Os ritos e os mitos têm desempenhado uma função de procura e ligação ao profundo, de regresso à origem, na explicação dos mistérios; apaziguam e reconfortam, conferindo significado e valor à nossa existência. Nas culturas que separam o mundo do divino do mundo do quotidiano, a relação entre Sagrado e Profano pode ser interpretada como religião e não religião. No entanto, nas sociedades arcaicas, cada intervenção do homem no ambiente rural, como o abrir a terra com um arado ou o derrubar uma árvore da floresta, possuem os ritmos de uma sacralidade latente, não se sentindo diferenciação entre as actividades laico-profanas e a actividade sagrada. É como se vivessem numa permanente imersão no sagrado. Existe uma pulsão unificante, onde tudo é sagrado e profano.
FILIPE RAPOSO
Desde os tempos mais remotos, sobretudo desde a Revolução Agrícola, o Homem atribuiu ao Sol e também à Lua carácter sagrado: por um lado, por presidirem, respectivamente ao dia e à noite, na sucessão cíclica do tempo, e, por outro lado, pela tomada de consciência de que os dois corpos celestes, principalmente o não por acaso designado astro-rei, regiam a vida à face da Terra. No Antigo Egipto, o Sol estava personificado no deus Rá e os faraós, a partir do fim do Império Antigo, proclamavam-se «filhos de Rá». Houve mesmo um faraó, Amenófis IV, que tentou uma reforma religiosa radical: substituir o politeísmo pela adoração única do Sol, agora chamado Áton, e ele próprio se rebaptizou com o nome de Akhenáton que significa "Aquele que louva Áton". Embora a rejeição do politeísmo não tenha vingado no Egipto onde o culto dos múltiplos deuses ancestrais, com Ámon à cabeça, foi restaurado pouco depois da morte de Akhenáton, pelo seu filho, Tutankhámon, correspondendo ao desejo da mui poderosa e influente classe sacerdotal, alguns autores modernos, designadamente Sigmund Freud (no livro "Moisés e o Monoteísmo", 1939), advogam que aquela concepção religiosa foi determinante para o nascimento do monoteísmo hebraico. Também os Romanos divinizaram o Sol, chamado Sol Invictus, cujo culto adquiriu enorme força política e religiosa a partir do século III d.C., com imperadores como Aureliano a elevarem o astro-rei ao topo do panteão oficial do império. O Sol era então visto como a divindade suprema e o imperador, com o seu poder absoluto e inquestionável, considerado o seu equivalente na Terra, governando o império tal e qual o Sol pontifica, majestoso e invencível, no Céu. E não é de estranhar que para fomentar e facilitar a adopção do cristianismo pelos pagãos, Cristo tenha sido apresentado como o Sol Invictus e, por isso, este recebesse o nome de Emanuel (o Manel, na boca de populares em Portugal, até há não muitas décadas). E o cancioneiro popular português não deixa, obviamente, de testemunhar a admiração reverencial que o povo sempre nutriu pelo Sol, como está lapidarmente patente na seguinte quadra alentejana que o cantautor Paulo Ribeiro incluiu na canção "Vai-se o Sol e Vem a Lua" [>> YouTube], que ocupa a posição 9.ª do alinhamento do álbum "Aqui Tão Perto do Sol" (Edições Valentim de Carvalho, 2002):
O Sol é que alegra o dia,
Pela manhã quando nasce;
Ai de nós o que seria
Se o Sol um dia faltasse!
Outra variante desta quadra, com o mesmo incipit, seguida de uma votada à Lua, forma a "Cantiga do Sol", oriunda da aldeia de Monsanto, na Beira Baixa, que Rita Maria (canto) e Filipe Raposo (piano) interpretam, de maneira magistral e assaz cativante, no álbum "The Art of Song, Vol. 2: Between Sacred and Profane" (Roda Music, 2023). Ora, dado que o solstício de 2026, no Hemisfério Norte, aconteceu de manhã, mais precisamente às 08h:25 UTC (09h:25, hora de Portugal), em conformidade com os primeiros versos da cantiga, achámos por bem dar-lhe destaque e assim assinalarmos o início da estação estival. Boa escuta!
No universo dos canais da rádio pública, seria bom que, pelo menos, as Antenas 1 e 2 divulgassem, de modo conveniente, o meritório trabalho de Filipe Raposo, quer em nome individual, quer em parceria com outros intérpretes, como Rita Maria, de tal sorte que o espécime ora apresentado pudesse chegar aos tímpanos dos ouvintes/contribuintes, e assim estes terem menos razões de queixa do deficiente serviço que recebem em troca do pagamento (forçado) da contribuição do audiovisual.
