11 junho 2026

Vitorino: "Flor do Jacarandá"


© Graham's Island (in https://grahamsisland.com/)


O Acaso ditou que o nascituro a que seria dado o nome de Vitorino Salomé Vieira viesse ao mundo na época do ano em que os jacarandás estão esplendorosamente floridos. Mais intencional e menos obra do Acaso terá sido, decerto, a concepção pelo distinto cantautor, na década de 1980, então já entrado na casa dos quarenta, da canção (belíssima!) que devotou à flor daquela árvore oriunda do Brasil e que enche de encanto e beleza, nos meses de Maio e Junho, jardins, ruas, avenidas e praças de Lisboa, cidade onde Vitorino estudou Belas-Artes e que, anos mais tarde, lhe serviu de motivo de inspiração para a génese de numerosas canções de primeiríssima água. A sua "Flor do Jacarandá" desabrochou no álbum "Negro Fado" (1988) e o facto de ter sido colocada em duas antologias de referência – "As Mais Bonitas" (EMI-VC, 1993) e "Tudo" (EMI Music Portugal, 2005) – indicia a altíssima conta em que Vitorino a tinha/tem (a escolha do repertório incluso nas referidas compilações foi feita por David Ferreira, mas não é de crer que não tenha recebido o aval do artista). E uma vez que o escrevente destas linhas comunga de tal apreciação, afigurou-se-lhe pertinente e oportuno dar destaque àquela feérica "Flor do Jacarandá" na presente data em que o seu criador festeja 85 primaveras. Parabéns, Vitorino! E muitíssimo obrigado por esta e por tantas mais flores de música com que embelezou e enriqueceu o património cultural português!

Ocupando Vitorino um lugar de primeiro plano na História da Música Popular Portuguesa, a presença de algumas das canções que constituem o seu vasto e valioso repertório na 'playlist' da Antena 1 não seria mais que um elementaríssimo acto de justiça ao eminente artista e, bem assim, uma boa maneira de promover e cultivar, junto do auditório, a produção musical autóctone mais qualificada e perene. Absurda e lamentavelmente, não é isso o que acontece e para confirmá-lo nem é preciso estar-se muito tempo sintonizado no canal generalista da rádio do Estado, pois basta uma hora, nem tanto, para se ficar com uma ideia cabal dos subprodutos sucessivos que são oferecidos aos ouvintes mais pacientes e tolerantes à mediocridade. Éramos capazes de apostar que o categorizado cantautor não está, pura e simplesmente, representado na 'playlist' da rádio que tem o dever – ético e moral – de divulgar, com a necessária consistência, a melhor música (de língua) portuguesa, em razão do financiamento ser público!


Nota suplementar:
A escuta da canção de Vitorino Salomé poderá suscitar em alguns visitantes desta página o desejo de saberem mais sobre a árvore jacarandá. Para começar, recomendamos vivamente a leitura do texto monográfico escrito por António Bagão Félix para o seu livro "Quarenta Árvores em discurso directo" (Porto Editora, 2025) e que transcrevemos ao fundo, com a devida vénia ao autor.



Flor do Jacarandá



Letra e música: Vitorino Salomé
Arranjo: José Manuel Marreiros
Intérprete: Vitorino* (in LP/CD "Negro Fado", EMI-VC, 1988; CD "As Mais Bonitas", EMI-VC, 1993, Capitol/EMI Music Portugal, 2012, Parlophone/Warner Music Portugal, 2018; 3CD "Tudo": CD 2 – "Lisboa", EMI Music Portugal, 2005)




Flor do jacarandá
Cai leve no passeio
Céu d'outro mar sonhado
Chão de anilado Estio
A florir, lá no mês de Junho
Tapete de voar
Nas luas de Zéfiro
Estrada de Santiago
Manda a... chuva
De estrelinha azul-pavão
Brilha na noite
Vou de namorada mão na mão
Perdi a escada
Para o céu dos pardalinhos
Na ilusão da boa fada
Toco na varinha de condão
Durmo na rua onde a...

Flor do jacarandá
Cai leve no passeio
Céu d'outro mar sonhado
Chão de anilado Estio
A florir, lá no mês de Junho
Tapete de voar
Nas luas de Zéfiro
Estrada de Santiago
Manda a... chuva
De estrelinha azul-pavão
Brilha na noite
Vou de namorada mão na mão
Perdi a escada
Para o céu dos pardalinhos
Na ilusão da boa fada
Toco na varinha de condão
Durmo na rua onde a...

Flor do jacarandá...

