10 junho 2026

Camões recitado e cantado (XII)


© Carlos Luís M. C. da Cruz, 22 Ago. 2010 (in https://commons.wikimedia.org/)
Escultura de Luís de Camões, em betão, sita no jardim de Leiria baptizado com o seu nome. Concebida pelo escultor leiriense Fernando Marques (1934-2017), foi inaugurada no dia 10 de Junho de 1980, no âmbito das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, coincidente com o IV Centenário da morte do Poeta, que tiveram lugar na cidade do Lis.
Podemos imaginar a desolação de Camões, que tanto enalteceu o fresco arvoredo (por exemplo, em «...vós, arvoredos, / que já nos meus olhos vistes / mais alegria que medos...»), ao assistir ao derrube, pelo violentíssimo vendaval Kristin, no passado dia 28 de Janeiro, de quase todas as árvores de respeitável porte que davam sombra e oxigénio naquele histórico vergel de Leiria, terra que viu nascer outros dois eminentes bardos confessos admiradores do nosso Vate-Maior: Francisco Rodrigues Lobo e Afonso Lopes Vieira.


Prosseguindo a divulgação e celebração da integral dos Madrigais Camonianos, de Luiz de Freitas Branco, pelo Coro Gulbenkian sob a direcção de maestro Fernando Eldoro, debruçamo-nos hoje sobre o ciclo (de dez peças) para coro masculino a cappella, que o grande compositor português concebeu no período 1943-1949 e dedicou ao seu amigo Hermínio do Nascimento (1890-1972) – também ele compositor, musicólogo, pedagogo e crítico musical, cujo trabalho no domínio da música vocal, principalmente enquanto regente de coros, o autor de "Vathek" muito apreciava.
Relativamente a registos ditos/recitados, para audição intercalada com os madrigais, escolhemos oito, todos extraídos do CD "Amor É Fogo" (Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001): sete na voz do poeta, escritor e docente José Manuel Mendes, e um dito pelo saudoso locutor e realizador de rádio (da estação pública) Vítor Nobre. No total, entre redondilhas e sonetos, são 16 poemas, considerando que dois deles se apresentam na forma recitada e na cantada. Um conjunto formado, na sua maioria, por espécimes menos conhecidos e divulgados da Lírica, o que constitui um atractivo adicional para os menos versados nela e que desejem alargar os seus horizontes no domínio da vasta produção que o genial vate legou a Portugal e ao mundo lusófono. Boa celebração camoniana!

E de que modo a rádio pública portuguesa celebrou Luís de Camões neste 10 de Junho? Mau grado o incómodo, andámos a 'picar' as emissões das Antenas 1, 2 e 3, e nada lográmos apanhar da obra camoniana, se exceptuarmos os quatro derradeiros versos da estrofe 106.ª e última do Canto I e "Os Lusíadas" – «Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme, e se indigne o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno?» – citados pelo Presidente da República, António José Seguro, em Angra do Heroísmo, quando proferiu o seu discurso no âmbito das cerimónias oficiais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Nem sequer houve o singelo cuidado de adequar a programação musical dos mencionados canais de maneira que incidisse inteiramente em autores e intérpretes portugueses. Quer dizer: as direcções de programas das Antenas 1, 2 e 3, cujo inquilino hierarquicamente mais alto é o mesmo e se chama Nuno Reis, estiveram a marimbar-se – é o termo – para o maior vulto da Língua Portuguesa neste dia que o País escolheu para evocá-lo e enaltecê-lo! Perguntamos: é com estas atitudes desleixadas e negligentes que quem manda na rádio do Estado Português faz por merecer o mui generoso salário (cerca de 8 mil euros mensais, mais as mordomias da praxe) que o conselho de administração da Rádio e Televisão de Portugal presidido por Nicolau Santos resolveu atribuir-lhe e que provém, como se sabe, da contribuição do audiovisual que é cobrada aos consumidores de electricidade? Pois é: esses pagantes (cidadãos e empresas), mormente os que se sentem mais defraudados com o deficiente serviço prestado, têm assim toda a legitimidade para afirmar (em tom lastimoso, mas não resignado): «mal empregados os 3,02 euros que a cada mês nos são extorquidos para alimentar inúteis e parasitas!».



Pois me faz dano olhar-vos



Poema (vilancete em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 786)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)


          MOTE

Pois me faz dano olhar-vos,
não quero, por não perder-vos,
que ninguém me veja ver-vos.

          VOLTAS

De ver-vos a não vos ver
há dous extremos mortais;
e são eles em si tais
que um por um me faz morrer;
mas antes quero escolher
que possa viver sem ver-vos,
minh'alma, por não perder-vos.

Deste tamanho perigo
que remédio posso ter,
se vivo só com vos ver?
Se vos não vejo, perigo.
Quero acabar comigo
que ninguém me veja ver-vos,
Senhora, por não perder-vos.



Se me desta terra for



Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Estêvão Lopes, Lisboa, 1598; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 804)
Música: Luiz de Freitas Branco (1.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)


          CANTIGA ALHEIA

Se me desta terra for,
eu vos levarei, amor.

          VOLTAS

Se me for e vos deixar
(ponho, por caso, que possa),
est'alma minha, que é vossa,
convosco me há-de ficar.
Assi que, só por levar
a minh'alma, se me for,
vos levarei, meu amor.

Que mal pode maltratar-me
que convosco seja mal?
Ou que bem pode ser tal
que sem vós possa alegrar-me?
O mal não pode enojar-me;
o bem me será maior
se vos levar, meu amor.



Pastora da Serra



Poema (vilancete em redondilha menor) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Domingos Fernandes, Lisboa, 1616; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 820-822)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)


          CANTIGA ALHEIA

Pastora da serra,
da Serra da Estrela,
perco-me por ela.

          VOLTAS

Nos seus olhos belos
tanto Amor se atreve,
que abrasa entre a neve
quantos ousam vê-los.
Não solta os cabelos
Aurora mais bela:
perco-me por ela.

Não teve esta serra,
no meio da altura,
mais que a fermosura
que nela se encerra.
Bem céu fica a terra
que tem tal estrela:
perco-me por ela.

Sendo entre pastores
causa de mil males,
não se ouvem nos vales
senão seus louvores.
Eu só por amores
não sei falar nela:
sei morrer por ela.

[as estrofes seguintes foram omitidas]

D'alguns que, sentindo,
seu mal vão mostrando,
se ri, não cuidando
que inda paga, rindo.
Eu, triste, encobrindo
só meus males dela,
perco-me por ela.

Se flores deseja,
(por ventura delas)
das que colhe, belas,
mil morrem de enveja.
Não há quem não veja
todo o milhor nela:
perco-me por ela.

Se n'água corrente
seus olhos inclina,
faz a luz cristalina
parar a corrente.
Tal se vê, que sente
por ver-se água nela:
perco-me por ela.



Verdes são as hortas



Poema (cantiga em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", org. Estêvão Lopes, Lisboa, 1598; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 808)
Música: Luiz de Freitas Branco (2.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)


          MOTE ALHEIO

Verdes são as hortas,
com rosas e flores;
moças que as regam
matam-me de amores.

