uma coisa que causou grande consternação geral e uma surpresa de que ninguém estava à espera. O velho criado vira-se para o rei e diz assim:
— Saiba Vossa Majestade que eu também sou um rapaz solteiro e, como rapaz solteiro, também gostava de me botar a adivinhar de que que é feito este pandeirinho.
O rei achou aquilo muito estranho, mas disse:
— Bom, de facto não vejo nada que te impeça de tentar também.
— Ora, eu acho... eu acho que este pandeirinho é feito de pele de piolho.
E todos exclamaram:
— Oh!
E o espanto era enorme; e se nós ficávamos espantados, mais espantada ficou a princesa. Espantada e danada. E dizia:
— Ah! Ah! Ah! Sacana do velho! Isto não pode ser! Isto não pode ser, porque ele ouviu-me! Ele ouviu-me a falar com o meu amigo, ele ouviu a resposta... Então, mas isto não pode ser! Eu vou agora casar com aquele velho?! Ah! Mas isso é que não vou, ai não vou, não senhora! Era agora o que me faltava! Ele ainda por cima fez batota. Não senhor!
E então chamou o velho à parte, dizendo-lhe que lhe queria cantar uma canção. E cantou-lhe assim:

— Olha o velho! Olha o velho!  | bis
Olha o velho atrevido:             |
Dizer-me na minha cara    | bis
Que queria casar comigo!  |

Se quiser casar comigo,  | bis
Há-de ser na condição    |
De eu dormir em cama fofa  | bis
E tu, velho, nesse chão.       |

E tu, velho, se falares,            | bis
Hás-de levar com um bordão; |
Eu hei-de comer pão alvo  | bis
E tu, velho, de rolão.        |
 
«A rapariga… diz que se eu casar com ela que tenho que dormir no chão, logo eu que sofro tanto das minhas cruzes! E que tenho que comer sempre pão duro, eu que quase já não tenho dentes! E que se falar que me dá com um pau! Que serviço que eu havia de aqui arranjar, hã! O melhor, se calhar, é eu ir com delicadeza falar ao rei e tentar resolver isto da melhor forma.»
— Sua Majestade não me leve a mal, a sua filha é assim uma rapariga muito jeitosa, muito educadinha e muito meiguinha, mas eu estive a pensar que já tenho uma certa idade... Não caminho para novo e agora com esta idade lembrar-me de casar... se calhar, até foi um bocado de asneira e por isso vinha falar com Sua Majestade que se me pudesse desobrigar desta coisa do casório... quer dizer: se calhar, a rapariga encontrava assim um moço mais assim lá para a idade dela, não é verdade?
Ora isto era o que o rei queria, porque, de facto, não queria casar a filha com aquele velho; e então o rei lá o desobrigou e a filha, um tempo depois, lá encontrou um príncipe com quem foi feliz para quase sempre.
Vitória, vitória, acabou-se a história.


* Taleguinho:
Catarina Moura – voz
Luís Pedro Madeira – voz falada, viola braguesa, bandola, bandolim, banjo, cavaquinho, percussão
Participação de:
Manuel Rocha – violino

Arranjos – Luís Pedro Madeira
Produção – Taleguinho
Gravado, misturado e masterizado no Estúdio Láudano (Coimbra), em 2019 e 2020
Gravação, mistura e masterização – Luís Pedro Madeira
Assistência de gravação e mistura – Paulo Yoshida de Carvalho
URL: https://www.facebook.com/taleguinho
https://taleguinho.bandcamp.com/



Capa do CD "Costurar Cantigas e Histórias" (Taleguinho, 2020)
Ilustração e design gráfico – Cátia Vidinhas

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01 maio 2021

Fausto Bordalo Dias: "Uma Cantiga de Desemprego"



