21 junho 2022

José Peixoto: "Estio"


© Elias Moreira, Set. 2012
Estátua alegórica do Estio. Faz parte do conjunto de quatro estátuas representativas das estações do ano, concebidas pelo escultor Henrique Moreira (Avintes, 1890 - Porto, 1979), provavelmente em finais dos anos 1930, por encomenda do cirurgião Dr. João de Almeida, para a sua Quinta de S. João, na freguesia de Magueija, concelho de Lamego. Depois de doadas pelo clínico à cidade, as estátuas foram colocadas, em meados de 1976, sobre espelhos de água (tanques) na Avenida Dr. Alfredo de Sousa, no enfiamento do escadório do Santuário de N.S. dos Remédios, passando a integrar a arte pública da urbe lamecense.


Sendo verdade que a estação estival (e hoje começa a de 2022) convida os apreciadores de música a experienciarem ritmos mais acelerados e trepidantes, também não é mentira que a certas horas do dia, sobretudo quando o Sol está a pino, muitos melómanos, a resguardo da torreira, não desejam outra coisa, além de um refresco, que não seja ouvir música serena e sem palavras propiciadora da quietação e da introspecção, como é o caso do inebriante instrumental "Estio", de José Peixoto. Música encantatória em que a maravilhosa guitarra de José Peixoto, assente no fabuloso contrabaixo de Mário Franco, como que sobre um tapete-voador, nos faz viajar até paragens magrebinas, ora de buliçosos bazares, ora de amplas paisagens dunares, ora de paradisíacos oásis. Este "Estio" pertence à selecta categoria de obras musicais que depois de por elas nos deixarmos envolver não queremos, de modo algum, largar. Sublime!

Com quatro décadas de percurso artístico, como compositor e exímio executante de guitarra clássica (sendo que nos primeiros tempos também tocava outros instrumentos como o alaúde, o baixo, a harpa sequenciada e o piano-marimba), José Peixoto alcançou, por mérito próprio, o invejável estatuto de músico de superlativa referência em Portugal. Atestam-no: a sua valiosa discografia, quer em nome próprio – individualmente ou em parceria com outros reputados instrumentistas (o percussionista José Salgueiro, o baixista Fernando Júdice, o violinista Carlos Zíngaro, o contrabaixista António Quintino...) ou com meritórias cantoras (Maria João, Filipa Pais, Sofia Vitória...) –, quer integrando projectos colectivos, quase todos criados por sua iniciativa (SHISH, El Fad, Grupo Cal Viva, TAIFA, Madredeus, Sal, Aduf, LST-Lisboa String Trio, Quinteto Lisboa); os numerosos convites que recebeu para participar, na qualidade de instrumentista, de compositor, de arranjador e/ou de produtor, em discos de múltiplos artistas (João Lóio, Janita Salomé, Maria João, Pedro Cadeira Cabral, Pedra d'Hera, Vitorino, Anamar, José Mário Branco, Rui Veloso, Amélia Muge, Mafalda Veiga, Júlio Pereira, Rui Júnior, Maria João Quadros, María Berasarte, Francisco Ribeiro, Marta Pereira da Costa, Teresa Salgueiro...); as também muito relevantes encomendas de música para espectáculos de dança e para peças de teatro (encenadas, na sua maioria, por Maria João Luís); a aclamação da crítica especializada, sendo de destacar a atribuição do Prémio Carlos Paredes a dois álbuns de projectos seus ["Lunar" (2010), de El Fad, e "Matéria" (2014), de LST-Lisboa String Trio]; e o aplauso de um público exigente.
No que respeita à rádio pública, a divulgação da produção de José Peixoto tem-se restringido essencialmente a um ou outro programa de entrevista, na Antena 1 ou na Antena 2, aquando do lançamento de trabalhos discográficos. É pouquíssimo! Devia haver uma divulgação mais consistente, em todas as três antenas de cobertura nacional, quer em programas temáticos ou de autor, quer nos alinhamentos de continuidade. Na Antena 2, havia o espaço "Ponto PT" [>> RTP-Play], no qual boa parte da discografia de José Peixoto tinha perfeito cabimento, mas foi incompreensivelmente suprimido da grelha, em finais de 2019, com a mácula desonrosa de nem um só disco do artista lá ter sido divulgado. No caso das Antenas 1 e 3, atendendo ao enorme peso que as respectivas 'playlists' têm no cômputo geral da difusão musical, sobretudo de segunda a sexta-feira, não é aceitável que lá não figurem algumas canções com a assinatura de José Peixoto, designadamente dos álbuns "Estrela" (com Filipa Pais), "Pele" (com Maria João) e "Belo Manto" (com Sofia Vitória). Sem prejuízo, obviamente, da presença de peças instrumentais, ainda que de duração mais curta do que a do espécime que ora destacamos.



Estio



Música: José Peixoto
Intérprete: José Peixoto* (in CD "Aceno", Zona Música, 2003)




(instrumental)


* José Peixoto – guitarra de oito cordas
Mário Franco – contrabaixo

Produção – José Peixoto e José Fortes
Assistente de produção – Mário Barreiros
Gravado no estúdio MB (Mário Barreiros), Porto, nos dias 14 e 15 de Dezembro de 2002
Captação e masterização – José Fortes
Edição – Mário Barreiros, Paulo Jorge Ferreira e Paulo Mendes
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Peixoto
https://www.meloteca.com/portfolio-item/jose-peixoto/
https://www.facebook.com/josepeixotomusico
https://www.facebook.com/lisboastringtrio/



Capa do CD "Aceno", de José Peixoto (Zona Música, 2003)
Concepção – João Nuno Represas
Fotografia – Alexander Koch

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Outros artigos com canções alusivas ao Verão:
Janita Salomé: "Reino de Verão"
Grupo Banza: "Verão"
Fernando Pardal: "Estio" (Manuel da Fonseca)
Trovante: "Noite de Verão" (Manuel da Fonseca)
Trio Fado: "À Espera do Verão"

11 junho 2022

Vitorino: "Marcha Ingénua"



