02 julho 2024

Camões evocado por Sophia


Luís de Camões, Príncipe dos Poetas, fac-símile do retrato à pena por Manuel de Faria e Sousa (1639).


LUÍS DE CAMÕES: ENSOMBRAMENTO E DESCOBRIMENTO

Por: Sophia de Mello Breyner Andresen



A poesia é, por sua natureza, o contrário de uma instituição.
No entanto, às vezes, acontece que um poeta se torna célebre, e a sua obra e o seu nome passam a ser tratados como instituições.
E a Camões aconteceu mesmo não só ter sido transformado em instituição, mas também — e para vergonha de todos nós — ser uma instituição usada e manipulada ao longo dos tempos pelas diversas estratégias do poder.
Na sociedade em que estamos, o que é real nunca é oficial, e a poesia quando, às vezes, por milagre, está na rua é rapidamente empurrada para dentro de casa.
E seria grave esquecermos que Camões teve uma aguda e precisa e veemente consciência da sua condição de poeta maldito. Uma trágica e amarga consciência da sua solidão.
De um extremo ao outro da sua obra, ele afirma e grita essa consciência. Por isso, em frente de qualquer centenário ou homenagem que lhe sejam dedicados, deveremos recordar um poema que — talvez pensando em Camões, talvez pensando em Fernando Pessoa, talvez pensando em si próprio — Carlos Queiroz escreveu:

              Do poeta já morto, o claro nome
              Ergueram como estandarte
              E a sua obra desfraldaram.

              Oh, deixem-no incompreendido
              Sozinho como na vida,
              Como na vida esquecido...

Sabemos pouco da vida de Camões, e as interpretações pouco nos ajudam. Será melhor entendermos a sua poesia literalmente:

              O dia em que nasci moura e pereça,
              não o queira jamais o tempo dar;
              não torne mais ao mundo e, se tornar,
              eclipse nesse passo o Sol padeça.

              A luz lhe falte, o Sol se lhe escureça,
              mostre o mundo sinais de se acabar,
              nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
              a mãe ao próprio filho não conheça.

              As pessoas pasmadas, de ignorantes,
              as lágrimas no rosto, a cor perdida,
              cuidem que o mundo já se destruiu.

              Ó gente temerosa, não te espantes,
              que este dia deitou ao mundo a vida
              mais desgraçada que jamais se viu!

Mas se não aceito que Camões seja tratado como instituição, que seja tratado abstractamente como poeta oficial, é porque nele amo e busco o poeta real.
E desse poeta real poderemos dizer, parafraseando Fernando Pessoa, que ele foi

              «não português mas Portugal»

Pois Camões assume a Pátria sua e nossa, duplamente. Assume-a como História.
Carlos de Oliveira disse um dia que Camões é a aleluia da língua portuguesa. Ele não vem apenas, como diria Mallarmé, dar um sentido mais puro às palavras da tribo, ele vem dar uma forma mais rigorosa e uma maior aptidão às palavras da tribo. Camões encontra e constrói a objectividade da língua portuguesa. E cria a ressonância e o eco, encontra o justo peso das sílabas, o espaço do silêncio, a articulação justa.

              Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,
              Já que a minha presença não te agrada,
              Que te custava ter-me neste engano,
              Ou fosses monte, nuvem, sonho, ou nada?

                                      (Os Lusíadas, canto V, 57)

Mas não sou um professor de Literatura nem de Linguística. A análise e a discussão e a teoria não são a minha especialidade, e, por isso, não irei falar sobre a dicção camoniana, sobre o acerto das suas vogais, sobre a musicalidade e a ressonância dos seus versos. Antes procurarei mostrar o meu entendimento dessa musicalidade e dessa ressonância, lendo alguns dos seus poemas. Até porque acredito que a inteireza da palavra é oral e não escrita.
A respiração da musicalidade de Camões — musicalidade fundada em ressonâncias como a voz de um búzio — está presente nos seus sonetos («Aquela triste e leda madrugada...»), e atravessa Os Lusíadas:

              Descobre o fundo nunca descoberto
              As areias ali de prata fina;
              Torres altas se vêem, no campo aberto,
              Da transparente massa cristalina;
              Quando se chegam mais os olhos perto
              Tanto menos a vista determina
              Se é cristal o que vê, se diamante,
              Que assim se mostra claro e radiante.