          VOLTAS

Entre estes penedos
que daqui parecem,
verdes ervas crescem,
altos arvoredos.
Vai destes rochedos
água com que as flores
d'outras são regadas
que matam de amores.

Co a água que cai
daquela espessura,
outra se mistura
que dos olhos sai:
toda junta vai
regar brancas flores,
onde há outros olhos
que matam de amores.

Celestes jardins:
as flores, estrelas;
horteloas delas
são uns serafins.
Rosas e jasmins
de diversas cores;
anjos que as regam
matam-me de amores.



Vós, Senhora, tudo tendes



Poema (vilancete em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 778)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)


          MOTE ALHEIO

Vós, Senhora, tudo tendes,
senão que tendes os olhos verdes.

          VOLTAS

Dotou em vós Natureza
o sumo da perfeição
que, o que em vós é senão,
é em outras gentileza;
o verde não se despreza,
que, agora que vós o tendes,
são belos os olhos verdes.

Ouro e azul é a melhor
cor, por que a gente se perde;
mas a graça desse verde
tira a graça a toda a cor.
Fica agora sendo a flor
a cor que nos olhos tendes,
porque são vossos... e verdes!



Aquela cativa



Poema (endechas em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 770-771)
Música: Luiz de Freitas Branco (3.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)


                        Endechas a ũa cativa
                        com quem andava d'amores na Índia,
                        chamada Bárbara.


Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os loiros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.



Transforma-se o amador na cousa amada



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 5)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)


Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim co a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia;
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.


Notas:
amador – apaixonado;
imaginar – recordar a imagem da "cousa amada";
liada – ligada, unida;
semideia – semideusa, mulher divinizada;
se conforma – se confunde, se funde, se identifica.



Há uma questão



Poema (cantiga em redondilha maior): Luís de Camões (dos inéditos de Manuel de Faria e Sousa, in "Rimas", org. João António de Lemos Pereira de Lacerda, 2.º visconde de Juromenha, Lisboa, 1861; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 820)
Música: Luiz de Freitas Branco (4.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)


                        A uma mulher que se chamou
                        Graça de Moraes.


Há uma questão de Amor,
na qual ninguém se assegura,
qual seja de mais valor:
se a Graça, se a Fermosura.
Julgo o poder julgar nela
se afeição não me embaraça,
que muito mais vale a Graça
que a Fermosura sem ela.

Se me dessem a escolher
(mas não tenho tal ventura,)
a Graça quisera eu ter,
tenha outra a Fermosura.
Ninguém pode aqui pôr grosa
que não fique com desgraça,
pode haver Graça fermosa,
não Fermosura sem Graça.



O fogo que na branda cera ardia



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 20)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)


O fogo que na branda cera ardia,
vendo o rosto gentil, que eu n'alma vejo,
se acendeu de outro fogo do desejo,
por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dous ardores se encendia,
da grande impaciência fez despejo
e, remetendo com furor sobejo,
vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama, que se atreve
a apagar seus ardores e tormentos
na vista de que o mundo tremer deve!

Namoram-se, Senhora, os Elementos
de vós, e queima o fogo aquela neve
que queima corações e pensamentos.



O Fogo



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 20)
Música: Luiz de Freitas Branco (5.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)


O fogo que na branda cera ardia,
vendo o rosto gentil, que eu n'alma vejo,
se acendeu de outro fogo do desejo,
por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dois ardores se acendia,
da grande impaciência fez despejo
e, remetendo com furor sobejo,
vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama, que se atreve
a apagar seus ardores e tormentos
na vista a que o Sol temores deve!

Namoram-se, Senhora, os Elementos
de vós, e queima o fogo aquela neve
que queima corações e pensamentos.



Descalça vai pela neve



Poema (vilancete em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 766-767)
Recitado por Vítor Nobre* (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)


          MOTE

Descalça vai pela neve:
assim faz quem Amor serve.

          VOLTAS

Os privilégios que os reis
não podem dar, pode Amor,
que faz qualquer amador
livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis,
ferro, frio, fogo e neve,
tudo sofre quem o serve.

Moça fermosa despreza
todo o frio e toda a dor.
Olhai quanto pode Amor
mais que a própria Natureza:
medo nem delicadeza
lhe impede que passe a neve.
Assim faz quem Amor serve.

Por mais trabalhos que leve,
a tudo se of'receria;
passa pela neve fria
mais alva que a própria neve;
com todo o frio se atreve.
Vede em que fogo ferve
o triste que o Amor serve.


* Vítor Nobre – voz
Gravado nos Estúdios da RDP, Lisboa, em Fevereiro de 2001
Produção digital – José Silva
URL: https://ualmedia.pt/vitor-nobre-1944-2021-uma-voz-da-radio/



Descalça vai pela neve



Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 766-767)
Música: Luiz de Freitas Branco (6.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)


          MOTE

Descalça vai pela neve:
assim faz quem Amor serve.

          VOLTAS

Os privilégios que os reis
não podem dar, pode Amor,
que faz qualquer amador
livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis,
ferro, frio, fogo e neve,
tudo sofre quem o serve.

Moça fermosa despreza
todo o frio e toda a dor.
Olhai quanto pode Amor
mais que a própria Natureza:
medo nem delicadeza
lhe impede que passe a neve.
Assim faz quem Amor serve.

Por mais trabalhos que leve,
a tudo se of'receria;
passa pela neve fria
mais alva que a própria neve;
com todo o frio se atreve.
Vede em que fogo ferve
o triste que o Amor serve.



Menina, não sei dizer



Poema (cantiga em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 787)
Música: Luiz de Freitas Branco (7.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)


                        A ũa dama mal empregada

          MOTE

Menina, não sei dizer,
vendo-vos tão acabada,
quão triste estou por vos ver
formosa e mal empregada.

          VOLTAS

Quem tão mal vos empregou
pouco de mi se doía,
pois não viu o quanto me ia
em tirar-me o que tirou.
Obriga o primor que tem
lindeza tão extremada
que digam quantos a vêem:
«Formosa e mal empregada!»

Tomastes da fermosura
quanto dela desejastes,
e com ela me guardastes
para tão triste ventura.
Matáveis sendo solteira,
matais agora em casada;
matais de toda a maneira,
formosa e mal empregada!



Num bosque que das Ninfas se habitava



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 10)
Recitado por José Manuel Mendes (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)


Num bosque que das Ninfas se habitava,
Sílvia, ninfa linda, andava um dia;
subida nũa árvore sombria,
as amarelas flores apanhava.

Cupido, que ali sempre costumava
a vir passar a sesta à sombra fria,
num ramo o arco e setas, que trazia,
antes que adormecesse, pendurava.

A Ninfa, como idóneo tempo vira
para tamanha empresa, não dilata;
mas com as armas foge ao Moço esquivo.

As setas traz nos olhos, com que tira.
Ó pastores! fugi, que a todos mata,
senão a mim, que de matar-me vivo.



De que me serve



Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 788)
Música: Luiz de Freitas Branco (8.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)


          MOTE

De que me serve fugir
de morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?

