20 junho 2020

Trovante: "Noite de Verão" (Manuel da Fonseca)


Eugen von Blaas, "Adrette Venezianerin am Balkon" ("Rapariga Veneziana à Varanda"), 1883, óleo sobre painel de madeira, 30 x 22,5 cm, Colecção particular


Em 2020, o solstício de Verão ocorreu às 21:44, hora UTC (Universal Time Coordinated = Tempo Universal Coordenado), que em Portugal Continental corresponde às 22:44. A circunstância de ser em plena noite, mas ainda em hora boa para se ir apanhar ar fresco, deu-nos a ideia de trazer, para assinalar o início da estação estival, o poema "Noite de Verão", de Manuel da Fonseca, que João Gil musicou para ser gravado pelo seu grupo Trovante e fazer parte integrante do álbum "Terra Firme", editado em Novembro de 1987.
Apesar de ser um dos grupos mais importantes da História da Música (Popular) Portuguesa, o Trovante é hoje em dia virtualmente impossível de se ouvir na Antena 1, a mesma que, volta e meia, dispara o 'jingle' "Antena 1: uma rádio com memória". Como explicar tal anormalidade?



Noite de Verão



Poema: Manuel da Fonseca (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: João Gil
Arranjo: Trovante
Intérprete: Trovante* (in LP "Terra Firme", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1989, EMI Music Portugal, 2013; CD "O Melhor dos Trovante", EMI Music Portugal, 2010; "Trovante: Grandes Êxitos", EMI Music Portugal, 2013)




[instrumental]

Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
...aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
— mas baixa os olhos se algum homem passa...

Sente-se nua
— mas baixa os olhos se algum homem passa...
Sente-se nua.

[instrumental]

Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
...aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
— mas baixa os olhos se algum homem passa...

Sente-se nua
— mas baixa os olhos se algum homem passa...
Sente-se nua.
Sente-se nua.
Sente-se nua.
Sente-se nua.

[instrumental]


* Trovante:
Artur Costa – saxofone
Fernando Júdice – baixo
João Gil – guitarras e coros
José Martins – sintetizador
José Salgueiro – bateria, percussão e coros
Luís Represas – voz
Manuel Faria – piano e sintetizador
Produção – Manuel Faria e Artur Costa
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Agosto, Setembro e Outubro de 1987
Engenheiro de som – Paulo Neves
Misturas – Paulo Neves, Manuel Faria e Artur Costa
URL: http://www.sinfonias.org/mais/musica-portuguesa-anos-80/directorio/955-trovante
http://www.macua.org/biografias/trovante.html
https://www.youtube.com/channel/UCbaWTKc3QdgF37Q933YIi4A
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=trovante



NOITE DE VERÃO

(Manuel da Fonseca, in "Planície", Coimbra: Novo Cancioneiro, 1941, reed. Lisboa: Althum/Museu do Neo-Realismo, 2010; "Poemas Completos", Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; "Poemas Completos", pref. Mário Dionísio, 2.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1963 – p. 109; "Poemas Completos", pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 120)


Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
...aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
— mas baixa os olhos se algum homem passa...



Capa da 1.ª edição do livro "Planície", de Manuel da Fonseca (Col. Novo Cancioneiro, N.º 6, Coimbra, 1941)
Ilustração – Manuel Ribeiro de Pavia



Capa do LP "Terra Firme", de Trovante (EMI-VC, 1987)
Concepção – Fátima Rolo Duarte
Fotografia – António Homem Cardoso

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Artigos relacionados:
Janita Salomé: "Reino de Verão"
Grupo Banza: "Verão"
Fernando Pardal: "Estio" (Manuel da Fonseca)

18 junho 2020

José Saramago: "Dia Não"