Os soldados portugueses que, quando se deu o derrube do Estado Novo, a 25 de Abril de 1974, estavam mobilizados nas colónias africanas, então eufemisticamente denominadas províncias ultramarinas, a passar "tormentas com fartura d'incertezas" (à parte o sofrimento psíquico que as guerras sempre provocam nos que nelas intervêm directamente, os danos físicos e a morte podiam ocorrer a qualquer momento), embora tendo deixado de haver razões para continuarem a combater os chamados 'turras', pois uma das linhas programáticas do triunfante Movimento das Forças Armadas (MFA) era precisamente acabar com a guerra colonial, não lograram regressar de imediato às suas terras na Metrópole, como então se designava este rectângulo ocidental da Península Ibérica. Por razões de logística e outras, muitos viram-se na contingência de lá permanecer durante vários meses. E entre eles não eram poucos os que haviam cá deixado namorada ou noiva cujas cartas, como é fácil de entender, eram sempre muito esperadas e desejadas. É a essas notícias do Portugal já liberto da mordaça, em que os cravos se haviam tornado o símbolo da liberdade, que Vitorino Salomé alude na letra da sua belíssima "Margem Ingénua", cujo esfuziante arranjo magnificamente gizado pelo maestro Sílvio Pleno evoca as bandas filarmónicas que animavam (e ainda hoje animam, se bem que em menor grau) as festas populares e as romarias em cidades, vilas e aldeias de Portugal (os foguetes a estalejar na secção final da marcha servem justamente para frisar o ambiente festivo que rodeia a actuação das bandas filarmónicas). Em véspera dos festejos de Santo António, em Lisboa e noutras localidades portugueses, seria difícil escolher um espécime do repertório de Vitorino mais apropriado do que a jovial "Marcha Ingénua" para com ela também celebrarmos o 80.º aniversário do cantautor e darmos nota da nossa penhorada gratidão por tantas e belas canções com que presenteou os apreciadores de boa música popular portuguesa (a recriada do cancioneiro tradicional e a concebida de raiz). Muito obrigado, Vitorino! E os nossos sinceros parabéns, com votos de longa vida!

Apesar de ser um dos mais distintos e reconhecidos autores, compositores e intérpretes do meio musical português, Vitorino não recebe actualmente das rádios portuguesas (privadas e pública) a devida atenção e divulgação. Estando a sua discografia recheada de pérolas, impõe-se que algumas delas sejam incluídas, ao menos, na 'playlist' da Antena 1, atendendo às suas particulares obrigações no capítulo da música portuguesa. Será um acto da mais elementar justiça ao meritório artista e uma boa maneira de elevar a qualidade da oferta musical do canal, a contento dos ouvintes/contribuintes já saturados de tanto lixo sonoro (exógeno e endógeno).



Marcha Ingénua



Letra e música: Vitorino Salomé
Intérprete: Vitorino* (in LP "Flor de la Mar", EMI-VC, 1983, reed. EMI-VC, 1992, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008; CD "As Mais Bonitas", EMI-VC, 1993, EMI Music Portugal, 2012; 3CD "Tudo": CD 2 – "Lisboa", EMI Music Portugal, 2005)




[instrumental]

Embarcados p'rás tormentas
Com fartura d'incertezas:
Adeus, cais da felicidade!
Lá vão barcas portuguesas...

Oh! Enganadoras luas,
Trópico de Capricórnio,
Madrastas de bode preto,
Enteadas do demónio!

Oh! Império de má memória,
Dos cães de fila da moda!

Voa, vai, negra andorinha!
Pede à minha namorada
Dê notícias de Lisboa,
Das praças livres, dos cravos,
Das saudades que lhe tenho
De vê-la subir a rua...
A cantar a tal cantiga:
Primavera não esquecida!

Voa, vai, negra andorinha!
Pede à minha namorada
Dê notícias de Lisboa,
Das praças livres, dos cravos,
Das saudades que lhe tenho
De vê-la subir a rua...
A cantar a tal cantiga:
Primavera não esquecida!

[instrumental]

Das saudades que lhe tenho
De vê-la subir a rua...
A cantar a tal cantiga:
Primavera não esquecida!

[foguetes a estalejar / instrumental]


* Arranjo para banda e direcção – Sílvio Pleno
Trompas – António P. da Costa, Francisco C. Frazão
Trompetes – António R. Gomes, António F. Casquinha
Trombone – João N. Costa
Tuba – Domingos Gaspar
Bombardino – Manuel de Faria
Flauta e flautim – António Laureano Martins
Saxofone soprano – José Salomé Vieira
Bateria – José A. Pires
Caixas – José R. Vitorino, António S. de Oliveira
Clarinete – Sílvio Pleno
Acordeões – Baíco, João Lucas
Viola Ovation – Carlos Salomé, Vitorino
Baixo acústico – Pedro Wallenstein
Tuna – Baíco, João Lucas, Pedro Melo, Manuel Vieira e Carlos Salomé
Vozes – Vitorino, Baíco, Carlos Salomé, João Lucas, Manuel Vieira e Mimi

Direcção musical e arranjos – Vitorino, Pedro Caldeira Cabral e Janita Salomé
Produção – Vitorino, Manuel Salomé e Francisco Vasconcelos
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Engenheiros de som – António Pinheiro da Silva e Pedro Vasconcelos
URL: https://www.vitorinosalome.pt/
https://www.meloteca.com/portfolio-item/vitorino/
https://www.facebook.com/VitorinoSalome.officialpage
https://www.youtube.com/channel/UCuRPFnby4OlKEz5kzN655bA
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=vitorino



Capa do LP "Flor de la Mar", de Vitorino (EMI-VC, 1983)
Concepção – Renato Cruz

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Outros artigos com repertório interpretado por Vitorino ou da sua autoria:
Celebrando Luís Pignatelli
Em memória de Fernando Alvim (1934-2015)
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)
Vitorino: "O Capitão dos Tanques"

10 junho 2022

Camões recitado e cantado (VIII)


© Felipe Restrepo Acosta, 16 Out. 2018 (Wikimedia Commons)
Estátua de Luís de Camões, em pedra lioz, esculpida por Simões de Almeida, integrante da fachada do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro [mais imagens ao fundo]


Neste ano do bicentenário da independência do Brasil (o histórico Grito do Ipiranga aconteceu a 7 de Setembro de 1822), entendemos que faria bastante sentido apresentar neste 10 de Junho poesia de Camões dita por um brasileiro, no caso pelo embaixador (e também actor) Lauro Moreira. Esses espécimes camonianos são os três sonetos presentes na edição, em duplo CD, "Mãos Dadas: Lauro Moreira interpreta Poemas da Língua Portuguesa" (EMC Digital, 1998). De poesia musicada/cantada escolhemos os "Três Sonetos de Camões", Op. 27, de Fernando Lopes-Graça, interpretados pelo tenor Fernando Serafim acompanhado ao piano por Filipe de Sousa e publicados no CD "Fernando Lopes-Graça: Sonetos de Camões" (PortugalSom/Strauss, 1995). Dá-se o caso – feliz coincidência – de dois sonetos ("Sete anos de pastor Jacob servia" e "Alma minha gentil, que te partiste") que Lauro Moreira escolheu terem sido também musicados por Fernando Lopes-Graça, o que nos permite fazer a audição sequencial: a forma recitada seguida da musicada/cantada. Uma celebração camoniana luso-brasileira que nos deu imenso prazer preparar e nos deixará redobradamente gratificados se for do agrado dos leitores/visitantes do blogue "A Nossa Rádio"!

