23 dezembro 2020

Cantos de Natal da Galiza e de Portugal



Ariel Ninas, Catarina Moura e César Prata lançam-se na construção de um espectáculo a partir das canções populares que na Galiza e Portugal humanizam a divindade, através do nascimento de uma criança, o menino Jesus, cuidada por pastores e camponeses, adorada por Reis do Oriente e perseguida pelos poderosos para quem a mensagem de libertação redentora dos malefícios do Mundo era e continua a ser ameaçadora.
De 25 de Dezembro a 5 de Janeiro contam-se os 12 dias que marcam o início das celebrações do regresso do Sol (no hemisfério Norte), garante de novas sementeiras e fartas colheitas, anunciadas pelas árvores de folhagem caduca em que novos rebentos são a prova do início de um novo ciclo.
Eram as Festas Saturnais celebradas no Império Romano e de que se encontram ainda traços nos presépios e autos pastoris, no cepo do Natal e em tantas outras manifestações populares, neste Ciclo do Natal aos Reis.
[...]
Os versos cantados são reveladores de uma religiosidade popular próxima do sentir comum do povo. São tangedores de viola, de pandeiro e tamboril que reclamam as harpas e liras de oiro dos anjos do céu. E a preocupação de vestir o Menino, com sapatinhos novos, meiinhas, calções, camisa, colete, casaco, lencinho, chapéu. E Maria à beira do rio, lavando os cueiros do bendito Filho, que São José estendia. O Menino é beijado no pé, para rimar com São José, e na mão, para rimar com São João (Baptista). E o berço é de madeira (manjedoura) e palhas, "Em palhas deitado, em palhas aquecido". O Menino tem "boquinha de marmelada" para rimar com "... a minha mãe não tem nada", e "boquinha de requeijão" rima com "... a minha mãe não tem pão.".
O Deus Menino tudo merece. Da contemplação deslumbrada por um postigo entreaberto, merecedor de uma cadeirinha de oiro, mas também de papa doce, sopinhas da panela e a mama da mãe (Maria), ausente no moinho enquanto o pai (José) ficou na cama.
As canções da Galiza remetem quase todas para o Ano Novo e Reis. A chegada a Belém e a busca de um abrigo para o parto situa o momento do nascimento nas Festinhas de Nadale, quando "... á medianoite en punto/ a Virgen parido habia./ Tanta era a súa pobreza/ que un pano ela non tiña.". Mas as Festas de Ano Novo e Reis têm muita dança, brincadeira e malícia, que "as forzas piden reparo,/ mollo ás gorxas e non d'auga!/ Chourizo e longaniza,/ uña de porco, fuciño,/ ou de xamón dúas tortillas/ con dous xarriños de viño.". E das damas, nada escapa no dito brejeiro que antecede o aguinaldo (ofertas em género) num crescendo que vai do cabelo, passando pelos peitos, barriga e "... iso que ti tapas con un delantal,/ ten dúas columnas, palacio real.".
Todas estas canções foram revestidas por arranjos instrumentais que de certo modo as transfiguram sem as descaracterizar. A sanfona é uma feliz opção que nos remete para as representações dos presépios populares esculpidos ou pintados. Todos os instrumentos utilizados criam uma moldura sonora em que melodia e textos são valorizados.
E que nada têm a ver com a lamechice do Natal dos 'Jingle Bells' nos centros comerciais e das seitas religiosas que não perdem uma oportunidade para nos culpabilizar e transformar em pecadores contribuintes.
[...]

Domingos Morais (IELT - Instituto de Estudos de Literatura e Tradição, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa)


"Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", como refere o Prof. Domingos Morais, começou por ser, em 2017, um concerto itinerante focado na tradição musical da Galiza e de Portugal. Ciente de que seria importante ficar para a posteridade um registo fonográfico, a editora galega aCentral Folque lançou, em finais de 2019, o CD homónimo com gravações de estúdio da maioria dos cantares tradicionais que constituíram o espectáculo e ainda a peça instrumental "Ou da Casa!", de Angel Custodio Santabaya, e uma canção inédita, "Chove", com música de César Prata sobre quadras de Fernando Pessoa.
No primeiro dia de 2020, apresentámos neste blogue o tema "Entrada de Aninovo" [cf. Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata: "Entrada de Aninovo"], tendo-se então arreigado no nosso íntimo o desejo de revisitar este belíssimo álbum em vésperas do Natal seguinte. Esse momento chegou e, em jeito de prenda aos estimados leitores/visitantes, aqui ficam mais sete espécimes da nossa particular afeição: seis tradicionais e a referida canção sobre poesia pessoana.
Não seria bom que a Antena 1 também presenteasse os seus ouvintes com algumas cantigas do disco ora em destaque e, bem assim, com outras magníficas recriações do cancioneiro natalício que se gravaram entre nós, em lugar da tralha que atafulha a 'playlist'?



Eu Hei-de Ir ao Presépio



Letra e música: Tradicional (Portugal)
Arranjo: César Prata
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)




[instrumental]

Eu hei-de ir ao presépio
assentar-me num cantinho,
a ver como o Deus-Menino
nasceu lá tão pobrezinho.

Abra lá o seu postigo,
deixe estar um pouco aberto!
Quero ver o Deus-Menino
armadinho no presépio.

Eu hei-de dar ao Menino,
ao Menino hei-de dar
uma cadeirinha de oiro
para o Menino assentar.

Ó meu Menino Jesus,
ó meu rico fidalguinho,
hei-de dar-te papa doce,
hei-de ter-te mimosinho!

Ó meu Menino Jesus,
quem vos pudera valer
com sopinhas da panela
sem a vossa mãe saber!

Ó meu Menino Jesus,
quem vos há-de dar a mama?
Vossa mãe foi ao moinho,
vosso pai ficou na cama.

[instrumental]

Ó meu Menino Jesus,
ó meu rico fidalguinho,
hei-de dar-te papa doce,
hei-de ter-te mimosinho!

Ó meu Menino Jesus,
quem vos pudera valer
com sopinhas da panela
sem a vossa mãe saber!

Ó meu Menino Jesus,
quem vos há-de dar a mama?
Vossa mãe foi ao moinho,
vosso pai ficou na cama.



Ó Meu Menino Jesus



Letra e música: Tradicional (Beiras, Portugal)
Arranjo: Catarina Moura, César Prata e Anel Ninas
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)




[instrumental]

Ó meu Menino Jesus,
quem vos tirou do altar?
Foi o ministro de Cristo
para nos dar a beijar.

Ó meu Menino Jesus,
boquinha de marmelada,
dá-me da tua merenda
que a minha mãe não tem nada.

Ó meu Menino Jesus,
boquinha de requeijão,
dá-me da tua merenda
que a minha mãe não tem pão.

[instrumental]

Ó meu Menino Jesus,
ó meu Menino tão belo,
só vós vieste nascer
no rigor do caramelo.

Entrai, pastores, entrai
por esses portais adentro!
Vinde ver o Deus-Menino
no sagrado nascimento!

[instrumental]



Vestir o Menino



Letra e música: Tradicional (Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal)
Arranjo: Catarina Moura, César Prata e Anel Ninas
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)




[instrumental]

Menino Jesus,
tenho que vos dar
sapatinhos novos
para vos calçar.

Sapatos já tendes,
faltam-vos meiinhas:
eu vo-las darei,
de salvé-rainhas.

Meiinhas já tendes,
faltam-vos calções:
eu vo-los darei,
de mil orações.

Calções já os tendes,
falta-vos camisa:
eu vo-la darei,
de cambraia lisa.

[instrumental]

Camisa já tendes,
falta-vos colete:
eu vo-lo darei,
de pano de crepe.