Publicado em 1966, "Os Poemas Possíveis", de José Saramago, foi um dos livros de que Luís Cília se serviu quando começou a trabalhar na trilogia "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours". E logo no primeiro volume, editado em 1967 com o selo Moshé-Naïm, saíram dois poemas de Saramago musicados e cantados por Luís Cília: "Dia Não" e "Contracanto". O primeiro viria a ser gravado também por Manuel Freire, em duas versões, ambas com música de Luís Cília: uma para o LP "Devolta" (1978), produzido por Luís Cília, e outra para o CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago" (1999), produzido por Carlos Alberto Moniz. São estes três registos do "Dia Não" que aqui apresentamos no dia em que se completaram dez anos sobre a morte do nosso primeiro (e único até agora) Nobel da Literatura.
Nesta efeméride do escritor que, depois de Camões e de Pessoa, mais prestigiou Portugal em todo o mundo, era justo e expectável que a direcção de programas da Antena 1, no mínimo, desse a ouvir ao longo do dia um punhado das canções feitas sobre poemas saramaguianos, cuja cifra total ultrapassa actualmente a trintena enumerada no artigo José Saramago na música portuguesa. Mas não. Nada aconteceu, o que nos dá toda a legitimidade para perguntar: andam a dormir na forma? Ou não querem trabalhar, deixando correr o tempo enquanto estão a olhar para o Mar da Palha ou a explorar o Facebook?



Dia Não



Poema: José Saramago (in "Os Poemas Possíveis", Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", Moshé-Naïm, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", EMEN, 1996)


De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas

Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco, seja rude
Como pedras calcinadas

Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
Nestas quadras desoladas!


* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris
URL: http://www.luiscilia.com/
https://www.youtube.com/user/LeoMOV/videos



Dia Não



Poema: José Saramago (in "Os Poemas Possíveis", Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25)
Música: Luís Cília
Intérprete: Manuel Freire* (in LP "Devolta", Diapasão/Lamiré, 1978)


De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas

Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco, seja rude
Como pedras calcinadas

Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
Nestas quadras desoladas!


* [Créditos gerais do disco:]
Manuel Freire – voz
Luís Cília – guitarra, coros
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Celso de Carvalho – viola baixo
Vasco Pimentel – sintetizador ARP Omni, piano
Arranjos e direcção musical – Luís Cília
Produção – Lamiré
Gravado nos Estúdios Musicorde, Lisboa
Técnicos de som – Rui Remígio e Luís Flor



Dia Não



Poema: José Saramago (in "Os Poemas Possíveis", Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25)
Música: Luís Cília
Intérprete: Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)




De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas

Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco, seja rude
Como pedras calcinadas

Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
Nestas quadras desoladas!


* Manuel Freire – voz
Aníbal Lima – violino
Nuno Silva – clarinete
Paulo Gaio Lima – violoncelo
João Paulo Esteves da Silva – piano
Bernardo Moreira – contrabaixo
Orquestração e direcção musical – Carlos Alberto Moniz
Assistência musical – Idália Moniz
Produção – Dito e Feito, Lda.
Gravado nos Estúdios Xangrilá, Lisboa, nos dias 8, 9 e 10 de Março de 1999, por Pedro Ferreira, e nos Estúdios Goya, nos dias 23, 24, 25 e 26 de Março de 1999, por Rosário Sena e José Manuel Fortes
Mistura e masterização – José Manuel Fortes
URL: https://www.facebook.com/ManuelFreireOficial/
https://www.youtube.com/channel/UC-z8xqfA49yS1tAXIBTvQig
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=manuel+freire



Capa da 1.ª edição do livro "Os Poemas Possíveis", de José Saramago (Col. Poetas de Hoje, Portugália Editora, 1966)



Capa do LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", de Luís Cília (Moshé-Naïm, 1967)
Fotografia – Ludwik Lewin
Concepção – Henri Matchavariani



Capa da antologia em CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", de Luís Cília (EMEN, 1996)



Capa do LP "Devolta", de Manuel Freire (Diapasão/Lamiré, 1978)
Fotografias e arranjo gráfico – Maria Judith Cília



Capa da 1.ª edição do CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago" (Editorial Caminho, 1999)
Design e ilustração – José Serrão

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Artigo relacionado:
José Saramago na música portuguesa

10 junho 2020

Camões recitado e cantado (VI)


Estátua de Luís de Camões, em bronze, sita na praça com o mesmo nome, em Lisboa. Concebida pelo escultor Victor Bastos, foi inaugurada pelo rei D. Luís, a 9 de Outubro de 1867.