          VOLTAS

Tenho-me persuadido,
com razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nascido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo,
que eu mesmo sou meu perigo.

E se de mi me livrasse,
nenhum gosto me seria;
que, senão eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
Força é logo que assi passe:
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo.



Campos bem-aventurados



Poema (cantiga em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 743-744)
Música: Luiz de Freitas Branco (9.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)


          MOTE ALHEIO

Campos bem-aventurados,
tornai-vos agora tristes,
que os dias em que me vistes
alegre já são passados.

          GLOSA

Campos cheios de prazer,
vós que estais reverdecendo,
já me alegreis com vos ver;
agora venho a temer
que entristeçais em me vendo.
E pois a vista alegrais
dos olhos desesperados,
não quero que me vejais,
pera que sempre sejais
campos bem-aventurados.

[as duas estrofes seguintes foram omitidas]

Porém se, por acidente,
vos pesar de meu tormento,
sabereis que Amor consente
que tudo me descontente,
senão descontentamento.
Por isso vós, arvoredos,
que já nos meus olhos vistes
mais alegria que medos,
se mos quereis fazer ledos,
tornai-vos agora tristes.

Já me vistes ledo ser;
mas despois que o falso Amor
tão triste me fez viver,
ledos folgo de vos ver,
porque me dobreis a dor.
E se este gosto sobejo
de minha dor me sentistes,
julgai quanto mais desejo
as horas que vos não vejo
que os dias em que me vistes.

O tempo, que é desigual,
de secos, verdes vos tem;
porque em vosso natural
se muda o mal para o bem,
mas o meu para mor mal.
Se perguntais, verdes prados,
pelos tempos diferentes
que de Amor me foram dados,
tristes aqui são presentes,
alegres já são passados.



Erros meus, má fortuna, amor ardente



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Domingos Fernandes, Lisboa, 1616; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 62)
Recitado por José Manuel Mendes* (in CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001)


Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
este meu duro génio de vinganças!


Notas:
Fortuna – destino, sorte;
passaram – sucederam, decorreram;
discurso – decurso.

* José Manuel Mendes – voz
Gravado nos Estúdios da RDP, Lisboa, em Fevereiro de 2001
Produção digital – José Silva
URL: http://www.blcs.pt/jmm/default.aspx



Males



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 14)
Música: Luiz de Freitas Branco (10.ª peça do ciclo "Madrigais Camonianos para coro masculino a cappella", 1943-49)
Intérprete: Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (in CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", PortugalSom/Numérica, 2008)


Males, que contra mim vos conjurastes,
quanto há-de durar tão duro intento?
Se dura porque dure meu tormento,
baste-vos quanto já me atormentastes.

Mas se assi porfiais porque cuidastes
derribar o meu alto pensamento,
mais pode a causa dele, em que o sustento,
que vós, que dela mesma o ser tomastes.

E, pois vossa tenção com minha morte
é de acabar o mal destes amores,
dai já fim a tormento tão comprido.

Assi de ambos contente seja a sorte:
em vós, por acabar-me, vencedores;
em mim, porque acabei, de vós vencido.


* Coro Gulbenkian (naipes masculinos):
Tenores – Filipe Faria, João Branco, João Custódio, João Moreira, Rui Miranda, Sérgio Peixoto
Baixos – Artur Carneiro, João Valeriano, José Bruto da Costa, Manuel Rebelo, Rui Baeta, Salvador Mascarenhas
Direcção – Fernando Eldoro

Produção musical – Alexandre Delgado
Produção – PortugalSom - Ministério da Cultura / Direcção-Geral das Artes
Gravado na Igreja do Cemitério dos Ingleses, Lisboa, em Junho de 2006
URL: https://gulbenkian.pt/musica/coro-e-orquestra/coro-gulbenkian/
https://www.meloteca.com/portfolio-item/coro-gulbenkian/
https://www.facebook.com/gulbenkianmusica/
https://music.youtube.com/channel/UCE3UnGOGRWjEj93WPvMzadw



Frontispício da 1.ª edição das "Rimas", de Luís de Camões, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita (Lisboa, 1595)



Capa do CD "Luís de Freitas Branco: Madrigais Camonianos", do Coro Gulbenkian, dir. Fernando Eldoro (PortugalSom/Numérica, 2008)
Concepção gráfica – Jorge Colombo



Capa do CD "Amor É Fogo: Poemas de Luís de Camões", de Carmen Dolores, João Grosso, José Manuel Mondes, Maria Barroso e Vítor Nobre (Série "Festa da Língua Portuguesa", Vol. III, Câmara Municipal de Sintra/Instituto Camões, 2001).

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Outros artigos com poesia e/ou teatro de Luís de Camões:
Camões recitado e cantado
Camões recitado e cantado (II)
Em memória de Manoel de Oliveira (1908-2015)
Camões recitado e cantado (III)
Camões recitado e cantado (IV)
Camões recitado e cantado (V)
Camões recitado e cantado (VI)
Camões recitado e cantado (VII)
Camões recitado e cantado (VIII)
Camões recitado e cantado (IX)
Luís de Camões: "Os Lusíadas" (dois excertos), por Carlos Wallenstein
Luís Cília: "Se me Levam Águas" (Luís de Camões)
Teatro camoniano em versão radiofónica
Camões por Carmen Dolores
José Mário Branco: "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades"
Camões recitado e cantado (X)
Camões evocado por Sophia
Luís de Camões: "Endechas a Bárbara Escrava"
Luís de Camões: "Perdigão perdeu a pena"
Camões musicado por Fernando Lopes-Graça (obras corais 'a cappella')
Celebrando Jorge Croner de Vasconcellos
Camões recitado e cantado (XI)

08 março 2026

Tonicha: "Rosa, Rosae" (Ary dos Santos)


© Álvaro João, 1973.


Nascida em Beja, a 8 de Março de 1946, Antónia de Jesus Montes Tonicha começou o seu percurso artístico profissional aos 18 anos de idade, em 1964 (nesse ano gravou o EP colectivo "Canções de Natal", em parceria com Saudade dos Santos, Gina Maria e Paulo Jorge, e no ano seguinte o seu primeiro disco em nome individual, o EP de título genérico "Luar para esta Noite"). Com o repertório que foi gravando nos anos seguintes, mormente o de origem popular/folclórica (por exemplo, o ribatejano "Vira dos Malmequeres"), a que a rádio dá bom acolhimento, Tonicha grangeia assinalável popularidade. Mas é a canção vencedora, em 1971, do VIII Grande Prémio TV da Canção Portuguesa, "Menina do Alto da Serra", com poema de José Carlos Ary dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes, que catapulta a cantora para um patamar artístico mais elevado e lhe confere amplo reconhecimento e respeitabilidade. Ela própria bem o percebeu ao afirmar «pela primeira vez cantei um poema dum autêntico poeta». Foi o início de uma profícua colaboração entre Ary dos Santos e Tonicha que tornou a distinta intérprete uma das que mais letras/poemas gravou do autor de "Estrela da Tarde" (só ultrapassada por Fernando Tordo e por Carlos do Carmo). Nesse acervo poético conta-se "Rosa, Rosae" que Tonicha cantou, com música de João Henrique e orquestração de José Calvário, para o EP "A Rapariga e o Poeta", publicado em 1973 por Arnaldo Trindade, sob o selo Orfeu. É pois com a belíssima, mas muito pouco divulgada, "Rosa, Rosae" que o escrevente destas linhas se associa à celebração do 80.º aniversário de Tonicha, deixando expresso o seu agradecimento à artista pela oportunidade que lhe concedeu de apreciar esta e outras refulgentes pérolas presentes do seu legado discográfico. O poema-canção ora em destaque serve, ao mesmo tempo, para assinalar o Dia Internacional da Mulher, pois as palavras de Ary dos Santos e a mensagem que transmitem em prol da dignificação da condição feminina no âmbito da conjugalidade, na maviosa e expressiva voz de Tonicha, não podiam vir mais a propósito. E não foi certamente fruto do acaso ter Ary escolhido, para o título do seu poema, o nome da flor mais usado como nome próprio de mulher...
Boa escuta, aromatizada com o irresistível odor das Rosas!