Colete já tendes,
falta-vos casaco:
eu vo-lo darei,
de pano bem guapo.

Casaco já tendes,
falta-vos lencinho:
eu vo-lo darei,
de pano de linho.

Lencinho já tendes,
falta-vos chapéu:
eu vo-lo darei,
levai-me p'ró Céu.



Festas de Nadal



Letra e música: Tradicional (Carballo, Corunha, Galiza)
Arranjo: Catarina Moura, César Prata e Anel Ninas
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)




[instrumental]

As festiñas de Nadal
son festiñas de alegría.

Camiñando vai Xosé
e maila Virgen María.

Camiñaron a Belén
e a Belén chegou a guía.

Cuando a Belén chegaron
a medianoite sería.

– «Abre as portas, ó porteiro,
a Xosé e mais María!»

– «Como che as hei de abrir
se unha chave eu non tiña?»

– «Non as quero de ouro,
tampouco de prata fina.»

– «O que queria saber
é cuando a Virgen paría.»

– «Se pare esta noite
nen palabra que diría.»

E á medianoite en punto
a Virgen parido habia.

Tanta era a súa pobreza
que un pano ela non tiña.

Baixou un anxo do Ceo
que lindos panos traía:

Uns eran de holanda
e outros de holanda fina.

– «Se queres vir para o Ceo
rica cama te daria.»

– «É para o neno Jesús
que nos brazos o traía.»


Nota: «Panxola de Noiteboa».



Alta Vai a Lua Alta



Letra e música: Tradicional (Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal)
Arranjo: Catarina Moura, César Prata e Anel Ninas
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)




[instrumental]

Alta vai a Lua alta
como o Sol do meio-dia.
Mais alta ia a Senhora  | bis
quando para Belém ia.  |

São José ia atrás dela,
alcançá-la não podia.
Foi alcançá-la a Belém  | bis
onde ela estava parida. |

Tão grande era a sua pobreza
que nem um panal tenia.
Botou as mãos à cabeça,  | bis
a um véu que ela trazia.   |

Partiu-o em três bocados,
em três bocados o partia:
um era para de manhã,
outro para o meio-dia,

outro para a meia-noite
quando Jesus adormia.
Desceram os anjos do Céu
Cantando: avé, Maria!
Avé, Maria de graça, de graça avé, Maria! [bis]


Nota: «Cantada nas segadas, ao fim da tarde.»



Toca, Sino, Toca!



Letra e música: Tradicional (Portugal)
Arranjo: César Prata
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)




[instrumental]

Esta noite é noite santa.
Não é noite de dormir
que um lindo botão de rosa
à meia-noite há-de abrir.

Harpas de oiro, liras d'oiro,
anjos do Céu afinai.
Paz na Terra e nas Alturas,
Glória e louvor cantai.

[instrumental]

Esta noite é noite santa.
Outra mais santa não há
que um lindo botão de rosa
desabrochou em Judá.

Tangedores de viola,
de pandeiro e tamboril,
tomai vós a minha lira
e dai-me o vosso arrabil!

[instrumental]

Toca, sino, toca
tão badalão!
Toca, sino, toca
no meu coração!
[6x]

Toca, sino, toca!



Chove



Poema: Fernando Pessoa (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: César Prata
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)




[instrumental]

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

[instrumental]

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo inda outra quadra
Fico gelada dos pés.

[instrumental]

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.



Chove. É dia de Natal.

(Fernando Pessoa, in "Poesias de Fernando Pessoa", Col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, Lisboa: Edições Ática, 1993 – p. 127)


Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

25-12-1930


* [Créditos gerais do disco:]
Catarina Moura – voz
Ariel Ninas – sanfona, sinos, harmónica, chocalhos, adufe e voz
César Prata – guitarras, dulcimer, adufe, harmónio, mbira, 'beat root' e voz

Gravado por César Prata, no estúdio RequeRec (Trancoso)
Misturas e masterização – César Prata
URL: http://artistas.folque.com/do-natal-aos-reis/



Capa do CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", de Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata (aCentral Folque, 2019)
Desenho e arte final – Mauro Sanin Leira

Alinhamento:
1. Eu Hei-de Ir ao Presépio (PT)
2. Entrada de Aninovo (GZ)
3. Janeiras (Alentejo, PT)
4. Cantar de ls Reis (Planalto Mirandês, Trás-os-Montes e Alto Douro, PT)
5. Ó Meu Menino Jesus (Beiras, PT)
6. Aguinaldo (Tomonde, Cerdedo, Pontevedra, GZ)
7. Vestir o Menino (Trás-os-Montes e Alto Douro, PT)
8. Reices das Mozas (Brates, Boimorto, Corunha, GZ)
9. Chove (Fernando Pessoa / César Prata, PT)
10. Festas de Nadal (Carballo, Corunha, GZ)
11. Beijai o Menino (Trás-os-Montes e Alto Douro, PT)
12. Bento Airoso (Trás-os-Montes e Alto Douro, PT)
13. Reices Vellos (Brates, Boimorto, Corunha, GZ)
14. Toca, Sino, Toca! (PT)
15. Alta Vai a Lua Alta (Trás-os-Montes e Alto Douro, PT)
16. Ou da Casa! (Angel Custodio Santabaya, GZ)

Contacto para encomendas:
maurocomunica@folque.com

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Outros artigos neste blogue com música e/ou poemas natalícios:
Miguel Torga: "Natal"
Não há canções de Natal na música portuguesa?
Música portuguesa de Natal
Celina da Piedade: "Este Natal"
António Gedeão: "Dia de Natal", por Afonso Dias
Vozes do Imaginário: "Não Há Noite Mais Alegre"
Miguel Torga: "Natividade"
Um Natal à viola da terra, por Rafael Carvalho