                                      (Os Lusíadas, canto VI, 9)

A nitidez da dicção camoniana é particularmente evidente nas redondilhas («Descalça vai para a fonte...»).
Camões assume Portugal no plano da História. Não apenas porque escreve Os Lusíadas, mas porque vive tão exemplarmente a sua condição de português, e nele Portugal se vive.
Como Portugal, ele é simultaneamente realização e frustração, encontro e desencontro, ensombramento e descobrimento.
Como Portugal, ele volta de África estropiado, vencedor e vencido, e da Índia regressa deslumbrado e naufragado. Como Portugal, ele conhece a livre respiração dos longos mares e a asfixia entre provincianas intrigas.
Como Portugal, de todas as riquezas volta pobre.
São muito poucos os documentos que temos sobre a vida de Camões, e os seus biógrafos são discutidos. Mas para além de factos imaginários, supostos ou presumíveis, a sua obra diz-nos literalmente aquela muito especial amargura à portuguesa que, então como agora, Portugal tece em redor daqueles que o assumem.
Em todos os países, como diria Fernando Pessoa, «os deuses vendem o que dão». Mas em Portugal vendem mais caro. A amargura que encontramos nos poemas camonianos não precisa de ser documentada por velhos papéis e antigos biógrafos, pois ela continua a ser documentada pela vida quotidiana.

No seu livro Novas Andanças do Demónio, Jorge de Sena publicou um conto que tem como tema o final da vida de Camões, e se intitula «Super Flumina Babylonis». Este texto é uma das mais puras obras-primas da língua portuguesa e é também o pano da Verónica da poesia portuguesa.
Pode-se discutir se os factos narrados por alguns biógrafos do poeta, nos quais Jorge de Sena, no seu conto, se inspira, são verdadeiros ou fantasiosos. Mas há neles, como num conto, o tom da verdade, e essa verdade o próprio Camões a documenta:

              Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho
              Destemperada e a voz enrouquecida,
              E não do canto, mas de ver que venho
              Cantar a gente surda e endurecida.
              O favor com que mais se acende o engenho
              Não no dá a pátria, não, que está metida
              No gosto da cobiça e na rudeza
              Duma austera, apagada e vil tristeza.

Devemos meditar na expressão «gente surda»: nestas duas palavras, Camões identifica aquela muito especial desatenção que a sociedade portuguesa dispensa àqueles que ousam uma atitude de liberdade e de criação. Pois a surdez não é dedicada apenas ao poeta, mas igualmente ao músico, ao pintor, ao arquitecto, ao sábio. O poeta é mesmo aquele que resiste melhor, pois pode criar quase sem apoio social. É por isso que, entre nós, a poesia é a mais rica das tradições culturais.
Camões resiste e, porque resiste, sofre, vê e denuncia essa desatenção, essa surdez asfixiante.
Ele vê e denuncia uma atitude que é simultaneamente moral e cultural e que, através dos séculos e das variações políticas, continua. A sua crítica ao seu tempo aplica-se ao nosso:

              Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
              O vosso Tejo cria valerosos,
              Que assim sabem prezar, com tais favores,
              A quem os faz, cantando, gloriosos!
              Que exemplos a futuros escritores,
              Para espertar engenhos curiosos,
              Para porem as cousas em memória
              Que merecerem ter eterna glória!

                                      (Os Lusíadas, canto VII, 82)

E, mais adiante, ele retrata os oportunistas da sua época, que continuam a ser nossos contemporâneos. Ele diz-nos que não cantará

              Nenhum que use de seu poder bastante
              Para servir a seu desejo feio,
              E que, por comprazer ao vulgo errante,
              Se muda em mais figuras que Proteio.

A poesia de amor de Camões é escrita dentro de uma tradição de poesia do amor impossível, que vem quase até aos nossos dias.
Na maioria dos seus poemas líricos corre esse longo pranto do amor inacessível. Num mundo de madrugadas e névoas, de separações, de ausências e de naufrágios, passam os rostos das amadas mortas, distantes, negadas, inatingíveis, afogadas no Índico.
No entanto, nos poemas líricos não encontramos a mesma amargura radicalmente sombria que encontrámos nos poemas de acusação social. Encontramos dor, sofrimento, mágoa, mas ainda nimbados pelo maravilhamento do encontro. E o rosto das amadas não foi apenas negação e morte, ou engano, ou distância, mas também enlevo, encantamento, amor vivido.
Como vemos no soneto que diz a botticelliana beleza de não sei que amada:

              Ondados fios d'ouro reluzente,
              que agora da mão bela recolhidos,
              agora sobre as rosas estendidos,
              fazeis que sua beleza s'acrescente.