E como tem a rádio pública celebrado Luís de Camões neste dia que lhe é devotado? Apesar do incómodo, desde as 07h:00 até às 20h:00, andámos a fazer 'zapping' entre os três canais nacionais, Antenas 1, 2 e 3. Ouvimos duas pequenas resenhas biográficas: uma no programa da manhã da Antena 3, por Hugo van der Ding, na sua rubrica "Vamos Todos Morrer" [>> RTP-Play] e outra na Antena 2, baseada no livro de José Hermano Saraiva "Vida Ignorada de Camões" (1978), lida por Ana Isabel Gonçalves e Paula Pina, no apontamento "Palavras de Bolso" [>> RTP-Play]. Também escutámos no espaço "Boulevard", da Antena 2, pela mão do seu animador André Pinto, a Sinfonia «À Pátria», de José Vianna da Motta, cujos andamentos são precedidos por epígrafes retiradas d' "Os Lusíadas", interpretada pela Orquestra Filarmónica Real de Liverpool, sob a direcção de Álvaro Cassuto. De poesia camoniana, lográmos ouvir apenas a introdução do soneto apócrifo "Com que voz chorarei meu triste fado", cantado por Amália Rodrigues sobre música de Alain Oulman, que serviu de fundo musical na rubrica de Hugo van der Ding e, citados pelo Prof. Jorge Miranda, no seu discurso das cerimónias oficiais do Dia de Portugal transmitidas pela Antena 1, o verso «Da Lusitana antiga liberdade» (segundo da 6.ª estrofe d' "Os Lusíadas") e os versos 'incipit' de alguns dos sonetos mais conhecidos, entre os quais os dois acima referenciados. Nada mais! Quer dizer: quem chefia os três canais nacionais da rádio pública portuguesa, além de nada fazer no sentido de proporcionar aos seus ouvintes a revisitação ou a audição em primeira mão de registos camonianos de poesia e de teatro existentes no arquivo histórico, limitou-se a ignorar o valioso património discográfico – quer recitado quer musical (popular e erudito) – a que podia deitar mão para celebrar o vulto maior da nossa Língua. No caso das Antenas 1 e 3 nem sequer houve a preocupação de reformular as respectivas 'playlists' ou de dar instruções aos locutores de continuidade para que a oferta musical, fora dos programas de autor (pré-gravados), fosse exclusivamente cantada em português. Absolutamente indecente e vergonhoso!



Sete anos de pastor Jacob servia



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 15)
Recitado por Lauro Moreira* (in 2CD "Mãos Dadas: Lauro Moreira interpreta Poemas da Língua Portuguesa": CD 1, EMC Digital, 1998)


Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
que a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la:
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
assi lhe era negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida,

começou a servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida!


Nota:
Jacob – patriarca bíblico, filho de Isaac e de Rebeca, irmão gémeo de Esaú.
Serviu seu tio Labão durante sete anos com a condição de, findo esse período, casar-se com a mais bela das suas filhas, Raquel. No dia das bodas, Labão trocou Raquel pela filha mais velha, Lia. Como, segundo o rito hebraico de então, a noiva era oferecida ao noivo completamente envolvida num véu, Jacob só deu pelo logro no dia seguinte. O tio justificou-se dizendo que não era costume casarem-se as filhas mais novas primeiro e contratou com Jacob mais sete anos, após o que lhe deu Raquel em casamento.
De Lia, de Raquel e das suas duas escravas, Zilfa e Bila, Jacob teve doze filhos que fundaram as doze tribos de Israel.



Sete anos de pastor Jacob servia



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 15)
Música: Fernando Lopes-Graça (1.º soneto de "Três Sonetos de Camões", Op. 27, 1939)
Intérpretes: Fernando Serafim* & Filipe de Sousa (in CD "Fernando Lopes-Graça: Sonetos de Camões", PortugalSom/Strauss, 1995)




Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
que a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la:
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
assi lhe era negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida,

começa de servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida!


* Fernando Serafim – voz (tenor)
Filipe de Sousa – piano



Alma minha gentil, que te partiste



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Recitado por Lauro Moreira* (in 2CD "Mãos Dadas: Lauro Moreira interpreta Poemas da Língua Portuguesa": CD 1, EMC Digital, 1998)


Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na Terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.


Nota: «Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas "Lusíadas", como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: Alma minha gentil, que te partiste...» (excerto do manuscrito da "Década VIII", atribuído a Diogo do Couto, c.1542-1616)



Alma minha gentil, que te partiste



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Música: Fernando Lopes-Graça (2.º soneto de "Três Sonetos de Camões", Op. 27, 1939)
Intérpretes: Fernando Serafim* & Filipe de Sousa (in CD "Fernando Lopes-Graça: Sonetos de Camões", PortugalSom/Strauss, 1995)




Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na Terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.


* Fernando Serafim – voz (tenor)
Filipe de Sousa – piano



Busque Amor novas artes, novo engenho



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 7)
Recitado por Lauro Moreira* (in 2CD "Mãos Dadas: Lauro Moreira interpreta Poemas da Língua Portuguesa": CD 1, EMC Digital, 1998)


Busque Amor novas artes, novo engenho
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
pois mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.


Notas:
Esquivanças – manobras
Perigosas – efémeras
Contrastes – contrariedades
Lenho – barco

* Lauro Moreira – voz
Concepção, selecção de textos e direcção – Lauro Moreira
Produção – Júlio Heilbron
Produção executiva – Gilberta Mendes
Coordenação – Cristina Barros
Gravado e masterizado no EG Studio, em Outubro de 1998
Técnicos de som – Gilberto Suano, Florência Saraiva e Geraldo Brandão
URL: https://www.cepese.pt/portal/pt/publicacoes/autores/lauro-moreira
https://pgl.gal/lauro-moreira-embaixador-do-brasil-na-cplp/



Oh! Como se me alonga de ano em ano



Poema: Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 21)
Música: Fernando Lopes-Graça (3.º soneto de "Três Sonetos de Camões", Op. 27, 1939)
Intérpretes: Fernando Serafim* & Filipe de Sousa (in CD "Fernando Lopes-Graça: Sonetos de Camões", PortugalSom/Strauss, 1995)




Oh! Como se me alonga de ano em ano
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!

Minguando a idade vai, crescendo o dano;
perdeu-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece;
mil vezes caio e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
se os olhos ergo, a ver se inda aparece,
da vista se me perde e da esperança.


* Fernando Serafim – voz (tenor)
Filipe de Sousa – piano
Supervisão artística – Fernando Lopes-Graça
Direcção musical – Jorge Costa Pinto
Produção – Secretaria de Estado da Cultura (Direcção-Geral de Acção Cultural)
Gravado nos Estúdios Jorsom, Lisboa, nos dias 12, 13 e 15 de Dezembro de 1983
Técnico de som – João Magalhães
Remasterização digital – Fernando Abrantes (Strauss Studio, Lisboa)
URL: https://www.meloteca.com/portfolio-item/fernando-serafim/
https://www.facebook.com/FernandoSerafimMusic
https://www.meloteca.com/portfolio-item/filipe-de-sousa/



Capa da caixa (contendo dois CDs e livrete) de "Mãos Dadas: Lauro Moreira interpreta Poemas da Língua Portuguesa" (EMC Digital, 1998)
Gravura – Patrícia de Oliveira
Fotografia – Mônica Moreira



Capa do CD 1 de "Mãos Dadas: Lauro Moreira interpreta Poemas da Língua Portuguesa" (EMC Digital, 1998)
Gravura – Patrícia de Oliveira
Fotografia – Mônica Moreira



Capa do CD "Fernando Lopes-Graça: Sonetos de Camões" (PortugalSom/Strauss, 1995)
Pintura de Andrea Mantegna (c.1474) retratando Bárbara Gonzaga, filha de Ludovico III Gonzaga, Marquês de Mântua, e de sua esposa Bárbara de Brandemburgo (pormenor de um fresco existente na Camera degli Sposi, no torreão nordeste do Castelo de S. Jorge, em Mântua)



Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro: fachada em estilo neomanuelino, segundo projecto do arquitecto português Rafael da Silva e Castro. A primeira pedra do edifício foi lançada a 10 de Junho de 1880, pelo imperador D. Pedro II, e a inauguração aconteceu a 22 de Dezembro de 1888.



Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro: mosaico no piso de entrada.



Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro: biblioteca e parte do tecto.
Com um acervo de aproximadamente 350 mil volumes, parte dos quais verdadeiras preciosidades bibliográficas, como um exemplar da edição 'princeps' d' "Os Lusíadas" (1572), esta biblioteca foi considerada pela revista "Time", em 2014, uma das vinte mais belas do mundo.





Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro: biblioteca e respectivo tecto encimado por clarabóia octogonal.



Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro: retrato de Luís de Camões (medalhão) pintado num dos quatro cantos abaixo da clarabóia.

Mais informação sobre o monumento em:
https://historiacomgosto.blogspot.com/2019/06/rio-de-janeiro-o-real-gabinete.html

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Outros artigos com poesia de Luís de Camões:
Camões recitado e cantado
Camões recitado e cantado (II)
Em memória de Manoel de Oliveira (1908-2015)
Camões recitado e cantado (III)
Camões recitado e cantado (IV)
Camões recitado e cantado (V)
Camões recitado e cantado (VI)
Camões recitado e cantado (VII)

01 junho 2022

Vitorino: "O Capitão dos Tanques"


Retrato de Salgueiro Maia: parte central do mural pintado nos inícios de Abril de 2014 na parede da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, fronteira à Avenida de Berna, em Lisboa, por Frederico Campos ('DRAW'), Gonçalo Ribeiro ('MAR'), Diogo Machado ('ADD FUEL') e Miguel Januário ('CAOS'), da Underdogs Gallery. O retrato do capitão foi concebido por Frederico Campos ('DRAW'), tendo como modelo uma icónica fotografia tirada, no Largo do Carmo, pelo fotojornalista Alfredo Cunha, no dia 25 de Abril de 1974 [cf. artigo do "Público", 12.04.2014].
Fonte da fotografia: Wikimedia Commons


Entre as dezenas de oficiais que integraram o movimento militar que pôs fim ao caquéctico Estado Novo duas figuras sobressaíram: o major Otelo Saraiva de Carvalho, que planeou e coordenou as operações militares, e o capitão Fernando Salgueiro Maia, que as executou no terreno e cuja missão principal era capturar Marcelo Caetano que se refugiara no Quartel do Carmo, sede do comando-geral da Guarda Nacional Republicana. Em termos metafóricos, o primeiro foi o 'cérebro' e o segundo a 'mão' do 25 de Abril de 1974. Tendo sempre recusado os cargos políticos e as honrarias que lhe ofereceram, Salgueiro Maia ficou, por assim dizer, impoluto das manchas que a acção política inevitavelmente acarreta aos seus agentes, tornando-se com o passar do tempo e, sobretudo, após a morte precoce, ocorrida a 3 de Abril de 1992, o herói romântico por excelência da Revolução dos Cravos. À parte a mitificação, é historicamente incontestável o papel determinante que o intrépido capitão da Escola Prática de Cavalaria de Santarém teve no desfecho bem-sucedido das operações militares naquele «dia inicial inteiro e limpo/ onde emergimos da noite e do silêncio» (cit. Sophia de Mello Breyner Andresen). Em sinal de reconhecimento e gratidão a Salgueiro Maia, por ter sido um dos mais proeminentes obreiros da reconquista da liberdade em Portugal, criadores de várias artes têm-no homenageado, entre os quais José Jorge Letria e Vitorino Salomé que conceberam a canção "O Capitão dos Tanques" para o magnífico álbum "Abril, Abrilzinho" (2006), feito a pensar nos mais novos, se bem que não faça mal algum aos menos jovens de idade ouvirem-no também, atendendo à qualidade que apresenta. E, na parte que nos toca, não podíamos deixar de aproveitar este Dia Mundial da Criança, trinta anos volvidos sem a presença física de Salgueiro Maia, para prestarmos (singelo) tributo à sua memória resgatando a bela canção "O Capitão dos Tanques", esplendidamente interpretada por Vitorino sobre um primoroso arranjo de Sérgio Costa.

Não sabemos se este espécime, bem como qualquer um dos outros dez presentes no CD "Abril, Abrilzinho", alguma vez marcou presença na Rádio ZigZag, quanto mais não seja nos dias 25 de Abril desde que existe aquele canal destinado ao público infantil, mas queremos acreditar que sim. E uma vez que entre o auditório das Antenas 1 e 3 também se contam crianças, mormente quando são transportadas pelos pais para a escola e de regresso a casa, não seria despropositado que, ao menos nas horas de ponta, de vez em quando, aparecesse na emissão uma canção do "Abril, Abrilzinho". Sem prejuízo, obviamente, de outro bom repertório – canções, instrumentais, poemas, lengalengas, etc. – criado em língua portuguesa expressamente para os petizes. Fica a sugestão, na esperança de que não caia em saco roto!



O Capitão dos Tanques



Letra: José Jorge Letria
Música: Vitorino Salomé
Intérprete: Vitorino* (in Livro/CD "Abril, Abrilzinho", Praça das Flores e Público, 2006)




[instrumental]

Era uma vez um homem
que andou a fazer a guerra,
mas só quis foi plantar cravos
nos jardins da nossa terra.

Militar de poucas falas
sabia bem o que queria,
cansado de tantas mortes
na guerra que então havia.

Era capitão dos tanques
que o inimigo temia,
mas nos seus canos pôs cravos
com pétalas de poesia.

Um dia de madrugada
bateu forte o coração,
porque era chegada a hora
de destronar o Papão.

[instrumental]

P'ra trás ficou Santarém
na noite fresca de Abril
e os homens que o seguiam
valiam por mais de mil.

E foi no Largo do Carmo
que, valente, ergueu a voz
para dizer ao Papão:
«Agora mandamos nós!».

E nunca pediu em troca
dessa linda valentia
um título ou um posto,
pois lhe bastava a alegria.

Foi-se embora antes de tempo,
quando a doença o levou,
regando só com as lágrimas
os cravos que então plantou.

[instrumental]

Era o Salgueiro Maia,
capitão do nosso Abril,
pondo fim a velhos medos
numa noite primaveril.

Se um menino perguntar
«Este soldado quem foi?»
respondemos-lhe a cantar:
Maia foi o nosso herói.