As pandemias de grande morbilidade, além das mortandades que causam e dos problemas de saúde (físicos e/ou psíquicos) que provocam num número muito significativo dos sobreviventes, têm sempre como efeito uma recessão económica. A face mais visível e dramática dessa disrupção, nas sociedades modernas, é o desemprego e a intrínseca depauperação das condições de vida de quem ficou sem trabalho, assim como dos demais elementos do respectivo agregado familiar. Devido à pandemia vírica, que há mais de um ano vem assolando a Humanidade, muitas pessoas já foram despedidas ou não viram os seus contratos de trabalho ser renovados, e ainda bastantes mais vão cair na situação de desemprego nos tempos que aí vêm, apesar da vacinação estar a decorrer a bom ritmo nalguns países (nos mais ricos). A crise social vai agravar-se e será severa. Quanto a isso não vale a pena ter ilusões...
Não serão poucos aqueles que, sem trabalho e com pouco dinheiro, vão assistir à sucessão dos dias e dos meses sem que vislumbrem uma luz ao fundo do túnel. A esses trabalhadores desempregados (especialmente os que não recebem subsídio de desemprego ou o recebem em parco montante) manifestamos a nossa solidariedade, neste Dia do Trabalhador, pondo em destaque "Uma Cantiga de Desemprego", escrita, composta e interpretada por Fausto Bordalo Dias. O cantautor gravou-a duas vezes: a primeira para o LP "Madrugada dos Trapeiros", de 1977, e a segunda para o duplo CD "Atrás dos Tempos Vêm Tempos", publicado em 1996. Escolhemos a original, cujo arranjo nos parece mais belo e cativante, em boa parte graças à flauta de Rão Kyao.

Fausto Bodalo Dias é, incontestavelmente, um dos mais categorizados criadores da Música Portuguesa, mas não tem recebido da rádio portuguesa (privada e estatal) o reconhecimento condizente com esse estatuto. Na pública Antena 1, a tal que tem a obrigação de divulgar a nossa melhor música popular, só muito esporadicamente é dado a ouvir e invariavelmente com um dos espécimes mais conhecidos – "Se Tu Fores Ver o Mar (Rosalinda)", "Navegar, Navegar", "O Coça-Barriga" ou "Foi por Ela" –, o que representa uma tremenda injustiça para um artista da sua dimensão e com dezassete álbuns publicados (catorze em nome individual, cinco dos quais duplos, e três colectivos, um deles duplo), deixando nos ouvintes menos avisados a ideia de que o seu repertório se resume a meia dúzia de canções.



Uma Cantiga de Desemprego



Letra e música: Fausto Bordalo Dias
Intérprete: Fausto Bordalo Dias* (in LP "Madrugada dos Trapeiros", Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1999; CD "Fausto", col. O Melhor dos Melhores, vol. 39, Movieplay, 1994)




[instrumental]

Fumo um cigarro deitado,
No mês de Janeiro;
Fecho a cortina da vida,
Espreguiço em Fevereiro.

E procuro trabalho
Nesta esperança de Março;
Já me farta tanto Abril
E aquilo que não faço!

Espreito por um funil
A promessa de Maio:
Porque esperar prometido,
Nessa eu já não caio!

Queimo os dias de Junho
No sol quente de Julho;
Esfrego as mãos de contente
Num sorriso d'entulho.

Para teu grande desgosto,
Janto contigo em silêncio;
E lentamente esquecido,
Digo-te adeus em Agosto.

Meu Setembro perdido
Numa esquina que eu roço;
E penso em Outubro
O menos que posso.

[instrumental / vocalizos]

Mas quando sinto a verdade
Daquilo que cansa,
Nunca houve vontade
Do tempo de andança.

E sinto força em Novembro,
Juro luta em Dezembro.
E sinto força em Novembro,
Juro luta em Dezembro.

[instrumental]


* Fausto Bordalo Dias – voz e guitarras acústicas
Rão Kyao – flauta
Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa, durante o Inverno de 1976/77
Técnico de som – Moreno Pinto
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Fausto_Bordalo_Dias
http://www.macua.org/biografias/fausto.html
https://www.viriatoteles.net/livros/contas-a-vida/41-fausto-bordalo-dias.html
https://www.youtube.com/channel/UCh5tYA07B0Uur5Mo1gbPmYQ/videos?query=fausto
https://www.youtube.com/channel/UCH_869XTh5lFDKiCKvmuV_w



Capa do LP "Madrugada dos Trapeiros", de Fausto Bordalo Dias (Orfeu, 1977)
Arranjo gráfico – José Brandão