19 novembro 2020

Bernardo Santareno: centenário do nascimento



SANTARENO, Bernardo (pseudónimo de António Martinho do Rosário) (19/11/1920, Santarém - 31/8/1980, Lisboa). Licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra, especializou-se em psiquiatria, cujos conhecimentos aplicou no sentido da orientação profissional. Tendo iniciado a sua carreira literária com três livros de versos (A Morte na Raiz, 1954; Romances do Mar, 1955; Os Olhos da Víbora, 1957), a publicação, neste último ano, de um volume de teatro, em que juntou três peças (A Promessa, O Bailarino e A Excomungada), constituiu a revelação impetuosa de um dos maiores dramaturgos da nossa língua. Sobretudo a primeira destas peças, ainda nesse ano levada à cena pelo Teatro Experimental do Porto, numa encenação de António Pedro, mas retirada ao fim de alguns dias sob pressão dos círculos mais reaccionários da Igreja, anunciava já as características essenciais do que viria a ser a sua obra futura, divisível por dois ciclos perfeitamente separáveis mas complementares. No primeiro, que vai até 1962, a estrutura adoptada é a da dramaturgia realista pós-ibseniana, temperada por um lirismo e uma simbologia de estirpe iorquiana; o segundo, iniciado em 1966, recorre à fórmula narrativa do teatro épico brechtiano, correspondendo a uma evolução estética e ideológica que, no entanto, obedece a uma grande coerência intrínseca. Se nas peças que constituem o «ciclo aristotélico» do teatro de Santareno (além das três já mencionadas, O Lugre e O Crime de Aldeia Velha, 1959; António Marinheiro, O Duelo e O Pecado de João Agonia, 1961; Anunciação, 1962) avulta a vertente existencial das suas personagens e do conflito em que se debatem, é a componente social, acompanhada de um marcado propósito interventivo, que predomina nas que integram o «ciclo narrativo» (O Judeu, 1966; O Inferno, 1967; A Traição do Padre Martinho, 1969; Português, Escritor, 45 Anos de Idade, 1974; O Punho, inédita até 1987, e as quatro peças num acto integradas no volume Os Marginais e a Revolução, 1979). Todavia, excepto do ponto de vista estrutural, não existe ruptura daquelas para estas. O problema da frustração carnal, onde radica o cerne da acção dramatizada em A Promessa, domina todas as peças seguintes, embora derivando nas primeiras de causas intrínsecas às personagens, ou por elas interiorizadas (o voto de abstinência de Maria do Mar e José n' A Promessa, o histerismo de Joana n' O Crime de Aldeia Velha, o homossexualismo de João Agonia, o incesto em António Marinheiro e enquadrando-se nas últimas num circunstancialismo histórico e social em que essa frustração se projecta num plano superior ao indivíduo, vindo a pôr em causa o seu lugar na colectividade a que pertence e conflituando o seu relacionamento com ela. Religiosidade e superstição, misticismo e erotismo são os pólos entrecruzados de um excruciante jogo dialéctico entre o bem e o mal, que se relativiza e torna cada vez mais concreto à medida que a obra progride e evolui no sentido de uma crescente consciencialização social. O que, a princípio, se desenhava como transgressão de um código moral (quebra de promessa ou voto religioso, amores incestuosos ou contranatura) desvenda-se-nos, à luz dos dramas narrativos posteriores, como também violação da ordem social vigente, e esta como expressão dos interesses da classe detentora do poder, contra cuja iniquidade é pois lícita a insurreição. Daí a rejeição anárquica dos «amantes malditos» de O Inferno, a «traição» do Padre Martinho e a sua final opção política, bem como a do «português, escritor», que prefere o silêncio à cumplicidade com essa ordem iníqua, violentamente denunciada na peça homónima, em que pode ler-se o testamento espiritual de quem, com o autor destes dramas exemplares, «amassando com as [suas] mãos a mentira, a fealdade, a traição, o despudor» aspirou a «ensinar o povo a conhecer o rosto autêntico da beleza, da verdade, da coragem e da virtude», como ele fez dizer a António José da Silva, o Judeu, perseguido e queimado pelo Santo Ofício, através do qual Santareno transpõe para o século XVIII a sua própria condição de escritor silenciado pelo fascismo.

LUIZ FRANCISCO REBELLO (in "Dicionário de Literatura Portuguesa", Org. e dir. Álvaro Manuel Machado, Lisboa: Editorial Presença, 1996 – p. 435-436)


BIBLIOGRAFIA:

Poesia:
- A Morte na Raiz, Coimbra: Edição do autor, 1954
- Romances do Mar, Santarém: Edição do autor, 1955
- Os Olhos da Víbora, Lisboa: Casa do Ardina, 1957

Narrativas:
- Nos Mares do Fim do Mundo (Doze meses com os pescadores bacalhoeiros portugueses, por bancos da Terra Nova e da Gronelândia), Lisboa: Edições Ática, 1959

Teatro:
- Teatro, Lisboa: Edição do autor, 1957
        - A Promessa
        - O Bailarino
        - A Excomungada
- O Lugre, Lisboa: Edições Ática, 1959
- O Crime da Aldeia Velha, Lisboa: Edições Ática, 1959
- António Marinheiro (O Édipo de Alfama), Porto: Divulgação, 1960
- Os Anjos e o Sangue, Lisboa: Edições Ática, 1961
- O Duelo, Lisboa: Edições Ática, 1961
- O Pecado de João Agonia | Irmã Natividade (nova versão de A Excomungada), pref. Manuel Dinis Jacinto, Porto: Divulgação, 1961
- O Prisioneiro, in jornal "Correio do Ribatejo", 1961
- Anunciação, Lisboa: Edições Ática, 1962
- O Judeu, Lisboa: Edições Ática, 1966
- O Inferno, Lisboa: Edições Ática, 1968
- A Traição do Padre Martinho, Lisboa: Edições Ática, 1969
- Português, Escritor, 45 anos de Idade, Lisboa: Edições Ática, 1974
- Três Quadros de Revista, 1975, in "Obras Completas", Vol. IV, Org., posfácio e notas de Luiz Francisco Rebello, Lisboa: Editorial Caminho, 1987
        - Os Vendedores de Esperança
        - A Guerra Santa
        - O Milagre das Lágrimas
- Os Marginais e a Revolução, 1979, in "Obras Completas", Vol. IV, Org., posfácio e notas de Luiz Francisco Rebello, Lisboa: Editorial Caminho, 1987
        - Restos
        - A Confissão
        - Monsanto (antes intitulada O Senhor Silva e, depois, Na Berma da Estrada)
        - Vida Breve em Três Fotografias
- O Punho, 1980, in "Obras Completas", Vol. IV, Org., posfácio e notas de Luiz Francisco Rebello, Lisboa: Editorial Caminho, 1987

Traduções:
- La Contessa, de Maurice Druon, 1963
- Vigilância Especial, de Jean Genet, 1965
- O Viajante, de Georges Schehadé, 1966


Faz hoje um século que nasceu o mais proeminente dramaturgo português da segunda metade do século XX e, como lembra Luiz Francisco Rebello, um dos maiores da língua portuguesa: Bernardo Santareno.
Pouco depois das 18h:00, a Antena 2 transmitiu "Nos Mares do Fim do Mundo", uma adaptação por Jorge Silva Melo de passagens da obra homónima original. Louva-se o cuidado que a direcção da rádio cultural da estação pública teve em não deixar passar em claro a efeméride, mas lamenta-se a falta de sonorização naquela versão, a exemplo, aliás, de (quase) tudo o que até agora apareceu no espaço "Teatro sem Fios", ao arrepio da melhor tradição do teatro radiofónico. O que poderia ser um produto digno e cativante de se ouvir foi num pastel algo insípido que poucos desejarão voltar a 'ingerir'. No pólo diametralmente oposto a estas canhestras produções para a rádio, e sem sair do universo santareniano, estão duas adaptações dos inícios dos anos 90 de que guardamos mui grata memória: "António Marinheiro (O Édipo de Alfama)" e "O Pecado de João Agonia". Sabíamos que outras peças de Santareno tiveram versão radiofónica nos tempos áureos do teatro radiofónico e agora, consultando a plataforma RTP-Arquivos, lográmos referenciar seis: "Irmã Natividade" (Tempo de Teatro, 1978), "O Lugre" (Tempo de Teatro, 1979), "A Promessa" (Tempo de Teatro, 1979), "O Duelo" (Tempo de Teatro, 1985), "Anunciação" (Tempo de Teatro, 1986) e "O Crime da Aldeia Velha" (Noite de Teatro, 1995).
A cifra de oito talvez não corresponda à totalidade das produções radiofónicas feitas a partir de textos do dramaturgo até ao ano (2005) em que Eduardo Street se aposentou, mas é curioso verificar que sejam todas posteriores à Revolução dos Cravos. Razão óbvia: sendo Bernardo Santareno um autor malquisto pela ditadura era impensável que um dos principais órgãos de propaganda do regime, a Emissora Nacional, fosse divulgar as suas peças.
A esmagadora maioria dos ouvintes hodiernos, mormente os jovens, nunca escutou as citadas versões radiofónicas, e também muito poucos tomaram contacto com elas em palco, ou mesmo terão visto as adaptações cinematográficas d' "O Crime da Aldeia Velha" e d' "A Promessa", realizadas, respectivamente, por Manuel Guimarães e António de Macedo. Ora, e sendo verdade que qualquer pretexto é bom para se resgatar o património radiofónico de teatro, o centenário de Bernardo Santareno (que tem hoje o epicentro mas que vai estender-se por mais algum tempo) afigura-se, obviamente, o melhor de todos para a Antena 2, em cumprimento das suas obrigações culturais, proporcionar aos seu auditório a (re)descoberta da magistral obra que o insigne dramaturgo nos legou. A reposição de uma peça por semana é perfeitamente acomodável na grelha em vigor e o horário até poderá ser o mesmo de hoje. Nada a objectar.
Fica expresso o pedido, na esperança de que o director de programas em funções tenha a hombridade de tomá-lo em boa conta, dignificando assim o serviço público de rádio.