Pois a poesia de amor camoniana é também a expressão de uma intensa vitalidade que, como o próprio poeta diz, «em várias flamas variamente ardia».
E em muitas das redondilhas, o poema de amor é poema do jogo do amor:

              Dama d'estranho primor
              se vos for
              pesada minha firmeza,
              olhai, não me deis tristeza,
              porque a converto em amor.
              Se cuidais
              de me matar quando usais
              de esquivança,
              irei tomar por vingança
              amar-vos cada vez mais.

E nalguns poemas como a maravilhosa obra-prima que são as Endechas a Bárbara, escrava, encontramos aquele misto de abandono e de felicidade que é o encontro do aventureiro com a sua própria vida.

Os Lusíadas, poema do descobrimento, poema da possibilidade humana, são a antítese do ensombramento. Para além da asfixia que começa a crescer, para além do gosto da cobiça e da vileza, Camões canta os portugueses que navegaram para a frente, para ver o que havia. Logo no Canto I diz:

              Os portugueses somos do Ocidente
              Imos buscando as terras do Oriente...

Nestes dois versos, o poeta nos identifica: pertencemos à cultura da terra do Ocidente, e, dentro da lógica dessa cultura, a nossa tarefa específica é ir para além das próprias fronteiras, e indagar tudo, ver tudo. Somos a gente do estar duplo. Gente que tem uma pátria, mas vai a caminho.
Camões celebra o surgir, o aparecer, aquilo a que os gregos chamaram «aletheia». Celebra os homens que buscam a desocultação, o emergir do fenómeno, a escrita da terra.
Celebra sem mentir, em pura verdade, a coragem e a perícia do povo a que pertence: uma coragem prática que ele viu. Canta uma arte de enfrentar o abismo:

              Alija, disse o mestre rijamente,
              Alija tudo ao mar, não falte acordo!
              Vão outros dar à bomba, não cessando;
              À bomba, que nos imos alagando!

              Correm logo os soldados animosos
              A dar à bomba; e, tanto que chegaram,
              Os balanços que os mares temerosos
              Deram à nau, num bordo os derribaram.
              Três marinheiros, duros e forçosos,
              A manear o leme não bastaram:
              Talhas lhe punham, duma e doutra parte,
              Sem aproveitar dos homens força e arte.

Os Descobrimentos não são apenas uma obra cultural, mas um acto cultural. Camões sabe, por isso, que traz uma poética nova, que a fonte da sua inspiração não está no mito nem no oculto, nem num outro mundo, mas sim no exposto e no actual e no mundo em que estamos. N'Os Lusíadas, o lugar do poema é o vivido. Os Lusíadas são uma epopeia contada por um homem que aventurosamente a viveu.

Heródoto diz-nos que Homero e Hesíodo foram os educadores da Grécia. Será Camões um educador dos portugueses?
Quando vemos que a maioria dos portugueses mesmo letrados, comem as sílabas, é evidente que não os podemos considerar discípulos da dicção camoniana. A forma como a língua portuguesa é normalmente falada leva-nos a pensar que os leitores de Camões são poucos.
Essa lição de falar camoniano é nos poetas que a vamos encontrar. Na nitidez de Cesário Verde ou na subtileza chinesa de Camilo Pessanha:

              Passou o Outono já, já torna o frio...
              — Outono de seu riso magoado...
              Álgido inverno! Oblíquo o sol, gelado...
              — O sol, e as águas límpidas do rio.
             
              Águas claras do rio! Água do rio,
              Fugindo sob o meu olhar cansado,
              Para onde me levais meu vão cuidado?
              Aonde vais, meu coração vazio?
             
              Ficai, cabelos dela, flutuando,
              E debaixo das águas fugidias,
              Os seus olhos abertos e cismando...
             
              Onde ides a correr, melancolias?
              — E, refractadas, longamente ondeando,
              As suas mãos translúcidas e frias...