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25 abril 2021

Manuel Alegre: "País de Abril", por Mário Viegas



Quando o poema "País de Abril" foi publicado, em Janeiro de 1965, no livro "Praça da Canção", a Pátria estava vestida de viúva (embora para um estrangeiro, vendo-a de fora, lhe pudesse parecer bordada – de farrapos, capa de trapos remendada a verdes folhas). Nove anos mais tarde, no dia 25 de Abril de 1974, a Primavera deixou de ser triste desabrochando em esfuziante alegria, pela tão almejada Liberdade que a Pátria finalmente conquistara, ao cabo de quase meio século de opressão, e ante a radiosa expectativa de que doravante a Pátria liberta e democrática deixasse de ter filhos maltrapilhos e famintos. Passaram 47 anos e a Pátria tende a assemelhar-se ao que era antes da Revolução dos Cravos: cada vez mais alquebrada, cabisbaixa (como que oferecendo-se à resignada genuflexão), sem mão nos filhos desonestos (corruptos, agiotas, burlões, intrujões, charlatães, etc.) e negligente no amparo aos mais desfavorecidos. Como vão estes olhar para uma Pátria que os enjeita, ao mesmo tempo que é pródiga com outros filhos, cuja vampiragem os levou à indigência? Obviamente com um sentimento de revolta e prontos a aderirem a qualquer messias que lhes prometa uma vida (mais) digna, ainda que tais promessas venham a revelar-se um logro (um náufrago, na esperança de não se afogar, toma como bóia de salvação não os objectos flutuantes que já sabe vão deixá-lo ir ao fundo mas aqueles que aparentemente não são submersíveis). Terá o regime político vigente capacidade de se regenerar e assim evitar o seu gradual definhamento e, por fim, a morte?
A poesia tem o mérito de nos ajudar à reflexão e quando dita por quem sabe acentuar o sentido das palavras, tal exercício fica grandemente facilitado. Os versos de Manuel Alegre magistralmente recitados por Mário Viegas (a quem aproveitamos para homenagear neste mês em que se completaram 25 anos sobre o seu desaparecimento) poderão assim ecoar na mente de mais gente, que tão necessária é para ajudar a tornar a Pátria menos injusta e menos iníqua para muitos dos seus filhos.

Na rádio pública, mormente na Antena 1, há largos anos que a injustiça e a iniquidade se implantaram na área da divulgação musical e poética. Sem que isso seja publicamente assumido, claro está, porém bem patente nos procedimentos. Basta atentar na 'playlist' e não será difícil perceber quanto é vasto o rol de artistas de reconhecida qualidade alvo de impiedoso silenciamento. No fundo, tal conduta censória é idêntica à que vigorava na Emissora Nacional, tendo apenas mudado o contexto: outrora, a censura acontecia porque não havia Liberdade; agora, é ao abrigo da Liberdade que se pratica a censura. Dá que pensar!



PAÍS DE ABRIL



Poema de Manuel Alegre (in "Praça da Canção", Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965 – p. 43, 2.ª edição, Lisboa: Editora Ulisseia, 1969)
Recitado por Mário Viegas* (in LP "País de Abril: Poemas de Manuel Alegre ditos por Mário Viegas", Orfeu, 1974; 2CD "Operário em Construção / País de Abril": CD "País de Abril: Poemas de Manuel Alegre ditos por Mário Viegas", Art’Orfeu Media, 2011; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 3 – "País de Abril", Público, 2006)
Música de José Luís Tinoco e José Niza




São tristes as cidades sob a chuva
e as canções que se atiram contra as grades
— minha pátria vestida de viúva
entre as grades e a chuva das cidades.

É triste o cão que ladra no canil
quando é março ou abril ou lhe prendem as pernas
é triste a primavera no País de Abril
— minha pátria perfil de mágoas e tabernas.

É triste: uns vestem-se de abril outros de trapos.
Tu ó estrangeiro é só por fora que nos olhas
— minha pátria bordada de farrapos
capa de trapos remendada a verdes folhas.

Abril tão triste no País de Abril. Por fora
é tudo verde. (Abril com máscaras de festa).
Por dentro — minha pátria a rir como quem chora.
(A festa da tristeza é tudo o que lhe resta).

Abril tão triste no País de Abril. Aqui
a noite aqui a dor meninos velhos
— minha pátria a chorar como quem ri
em surdina em silêncio. E de joelhos.


* Mário Viegas – voz
José Luís Tinoco – piano, harpa, viola acústica
José Niza – viola acústica, quissange, percussões
Direcção e produção – José Niza
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em Maio de 1974
Técnicos de som – Heliodoro Pires e Manuel Cunha
Mistura – José Niza



Capa da 1.ª edição do livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre (Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965)
Organização da edição – Ivo Cortesão



Capa da 2.ª edição do livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre (Col. Poesia e Ensaio, Lisboa: Editora Ulisseia, 1969)
Concepção – Espiga Pinto



Capa do LP "País de Abril: Poemas de Manuel Alegre ditos por Mário Viegas" (Orfeu, 1974)
Concepção e arranjo gráfico – José Luís Tinoco