Capa da 1.ª edição do livro de narrativas "Nos Mares do Fim do Mundo" (Edições Ática, 1959).
Uma edição fac-similada foi publicada em 2019, por iniciativa conjunta da editora "A Bela e o Monstro" e do jornal "Público".

«Nos Mares do Fim do Mundo foi, em grande parte, escrito a bordo do arrastão "David Melgueiro", na primeira campanha de 1957, a primeira também em que eu servi na frota bacalhoeira portuguesa, como médico. Mas depois desta, tomei parte numa segunda, em 1958, agora a bordo do "Senhora do Mar" e do navio-hospital "Gil Eannes", em que assisti sobretudo aos barcos de pesca à linha. Assim pude de facto conhecer, por vezes intimamente, todos os aspectos da vida dos pescadores bacalhoeiros portugueses, em mares da Terra Nova e da Gronelândia, e completar este livro.» (Bernardo Santareno)



Capa da reedição (parcial) de 1997 (Col. 98 Mares, Expo' 98).



Capa da reedição de 1999 (Edições Ática).
Edição com capa idêntica saiu em 2006 sob a chancela da Editorial Nova Ática.



Capa da reedição de 2016 (E-Primatur).
Esta edição inclui dois textos inéditos ("Responsabilidade" e "Rebelião"), e ainda fotografias novas e a ficha de inscrição do médico no Grémio dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau.


Nota: Ainda a respeito da obra "Nos Mares do Fim do Mundo", recomenda-se vivamente a leitura do muito interessante artigo de Maria João Falcão no blogue "Falcão de Jade".

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02 novembro 2020

Belaurora: "Saudade"


Escultura funerária representativa da Saudade, pertencente ao jazigo de D. Joana Nepomuceno Burguette de Oliveira Barata, 1866, Cemitério dos Prazeres, Lisboa.
© Rotas Lusitanas (https://rotaslusitanas.blogspot.com/)


«A saudade é um luto, / Uma dor, uma aflição; / Ai, é um cortinado roxo, / Saudade, que me cobre o coração.» Esta quadra surge em diversas variantes daquela que é, muito provavelmente, a mais popular de todas as cantigas dolentes açorianas que exprimem a dor pela ausência ou perda de pessoa querida, comummente denominadas de "Saudade". Bem menos conhecida é uma outra "Saudade", da pequena ilha do Corvo, mas igualmente impregnada de profunda plangência; essa característica e o teor dos versos tornam-na perfeitamente adequada para assinalar este Dia de Finados, o primeiro (e, esperamos, o último) sob a vigência da pandemia de COVID-19, que tantas vítimas já causou, directas ou colaterais.
Conhecemos quatro recriações, publicadas em CD, da aludida "Saudade" corvina: a primeira, de 1999, pelo Grupo de Cantares Belaurora; a segunda, de 2010, por Helena Oliveira; a terceira, de 2015, pela Brigada Victor Jara; e a quarta, de 2018, por Rafael Carvalho, que tem a particularidade de ser um instrumental executado em viola da terra. Escolhemos a primeira, que consideramos ser a mais tocante e impressiva, quer pela irrepreensível interpretação vocal de Carla Medeiros, quer pelo muito bem gizado arranjo que serve primorosamente a índole melancólica da melodia.

Não somos ouvintes da Antena 1-Açores mas queremos acreditar que o Grupo de Cantares Belaurora, assim como outros grupos e artistas em nome individual radicados no arquipélago que se dedicam à recriação do cancioneiro açoriano, seja objecto de cabal divulgação. Na Antena 1 do continente, a música tradicional portuguesa (das múltiplas regiões) só tem lugar nos espaços "Cantos da Casa" [rubrica >> RTP-Play / programa >> RTP-Play] e, uma vez por outra, perdida no meio do fado, no programa "Alma Lusa" [>> RTP-Play]. E ainda por cima com a pecha de os horários de emissão se situarem no período em que a generalidade dos ouvintes está a dormir, ou seja, sempre depois do noticiário da meia-noite e antes do sinal horário das 08h:00 da manhã. Na 'playlist', música tradicional é coisa que não entra, talvez porque fosse destoar da imensa escória da área pop com que a atafulharam. Perguntamos: com que ânimo e disposição é que os pagantes da contribuição do audiovisual vão continuar a desembolsar a espórtula anual de 34,20 euros (+ I.V.A.) para sustentar uma rádio que lhes oculta a música mais identitária do seu país?



Saudade



Letra e música: Tradicional (Vila Nova do Corvo, Açores)
Informante: Ti Pedro Pimentel Cepo
Recolha: Carlos Sousa (1995)
Intérprete: Belaurora* / voz solo de Carla Medeiros (in CD "Lágrimas de Saudade", Açor/Emiliano Toste, 1999; 2CD "Quinze Anos de Cantigas": CD 2, faixa 20, Açor/Emiliano Toste, 2000) [>> Facebook Vídeos]


[instrumental]

Oh! oh! oh!

Oh! Em má hora, oh!, em má hora, anjo querido,
Me pediste uma flor...
Das que eu tenho, das que eu tenho aqui,
São quatro, oh!, são quatro,
Nem uma fala em amor.

Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!

Oh! A primeira, oh!, a primeira é uma saudade
Que me deram quando amei;
Custa caro, custa caro,
É um tesouro, é um tesouro
Que com lágrimas comprei.

Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!

Oh! A segunda, oh!, a segunda é um martírio
Cujo espinho atravessou
O coração, o coração
Que a regava, que a regava...
De pranto ela murchou.

Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!

Oh! A terceira, oh!, a terceira é um cravo,
É um goivo, não to dou!
Fui colhê-lo, fui colhê-lo
Ao cemitério, ao cemitério...
Entre campas vegetou.

Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!

Oh! A quarta, oh!, a quarta é uma rosa,
É uma rosa, mas olha:
Se eu morrer, se eu morrer
E tu souberes, e tu souberes,
Na minha campa a desfolha!

Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!
Oh! oh! oh!...