Atendendo à obrigação que a Antena 1 tem, mercê do financiamento público, de acarinhar e divulgar o nosso património musical/discográfico mais valioso e perene, esta "Rosa, Rosae" bem poderia figurar na 'playlist', até como forma de fazer alguma justiça a Tonicha que tão maltratada tem sido pela rádio do Estado há um ror de anos...



Rosa, Rosae



Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: João Henrique
Orquestração: José Calvário
Intérprete: Tonicha* [in EP "A Rapariga e o Poeta", Orfeu/Arnaldo Trindade, 1973; LP "Tonicha" (compilação), Orfeu/Arnaldo Trindade, 1973; CD "Tonicha", Col. O Melhor dos Melhores, vol. 21, Movieplay, 1994]




É nas tuas mãos de vidro
é no teu olhar aberto
que aparece o espelho certo
conseguido.

Amar de longe é tão perto
Amar de perto é tão vivo
que não pode haver decerto
castigo.

Sim eu vejo em ti a minha força
tu vês em mim a tua rosa
formosa.
Sou a flor do espanto e da ternura
não serei casta nem pura
sou rosa.

Mas rosa que vive e dança
amada mas não segura
rosa que nunca se cansa
dos ventos da desventura
rosa, rosae
da ternura.

É nas tuas mãos vazias
que eu deponho a vida inteira
com espinhos todos os dias
roseira.

Roseira mas não lareira
do fogo brando do lar
apenas rosa fronteira
do mar.

Sim eu vejo em ti o meu perfume
a lava densa do ciúme
demente.
Sim eu sou a rosa sem queixume
flor vermelha do meu lume
ardente.

Demente mas sem loucura
formosa mas sem vaidade
apenas rosa brancura
apenas rosa vontade
rosa, rosae
liberdade!

[vocalizos / instrumental]


* Tonicha – voz
Orquestra dirigida por José Calvário
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tonicha
https://tonicha-clube-de-fas.blogspot.com/
https://www.youtube.com/@tonichaclubedefas2179/videos
https://music.youtube.com/channel/UC6e6qDCt5CCGFgwf2fxKwnA



Capa do EP "A Rapariga e o Poeta", de Tonicha (Orfeu/Arnaldo Trindade, 1973)
Fotografia – Álvaro João



Capa da compilação em LP "Tonicha" (Orfeu/Arnaldo Trindade, 1973)
Fotografia – Álvaro João



Capa da compilação em CD "Tonicha" (Col. O Melhor dos Melhores, vol. 21, Movieplay, 1994)
Fotografia – Augusto Cabrita.

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Outros artigos de homenagem à mulher:
Celebrando Vinicius de Moraes
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)
"O Fio de Ariadne": em demanda de algumas das mais talentosas artistas do Ocidente
João Lóio: "Cicatriz de Ser Mulher"
Em memória de Tereza Tarouca (1942-2019)
Carlos Mendes: "Calçada de Carriche" (António Gedeão)
Teresa Silva Carvalho: "Mulher da Erva"
João Lóio com Regina Castro: "Uma Criada para Todo o Serviço"
Maria Teresa Horta: "Mulher-Poetisa"
Elisa Lisboa: "Mulher-Mágoa" (Ary dos Santos)
Margarida Bessa: "Fala da Mulher Sozinha"
Virtuosas: as Mulheres na História da Música
Herberto Helder: "Fonte" (II), por Luísa Cruz
Eugénio de Andrade: "As Mães"

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Outro artigo com repertório interpretado por Tonicha:
A infância e a música portuguesa

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Outros artigos com poesia da autoria ou na voz de Ary dos Santos:
Amália: dez anos de saudade
Camões recitado e cantado (II)
Celebrando Carlos Paredes
Elisa Lisboa: "Mulher-Mágoa" (Ary dos Santos)
Poesia trovadoresca adaptada por Natália Correia
Carlos do Carmo: "Fado Varina" (Ary dos Santos)
Ary dos Santos: "As Portas Que Abril Abriu"
Simone de Oliveira: "O País (do Eça de Queiroz)" (Ary dos Santos)

06 janeiro 2026

Coro Sinfónico Lisboa Cantat: "Ai, Acabadas São as Festas" (harm.: Fernando Lopes-Graça)


(in https://www.museodelprado.es/)
David Teniers, o Jovem, "A Décima Segunda Noite" (ou "O Rei Bebe"), 1650-1660, óleo sobre folha de cobre, 58 cm x 70 cm, Museu do Prado, Madrid


É com o Dia de Reis, ou a Festa da Epifania, que se encerra, no calendário litúrgico católico, o Ciclo dos Doze Dias durante o qual os cristãos (e não só) festejam, com esfuziante alegria e repastos a condizer, o nascimento do Menino Jesus. Um dos cantares de Reis que exprime de maneira assaz explícita esse termo da quadra natalícia é o que tem como verso incipit (tomado como título) "Ai, Acabadas São as Festas", recolhido pelo etnógrafo inglês Rodney Gallop em Canas de Senhorim, no coração da Beira Alta, nos primeiros anos da década de 1930, e incluído, com notação musical, no volume "Cantares do Povo Português", publicado pelo Instituto para a Alta Cultura, em 1937. E Fernando Lopes-Graça, cerca de um decénio mais tarde, entendeu por bem harmonizá-lo e integrá-lo, a fechar, na sua "Primeira Cantata do Natal: Sobre Cantos Tradicionais Portugueses de Natividade". Aqui fica, então, "Ai, Acabadas São as Festas", na primorosa interpretação do Coro Sinfónico Lisboa Cantat, superiormente dirigido por Jorge Carvalho Alves. Boa escuta!

Os ouvintes da Antena 2 que, acaso, aqui vierem deliciar-se com esta pequena (só em duração) pérola do nosso cancioneiro natalício bem podem queixar-se por na sua rádio ("sua" porque suportada com o seu dinheiro) ser extremamente difícil apanhá-la...