Em poemas escritos em diversas épocas, em diversos climas e por diversos poetas, algo de familiar e fundamental, aqui e além emerge: é o tom da voz camoniana que regressa. Como neste poema de Cecília Meireles:

              És precária e veloz, felicidade
              Custas a vir e quando vens não te demoras
              Foste tu que ensinaste aos homens
              Que havia tempo
              E para te medir
              Se inventaram as horas.
             
              Felicidade és coisa estranha e duvidosa
              Fizeste para sempre a vida ficar triste
              Pois um dia se vê que as horas todas passam
              E um tempo despovoado e profundo persiste.

E também em Torga encontramos o silabado silêncio camoniano:

              Chove uma grossa chuva inesperada,
              Que a tarde não pediu mas agradece.
              Chove na rua, já de si molhada
              Duma vida que é chuva e não parece.

O rigor, a densidade e a inteligência da arte poética de Camões brilham em Fernando Pessoa:

              Vossa formosa juventude leda,
              Vossa felicidade pensativa,
              Vosso modo de olhar a quem vos olha,
              Vosso não conhecer-vos.
             
              Tudo quanto vós sois, que vos semelha
              À vida universal que vos esquece
              Dá carinho de amor a quem vos ama
              Por serdes não lembrando
             
              Quanta igual mocidade a eterna praia
              De Cronos, pai injusto da justiça,
              Ondas, quebrou, deixando à só memória
              Um brando som de espuma.

E a nitidez da dicção camoniana, o entendimento da exacta possibilidade de cada palavra encontram a sua sequência na dicção sem falha de João Cabral de Melo:

              Está no caixão exposto
              Como uma mercadoria
              À mostra para vender
              Quem antes tudo vendia.

E a voz de Camões, com seu tumulto rouco, sua paixão e sua veemência ecoa neste poema de Jorge de Sena:

              Cendrada luz enegrecendo o dia,
              tão pálida nos longes dos telhados!
              Para escrever mal vejo, e todavia
              a dor libérrima que a mão me guia
              essa me vê, conforta meus cuidados.
             
              Ao fim terrível que me espera extenso,
              nenhum conforto poderei pedir.
              Da liberdade o desdobrado lenço
              meu rosto cobrirá. Nem sei se penso
              ou se pensarei quando de mim fugir.
             
              Perdem-se as letras. Noite, meu amor,
              ó minha vida, eu nunca disse nada.
              Por nós, por ti, por mim, falou a dor.
              E a dor é evidente — liberdade.

                                      (As Evidências XXI)

Creio profundamente que toda a arte é didáctica, creio que só a arte é didáctica.
Camões propõe-nos palavras ditas sílaba por sílaba. Propõe-nos a contínua acusação do gosto da cobiça e da vileza, a contínua acusação da surdez, da asfixia, do opaco. Ensina-nos a não aceitar o ensombramento que nos rói. Ensina-nos uma atitude de crítica constante. Ensina-nos a procurar a diversidade do mundo em que estamos. Propõe-nos uma imagem exigente de nós próprios que nunca mais nos deixará sossegar.

                                                  Abril 1980

[in "Cadernos de Literatura", Numero 5, Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra / Instituto Nacional de Investigação Científica, dir. Andrée Crabbé Rocha, Abril de 1980 – p. 22-29; "Poemas Escolhidos", de Sophia de Mello Breyner Andresen, Lisboa: Círculo de Leitores, 1981 – p. 149-164]


Rematamos esta evocação camoniana, tendo Sophia como sujeito, com dois poemas escritos por ela própria, ambos alusivos ao Poeta-Maior da Língua Portuguesa: "Camões e a Tença" e "Soneto à Maneira de Camões". E tanto um como outro na forma dita/recitada e na forma cantada, num total de cinco registos: o primeiro poema recitado por Luís Gaspar e cantado por José Mário Branco, com música sua; e o segundo recitado pela autora e por Eunice Muñoz, e cantado por Patrícia Costa, sobre música, curiosamente, concebida pelo mesmo José Mário Branco (para o "Fado Penélope", presente no álbum "Ser Solidário", de 1982). Boa escuta!