Nota: «Esta "Saudade" aprendi-a com o Ti Pedro Cepo, aquando do Primeiro Festival do Ramo Grande, na ilha Terceira (1995).
A letra foi-me enviada, directamente do Corvo, por Tibério Silva, com o desejo expresso de um dia a poder ouvir cantada pelo Belaurora.» (Carlos Sousa / Belaurora)

* Belaurora:
Ana Medeiros – coros, violão, cavaquinho, viola baixo e percussão
Carla Medeiros – voz solo, coros e percussão
Carlos Sousa – voz solo, coros, violão, bandolim e violino
Carmen Medeiros – coros e percussão
Carolina Costa – coros e percussão
Eduardo Medeiros – coros e acordeão
Francisco Nascimento – coros e violão
Isabel Meireles – coros e percussão
Laureno Sousa – coros e percussão
Margarida Sousa – coros e percussão
Pedro Medeiros – coros, flauta e clarinete
Quitéria Sousa – coros e percussão
Rui Lucas – coros e violão
Tiago Sousa – coros e percussão
Tomás Sousa – voz solo, coros e violão

Arranjos – Carlos Sousa e Ana Medeiros
Direcção artística – Carlos Sousa
Gravação – Emiliano Toste, no "Solar do Conde", Capelas (Ponta Delgada), em Dezembro de 1998
Misturas – Emiliano Toste, Carlos Sousa e Pedro Barreiros
Masterização – Emiliano Toste
URL: http://www.belaurora.com/iniciop.php
https://www.facebook.com/grupodecantaresbelaurora/
https://www.sinfonias.org/mais/musica-portuguesa-anos-80/directorio/760-belaurora
https://pgl.gal/belaurora-grupo-de-cantares-popular-dos-acores/
https://www.youtube.com/channel/UC2OgEof5SLnYuIxifii24hQ/videos?query=belaurora



Capa do CD "Lágrimas de Saudade", do grupo Belaurora (Açor/Emiliano Toste, 1999)
Desenho – Gilberto Bernardo

01 outubro 2020

José Barros e Navegante: "Músicos, Cravos e Rosas"


Henri Matisse, "La Musique" ("A Música"), 1910, óleo sobre tela, 260 x 389 cm, Museu do Hermitage, Sampetersburgo, Rússia


Fundado em 1992, por iniciativa de José Barros que saíra do grupo Romanças, o grupo Navegante tem, até à data, nove títulos publicados (oito CDs e um DVD), a saber: "Navegante" (1994), "Cantigas Partindo-se" (1997), "Não Há Heróis" (1999), "Rimances" (2001), "...Vivos. E ao Vivo" (2003), "Meu Bem, Meu Mal" (2008), "Cantigas Tradicionais Portuguesas de Natal e Janeiras" (2009), "Cantares do Povo Português" (2012, DVD) e "À'Baladiça" (2018).
A recriação do cancioneiro tradicional foi o móbil inicial, tendo a partir de certa altura surgido a necessidade de também criar repertório novo, assente, como se impunha, nos paradigmas estéticos da matriz musical popular. Assim aconteceu em "Meu Bem, Meu Mal" e, de modo ainda mais radical, em "À'Baladiça", integralmente constituído por temas originais. A abrir o alinhamento do álbum mais recente está a canção "Músicos, Cravos e Rosas", escrita e composta por José Barros, a qual, atendendo ao título e – sobretudo – à temática abordada na letra, não podia vir mais a propósito para funcionar como mote à celebração deste Dia Mundial da Música.
Serve para exprimirmos o nosso penhorado agradecimento a José Barros e aos músicos que com ele têm colaborado, pelo significativo contributo que deram (e, esperamos, continuem a dar) para o enriquecimento do nosso património musical/fonográfico. E serve também, neste tempo de pandemia, para manifestarmos o nosso apreço e solidariedade a todos os músicos de mérito – homens (cravos) e mulheres (rosas) – que estão a passar por dificuldades muito sérias, nalguns casos a roçar a indigência, em consequência do cancelamento dos concertos agendados, no âmbito das medidas restritivas impostas pelas autoridades político-sanitárias com o propósito de conter a disseminação do altamente contagioso e temível SARS-CoV-2.
Para ajudar à desgraça, a Antena 1, que tem a obrigação legal (e ética, em razão da taxa cobrada aos cidadãos e às empresas de Portugal) de estar na linha da frente no que concerne à divulgação da música popular portuguesa de qualidade, insiste em preencher a sua 'playlist' (a qual ocupa mais de 95 % do tempo musical do canal incluindo os horários de maior audiência – é bom ter presente este dado) com quantidades industriais de lixo sonoro, boa parte do qual exógeno. Assim dita a vontade e o capricho de Rui Pêgo e dos seus acólitos, inconscientes (ou talvez não) do prejuízo e do dano que estão a causar aos melhores músicos e autores portugueses. Perguntamos: por que motivo quem está acima e tem a competência e o poder de extirpar o cancro se abstém de agir?



Músicos, Cravos e Rosas



Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros
Intérprete: José Barros e Navegante* (in CD "À'Baladiça", Tradisom, 2018)




[instrumental]

É pela música
que encantas os sentidos,
apurados pelos sonhos
mais antigos
de entender a emoção
e a alegria,
provocado o coração
em agonia.
Vais levado pelo vento,
pelos sons do pensamento.

Cravos
são livres, são bravos.
Rosas
são belas, são prosas.
[bis]

[instrumental]

É pelo som do mar
no canto das sereias
que te vão contar
compassos e colcheias,
mas tu és o tempo forte
e o agasalho.
Tempo fraco não é sorte,
é trabalho.
Vais levado pelo vento,
pelos sons do pensamento.

Cravos
são livres, são bravos.
Rosas
são belas, são prosas.
[bis]

[instrumental]

Quem te compra
cria garras de encantar.
Vendes a alma?
Essa não se pode comprar.
Na viagem pelos sons
desta braguesa
oiço histórias
de uma canção portuguesa.
É uma luta contra o vento,
não se vende o pensamento.

Cravos
são livres, são bravos.
Rosas
são belas, são prosas.
[3x]

Cravos e rosas.


* Navegante:
José Barros – voz, viola braguesa, cavaquinho
Miguel Tapadas – piano
Pedro Batalha – baixo
Abel Batista – bateria
Músicos convidados:
José Manuel David – small pipe
Miguel Veras – guitarra
Rui Júnior – percussão

Produção e direcção musical – José Barros
Gravação – Miguel Salema e José Barros
Misturas e masterização – António Pinheiro da Silva
URL: https://www.facebook.com/jbnavegante/
https://tradisom.com/produto/abaladica/
https://www.youtube.com/user/jobarnavega/videos
https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_lXVi2_IoBLpa-Sh-yJVyhkZ65lLKt_17s



Capa do CD "À'Baladiça", de José Barros e Navegante (Tradisom, 2018)
Fotografia – Rui Moreno
Grafismo – Ivone Ralha

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Artigos relacionados:
'Playlist' da Antena 1: uma vergonha nacional (II)
Fernando Tordo: "Bendita Música"
Pedro Barroso: "Música de Mar"
Sérgio Godinho: "Mão na Música"

22 setembro 2020

Diabo a Sete: "Outono Embargado"


Vincent Van Gogh, "Jardin Public à Arles" ("Jardim Público em Arles"), Outubro de 1888, óleo sobre tela, 72 x 92 cm, Colecção particular


Quando em Portugal Continental eram 14h:31' (13h:31' UTC), o Sol, no seu movimento anual aparente (na verdade, a Terra é que se move), cruzou o equador celeste em direcção ao hemisfério sul. Foi o equinócio do Outono, no hemisfério norte.
Em 2020, a estação da nostalgia fica ensombrada pelo recrudescimento de uma horrífica pandemia vírica, e em tal circunstância afigurou-se-nos inteiramente pertinente, para assinalar a sua chegada, escolhermos a peça instrumental "Outono Embargado", composta por Pedro Damasceno e magnificamente executada pelo seu grupo Diabo a Sete.
Com três álbuns publicados – "Parainfernália" (2007), "tarAra" (2011) e "Figura de Gente" (2016), ao qual pertence o espécime em destaque –, Diabo a Sete é um dos mais lídimos representantes da nova folk portuguesa, não se restringindo à recriação do cancioneiro tradicional (o que seria decerto mais cómodo), outrossim empenhando-se na criação de repertório novo, dando assim um assinalável contributo para o enriquecimento do nosso património musical/fonográfico.
Como se explica, então, que lhe seja negada a merecida presença nas 'playlists' das Antenas 1 e 3? Uma tremenda injustiça que é, aliás, extensiva a dezenas de excelentes projectos (colectivos ou individuais) que em Portugal laboram nas áreas musicais de cariz mais identitário.
Quanto tempo mais é que os pagantes da contribuição do audiovisual, conscientes da importância de existir um serviço público de rádio digno desse nome, terão de esperar até que tão anómala e aberrante situação seja corrigida?