Cantiga do Sol
Letra e música: Popular (Monsanto, Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Arranjo: Filipe Raposo
Intérpretes: Rita Maria & Filipe Raposo* (in CD "The Art of Song, Vol. 2: Between Sacred and Profane", Filipe Raposo e Rita Maria/Roda Music, 2023)
O sol é que alegra o dia [bis]
Pela manhã ao nascer; [bis]
Eu bem sei quem anda triste [bis]
E se alegra em me ver. [bis]
[vocalizos / instrumental]
Ó lua da meia-noite, [bis]
Faz favor de me dizer: [bis]
Em que pontos vai a lua [bis]
Quando quer amanhecer? [bis]
O Acaso ditou que o nascituro a que seria dado o nome de Vitorino Salomé Vieira viesse ao mundo na época do ano em que os jacarandás estão esplendorosamente floridos. Mais intencional e menos obra do Acaso terá sido, decerto, a concepção pelo distinto cantautor, na década de 1980, então já entrado na casa dos quarenta, da canção (belíssima!) que devotou à flor daquela árvore oriunda do Brasil e que enche de encanto e beleza, nos meses de Maio e Junho, jardins, ruas, avenidas e praças de Lisboa, cidade onde Vitorino estudou Belas-Artes e que, anos mais tarde, lhe serviu de motivo de inspiração para a génese de numerosas canções de primeiríssima água. A sua "Flor do Jacarandá" desabrochou no álbum "Negro Fado" (1988) e o facto de ter sido colocada em duas antologias de referência – "As Mais Bonitas" (EMI-VC, 1993) e "Tudo" (EMI Music Portugal, 2005) – indicia a altíssima conta em que Vitorino a tinha/tem (a escolha do repertório incluso nas referidas compilações foi feita por David Ferreira, mas não é de crer que não tenha recebido o aval do artista). E uma vez que o escrevente destas linhas comunga de tal apreciação, afigurou-se-lhe pertinente e oportuno dar destaque àquela feérica "Flor do Jacarandá" na presente data em que o seu criador festeja 85 primaveras. Parabéns, Vitorino! E muitíssimo obrigado por esta e por tantas mais flores de música com que embelezou e enriqueceu o património cultural português!
Ocupando Vitorino um lugar de primeiro plano na História da Música Popular Portuguesa, a presença de algumas das canções que constituem o seu vasto e valioso repertório na 'playlist' da Antena 1 não seria mais que um elementaríssimo acto de justiça ao eminente artista e, bem assim, uma boa maneira de promover e cultivar, junto do auditório, a produção musical autóctone mais qualificada e perene. Absurda e lamentavelmente, não é isso o que acontece e para confirmá-lo nem é preciso estar-se muito tempo sintonizado no canal generalista da rádio do Estado, pois basta uma hora, nem tanto, para se ficar com uma ideia cabal dos subprodutos sucessivos que são oferecidos aos ouvintes mais pacientes e tolerantes à mediocridade. Éramos capazes de apostar que o categorizado cantautor não está, pura e simplesmente, representado na 'playlist' da rádio que tem o dever – ético e moral – de divulgar, com a necessária consistência, a melhor música (de língua) portuguesa, em razão do financiamento ser público!
Nota suplementar:
A escuta da canção de Vitorino Salomé poderá suscitar em alguns visitantes desta página o desejo de saberem mais sobre a árvore jacarandá. Para começar, recomendamos vivamente a leitura do texto monográfico escrito por António Bagão Félix para o seu livro "Quarenta Árvores em discurso directo" (Porto Editora, 2025) e que transcrevemos ao fundo, com a devida vénia ao autor.
Flor do Jacarandá
Letra e música: Vitorino Salomé
Arranjo: José Manuel Marreiros
Intérprete: Vitorino* (in LP/CD "Negro Fado", EMI-VC, 1988; CD "As Mais Bonitas", EMI-VC, 1993, Capitol/EMI Music Portugal, 2012, Parlophone/Warner Music Portugal, 2018; 3CD "Tudo": CD 2 – "Lisboa", EMI Music Portugal, 2005)
Flor do jacarandá
Cai leve no passeio
Céu d'outro mar sonhado
Chão de anilado Estio
A florir, lá no mês de Junho
Tapete de voar
Nas luas de Zéfiro
Estrada de Santiago
Manda a... chuva
De estrelinha azul-pavão
Brilha na noite
Vou de namorada mão na mão
Perdi a escada
Para o céu dos pardalinhos
Na ilusão da boa fada
Toco na varinha de condão
Durmo na rua onde a...
Flor do jacarandá
Cai leve no passeio
Céu d'outro mar sonhado
Chão de anilado Estio
A florir, lá no mês de Junho
Tapete de voar
Nas luas de Zéfiro
Estrada de Santiago
Manda a... chuva
De estrelinha azul-pavão
Brilha na noite
Vou de namorada mão na mão
Perdi a escada
Para o céu dos pardalinhos
Na ilusão da boa fada
Toco na varinha de condão
Durmo na rua onde a...
Flor do jacarandá...
[instrumental]
* Vitorino – voz
José Manuel Marreiros – piano e teclas
José Neves – guitarra eléctrica
Yuri Ferreira – baixo
Rui Alves – bateria e percussões
Produção – Vitorino, António Emiliano e José Manuel Marreiros
Cheguei a Portugal há para aí uns cento e cinquenta anos. Vim do Brasil, onde passei a minha infância perto da família que se estende até às florestas húmidas da Argentina, da Bolívia e do Peru. Quando fiz a longa travessia achei, talvez precipitadamente, que não me iria dar bem com os ares de Lisboa. Não porque a cidade não me interessasse. Pelo contrário, tinha a informação de parentes de lá que me diziam que a terra era mansa, o sol magnânimo e as gentes respeitosas. Mas o meu receio estava mais ligado ao facto de saber que, nesta ponta da Europa, se falava meticulosamente em duas de quatro estações anuais: uma penosamente fria e chuvosa, a que chamavam Inverno, e outra, triste e apagada, a que chamavam Outono. A minha preocupação avolumou-se pela tenra idade com que me trouxeram do continente sul-americano. Nessa altura, olhava-me e comparava o meu porte com o dos meus progenitores: eles, com o seu ritidoma castanho-escuro, retorcido e rugoso, a não disfarçar a idade adulta que não lhes anunciava o fim mas a força e resistência que o tempo lhes havia dado; e eu, habituado ao calor tropical em que nascera e ainda de casca luminosamente clara e lisa, receando o frio das tais estações lusas.