[instrumental]


* Vitorino – voz
José Manuel Marreiros – piano e teclas
José Neves – guitarra eléctrica
Yuri Ferreira – baixo
Rui Alves – bateria e percussões

Produção – Vitorino, António Emiliano e José Manuel Marreiros

Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Engenheiros de som – Paulo Neves, Amândio Bastos e Pedro Vasconcelos
Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2008
URL: https://www.vitorinosalome.pt/
https://www.meloteca.com/portfolio-item/vitorino/
https://www.facebook.com/VitorinoSalome.officialpage
https://www.youtube.com/channel/UCuRPFnby4OlKEz5kzN655bA
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=vitorino



Capa do LP "Negro Fado", de Vitorino (EMI-VC, 1988)
Fotografia – António Homem Cardoso
Concepção e arranjo grafico – Fátima Rolo Duarte



Capa da compilação em CD "As Mais Bonitas", de Vitorino (EMI-VC, 1993)
Fotografia – José Melo
Design gráfico – Fátima Rolo Duarte



Capa da compilação em triplo CD "Tudo", de Vitorino (EMI Music Portugal, 2005)
Direcção artística – João Vieira
Design – Hildebrando Soares



JACARANDÁ

Por: António Bagão Félix



Cheguei a Portugal há para aí uns cento e cinquenta anos. Vim do Brasil, onde passei a minha infância perto da família que se estende até às florestas húmidas da Argentina, da Bolívia e do Peru. Quando fiz a longa travessia achei, talvez precipitadamente, que não me iria dar bem com os ares de Lisboa. Não porque a cidade não me interessasse. Pelo contrário, tinha a informação de parentes de lá que me diziam que a terra era mansa, o sol magnânimo e as gentes respeitosas. Mas o meu receio estava mais ligado ao facto de saber que, nesta ponta da Europa, se falava meticulosamente em duas de quatro estações anuais: uma penosamente fria e chuvosa, a que chamavam Inverno, e outra, triste e apagada, a que chamavam Outono. A minha preocupação avolumou-se pela tenra idade com que me trouxeram do continente sul-americano. Nessa altura, olhava-me e comparava o meu porte com o dos meus progenitores: eles, com o seu ritidoma castanho-escuro, retorcido e rugoso, a não disfarçar a idade adulta que não lhes anunciava o fim mas a força e resistência que o tempo lhes havia dado; e eu, habituado ao calor tropical em que nascera e ainda de casca luminosamente clara e lisa, receando o frio das tais estações lusas.
Depois deste introdutório quase me esquecia de me identificar. Sou uma árvore que pertence a um género conhecido por Jacaranda, assim baptizado em homenagem aos índios tupi-guarani.
Fui registado na «Conservatória do Registo Vegetal» por um dos seus pioneiros, Antoine Laurent de Jussieu (1748-1836) que, segundo as regras da taxonomia botânica, passou a acompanhar o meu género sempre com a sua abreviatura: Jacaranda, Juss.
Pertenço à família das Bignoniáceas (nome dado por Lineu em homenagem ao clérigo e bibliotecário de Luís XIV, Jean-Paul Bignon) com mais de cem géneros concentrados em zonas de clima tropical ou subtropical (uma das mais frequentes em Portugal é a Catalpa bignonioides, que, neste livro, também dá o seu testemunho).
No meu género, tenho cerca de cinquenta parentes próximos, o que, na penúria demográfica em que vivemos, se pode considerar uma prole numerosa. Para me distinguirem de entre todos, acrescentaram-me um nome: mimosifolia, que quer dizer de folhas parecidas com uma leguminosa que viria, aliás, a encontrar em Portugal, a Acacia mimosa. Devo este «apelido» a um botanista escocês, David Don (1799-1841). Também me reconheço por Jacaranda ovalifolia, por ter folhas tendencialmente ovais e sou muitas vezes confundido com o Jacaranda acutifolia, que quer dizer de folhas pontiagudas.
Faço parte do grupo de árvores (poucas) em que o nome científico de baptizado permaneceu como nome vernáculo. Estará aqui uma das razões por que sou uma árvore de que muita gente sabe o nome, mesmo fora dos círculos mais restritos dos botânicos. A isso, por certo, também não será alheia a musicalidade aberta das sílabas herdadas dos índios tupi. Pergunto-me se será por essa razão que sou também uma excepção na diversidade linguística dos nomes comuns das árvores, pois que nos mais correntes idiomas sou sempre o Jacarandá (embora em Espanha e Itália também seja reconhecido esporadicamente por Palisandro por causa da madeira).