Ai, Acabadas São as Festas



Letra e música: Tradicional (Canas de Senhorim, Nelas, Beira Alta)
Recolha: Rodney Gallop (1931-1933, in "Cantares do Povo Português", Lisboa: Instituto para a Alta Cultura, 1937, 1960)
Harmonização: Fernando Lopes-Graça (Canção n.º 19 da "Primeira Cantata do Natal: Sobre Cantos Tradicionais Portugueses de Natividade", Op. 61, LG 15, 1945-50)
Intérprete: Coro Sinfónico Lisboa Cantat*, dir.: Jorge Carvalho Alves (in 2CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II": CD 1, Numérica, 2012)


Ai, acabadas são as Festas!
Ai, chegados são os três Reis!
Ai, olhem lá por suas casas
Se há alguma coisa que deis.

Ai, senhora que estais ao lume,
Ai, assentada na cortiça,
Ai, levantai-vos, ó senhora,
Vinde-nos dar a choiriça.

Ai, cá esp'ramos confiados
Ai, que a esmola nos dareis:
Ai, quer a deis, quer a não deis,
Sempre vós ao Céu ireis.

Ai, acabadas são as Festas!


* Coro Sinfónico Lisboa Cantat
Direcção – Jorge Carvalho Alves

Produção musical – Manon Marques
Produção – Associação Musical Lisboa Cantat
Gravado por Luís Delgado no Auditório da Faculdade de Medicina Veterinária, Lisboa, a 12 de Setembro de 2008, e no Pequeno Auditorio do Centro Cultural de Belém, Lisboa, em 2011
Edição e mistura – Luís Delgado, no estúdio Sonic State
URL: https://www.lisboacantat.com/
https://www.facebook.com/people/CORO-SINF%C3%93NICO-LISBOA-CANTAT/100063495156162/
https://www.facebook.com/corodecamaralisboacantat/
https://www.youtube.com/@corodecamaralisboacantat7555/videos



Capa do livro "Cantares do Povo Português", estudo crítico, recolha e comentário de Rodney Gallop; tradução de António Emílio de Campos (Lisboa: Instituto para a Alta Cultura, 1937)



Capa do duplo CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II", de Lisboa Cantat (Coro Sinfónico | Coro de Câmara), dir. Jorge Carvalho Alves; Coro convidado: Coro Infantil da Universidade de Lisboa, dir. Erica Mandillo (Numérica, 2012)
Concepção – Ana Ribeiro de Carvalho
Design gráfico, selecção e tratamento da fotografia de Fernando Lopes-Graça – Mrmito e Numérica

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Outros artigos com repertório de Janeiras e/ou de Reis:
Música portuguesa de Natal
Celebrando a Ronda dos Quatro Caminhos
Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata: "Entrada de Aninovo"
Miguel Pimentel com Maria José Victória: "Bons Anos"
Rafael Carvalho: "Bons Anos e Anos Bons"
Terra a Terra: "Estas Casas São Mui Altas"
Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense: "Cantar à Porta"
Grupo Coral e Etnográfico "As Camponesas de Castro Verde": "Os Bons Anos"
Grupo de Cantares Alentejanos da Brigada Territorial N.º 3 da G.N.R.: "Quais São os Três Cavalheiros?"
Coro Sinfónico Lisboa Cantat: "Moradoras desta Casa" (harm.: Fernando Lopes-Graça)

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Outros artigos com canções musicadas ou harmonizadas por Fernando Lopes-Graça:
Música portuguesa de Natal
A infância e a música portuguesa
A vitória do azeite
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Celebrando Eugénio de Andrade
Camões recitado e cantado (VII)
Canções portuguesas de Natal harmonizadas/musicadas por Fernando Lopes-Graça
Camões recitado e cantado (VIII)
Eugénio de Andrade e Fernando Lopes-Graça: "Aquela Nuvem e Outras"
Camões recitado e cantado (IX)
Camões recitado e cantado (X)
Camões musicado por Fernando Lopes-Graça (obras corais 'a cappella')
Miguel Torga e Fernando Lopes-Graça: "História Trágico-Marítima"
Canções de Natal portuguesas pelo Coro de Câmara de Lisboa
Coro Sinfónico Lisboa Cantat: "Moradoras desta Casa" (harm.: Fernando Lopes-Graça)

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Outros artigos com canções interpretadas pelo Coro Lisboa Cantat (Sinfónico ou de Câmara):
A vitória do azeite
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Canções portuguesas de Natal harmonizadas/musicadas por Fernando Lopes-Graça
Coro Sinfónico Lisboa Cantat: "Moradoras desta Casa" (harm.: Fernando Lopes-Graça)

01 janeiro 2026

Coro Sinfónico Lisboa Cantat: "Moradoras desta Casa" (harm.: Fernando Lopes-Graça)




Em 1906, a 17 de Dezembro, nascia numa casa da cidade de Tomar um menino chamado Fernando Lopes-Graça que, depois de tomado o ensino de bem tocar piano e de compor, viria a afirmar-se um dos maiores compositores do século XX português, e ainda um prolífico harmonizador de cantigas populares e um distinto etnomusicólogo. Queremos acreditar que múltiplas entidades públicas e privadas não irão ficar à espera da data exacta da efeméride do 120.º aniversário do nascimento para celebrarem tão eminente figura da nossa música e cultura, e que um bom número de iniciativas em devida conformidade será levado a cabo ao longo do ano. O blogue "A Nossa Rádio", mesmo não tendo as obrigações e as responsabilidades inerentes a quem recebe financiamento público para honrar os maiores criadores portugueses e as respectivas obras, faz questão de começar (bem) o ano sob a égide de Fernando Lopes-Graça dando destaque a uma canção de janeiras, como se impõe na presente data, harmonizada pelo ilustre compositor: a que tem por título "Moradoras desta Casa" e ocupa a 15.ª posição na sequência da sua "Primeira Cantata do Natal: Sobre Cantos Tradicionais Portugueses de Natividade". A gravação escolhida é a do Coro Sinfónico Lisboa Cantat, sob a regência do maestro Jorge Carvalho Alves, que integra o duplo CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II", editado em 2012 pela Numérica. Esperamos que seja do agrado dos prezados visitantes...

Os ouvintes da Antena 2 menos dados a recorrer à fonoteca pessoal ou ao ciberespaço é que não devem ter a sorte de escutar na rádio que pagam, num destes dias inaugurais do novo ano, esta e outras canções de janeiras harmonizadas por Fernando Lopes-Graça, por não existir na grelha um espaço reservado à música coral a cappella, nem a oferta musical genérica de continuidade contemplar o repertório português do género...