Depois deste introdutório quase me esquecia de me identificar. Sou uma árvore que pertence a um género conhecido por Jacaranda, assim baptizado em homenagem aos índios tupi-guarani.
Fui registado na «Conservatória do Registo Vegetal» por um dos seus pioneiros, Antoine Laurent de Jussieu (1748-1836) que, segundo as regras da taxonomia botânica, passou a acompanhar o meu género sempre com a sua abreviatura: Jacaranda, Juss.
Pertenço à família das Bignoniáceas (nome dado por Lineu em homenagem ao clérigo e bibliotecário de Luís XIV, Jean-Paul Bignon) com mais de cem géneros concentrados em zonas de clima tropical ou subtropical (uma das mais frequentes em Portugal é a Catalpa bignonioides, que, neste livro, também dá o seu testemunho).
No meu género, tenho cerca de cinquenta parentes próximos, o que, na penúria demográfica em que vivemos, se pode considerar uma prole numerosa. Para me distinguirem de entre todos, acrescentaram-me um nome: mimosifolia, que quer dizer de folhas parecidas com uma leguminosa que viria, aliás, a encontrar em Portugal, a Acacia mimosa. Devo este «apelido» a um botanista escocês, David Don (1799-1841). Também me reconheço por Jacaranda ovalifolia, por ter folhas tendencialmente ovais e sou muitas vezes confundido com o Jacaranda acutifolia, que quer dizer de folhas pontiagudas.
Faço parte do grupo de árvores (poucas) em que o nome científico de baptizado permaneceu como nome vernáculo. Estará aqui uma das razões por que sou uma árvore de que muita gente sabe o nome, mesmo fora dos círculos mais restritos dos botânicos. A isso, por certo, também não será alheia a musicalidade aberta das sílabas herdadas dos índios tupi. Pergunto-me se será por essa razão que sou também uma excepção na diversidade linguística dos nomes comuns das árvores, pois que nos mais correntes idiomas sou sempre o Jacarandá (embora em Espanha e Itália também seja reconhecido esporadicamente por Palisandro por causa da madeira).
Ainda a propósito do meu nome, sou o Jacarandá. Não a Jacarandá. Tratam-me pelo masculino, vá lá saber-se porquê... É claro que se fosse por simpatia à grande família das árvores, seria do género feminino. A complicar ainda mais a resposta, está a expressão da Natureza que me pôs a conceber flores hermafroditas. Nos tempos que correm, sei que há uma acesa discussão a propósito de um tal portuguesíssimo TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário) com que querem pôr as crianças a fixar as regras gramaticais. Não opino sobre tal, mas ao menos deixem-me dizer que com as novas regras me atrevo a forçar a solução definitiva para o problema do meu género gramatical: entre os agora chamados pomposamente nomes epicenos, sobrecomuns e comuns de dois, é o género epiceno que escolho. É que a nova cartilha diz que se classificam como tal os nomes que dispõem de um único valor de género, qualquer que seja o sexo da entidade referida. Assunto arrumado!
Reconheço que sou vaidoso quanto baste. Quero dizer, gosto de me engalanar com exuberância, mas não sou emproado. Em Portugal tenho um calendário muito pessoal. Não sigo a regra geral de me desnudar no Inverno. Sou caducifólio (ou quase) como a maioria das árvores companheiras de parques e ruas mas, ao contrário destas, não perco as folhas a partir do Outono, mas mais lá para a frente. Aliás, não me dispo completamente, por uma questão de pudor e pelo costume que adquiri na terra natal. As minhas folhas são, em parte, marcescentes, o que significa que não se soltam dos ramos quando estiolam e secam, mas quando surge a nova rebentação.
Gosto de me olhar nos olhos de quem me vê quando exibo exuberantemente os cachos de flores. Acontece lá para Maio e Junho, ainda sem folhas, quando o azul violáceo das panículas terminais trombetadas surge em todo o seu esplendor por cima do castanho dos ramos desengonçados que lhes dão maternidade e amamentação. As minhas perfumadas e viscosas flores duram muito tempo antes de cair, formando tapetes à volta do perímetro da copa, sempre irregular. Há, porém, quem, menos sensível à minha prodigalidade e beleza, fique zangado comigo por achar que sujo e danifico os passeios e automóveis!