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Outros artigos com canções ou poemas alusivos à Revolução dos Cravos ou à Liberdade:
Contrabando: "Verdade ou Mentira?"
Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde": "Grândola, Vila Morena"
Miguel Torga: "Flor da Liberdade"
Natália Correia: "Rascunho de uma Epístola", por Ilda Feteira
Carlos do Carmo: "O Madrugar de um Sonho"
Amália Rodrigues: "Abril" (Manuel Alegre)

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Outros artigos com poesia recitada por Mário Viegas:
Mário Viegas: 10 anos de saudade
Jorge de Sena: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", por Mário Viegas
Ser Poeta
Em memória de António Ramos Rosa (1924-2013)
Celebrando Vinicius de Moraes
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)
Celebrando Eugénio de Andrade
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Dois Excertos de Odes", por Mário Viegas
Cesário Verde: "De Tarde"
Cesário Verde por Mário Viegas
Camilo Pessanha: "Singra o navio", por Mário Viegas

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Outros artigos com poesia de Manuel Alegre:
"Viva a Música": lugar à música portuguesa
E Alegre se Fez Triste
Galeria da Música Portuguesa: Adriano Correia de Oliveira
Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes
Em memória de Adriano
Celebrando Carlos Paredes
Em memória de Fernando Machado Soares (1930-2014)
«Do João Braga para a Amália»
Amália Rodrigues: "Abril" (Manuel Alegre)

10 abril 2021

Evocando João Villaret



Se os três canais nacionais da rádio pública fossem dirigidos por pessoas responsáveis e verdadeiramente conscientes das obrigações inerentes ao serviço público de rádio, em todos eles haveria uma rubrica diária consagrada à poesia, sendo uma delas (ou mais) especialmente focada nas gravações que eminentes actores/recitadores nos legaram, quer as que foram realizadas para programas de rádio e deverão existir (se não foram destruídas) no arquivo histórico da RDP, quer as que foram editadas em disco. João Villaret, que foi, indubitavelmente, o maior desses menestréis da difícil arte de dizer poesia, após a invenção do registo sonoro, podia assim chegar aos rádio-ouvintes, dos mais velhos aos mais novos: a uns em deleitosa revisitação, a outros em luminosa revelação.
Tão confrangedor miserabilismo, patente sobretudo nas Antenas 1 e 3, foi recentemente mitigado graças à mui louvável iniciativa de David Ferreira ao dedicar ao insigne actor e recitador, a pretexto dos 60 anos da morte, um ciclo de cinco edições da rubrica "David Ferreira a contar", depois compactado na edição alargada do sábado subsequente.
A pensar naqueles que não ouviram na rádio ou desejem revisitar a justíssima evocação de João Villaret, em boa hora levada a cabo por David Ferreira, o blogue "A Nossa Rádio" apresenta os tópicos e os respectivos links de acesso ao arquivo na plataforma RTP-Play.
Boa escuta!


DAVID FERREIRA A CONTAR | 29 Mar. 2021 [>> RTP-Play]
Já passaram 60 anos

DAVID FERREIRA A CONTAR | 30 Mar. 2021 [>> RTP-Play]
Episódios na vida de João Villaret

DAVID FERREIRA A CONTAR | 31 Mar. 2021 [>> RTP-Play]
João Villaret na Revista

DAVID FERREIRA A CONTAR | 01 Abr. 2021 [>> RTP-Play]
Fernando Pessoa e João Villaret

DAVID FERREIRA A CONTAR | 02 Abr. 2021 [>> RTP-Play]
A cruzada de João Villaret

DAVID FERREIRA A CONTAR... CONSIGO | 03 Abr. 2021 [>> RTP-Play]
João Villaret



Capa do livro "Villaret: In Memoriam", de Lourenço Rodrigues (Lisboa: Livraria Popular de Francisco Franco, 1962)



Capa do livro "João Villaret: Sua Vida... Sua Arte...", de Mário Baptista Pereira (Lisboa: Edição do autor, 1983)



Capa do livro "João Villaret: Antologia Poética: poemas ditos pelo actor", recolha e organização de Mário Baptista Pereira (Lisboa: Editorial Estampa, 1985)



Capa do livro "João Villaret: Uma Biografia", de António Carlos Carvalho (Lisboa: Ulisseia, 2008)



Capa do livro "João Villaret: Duas Mãos que Abertas Deram Tudo", de Henrique Villaret (Edição do autor, 2015)