Outono Embargado



Música: Pedro Damasceno
Arranjo: Diabo a Sete e Julieta Silva
Intérprete: Diabo a Sete* (in CD "Figura de Gente", Sons Vadios, 2016)




(instrumental)


* Diabo a Sete:
Celso Bento – flauta de bisel, gaita-de-foles
Eduardo Murta – baixo eléctrico
Luísa Correia – guitarra acústica
Miguel Cardina – bateria, percussões
Pedro Damasceno – machinho
Sara Vidal – harpa

Produção – Quico Serrano
Gravado por Quico Serrano, nos Estúdios da Aguda, Vila Nova de Gaia, de 2014 a 2016
Mistura e masterização – Quico Serrano
URL: https://www.sonsvadios.pt/artistas/diaboasete/
https://diaboasete.bandcamp.com/
https://www.youtube.com/channel/UCSXlbTzyy3PzNLVu65bqohg
https://www.youtube.com/c/SonsVadios/videos?query=diabo+a+sete



Capa do CD "Figura de Gente", do grupo Diabo a Sete (Sons Vadios, 2016)
Grafismo – Luísa Bebiano
Ilustração – Ana Rosa Assunção

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Outros artigos com canções alusivas do Outono:
Celebrando Maria Teresa de Noronha
Max: "Outono na Cidade"
Jorge Cravo: "Outono à Beira-Rio"

20 junho 2020

Trovante: "Noite de Verão" (Manuel da Fonseca)


Eugen von Blaas, "Adrette Venezianerin am Balkon" ("Rapariga Veneziana à Varanda"), 1883, óleo sobre painel de madeira, 30 x 22,5 cm, Colecção particular


Em 2020, o solstício de Verão ocorreu às 21:44, hora UTC (Universal Time Coordinated = Tempo Universal Coordenado), que em Portugal Continental corresponde às 22:44. A circunstância de ser em plena noite, mas ainda em hora boa para se ir apanhar ar fresco, deu-nos a ideia de trazer, para assinalar o início da estação estival, o poema "Noite de Verão", de Manuel da Fonseca, que João Gil musicou para ser gravado pelo seu grupo Trovante e fazer parte integrante do álbum "Terra Firme", editado em Novembro de 1987.
Apesar de ser um dos grupos mais importantes da História da Música (Popular) Portuguesa, o Trovante é hoje em dia virtualmente impossível de se ouvir na Antena 1, a mesma que, volta e meia, dispara o 'jingle' "Antena 1: uma rádio com memória". Como explicar tal anormalidade?



Noite de Verão



Poema: Manuel da Fonseca (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: João Gil
Arranjo: Trovante
Intérprete: Trovante* (in LP "Terra Firme", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1989, EMI Music Portugal, 2013; CD "O Melhor dos Trovante", EMI Music Portugal, 2010; "Trovante: Grandes Êxitos", EMI Music Portugal, 2013)




[instrumental]

Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
...aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
— mas baixa os olhos se algum homem passa...

Sente-se nua
— mas baixa os olhos se algum homem passa...
Sente-se nua.

[instrumental]

Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
...aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
— mas baixa os olhos se algum homem passa...

Sente-se nua
— mas baixa os olhos se algum homem passa...
Sente-se nua.
Sente-se nua.
Sente-se nua.
Sente-se nua.

[instrumental]


* Trovante:
Artur Costa – saxofone
Fernando Júdice – baixo
João Gil – guitarras e coros
José Martins – sintetizador
José Salgueiro – bateria, percussão e coros
Luís Represas – voz
Manuel Faria – piano e sintetizador
Produção – Manuel Faria e Artur Costa
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Agosto, Setembro e Outubro de 1987
Engenheiro de som – Paulo Neves
Misturas – Paulo Neves, Manuel Faria e Artur Costa
URL: http://www.sinfonias.org/mais/musica-portuguesa-anos-80/directorio/955-trovante
http://www.macua.org/biografias/trovante.html
https://www.youtube.com/channel/UCbaWTKc3QdgF37Q933YIi4A
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=trovante



NOITE DE VERÃO

(Manuel da Fonseca, in "Planície", Coimbra: Novo Cancioneiro, 1941, reed. Lisboa: Althum/Museu do Neo-Realismo, 2010; "Poemas Completos", Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; "Poemas Completos", pref. Mário Dionísio, 2.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1963 – p. 109; "Poemas Completos", pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 120)


Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
...aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
— mas baixa os olhos se algum homem passa...



Capa da 1.ª edição do livro "Planície", de Manuel da Fonseca (Col. Novo Cancioneiro, N.º 6, Coimbra, 1941)
Ilustração – Manuel Ribeiro de Pavia



Capa do LP "Terra Firme", de Trovante (EMI-VC, 1987)
Concepção – Fátima Rolo Duarte
Fotografia – António Homem Cardoso

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Artigos relacionados:
Janita Salomé: "Reino de Verão"
Grupo Banza: "Verão"
Fernando Pardal: "Estio" (Manuel da Fonseca)

18 junho 2020

José Saramago: "Dia Não"



Publicado em 1966, "Os Poemas Possíveis", de José Saramago, foi um dos livros de que Luís Cília se serviu quando começou a trabalhar na trilogia "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours". E logo no primeiro volume, editado em 1967 com o selo Moshé-Naïm, saíram dois poemas de Saramago musicados e cantados por Luís Cília: "Dia Não" e "Contracanto". O primeiro viria a ser gravado também por Manuel Freire, em duas versões, ambas com música de Luís Cília: uma para o LP "Devolta" (1978), produzido por Luís Cília, e outra para o CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago" (1999), produzido por Carlos Alberto Moniz. São estes três registos do "Dia Não" que aqui apresentamos no dia em que se completaram dez anos sobre a morte do nosso primeiro (e único até agora) Nobel da Literatura.
Nesta efeméride do escritor que, depois de Camões e de Pessoa, mais prestigiou Portugal em todo o mundo, era justo e expectável que a direcção de programas da Antena 1, no mínimo, desse a ouvir ao longo do dia um punhado das canções feitas sobre poemas saramaguianos, cuja cifra total ultrapassa actualmente a trintena enumerada no artigo José Saramago na música portuguesa. Mas não. Nada aconteceu, o que nos dá toda a legitimidade para perguntar: andam a dormir na forma? Ou não querem trabalhar, deixando correr o tempo enquanto estão a olhar para o Mar da Palha ou a explorar o Facebook?



Dia Não



Poema: José Saramago (in "Os Poemas Possíveis", Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", Moshé-Naïm, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", EMEN, 1996)


De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas

Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco, seja rude
Como pedras calcinadas

Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
Nestas quadras desoladas!


* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris
URL: http://www.luiscilia.com/
https://www.youtube.com/user/LeoMOV/videos



Dia Não



Poema: José Saramago (in "Os Poemas Possíveis", Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25)
Música: Luís Cília
Intérprete: Manuel Freire* (in LP "Devolta", Diapasão/Lamiré, 1978)


De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas

Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco, seja rude
Como pedras calcinadas

Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
Nestas quadras desoladas!


* [Créditos gerais do disco:]
Manuel Freire – voz
Luís Cília – guitarra, coros
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Celso de Carvalho – viola baixo
Vasco Pimentel – sintetizador ARP Omni, piano
Arranjos e direcção musical – Luís Cília
Produção – Lamiré
Gravado nos Estúdios Musicorde, Lisboa
Técnicos de som – Rui Remígio e Luís Flor



Dia Não



Poema: José Saramago (in "Os Poemas Possíveis", Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25)
Música: Luís Cília
Intérprete: Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)




De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas

Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco, seja rude
Como pedras calcinadas

Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
Nestas quadras desoladas!