Sei que é pelas flores que mais me conhecem e estimam. Por isso me aprimoro na forma, no cheiro e na cor. Ouço pessoas, que por mim passam, dizer sobre as suas vidas, às vezes com azedume, que mais vale só que mal acompanhado. Pois cá estou eu para provar que comigo é o inverso: mais vale acompanhado do que apartado. Olhem, em Lisboa, para a Avenida 5 de Outubro, para a Rua Castilho ou para a Avenida Dom Carlos I, em fileira, ou para o Parque Eduardo VII, em conjunto, e percebem claramente o que quero dizer. O resultado é maior do que a soma das parcelas e varia em função da luz de cada dia. Nos dias mais sombrios surjo com uma cor mais intimista numa junção, às vezes algo atormentada, com o tom mais ou menos plúmbeo do céu. Nos dias de sol luzidio e mediterrânico de uma Lisboa meio arabizada deixo-me observar em tons de pigmentos mais azuis do que magenta. É o triplo holismo da passagem de uma das minhas singelas flores para o conjunto de uma inflorescência, de todas estas inflorescências para a árvore e de cada uma destas para o conjunto de árvores, que me faz ser feliz e sorrir dedicadamente entre a Primavera e o Verão.
A propósito da cor das minhas corolas bilabiadas, permitam-me uma confidência. Gosto de perceber que à sua volta há sempre dúvidas, hesitações, até querelas cromáticas. Por um lado, porque me sinto importante perante outras árvores amigas que, coitadas, não suscitam tal tipo de abordagem e, por outro, porque me delicio a ver como as pessoas têm dificuldade em distinguir as cores que, em mim, oscilam entre o azul e o vermelho. Por isso, por ligeireza, confusão ou desconhecimento, me vestem de roxo, lilás, violeta, púrpura, magenta e até índigo! Confesso que até eu às vezes me baralho! Um daltonismo muito meu... convenhamos!
Mas se é por causa das flores que sou mais reconhecido, as minhas folhas também me têm dado uma grande razão para viver com muita alegria. São de um verde vivo e vibrante, grandes, opostas, recompostas e imparipinuladas. Podem atingir quase 50 centímetros de comprimento, com múltiplos pares de folíolos ovado-acuminados, que fazem lembrar a frescura e delicadeza de certos fetos. Por isso é que na Grã-Bretanha – onde pouco habito por causa do frio – me conhecem também por fern tree (árvore dos fetos).
Embora originária da América do Sul, sou hoje uma árvore disseminada em regiões que me oferecem atenção e amenidade. De Portugal à Nova Zelândia e Austrália, do México ao Zimbabué, da Califórnia a Israel, encho de cor e fantasia ruas, alamedas, jardins e parques. Na África do Sul obtive mesmo o título honorífico de árvore nacional. A sua capital, Pretória, é a minha cidade preferida porque me seduz, acolhendo-me aos milhares pelas suas artérias, parques e jardins. O tempo de floração coincide, nesta cidade, com o período universitário de exames, dando origem a uma curiosa tradição: sempre que uma flor cai em cima da cabeça de um estudante, certo é que passará nos seus exames. Infelizmente, nem sempre se concretiza esta lenda, mas a culpa, por certo, não é minha. Não posso fazer tudo...
Os meus frutos – verdes de início – amadurecem e secam em tons de castanho. São, botanicamente falando, cápsulas de 5 a 8 centímetros, com uma forma imperfeitamente oval e uma textura algo carnosa e lenhosa, ainda que achatada. No Outono, porque deiscentes, abrem-se como um bivalve e deixam cair em suaves e alegres movimentos as minúsculas e numerosas sementes de cor de café com asas membranosas.
De Castela dizem-me que os meus frutos fazem lembrar as castanholas e o seu salero. Em Portugal ligam-me a conchas, não fosse um país de mar pela terra dentro. Em França associam-me a ostras, numa antecipação da sofisticada «nouvelle cuisine». E, aliás, por esta última parecença que também alguns gauleses me tratam por arbre à huîtres.
Não sou exigente em excesso. Certo que me horrorizam as frias geadas matinais, sobretudo na infância. A minha inflorescência na puberdade é precoce: com pouco mais de 1 metro de altura (eu que antes da reforma por velhice posso atingir os 15 metros), dou à luz as minhas primeiras flores perfumadas. Não sou ansioso por podas regulares e até me dou bem sem essa cirurgia dos excessos. Tenho uma raiz direita e vertical sem divagações adventícias, pelo que sou cuidadoso com os passeios e alamedas que me acolhem na cidade. Resisto estoicamente à poluição urbana. Tenho uma esperança de vida que me faz conviver com sete ou oito gerações das pessoas que me dão atenção. Só peço para não me aproximarem muito da costa marítima por causa da salinidade, nem me submeterem à tortura da seca prolongada.
O meu testamento madeireiro não é pródigo como o rosado pau-santo da aparentada Dalbergia nigra (do outro lado do Atlântico, curiosa e igualmente tratada como um jacarandá). Sei disso, mas salvaguardadas as devidas distâncias, a minha madeira também é apreciada. Resistente, algo dura, fácil de moldar e aromática (e também rosada) serve para bons móveis, entalhes, interiores de automóveis de luxo e até para certos soalhos. Os frutos e sementes são utilizados em peças de artesanato e a seiva da casca parece aliviar as detestáveis dores de dentes.