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Outros artigos com poesia recitada por João Villaret:
João Villaret: centenário do nascimento
Camões recitado e cantado
Ser Poeta
Fernando Pessoa por João Villaret
Miguel Torga: "Ode à Poesia", por João Villaret
Cesário Verde: "De Tarde"
António Botto: "Homem que vens de humanas desventuras"

27 março 2021

Dia Mundial do Teatro: mensagem de Carlos Celdrán (2019)


© Monik Molinet/La Pistola de Monik, 2017


INSTITUTO INTERNACIONAL DO TEATRO
DIA MUNDIAL DO TEATRO – 27 DE MARÇO DE 2019
MENSAGEM INTERNACIONAL DE CARLOS CELDRÁN

Antes do meu despertar no teatro, os meus mestres já lá estavam. Tinham construído as suas casas e as suas poéticas sobre os restos das suas próprias vidas. Muitos deles não são conhecidos ou sequer lembrados: trabalharam a partir do silêncio, a partir da humildade das suas salas de ensaio e das suas salas cheias de espectadores e, lentamente, após anos de trabalho e conquistas extraordinários, foram deixando o seu sítio e desapareceram. Quando percebi que o meu ofício e o meu destino pessoal seria seguir os seus passos, percebi também que herdava deles essa tradição apaixonada e única de viver o presente sem outra expectativa que a de alcançar a transparência de um momento irrepetível. Um momento de encontro com o outro no escuro de um teatro, sem mais protecção do que a verdade de um gesto, de uma palavra reveladora.
O meu país teatral são esses momentos de encontro com os espectadores que cada noite chegam à nossa sala, vindos dos mais variados recantos da minha cidade, para nos acompanhar e partilhar umas horas, uns minutos. Com esses momentos únicos construo a minha vida, deixo de ser eu, de sofrer por mim mesmo e renasço e percebo o significado do ofício de fazer teatro: viver instantes de pura verdade efémera, onde sabemos que o que dizemos e fazemos, ali, sob a luz da cena, é verdade e reflecte o mais profundo e o mais pessoal de nós. O meu país teatral, o meu e o dos meus actores, é um país tecido por estes momentos em que deixamos para trás as máscaras, a retórica, o medo de ser quem somos, e damos as mãos no escuro.
A tradição do teatro é horizontal. Não há quem possa afirmar que o teatro está nalgum centro do mundo, nalguma cidade ou edifício privilegiado. O teatro, como eu o recebi, estende-se por uma geografia invisível que mistura as vidas de quem o faz e o ofício teatral num mesmo gesto unificador. Todos os mestres de teatro morrem com os seus momentos de lucidez e de beleza irrepetíveis, todos desaparecem do mesmo modo sem deixar outra transcendência que os ampare e os torne ilustres. Os mestres de teatro sabem-no, não vale nenhum reconhecimento perante esta certeza que é a raiz do nosso trabalho: criar momentos de verdade, de ambiguidade, de força, de liberdade na maior das precariedades. Deles não sobreviverão senão dados ou registos dos seus trabalhos em vídeos e fotos que apenas recolherão uma pálida ideia daquilo que fizeram. Mas sempre faltará nesses registos a resposta silenciosa do público que percebe num instante que o que ali se passa não pode ser traduzido nem encontrado fora, que a verdade que ali se partilha é uma experiência de vida, por segundos mais diáfana que a própria vida.
Quando percebi que o teatro é um país em si mesmo, um grande território onde cabe o mundo inteiro, nasceu em mim uma decisão que é também uma liberdade: não tens de afastar-te nem sair do lugar onde estás, não tens de correr nem deslocares-te. Aí onde existes está o público. Aí estão os companheiros que precisas a teu lado. Ali, fora da tua casa, tens toda a realidade diária, opaca e impenetrável. Trabalhas então a partir da imobilidade aparente para construir a maior das viagens, para repetir a Odisseia, a viagem dos argonautas: és um viajante imóvel que não pára de acelerar a densidade e a rigidez do teu mundo real. A tua viagem é um instante, rumo ao momento, em direcção ao encontro irrepetível perante os teus semelhantes. A tua viagem é até eles, até ao seu coração, até à sua subjectividade. Viajas por dentro deles, das suas emoções, das suas recordações que despertas e agitas. A tua viagem é vertiginosa e ninguém pode medir ou contar isso. Também ninguém o poderá reconhecer na sua justa medida, é uma viagem através do imaginário da tua gente, uma semente que germina na mais remota das terras: a consciência cívica, ética e humana dos teus espectadores. Por tudo isto, não me mexo, continuo em minha casa, junto dos meus próximos, em aparente quietude, trabalhando dia e noite, porque tenho o segredo da velocidade.