Amélia Muge, Ana Laíns, Ana Moura, Brecha, Carlos Alberto Moniz, Cristina Branco, Cristina Maria, Francisco Fanhais, Janita Salomé, Joana Machado, João Braga, João Gil com Carminho, José Cid, José Mesquita, Katia Guerreiro, Mafalda Arnauth, Maria de Medeiros, Paula Oliveira, Pedro Barroso, Petrus Castrus, Raul Jorge, Sara Santiago e Tereza Tarouca contam-se entre os artistas fora da área mais erudita, por assim dizer, que também interpretaram e gravaram em disco poesia de Sophia [cf. Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen]. A pergunta que se impõe é óbvia e pertinente: algum desses espécimes poético-musicais consta na 'playlist' da Antena 1? Estamos em crer que nenhum, a avaliar pelo escrutínio que hoje andámos a fazer à emissão. A extrapolação é arriscada, mas se nada do repertório musical com versos de Sophia foi dado a ouvir a quem escuta a Antena 1 no dia de hoje, em que se completaram 20 anos sobre o desaparecimento da insigne autora, e tendo em conta a profusão de escória sonora na referida lista, as probabilidades de tal extrapolação estar errada são ínfimas. Se era da mais elementar justiça que algo da poesia de Sophia, sob a forma de canção, figurasse no cardápio musical da Antena 1 ao longo do ano, a falta de zelo em homenageá-la, ao menos desse modo, na presente efeméride denota bem o desleixo de Nuno Galopim de Carvalho e a sua inaptidão para as funções de director de programação do canal generalista da rádio pública portuguesa. Estivesse a Antena 1 sob o comando de alguém comprovadamente competente e ciente das obrigações de serviço público que cabe ao canal prestar e não seriam só canções com versos de Sophia que hoje os ouvintes poderiam escutar: seriam também poemas ditos/recitados, sem prejuízo, obviamente, da transmissão de um ou mais programas especiais sobre a poetisa e escritora, feitos de propósito ou resgatados do arquivo histórico da RDP. Nada fazer, ficando comodamente de braços cruzados é apoucar a memória da ilustre autora (a quem o Estado Português, por sinal, deu honras de Panteão Nacional) e é gozar com a cara dos pagantes da contribuição do audiovisual.
A crítica feita à direcção de programas da Antena 1 vale igualmente para a da Antena 2, na pessoa de João Almeida. Atendendo ao estatuto editorial do canal mais cultural da estação pública de rádio, não se pediria que fossem transmitidas gravações dos artistas supracitados (sem bem que, nalguns casos, tal não constituísse propriamente uma aberrante extravagância), mas havendo repertório de feição erudita composto por Fernando Lopes-Graça, Filipe Pires, António Victorino d'Almeida, Eurico Carrapatoso, Amílcar Vasques-Dias e João Madureira, e interpretado, respectivamente, por Dulce Cabrita, Coro Gulbenkian, Carmo de Almeida, Coro de Câmara Lisboa Cantat, Cláudia Pereira Pinto e Sete Lágrimas, não se pode aceitar que tenha sido totalmente ignorado. No caso da poesia dita/recitada, a omissão é tanto ou mais grave, dada a quantidade de registos a que se poderia deitar mão, quer do arquivo histórico da RDP, quer de edições discográficas. O canal da estação pública mais vocacionado para a Cultura passar completamente ao lado do vintenário da morte de Sophia é de todo inconcebível!



CAMÕES E A TENÇA



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Dual": VI – "Em Memória", Col. Círculo de Poesia, Vol. 51, Lisboa: Moraes Editores, 1972 – p. 73, 5.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2014 – p. 84; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – p. 162; "Obra Poética", org. Carlos Mendes de Sousa, Alfragide: Editorial Caminho, 2010 – p. 592, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015 – p. 642)
Recitado por Luís Gaspar* (in "Estúdio Raposa", 21.05.2014)


Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente


Nota:
O último verso da segunda estrofe tinha originalmente a seguinte redacção:
A quem ousou mais ser que a outra gente

* Luís Gaspar – voz
Produção – Luís Gaspar
URL: https://www.estudioraposa.com/



Camões e a Tença



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Dual": VI – "Em Memória", Col. Círculo de Poesia, Vol. 51, Lisboa: Moraes Editores, 1972 – p. 73, 5.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2014 – p. 84; "Obra Poética III", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – p. 162; "Obra Poética", org. Carlos Mendes de Sousa, Alfragide: Editorial Caminho, 2010 – p. 592, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015 – p. 642)
Música: José Mário Branco
Intérprete: José Mário Branco* (in LP "A Noite", UPAV, 1985, reed. Schiu!/Transmédia, 1987, EMI-VC, 1996, Warner Music Portugal, 2017; CD "Poesia EnCantada", vol. 2, EMI-VC, 2004)




Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou mais ser que a outra gente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente


* Coro – Rui Vaz, Carlos Guerreiro, Gustavo Sequeira, Necas Moreira e José Mário Branco
Trompas – Adácio Pestana, Diamantino Rodrigues e Joaquim Correia
Piano – António Emiliano
Baixo – Paulo Jorge
Bateria – Henry Sousa
Roland JX-3P – José Mário Branco
Trompete – Tomás Pimentel
Coro final – Coro da Universidade Técnica de Lisboa, dirigido por Luís Pedro Faro e Isabel Biu
Tímbales – Carlos Salomé

Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Produção artística – Manuela de Freitas, José Manuel Fortes, Trindade Santos e José Mário Branco
Produção executiva – Carlos Batista
Gravado no Angel Studio II, Lisboa, de 8 a 22 de Abril de 1985
Captação de som – José Manuel Fortes
Misturas – José Manuel Fortes e José Mário Branco
Transferência e remasterização para CD (edição de 1996) – José Manuel Fortes
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_M%C3%A1rio_Branco
https://arquivojosemariobranco.fcsh.unl.pt/
https://www.facebook.com/FascismoNuncaMais/posts/725849500857765/
https://www.buala.org/pt/cara-a-cara/jose-mario-branco-a-eterna-inquietacao
https://www.nit.pt/cultura/musica/morte-lenda-momentos-marcantes-vida-jose-mario-branco
https://expresso.pt/cultura/2019-11-19-O-momento-antes-de-disparar-a-seta-a-entrevista-de-Jose-Mario-Branco
https://www.esquerda.net/topics/dossier-303-jose-mario-branco-voz-da-inquietacao
https://www.publico.pt/jose-mario-branco
https://music.youtube.com/channel/UChQPBSV5W6kL-jw1Tp08g_w
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=jose+mario+branco



SONETO À MANEIRA DE CAMÕES



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950, 6.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – p. 48; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – p. 185; "Obra Poética", org. Carlos Mendes de Sousa, Alfragide: Editorial Caminho, 2010 – p. 198, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015 – p. 246)
Recitado pela autora* (in EP "Sophia de Mello Breyner Andresen diz Poemas da Sua Autoria", col. 'A Voz e o Texto', Decca/VC, 1959; CD "Sophia de Mello Breyner Andresen & Jorge de Sena ...Dizem os Poetas", Edições Valentim de Carvalho, 2018)




Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês — pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.


* Sophia de Mello Breyner Andresen – voz
URL: https://www.instituto-camoes.pt/activity/centro-virtual/bases-tematicas/figuras-da-cultura-portuguesa/sofia-de-mello-breyner-andresen
https://purl.pt/19841/1/
https://music.youtube.com/channel/UCUAM-tYb4owUCZFY6jA4nGQ



SONETO À MANEIRA DE CAMÕES



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950, 6.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – p. 48; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – p. 185; "Obra Poética", org. Carlos Mendes de Sousa, Alfragide: Editorial Caminho, 2010 – p. 198, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015 – p. 246)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Antologia da Mulher Poeta Portuguesa", Orfeu, 1981, reed. Movieplay, 2011)


Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês — pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.


* Eunice Muñoz – voz
José António Amaral e Paula Sousa – piano
Alberto Lopes – contrabaixo
Filipe José – violão
Filipe José e José António Amaral – percussão

Selecção de textos – António Barahona da Fonseca
Gravação e sons adicionais – Moreno Pinto
Masterização – José António Regada, nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Fevereiro de 2010
URL: https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$eunice-munoz
https://pt.wikipedia.org/wiki/Eunice_Mu%C3%B1oz
https://music.youtube.com/channel/UC7uG4hR-w1tdBR42jDpkFpg



Soneto à Maneira de Camões



Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950, 6.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – p. 48; "Obra Poética I", Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – p. 185; "Obra Poética", org. Carlos Mendes de Sousa, Alfragide: Editorial Caminho, 2010 – p. 198, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015 – p. 246)
Música: José Mário Branco (Fado Penélope)
Intérprete: Patrícia Costa* (in CD "Um Cantar Velado e Lento", Patrícia Costa, 2010)




Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês — pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.