Já vou longo nesta apresentação. Agora venham olhar-me, que eu espero. Sou paciente e contemplativo. E grato a quem sempre me acolhe com generosidade, mesmo que fora do tempo em que o tempo me seduz. Ainda não há nenhum jacarandá em Portugal que tenha merecido a honra de ser classificado oficialmente como árvore de interesse público. Tenho pena, mas não perdi a esperança. Não esqueço Eugénio de Andrade e a sua evocação da minha viagem entre o exotismo brasileiro e o acolhimento atlântico, ao ter escrito que «nesta Lisboa, onde mansos e lisos os dias passam a ver as gaivotas, e a cor dos jacarandás floridos se mistura à do Tejo, em flor também». E evoco, com dedicação, António Barreto que, no seu blogue com o meu nome (obrigado pela sua incansável protecção!), me aproximou da eternidade: «A floração anual dos jacarandás anuncia, com alegria, o eterno recomeço.»
(in "Quarenta Árvores em discurso directo", Lisboa: Porto Editora, 2025 – p. 163-168)
Prosseguindo a divulgação e celebração da integral dos Madrigais Camonianos, de Luiz de Freitas Branco, pelo Coro Gulbenkian sob a direcção de maestro Fernando Eldoro, debruçamo-nos hoje sobre o ciclo (de dez peças) para coro masculino a cappella, que o grande compositor português concebeu no período 1943-1949 e dedicou ao seu amigo Hermínio do Nascimento (1890-1972) – também ele compositor, musicólogo, pedagogo e crítico musical, cujo trabalho no domínio da música vocal, principalmente enquanto regente de coros, o autor de "Vathek" muito apreciava.
Relativamente a registos ditos/recitados, para audição intercalada com os madrigais, escolhemos oito, todos extraídos do CD "Amor É Fogo" (Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001): sete na voz do poeta, escritor e docente José Manuel Mendes, e um dito pelo saudoso locutor e realizador de rádio (da estação pública) Vítor Nobre. No total, entre redondilhas e sonetos, são 16 poemas, considerando que dois deles se apresentam na forma recitada e na cantada. Um conjunto formado, na sua maioria, por espécimes menos conhecidos e divulgados da Lírica, o que constitui um atractivo adicional para os menos versados nela e que desejem alargar os seus horizontes no domínio da vasta produção que o genial vate legou a Portugal e ao mundo lusófono. Boa celebração camoniana!
E de que modo a rádio pública portuguesa celebrou Luís de Camões neste 10 de Junho? Mau grado o incómodo, andámos a 'picar' as emissões das Antenas 1, 2 e 3, e nada lográmos apanhar da obra camoniana, se exceptuarmos os quatro derradeiros versos da estrofe 106.ª e última do Canto I d' "Os Lusíadas" – «Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme, e se indigne o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno?» – citados pelo Presidente da República, António José Seguro, em Angra do Heroísmo, quando proferiu o seu discurso no âmbito das cerimónias oficiais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Nem sequer houve o singelo cuidado de adequar a programação musical dos mencionados canais de maneira que incidisse inteiramente em autores e intérpretes portugueses. Quer dizer: as direcções de programas das Antenas 1, 2 e 3, cujo inquilino hierarquicamente mais alto é o mesmo e se chama Nuno Reis, estiveram a marimbar-se – é o termo – para o maior vulto da Língua Portuguesa neste dia que o País escolheu para evocá-lo e enaltecê-lo! Perguntamos: é com estas atitudes desleixadas e negligentes que quem manda na rádio do Estado Português faz por merecer o mui generoso salário (cerca de 8 mil euros mensais, mais as mordomias da praxe) que o conselho de administração da Rádio e Televisão de Portugal presidido por Nicolau Santos resolveu atribuir-lhe e que provém, como se sabe, da contribuição do audiovisual que é cobrada aos consumidores de electricidade? Pois é: esses pagantes (cidadãos e empresas), mormente os que se sentem mais defraudados com o deficiente serviço prestado, têm assim toda a legitimidade para afirmar (em tom lastimoso, mas não resignado): «mal empregados os 3,02 euros que a cada mês nos são extorquidos para alimentar inúteis e parasitas!».
Pois me faz dano olhar-vos
Poema (vilancete em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 786)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
MOTE
Pois me faz dano olhar-vos,
não quero, por não perder-vos,
que ninguém me veja ver-vos.
VOLTAS
De ver-vos a não vos ver
há dous extremos mortais;
e são eles em si tais
que um por um me faz morrer;
mas antes quero escolher
que possa viver sem ver-vos,
minh'alma, por não perder-vos.
Deste tamanho perigo
que remédio posso ter,
se vivo só com vos ver?
Se vos não vejo, perigo.
Quero acabar comigo
que ninguém me veja ver-vos,
Senhora, por não perder-vos.
Se me desta terra for
Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Estêvão Lopes, Lisboa, 1598; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 804)
Música: Luiz de Freitas Branco (1.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
MOTE ALHEIO
Se me desta terra for,
eu vos levarei, amor.
VOLTAS
Se me for e vos deixar
(ponho, por caso, que possa),
est'alma minha, que é vossa,
convosco me há-de ficar.
Assi que, só por levar
a minh'alma, se me for,
vos levarei, meu amor.
Que mal pode maltratar-me
que convosco seja mal?
Ou que bem pode ser tal
que sem vós possa alegrar-me?
O mal não pode enojar-me;
o bem me será maior
se vos levar, meu amor.
Pastora da Serra
Poema (vilancete em redondilha menor) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Domingos Fernandes, Lisboa, 1616; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 820-822)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
CANTIGA ALHEIA
Pastora da serra,
da Serra da Estrela,
perco-me por ela.
VOLTAS
Nos seus olhos belos
tanto Amor se atreve,
que abrasa entre a neve
quantos ousam vê-los.