                 CARLOS CELDRÁN (trad. Tiago Fernandes / Teatro
                          do Noroeste - Centro Dramático de Viana)


Parafraseando o distinto encenador, dramaturgo e professor cubano Carlos Celdrán, o teatro é uma viagem dos autores/encenadores/actores através do imaginário da sua gente, uma semente que germina na mais remota das terras: a consciência cívica, ética e humana dos seus espectadores/ouvintes.
Devido à pandemia de COVID-19, as salas em Portugal (e em muitos outros países) viram-se na contingência de fechar portas durante meses a fio, pelo que deixou de ser possível a experiência única e irrepetível de assistir a espectáculos de teatro ao vivo. Por parte daqueles, claro está, que têm a sorte de viver em localidades ou próximo de localidades onde há companhias residentes, pois os espectáculos itinerantes, que no passado eram frequentes, praticamente deixaram de se realizar. Na verdade, uma parte muito significativa da população portuguesa só pode fruir teatro se lhe chegar pelos meios de difusão à distância – rádio, televisão, internet. Muitas companhias têm usado a internet para disponibilizar vídeos de espectáculos que levaram à cena, havendo mesmo actuações em directo, o que saudamos. A televisão, sobretudo via RTP-2 e RTP-Memória, também transmitiu, durante o último ano, algumas peças. A maior miséria tem-se verificado na rádio: das três antenas nacionais da estação pública, apenas a Antena 2 tem emitido, de vez em quando, no programa "Ecos da Ribalta" [>> RTP-Play], pela mão de João Pereira Bastos, uma peça resgatada do arquivo histórico, surgindo também, a intervalos de meses, no espaço "Teatro sem Fios" [>> RTP-Play], uma nova produçãozita de teatro. E escrevemos "produçãozita de teatro" porque aquilo que geralmente aparece em antena está longe de ser cativante para quem quer que seja, causando irreprimível rejeição aos ouvidos que se habituaram ao bom e verdadeiro teatro radiofónico que ao longo de décadas, até 2005, ano em que o saudoso Eduardo Street se aposentou, era uma marca de excelência do serviço público de radiodifusão. Umas boas centenas dessas memoráveis produções (não todas, infelizmente) foram guardadas no arquivo histórico da RDP, tendo-nos sido grato constatar que vem sendo disponibilizadas na plataforma RTP-Arquivos. O que não se consegue compreender é a não existência em antena de um espaço regular, que podia muito bem ser semanal, consagrado justamente à divulgação desse precioso acervo de teatro. Tal lacuna, sendo grave em tempos normais, por assim dizer, revela-se ainda mais clamorosa numa situação de confinamento como a que vivemos.
A RTP-Memória, embora sem a frequência desejável, tem resgatado produções televisivas de teatro. Não havendo um canal de rádio hertziano de cobertura nacional especificamente reservado ao arquivo radiofónico, compete aos três canais existentes, em especial a Antena 2, atendendo ao seu perfil marcadamente cultural, assegurar esse serviço: pela valorização do património da rádio e pela promoção cultural dos ouvintes, mormente daqueles que moram em zonas onde não existem companhias de teatro e igualmente – muito importante! – dos que, independentemente do ponto do país onde residam, nasceram sem o sentido da visão ou perderam-no mais tarde! O teatro radiofónico é a única modalidade da arte de Talma que os cegos e amblíopes podem fruir plenamente. Como se explica então que estes cidadãos, a quem a lei portuguesa reconhece direitos iguais aos dos que vêem, sejam não esquecidos e desconsiderados pela rádio para a qual também contribuem financeiramente?