Se alguém tomasse a iniciativa de fazer um inquérito de rua em Portugal, pedindo aos transeuntes que dissessem o primeiro verso que lhes viesse à cabeça, os dois mais citados seriam muito provavelmente os camonianos «As armas e os barões assinalados» e «Amor é (um) fogo que arde sem se ver». O soneto cujo incipit é este verso já foi apresentado neste blogue, recitado por João Villaret [cf. Camões recitado e cantado] e por Eunice Munõz [cf. Camões recitado e cantado (II)], mas a estância primeira d' "Os Lusíadas" ainda não. Surgiu hoje a oportunidade de colmatarmos essa lacuna e de celebrarmos as primeiras estrofes da Proposição do monumental poema épico, mediante a apresentação de três registos: o primeiro recitado (por Afonso Dias), o segundo cantado (por António Pinto Basto, com música de José Cid) e o terceiro também cantado (por José Mário Branco, com música dele próprio e uma melodia popular). No último, o saudoso cantautor não se restringe ao cultivo da poesia do genial vate, antes utiliza-a como o mais elevado referencial da literatura de língua portuguesa e o ponto de partida para denunciar a tresloucada 'reforma' ortográfica que em meados dos anos 80 se estava a cozinhar e que estipulava a abolição total dos acentos gráficos. Os mixordeiros e os politiqueiros da língua recuaram nesse ponto, em parte, mas não desistiram de aprovar a bo(u)rrada que é o AO90, cujos efeitos perniciosos são hoje bem notórios em Portugal, não só na escrita como na pronúncia de muitas palavras. «As palavras estão em crise», como bem assertivamente escreveu e cantou José Mário Branco, pelo que a inclusão da sua "Arrocachula" nesta celebração camoniana se afigura inteiramente pertinente.

Apesar do incómodo e do desconforto, andámos hoje com a Antena 1 'debaixo de ouvido'. Em primeiro lugar, registamos com agrado o surgimento – finalmente! – de um apontamento de poesia, chamado "Palavra de Ordem" [>> RTP-Play]: tivemos o ensejo de ouvir, em momentos diferentes, um poema de Eugénio de Andrade, dito por Beatriz Batarda, e outro de Alexandre O'Neill, na voz de Rui Morisson. E também nos foi grato notar a ausência, na 'playlist', do corriqueiro lixo sonoro anglo-saxão (mau grado subsistir ainda muita escória endógena), mas duvidamos que tal situação seja para durar. O que nos deixou assaz desgostosos foi não nos 'sair na rifa' um naco, por pequeno que fosse, da poesia de Camões, na forma cantada ou recitada. Como é possível tal desconsideração àquele que mais alto alevantou a Língua Portuguesa, no dia que o País escolheu para o celebrar, pela rádio do próprio Estado?



Os Lusíadas: Canto I (estrofes 1.ª e 2.ª)



Poema (excerto) de Luís de Camões (in "Os Lusíadas", Lisboa, 1572)
Recitado por Afonso Dias* (in CD "Cantando Espalharey: Vol. I", Edere, 2001)


As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.


* Afonso Dias – voz
Pesquisa e produção – Afonso Dias e André Dias
Gravado no Estúdio InforArte, Chinicato, Lagos
Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro



As Armas e os Barões Assinalados



Poema (excerto): Luís de Camões (estrofes 1.ª, 2.ª, 3.ª e 6.ª do Canto I d' "Os Lusíadas", Lisboa, 1572) [texto integral em "Jornal de Poesia"]
Música: José Cid
Intérprete: António Pinto Basto (in LP/CD "Camões, as Descobertas... e Nós", de José Cid* e Amigos, Mercury/Polygram, 1992)




As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
E em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade,
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
(Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande);

As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana...


* António Pinto Basto – voz
Músicos participantes:
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Francisco Martins – viola de 12 cordas solo baixo
Francisco Cardoso – bateria e percussões
José Cid – sintetizadores, cítara indiana e coros
João Veiga – viola acústica
José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa

Arranjos e produção – José Cid
Gravado e misturado em casa de José Cid, Mogofores, Anadia
Engenheiros de som – Vítor Moreira e Jorge Barata
Montagem digital – Jorge Hipólito



Arrocachula



Poema: Luís de Camões (1.ª estrofe d' "Os Lusíadas") e José Mário Branco
Música: José Mário Branco e Popular
Intérprete: José Mário Branco* (in LP "A Noite", de José Mário Branco*, UPAV, 1985, reed. Schiu!/Transmédia, 1987, EMI-VC, 1996, Warner Music Portugal, 2017)




As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.
[bis]

[instrumental]

O problema é que agora já conheçu
Todas as regrâs
Do novo jogu

E verdade verdadinhâ
Já não é fácil
Ser-se musicu

São as mesmíssimas palavrâs
Só os assentus
É que mudarão

O agudo é exdruxulu
E o exdruxulu
Agora é gra

Ai, as palavras estão em crise
E não é só pelo que elas querem dizer [bis]
Ai, as palavras têm raízes
Que começam no som que eles estão a perder [bis]