Não solta os cabelos
Aurora mais bela:
perco-me por ela.
Não teve esta serra,
no meio da altura,
mais que a fermosura
que nela se encerra.
Bem céu fica a terra
que tem tal estrela:
perco-me por ela.
Sendo entre pastores
causa de mil males,
não se ouvem nos vales
senão seus louvores.
Eu só por amores
não sei falar nela:
sei morrer por ela.
[as estrofes seguintes foram omitidas]
D'alguns que, sentindo,
seu mal vão mostrando,
se ri, não cuidando
que inda paga, rindo.
Eu, triste, encobrindo
só meus males dela,
perco-me por ela.
Se flores deseja,
(por ventura delas)
das que colhe, belas,
mil morrem de enveja.
Não há quem não veja
todo o milhor nela:
perco-me por ela.
Se n'água corrente
seus olhos inclina,
faz a luz cristalina
parar a corrente.
Tal se vê, que sente
por ver-se água nela:
perco-me por ela.
Verdes são as hortas
Poema (cantiga em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", org. Estêvão Lopes, Lisboa, 1598; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 808)
Música: Luiz de Freitas Branco (2.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
MOTE ALHEIO
Verdes são as hortas,
com rosas e flores;
moças que as regam
matam-me de amores.
VOLTAS
Entre estes penedos
que daqui parecem,
verdes ervas crescem,
altos arvoredos.
Vai destes rochedos
água com que as flores
d'outras são regadas
que matam de amores.
Co a água que cai
daquela espessura,
outra se mistura
que dos olhos sai:
toda junta vai
regar brancas flores,
onde há outros olhos
que matam de amores.
Celestes jardins:
as flores, estrelas;
horteloas delas
são uns serafins.
Rosas e jasmins
de diversas cores;
anjos que as regam
matam-me de amores.
Vós, Senhora, tudo tendes
Poema (vilancete em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 778)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
MOTE ALHEIO
Vós, Senhora, tudo tendes,
senão que tendes os olhos verdes.
VOLTAS
Dotou em vós Natureza
o sumo da perfeição
que, o que em vós é senão,
é em outras gentileza;
o verde não se despreza,
que, agora que vós o tendes,
são belos os olhos verdes.
Ouro e azul é a melhor
cor, por que a gente se perde;
mas a graça desse verde
tira a graça a toda a cor.
Fica agora sendo a flor
a cor que nos olhos tendes,
porque são vossos... e verdes!
Aquela cativa
Poema (endechas em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 770-771)
Música: Luiz de Freitas Branco (3.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
Endechas a ũa cativa
com quem andava d'amores na Índia,
chamada Bárbara.
Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais formosa.
Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.
Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os loiros são belos.
Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.
Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.
Transforma-se o amador na cousa amada
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 5)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim co a alma minha se conforma,
está no pensamento como ideia;
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.
Notas:
amador – apaixonado;
imaginar – recordar a imagem da "cousa amada";
liada – ligada, unida;
semideia – semideusa, mulher divinizada;
se conforma – se confunde, se funde, se identifica.
Há uma questão
Poema (cantiga em redondilha maior): Luís de Camões (dos inéditos de Manuel de Faria e Sousa, in "Rimas", org. João António de Lemos Pereira de Lacerda, 2.º visconde de Juromenha, Lisboa, 1861; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 820)
Música: Luiz de Freitas Branco (4.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
A uma mulher que se chamou
Graça de Moraes.
Há uma questão de Amor,
na qual ninguém se assegura,
qual seja de mais valor:
se a Graça, se a Fermosura.
Julgo o poder julgar nela
se afeição não me embaraça,
que muito mais vale a Graça
que a Fermosura sem ela.
Se me dessem a escolher
(mas não tenho tal ventura,)
a Graça quisera eu ter,
tenha outra a Fermosura.
Ninguém pode aqui pôr grosa
que não fique com desgraça,
pode haver Graça fermosa,
não Fermosura sem Graça.
O fogo que na branda cera ardia
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 20)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
O fogo que na branda cera ardia,
vendo o rosto gentil, que eu n'alma vejo,
se acendeu de outro fogo do desejo,
por alcançar a luz que vence o dia.
Como de dous ardores se encendia,
da grande impaciência fez despejo
e, remetendo com furor sobejo,
vos foi beijar na parte onde se via.
Ditosa aquela flama, que se atreve
a apagar seus ardores e tormentos
na vista de que o mundo tremer deve!
Namoram-se, Senhora, os Elementos
de vós, e queima o fogo aquela neve
que queima corações e pensamentos.
O Fogo
Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 20)
Música: Luiz de Freitas Branco (5.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
O fogo que na branda cera ardia,
vendo o rosto gentil, que eu n'alma vejo,
se acendeu de outro fogo do desejo,
por alcançar a luz que vence o dia.
Como de dois ardores se acendia,
da grande impaciência fez despejo
e, remetendo com furor sobejo,
vos foi beijar na parte onde se via.
Ditosa aquela flama, que se atreve
a apagar seus ardores e tormentos
na vista a que o Sol temores deve!
Namoram-se, Senhora, os Elementos
de vós, e queima o fogo aquela neve
que queima corações e pensamentos.