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21 março 2021

Mário Dionísio: "Solidariedade", por Carmen Dolores



Mário Dionísio, quando, no período 1936-38, escreveu o poema "Solidariedade", teria, presumivelmente, em mente os humilhados e ofendidos pelo regime autocrático de Salazar convidando-os a esquecerem as suas diferenças de filiação ideológica para, unidos e concertados, terem mais probabilidades de êxito na luta visando o desejado derrube da ditadura.
O que talvez Mário Dionísio estivesse longe de imaginar é que este seu poema focado na desditosa realidade político-social do seu país nos primórdios do Estado Novo pudesse, mais de oito décadas decorridas, ter uma leitura à escala mundial. Em boa verdade, o exército de humilhados e ofendidos não pára de aumentar em todo o mundo, inclusive nos países (ditos) desenvolvidos e formalmente democráticos, com a crescente proletarização da classe média e a concentração da riqueza e dos meios de produção em cada vez menos mãos (leia-se nas dos donos de gigantescas empresas multinacionais). E se a luta contra esta opressão global, para ser bem-sucedida, precisa da união de todos os explorados e aviltados na sua dignidade de seres humanos, uma autêntica espada de Dâmocles pende hoje, e cada vez mais assim será, sobre a Humanidade. E essa é a galopante degradação das condições indispensáveis à vida na Terra: pelas alterações climáticas causadas pela combustão de substâncias carbónicas, pela destruição dos habitats naturais e a consequente extinção massiva das espécies vegetais e animais que deles dependem, pela depauperação e desertificação dos solos devido à exploração intensiva em regime de monocultura – em suma, pelo esgotamento dos recursos naturais (vegetais, animais e minerais) e exaurimento das condições ambientais necessárias à vida do Homem. Será a própria espécie humana que, a prazo, se extinguirá, em consequência da sua acção inconsciente, irracional e tresloucada, sendo previsível que nesse processo as guerras entre países ou blocos de países ajudem à desgraça. Mas o planeta Terra, esse, embora extremamente inóspito e inabitável para o homo sapiens e a maioria das espécies que conhecemos, continuará a gravitar à volta do Sol e talvez algumas formas de vida logrem sobreviver à hecatombe ecológica (é de crer que, pelo menos, os seres vivos que habitam os fundos marinhos junto às chaminés hidrotermais escapem) podendo iniciar-se, ainda que muito lentamente, novos processos evolutivos tendentes ao gradual aparecimento de uma nova biodiversidade, da qual poderá emergir (ou não) uma espécie superiormente inteligente, que talvez venha a provocar outro cataclismo ecológico planetário, e assim sucessivamente até que finalmente, dentro de cerca de 4,5 mil milhões de anos, o Sol se transforme numa gigante-vermelha e a vida na Terra se torne de todo inviável.
Poderá a Humanidade evitar a sua precoce extinção? Confessamos o nosso cepticismo a esse respeito. Uma coisa nos parece certa: quanto mais tempo a espécie humana demorar a arrepiar caminho mais prematuro será o seu fim.
O poema de Mário Dionísio, que aqui apresentamos primorosamente recitado por Carmen Dolores, afirma-se, nesse contexto, como um lúcido apelo à conjugação de esforços para se retardar a marcha rumo ao abismo.

E como esteve a rádio pública relativamente ao presente Dia Mundial da Poesia?
Começamos por enaltecer Luís Caetano por ter preenchido, integralmente, a edição de ontem do seu programa "A Força das Coisas" [>> RTP-Play] com poemas, ditos por quem os não escreveu, intercalados com trechos musicais eruditos ou menos eruditos, mas sempre de boa qualidade. Um louvor para Luís Caetano, a quem também voltamos a manifestar o nosso penhorado agradecimento por continuar a manter, com zelo e profissionalismo, as rubricas "A Vida Breve" [>> RTP-Play] e "O Som que os Versos Fazem ao Abrir" [>> RTP-Play]. Também na Antena 2, registamos, com apreço, a emissão de hoje do programa "Musica Aeterna" [>> RTP-Play], na qual o autor, João Chambers, incluiu um belo punhado de textos – em prosa e em verso – alusivos, directa ou indirectamente, à arte poética (de Ovídio, Homero, Pierre de Ronsard, Aristóteles, Herbert Read, Goethe, Voltaire, Heraclito de Éfeso, Camões e Diderot) lidos por Luís Caetano. Ao longo do dia, a Antena 2 bem podia ter transmitido, entre cada programa de autor, um poema recitado. Era de bom-tom e nem sequer dava muito trabalho. Bastaria fazer uso do rico manancial de poesia que está a apodrecer no arquivo histórico, parte significativa do qual na voz da emérita e saudosa Carmen Dolores. Uma falha que só se explica pela inércia da direcção de programas!
E que fizeram as Antena 1 e 3? Andámos a fazer 'zapping' e nada nos constou. Como é possível tão condenável alheamento? Pura negligência ou simples tibieza cultural? Fica-nos a ideia de que é o misto de ambas. Rui Pêgo e Nuno Reis mostram não ser apreciadores de poesia mas, ao menos, podiam ter o sentido de responsabilidade e a clarividência de perceber que os canais cujas direcções de programação lhes foram confiadas não existem para afagar os seus boçais umbigos: existem e são mantidos pelos pagantes da contribuição do audiovisual para prestar serviço público, o qual não pode (não deve) jamais deixar de contemplar a divulgação de uma arte tão importante e necessária como é a poesia. Vergonhoso!