* Manuel Freire – voz
Aníbal Lima – violino
Nuno Silva – clarinete
Paulo Gaio Lima – violoncelo
João Paulo Esteves da Silva – piano
Bernardo Moreira – contrabaixo
Orquestração e direcção musical – Carlos Alberto Moniz
Assistência musical – Idália Moniz
Produção – Dito e Feito, Lda.
Gravado nos Estúdios Xangrilá, Lisboa, nos dias 8, 9 e 10 de Março de 1999, por Pedro Ferreira, e nos Estúdios Goya, nos dias 23, 24, 25 e 26 de Março de 1999, por Rosário Sena e José Manuel Fortes
Mistura e masterização – José Manuel Fortes
URL: https://www.facebook.com/ManuelFreireOficial/
https://www.youtube.com/channel/UC-z8xqfA49yS1tAXIBTvQig
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=manuel+freire



Capa da 1.ª edição do livro "Os Poemas Possíveis", de José Saramago (Col. Poetas de Hoje, Portugália Editora, 1966)



Capa do LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", de Luís Cília (Moshé-Naïm, 1967)
Fotografia – Ludwik Lewin
Concepção – Henri Matchavariani



Capa da antologia em CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", de Luís Cília (EMEN, 1996)



Capa do LP "Devolta", de Manuel Freire (Diapasão/Lamiré, 1978)
Fotografias e arranjo gráfico – Maria Judith Cília



Capa da 1.ª edição do CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago" (Editorial Caminho, 1999)
Design e ilustração – José Serrão

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Artigo relacionado:
José Saramago na música portuguesa

10 junho 2020

Camões recitado e cantado (VI)


Estátua de Luís de Camões, em bronze, sita na praça com o mesmo nome, em Lisboa. Concebida pelo escultor Victor Bastos, foi inaugurada pelo rei D. Luís, a 9 de Outubro de 1867.


Se alguém tomasse a iniciativa de fazer um inquérito de rua em Portugal, pedindo aos transeuntes que dissessem o primeiro verso que lhes viesse à cabeça, os dois mais citados seriam muito provavelmente os camonianos «As armas e os barões assinalados» e «Amor é (um) fogo que arde sem se ver». O soneto cujo incipit é este verso já foi apresentado neste blogue, recitado por João Villaret [cf. Camões recitado e cantado] e por Eunice Munõz [cf. Camões recitado e cantado (II)], mas a estância primeira d' "Os Lusíadas" ainda não. Surgiu hoje a oportunidade de colmatarmos essa lacuna e de celebrarmos as primeiras estrofes da Proposição do monumental poema épico, mediante a apresentação de três registos: o primeiro recitado (por Afonso Dias), o segundo cantado (por António Pinto Basto, com música de José Cid) e o terceiro também cantado (por José Mário Branco, com música dele próprio e uma melodia popular). No último, o saudoso cantautor não se restringe ao cultivo da poesia do genial vate, antes utiliza-a como o mais elevado referencial da literatura de língua portuguesa e o ponto de partida para denunciar a tresloucada 'reforma' ortográfica que em meados dos anos 80 se estava a cozinhar e que estipulava a abolição total dos acentos gráficos. Os mixordeiros e os politiqueiros da língua recuaram nesse ponto, em parte, mas não desistiram de aprovar a bo(u)rrada que é o AO90, cujos efeitos perniciosos são hoje bem notórios em Portugal, não só na escrita como na pronúncia de muitas palavras. «As palavras estão em crise», como bem assertivamente escreveu e cantou José Mário Branco, pelo que a inclusão da sua "Arrocachula" nesta celebração camoniana se afigura inteiramente pertinente.

Apesar do incómodo e do desconforto, andámos hoje com a Antena 1 'debaixo de ouvido'. Em primeiro lugar, registamos com agrado o surgimento – finalmente! – de um apontamento de poesia, chamado "Palavra de Ordem" [>> RTP-Play]: tivemos o ensejo de ouvir, em momentos diferentes, um poema de Eugénio de Andrade, dito por Beatriz Batarda, e outro de Alexandre O'Neill, na voz de Rui Morisson. E também nos foi grato notar a ausência, na 'playlist', do corriqueiro lixo sonoro anglo-saxão (mau grado subsistir ainda muita escória endógena), mas duvidamos que tal situação seja para durar. O que nos deixou assaz desgostosos foi não nos 'sair na rifa' um naco, por pequeno que fosse, da poesia de Camões, na forma cantada ou recitada. Como é possível tal desconsideração àquele que mais alto alevantou a Língua Portuguesa, no dia que o País escolheu para o celebrar, pela rádio do próprio Estado?



Os Lusíadas: Canto I (estrofes 1.ª e 2.ª)



Poema (excerto) de Luís de Camões (in "Os Lusíadas", Lisboa, 1572)
Recitado por Afonso Dias* (in CD "Cantando Espalharey: Vol. I", Edere, 2001)


As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.


* Afonso Dias – voz
Pesquisa e produção – Afonso Dias e André Dias
Gravado no Estúdio InforArte, Chinicato, Lagos
Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro



As Armas e os Barões Assinalados



Poema (excerto): Luís de Camões (estrofes 1.ª, 2.ª, 3.ª e 6.ª do Canto I d' "Os Lusíadas", Lisboa, 1572) [texto integral em "Jornal de Poesia"]
Música: José Cid
Intérprete: António Pinto Basto (in LP/CD "Camões, as Descobertas... e Nós", de José Cid* e Amigos, Mercury/Polygram, 1992)




As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
E em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade,
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
(Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande);

As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana...


* António Pinto Basto – voz
Músicos participantes:
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Francisco Martins – viola de 12 cordas solo baixo
Francisco Cardoso – bateria e percussões
José Cid – sintetizadores, cítara indiana e coros
João Veiga – viola acústica
José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa

Arranjos e produção – José Cid
Gravado e misturado em casa de José Cid, Mogofores, Anadia
Engenheiros de som – Vítor Moreira e Jorge Barata
Montagem digital – Jorge Hipólito



Arrocachula



Poema: Luís de Camões (1.ª estrofe d' "Os Lusíadas") e José Mário Branco
Música: José Mário Branco e Popular
Intérprete: José Mário Branco* (in LP "A Noite", de José Mário Branco*, UPAV, 1985, reed. Schiu!/Transmédia, 1987, EMI-VC, 1996, Warner Music Portugal, 2017)




As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.
[bis]

[instrumental]

O problema é que agora já conheçu
Todas as regrâs
Do novo jogu

E verdade verdadinhâ
Já não é fácil
Ser-se musicu

São as mesmíssimas palavrâs
Só os assentus
É que mudarão

O agudo é exdruxulu
E o exdruxulu
Agora é gra

Ai, as palavras estão em crise
E não é só pelo que elas querem dizer [bis]
Ai, as palavras têm raízes
Que começam no som que eles estão a perder [bis]

La larai laraio
La larai laraio
La larai laraio

[instrumental]

Arrocachula, arrocachula
Arrocachula na espinal-medula
[10x]

[instrumental]

O problema é que agora já conheçu
Todas as regrâs
Do novo jogu

E verdade verdadinhâ
Já não é fácil
Ser-se musicu

São as mesmíssimas palavrâs
Só os assentus
É que mudarão

O agudo é exdruxulu
E o exdruxulu
Agora é gra

Não faz sentido que as palavras
Percam música na música que aparecer [bis]
Ai, o sentido que é perdido
É o ouvido que as palavras estão a perder [bis]