Descalça vai pela neve
Poema (vilancete em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 766-767) Recitado por Vítor Nobre* (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
MOTE
Descalça vai pela neve:
assim faz quem Amor serve.
VOLTAS
Os privilégios que os reis
não podem dar, pode Amor,
que faz qualquer amador
livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis,
ferro, frio, fogo e neve,
tudo sofre quem o serve.
Moça fermosa despreza
todo o frio e toda a dor.
Olhai quanto pode Amor
mais que a própria Natureza:
medo nem delicadeza
lhe impede que passe a neve.
Assim faz quem Amor serve.
Por mais trabalhos que leve,
a tudo se of'receria;
passa pela neve fria
mais alva que a própria neve;
com todo o frio se atreve.
Vede em que fogo ferve
o triste que o Amor serve.
Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 766-767)
Música: Luiz de Freitas Branco (6.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
MOTE
Descalça vai pela neve:
assim faz quem Amor serve.
VOLTAS
Os privilégios que os reis
não podem dar, pode Amor,
que faz qualquer amador
livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis,
ferro, frio, fogo e neve,
tudo sofre quem o serve.
Moça fermosa despreza
todo o frio e toda a dor.
Olhai quanto pode Amor
mais que a própria Natureza:
medo nem delicadeza
lhe impede que passe a neve.
Assim faz quem Amor serve.
Por mais trabalhos que leve,
a tudo se of'receria;
passa pela neve fria
mais alva que a própria neve;
com todo o frio se atreve.
Vede em que fogo ferve
o triste que o Amor serve.
Menina, não sei dizer
Poema (cantiga em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 787)
Música: Luiz de Freitas Branco (7.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
A ũa dama mal empregada
MOTE
Menina, não sei dizer,
vendo-vos tão acabada,
quão triste estou por vos ver
formosa e mal empregada.
VOLTAS
Quem tão mal vos empregou
pouco de mi se doía,
pois não viu o quanto me ia
em tirar-me o que tirou.
Obriga o primor que tem
lindeza tão extremada
que digam quantos a vêem:
«Formosa e mal empregada!»
Tomastes da fermosura
quanto dela desejastes,
e com ela me guardastes
para tão triste ventura.
Matáveis sendo solteira,
matais agora em casada;
matais de toda a maneira,
formosa e mal empregada!
Num bosque que das Ninfas se habitava
Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 10)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
Num bosque que das Ninfas se habitava,
Sílvia, ninfa linda, andava um dia;
subida nũa árvore sombria,
as amarelas flores apanhava.
Cupido, que ali sempre costumava
a vir passar a sesta à sombra fria,
num ramo o arco e setas, que trazia,
antes que adormecesse, pendurava.
A Ninfa, como idóneo tempo vira
para tamanha empresa, não dilata;
mas com as armas foge ao Moço esquivo.
As setas traz nos olhos, com que tira.
Ó pastores! fugi, que a todos mata,
senão a mim, que de matar-me vivo.
De que me serve
Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 788)
Música: Luiz de Freitas Branco (8.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
MOTE
De que me serve fugir
de morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?
VOLTAS
Tenho-me persuadido,
com razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nascido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo,
que eu mesmo sou meu perigo.
E se de mi me livrasse,
nenhum gosto me seria;
que, senão eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
Força é logo que assi passe:
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo.
Campos bem-aventurados
Poema (cantiga em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 743-744)
Música: Luiz de Freitas Branco (9.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
MOTE ALHEIO
Campos bem-aventurados,
tornai-vos agora tristes,
que os dias em que me vistes
alegre já são passados.
GLOSA
Campos cheios de prazer,
vós que estais reverdecendo,
já me alegreis com vos ver;
agora venho a temer
que entristeçais em me vendo.
E pois a vista alegrais
dos olhos desesperados,
não quero que me vejais,
pera que sempre sejais
campos bem-aventurados.
[as duas estrofes seguintes foram omitidas]
Porém se, por acidente,
vos pesar de meu tormento,
sabereis que Amor consente
que tudo me descontente,
senão descontentamento.
Por isso vós, arvoredos,
que já nos meus olhos vistes
mais alegria que medos,
se mos quereis fazer ledos,
tornai-vos agora tristes.
Já me vistes ledo ser;
mas despois que o falso Amor
tão triste me fez viver,
ledos folgo de vos ver,
porque me dobreis a dor.
E se este gosto sobejo
de minha dor me sentistes,
julgai quanto mais desejo
as horas que vos não vejo
que os dias em que me vistes.
O tempo, que é desigual,
de secos, verdes vos tem;
porque em vosso natural
se muda o mal para o bem,
mas o meu para mor mal.
Se perguntais, verdes prados,
pelos tempos diferentes
que de Amor me foram dados,
tristes aqui são presentes,
alegres já são passados.
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Domingos Fernandes, Lisboa, 1616; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 62)
Recitado por José Manuel Mendes* (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)
Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
este meu duro génio de vinganças!
* José Manuel Mendes – voz
Gravado nos Estúdios da RDP, Lisboa, em Fevereiro de 2001
Produção digital – José Silva
URL: http://www.blcs.pt/jmm/default.aspx
Males
Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 14)
Música: Luiz de Freitas Branco (10.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)
Males, que contra mim vos conjurastes,
quanto há-de durar tão duro intento?
Se dura porque dure meu tormento,
baste-vos quanto já me atormentastes.