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Tomás Pimentel – fliscorne e trompete
Daniel Salomé – clarinete e saxofone alto
José Miguel Nogueira – guitarra
Rui Alves – percussões
Edgar Caramelo – saxofone tenor
Sérgio Costa – piano, teclados, acordeão, flautas, baixo e guitarra eléctrica
Coro – Andreia Brás, Carla Picanço, Catarina Melgão, Cátia Roque, Inês Peniche, Inês Soares, Joana Frade, Patrícia Escudeiro, Susana Parreira e Vanda Catarino
Direcção do coro – Maria do Amparo

Direcção musical, arranjos e orquestrações – Sérgio Costa
Produção – Vitorino Salomé
Gravação e masterização – Artur David e Luís Delgado, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa
URL: https://guedelhudos.blogspot.com/2009/04/25-abril-abril-abrilzinho.html
http://www.casadaleitura.org/portalbeta/bo/portal.pl/outros_materiais/documentos/files/portal.pl?pag=sol_la_fichaLivro&id=689
https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_ktvzLMi2fFJq8UJz3J6VYtnVn3GAX-Nxs



Capa do livro/CD "Abril, Abrilzinho", de Manuel Freire, Vitorino e José Jorge Letria (Praça das Flores e Público, 2006)
Design gráfico – José Maria Nolasco
Ilustrações (cabeças dos artistas) – André Letria

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Artigos relacionados:
A infância e a música portuguesa
Júlio Pereira com Sara Tavares: "Os Ponteirinhos"
Diabo a Sete: "Cantiga de Vir ao Mundo"
O Baú: "Cala-te, Menino, Cala!"
Gina Branco: "Cantiga do Leite" (José Mário Branco)
Taleguinho: "Pele de Piolho"

25 maio 2022

José Mário Branco: "Do Que um Homem É Capaz"



Se fosse vivo, José Mário Branco completaria hoje 80 anos de idade. E, mesmo estando retirado dos palcos, continuaria a ser um 'compagnon de route' na tão necessária contestação às políticas amigas do sistema económico rapace, o qual, além de destruir a Natureza (e aproveitamos para evocar o ilustre arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles neste dia do centenário do seu nascimento), usurpa a riqueza das nações concentrando-a em cada vez menos mãos à conta do empobrecimento e da degradação das condições de vida dos povos – contestação essa que deixou magistralmente expressa na belíssima canção "Do Que um Homem É Capaz", incluída no álbum "Resistir É Vencer", de 2004. Um espécime com a marca da sublimidade, mas que é virtualmente impossível de se ouvir hoje em dia no éter nacional, apesar de denunciar uma realidade candente e tremendamente actual. Aliás, a obra discográfica de José Mário Branco, que já era votada ao ostracismo, pelos fazedores de 'playlists', antes da sua inesperada morte em Novembro de 2019, nem por sombras tem sido objecto, nos dois anos e meio entretanto decorridos, da divulgação que merecia nas rádios portuguesas (privadas e pública), situação que ultraja a memória do distinto cantautor e que não pode deixar de suscitar o vivo repúdio de quem não é surdo e sabe reconhecer a qualidade e a perenidade do seu legado. Os ouvintes das Antenas 1 e 3 que ignoravam esta pérola chamada "Do Que um Homem É Capaz" e que aqui dela tomarem conhecimento, maravilhados, têm toda a legitimidade para formular a seguinte pergunta: «Vale mesmo a pena financiarmos canais de rádio que nos sonegam o mais qualificado e valioso património musical português e, em lugar dele, poluem os nossos tímpanos com quantidades industriais de lixo sonoro?».



Do Que um Homem É Capaz



Letra e música: José Mário Branco (para a peça "Gulliver", adaptada por Hélder Costa do romance "As Viagens de Gulliver", de Jonathan Swft, levada à cena pelo grupo de teatro "A Barraca" em 1997)
Intérprete: José Mário Branco* (in CD "Resistir É Vencer", José Mário Branco/EMI-VC, 2004, reed. Parlophone/Warner Music Portugal, 2017)




[instrumental]

Do que um homem é capaz,
As coisas que ele faz
P'ra chegar aonde quer:
É capaz de dar a vida
P'ra levar de vencida
Uma razão de viver.

A vida é como uma estrada
Que vai sendo traçada
Sem nunca arrepiar caminho;
E quem pensa estar parado
Vai no sentido errado
A caminhar sozinho.

Vejo gente cuja vida
Vai sendo consumida
Por miragens de poder.
Agarrados a alguns ossos
No meio dos destroços
Do que nunca vão fazer,

Vão poluindo o percurso
Co' as sobras do discurso
Que lhes serviu pr' abrir caminho;
À custa das nossas utopias
Usurpam regalias
P'ra consumir sozinhos.

Com políticas concretas
Impõem essas metas
Que nos entram casa dentro,
Como a Trilateral
Co' a treta liberal
E as virtudes do centro.

No lugar da consciência
A lei da concorrência
Pisando tudo p'lo caminho;
P'ra castrar a juventude
Mascaram de virtude
O querer vencer sozinho.

Ficam cínicos, brutais
Descendo cada vez mais
P'ra subir cada vez menos:
Quanto mais o mal se expande
Mais acham que ser grande
É lixar os mais pequenos.

Quem escolhe ser assim,
Quando chegar ao fim,
Vai ver que errou o seu caminho:
Quando a vida é hipotecada
No fim não sobra nada
E acaba-se sozinho.

Mesmo sendo os poderosos
Tão fracos e gulosos
Que precisam do poder,
Mesmo havendo tanta gente
P'ra quem é indif'rente
Passar a vida a morrer,

Há princípios e valores,
Há sonhos e há amores
Que sempre irão abrir caminho;
E quem viver abraçado
À vida que há ao lado
Não vai morrer sozinho;
E quem morrer abraçado
À vida que há ao lado
Não vai viver sozinho.


* José Mário Branco – voz
José Peixoto, Francisco Abreu – guitarras acústicas
Carlos Bica – contrabaixo
Lee il-Se – violoncelo
Grupo Coral "Os Escolhidos" (Amélia Muge, Fernando Pinheiro, Filipa Pais, Genoveva Faísca, Guilhermino Monteiro, Jorge Palma, José Manuel David, Luísa Rodrigues, Manuela de Brito, Paulo Santos Silva e Rui Vaz) – coros