Ainda a propósito do meu nome, sou o Jacarandá. Não a Jacarandá. Tratam-me pelo masculino, vá lá saber-se porquê... É claro que se fosse por simpatia à grande família das árvores, seria do género feminino. A complicar ainda mais a resposta, está a expressão da Natureza que me pôs a conceber flores hermafroditas. Nos tempos que correm, sei que há uma acesa discussão a propósito de um tal portuguesíssimo TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário) com que querem pôr as crianças a fixar as regras gramaticais. Não opino sobre tal, mas ao menos deixem-me dizer que com as novas regras me atrevo a forçar a solução definitiva para o problema do meu género gramatical: entre os agora chamados pomposamente nomes epicenos, sobrecomuns e comuns de dois, é o género epiceno que escolho. É que a nova cartilha diz que se classificam como tal os nomes que dispõem de um único valor de género, qualquer que seja o sexo da entidade referida. Assunto arrumado!
Reconheço que sou vaidoso quanto baste. Quero dizer, gosto de me engalanar com exuberância, mas não sou emproado. Em Portugal tenho um calendário muito pessoal. Não sigo a regra geral de me desnudar no Inverno. Sou caducifólio (ou quase) como a maioria das árvores companheiras de parques e ruas mas, ao contrário destas, não perco as folhas a partir do Outono, mas mais lá para a frente. Aliás, não me dispo completamente, por uma questão de pudor e pelo costume que adquiri na terra natal. As minhas folhas são, em parte, marcescentes, o que significa que não se soltam dos ramos quando estiolam e secam, mas quando surge a nova rebentação.
Gosto de me olhar nos olhos de quem me vê quando exibo exuberantemente os cachos de flores. Acontece lá para Maio e Junho, ainda sem folhas, quando o azul violáceo das panículas terminais trombetadas surge em todo o seu esplendor por cima do castanho dos ramos desengonçados que lhes dão maternidade e amamentação. As minhas perfumadas e viscosas flores duram muito tempo antes de cair, formando tapetes à volta do perímetro da copa, sempre irregular. Há, porém, quem, menos sensível à minha prodigalidade e beleza, fique zangado comigo por achar que sujo e danifico os passeios e automóveis!
Sei que é pelas flores que mais me conhecem e estimam. Por isso me aprimoro na forma, no cheiro e na cor. Ouço pessoas, que por mim passam, dizer sobre as suas vidas, às vezes com azedume, que mais vale só que mal acompanhado. Pois cá estou eu para provar que comigo é o inverso: mais vale acompanhado do que apartado. Olhem, em Lisboa, para a Avenida 5 de Outubro, para a Rua Castilho ou para a Avenida Dom Carlos I, em fileira, ou para o Parque Eduardo VII, em conjunto, e percebem claramente o que quero dizer. O resultado é maior do que a soma das parcelas e varia em função da luz de cada dia. Nos dias mais sombrios surjo com uma cor mais intimista numa junção, às vezes algo atormentada, com o tom mais ou menos plúmbeo do céu. Nos dias de sol luzidio e mediterrânico de uma Lisboa meio arabizada deixo-me observar em tons de pigmentos mais azuis do que magenta. É o triplo holismo da passagem de uma das minhas singelas flores para o conjunto de uma inflorescência, de todas estas inflorescências para a árvore e de cada uma destas para o conjunto de árvores, que me faz ser feliz e sorrir dedicadamente entre a Primavera e o Verão.
A propósito da cor das minhas corolas bilabiadas, permitam-me uma confidência. Gosto de perceber que à sua volta há sempre dúvidas, hesitações, até querelas cromáticas. Por um lado, porque me sinto importante perante outras árvores amigas que, coitadas, não suscitam tal tipo de abordagem e, por outro, porque me delicio a ver como as pessoas têm dificuldade em distinguir as cores que, em mim, oscilam entre o azul e o vermelho. Por isso, por ligeireza, confusão ou desconhecimento, me vestem de roxo, lilás, violeta, púrpura, magenta e até índigo! Confesso que até eu às vezes me baralho! Um daltonismo muito meu... convenhamos!
Mas se é por causa das flores que sou mais reconhecido, as minhas folhas também me têm dado uma grande razão para viver com muita alegria. São de um verde vivo e vibrante, grandes, opostas, recompostas e imparipinuladas. Podem atingir quase 50 centímetros de comprimento, com múltiplos pares de folíolos ovado-acuminados, que fazem lembrar a frescura e delicadeza de certos fetos. Por isso é que na Grã-Bretanha – onde pouco habito por causa do frio – me conhecem também por fern tree (árvore dos fetos).