Moradoras desta Casa



Letra e música: Tradicional (Cardigos, Mação, Beira Baixa)
Recolha: Francisco Serrano [in "Romances e Canções Populares da Minha Terra", Braga: Tipografia a electricidade de A. Costa & Matos, 1921, 2.ª edição, Câmara Municipal de Mação, 1998, 3.ª edição (fac-similada), Câmara Municipal de Mação, 1998]
Harmonização: Fernando Lopes-Graça (Canção n.º 15 da "Primeira Cantata do Natal: Sobre Cantos Tradicionais Portugueses de Natividade", Op. 61, LG 15, 1945-50)
Intérprete: Coro Sinfónico Lisboa Cantat*, dir.: Jorge Carvalho Alves (in 2CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II": CD 1, Numérica, 2012)


Moradoras desta casa,
Aquelas que são casadas, [bis]
Ouvi os nossos descantes,
Vinde-nos dar janeiradas. [bis]

Moradoras desta casa,
Aquelas que são solteiras, [bis]
Ouvi os nossos descantes,
Vinde-nos dar as janeiras. [bis]


* Coro Sinfónico Lisboa Cantat
Direcção – Jorge Carvalho Alves

Produção musical – Manon Marques
Produção – Associação Musical Lisboa Cantat
Gravado por Luís Delgado no Auditório da Faculdade de Medicina Veterinária, Lisboa, a 12 de Setembro de 2008, e no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, em 2011
Edição e mistura – Luís Delgado, no estúdio Sonic State
URL: https://www.lisboacantat.com/
https://www.facebook.com/people/CORO-SINF%C3%93NICO-LISBOA-CANTAT/100063495156162/
https://www.facebook.com/corodecamaralisboacantat/
https://www.youtube.com/@corodecamaralisboacantat7555/videos



Capa da 1.ª edição do livro "Romances e Canções Populares da Minha Terra", de Francisco Serrano (Braga: Tipografia a electricidade de A. Costa & Matos, 1921) [edição fac-similada: Câmara Municipal de Mação, 1998]



Capa da 2.ª edição do livro "Romances e Canções Populares da Minha Terra", de Francisco Serrano (Câmara Municipal de Mação, 1998)



Capa do duplo CD "Fernando Lopes-Graça: Obra Coral a cappella - Volume II", de Lisboa Cantat (Coro Sinfónico | Coro de Câmara), dir. Jorge Carvalho Alves; Coro convidado: Coro Infantil da Universidade de Lisboa, dir. Erica Mandillo (Numérica, 2012)
Concepção – Ana Ribeiro de Carvalho
Design gráfico, selecção e tratamento da fotografia de Fernando Lopes-Graça – Mrmito e Numérica

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Outros artigos com repertório de Janeiras e/ou de Reis:
Música portuguesa de Natal
Celebrando a Ronda dos Quatro Caminhos
Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata: "Entrada de Aninovo"
Miguel Pimentel com Maria José Victória: "Bons Anos"
Rafael Carvalho: "Bons Anos e Anos Bons"
Terra a Terra: "Estas Casas São Mui Altas"
Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense: "Cantar à Porta"
Grupo Coral e Etnográfico "As Camponesas de Castro Verde": "Os Bons Anos"
Grupo de Cantares Alentejanos da Brigada Territorial N.º 3 da G.N.R.: "Quais São os Três Cavalheiros?"

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Outros artigos com canções musicadas ou harmonizadas por Fernando Lopes-Graça:
Música portuguesa de Natal
A infância e a música portuguesa
A vitória do azeite
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Celebrando Eugénio de Andrade
Camões recitado e cantado (VII)
Canções portuguesas de Natal harmonizadas/musicadas por Fernando Lopes-Graça
Camões recitado e cantado (VIII)
Eugénio de Andrade e Fernando Lopes-Graça: "Aquela Nuvem e Outras"
Camões recitado e cantado (IX)
Camões recitado e cantado (X)
Camões musicado por Fernando Lopes-Graça (obras corais 'a cappella')
Miguel Torga e Fernando Lopes-Graça: "História Trágico-Marítima"
Canções de Natal portuguesas pelo Coro de Câmara de Lisboa

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Outros artigos com canções interpretadas pelo Coro Lisboa Cantat (Sinfónico ou de Câmara):
A vitória do azeite
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Canções portuguesas de Natal harmonizadas/musicadas por Fernando Lopes-Graça

24 dezembro 2025

Canções de Natal portuguesas pelo Coro de Câmara de Lisboa


(in https://commons.wikimedia.org/)
Simão Rodrigues, "Adoração dos Pastores", c.1595, óleo sobre madeira, Museu de Arte Sacra de Elvas


Fundado em 1978 pela Professora Teresita Gutierrez Marques, então como Coro de Câmara do Conservatório Nacional de Lisboa, o Coro de Câmara de Lisboa, pela actividade que foi desenvolvendo, quer em concertos quer em gravações, afirmou-se um dos agrupamentos mais importantes de Portugal na interpretação de obras corais a cappella. E o repertório natalício – em português e noutras línguas (latim, castelhano, italiano, francês, inglês, alemão...) – tem recebido especial atenção, disso sendo testemunho as gravações publicadas em CD, dois dos quais integralmente preenchidos com canções do ciclo do Natal. Uma vez que no blogue "A Nossa Rádio" privilegiamos o nosso património poético e musical, é com canções de Natal portuguesas interpretadas pelo Coro de Câmara de Lisboa que celebramos a quadra natalícia de 2025. A língua em que se canta é, obviamente, a portuguesa, excepto no celebérrimo "Adeste Fidelis", que está em latim e não se sabe ao certo por quem foi composto (não terá sido pelo rei D. João IV, segundo advoga o musicólogo Rui Vieira Nery [cf. "Adeste Fideles: quem é o autor?"]), não se podendo, todavia, excluir a hipótese de o autor ser lusitano, provavelmente de finais do século XVII ou de inícios do XVIII. O manuscrito mais antigo conhecido é do inglês John Francis Wade (1711-1786) mas isso não nos garante que a composição seja originalmente sua. O facto de ser cantado na capela da embaixada portuguesa em Londres, muito antes do levantamento da proibição do culto católico em Inglaterra (1829), o que lhe valeu ser apelidado de "Portuguese Hymn" ("Hino Português"), pode ser um indício da origem lusitana. Foi à luz dessa possibilidade que achámos por bem incluir também o "Adeste Fidelis", admiravelmente interpretado pelo Coro de Câmara de Lisboa, na sequência ora apresentada. Boa escuta e Festas Felizes!

Se a Antena 2 tivesse (que já teve) espaços musicais editorialmente bem definidos, tais como "Intérpretes Portugueses" e "Música Coral", e os profissionais encarregados de os manter tivessem o calendário em consideração, é certo que os ouvintes saberiam de antemão que neles poderiam escutar por esta altura, com grande probabilidade, algumas canções natalícias (portuguesas ou não) gravadas pelo Coro de Câmara de Lisboa e, bem assim, por outros que estão (ou estiveram) activos em Portugal. Coisa bem diferente, portanto, dos espaços alargados de música a esmo e variada hoje prevalecentes, nos quais só com uma sorte danada se consegue apanhar música coral a cappella. Fica apontada a deficiência, mais uma vez, para que os novos locatários da direcção de programas não possam alegar que não há ouvintes descontentes com o figurino de 'jukebox' sortida em vigor e que ele satisfaz perfeita e cabalmente os objectivos de serviço público legalmente estipulados.
E a Antena 1, que música de Natal tem transmitido este ano? Nas incursões que fizemos nos últimos dias à respectiva emissão, mesmo não sendo prolongadas (pois importa, acima de tudo, não pôr em risco a sanidade mental), deu para apanhar uma caterva de canções e cançonetas anglo-saxónicas, quase todas possíveis de ouvir na Rádio Comercial, na M80, na RFM, na RR, na TSF e na Rádio Observador. De canções portuguesas, apenas uma lográmos apanhar: "Podia Ser Natal", pelos UHF, em versão ao vivo. É miserabilismo a mais, tendo em conta a riqueza, em quantidade e qualidade, do acervo de gravações disponível, parte do qual pode ser apreciado nos artigos referenciados ao fundo, mormente em "Música portuguesa de Natal". Optando por marginalizar o nosso património musical (no caso, o de temática natalícia), quem ocupa a direcção de programas do canal generalista tem, porventura, real consciência de que está a dar argumentos àqueles que defendem a extinção ou privatização da empresa pública de rádio e televisão precisamente por não marcar a diferença em relação às privadas?