Direcção, produção, arranjos e orquestrações – José Mário Branco
Assistência de produção artística – Manuela de Freitas
Assistência de produção musical – António José Martins
Produção executiva – Paulo Salgado / Vachier & Associados, Lda.
Direcção técnica – António Pinheiro da Silva
Assistência de direcção técnica e anotações – Maria João Castanheira
Gravado e masterizado no Estúdio 'O Circo a Vapor' (Lisboa), por António Pinheiro da Silva, Frederico Pereira e Maria João Castanheira, de Janeiro a Março de 2004
Gravação de cordas na Wiener Konzerthaus (Viena) por António Pinheiro da Silva, Maria João Castanheira, Georg Burdicek e Andreas Melcher, em Fevereiro de 2004
Edição e misturas nos Estúdios Pé-de-Meia (Oeiras), por António Pinheiro da Silva, Frederico Pereira, Maria João Castanheira e José Mário Branco, em Fevereiro e Março de 2004
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_M%C3%A1rio_Branco
https://arquivojosemariobranco.fcsh.unl.pt/
https://www.facebook.com/FascismoNuncaMais/posts/725849500857765/
https://expresso.pt/cultura/2019-11-19-O-momento-antes-de-disparar-a-seta-a-entrevista-de-Jose-Mario-Branco
https://www.buala.org/pt/cara-a-cara/jose-mario-branco-a-eterna-inquietacao
https://www.nit.pt/cultura/musica/morte-lenda-momentos-marcantes-vida-jose-mario-branco
https://www.esquerda.net/topics/dossier-303-jose-mario-branco-voz-da-inquietacao
https://www.publico.pt/jose-mario-branco
https://www.youtube.com/channel/UChQPBSV5W6kL-jw1Tp08g_w
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=jose+mario+branco



Capa do CD "Resistir É Vencer", de José Mário Branco (EMI-VC, 2004)
Reprodução parcial do quadro "Resistência", 1946, de Júlio Pomar [imagem da obra integral e texto explicativo de Ana Anacleto >> aqui]

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Outros artigos com repertório interpretado por José Mário Branco ou da sua autoria:
Celebrando Natália Correia
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
José Mário Branco: "Zeca (Carta a José Afonso)"
Gina Branco: "Cantiga do Leite" (José Mário Branco)
Camões recitado e cantado (VI)

01 maio 2022

Modas à Margem do Tempo: "Meus Senhores"


Painel azulejar concebido por António Passão, em 2006, evocativo da "Praça de Homens" que existiu na aldeia (hoje vila) do Carregado, concelho de Alenquer, no cruzamento da Rua Vaz Monteiro (EN 1) com a Rua Pinto Barreiro (EN 3). O painel, aplicado numa placa vertical de granito assente em duas bases de betão, situa-se no canto noroeste, ajardinado, do referido cruzamento.
Fotografia retirada do blogue "Alenquer - Tradição, História e Património".
[Para ver o painel azulejar em ecrã inteiro clicar aqui]


PRAÇA DE JORNA

I

Entre os camponeses de certa região, designa-se por «praça» o ajuntamento dos assalariados rurais em locais certos e dia fixado, com o fim de contratarem trabalho, ou – como usam dizer – tomarem patrão.
A «praça de trabalho» ou «praça de jorna» é pois um mercado de mão-de-obra, a que vão assalariados e proprietários rurais (ou os seus delegados: os capatazes), e em que os primeiros, como vendedores, oferecem a sua força de trabalho, e os segundos, como compradores, oferecem o salário ou jorna, que é a paga de um dia de trabalho (jornal).
Daí a designação de «praça de jorna» ou «praça de trabalho», mais apropriada do que «praça de homens» como já se tem chamado, visto que não são propriamente os homens o que está à venda no mercado, mas sim a sua força de trabalho, isto é, o conjunto das suas faculdades físicas e intelectuais utilizadas na produção.
Convém insistir neste ponto, porquanto aquela designação corresponde a uma corrente de opinião acerca das «praças», ou seja, de que elas são ainda restos do antigo mercado de escravos e, portanto, desumanas e inteiramente condenáveis. Em certo artigo doutrinário escreveu-se que «as praças de homens são, na realidade, mercados medievais da força de trabalho».
A verdade é que, antigamente, o homem do campo não era livre de dispor da sua força de trabalho: era escravo ou servo da gleba e, como tal, todo ele considerado uma ferramenta ou simples objecto de uso, que o senhor podia vender ou trocar ou, quando escravo, destruir. Os antigos Romanos dividiam mesmo as forças de produção em três categorias: os meios de trabalho mudos (os objectos), os meios de trabalho semi-mudos (o gado), e os meios de trabalho falantes (os escravos). Ao passo que, modernamente, dentro da forma capitalista, o que constitui a mercadoria é a força de trabalho do homem, e não o próprio homem. Este, até certo ponto, é livre de escolher ou mudar de patrão ou ofício. Portanto, se no mercado medieval o homem passava das mãos de um senhor às de outro senhor, de um vendedor a um comprador, na «praça» actual o trabalhador rural vende a sua força de trabalho ao lavrador, por um tempo determinado (dia ou semana) e recebe em troca um valor: o salário.
Quer isto dizer que o trabalhador recebe o justo valor do seu trabalho? De modo nenhum. Quer dizer também que o trabalhador, tendo deixado de ser escravo ou servo, é agora inteiramente livre? De modo nenhum. No sistema capitalista de produção, os assalariados estão dependentes da classe que possui os meios de produção (proprietários da terra e das máquinas, etc.), são obrigados, para não morrerem de fome, a vender as suas faculdades físicas e intelectuais. E nesse «negócio» forçado, os patrões aumentam o seu capital, enquanto os assalariados desgastam a sua única riqueza: a força de trabalho.

SOEIRO PEREIRA GOMES, Agosto de 1946 (in "Praça de Jorna", Lisboa: Organização dos Técnicos Agrícolas da Direcção da Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português, 1976) [texto integral no blogue "Voar Fora da Asa"]


Embora as "praças de jorna" não fossem exclusivas do mundo rural, pois também existiram nas cidades para recrutamento de trabalhadores eventuais, sobretudo para cargas e descargas (em Lisboa, uma delas realizava-se no Cais do Sodré, como mostra uma fotografia tirada em 1912), foi nas lezírias do Ribatejo e nos latifúndios do Alentejo que tiveram maior expressão. A progressiva mecanização da agricultura, depois da Segunda Guerra Mundial, com a consequente menor necessidade de mão-de-obra braçal para os árduos trabalhos da lavoura, ditou o gradual desaparecimento das "praças de jorna", tendo as que subsistiram até ao 25 de Abril de 1974 findado pouco depois.
Também conhecidas, popularmente, como "praças de homens", embora a expressão não seja adequada, como explicou Soeiro Pereira Gomes, as "praças de jorna" não deixaram gratas lembranças naqueles que, por necessidade de sustento e sem que tivessem alternativa (a não ser o êxodo para as cinturas industriais de Lisboa e de Setúbal ou a emigração para a estranja), lá iam oferecer a sua força de trabalho a troco de uma magra retribuição. Isso testemunhou o poeta e encenador alentejano Vicente Rodrigues (Alcáçovas, 1910 - Torrão, 1982) em versos que o grupo eborense Modas à Margem do Tempo musicou e gravou, no álbum "Cantarolices" (Associ'Arte, 2003), sob o título "Meus Senhores". É, pois, destacando esta tocante moda, cantada sobre um primoroso arranjo instrumental, que assinalamos o Dia do Trabalhador, honrando a memória dos inúmeros trabalhadores braçais do passado e solidarizando-nos com os do presente que, embora já não sendo contratados em "praças de jorna", executam tarefas muito duras para o corpo, não raras vezes pondo também à prova a saúde mental, mas socialmente desconsideradas e, como tal, mal remuneradas – porém, imprescindíveis ao normal e regular funcionamento das sociedades modernas.