Mas se assi porfiais porque cuidastes
derribar o meu alto pensamento,
mais pode a causa dele, em que o sustento,
que vós, que dela mesma o ser tomastes.
E, pois vossa tenção com minha morte
é de acabar o mal destes amores,
dai já fim a tormento tão comprido.
Assi de ambos contente seja a sorte:
em vós, por acabar-me, vencedores;
em mim, porque acabei, de vós vencido.
* Coro Gulbenkian (naipes masculinos):
Tenores – Filipe Faria, João Branco, João Custódio, João Moreira, Rui Miranda, Sérgio Peixoto
Baixos – Artur Carneiro, João Valeriano, José Bruto da Costa, Manuel Rebelo, Rui Baeta, Salvador Mascarenhas
Direcção – Fernando Eldoro
Frontispício da 1.ª edição das "Rimas", de Luís de Camões, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita (Lisboa, 1595)
Capa do CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", do Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (PortugalSom/Numérica, 2008)
Concepção gráfica – Jorge Colombo
Capa do CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", de Carmen Dolores, João Grosso, José Manuel Mondes, Maria Barroso e Vítor Nobre (Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001).
Nascida em Beja, a 8 de Março de 1946, Antónia de Jesus Montes Tonicha começou o seu percurso artístico profissional aos 18 anos de idade, em 1964 (nesse ano gravou o EP colectivo "Canções de Natal", em parceria com Saudade dos Santos, Gina Maria e Paulo Jorge, e no ano seguinte o seu primeiro disco em nome individual, o EP de título genérico "Luar para esta Noite"). Com o repertório que foi gravando nos anos seguintes, mormente o de origem popular/folclórica (por exemplo, o ribatejano "Vira dos Malmequeres"), a que a rádio dá bom acolhimento, Tonicha grangeia assinalável popularidade. Mas é a canção vencedora, em 1971, do VIII Grande Prémio TV da Canção Portuguesa, "Menina do Alto da Serra", com poema de José Carlos Ary dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes, que catapulta a cantora para um patamar artístico mais elevado e lhe confere amplo reconhecimento e respeitabilidade. Ela própria bem o percebeu ao afirmar «pela primeira vez cantei um poema dum autêntico poeta». Foi o início de uma profícua colaboração entre Ary dos Santos e Tonicha que tornou a distinta intérprete uma das que mais letras/poemas gravou do autor de "Estrela da Tarde" (só ultrapassada por Fernando Tordo e por Carlos do Carmo). Nesse acervo poético conta-se "Rosa, Rosae" que Tonicha cantou, com música de João Henrique e orquestração de José Calvário, para o EP "A Rapariga e o Poeta", publicado em 1973 por Arnaldo Trindade, sob o selo Orfeu. É pois com a belíssima, mas muito pouco divulgada, "Rosa, Rosae" que o escrevente destas linhas se associa à celebração do 80.º aniversário de Tonicha, deixando expresso o seu agradecimento à artista pela oportunidade que lhe concedeu de apreciar esta e outras refulgentes pérolas presentes do seu legado discográfico. O poema-canção ora em destaque serve, ao mesmo tempo, para assinalar o Dia Internacional da Mulher, pois as palavras de Ary dos Santos e a mensagem que transmitem em prol da dignificação da condição feminina no âmbito da conjugalidade, na maviosa e expressiva voz de Tonicha, não podiam vir mais a propósito. E não foi certamente fruto do acaso ter Ary escolhido, para o título do seu poema, o nome da flor mais usado como nome próprio de mulher...
Boa escuta, aromatizada com o irresistível odor das Rosas!
Atendendo à obrigação que a Antena 1 tem, mercê do financiamento público, de acarinhar e divulgar o nosso património musical/discográfico mais valioso e perene, esta "Rosa, Rosae" bem poderia figurar na 'playlist', até como forma de fazer alguma justiça a Tonicha que tão maltratada tem sido pela rádio do Estado há um ror de anos...
Rosa, Rosae
Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: João Henrique
Orquestração: José Calvário
Intérprete: Tonicha* [in EP "A Rapariga e o Poeta", Orfeu/Arnaldo Trindade, 1973; LP "Tonicha" (compilação), Orfeu/Arnaldo Trindade, 1973; CD "Tonicha", Col. O Melhor dos Melhores, vol. 21, Movieplay, 1994]
É nas tuas mãos de vidro
é no teu olhar aberto
que aparece o espelho certo
conseguido.
Amar de longe é tão perto
Amar de perto é tão vivo
que não pode haver decerto
castigo.
Sim eu vejo em ti a minha força
tu vês em mim a tua rosa
formosa.
Sou a flor do espanto e da ternura
não serei casta nem pura
sou rosa.
Mas rosa que vive e dança
amada mas não segura
rosa que nunca se cansa
dos ventos da desventura
rosa, rosae
da ternura.
É nas tuas mãos vazias
que eu deponho a vida inteira
com espinhos todos os dias
roseira.
Roseira mas não lareira
do fogo brando do lar
apenas rosa fronteira
do mar.
Sim eu vejo em ti o meu perfume
a lava densa do ciúme
demente.
Sim eu sou a rosa sem queixume
flor vermelha do meu lume
ardente.
Demente mas sem loucura
formosa mas sem vaidade
apenas rosa brancura
apenas rosa vontade
rosa, rosae
liberdade!