Pela Noite de Natal



Letra e música: Tradicional (Beira Baixa e Alentejo)
Harmonização: Fernando Lopes-Graça (7.ª canção da "Segunda Cantata do Natal sobre Cantos Tradicionais Portugueses da Natividade", Op. 61, LG 15, 1945-50)
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Canções de Natal / Christmas Songs", Numérica, 1997; CD "Canções Populares Portuguesas", Numérica, 1998)




Pela noite de Natal,
Noite de tanta alegria,
Caminhando vai José,   | bis
Caminhando vai Maria, |

Ambos os dois p'ra Belém,
Mais de noite que de dia;
E chegaram a Belém,     | bis
Já toda a gente dormia. |

Abri a porta, porteiro,
Porteiro da portaria!
Não deu resposta o porteiro, | bis
Porque também já dormia.    |

Só encontraram pousada
Dentro duma 'strebaria!
Ali ficaram os dois      | bis
Até ao romper do dia. |



Adeste Fideles



Letra e música: Autor anónimo (sécs. XVII-XVIII) [Tradução da letra >> abaixo]
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Natal A Cappella", Numérica, 1998)




Adeste Fideles,
Laeti triumphantes:
Venite, venite
In Bethlehem!
Natum videte
Regem angelorum!

Venite, adoremos...
Venite, adoremos...
Venite, adoremus Dominum!

En grege relicta
Humiles ad cunas;
Vocati pastores
Ad properant.
Et nos ovanti
Gradu festinemus.

Venite, adoremos...
Venite, adoremos...
Venite, adoremus Dominum!


* Coro de Câmara de Lisboa:
Sopranos – Jael Martins, Lucina Silva, Mafalda Nascimento, Matilde de Castro, Susana de Oliveira, Teresa Cordeiro
Contraltos – Ana Ferro, Isabel Torres, Marta Gregório, Sílvia Fontão
Tenores – Aníbal Coutinho, Carlos Quintelas, José Pereira, Pedro Marques, Sérgio Fontão, Vítor Gonçalves
Baixos – António Marques, João Camacho, Jorge Leal, Marcelo Tusto, Pedro Pires
Direcção – Teresita Gutierrez Marques

Produção – Teresita Gutierrez Marques, António Marques, Jorge Leal, Sérgio Fontão
Gravado na Igreja Anglicana de S. Jorge, Lisboa, em 1997
Gravação e editing – Fernando Rocha (Numérica)



Vinde, Fiéis

[tradução apresentada no caderno do CD "Natal A Cappella", do Coro de Câmara de Lisboa, Numérica, 1998]


Vinde, Fiéis,
Alegrai-vos triunfantes:
Vinde, vinde
A Belém!
Vinde adorar
O Menino Rei dos Anjos.

Vinde, adoremos...
Vinde, adoremos...
Vinde, adoremos o Senhor!

O berço a avistar,
Pastores humildes
Deixando os rebanhos
Vêm a aproximar-se
E nós, vitoriosos,
A apressar o passo.

Vinde, adoremos...
Vinde, adoremos...
Vinde, adoremos o Senhor!



Três Natais Góticos



Letra e música: Tradicional ("Deus vos salva, Sol brilhante", Cércio, Duas Igrejas, Miranda do Douro, Trás-os-Montes e Alto Douro / "Belo Infante dos meus olhos", Boa Ventura, São Vicente, Madeira / "Vinde, vinde já, ó Deus", Casegas, Covilhã, Beira Baixa)
Recolhas ("Deus vos salva, Sol brilhante" e "Vinde, vinde já, ó Deus"): Rodney Gallop (in "Cantares do Povo Português", Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1937, 1960)
Harmonização: Eurico Carrapatoso ("Três Natais Góticos", 2001)
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Eurico Carrapatoso: A Cappella", Numérica, 2005)




Deus vos salva, Sol brilhante,
Que ao mundo alumiais:
Em louvor da religião,
Sempre louvado sejais!

[vocalizos]

Deus vos salva, Sol brilhante,
Que ao mundo alumiais:
Em louvor da religião,
Sempre louvado sejais!

Belo Infante dos meus olhos, | bis
Da minha alma, luz divina,    |
Aparecei hoje ao mundo,
Pois Deus assim o destina.

[vocalizos]

Vinde, vinde já, ó Deus,
Ai, Filho da Virgem Maria!
Em Vosso louvor cantemos
Ao seu filho de alegria.

Os anjos o acompanham,
Ai, acompanham; o nosso cura
Lá traz nas suas mãos  | bis
A divina formosura.      |


* Coro de Câmara de Lisboa:
Sopranos – Bárbara Faria, Mariana Nina, Raquel Oliveira, Sofia Pedro, Susana Gaspar, Teresa Cordeiro
Contraltos – Isabel Torres, Liliana Silva, Sílvia Fontão, Vanessa Gonçalves
Tenores – Carlos Reis, José Pereira, Pedro Araújo, Pedro Marques, Pedro Sousa, Vítor Gonçalves
Baixos – António Henriques, Luís Bourgard, Miguel Correia, Nuno Rodrigues, Pedro Pires
Direcção – Teresita Gutierrez Marques

Produção – Teresita Gutierrez Marques, Carlos Reis
Gravado na Igreja Anglicana de S. Jorge, Lisboa, em 2005
Gravação, editing e masterização – Fernando Rocha (Numérica)



Natal (Elvas)



Letra e música: Tradicional (Elvas, Alto Alentejo)
Harmonização: Mário de Sampayo Ribeiro
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Canções de Natal / Christmas Songs", Numérica, 1997; CD "Canções Populares Portuguesas", Numérica, 1998, Coro de Câmara de Lisboa, 2017; CD "Natal A Cappella", Numérica, 1998)




Eu hei-de m'ir ao presépio
E assentar-me num cantinho,
A ver como o Deus-Menino
Nasceu lá tão pobrezinho.

— «Ó meu Menino Jesus,
Que tendes? Porque chorais?»
— «Deu-me minha mãe um beijo,
Choro por que me dê mais.»

O Menino chora, chora,
Chora com toda a razão:
Fizeram-Lhe a cama curta,
Tem os pezinhos no chão.

— «Ó meu Menino Jesus,
Que tendes? Porque chorais?»
— «Deu-me minha mãe um beijo,
Choro por que me dê mais.»