Recordamo-nos perfeitamente de ter ouvido, certa vez, pela mão do Sr. Armando Carvalhêda, na sua memorável rubrica "Cantos da Casa" [>> RTP-Play], esta moda "Meus Senhores". Nunca mais lográmos escutá-la na rádio. E é um exemplo apenas de entre tantos outros e bons que constituem o vasto repertório recriado ou criado de raiz por meritórios intérpretes e grupos portugueses que laboram (ou laboraram) no campo da música tradicional (ou de matriz tradicional), que não é objecto de cabal e conveniente divulgação na Antena 1. Vejamos: temos o espaço "A Árvore da Música" [>> RTP-Play], da responsabilidade de Ana Sofia Carvalhêda, nas matinas de domingo (após o noticiário das 07h:00), em substituição do programa "Cantos da Casa (Fim-de-Semana)" [>> RTP-Play], que se consagra à divulgação de novas edições discográficas. Igualmente focado em discos recentes é de referir o também dominical "Vozes da Lusofonia" [>> RTP-Play], de Edgar Canelas, que não se restringindo à música (de matriz) tradicional lhe dá guarida, de vez em quando. E de gravações menos recentes, em que espaço da grelha se pode ouvir algo? Somente, e ainda assim escassamente e sem carácter regular, no programa "Alma Lusa" [>> RTP-Play], da autoria de Edgar Canelas, que vai para o ar depois do noticiário da meia-noite de domingo terminando às 02h:00 da madrugada de segunda-feira (um dia de trabalho). Quer dizer: a música tradicional foi relegada para as margens, escapando assim ao auditório menos madrugador ou menos noctívago. Não é uma situação com a qual se possa contemporizar porque uma rádio que vive do dinheiro dos ouvintes (via contribuição do audiovisual) jamais deverá marginalizar o património musical mais genuíno e identitário do seu país. Caso contrário, torna-se legítimo questionar o financiamento público, sendo de evitar, a todo o custo, que tenha de se chegar aí. Importa, portanto, que se tomem as medidas necessárias que passam, obrigatoriamente, pela inclusão na 'playlist' de música tradicional portuguesa, tornando-a assim audível à generalidade do auditório, e pela criação de, pelo menos, uma rubrica em que se faça o enquadramento circunstanciado do espécime a apresentar e do respectivo intérprete, em moldes idênticos ao que fazia o emérito realizador Armando Carvalhêda.



Meus Senhores



Letra: Vicente Rodrigues (1910-1982)
Música: Modas à Margem do Tempo
Intérprete: Modas à Margem do Tempo* (in CD "Cantarolices", Associ'Arte, 2003)




[instrumental]

[Moda:]
Meus senhores, eu venho à praça  | bis
Este meu corpo oferecer,              |
Este meu corpo-carcaça     | bis
De se comprar e vender!    |

De se comprar e vender  | bis
Por bem se negociar,       |
No negócio de render             | bis
Sem ter nele nada a ganhar... |

[instrumental]

[Cantiga:]
É tempo de se ceifar          | bis
Trigos, cevadas e fenos...   |
Quem dá mais pelo meu suar?         | bis
Quem dá mais ou quem dá menos?  |

[instrumental]


* Modas à Margem do Tempo:
Celina da Piedade – acordeão e voz
Cláudio Trindade – reco-reco, pauzinhos de cuba, caixa chinesa, cântaros, caixa e sementes, lata de areia, serapilheira com vassouras, pauzinhos, pau-de-chuva, adufe, ferrinho, bombo e voz
José Melo – guitarra semi-acústica e voz
Susana Castro Santos – violoncelo e voz
Tolentino Cabo – guitarra clássica e voz

Produção – João Bacelar e Modas à Margem do Tempo
Gravado no Estúdio Quinta Dimensão, Azaruja - Évora
Engenheiro de som – João Bacelar
URL: https://www.facebook.com/mmtempo/
https://notas.blogs.sapo.pt/1214.html



Capa do opúsculo "Praça de Jorna", de Soeiro Pereira Gomes (Lisboa: Organização dos Técnicos Agrícolas da Direcção da Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português, 1976)
Ilustração – Álvaro Cunhal



Capa do CD "Cantarolices", do grupo Modas à Margem do Tempo (Associ'Arte, 2003)
Fotografia – António Carrapato
Grafismo – Francisco Bilou
Execução de figuras de barro – Oficina da Terra (Évora)

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Artigos relacionados:
Sérgio Godinho: "Que Força É Essa?"
Dialecto: "Instrumentos de Trabalho" (Maria Teresa Horta)
Fausto Bordalo Dias: "Uma Cantiga de Desemprego"

25 abril 2022

Manuel Freire: "Livre" (Carlos de Oliveira)


Manuel Freire em finais da década de 1960 (fotografia publicada na capa da revista "Mundo da Canção" N.º 8 - Julho de 1970)