SOLIDARIEDADE



Poema de Mário Dionísio (in "Poemas", 1936-38, secção "Com todos os homens nas estradas do mundo", Col. Novo Cancioneiro, N.º 2, Coimbra, 1941, reed. Lisboa: Althum/Museu do Neo-Realismo, 2010 – p. 42; "Poesia Incompleta", 2.ª edição, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1982, reimp. 2009 – p. 70; "Poesia Completa", Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2016 – p. 49)
Recitado por Carmen Dolores* (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003)


Vamos, dêem as mãos.

Porquê esse ar de eterna desconfiança?
esse medo? essa raiva?
Porquê essa imensa barreira
entre o Eu e o Nós na natural conjugação do verbo ser?

Vamos, dêem as mãos.

Para quê esses bons-dias, boas-noites,
se é um grunhido apenas e não uma saudação?
Para quê esse sorriso
se é um simples contrair de pele e nada mais?

Vamos, dêem as mãos.

Já que a nossa amargura é a mesma amargura,
já que miséria para nós tem as mesmas sete letras,
já que o sangrar de nossos corpos é o vergão da mesma chicotada,
fiquemos juntos,
sejamos juntos.
Porquê esse ar de eterna desconfiança?
esse medo? essa raiva?

Vamos, dêem as mãos.


* Carmen Dolores – voz
Produção – Dito e Feito
Gravado nos Estúdios Goya, Lisboa, em Dezembro de 2002



Capa do livro "Poemas", de Mário Dionísio (Col. Novo Cancioneiro, N.º 2, Coimbra, 1941) [edição fac-similada: Althum/Museu do Neo-Realismo, 2010]
Desenho – Manuel Ribeiro de Pavia



Capa da 2.ª edição de "Poesia Incompleta", de Mário Dionísio (Col. Obras de Mário Dionísio, N.º 1, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1982)



Capa do livro "Poesia Completa", de Mário Dionísio (Col. Plural, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2016)
Grafismo – André Letria



Capa do CD "Poemas da Minha Vida", de Carmen Dolores (Dito e Feito, 2003)
Design gráfico – João Nuno Represas

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Outros artigos com poesia recitada por Carmen Dolores:
Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes
Sebastião da Gama: "Poesia", por Carmen Dolores
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen

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Outros artigos com poesia dita/recitada:
Mário Viegas: 10 anos de saudade
Miguel Torga: "Natal"
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Arte e poesia
Poesia na rádio (II)
Jorge de Sena: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", por Mário Viegas
João Villaret: centenário do nascimento
Camões recitado e cantado
Ser Poeta
Pedro Barroso: "Palavras Mal Ditas" ou "Palavras Malditas"?
Em memória de Guilherme de Melo (1931-2013)
Celebrando Natália Correia
Em memória de António Ramos Rosa (1924-2013)
Celebrando Vinicius de Moraes
Fernando Pessoa por João Villaret
Miguel Torga: "Ode à Poesia", por João Villaret
Celebrando Agostinho da Silva
Camões recitado e cantado (II)
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Al-Mu'tamid: "Evocação de Silves"
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)
Celebrando Eugénio de Andrade
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Dois Excertos de Odes", por Mário Viegas
Cesário Verde: "De Tarde"
Cesário Verde por Mário Viegas
António Gedeão: "Dia de Natal", por Afonso Dias
Camilo Pessanha: "Singra o navio", por Mário Viegas
Miguel Torga: "Flor da Liberdade"
Camões recitado e cantado (III)
Sebastião da Gama: "Louvor da Poesia", por José Nobre
"Ecos da Ribalta": homenagem a Carmen Dolores
Natália Correia: "Rascunho de uma Epístola", por Ilda Feteira
Camões recitado e cantado (IV)
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Aniversário", por Luís Lima Barreto
Miguel Torga: "Natividade"
António Botto: "Homem que vens de humanas desventuras"
Fernando Namora: centenário do nascimento
Camões recitado e cantado (V)
Miguel Torga: "A um Negrilho"
Camões recitado e cantado (VI)