Embora originária da América do Sul, sou hoje uma árvore disseminada em regiões que me oferecem atenção e amenidade. De Portugal à Nova Zelândia e Austrália, do México ao Zimbabué, da Califórnia a Israel, encho de cor e fantasia ruas, alamedas, jardins e parques. Na África do Sul obtive mesmo o título honorífico de árvore nacional. A sua capital, Pretória, é a minha cidade preferida porque me seduz, acolhendo-me aos milhares pelas suas artérias, parques e jardins. O tempo de floração coincide, nesta cidade, com o período universitário de exames, dando origem a uma curiosa tradição: sempre que uma flor cai em cima da cabeça de um estudante, certo é que passará nos seus exames. Infelizmente, nem sempre se concretiza esta lenda, mas a culpa, por certo, não é minha. Não posso fazer tudo...
Os meus frutos – verdes de início – amadurecem e secam em tons de castanho. São, botanicamente falando, cápsulas de 5 a 8 centímetros, com uma forma imperfeitamente oval e uma textura algo carnosa e lenhosa, ainda que achatada. No Outono, porque deiscentes, abrem-se como um bivalve e deixam cair em suaves e alegres movimentos as minúsculas e numerosas sementes de cor de café com asas membranosas.
De Castela dizem-me que os meus frutos fazem lembrar as castanholas e o seu salero. Em Portugal ligam-me a conchas, não fosse um país de mar pela terra dentro. Em França associam-me a ostras, numa antecipação da sofisticada «nouvelle cuisine». E, aliás, por esta última parecença que também alguns gauleses me tratam por arbre à huîtres.
Não sou exigente em excesso. Certo que me horrorizam as frias geadas matinais, sobretudo na infância. A minha inflorescência na puberdade é precoce: com pouco mais de 1 metro de altura (eu que antes da reforma por velhice posso atingir os 15 metros), dou à luz as minhas primeiras flores perfumadas. Não sou ansioso por podas regulares e até me dou bem sem essa cirurgia dos excessos. Tenho uma raiz direita e vertical sem divagações adventícias, pelo que sou cuidadoso com os passeios e alamedas que me acolhem na cidade. Resisto estoicamente à poluição urbana. Tenho uma esperança de vida que me faz conviver com sete ou oito gerações das pessoas que me dão atenção. Só peço para não me aproximarem muito da costa marítima por causa da salinidade, nem me submeterem à tortura da seca prolongada.
O meu testamento madeireiro não é pródigo como o rosado pau-santo da aparentada Dalbergia nigra (do outro lado do Atlântico, curiosa e igualmente tratada como um jacarandá). Sei disso, mas salvaguardadas as devidas distâncias, a minha madeira também é apreciada. Resistente, algo dura, fácil de moldar e aromática (e também rosada) serve para bons móveis, entalhes, interiores de automóveis de luxo e até para certos soalhos. Os frutos e sementes são utilizados em peças de artesanato e a seiva da casca parece aliviar as detestáveis dores de dentes.
Já vou longo nesta apresentação. Agora venham olhar-me, que eu espero. Sou paciente e contemplativo. E grato a quem sempre me acolhe com generosidade, mesmo que fora do tempo em que o tempo me seduz. Ainda não há nenhum jacarandá em Portugal que tenha merecido a honra de ser classificado oficialmente como árvore de interesse público. Tenho pena, mas não perdi a esperança. Não esqueço Eugénio de Andrade e a sua evocação da minha viagem entre o exotismo brasileiro e o acolhimento atlântico, ao ter escrito que «nesta Lisboa, onde mansos e lisos os dias passam a ver as gaivotas, e a cor dos jacarandás floridos se mistura à do Tejo, em flor também». E evoco, com dedicação, António Barreto que, no seu blogue com o meu nome (obrigado pela sua incansável protecção!), me aproximou da eternidade: «A floração anual dos jacarandás anuncia, com alegria, o eterno recomeço.»

(in "Quarenta Árvores em discurso directo", Lisboa: Porto Editora, 2025 – p. 163-168)





Jacarandás em Lisboa: Avenida 5 de Outubro
© The Wanderers Tribe (https://thewandererstribe.com/)







Jacarandás em Lisboa: Praça D. Pedro IV (Rossio)
© The Wanderers Tribe (https://thewandererstribe.com/)





Jacarandás em Lisboa: Avenida Dom Carlos I
© The Wanderers Tribe (https://thewandererstribe.com/)



Jacarandás em Lisboa: Jardim Sá da Bandeira (Praça Dom Luís I)
© The Wanderers Tribe (https://thewandererstribe.com/)



Jacaranda mimosifolia, aguarela, 21 x 29,7 cm
© Javier Lage, 2020 (https://www.instagram.com/)



Capa do livro "Quarenta Árvores em discurso directo", de António Bagão Félix (Lisboa: Porto Editora, Fev. 2025)
Fotografia – António Bagão Félix.

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