O Menino nas Palhas



Letra e música: Tradicional (Beira Baixa)
Recolha: Jaime Lopes Dias (in "Etnografia da Beira", Vol. VII, 1948)
Harmonização: Fernando Lopes-Graça (4.ª canção da "Segunda Cantata do Natal sobre Cantos Tradicionais Portugueses da Natividade", Op. 135, LG 33, 1960-61)
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Canções de Natal / Christmas Songs", Numérica, 1997; CD "Canções Populares Portuguesas", Numérica, 1998)




Ó Jesus Menino,
Mal agasalhado,
Tremendo com frio,
Em palhas deitado.

Bendito e louvado seja
O Menino de Deus
Na sua igreja.

Filhos de homens ricos
Em alvas toalhas;
Só Vós, meu Menino,
Numas pobres palhas.

Bendito e louvado seja
O Menino de Deus
Na sua igreja.

Não é pelos teres
Que Vós tendes tudo:
É só para dardes
Exemplo ao mundo.

Bendito e louvado seja
O Menino de Deus
Na sua igreja.

Bendito seja!



Ó Bento Airoso



Letra e música: Tradicional (Paradela, Miranda do Douro, Trás-os-Montes e Alto Douro)
Recolha: Michel Giacometti (1960, in "Cancioneiro Popular Português", Lisboa: Círculo de Leitores, 1981 – p. 43)
Harmonização: Eurico Carrapatoso (1.ª canção de "Natal Profano", 29 Mai. 1997)
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Canções de Natal / Christmas Songs", Numérica, 1997; CD "Canções Populares Portuguesas", Numérica, 1998, Coro de Câmara de Lisboa, 2017; CD "Natal A Cappella", Numérica, 1998)




Oh bento airoso, mistério divino!
Encontrei a Maria à beira do rio
Lavando os cueiros do bendito Filho.

Maria lavava, S. José estendia;
O Menino chorava com o frio que fazia. [bis]

Calai, meu Menino! Calai, meu amor!
É que as vossas verdades me matam com dor. [bis]

Oh bento airoso, mistério divino!
Encontrei a Maria à beira do rio
Lavando os cueiros do bendito Filho.



José Embala o Menino



Letra e música: Tradicional (Beira Baixa)
Harmonização: Eurico Carrapatoso (2.ª canção de "Natal Profano", 29 Mai. 1997)
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Canções de Natal / Christmas Songs", Numérica, 1997; CD "Canções Populares Portuguesas", Numérica, 1998, Coro de Câmara de Lisboa, 2017; CD "Natal A Cappella", Numérica, 1998)




José embala o Menino, [bis]
Que a Senhora logo vem. [bis]

[vocalizos]

O meu Menino tem sono,
Tem sono, quer-se dormir;
Durma-se aqui, meu Menino,
Até a Senhora vir.

[vocalizos]

Vai-te embora, passarinho!
Deixa a baga do loureiro!
Deixa dormir o Menino
Que está no sono primeiro!

[vocalizos]



Ó Meu Menino



Letra e música: Tradicional (Pias, Serpa, Baixo Alentejo)
Harmonização: Eurico Carrapatoso (3.ª e última canção de "Natal Profano", 29 Mai. 1997)
Intérprete: Coro de Câmara de Lisboa*, dir. Teresita Gutierrez Marques (in CD "Canções de Natal / Christmas Songs", Numérica, 1997; CD "Canções Populares Portuguesas", Numérica, 1998, Coro de Câmara de Lisboa, 2017; CD "Natal A Cappella", Numérica, 1998)




Ó meu Menino,
Meu doce Jesus,
Ó meu Redentor,
Salvai-me, Senhor!

Ponde em nós os Vossos olhos,
Misericórdia, Amor!
[bis]

Oh meu Menino
Sorrindo na dor!
Quem tudo sustém
Do mundo, Senhor!

Ponde em nós os Vossos olhos,
Misericórdia, Amor!
[bis]

Oh meu Menino,
Que pobre que estais,
Na gruta despido,
Por entre animais!

Ponde em nós os Vossos olhos,
Misericórdia, Amor!
[bis]

Ó meu Menino,
Meu doce Jesus!

[vocalizos]


* Coro de Câmara de Lisboa:
Sopranos – Jael Martins, Lucina Silva, Mafalda Nascimento, Matilde de Castro, Susana de Oliveira, Teresa Cordeiro
Contraltos – Ana Ferro, Isabel Torres, Marta Gregório, Sílvia Fontão
Tenores – Aníbal Coutinho, Carlos Quintelas, José Pereira, Pedro Marques, Sérgio Fontão, Vítor Gonçalves
Baixos – António Marques, João Camacho, Jorge Leal, Marcelo Tusto, Pedro Pires
Direcção – Teresita Gutierrez Marques

Produção – Teresita Gutierrez Marques, António Marques, Jorge Leal, Sérgio Fontão
Gravado na Igreja Anglicana de S. Jorge, Lisboa, em 1997
Gravação e editing – Fernando Rocha (Numérica)
URL: https://corodecamaradelisboa.com/
https://www.meloteca.com/portfolio-item/coro-de-camara-de-lisboa/
https://www.facebook.com/corodecamaradelisboa/
https://www.youtube.com/@corodecamaradelisboa
https://www.youtube.com/@DoTempoDosSonhos/videos?query=coro+camara+lisboa



Capa do CD "Canções Populares Portuguesas", do Coro de Câmara de Lisboa (Numérica, 1998)



Capa da reedição do álbum anterior comemorativa do 40.º aniversário do Coro de Câmara de Lisboa (2018)



Capa do CD "Natal A Cappella", do Coro de Câmara de Lisboa (Numérica, 1998)
Reprodução da pintura, de Josefa d'Óbidos, "Virgem com o Menino", c.1640-60, óleo sobre cobre, 15,7 x 12,2 cm, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



Capa do CD "Eurico Carrapatoso: A Cappella", do Coro de Câmara de Lisboa (Numérica, 2005)
Fotografia e design – Vítor Ferreira



Teresita Gutierrez Marques, maestrina (filipina)
Fotografia – Carlos Santos

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Outros artigos com repertório natalício:
Miguel Torga: "Natal"
Música portuguesa de Natal
Celina da Piedade: "Este Natal"
Em memória de Fernando Machado Soares (1930-2014)
António Gedeão: "Dia de Natal", por Afonso Dias
Vozes do Imaginário: "Não Há Noite Mais Alegre"
Miguel Torga: "Natividade"
Um Natal à viola da terra, por Rafael Carvalho
Cantos de Natal da Galiza e de Portugal
Canções portuguesas de Natal harmonizadas/musicadas por Fernando Lopes-Graça
Um Natal madeirense com o grupo Xarabanda
"Ó Meu Menino Jesus" (tradicional do Alto Alentejo)
Cantes ao Menino

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Outros artigos com repertório interpretado pelo Coro de Câmara de Lisboa:
Em memória de Manoel de Oliveira (1908-2015)
Luís de Camões: "Endechas a Bárbara Escrava"
Camões musicado por Fernando Lopes-Graça (obras corais 'a cappella')
Celebrando Jorge Croner de Vasconcellos