La larai laraio
La larai laraio
La larai laraio

[instrumental / coro]


* Viola eléctrica – Rui Veloso
Viola "raspada" – José Mário Branco
Roland JX-8P – António Emiliano
Bateria – Henry Sousa
Baixo – Paulo Jorge
Trompete – Tomás Pimentel
Saxofone tenor – Rui Cardoso
Trombone – José Oliveira
Clarinete – Artur Moreira
Pífaro – José Pedro Calado
Violino "rabecado" – Luís Cunha
Viola acústica, viola braguesa e cavaquinhos – Júlio Pereira
Bombos e caixas – Rui Júnior e José Mário Branco
Ferrinhos – Rui Júnior
Coro – Formiga, Isabel Campelo, Madalena Leal, Graça e Necas Moreira, Rui Vaz e Gustavo Sequeira
Coro do refrão – Rui Veloso e José Mário Branco
Arranjo de metais – Tomás Pimentel e José Mário Branco

Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Produção artística – Manuela de Freitas, José Manuel Fortes, Trindade Santos e José Mário Branco
Produção executiva – Carlos Batista
Gravado no Angel Studio II, Lisboa, de 8 a 22 de Abril de 1985
Captação de som – José Manuel Fortes
Misturas – José Manuel Fortes e José Mário Branco
Transferência e remasterização para CD (edição de 1996) – José Manuel Fortes



Frontispício da 1.ª edição d' "Os Lusíadas", de Luís de Camões (Impressos em Lisboa: em casa de Antonio Gõçaluez Impressor, 1572)



Capa do CD "Cantando Espalharey: Vol. I", de Afonso Dias (Edere, 2001)
Concepção – Tiago Silva



Capa do CD "Camões, as Descobertas... e Nós", de José Cid e Amigos (Mercury/Polygram, 1992)
Design – Álvaro Reis
Ilustração – Miguel Levy



Capa do LP "A Noite", de José Mário Branco (UPAV, 1985)
Concepção – Artur Henriques
Fotografia – Luiz Carvalho

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01 junho 2020

Gina Branco: "Cantiga do Leite" (José Mário Branco)


© George Doyle / Getty Images


Natural e nutritivo, o leite materno é o alimento mais completo e indicado para o bebé nos primeiros seis meses de vida. Rico em água, proteínas, lípidos, glícidos, vitaminas, sais minerais e anticorpos, o leite materno está perfeitamente adaptado ao recém-nascido, fornecendo-lhe tudo o que necessita para um desenvolvimento equilibrado e saudável. Além da importantíssima componente nutritiva e imunológica, estão cientificamente provados relevantes benefícios da amamentação para o bebé, a saber: normal desenvolvimento da estrutura bucal e da função respiratória; prevenção de alergias, da intolerância ao glúten e da obesidade; diminuição do risco de morte súbita no primeiro ano de vida e prevenção de doenças várias inclusive do foro mental. E para a lactante também são múltiplos os benefícios e nada despiciendos: redução da hemorragia pós-parto, evitando a anemia; recuperação mais fácil do peso anterior à gravidez; diminuição do risco de problemas cardiovasculares e da diabetes tipo 2; redução da incidência do cancro da mama, do útero e dos ovários; prevenção da osteoporose. Tudo isto sem esquecer o fortalecimento do vínculo afectivo entre mãe e filho e o consequente aumento da auto-estima de ambos.
Vem este preâmbulo a propósito da "Cantiga do Leite", concebida por José Mário Branco, inicialmente para a peça de teatro "O Guardião do Rio", levada à cena em 1980 pela companhia Teatro do Mundo no Teatro Aberto, onde foi cantada pela actriz Fernanda Neves, e depois recuperada para a suite "A Noite" [>> YouTube] que preenche todo o lado B do LP homónimo gravado e editado em 1985, tendo o cantautor convidado a sua irmã, Gina Branco, para a interpretar, o que fez soberbamente. É pois pondo em destaque esta pérola que assinalamos o Dia da Criança que hoje se comemora em Portugal e na maioria dos países do mundo. Dedicamo-la a todas as crianças que, pelas razões mais diversas, não têm a sorte e o privilégio (que devia ser um direito) de serem amamentadas pela mãe.
Não podia a Antena 1 ter transmitido na presente data esta ternurenta "Cantiga do Leite", bem como outras excelentes canções para crianças ou alusivas à infância que se gravaram entre nós, com arranjos tão bons que até os adultos (sem a sensibilidade embotada) gostam de ouvi-las? Podia e devia, mas não aconteceu. A oferta musical resumiu-se ao mesmíssimo cardápio de intragáveis enxúndias dos outros dias. É triste assistir a tanta inércia e a tamanho desleixo na rádio do Estado!



Cantiga do Leite



Letra e música: José Mário Branco
Intérprete: Gina Branco (in LP "A Noite", de José Mário Branco*, UPAV, 1985, reed. Schiu!/Transmédia, 1987, EMI-VC, 1996, Warner Music Portugal, 2017)


[instrumental]

Mama, meu menino!
O leite é como um rio
Que nunca pára de correr;
O leite branco
É o remédio santo
Com que tu vais crescer.

Entre as duas margens,
Quentes e fecundas,
Mama, meu menino, sem parar!
Rio sem fundo,
Âncora do mundo,
Que corre devagar.

Mama o leite, meu passarinho!
Mata a sede sem temor!
Este rio é o teu caminho,
O cordão do meu amor.

[instrumental]

Mama, meu menino,
Mais um poucochinho,
Que eu paro o tempo só p'ra ti!
Seiva da vida
Com que fui enchida
Quando te concebi.

Um pequeno esforço:
Mete-te ao caminho!
Duas colinas mais além,
Asas de estrume
P'ra te dar o lume,
Oh meu supremo bem!

Mama o leite, meu passarinho!
Mata a sede sem temor!
Este rio é o teu caminho,
O cordão do meu amor.


* [Créditos da faixa "A Noite":]
Voz de "Cantiga do Leite" – Gina Branco
Violoncelo solo – Irene Lima
Clarinete – Artur Moreira
Oboé – António Serafim
Flauta – Ricardo Ramalho
Piano acústico e Roland HP-450 – António Emiliano
Trompete – Tomás Pimentel
Trombone – José Oliveira
Trompas – Adácio Pestana e Diamantino Rodrigues
Acordeão – Fernando Ribeiro
Tímbales – Carlos Salomé
Bombos – José Mário Branco
Violinos – Luís Cunha, António José Miranda, Curral Arteta, Leonor Moreira, António Veiga Lopes, Cecília Branco, Vasco Broco e Aníbal Lima
Violas – Alexandra Mendes, Isabel Pimentel, Jorge Lé e Teresa Beatriz
Violoncelos – Clélia Vital, Richard e Alberto Campos
Contrabaixo – Alejandro Erlich Oliva
Coro – Coro da Universidade Técnica de Lisboa, dirigido por Luís Pedro Faro e Isabel Biu
Soprano solista – Isabel Biu
Roland HP-450 e JX-8P em "Alvorada" – José Mário Branco

Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Produção artística – Manuela de Freitas, José Manuel Fortes, Trindade Santos e José Mário Branco
Produção executiva – Carlos Batista
Gravado no Angel Studio II, Lisboa, de 8 a 22 de Abril de 1985
Captação de som – José Manuel Fortes
Misturas – José Manuel Fortes e José Mário Branco
Transferência e remasterização para CD (edição de 1996) – José Manuel Fortes



Capa do LP "A Noite", de José Mário Branco (UPAV, 1985)
Concepção – Artur Henriques
Fotografia – Luiz Carvalho

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