La larai laraio
La larai laraio
La larai laraio

[instrumental]

Arrocachula, arrocachula
Arrocachula na espinal-medula
[10x]

[instrumental]

O problema é que agora já conheçu
Todas as regrâs
Do novo jogu

E verdade verdadinhâ
Já não é fácil
Ser-se musicu

São as mesmíssimas palavrâs
Só os assentus
É que mudarão

O agudo é exdruxulu
E o exdruxulu
Agora é gra

Não faz sentido que as palavras
Percam música na música que aparecer [bis]
Ai, o sentido que é perdido
É o ouvido que as palavras estão a perder [bis]

La larai laraio
La larai laraio
La larai laraio

[instrumental / coro]


* Viola eléctrica – Rui Veloso
Viola "raspada" – José Mário Branco
Roland JX-8P – António Emiliano
Bateria – Henry Sousa
Baixo – Paulo Jorge
Trompete – Tomás Pimentel
Saxofone tenor – Rui Cardoso
Trombone – José Oliveira
Clarinete – Artur Moreira
Pífaro – José Pedro Calado
Violino "rabecado" – Luís Cunha
Viola acústica, viola braguesa e cavaquinhos – Júlio Pereira
Bombos e caixas – Rui Júnior e José Mário Branco
Ferrinhos – Rui Júnior
Coro – Formiga, Isabel Campelo, Madalena Leal, Graça e Necas Moreira, Rui Vaz e Gustavo Sequeira
Coro do refrão – Rui Veloso e José Mário Branco
Arranjo de metais – Tomás Pimentel e José Mário Branco

Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Produção artística – Manuela de Freitas, José Manuel Fortes, Trindade Santos e José Mário Branco
Produção executiva – Carlos Batista
Gravado no Angel Studio II, Lisboa, de 8 a 22 de Abril de 1985
Captação de som – José Manuel Fortes
Misturas – José Manuel Fortes e José Mário Branco
Transferência e remasterização para CD (edição de 1996) – José Manuel Fortes



Frontispício da 1.ª edição d' "Os Lusíadas", de Luís de Camões (Impressos em Lisboa: em casa de Antonio Gõçaluez Impressor, 1572)



Capa do CD "Cantando Espalharey: Vol. I", de Afonso Dias (Edere, 2001)
Concepção – Tiago Silva



Capa do CD "Camões, as Descobertas... e Nós", de José Cid e Amigos (Mercury/Polygram, 1992)
Design – Álvaro Reis
Ilustração – Miguel Levy



Capa do LP "A Noite", de José Mário Branco (UPAV, 1985)
Concepção – Artur Henriques
Fotografia – Luiz Carvalho

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Outros artigos com poesia de Luís de Camões:
Camões recitado e cantado
Camões recitado e cantado (II)
Em memória de Manoel de Oliveira (1908-2015)
Camões recitado e cantado (III)
Camões recitado e cantado (IV)
Camões recitado e cantado (V)

01 junho 2020

Gina Branco: "Cantiga do Leite" (José Mário Branco)