* Patrícia Costa – voz
Miguel Amaral – guitarra portuguesa
André Teixeira – viola de fado
João Penedo – contrabaixo

Gravado e misturado por Francisco Maldonado, no Porto, em Maio de 2010
Masterizado por Francisco Maldonado, em Londres
URL: https://ofado.com/patricia-costa/
https://www.facebook.com/patriciacostafado/
https://www.youtube.com/@patriciacosta613/videos
https://music.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_m04oE3aNNgH-29Rdc0Q-U0nd7D0ToWLlc



Capa do N.º 5 dos "Cadernos de Literatura", dir. Andrée Crabbé Rocha (Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra / Instituto Nacional de Investigação Científica, Abril de 1980)
Concepção – Vasco Grácio



Capa do livro "Poemas Escolhidos", de Sophia de Mello Breyner Andresen (Lisboa: Círculo de Leitores, 1981)
Concepção – Novotipo



Capa da 1.ª edição do livro "Coral", de Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto: Livraria Simões Lopes, 1950)



Capa da 6.ª edição do livro "Coral", de Sophia de Mello Breyner Andresen (Lisboa: Assírio & Alvim, Set. 2013)
Xilogravura por Ilda David (2013)



Capa da 1.ª edição do livro "Dual", de Sophia de Mello Breyner Andresen (Col. Círculo de Poesia, Vol. 51, Lisboa: Moraes Editores, 1972)



Capa da 5.ª edição do livro "Dual", de Sophia de Mello Breyner Andresen (Lisboa: Assírio & Alvim, Out. 2014)
Xilogravura por Ilda David (2013)



Sobrecapa da 1.ª edição do livro "Obra Poética" (poesia reunida), de Sophia de Mello Breyner Andresen, org. Carlos Mendes de Sousa (Alfragide: Editorial Caminho, Out. 2010)
Concepção – Rui Garrido
Retrato de Sophia de Mello Breyner Andresen por Arpad Szenes



Capa da 3.ª edição do livro "Obra Poética" (poesia reunida), de Sophia de Mello Breyner Andresen, org. Carlos Mendes de Sousa (Lisboa: Assírio & Alvim, Abr. 2015)
Xilogravura por Ilda David (2015)



Capa do LP "A Noite", de José Mário Branco (UPAV, 1985)
Concepção – Artur Henriques
Fotografia – Luiz Carvalho



Capa do EP "Sophia de Mello Breyner Andresen diz Poemas da Sua Autoria" (Col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1959)



Capa do CD "Sophia de Mello Breyner Andresen & Jorge de Sena ...Dizem os Poetas" (Edições Valentim de Carvalho, 2018)



Capa do LP "Antologia da Mulher Poeta Portuguesa", de Eunice Muñoz (Orfeu, 1981)



Capa do CD "Antologia da Mulher Poeta Portuguesa", de Eunice Muñoz (Movieplay, 2011)



Capa do CD "Um Cantar Velado e Lento", de Patrícia Costa (2010).
Fotografia – Rita Burmester
Design gráfico – Sérgio Miranda (screentype.net)

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Outros artigos com poesia, ou narrativa para crianças, da autoria de Sophia:
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Em memória de Tereza Tarouca (1942-1919)
Sophia de Mello Breyner Andresen: "A Fada Oriana" (em versão radiofónica)

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Outros artigos com poesia e/ou teatro de Luís de Camões:
Camões recitado e cantado
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Em memória de Manoel de Oliveira (1908-2015)
Camões recitado e cantado (III)
Camões recitado e cantado (IV)
Camões recitado e cantado (V)
Camões recitado e cantado (VI)
Camões recitado e cantado (VII)
Camões recitado e cantado (VIII)
Camões recitado e cantado (IX)
Luís de Camões: "Os Lusíadas" (dois excertos), por Carlos Wallenstein
Luís Cília: "Se me Levam Águas" (Luís de Camões)
Teatro camoniano em versão radiofónica
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José Mário Branco: "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades"
Camões recitado e cantado (X)

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