Antes de Manuel Freire se dar a conhecer ao grande público actuando em duas edições do programa televisivo (de grande audiência) "Zip-Zip", a segunda delas coincidindo com a última do próprio programa, a 29 de Dezembro de 1969, na qual apresentou a belíssima "Pedra Filosofal", que não tardou a tornar-se o seu 'cartão-de-visita', já havia publicado, no ano anterior, dois discos em formato EP – "Manuel Freire canta Manuel Freire" e "Trovas Trovas Trovas" – ambos sob o selo Tagus, propriedade do maestro Jorge Costa Pinto. A segunda daquelas edições seria apreendida pela PIDE por conter uma canção, "O Sangue Não Dá Flor", que tinha (tem) uma mensagem explicitamente antimilitarista cujos destinatários eram, como facilmente se depreendia naquele contexto histórico, os soldados portugueses que nas matas africanas derramavam o seu sangue combatendo numa guerra sem sentido: «Poisa a espingarda, irmão/ que o sangue não dá flor!/ Para amanhã ser melhor/ não podemos perder amor.» [terceira estrofe / áudio integral >> blogue "Regresso ao Passado"]. Sobre o primeiro EP não caiu o anátema da proibição, embora a canção "Livre" não fosse inócua para um regime que estava longe de prezar a liberdade e o pensamento sem peias. O facto de os dois primeiros versos («Não há machado que corte/ a raiz ao pensamento») serem de origem popular talvez tenha demovido os censores de interditarem a canção. Não sabemos... Certo, certo é que o mesmíssimo poema com música de Fernando Lopes-Graça, juntamente com as demais "Canções Heróicas", teve sorte diferente: expressamente proibida a edição fonográfica, assim como a apresentação em espectáculos. Ora, e a menos que Manuel Freire tivesse ouvido a canção de Lopes-Graça em algum sarau privado – o que não aconteceu, conforme afirmou ao jornalista Nuno Pacheco, por ocasião do 50.º aniversário da publicação do seu disco de estreia («Atrevi-me a musicar um poema do Carlos de Oliveira já musicado pelo Fernando Lopes-Graça. Mas não sabia, se soubesse não me tinha atrevido. Foi a primeira oportunidade de gravar as minhas coisinhas.», in "Público", 17.11.2018) – o conhecimento que tomou do texto só podia ser pela leitura, provavelmente da antologia "Poesias", de Carlos de Oliveira, publicada pela Portugália Editora, em 1962, no âmbito da colecção "Poetas de Hoje" (a primeira aparição em volume dera-se em 1950, no livro "Terra de Harmonia", com chancela da editora Centro Bibliográfico). E ainda bem que Manuel Freire se atreveu a transpor o poema "Livre" para canção porque, além de dar uma pérola à música popular portuguesa, ela teve o bendito condão de tornar-se uma das mais emblemáticas do seu repertório, quiçá só superada pela famosíssima "Pedra Filosofal" [>> YouTube]. Palpitamos que antes da Revolução dos Cravos a canção "Livre" não passasse na Emissora Nacional, ademais não se inserindo Manuel Freire nos dois géneros mais acarinhados pela rádio oficial do regime – nacional-cançonetismo e fado –, mas estamos em crer que alguma divulgação teve nas rádios privadas. No pós-25 de Abril de 1974, sabemos, de leituras que fizemos e de testemunhos credíveis que ouvimos, que foi uma das canções mais radiodifundidas. Hoje, porém, é virtualmente impossível de se ouvir no éter nacional. Uma boa razão, se outras não houvesse (que há), para a destacarmos neste Dia da Liberdade, em que se celebra o 48.º aniversário da eclosão da Revolução dos Cravos, que é também – feliz coincidência! – o do 80.º aniversário do nascimento do notabilíssimo compositor e intérprete que, na esteira de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília, desempenhou um significativo papel na resistência à ditadura, ajudando a desbravar o caminho que trouxe a Liberdade de regresso a Portugal. Viva a Liberdade! E parabéns a Manuel Freire, com votos de longa vida!

Na sexta-feira passada, dia 22, véspera do concerto de homenagem a Manuel Freire no Auditório do Museu da Fundação Oriente, em Lisboa, o realizador Jorge Afonso, na primeira hora do seu programa do serão da Antena 1, esteve à conversa com o artista e o músico Manuel Rocha (membro da Brigada Victor Jara e professor de violino no Conservatório de Música de Coimbra), ali na qualidade de dinamizador do merecido tributo público (com entrada gratuita, que é de frisar), tendo sido transmitidas de permeio algumas canções de Manuel Freire. Cumpre-nos, pois, felicitar o profissional Jorge Afonso pelo convite que dirigiu aos dois músicos para falarem a respeito do referido espectáculo de homenagem (feito em vida do homenageado, como devem, de preferência, acontecer as homenagens) e por ter aproveitado o ensejo para presentear os ouvintes com alguns espécimes do repertório do distinto artista, o qual – acrescente-se, a tal de foice – não está representado, há largos anos, na 'playlist' da mesma Antena 1, a rádio que se autoproclama de ter memória e de estimar o nosso património cultural. Uma lacuna soezmente aberrante do serviço público de rádio que não se deve a esquecimento fortuito de quem mexe e remexe na tal 'playlist' ou de quem lhe é hierarquicamente superior, mas que resulta de premeditada acção de boicote, que tem sido extensiva a outros categorizados intérpretes portugueses (vocais e/ou instrumentais). No caso concreto de Manuel Freire o facto de lhe ser negado lugar na 'playlist' configura, em primeiro lugar, uma tremenda injustiça a um artista de altíssimo gabarito a quem o país muito deve e, em segundo lugar, uma vil desconsideração pelos ouvintes que apreciam (ou que aprenderiam a apreciar) boa música portuguesa, aliada a poesia de qualidade mas não hermética. Uma vez que Manuel Freire foi, até hoje, o compositor-intérprete que mais poesia de José Saramago musicou e gravou, ao menos que o centenário do autor d' "Os Poemas Possíveis" sirva de pretexto para divulgar esse repertório aos rádio-ouvintes!



Livre



Poema: Carlos de Oliveira (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Manuel Freire
Intérprete: Manuel Freire* (in EP "Manuel Freire canta Manuel Freire", Tagus, 1968; LP "Dedicatória", Tecla, 1972, reed. Tecla, 1974; livro/CD "Manuel Freire", col. Canto & Autores, vol. 09, Levoir/Público, 2014)




Não há machado que corte    | bis
a raiz ao pensamento:          |
não há morte para o vento,  | bis
não há morte.                     |

Se ao morrer o coração                | bis
morresse a luz que lhe é querida,  |
sem razão seria a vida,  | bis
sem razão.                   |

Nada apaga a luz que vive       | bis
num amor, num pensamento,   |
porque é livre como o vento,  | bis
porque é livre.                      |

Não há machado que corte    | bis
a raiz ao pensamento:          |
não há morte para o vento,  | bis
não há morte.                     |

Se ao morrer o coração                | bis
morresse a luz que lhe é querida,  |
sem razão seria a vida,  | bis
sem razão.                   |

Nada apaga a luz que vive       | bis
num amor, num pensamento,   |
porque é livre como o vento,  | bis
porque é livre.                      |


* Manuel Freire – voz
Fernando Alvim – viola
URL: https://www.facebook.com/ManuelFreireOficial/
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LIVRE

(Carlos de Oliveira, in "Terra de Harmonia", col. Cancioneiro Geral, vol. 3, Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950 – p. 18; "Poesias", col. Poetas de Hoje, vol. 3, Lisboa: Portugália Editora, 1962)


                                               Ao Sousa Oliveira

                                  Não há machado que corte
                                  a raiz ao pensamento.

                                             Cancioneiro Popular


Não há machado que corte
a raiz ao pensamento:
não há morte para o vento,
não há morte.

Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida,
sem razão.

Nada apaga a luz que vive
num amor, num pensamento,
porque é livre como o vento,
porque é livre.



Capa do livro "Terra de Harmonia", de Carlos de Oliveira, col. Cancioneiro Geral, vol. 3 (Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950)



Capa do livro "Poesias", de Carlos de Oliveira, col. Poetas de Hoje, vol. 3 (Lisboa: Portugália Editora, 1962)
Concepção – João da Câmara Leme



Capa do EP "Manuel Freire canta Manuel Freire" (Tagus, 1968)



Capa da 1.ª edição da compilação em LP "Dedicatória", de Manuel Freire, Fernando Alvim e Pedro Caldeira Cabral (Tecla, 1972)



Capa do livro/CD "Manuel Freire", col. Canto & Autores, vol. 09 (Levoir/Público, 2014)
Ilustração – André Carrilho

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Outros artigos com canções ou poemas alusivos à Revolução dos Cravos ou à Liberdade:
Contrabando: "Verdade ou Mentira?"
Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde": "Grândola, Vila Morena"
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Em memória de Fernando Alvim (1934-2015)
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