© George Doyle / Getty Images


Natural e nutritivo, o leite materno é o alimento mais completo e indicado para o bebé nos primeiros seis meses de vida. Rico em água, proteínas, lípidos, glícidos, vitaminas, sais minerais e anticorpos, o leite materno está perfeitamente adaptado ao recém-nascido, fornecendo-lhe tudo o que necessita para um desenvolvimento equilibrado e saudável. Além da importantíssima componente nutritiva e imunológica, estão cientificamente provados relevantes benefícios da amamentação para o bebé, a saber: normal desenvolvimento da estrutura bucal e da função respiratória; prevenção de alergias, da intolerância ao glúten e da obesidade; diminuição do risco de morte súbita no primeiro ano de vida e prevenção de doenças várias inclusive do foro mental. E para a lactante também são múltiplos os benefícios e nada despiciendos: redução da hemorragia pós-parto, evitando a anemia; recuperação mais fácil do peso anterior à gravidez; diminuição do risco de problemas cardiovasculares e da diabetes tipo 2; redução da incidência do cancro da mama, do útero e dos ovários; prevenção da osteoporose. Tudo isto sem esquecer o fortalecimento do vínculo afectivo entre mãe e filho e o consequente aumento da auto-estima de ambos.
Vem este preâmbulo a propósito da "Cantiga do Leite", concebida por José Mário Branco, inicialmente para a peça de teatro "O Guardião do Rio", levada à cena em 1980 pela companhia Teatro do Mundo no Teatro Aberto, onde foi cantada pela actriz Fernanda Neves, e depois recuperada para a suite "A Noite" [>> YouTube] que preenche todo o lado B do LP homónimo gravado e editado em 1985, tendo o cantautor convidado a sua irmã, Gina Branco, para a interpretar, o que fez soberbamente. É pois pondo em destaque esta pérola que assinalamos o Dia da Criança que hoje se comemora em Portugal e na maioria dos países do mundo. Dedicamo-la a todas as crianças que, pelas razões mais diversas, não têm a sorte e o privilégio (que devia ser um direito) de serem amamentadas pela mãe.
Não podia a Antena 1 ter transmitido na presente data esta ternurenta "Cantiga do Leite", bem como outras excelentes canções para crianças ou alusivas à infância que se gravaram entre nós, com arranjos tão bons que até os adultos (sem a sensibilidade embotada) gostam de ouvi-las? Podia e devia, mas não aconteceu. A oferta musical resumiu-se ao mesmíssimo cardápio de intragáveis enxúndias dos outros dias. É triste assistir a tanta inércia e a tamanho desleixo na rádio do Estado!



Cantiga do Leite



Letra e música: José Mário Branco
Intérprete: Gina Branco (in LP "A Noite", de José Mário Branco*, UPAV, 1985, reed. Schiu!/Transmédia, 1987, EMI-VC, 1996, Warner Music Portugal, 2017)


[instrumental]

Mama, meu menino!
O leite é como um rio
Que nunca pára de correr;
O leite branco
É o remédio santo
Com que tu vais crescer.

Entre as duas margens,
Quentes e fecundas,
Mama, meu menino, sem parar!
Rio sem fundo,
Âncora do mundo,
Que corre devagar.

Mama o leite, meu passarinho!
Mata a sede sem temor!
Este rio é o teu caminho,
O cordão do meu amor.

[instrumental]

Mama, meu menino,
Mais um poucochinho,
Que eu paro o tempo só p'ra ti!
Seiva da vida
Com que fui enchida
Quando te concebi.

Um pequeno esforço:
Mete-te ao caminho!
Duas colinas mais além,
Asas de estrume
P'ra te dar o lume,
Oh meu supremo bem!

Mama o leite, meu passarinho!
Mata a sede sem temor!
Este rio é o teu caminho,
O cordão do meu amor.


* [Créditos da faixa "A Noite":]
Voz de "Cantiga do Leite" – Gina Branco
Violoncelo solo – Irene Lima
Clarinete – Artur Moreira
Oboé – António Serafim
Flauta – Ricardo Ramalho
Piano acústico e Roland HP-450 – António Emiliano
Trompete – Tomás Pimentel
Trombone – José Oliveira
Trompas – Adácio Pestana e Diamantino Rodrigues
Acordeão – Fernando Ribeiro
Tímbales – Carlos Salomé
Bombos – José Mário Branco
Violinos – Luís Cunha, António José Miranda, Curral Arteta, Leonor Moreira, António Veiga Lopes, Cecília Branco, Vasco Broco e Aníbal Lima
Violas – Alexandra Mendes, Isabel Pimentel, Jorge Lé e Teresa Beatriz
Violoncelos – Clélia Vital, Richard e Alberto Campos
Contrabaixo – Alejandro Erlich Oliva
Coro – Coro da Universidade Técnica de Lisboa, dirigido por Luís Pedro Faro e Isabel Biu
Soprano solista – Isabel Biu
Roland HP-450 e JX-8P em "Alvorada" – José Mário Branco

Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Produção artística – Manuela de Freitas, José Manuel Fortes, Trindade Santos e José Mário Branco
Produção executiva – Carlos Batista
Gravado no Angel Studio II, Lisboa, de 8 a 22 de Abril de 1985
Captação de som – José Manuel Fortes
Misturas – José Manuel Fortes e José Mário Branco
Transferência e remasterização para CD (edição de 1996) – José Manuel Fortes



Capa do LP "A Noite", de José Mário Branco (UPAV, 1985)
Concepção – Artur Henriques
Fotografia – Luiz Carvalho

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